
PADRE ANTÓNIO VIEIRA −
IV CENTENÁRIO DO NASCIMENTO
(1608-2008)
TRÊS POEMAS DE FERNANDO PESSOA
VIRIATO
Se a alma que sente e faz conhece
Só porque lembra o que esqueceu,
Vivemos, raça, porque houvesse
Memória em nós do instinto teu.
Nação porque reencarnaste,
Povo porque ressuscitou
Ou tu, ou o de que eras a haste –
Assim se Portugal formou.
Teu ser é como aquela fria
Luz que precede a madrugada,
E é já o ir a haver o dia
Na antemanhã, confuso nada.
O QUINTO IMPÉRIO
Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!
Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz −
Ter por vida a sepultura.
Eras sobre eras se somem
No tempo que em eras vem.
Ser descontente é ser homem.
Que as forças cegas se domem
Pela visão que a alma tem!
E assim, passados os quatro
Tempos do ser que sonhou,
A terra será teatro
Do dia claro, que no atro
Da erma noite começou.
Grécia, Roma, Cristandade,
Europa – os quatro se vão
Para onde vai toda idade.
Quem vem viver a verdade
Que morreu D. Sebastião?
ANTÓNIO VIEIRA
O céu 'strela o azul e tem grandeza.
Este, que teve a fama e à glória tem,
Imperador da língua portuguesa,
Foi-nos um céu também.
No imenso espaço seu de meditar,
Constelado de forma e de visão,
Surge, prenúncio claro do luar,
El-Rei D. Sebastião.
Mas não, não é luar: é luz do etéreo.
É um dia; e, no céu amplo de desejo,
A madrugada irreal do Quinto Império
Doira as margens do Tejo.
Fernando Pessoa, Mensagem (1ª edição, 1934),
Ática, 12ª edição, Lisboa, 1978, págs. 26, 82-83, 92
O CENTENÁRIO DE VIEIRA*
ADRIANO MOREIRA
Presidente da Academia das Ciências de Lisboa
Professor Emérito da Universidade Técnica de Lisboa
Adriano Moreira
Segundo uma expressão que fez carreira, é útil procurar apoio, em face das dificuldades de cada época, “na sabedoria dos mortos talentosos”, e daqui a actualidade da meditação colectiva sobre o legado do Padre António Vieira, S. J., tão excessivos são os desafios que respeitam à história do futuro do mundo em geral, dos ocidentais em particular, e de Portugal em especial.
Tudo com a dificuldade de abranger todo o edifício das contribuições do Padre, tarefa que exige tempo, tempo demorado, o tempo que tanto o preocupou, e que o desordenado ritmo das mudanças que, nesta viragem do milénio, trituram as estruturas, desactualizam os conceitos, desafiam as escalas de valores, faz da incerteza a linha do horizonte para cuja decifração o tempo se torna escasso.
Como sugeriu a talentosíssima Maria de Lourdes Belchior, foi talvez Miguel Torga, nos Poemas Ibéricos, quem melhor resumiu “a vida e os sonhos desta grande riqueza”. Disse assim: “Filho peninsular e tropical / De Inácio de Loyola, / Aluno de Bandarra / E mestre / De Fernando Pessoa, / No Quinto Império que sonhou, sonhava / O homem lusitano / À medida do mundo. / E foi ele o primeiro, / original / No ser universal… / Misto de Génio, mago e aventureiro”.
Sobre esta questão do Quinto Império, lembrarei reler, e meditar, sobre a relação entre o Manifesto Político que Luís de Camões inscreveu em Os Lusíadas, e a visão proposta por Vieira.
No primeiro caso, Camões assumiu-se como cidadão–poeta, e desenvolveu uma teoria justificativa da já então longa história de Portugal, projectando no futuro a acção que incumbiria à soberania, não como profeta, mas usando o dom que os poetas possuem de escutar vozes e de ver longe. Definiu a Europa multicultural, afirmou a sua unidade referindo o Credo como expressão da identidade, desenvolveu um plano estratégico oceânico e globalizante, meditou sobre o conceito da vida colectiva, sobre o real custo do sangue e da carne, também sobre os possíveis futuros, e incumbiu à “Soberba Europa”, que tem como cabeça o “ Reino Lusitano”, a expansão destinada a dar ao mundo “leis melhores”, isto é, a criar um mundo Cristocentrico. Estava-se em 1572, a Europa enfrentava a guerra religiosa, e o Rei D. Sebastião, depois de ouvir o Poema, conduziu a soberania à derrota, orientando D. Jerónimo de Osório, Bispo de Silves, para a conclusão que escreveu na famosa Carta a Dom Henrique, Cardeal-Rei: “humanamente falando, não encontra ao presente melhor remédio aos trabalhos e perigos deste Reino que ser unido a Castela pelas razões que disse”.
O Quinto Império de Vieira, articulado com o Sebastianismo que adoptou, deixou-nos a perplexidade de entender como é que a esperança de redenção se fixou na memória de um Rei vencido. De facto parece antes a redefinição do Projecto sonhado que ansiava por uma liderança, e por isso, ao renascer a Monarquia Nacional, separou o Plano da crença no regresso do Imperador Menino. Talvez com alguma dificuldade, pode encontrar-se no Sermão de São Sebastião, predicado em 1634 na Igreja de Acupe, a recusa do mito desse regresso, e não será inoportuno admitir que para Vieira, assim como todo o Papa é Pedro, também qualquer Rei nacional vocacionado e esclarecido, pode ser Sebastião: Pedro não morre, repete-se. Por isso, respondendo ao Santo Oficio, recorda que Portugal, sendo pequeno, foi sempre tratado como o Benjamim de Deus e seu David, não estando contra a razão entendê-lo também destinado “para o Império do Mundo”. Isto era pregado quando a monarquia Filipina em declínio, atacada por franceses, holandeses, ingleses, via desagregar aquele chamado Império de Impérios: Aragão no Mediterrâneo, as terras dos Habsburgos na Europa, o Império Português a separar-se e a desarticular o Império da América do Sul. A realidade duradoira foi reduzindo a expressão territorial soberana destes anúncios de futuro, perdido o Império das Índias, perdido o Império do Brasil, chamadas todas as legiões às várias Romas imperiais europeias durante o século passado.
A meditação a que somos chamados nesta circunstância do centenário de Vieira e de viragem do milénio, ensina uma vez mais que não são os impérios que duram, são as culturas que têm a vocação da eternidade. O Vieira mestre da língua e da oratória, a brasilidade de Vieira, a determinação perante a adversidade, o universalismo que para ele seria católico, mais Igreja Império em todo o mundo do que império nacional, tudo são referências que definiu a partir de antigas cogitações mas que encontram réplica em exigências prementes deste milénio. Que inspiram ambições formalizadas na CPLP, que ajudam a procurar recuperar uma presença activa da Europa camoniana. Um pensamento, uma acção, um ideário que iluminou um chamado “período escuro” da nossa história, contra o isolamento internacional, deliberado e intransigente contra a alienação ibérica, tendo sempre presente o dever cívico de responder às contingências de conjunturas desafiantes. Lembrarei finalmente a questão do tempo em Vieira que, na História do Futuro, pensando o Quinto Império, ensina, que somos, cristãmente, seres históricos tanto pelo passado como pela história apocalíptica que nos orienta para o futuro. Para entender que os países, as culturas, são um futuro com passado. É sobretudo a esta luz que celebramos Vieira, confiados na validade do recurso à “sabedoria dos mortos talentosos”.
* Alocução proferida pelo autor, por ocasião da sessão comemorativa do
IV Centenário do Nascimento do Padre António Vieira,
na Academia das Ciências de Lisboa,
em 6 de Fevereiro de 2008
QUINTO IMPÉRIO
«Igne Natura Renovatur Integra.»
«Eli, Eli, lema sabachtani?»
à memória de Padre António Vieira
O mistério é da Rosa
E das quinas e anilhas,
Duma Grei, tão graciosa
Que dá graça às maravilhas.
O sidéreo é de Cristo
E nubente é sua Cruz;
A campanha é Trismegisto,
Companheiros de Emaús.
O Império é do Verbo
E a parábola é o Pão…
Nunca azedo nem acerbo,
Diz o núncio à nação:
Lisa é Luz, e eu consinto
Que me tomem por natal;
Um só canto e um só quinto,
Um só nome: Portugal.
Lisboa, 10 de Junho de 2001
Paulo Jorge Brito e Abreu
P. ANTÓNIO VIEIRA*
Num país de cerração e de surdez,
Outrora fui alguém, a que Portugal voltou a Face,
Sendo, no solo páreo, o céu que é português,
Traçando meu ser a Mão e o seu Disfarce.
Mas, Hoje, terra e céus, são um. Portugal
Fez-se, ao Longe, um farol de mar e sal
Beijando o Sol, o uno litoral,
A Língua-mãe, o Véu, e o Santo Graal.
* Maria Azenha, O Último Rei de Portugal, Fundação Lusíada, Lisboa, 1992, p. 86.
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