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NATAL / 2011
O NATAL DE JESUS
RENASCE CADA ANO
COM UMA NOVA EMOÇÃO
CAPAZ DE CONSTRUIR O AMOR

«Por aqueles dias, saiu um decreto da parte de César Augusto, para que toda a terra [Império Romano] fosse recenseada. Este primeiro recenseamento foi feito quando Quirino era governador da Síria. E todos iam recensear-se, cada qual à sua própria cidade. Também José deixando a cidade de Nazaré na Galileia, subiu até à Judeia, à cidade de David, chamada Belém, porque era da casa e linhagem de David, a fim de recensear-se com Maria, sua esposa, que estava grávida. Enquanto estavam ali, chegou o tempo em que ela havia de dar à luz, e teve o seu filho primogénito; envolveu-o em panos e deitou-o numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria.»
Lucas,2,1-7
Natal de Jesus no Quénia
BETELGEUSE, A LUMINOSA DE ÓRION
A constelação de Órion apresenta a forma de um quadrilátero com as Três Marias no centro. O vértice nordeste do quadrilátero é formado pela estrela avermelhada Betelgeuse, que marca o ombro direito de Órion. O vértice sudoeste do quadrilátero é formado pela estrela azulada Rigel. Betelgeuse e Rigel são as estrelas mais brilhantes da Constelação.
Houve um tempo em que a Astronomia confundia-se com a Astrologia. Os mapas findavam-se em contornos retos e as estrelas, ainda pagãs, espalhadas na vastidão noturna faziam do céu um espetáculo a quem quisesse ver. Os sacerdotes da Pérsia que não eram reis, santos ou magos, pressentiram que a grandiosidade da luz simbolizava o nascimento, em algum lugar do Oriente, do rei de todos os reinos. Conta-nos o Livro Sagrado que munidos de incenso, ouro e mirra seguiram a estrela, que parou sobre a casa onde dormia o menino-Deus. Para alguns céticos, Gaspar, Melchior e Baltazar, talvez nunca tenham empreendido a viagem até Belém e a estrela, para o Evangelista, simbolizasse a fé, assim como o ouro simbolizava a riqueza, o incenso a espiritualidade e a mirra a imortalidade. Contudo, astrônomos, posteriormente, confirmaram a presença do fenômeno luminoso, à época, embora os calendários se contradigam na precisão da data. O certo é que aquela poderia ser a estrela mais brilhante da constelação de Órion e cujo brilho para realmente ser visto, necessário faz-se que fechemos os olhos e sigamos o pulsar das batidas do coração. Uma vez misturados os sentidos, poderemos ver por todos os poros do corpo, ouvir pelo êxtase das pupilas e sentir o toque acre ou doce da pele entrar pelo centro da cabeça e escorrer como rio caudaloso por todos os órgãos do corpo.
ESTAÇÃO DE PASSAGEM
Mintaka é uma das três entradas da Estação de Passagem a sítios mais distantes. As manhãs são envoltas em neblinas e uma chuva fina cai incessantemente e incomoda quando toca os ombros. São lágrimas das mulheres, as mães, cujas silhuetas desenhadas pela parca luminosidade, formam um círculo extenso que contorna o cinturão de Órion. Eles, por sua vez, chegam em pequenos grupos. São muito jovens e falam pouco ou quase nada. O véu do esquecimento deixou-lhes um vasto buraco negro na memória, contudo um rasgo pequeno deixa-lhes a última cena gravada, num vai e vem contínuo. Se levantarmos a ponta do véu a hipnose individual cai ao chão como pequenos cristais e a cena, antes fragmentada, ganha movimento e vida.
A moça olha para trás subitamente como se ouvisse o ruído forte de frenagem de pneus. Os olhos rendem-se ao pavor da luz do farol que avança em grande velocidade. O baque forte do encontro dos carros quebra o silêncio que havia em volta. Ela sente o corpo arremessado pra frente e cai. Os outros caminham ao redor e presos ao ímã de sua própria fatalidade, seguem em frente. Ela chora em demasia e se contorce de dor.
DEZEMBRO
Quando as luzes intermitentes do planeta anunciam a comemoração do nascimento do Cristo, as ruas vestem-se de cor e sonhos e as lojas os vendem embalados em laços coloridos. Os anjos da misericórdia sopram sobre as casas uma mistura analgésica de fraternidade, esperança e fé. Contudo, em meio ao som dos cânticos natalinos, da urgência das lojas e festas há um som abafado de dor que prende a tarja do luto como uma guirlanda negra presa à entrada das casas. De toda saudade pelas vítimas da violência urbana, dos acidentes de trânsito, das intempéries climáticas, entre as vítimas das escolhas indevidas, está o soluço forte das mães dos jovens que habitam a Constelação de Órion. Que canto lhes alegraria a alma? O que poderia interromper subitamente o punhal arremessado ao peito?
Em Mintaka, Alnilan e Alnitaka, as Três Marias do cinturão de Órion, era noite de Natal. A Estação de passagem e apoio aos jovens, que deixam bruscamente suas casas e não mais retornam, foi invadida pelo som de harpas e flautas. As vozes dos cantos gregorianos, contrariando a ordem natural da rota de mensagens, acordaram os anjos e as almas. O som veio de algum lugar do planeta, cruzou as paredes de pedras, dançou sobre planícies e rios e subiu ao céu. Os jovens chegaram às janelas dos hospitais e olharam a noite, o tabuleiro estrelado que se abria sobre suas cabeças. Os anjos trabalhadores do Cinturão de Órion ouviram o som miraculoso dos cânticos. Não havia a sombra das silhuetas no portão de entrada e a chuva fina cessara subitamente. Além da Nebulosa, além do cintilar dos pingentes de brilhantes, as mulheres dormiam. Betelgeuse, uma das luminosas da Constelação emitia seu esplendor sobre a noite escura. A estrela erguia seus raios como uma torre impera sobre um reino de beleza e luz.
Chegaram: Gaspar, Melchior e Baltazar. Um deles era tão jovem quanto os meninos de Órion. O do meio era um homem feito e o último tinha barbas brancas e uma harmonia que irradiava, quando ele olhou tudo em volta. Logo depois, chegaram as mães. Elas vinham de chinelos e roupas de dormir. Algumas traziam um rosário entre os dedos, outras apenas um livro pequeno. O canto dos monges viajava entre os ouvidos e fluía por todos os poros do corpo. Os jovens, das janelas, olhavam lá embaixo: os camelos, os sacerdotes da Pérsia e o riso das mulheres. Ali, naquele momento, era possível morrer apenas a saudade.
Primeiro eles mandaram bilhetes e cartas. Os papéis voavam das janelas e as mães corriam em direção a elas. Elas acenavam aos rostos conhecidos e riam. Um riso cristalino e farto como um rio. Os meninos desceram as escadas em direção ao redemoinho de papéis. Os três reis reconheceram a estrela que os conduzira há muitos anos, sobre mares, montanhas e desertos. Betelgeuse atravessou as fronteiras da galáxia, e o Criador envolto num novo projeto de ampliação do Universo sorriu por breve instante. Havia a chuva de pingos cintilantes, sobre os visitantes de Órion.
Dedicado a maior de todas as dores humanas: a orfandade de filhos.
A viagem de Nazaré a Jerusalém era longa. Um cansaço estranho perturbou Maria. A jovem chegara a Jerusalém com o ventre tombado de peso. O tempo de o Menino nascer, parecia-lhe ter chegado naquela noite em que descobriu o Sol a rasar o horizonte até mais tarde do que era costume.
Pensou um pouco assustada que o Filho de Deus estava prestes a entrar no mundo, a circular entre trevas e luz. Ela recebera a dignidade de ser sua mãe. Ela sabia quanta responsabilidade recaia sobre os seus ombros. Naqueles momentos, sentiu que precisava de um lugar para oferecer à terra dos homens aquele corpinho lindo e de tanta fragilidade. As águas do rio que nela corria transbordavam das margens e manchavam-se de sangue rutilante. “O Menino não tardará”, pensou com um perfume a nardo, um perfume muito intenso, nas narinas. O anúncio da sua maternidade sacra envolta numa angélica asa estava ali, mais visível do que nunca. Inscrita no seu ventre grávido, desde há nove meses. Agora, com o corpo disforme, enrolado e sem espaço, era urgente um lugar para se deitar e, assim, deixá-lo nascer.
Como ela já sentia o Menino pronto para romper a estreita faixa coberta de véus a soltarem-se entre os lábios do vento do deserto. Como uma imensa dor a vergava e abatia... “José, não é precisa uma hospedaria”, disse com a voz apagada.
“Não? Não é Ele o Filho de Deus?” interrogou José, abismado. “Pode ser um simples estábulo” respondeu Maria com a garganta rasgada de emoção. De súbito, José, gritou. “Ali está um estábulo! Não foi o que pediste?” “Sim, serve um estábulo, mesmo só com o calor de animais se aquece o Bom Menino!” respondeu Maria com a voz suave como um cântico a descer do céu.
Para a jovem Maria, a pequenez do espaço, os montinhos de palha, o respirar quente dos cordeiros aconchegavam mais do que a comodidade das ricas hospedarias. Ela sabia como o Pai do Menino, o Rei de todos os reis, gostaria de, com o exemplo do seu Filho, mostrar aos soberbos, quanto valia mais a simplicidade dos pobres do que as riquezas da terra. O Filho de Deus entrava no mundo como um pobre, mas um pobre imensamente amado, essa a única verdadeira riqueza do mundo.
Natal de 2011
Teresa Ferrer Passos
Tempo polar.
Facas de gelo
Cortam o selo
Deste mal-estar.
Que transparente,
Quase a rachar…
Que frio lunar
Luminescente.
Pálida luz,
Vinda de longe.
Ao longe um monge
Sob o capuz.
Luz nevoenta.
Estrelas caídas
Nas avenidas
Em morte lenta.
Mas, de repente,
Transformação:
O Inverno é Verão,
O frio é quente!
Tempo-sinal,
Tempo-promessa:
Jesus regressa,
É o Natal…
Fernando Henrique de Passos
(Convoco, para a Musa, o Arcano da Estrela,
a Estrela que foi vista pelos Magos sapientes.)
«ex toto corde», à Isabel Nobre Santos…
Quero ver Teu sorriso viridente,
Que eu verde quero ver-Te, ó meu Menino.
Amar-Te só a Ti, ser um vidente,
Monarca, em Ti amar o meu destino.
E à noite, quando a Lua é confidente,
O Maio do meu cor é paladino,
Mas a Maya do mal é uma serpente
Que afasta, ó flor, afasta o peregrino.
Mas que vasta, que enorme essa alegria
Em ter uma criança como Rei!!!!!!!!!!!
A Rosa é uma reforma, um novo guia
Aparece, na terra, como lei:
A lei dessa aliança, eu não sabia;
Na ceia, de Natal, agora sei.
Lisboa, 30/ 11/ 1997
COOPERATORES VERITATIS
Paulo Jorge Brito e Abreu
sobre um lírio branco caiem as lágrimas de neve de minha mãe
os lagos do céu espelham os extensos braços de ouro de meu pai
vou implorando que janeiro passe na cabeça de um anjo em dezembro
até que a noite caia sobre uma estrela de sangue na página
quando as vozes se calam pouso a caneta na nuvem dum pássaro
aguardo o tremor da chuva que ficou no ar em silêncio
depois adormeço num lírio roxo nas lágrimas rubras de Nosso Senhor
a excelsa pomba áurea desce no centro da sombra do leitor
Maria Azenha
Cintilações no escuro,
Eis o que vejo.
E o cheiro a lenha queimada
Muito ao longe.
E o som de sapatos sobre a neve.
E o sabor do cigarro a consumir-se
Lentamente entre os meus lábios.
E a textura macia da lã
No ninho a que não chego.
Vejo na noite.
Apago o canto das cigarras
De um outro verão.
Fecho-me dentro deste inverno
Com janelas para o interior de salões iluminados
Por lareiras que ninguém acende.
O som da luz dos pirilampos
Cheira a caruma e é tão suave
Como o sabor dos espinhos
Que ferem sem saber.
E o brilho voraz do olhar dos lobos
Morde os troncos dos pinheiros decepados
Com restos de ramos vergados sob o peso
De manchas de sangue rutilante.
A chama das lareiras sabe a ontem.
O som da solidão daquela noite
Tem o toque do cachecol almofadado.
A chaminé saboreia a escuridão.
Há fumo e nevoeiro e cheiro a terra.
O patim caído sobre o lago
Tacteia a fenda,
A aresta onde o tempo desagua
Desatando os diques de Rembrandt.
E a lua morde o tumulto das torrentes
E ouve o verde azulado das folhas sob a cinza
E a textura da terebintina da tela do pintor
Que sente tudo e tudo rasga
Quando a brecha de azeviche na pintura
Grita que quer tomar o vermelho nos seus braços
E corta a faca que goteja a tinta
Do pincel do pintor cego
Enlouquecido
Por não saber pintar o som do vento
Quando este se mistura com o medo
E traça sulcos invisíveis na vidraça
Que separa os dois lados da noite.
Mas ninguém sabe a qual dos lados
Pertence aquele olhar
Que penetrou mais fundo do que o espaço
E assim decretou o fim dos dias.
2/12/2011
Fernando Henrique de Passos
ARQUIVO DE NATAL: