NUNO ÁLVARES, NOVO SANTO PORTUGUÊS?

Nuno Álvares Pereira
Desenho do Convento e Igreja de Nossa Senhora do Carmo, mandada edificar por Nuno Álvares Pereira (lançada a primeira pedra, em 1389), em Lisboa.
Nuno Álvares Pereira nas páginas do livro PÁTRIA de Guerra Junqueiro (3ª edição [1ªed.1896], Porto 1915, pp.140-168):
«(...)Surge o espectro de Nun'Álvares, vestido de monge carmelita. O rei desfalece de novo. Os cães investem, mas, diante do olhar sobre-humano do condestável, recuam trémulos, como obedecendo a um fluído mágico.
O ESPECTRO DE NUN'ÁLVARES:
Por teus avós chamaste. Um falta ainda,
Falta a raiz da árvore de morte,
Que em ti, vergôntea exausta, expira e finda.
Oh miseranda, lastimosa sorte,
A deste coração desbaratado,
Que outrora se julgou tão puro e forte!
Deu com ele a gangrena do pecado,
Qual um bicho escondido que apodrece
Um deleitoso fruto embalsamado.
Nada valem tensões, nem vale a prece:
É das obras que vem à criatura
O galardão e a pena que merece.
Não acuso de ingrata a sorte dura:
Volvo-me contra mim unicamente
Em meu desassossego e má ventura.
Tamanino inda eu era, inda inocente,
Alma cândida e pura, como a rosa
Aberta junto d'água ao sol nascente.
Quando uma noite uma visão fermosa
Me aparece e me diz com voz divina,
Ao mesmo tempo clara e misteriosa:
«Li numa estrela d'oiro a vária sina
Que a esforçadas, magnânimas empresas
E a feitos não obrados te destina.
«Mas que valem altíssimas grandezas,
Mas que valem as pompas e as vitórias,
Se a mundano desejo andarem presas?!
«Só da fé, só do bem quedam memórias:
Tudo o mais é poeira, um vão ruído,
Uns tumultos de sombras ilusórias...
«Cavaleiroso coração ardido
A grande termo levará seus feitos,
Quando ponha em Jesus alma e sentido.
«Melhor que duro arnez, defendem peitos
Virtude adamantina e graça clara,
Com que Deus abroquela os seus eleitos.
«Sê casto como a luz beijando a seara,
Firme qual entre as ondas o rochedo,
Manso como ovelhinha em pedra d'ara.
«E, como o sol d'Abril veste o arvoredo,
D'armas resplandecentes vestirás
O teu corpo d'herói, viçoso e ledo.
«Só pela Pátria e Deus batalharás.
De tua larga mão caiam na terra,
Num gesto grande a beatitude e a paz.
«Seja neve dos píncaros da serra
Teu limpo coração, bondoso e humano,
Quer na tranquilidade, quer na guerra.
«A tirania ao fim pune o tirano.
Contra o injusto volta-se a injustiça,
E a maldade é aos maus que faz o dano.
«Arreda para longe ódio e cubiça;
Contra fero inimigo um bravo alento,
Contra amargura e dor alma submissa.
«Viva dentro da carne o pensamento,
Na pureza da virgem confinada
Dentro da cela branca dum convento.
«E a carne exultará transfigurada,
Qual nuvem escura em céu ligeiro,
Em lhe batendo a luz da madrugada.
«De tal guisa, vencendo-te primeiro,
A todos vencerás como um leão,
Formidável e nobre cavaleiro.
«E de Cristo e da Pátria em defensão
Brilhará tua lança como um raio,
Mandará tua voz como um trovão!»
Assim falou (se me abalou julgai-o!)
A graciosa visão, que se desfez
Pouco a pouco em suavíssimo desmaio.
Donzel eu era já, quando outra vez
As mesmas falas ela, de improviso,
Me repete co'a mesma candidez.
Todo cheio de lágrimas e riso,
Num enlevo quedei, numa ansiedade,
Mais que da terra já, do paraíso.
E à celeste, benéfica deidade
Jurei suas razões maravilhosas
Puramente cumprir e de vontade.
Jurei que nunca minhas mãos culposas
Mulher manceba haviam de tocar,
Feita que fôra de luar e rosas.
Jurei, unido em Cristo à luz do altar,
Pôr batalha de morte a meus desejos
E meus vícios da carne assossegar.
Anos do mundo, breves e sobejos,
Fadigações da vida tão mesquinha,
Com seus ais, com seu pranto, com seus beijos,
Tudo votei sem pena e bem asinha
À cruz do Redentor e à cruz da espada,
Ao meu Deus verdadeiro e à pátria minha,
Jurando guardar sempre, e bem guardada,
Ûa alma pura em natureza pura,
Qual em âmbula d'oiro hóstia sagrada.
Ai de mim! ai de mim! faltei à jura!
Ai de mim! ao de mim! porque uma peste
Logo te não queimou, língua perjura?!
Ah, donosa visão, visão celeste,
Bem devera de ter descortinado
Naquelas altas falas que me deste,
Que eu, em vício d'amor sendo gerado,
Remiria na carne aborrecida
Pela grã penitência o grã pecado.
Madre senhora! ó madre estremecida!
Antes ficara tu noiva e donzela,
E eu não abrisse o olhar à luz e à vida!
Ó padre carinhoso! Ó madre bela!
Vossa culpa caiu no vosso fruto,
E, com a culpa amarga, o nojo dela!
Queixa não hei de vós: a mim imputo
Lástima e dano, que me só provêm
Dêste bichoso coração corrupto.
Por vós criado fui, como ninguém;
Vós me guiaste com suave geito,
Desde menino a alma para o bem.
Remidor dum pecado eu fôra eleito;
Assim mo disse a cândida visão,
E mo escreveu com lágrimas no peito.
Quando tu, padre meu, alto varão,
Mulher me cometeste, logo ansioso
Se me gastou, nublado, o coração.
E toda a noite o arcanjo luminoso
Repetindo: Não deixes, filho meu,
Glória celeste por triste gôzo!
E a miséria da carne me venceu!
Ó padres! perdoai, chorai comigo,
Que o vosso algoz tirânico fui eu!
Eis aqui vosso algoz, vosso inimigo:
Por mim no purgatório estais sofrendo,
E eu sofro, além do meu, vosso castigo.
Oh, destino cruel! oh, caso horrendo!
A livrar-vos da falta me hei proposto,
E sou o Judas negro que vos vendo!
Nem pára aqui meu transe e meu desgosto.
Como de olhar-me, ó sol deslumbrador,
Não se te muda em noite a côr do rosto?
Como não gelas, dize, de pavor,
Vendo que em fraco peito miserável
Cabe tromenta assim de nojo e dôr?!
Ó terra triste! ó céu inexorável!
Que ventre de mulher pariu um dia
Desaventura a esta assemilhável?!
Nobres guerras armei, como cumpria,
D'ânimo afoito a rudes castelhanos,
Desbaratando-os Deus por minha via.
Contra seu vão furor, contra seus danos,
Batalhei desde a alva alegradora,
Ao derribado ocaso de meus anos.
Sangue de irmãos verti... Vertido fôra
Novamente mil vezes, sem piedade,
Que alma não é de irmão alma traidora.
Pátria minha gostosa, quem não há-de
Em risonho sabor, vida e fortuna
Dar por teu livramento e majestade!
Como a de fogo altíssima coluna
Vai do povo de Deus na dianteira,
Afim que se não perca ou se desuna,
Tal na frente das hostes, sobranceira,
Contra duro inimigo acovardado
Tremeu sempre no ar minha bandeira.
É que nela Jesus ia pregado,
Jesus, rei das estrêlas, rei do mundo,
Meu capitão fermoso e sublimado.
Ordenara, porêm, o céu profundo,
Que em tal cometimento era mister
Carne sem nódoa e coração jocundo.
E estas mãos (ai do feito em que as puser!)
Tocado haviam já, tornadas lama,
Com vil desejo, em corpo de mulher.
Fôsse a Virgem celeste a minha dama,
Se, como Galaaz, herói invito,
Alcançar me propunha honrada fama.
Deus castigou-me o coração maldito:
Pois que sôbre êle ainda vem pesando
O carrêgo mortal do meu delito.
Ó cidadela da pureza, quando
Um vício te faz brecha, sem tardança,
Prestes os mais acodem galopando.
Em minha carne, um dia honesta e mansa,
Por onde entrou luxúria malfazeja
Entrou ira e soberba, entrou vingança.
Ruínas do Convento e Igreja de Nossa Senhora do Carmo, após o terramoto de 1755.
Excerto do romance histórico Eu, Nuno Álvares de Teresa Bernardino (Publ. Europa-América, 1ª edição, Lisboa, 1986), pp.118-124:
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NUN'ÁLVARES PEREIRA
Que auréola te cerca?
É a espada que, volteando,
Faz que o ar alto perca
Seu azul negro e brando.
Mas que espada é que, erguida,
Faz esse halo no céu?
É Excalibur, a ungida,
Que o Rei Artur te deu.
'Sperança consumada,
S. Portugal em ser,
Ergue a luz da tua espada
Para a estrada se ver!
Fernando Pessoa, Mensagem, Edição Ática, Lisboa, pág. 45.
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NÓTULA SOBRE O LIVRO D. NUNO DE SANTA MARIA − O SANTO*
Como se escreve no Prefácio desta monografia da autoria do Duque D. Duarte de Bragança "celebremos os louvores dos homens ilustres, através das gerações. Neles o Senhor realizou uma glória imensa e manifestou a Sua grandeza desde outrora." O autor deste texto de apresentação do livro é o Padre Frei Francisco J. Rodrigues da Ordem Carmelita, Vice-Postulador da Canonização do Beato Nuno.
Na contra-capa, destacamos um texto de Vítor Escudero da região espanhola da Galiza, autor da conferência "D. Nuno Álvares Pereira – 'Alma Mater' do Portuguesismo", como refere a brevíssima Bibliografia final. Aqui, Vítor Escudero salienta que Sua Eminência o Cardeal D. José Saraiva Martins, após reunião com o Duque de Bragança, D. Duarte João, reunião solicitada a pedido deste para que fosse dinamizado «o processo de canonização do Beato Nuno de Santa Maria», o aconselhou a fomentar «o conhecimento e a devoção do nosso Frei Nuno de Santa Maria, o "Santo Condestável".»
Como escreveu D. Duarte (neste texto publicado posteriormente a esta conversa com o Cardeal D. José Saraiva Martins), «julgava-se que D. Nuno Álvares Pereira teria nascido no castelo de Cernarche do Bonjardim na festa de S. João Baptista, a 24 de Junho de 1360, recebendo o baptismo, no mesmo dia, no Mosteiro do Bomjardim, fundado por seu pai, D. Álvaro Gonçalves Pereira, Prior da Ordem do Hospital, que é hoje a Ordem de Malta. O mais provável, porém, é que o seu nascimento tenha ocorrido em Flor da Rosa, junto à bela vila do Crato, que pertencia à mesma Ordem». E, acentua, ainda: «Criado na Corte junto da mãe, D. Iria Gonçalves do Carvalhal, o jovem dedicou-se desde cedo à leitura e à aprendizagem das virtudes da cavalaria » (p.13). E, logo a seguir, sublinha que «aprendeu a amar as virtudes dos santos, sobretudo a pureza, a caridade e a humildade, tendo jurado seguir o código de honra dos lendários Cavaleiros da Távola Redonda» (p.14). E, «nos últimos dias de 1383 "o comum povo livre" proclamou o Mestre de Avis Regedor e Defensor do Reino, o qual organizou o seu Conselho de Governo, chamando Nun'Álvares a fazer parte dele (p.17).
Mais adiante, o duque de Bragança realça o facto de as Crónicas «narrarem que o célebre Alfageme da Ribeira de Santarém, que corrigiu a sua espada numa só noite, gravou nela uma cruz e uma estrela com o nome da Virgem Santíssima. Levantou esta espada pela primeira vez em defesa da Pátria, na batalha de Atoleiros, a 8 de Abril de 1384, e depois dessa vitória, o Mestre de Avis, concede-lhe o título de Conde de Ourém. A 6 de Abril de 1385, o Conde de Ourém foi nomeado Condestável e Mordomo-Mór do Reino, tornando-se assim guardião máximo da Lei e da Moral nacional (p.19).
Ainda recorrendo às muitas lendas que se formaram a propósito do carácter milagreiro de Frei Nuno de Santa Maria, o Duque Duarte João Pio de Bragança, afirma na sua homenagem a este seu longínquo antepassado, que «D. Nuno impedia, com frequência, após as batalhas, os seus homens de perseguirem os vencidos, contrariando assim os usos da época» (p.21).
Nesta contribuição do autor para uma das vertentes da História do Povo português, a história das lendas, tão abundantes na literatura portuguesa, afirma que, no lugar de Fátima, «quando passava de Tomar a caminho de Aljubarrota, a 13 de Agosto de 1385, D. Nuno foi atraído a Cova da Iria, onde, na companhia dos seus cavaleiros, viu os cavalos do exército ajoelhar, no mesmo local onde, 532 anos mais tarde, durante as conhecidas Aparições Marianas, Deus operou o Milagre do Sol» (p.22).
A obra conta 57 páginas e é ilustrada com belos desenhos e pinturas da figura de D. Nuno Álvares Pereira. De notar, a primorosa apresentação do livro de capa dura, magnificamente decorada com uma gravura em que Frei Nuno se apresenta com uma sumptuosa indumentária de guerreiro nobre.
17/3/2008
Teresa Ferrer Passos*
* Ortónimo de Teresa Bernardino
** Obra de S.A.R. Dom Duarte, Duque de Bragança, D. Nuno de Santa Maria - O Santo, ACD Editores, 2ª edição, Lisboa, 2005.
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