TEOLOGIA / RELIGIÃO 

 

 DOSSIER

 

 

 

 

 

 

NATAL DE JESUS CRISTO / 2007

 

 

 

 

 

_____________________________

 

NOTA:

A composição musical que acompanha o «Dossier Natal de Jesus Cristo/2007» é da autoria de Adolphe Charles Adam. Nasceu, em Paris, no ano de 1803. Filho do compositor Louis Adam , foi um prolixo compositor de óperas e de ballets, de que os mais conhecidos são Gizelle  (1844) e O Corsário (1856).

A  composição, que estamos a escutar, possui uma intensa envolvência emotiva, uma dramaticidade empolgante. É mundialmente conhecida como «O Holy Night ».

Escrita em 1847, Adolphe Adam chamou-lhe «Cantique de Noël». Ele musicava o poema «Minuit, chrétiens» do poeta Placide Cappeau, também francês.

Esta belíssima composição tornou-se célebre após ter sido traduzida para inglês por John Sullivan Dwight, editor de Dwight's Journal of Music , em 1855.

No dia 24 de Dezembro de 1906, o canadiano Reginald Fessenden pôs no ar o primeiro programa de rádio, incluindo «O Holy Night», que se tornou assim a primeira canção do mundo a ser radiodifundida.

Desde então, a fama da canção de Adolphe Adam deixou cair o seu autor na obscuridade, mas todos os grandes cantores de ópera e as grandes orquestras têm ambicionado cantá-la e tocá-la, pelo menos na emocionante Quadra do Natal de Jesus Cristo.

  Teresa Ferrer Passos

 

 

 

 

LIVRO DE ISAÍAS:

 

(Isaías terá nascido, em Jerusalém, no século VIII a. C.  Foi considerado o maior dos profetas. No seu Livro refere-se a Jesus, o Príncipe da Paz, o Cordeiro, como aquele que carregando o pecado do mundo, o expiará pelo seu sacrifício)

 

O povo que andava nas trevas

viu uma grande luz;

habitavam numa terra de sombras,

mas uma luz brilhou.(...)

(...)um menino nasceu para nós,

um filho nos foi dado;

tem a soberania sobre os seus ombros,

e este é o seu nome: Conselheiro-Admirável,

Deus-Poderoso, Pai-Eterno, Príncipe-da-Paz.

Dilatado é o seu império

com uma paz sem limites, sobre o trono de David

e sobre o seu reino.

 

Is.9, 1, 5 e 6

 

 

 

 

 

 

 

Brotará uma vara do tronco de Jessé,

e um rebento brotará das suas raízes.

Sobre ele repousará o espírito do Senhor:

Espírito de sabedoria e de entendimento,

espírito de conselho e de fortaleza,

espírito de ciência e de temor do Senhor.

Não julgará pelas aparências,

nem sentenciará somente pelo que ouvir dizer;

mas julgará os pobres com justiça,

e com equidade os humildes da terra;

(...)Então o lobo habitará com o cordeiro,

E o leopardo deitar-se-á ao lado do

cabrito;

o novilho e o leão comerão juntos,

e um menino os conduzirá

 

Is.11, 1-6

 

 

Ouvi-me, ilhas,

prestai atenção, povos de longe: quan-

do ainda estava no ventre

o Senhor chamou-me:

quando eu ainda estava no seio da

minha mãe,

pronunciou o meu nome.

(...)Vou fazer de ti luz das nações,

a fim de que a Minha salvação

chegue até aos confins da terra»

Is.49,1-7

 

 

    

 

 

Na verdade, ele tomou sobre si as nossas doenças,

carregou as nossas dores;

(...)

Mas foi castigado pelos nossos crimes,

esmagado pelas nossas iniquidades;

o castigo que nos salva pesou sobre ele,

fomos curados nas suas chagas.

(...)

o Senhor carregou sobre ele a iniqui-

dade de todos nós.

Foi maltratado e resignou-se,

não abriu a boca,

como cordeiro levado ao matadouro,

como ovelha emudecida nas mãos do tosquiador,

Sem defesa, sem justiça, o levaram(...)

Is.53,4-10

 

EVANGELHO DE S. MATEUS (este livro denominado de Mateus, discípulo de Jesus, terá sido escrito pela comunidade cristã de Antioquia, com fundamento numa colecção de sentenças por ele escritas. A data provável da sua elaboração foi a década de 70 d.C., ano da queda de Jerusalém ):

Mateus, 2, 1-6:

Tendo Jesus nascido em Belém da Judeia,

no tempo do rei Herodes, chegaram a Jerusalém uns magos vindos do Oriente. «Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? − perguntavam. Vimos a Sua estrela no Oriente e viemos adorá-Lo». Ao ouvir tal notícia, o rei Herodes perturbou-se e toda a Jerusalém com ele. E, reunindo tos os príncipes dos sacerdotes e escribas do povo, perguntou-lhes onde devia nascer o Messias. Eles responderam: «Em Belém da Judeia pois assim foi escrito pelo profeta: E tu, Belém, terra de Judá, não és de modo nenhum a menor entre as principais cidades de Judá; porque de ti sairá o Príncipe que apascentará o Meu povo Israel»

 

 

 

POEMAS

 

 Em torno do Nascimento do Menino Jesus

por

AUTORES de língua PORTUGUESA

 

 

 

Oração ao Menino Jesus*

 

Menino Jesus

Nas palhas deitado

Por nossos pecados

 

Menino Jesus

Que vens p'ra sofrer

e por nós morrer

 

Menino Jesus

Se assim vens por nós

Ouve a nossa voz

 

Menino Jesus

dá-nos a alegria

de ser também filhos

da Virgem Maria

 

Natal 2002

 

* Poema inédito.

 

   _______________

 

NATAL

 

Meia-noite… e a Luz é tanta !

Uma Estrela, no Oriente,

Anuncia a toda a gente

A noite três vezes santa.

 

Milagre ! – dizem os Céus.

Milagre ! – repete a Terra.

E o eco, de serra em serra,

Leva, leva a voz de Deus…

 

Glória a Deus nas Alturas

E Paz na terra aos Homens

De Boa-Vontade ! Aos homens,

frágeis, débeis criaturas.

 

Meia-Noite… E a Luz é tanta !

Uma estrela, no Oriente,

Anuncia a toda a gente

A noite três vezes santa !

 

     (Publicado no jornal infantil Camarada, Dezembro, 1958)

 

 

* Dois poemas de Fernando de Paços (pseudónimo de Fernando Zamith de Passos Silva), não incluídos em Obra Poética (Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2005). Esta publicação (póstuma) foi prefaciada pela escritora Esther de Lemos. O Poeta Fernando de Paços (1923-2003) nasceu em Viana do Castelo (no sítio da capela de S. João d' Agra) e faleceu em Queluz. Deixou viúva Maria de Lurdes de Lemos de Passos Silva e é pai do poeta e investigador de Física-matemática Fernando Henrique de Passos. A Editorial Verbo, onde exerceu as funções de Director Editorial, até 1993, vai publicar um acervo de peças de teatro infantil da sua autoria, ainda não publicadas em livro.

 

 

 

 

TUDO É TEU
 

Descalço venho dos confins da infância,
E a minha infância ainda não morreu...
Em face e atrás de mim ainda há distância.
Ó Menino Jesus da minha infância,
Tudo o que tenho (e nada tenho!) é Teu!

 

Andy (http://andipoesia.no.sapo.pt/)

 


 

 

POEMA AO REI DOS HUMILDES

 

No interior dos anos

nascem todas as flores,

todo o amor. E a doçura

do teu rosto faz surgir

uma primavera perene,

cheia de branco.

 

Dezembro de 2007

 

Fernando Botto Semedo

 

 

 

 

NATAL ANUNCIADO 

 

Há uma gruta onde o Natal espreita

Basta colocar a Luz

À beira do peito,

Pescar  com rigor

a estrela

que os pescadores trouxeram 

da Roseira do Sol.

 

Depois,

Com paciência,

urdir a teia  

que nos torna rosas  do Mar Vermelho

do coração.

 

2007-12-19

 

Maria Azenha

 

 

 

 

QUEM, DO NATAL ?

 

Quem esperamos ?  Quem,

No silêncio, na sombra, no deserto ?

O Menino divino de Belém,

Ou o rei Encoberto ?

Esperamos alguém:

Qualquer que tenha o coração aberto.

 

É demais esta ausência, este vazio !

Quem adorar, servir, como Deus e senhor ?

O que estender a ponte sobre o rio

Da miséria e pavor !

O que apascente e que semeie em desafio !

O que disser : Eu sou !  E for.

 

Poema de António Manuel Couto Viana*

 

 

* Autor de 60 Anos de Poesia, 1943-2003 (em dois volumes de quase seiscentas páginas, publicado pela Imprensa Nacional em 2004), com Prefácio de Fernando Pinto do Amaral, que nos oferece uma visão profunda da sua poesia: «Há 60 anos que António Manuel Couto Viana vem fazendo ouvir a sua voz singular no panorama poético portuguêsuma voz desde sempre fiel à nossa tradição lírica, embora com periódicas incursões no domínio da épica». E o mesmo autor, citando David Mourão-Ferreira, escreve: «São líricas as melhores manifestações poéticas de um povo, de uma geração ou de um indivíduo», Ob. Cit., vol. I, pp. 7-8.

 

 

 

 

NATAL DE PEDRO SEM

 

     Nesta noite de Natal

Somos como Pedro Sem:

Aqui estamos tal e qual

Como o que teve e não tem.

 

Mas assim é que está certo,

Assim é que estamos bem:

Nunca estivemos tão perto

Do Presépio de Belém.

 

Estava posta a nossa mesa,

Estava feita a nossa cama.

Era o manjar a certeza,

O dormir a boa fama.

 

Ora graças, meu Menino !

Assim nos fazes sentir

Que não é nosso destino

Bem comer e bem dormir.

 

Estávamos tão bem trajados,

Com tão nobre compostura...

Togas, púrpuras, brocados

Vejam lá o que isto dura !

 

 Ora graças !  Inda bem

Que vimos pobres e nus

Como tu estás em Belém,

Ó meu Amor, meu Jesus !

 

Estava a raiz mergulhada

No velho chão dos avós...

Abatida, espezinhada,

Que vai ser de todos nós ?

 

Ora graças, meu Menino !

A quem se quebra a raiz

É como tu peregrino,

     Estrangeiro no seu país,

 

Fica bem acompanhado,

Que também Tu, meu Senhor,

Estás num berço improvisado,

     Numa casa por favor...

 

Estava Deus do nosso lado

   E era tão fácil que até

     Para viver descansado

Nem era preciso a Fé.

 

Estava o bilhete comprado

Para a bem-aventurança:

Tudo tão bem combinado !

Nem fazia falta a Esperança !

 

Éramos todos tão bons

Tão perfeitos, que em verdade

A cópia dos nossos dons

Dispensava a Caridade...

 

Senhor, minh'alma Te exalta!

Hoje, que treme a Cidade,

Já nós sentimos a falta

     De Fé, Esperança e Caridade.

 

...........................................................

 

Não tenham pena de nós.

Assim é que estamos bem.

Nunca estivemos tão perto

Do Presépio de Belém. 

Poema de Esther de Lemos*

 

 

* Licenciada em Filologia Românica (1952), foi professora universitária, ensaísta, poetisa, romancista e contista. Da sua obra, que sempre primou por um grande perfeccionismo, destacamos: D. Maria II, a Rainha e a Mulher (1954); A «Clepsidra» de Camilo Pessanha (1956); os romances Rapariga (1949) e Companheiros (1960); o livro de contos Terra de Ninguém (1994). Tem vasta colaboração em revistas, em que deixou muitos poemas e contos infantis.

 

 

 

 

A ESTRELA DO NATAL

 

É, noite de Inverno,

Mas límpida e pura;

No céu transparente

Reluz uma Estrela

De estranho fulgor...

E os homens caminham,

Guiados por ela

Buscando o Senhor !

(...)

A Estrela avançando,

No céu transparente,

Detém-se na gruta,

Marcando o lugar...

No pobre Presépio,

Menino inocente,

Jesus pobrezinho

que vão adorar !

 

Ó Mago, ó sábios,

Ó grandes da Terra !

Ó tristes, ó pobres,

Ó rudes Pastores!

A Estrela é eterna,

Erguei vossos olhos

 Do Mundo mesquinho,

Tão cheio de abrolhos

Aos seus esplendores !

 

A Estrela é eterna,

E guia-nos, pura,

Na senda infinita,

Com luz sem igual !

Olhai essa Estrela,

De paz e doçura...

Que a estrela é a mesma,

Em cada Natal !

 

                         Do livro de Maria de Carvalho, Estrela da Tarde,

                             Edições Ática, Lisboa, 1957, pp.67-69.

 

 

                          

 

PALAVRA DE CARNE

 

(...)

Como um sonho ao luar, quando neva,

um Menino, Palavra de carne,

com uma estrela tão grande nos olhos

que encheu os caminhos de reis e de pastores.

Levantou a palavra, era a Palavra,

e nos seus gestos repartiu as formas visíveis do Eterno.

O gelo correu pelas montanhas

e regou o fruto da liberdade.

Nos caracóis do vento, sementes de searas;

do corpo da terra, o marulhar da alegria (...)

 

 Henrique Manuel S. Pereira*

 

*Ensaísta. Docente da Universidade Católica do Porto. A preparar Tese de Doutoramento sobre Guerra Junqueiro, no Departamento de Literatura na Universidade de Aveiro.

 

 

 

 

FLOR DO CÉU

 

Em terras de cristal, em formosuras,

Num jardim que de flores se enfeitava,

Maria, a deusa virgem, desenhava

Na mente nossa o Graal, e as ternuras.

 

Nessas terras d’alor, nessas canduras,

Cupido por ali se recreava;

Maria, a virginal, lhe perguntava

Rodeada de Amor, de Maias puras:

 

“Camélias, rosas, lírios me rodeiam

No jardim que das Graças se reclama.

Qual das flores, no Céu, é mais formosa?”

 

Lhe responde o menino que incendeiam

A ele as flores todas, numa flama,

Mas a melhor do mundo ali é Rosa.

 

Ad majorem Dei gloriam,

 

 

Paulo Jorge Brito e Abreu

 

 

 

 

EMANUEL

Tu sabias que esta noite era de treva

Apesar de tanto brilho nas praças

E sabias que olhos baços escondiam

Tanta dor e solidão e tanta lava

Apagada e feita em cinza

 

Tu sabias que esta noite era vazia

E as ausências ocupavam tanto espaço

Mas sabias que só na treva é que a luz brilha

E que é preciso caminharmos de mãos dadas

 

Tu sabias

 

Então vieste no silêncio ao nosso encontro

E quiseste vir nascer a nossa casa.

            Fátima Passos*

 

*Poetisa, natural de Viana do Castelo, radicada em Lisboa. Foi Docente de Português na Escola Secundária Rainha D. Leonor até 2002, ano em que se reformou. Publicou entre outros livros de poesia, A Cidade, prefaciado pela romancista Lídia Jorge e ilustrado com aguarelas do jovem pintor Pedro Zamith.

 

 

 

 

CÉU

 

A CRIANÇA OLHA

PARA O CÉU AZUL.

LEVANTA A MÃOZINHA.

QUER TOCAR O CÉU.

 

NÃO SENTE A CRIANÇA

QUE O CÉU É ILUSÃO:

CRÊ QUE O NÃO ALCANÇA,

QUANDO O TEM NA MÃO.

 

                   Do livro de Manuel Bandeira, Os Melhores Poemas,

        Global editores, S.Paulo,  6ª edição, 1989, pág.120.

 

 

 

 

VOTO DE NATAL

 

Acenda-se de novo o Presépio no Mundo!

Acenda-se Jesus nos olhos dos meninos!

Como quem na corrida entrega o testemunho,

Passo agora o Natal para as mãos dos meus filhos,

 

E a corrida que siga, o facho não se apague!

Eu aperto no peito uma rosa de cinza,

Dai-me o brando calor da vossa ingenuidade,

para sentir no peito a rosa reflorida!

 

Filhos, as vossas mãos! E a solidão estremece,

como a casca do ovo a latejar-lhe vida...

Mas a noite infinita enfrenta a vida breve;

dentro de mim não sei qual é que se eterniza.

 

Extinga-se o rumor, dissipem-se os fantasmas!

Ó calor destas mãos nos meus dedos tão frios!

Acende-se de novo o Presépio nas almas.

Acende-se Jesus nos olhos dos meus filhos.

 

Do livro de David Mourão-Ferreira, Obra Poética (1948-1988)Editorial Presença, Lisboa, 1988, pág.222

    __________________________________

 

-

 

 

 

 

Do romance  ANUNCIAÇÃO de Teresa Ferrer Passos (Universitária Editora, 2003) retirámos alguns excertos, que, neste DOSSIER, temos o prazer de publicar (pág.s 269-270; 271-279)

 

 

 

«O CANTO DO GALO»

 

 (...)

 

 

- Assemelha-se ao amor… a uma mãe com um filho na interioridade do seu corpo todo a respirar alegria… e o nome escolhido pelo Pai… Jesus significa  aquele que salva e agora, ainda em mim, já possui a vida nova a pulsar no seu coração pequenino, a vibrar em cada uma das minhas artérias! como sou mais feliz ao aproximar-se a hora da libertação de Jesus! a libertação para servir, não para reinar, só por Amor… José, cada uma das dores que me atingiu foi como um hino de glória no meu corpo de mulher, agora sacral cálice do fruto da videira que é Jesus… como o meu ventre é abrigo do Rei do Amor! estou feliz, José, mesmo a saber que meu filho vai nascer, não na nossa aprazível casinha, nem no mais belo berço da Galileia, esse bercinho que fizeste com tanto amor… vai nascer, agora não tenho dúvidas, na mais humilde, na mais ignota gruta do deserto.

Subitamente, ao longe, José, a vibrar o desassossego, viu uma altíssima torre. E quase gritando, interrompeu o cântico de Maria (parecera-lhe um cântico aquelas palavras que escutava embevecido, já sem se lembrar do perigo que Maria e o menino corriam perante um parto prematuro, como tudo indicava ir acontecer).

- Repara, estamos a aproximarmo-nos de uma torre de observação de astros!

- Então devemos já estar muito perto da comunidade dos piedosos - disse Maria, satisfeita. - Só é estranho ainda não termos visto ninguém…

- Não, não é. Começou a vigília do canto do galo há poucos momentos, como deves ter reparado pela branda luz do dia… mas não faltará muito que se comecem a recortar, nos declives, os rebanhos de cabras e carneiros arrancando vorazmente troncos secos, juncos e folhas de plantas rasteiras. Estamos nas proximidades do Mar Morto.

 

(...)

 

O pastor, com um longa túnica de linho branco, vinha de facto ao seu encontro. Ao chegar junto de José, que se adiantou ao andamento do compassado burro, saudou-o com um cumprimento cordial. Olhando para Maria, baixou a cabeça e recitando um hino de louvor ao Mestre da Justiça, disse com uma expressão maravilhada.

- Vejo que estais prestes a ter um filho, senhora! bem-vinda sejais à nossa terra; não sei se a conheceis… se sois do norte… nós somos dissidentes dos rabis do Templo de Jerusalém, cujos sacerdotes atraiçoaram, há muito anos, a lei de Moisés dada pelo Senhor à Judeia… mas de que precisais? estais pronta para… há pouco, o nosso mestre, que é astrólogo, leu numa estrela…

Sem o deixar terminar, Maria disse.

- Acompanha-me José, meu esposo… com que alegria fui a esposa de José e já com este filho em gestação, sendo eu virgem, filho por graça do Espírito Santo, não de meu esposo… tudo por graça divina… é o prometido Messias… o salvador… foi tudo tão miraculoso que José julgava sonhar quando celebrava o matrimónio comigo… mas isso não passou de um sonho bem real! José conhece-vos bem; era amigo de um jovem que vive entre vós. Várias vezes se sentiu atraído pela seita dos piedosos, a viver longe das grandes tentações das cidades e da seita dos fariseus… tudo para estarem melhor preparados para receber o Messias; seduzia-o este vosso retirado lugar, na distância e no silêncio a respirar a paz e a fortaleza de planaltos, entre penhascos puros… e o filho que estou prestes a dar à luz é precisamente esse Messias…

- E Maria também estava decidida a procurar o vosso retiro, há pouco menos de um ano (havia instantes, Maria confessara-lhe esse seu desejo, precisamente na ocasião em que José enveredou pelo caminho do deserto, na busca de auxílio)… agora viemos por uma necessidade vital, pois viajávamos para fazermos o recenseamento em Belém… mas, ao procurar uma estalagem em Jericó… não a encontrámos… Maria está à beira de… e o parto prefigura-se a cada instante! - confessou José, com a voz entaramelada.

- O Messias… a entrar no mundo pela porta estreita das nossas grutas. Talvez estranheis… mas eu já o sabia… - disse, parecendo meditar, o pastor, com um sorriso.

- Sabíeis?!

– Uma estrela vista pelo astrónomo…

– Ah, uma estrela… caminhos inesperados aqui nos conduziram… a vossa obstinada espera, a vossa confiança… com que esperança vigiais… cada dia vigiais… as vossas acções… como se fosse esse dia… o dia da Chegada… que vigilância… com o dia… sagrado… – disse Maria, com a voz visivelmente debilitada.

- Senhora, eu sou um iniciado na comunidade dos piedosos; chamo-me João e guardar o gado é o meu principal trabalho… mas vinde, vinde depressa para a gruta mais próxima. Estais muito fraca! podeis voltar a sentir dores - disse o jovem pastor, com uma grande afabilidade. - Eu estou ainda na primeira fase de iniciação, pois há vários graus hierárquicos, mas sinto que a minha vida só pode ter o destino nas solitárias e purificantes terras dos piedosos.

- A vossa gente em contínua vigilância messiânica… que estranho! que mistério me envolve, a vossa espera… - exclamou Maria, como num hino de glória. - Mesmo que seja a mais pequenina de todas as grutas esculpidas na rocha escarpada, frente a desfiladeiros abismais e a vales inóspitos, na interioridade do deserto onde proliferam insectos zumbidores, mesmo junto às margens do afundado e imóvel Mar Morto, como me torna feliz o nascimento de Jesus, aqui, precisamente aqui, como quis seu Pai! – acrescentou, com as faces vertendo uma alegria imensa.

- Da pedra viva brotará uma vida nova, não a que tem fim, mas a da imortalidade… Jesus, ao nascer aqui, transmitirá à pedra informe os ângulos da transcendência… e ele será a água viva a acariciar as pedras, e as pedras, que são pó e cinzas, irão transfigurar-se num novo pão, não para o corpo, mas para o pensamento, e o pão do pensamento nunca se esgotará… - acrescentou José, com acuidade.

- O berço mais belo do mundo para o nascimento do Menino-Deus! Vamos prepará-lo! - exclamou o pastor, com uma vivacidade quase delirante.

- O Mestre do Amor vem, na absoluta humildade de si, oferecer a eternidade… com a simplicidade daqueles que dispersam o sal nas terras pobres para as fertilizar… o sal esterilizou o Mar Morto (que já começamos a distinguir com nitidez, ao longe) como tornou estéreis aqueles que acumulam nas suas vidas só a maldade… Jesus vem para lhes mostrar a beleza da terra fertilizada pelo cultivo do Amor… vem criar as condições ao crescimento do número dos justos… a eternidade está a partir da sua vinda ao alcance dos iníquos e dos insensatos e dos pérfidos, se forem capazes de romper com os seus pecados… - disse Maria, cheia de felicidade na palavra, e já com uma entoação mais forte.

- Mas, como souberam que uma criança ia aqui nascer?! a estrela, só podia ser pela estrela… - disse-lhe José, continuando a caminhar pressuroso. Ia agora do lado direito de Maria. O pastor, a seu lado, pegou de súbito no arreio do burro; em seguida, atalhou caminho para mais rapidamente chegar à primeira gruta, a partir do sítio em que se encontravam.

- Eu soube pelo pastor Tito, um ano mais antigo do que eu na comunidade (estava mais afastado de vós do que eu); estava ele a guardar as ovelhas que lhe estão confiadas numa zona muito próxima da torre de vigilância e de estudo dos astros quando o mestre da assembleia, que se dedica às observações astronómicas (relaciona o movimentos dos astros, especialmente da Lua, e a intensidade ou posição das estrelas com o nosso pensamento, numa busca de desocultar o Mestre do Amor), o chamou e lhe disse para eu vir receber-vos; tivera, havia momentos, uma visão. Com o seu pensamento perspicaz e muita experiência, fora-lhe visível uma estrela, a qual era impossível ser vista na vigília do canto do galo, segundo as suas observações astrais de tantos anos de estudo… anunciava-lhe, num manuscrito em papiro e que ela iluminava, que o Messias estava prestes a nascer… e sua mãe vinha já nas nossas proximidades acompanhada de José, seu fiel esposo; no manuscrito leu também que eles estavam a aproximar-se de uma das grutas da comunidade, aquela que se situava ao lado do seu cemitério; no papiro leu ainda  um dos outros astrólogos (muito jovem, há dois anos neste refúgio, e já atento observador de cada uma das quatro fases da Lua, na grande torre de vigilância) que era urgente guiar-vos até lá, por se aproximar a hora do nascimento do Messias. Com ele, e através de sua mãe que o guardava ainda nas suas entranhas, entrava a luz no mundo para derrotar as trevas! - disse João, numa exclamação ardente e com a voz tocada de felicidade.

- A mensagem de uma estrela… aos pastores da comunidade dos piedosos! - exclamou José, com o coração envolto em espanto.

Depois, olhando de frente o jovem iniciado, confessou-lhe.

- Na verdade, Maria aceitou ser a mãe do Filho do Espírito Santo! o pequenino ser que a habita é o Messias prometido…

Nesse momento, Maria apertando vigorosamente o ventre com ambas as mãos, disse, como num murmúrio.

- Vivo cada vez mais no mundo deste filho… está a revolver-se no meu ventre, Jesus se chamará… uma dor mais funda me atinge agora… ainda mais funda agora…

 

(...)

 

- Maria, a gruta, a gruta do nascimento do Messias! enfim! graças vos damos Senhor! - exclamou José, com uma grande emoção.

- Esta gruta costuma servir para os escribas se sentarem a orar, a ler ou a dialogar sobre os livros sagrados - disse João, prestimoso.

Deitando-se no banco com a ajuda de José e do pastor, Maria sentiu-se mais leve, e respirou fundo como se precisasse de sorver todo o ar daquele espaço para respirar. Distendendo as pernas, que José logo cobriu com o seu próprio manto, Maria elevou a mão direita e acariciou-lhe os cabelos, beijando-os longamente. Depois fechou os olhos. «Exausta, está exausta», pensou José, sentindo-se culpado. A culpa só se desvanecia ao pensar na possibilidade de ter sido aquela a vontade do Pai... Na verdade, só agora notava a necessidade de repousar, depois daquela viagem cheia de obstáculos e preocupação, de susto. O seu corpo, ao descontrair-se no longo banco, ganhara um novo fôlego. Mas ele estava extenuado.

O pastor João, consciente da proximidade do nascimento do Messias, ficou numa grande exaltação. Saiu da gruta a correr. Era preciso avisar depressa a pastora Madalena, que tratava dos cordeiros na hora de serem paridos; ela era também a tecedeira de todos os panos de linho, destinados a cobrir os manuscritos da congregação. Era preciso trazer alguns para enfaixar o Messias. E óleos de oliveira bravia para o limpar e também perfumes para aromatizar o menino e sua mãe.

Antes, contudo, dissera, à parte, a José (num tom de voz muito baixo por temer que Maria não quisesse aliviar as dores do parto), que ia buscar uma iniciada, também pastora, que usava uma pedra chamada jaspe, óptima para suavizar as dores, no momento do alargamento de todas as fibras e membranas circundantes, para Jesus poder sair mais facilmente da cavidade abdominal da mãe.

De súbito, as pernas de Maria afastaram-se, tomando uma posição semelhante a um triângulo, com o vértice a coincidir com a obscura caverna, onde se resguardava ainda o menino; quando José viu que as pernas de Maria formavam um triângulo de lados iguais, lembrou-se do que esta figura geométrica representava para os hebreus! Assombrado com tão bela imagem, disse.

- Uma montanha de harmonia ergue-se do teu corpo, Maria! como o triângulo das tuas pernas atinge toda a pureza do teu útero cheio de vida!

Movimentos circulares contínuos sacudiam o pequeno cosmos grávido de Maria. Entretanto, chegava a pastora Madalena, (também uma das mulheres da assembleia comunal) com uma bacia de argila, cheia de água; acompanhava-a outra mulher, de idade avançada em anos e na experiência do caminho para a perfeição. Disse chamar-se Isabel. Trazia óleos de aloés e de amêndoas doces e mirra e perfumes de nardo, de magnólia e de incenso numa bandeja; o pastor João vinha com uma esteira de junco, que logo estendeu no pavimento, junto a umas ânforas que continham pergaminhos manuscritos. Cobriu-a depois, com pequenos panos de linho muito fino.

- Logo que o menino nasça, o «berço» está pronto! não podemos arranjar-lhe nada melhor… - disse a pastora Madalena.

- Os óleos de aloés e de mirra trazem a glória, lembrai-vos, senhora, e vou aspergir na gruta um excelente perfume de incenso, para que o ar que o menino respire, na hora do princípio da vida, seja purificado das trevas demoníacas.

De súbito, Maria esticou os braços para se amparar na mulher mais idosa das pastoras, agarrou-lhe as mãos e disse.

- Senhora, faça toda a força! Faça força, como se não estivesse a fazer força alguma… naturalmente, muito naturalmente… o menino ao romper, finalmente, todas as membranas e os filamentos e as fibras e as cavidades circulares do extenso corredor que está a percorrer, vai ajudá-la e as dores abrandarão de imediato… agora vou colocar-lhe sobre o ventre uma pedra chamada jaspe que facilitará o nascimento… e o menino, ao libertar-se do calor do seu corpo, sentirá frio e logo o vamos purificar com água das nossas cisternas, depois de aquecida, e o cobriremos com o linho e… com a ajuda do choro se libertará das mucosidades que lhe tapam os olhos e o nariz e a boca… vamos ainda untá-lo com os mais puros óleos que temos na grande fraternidade dos pastores…

 

 

*

 

 

Como no instante primordial, Maria, com o suor e o sangue a envolvê-la como um mar infinito, disse.

- Jesus libertou-se! eis o tempo do Amor!

E o corpo de sua mãe, esférico como a celestial abóbada, diminuía lentamente de volume. 

- Na beleza máxima de um vértice, começou a desenhar-se, sob a túnica coberta de sangue e de viscoso líquido, a energia avassaladora do menino! - disse José, logo que a cabeça de Jesus foi puxada por Madalena.

- Nele vive já todo o equilíbrio entre o Céu, que se estendeu como semente, e a Terra, que a recebeu como arca do Amor! - entoou João, numa comoção incontida.

- Oh filho, todo feito de humilde aparência e a guardar a regeneração do mundo, nas palavras do Amor que trazes em ti! - balbuciou Maria, toda vertendo emoção e suor e lágrimas.

Com o sorriso todo feito de mãe enternecida, transmitia a todos os presentes a felicidade que habitava o seu coração. Além daqueles que haviam ajudado a preparar o parto, outros membros da comunidade tinham-se reunido na pequena gruta. Diziam velhas orações do tempo dos Macabeus, sem deixar de contemplar o menino, acabado de deitar (depois de bem limpo do sangue e das viscosidades com óleos perfumados) entre paninhos de linho, na simples esteira de junco.

Segundo a tradição, o cordão umbilical devia cair naturalmente, como um fruto a desprender-se da árvore; quando isto não acontecia, era cortado ao fim de sete dias. Muitas vezes, havia complicações graves devido à deficiente higiene e tratamento da mãe e do filho. Por uma questão de cautela, a pastora Madalena descobrira um método muito eficaz e que usava sempre que uma ovelha paria uma cria: ela laqueava, logo que o recém-nascido se libertava da mãe, o cordão umbilical; com uma habilidade invulgar, fazia-o sempre com uma finíssima lâmina de cobre purificada: primeiro, com água de espinheiro alvar, depois, com água de funcho e, finalmente, com água de oliveiras bravias. Depois dobrava-o sobre si, como que pregueado e dando-lhe uma forma circular, e introduzia-o no orifício abdominal donde o cordão irrompia.

Afinal, estava ali o Messias, o verdadeiro Mestre do Amor! todos o acariciavam, como uma delícia oferecida pelo céu.

A pastora Isabel quis ajudar a untar o umbigo com os mesmos unguentos medicinais usados com os cordeiros e enfaixou o Messias com o mais puro e fino linho guardado nas arcas da comunidade. Após estes tratamentos, Madalena e Isabel ajoelharam-se perante o menino que, cansado do choro, adormecera.

Acompanhavam-nas, de pé, com o olhar embevecido, o mestre do Conselho, o oleiro, os quatro escribas da comunidade; um pouco atrás, os pastores João e Tito (piedosos que pastoreavam nas cercanias tinham também ali estado, após o nascimento, mas tinham regressado às colinas e aos vales com o gado), os dois astrólogos que, com o mestre, tinham lido a mensagem da estrela e outros iniciados na seita, ainda muito jovens.

Em coro, cantavam hinos de louvor. O Messias prometido ali estava, como a mais pobre criança nascida na comunidade! Alguns deles, tocaram melodias em flauta e quando apagaram os círios, por um raio intenso de sol ter penetrado por uma fenda da estreita gruta, alguns dos pastores fizeram sair das suas pequenas liras verdadeiras canções divinais. Sem se conter por mais tempo, o Mestre quis encerrar a cerimónia com uma alegre saudação e um glorioso discurso ao Menino, espelho das coisas divinais!

- Nasceu, neste deserto, de abandono e fértil, o Messias, Supremo Mestre do Amor! foi cumprida a promessa, ergue-se um novo centro do mundo! eis aqui, numa humilde esteira de junco, a pedra do Amor e da Imortalidade! o que chega é o Mestre do Amor! acaba de nascer numa gruta da mais perseguida comunidade da Judeia! mas talvez também naquela que mais luta tem dado ao Demónio, ao espírito do mal! os inimigos do Senhor, que são o ódio, a destruição, o sofrimento, combateremos sempre, inabaláveis, até à morte! uma luz nova nos ilumina e todos nos uniremos a ele para combater os sacerdotes do Templo de Jerusalém! há séculos que esperamos este Deus, o Deus do Amor e da pureza. Na firme resolução de não pactuar com a hipocrisia de Jerusalém, refugiámo-nos neste ermítico lugar, ao lado de um Mar estéril e de um deserto avaro de bens materiais! aqui se acolhem crianças órfãs e mulheres solteiras e sem família! com que honra nos cumulastes, Senhor, por terdes escolhido a nossa morada para nascer o vosso Filho, Jesus.»

 

(...)

 

______________________________________________________________________________

 

 

 

 

 

 

 

E O NATAL REPETE-SE

 

DIFERENTE NOS ANOS...

 

E NO MESMO DIA, IGUAL...

 

 É QUE NASCE DE NOVO NOS CORAÇÕES,

 

JESUS!

 

 

Eis aqui três poemas de Fernando Henrique de Passos, que nos fazem nascer de novo, Jesus, no coração:

 

 

 

NATAL 98

 

 

 

É Natal.

Estamos todos um pouco doentes,

Como habitualmente,

Mas estamos contentes,

Porque hoje é Natal,

E, na nossa mesa,

Reluz,

Sobre a alva toalha,

No berço de palha,

O Menino Jesus.

 

 

In As Sete Fases da Lua, Universitária Editora, Lisboa, 2000, pág. 103.

 

 

 

 

 

 

NATAL 2000

 

Oh meu Jesus, meu Menino,

Tu já fazes dois mil anos!

Como conseguiste tu

Manter-te tão pequenino?

 

Nós, homens, crescemos muito,

Somos cada vez piores.

Mas ainda não esquecemos

Aquela gruta em Belém

Onde nasceste por nós,

Tão pequeno, tão risonho,

Mas, dentro do coração,

Com aquele enorme sonho

De ajudares os homens bons

A lutarem contra o Mal.

 

E sabes, Jesus Menino?,

Em cada novo Natal

O teu sonho ganha vida,

Quando um homem se comove

Vendo o teu corpo franzino

Entre Maria e José.

E, passados dois mil anos,

Ainda há homens que lutam,

Ainda há homens com Fé!

 

In Retábulo, Universitária Editora, Lisboa, 2002, pág. 63.

 

 

 

 

 

 

 

 

NATAL 2001

 

Chaque homme dans s