
Este DOSSIER é um humilde contributo do «site» internético «Harmonia do Mundo» para as Comemorações do 90ª aniversário das Aparições de Maria em Fátima
NO 90º ANIVERSÁRIO DAS APARIÇÕES
DA VIRGEM MARIA, MÃE DE JESUS,
NA COVA DE IRIA, EM FÁTIMA
(De 13 de Maio a 13 de Outubro de 1917)
ORAÇÃO À VIRGEM MÃE, SENHORA DA SAUDADE
LINDA ROSA IMORTAL DESSAS TERNURAS,
Ó TU QUE ESTÁS NO CÉU, OUVE OS CLAMORES
E OS BRADOS E OS GRITOS E AS DORES
DO TEU AMADO FILHO. E VÊ SE O CURAS.
VÊ SE O CURAS DO MAL. COM SEDAS PURAS
O LEVA ÀS REGIÕES MAIS INT'RIORES;
AMEIGA-O, DEUSA, AMEIGA-O COM FAVORES,
POR QUE A PENAR NÃO TORNE EM PLAGAS DURAS.
NOS BRAÇOS DO TEU FILHO, HIEROFANTA,
PÕE A ALMA DESTE RÉPROBO, QUE OUTRORA
NO TÁRTARO INFERNAL E NA GARGANTA
SENTIU UM PESO ATROZ, QU'INDA O DEVORA,
POIS TU ÉS FLOR, ÉS DEUSA E ÉS A SANTA,
TU ÉS A ROSA-BELA A QUEM ELE ORA.
A MATER SUSPIRAVA COM TRISTEZA,
DE SEU FILHO O MAU FADO LAMENTANDO,
À SACROSSANTA ROSA PERGUNTANDO,
NUMA ORAÇÃO DE ALADA SUBTILEZA:
"TU DIZ-ME, Ó MINHA ROSA, TU QUE ÉS “DEUSA”,
P'RA QUANDO O PURO CÉU? OH, PARA QUANDO?
NÃO VÊS QUE DE MEU FILHO O FADO INFANDO
ME VAI RASGANDO A CARNE, COM CRUEZA?"
A “DEIA” RESPONDEU: "TEM CONFIANÇA,
POIS A ROSA TEU FILHO HONRADO TEM.
ELE É MEU CAVALEIRO, UMA CRIANÇA
QUE NO MUNDO DA FLORA É PARABÉM."
DISSE A MATER: "ENTÃO, TU DÁS-ME ESP'RANÇA?"
A ROSA RETORQUIU: "EU SOU A MÃE."
MAGNA MARIA
ESSÊNCIA DO MEL, RAINHA
OU QUIMERA DO ALÉM,
TERRA N'ÁGUA ME ENCAMINHA
PARA O MAR DA GRANDE MÃE.
ESSÊNCIA D'AMOR, FERMENTO
À MISTURA COM AZEITE,
DA TERRA O MAR E O LAMENTO
LÁGRIMAS SÃO, COR DE LEITE.
QUE ESSÊNCIA D'AMA, MATRONA,
E CORAÇÕES BEM RISONHOS,
DA TERRA O SAL, DO MAR DONA,
ÉS O PÓRTICO DOS SONHOS.
Paulo Brito e Abreu*
*Estes três poemas da autoria de Paulo Brito e Abreu foram publicados no seu livro Loas à Lua, Editora Sol XXI, Lisboa, 1996, pp. 11, 17 e 64.
A PALAVRA DE JESUS NA MENSAGEM DE MARIA
«Queridos peregrinos, o Evangelho de hoje abre-nos o coração à esperança ao recordar-nos a cena pungente do Calvário em que Jesus, do alto da Cruz, diz ao discípulo amado: "Eis a tua Mãe" (Jo 14, 27).
A partir daí a Mãe de Deus tornou-se a Mãe do homem.
Desde aquele momento teve início a maternidade espiritual de Maria, o mistério da sua maternidade universal, que se traduz − como toda a maternidade − em amor e solicitude pela vida de cada filho.
E a Branca Senhora − como a apresentavam aquelas crianças simples de 7 a 10 anos de idade − demonstrou por elas uma predilecção particular, sinal da sua amorosa preferência pelos pequeninos, os pobres e os doentes.
A Mãe de Deus demonstrava assim que era também verdadeira Mãe do homem.
Completam-se hoje 90 anos das aparições aqui na Cova de Iria e nós queremos pedir a Maria que mostre uma vez mais toda a sua solicitude materna pelos homens e mulheres do nosso tempo, às vezes tentados a esquecerem Deus para se prostrarem diante do "vitelo de ouro" das fatuidades da terra.
Maria sabe que está em risco a salvação eterna dos seus filhos e, por isso, repete o apelo de Jesus: "Arrependei-vos e acreditai no Evangelho" (Mc 1, 15).
A mensagem de Jesus torna-se assim a mensagem de Maria.
É um apelo forte e decidido como aquele que só uma mãe sabe fazer a seus filhos nos momentos importantes da sua vida.
A Maria fomos entregues por seu Filho na cruz, quando Lhe disse num transe de agonia: "Mulher, eis o teu filho"; e, desde aquele momento, o seu coração de Mãe ficou aberto para nós; como aberto ficara o coração do Filho trespassado pela lança do soldado.
Dois corações abertos por um mesmo amor pelo homem e pelo mundo.»
(Excertos da Homilia do Cardeal Ângelo Sodano, Legado Pontifício, nas celebrações alusivas à data, no dia 13 de Maio, na Cova de Iria publicados no Almanaque de Nossa Senhora de Fátima para o ano 2008, pág.68)
«É meio-dia. Vejo a igreja aberta. Tenho que entrar. Mãe de
Jesus, hoje não venho pedir-Vos nada. Nada tenho para
oferecer nem para pedir. Venho somente para Vos poder ver.
Olhar-Vos, chorar de felicidade por saber que sou vosso filho
e que vós sois minha Mãe.»*
Paul Claudel
*In Um Ano com Maria, Paulus editora, Lisboa, 1999, pág.67.
«Maria é a nova tenda de Deus, a teofania mais excelsa de
toda a Bíblia.
N'Ela se humaniza, se transfigura , se revela, se comunica;
e nós, a partir d'Ela podemos elevar-nos e fixar-nos em Deus»*
Carlo Ghidelli
* In Um Ano com Maria, Paulus editora, Lisboa, 1999, pág.111.
SANTA MARIA
Um nome existe, sol de eterno encanto,
que doira a terra e inunda o Céu de luz;
outro não há mais belo nem mais santo,
excepto o do Homem-Deus, o de JESUS.
Nome que estanca a dor e enxagua o pranto,
nome que às almas torna doce a Cruz,
nome que encerra o mais famoso canto:
a Epopeia-Redenção traduz.
Um dia o Arcanjo que baixou da glória
profere-o, como um hino de vitória,
por sobre a terra imersa em luto e dor,
e, ao ressoar, dos orbes na harmonia,
a vez primeira o nome de M A R I A,
o mundo inteiro estremeceu de amor.
P.e Manuel Nunes Formigão
(Visconde de Montello)
(In Almanaque de Nossa Senhora de Fátima para o ano de 2008, pág. 1)
SINAL DE ESPERANÇA E CONSOLAÇÃO*
«(...) Maria é o molde , a forma, que o Espírito Santo usou para formar a perfeita humanidade de Cristo e é o mesmo molde que Deus usa para formar cada um de nós.
Quanto mais vivermos à sua imagem, tanto mais almas poderemos gerar e formar na nossa actividade missionária.
A nossa vocação assemelha-se à vocação de Maria quando, como Ela, acolhemos os últimos e os mais distantes em quem Maria descobre o rosto deformado de seu Filho Crucificado, que tomou sobre si as culpas da humanidade.
Ela, refúgio dos pecadores e consoladora dos aflitos, a todos sabe acolher.
Seremos marianos também nós, se vivermos com este estilo de vida, que é obra do Espírito Santo em nós. (...)
Sobre a misteriosa relação entre o Espírito Santo e Maria nunca ninguém foi tão longe como São Luís Maria Grignion de Montfort no seu clássico "Tratado da Verdadeira Devoção", onde afirma que "com Maria, nela e dela o Espírito Santo formou a sua obra-prima", Deus feito homem, e formará, até ao fim dos tempos, os membros do corpo desta cabeça adorável".
"Quando o Espírito Santo descobre Maria numa alma, voa em direcção a ela, invade-a totalmente, comunica-se tanto mais abundantemente quanto mais espaço esta alma dá à sua Esposa".
"Santo Agostinho chama à Virgem Santa “forma Dei”, a forma, o molde de Deus.
Quem é lançado neste molde divino é imediatamente formado e modelado em Jesus Cristo e Jesus Cristo nele.»
*Excertos do artigo da autoria de Darci Vilarinho publicado na revista Fátima Missionária, Maio de 2007, pág.24.
APELOS SACROS DE FÁTIMA *
«Vós que encheis a minha esperança,
Ó Mãe! Escutai o humilde canto
De amor e de gratidão
Que vem do coração da vossa filha…
Às obras de um Missionário
Uniste-me para sempre,
Pelos laços da oração
Do sofrimento e do amor»
Santa Teresa do Menino Jesus, Obras Completas
«Os adultos têm algo que é certamente diferente de nós…
quer dizer, Deus (…)
Mas isto é seguro: os adultos não estão a preocupar-se
com Ele, pelo que somos nós,
as crianças, é que temos de nos preocupar»
Rainer Maria Rilke, Histórias de Deus
Foi com curiosidade que comecei a ler a obra da Irmã Lúcia, vidente da Cova de Iria, intitulado Apelos da Mensagem de Fátima (Edições Carmelo, Secretariado dos Pastorinhos, 2005). Uma novidade em relação a anteriores revelações? Uma complementaridade dos escritos dados à estampa, há vários anos, e que titulara Memórias? De qualquer modo, o título era apelativo, chamava-se apelos. Além disso, subscrevia-o a vidente de Fátima que escutara as mensagens da Senhora mais brilhante do que o Sol.
De facto, Lúcia recebera, após a publicação das Memórias, uma vasta correspondência de leitores. Todos eles procuravam esclarecer os pontos mais controversos ou obscuros do texto em que dava testemunho escrito das visões e das palavras verbalmente transmitidas na Cova de Iria, nas proximidades da aldeia de Fátima, corria o ano de 1917, pela Senhora que identificou como sendo a própria Virgem Maria, Mãe de Jesus Cristo.
As visões de Maria tinham sido acompanhadas pela simultânea audição de palavras, de palavras estranhas, mas significantes, tão significantes que as entendera, ainda que necessariamente à sua maneira. Segundo o teólogo J. Ratzinger (actual Papa Bento XVI) «a visão comporta simultaneamente uma vertente imaginal e uma vertente comunicacional».(1) E no seu Comentário Teológico ao 3º Segredo de Fátima, Ratzinger diz-nos: «A pessoa é levada para além da pura exterioridade e é tocada por dimensões mais profundas da realidade que se tornam visíveis para ela».(2)
Ao debruçar-se sobre o «Segredo de Fátima», o dominicano e semiótico José Augusto Mourão escreve, bem a propósito, que «cada leitura irá acrescentar o texto, ao ajudar a desdobrar o sentido». Mas, não deixa de se interrogar: «Haverá interpretação fora da violência hermenêutica? Como sair do paradoxo aparente da interpretação, ao mesmo tempo aberta e determinada e da semiose, ao mesmo tempo infinita e contudo decidível?».(3)
Com apenas dez anos e sem cultura religiosa, a pequena Lúcia transmitira, ou seja, traduzira o que escutara, com as dificuldades inerentes à sua condição. Segundo J. Ratzinger tratou-se de um «processo de tradução», próprio de uma «visão interior».
Como declarara aos seus familiares, aparecera-lhe uma Senhora muito luminosa, que dizia vir do Céu. A identificação da Mãe de Jesus Cristo, impôs-se-lhe de imediato. Na perspectiva de Ratzinger, «uma percepção interior, imaginativa» foi captada, «de acordo com as possibilidades da vidente».(4)
Ora, a Irmã Lúcia viu a Senhora resplandecente, entre os ramos sóbrios de uma pequena azinheira. A sua voz vibrara de apelo, de aviso e de mágoa. Ao longo das intervenções feitas, desde Maio a Outubro de 1917, os seus apelos foram recebidos pelo espanto, mas também pela aceitação de três crianças: além de Lúcia, os seus primos mais novos, Francisco e Jacinta estavam presentes e percebiam que Lúcia dialogava com a Senhora de brilho sobrenatural.
Ele, Francisco, escutava a Senhora, sem a ver. Contudo, Jacinta via-a, embora não ouvisse o que dizia. Só Lúcia a via e a escutava, ao mesmo tempo.
Em 13 de Julho de 1917, Lúcia e Jacinta viram, então, a mais terrível das visões: a visão do fogo infernal a provocar grandes sofrimentos nos maus. Com as infernais imagens, a Senhora, donde brotava a nívea luz, mostrava-lhes o castigo que mereciam os pecadores pelos seus actos iníquos. Poder-se-á estranhar que tenham sido crianças, e não adultos, a receber esta assustadora visão. Escolha estranha, sem dúvida, mas talvez, estando cheia de mistério, transpareça, de igual modo, um significado: se nos lembrarmos da predilecção de Jesus Cristo pelos mais pequeninos, os puros de coração, os inocentes, algo se começa a perceber.
As crianças eram puras, por isso, poderiam bem mais facilmente ser capazes de acreditar no que viam e comunicá-lo a todo o mundo, apesar das suas limitações de interpretação. Aqui, o Inferno simboliza o apelo à conversão, ao arrependimento.
O apelo da mensagem de Maria respeitava também ao valor de sacrifícios e de orações, oferecidos ao Altíssimo, como penhor dos pecados cometidos. De acordo com o que Lúcia nos diz neste seu livro, há que fazer muitos sacrifícios para merecermos o Céu. Entre os mais difíceis, sem dúvida, estão aqueles que só são possíveis graças a um espírito com a força de uma grande humildade. Como nos lembra, sacrifícios podem fazer-se todos os dias. E, dá-nos algumas sugestões sobre a possibilidade de os fazer.
Para Lúcia, sacrifício existe quando um espírito é capaz de não responder à ofensa com outra ofensa, quando é capaz de não se impacientar com ambições não alcançadas, quando é capaz de viver sem má disposição ou azedume com aqueles que sabe que o rejeitam, quando é capaz de suportar os infortúnios com abnegação. São esses sacrifícios - verdadeiros actos de penitência - que mais mérito encerram e que, nessa medida, mais são louvados por Deus.
Acerca desta delicada questão, presente nos apelos marianos, J. Ratzinger escreve, no Comentário Teológico já referido, que esses apelos à penitência revelam como é importante para Deus a liberdade humana. Na sua interpretação da mensagem de Fátima, concretiza que, afinal, «todo o objectivo da visão é trazer a liberdade para a ribalta e apontá-la numa direcção positiva. O objectivo da visão não é mostrar um filme de um futuro fixo e irrevogável (…)». Antes, «tem por intenção mobilizar as forças de mudança na direcção correcta».(5)
Uma criança, chamada Lúcia, escuta este importante apelo de Maria, um apelo à renúncia de si mesmo por amor a Deus e à humanidade. A Mãe de Jesus Cristo estava, através da criança, a dirigir-se a toda uma humanidade. Há aqui como uma forma de fazer pedagogia do adulto, e, precisamente, através da infância. O facto de os três pequenos pastores seguirem os ensinamentos da Senhora mais brilhante que o Sol, ao começarem, de imediato, a oferecerem pequenos sacrifícios para salvar do castigo eterno os maus - ela própria Lúcia e os seus primos, Jacinta e Francisco, a quem ela conta tudo aquilo que Lhe ouve - é significativo.
De facto, tudo nas crianças é clareza, tudo nelas é boa intenção e sinceridade. Tudo nelas transmite serenidade, tudo está imbuído de paz e verdade, porque a criança não conhece o que é a guerra, não imagina o que é a crueldade, não prevê a mentira. Para a criança todo o real está repleto de aparência e toda a simples aparência é também real. A realidade confunde-se sempre com a verdade. Porque a verdade envolve a realidade. Por isso, as imagens infernais não assustam os pequenos pastores dos campos de Fátima, antes despertam ainda mais os seus profundos sentimentos de condescendência e de generosidade com o próximo. Eles querem, sem condições, contribuir com os seus sacrifícios para ajudar não os bons - esses não precisam - mas os maus, os que não são capazes de serem bons e, assim, não poderem receber a recompensa no Céu.
Perante a terrível visão, Francisco, Lúcia e Jacinta não fogem, não gritam, não se atemorizam. Antes, ficam tão preocupados com o sofrimento futuro dos maus que, de imediato, na sua grande capacidade para ajudar - generosidade natural na criança -, desejam fazer todos os sacrifícios imagináveis para os resgatar, para os redimir, para os salvar dos terríficos tormentos do Juízo Final.
A autenticidade, a espontaneidade, a ingénua credulidade, e com elas, a absoluta confiança, são as características superiores das crianças, no conceito de Deus, como já o ensinara Jesus Cristo: «Sede como crianças, se quereis entrar no reino do Céu». E, assim, talvez por isto, e também por outras razões cheias de mistério, são escolhidas, para receberem a mensagem da Senhora luminosa vinda do Céu, aquelas três humildes crianças da serra d’Aire, do lugar da pequenina Fátima.
Foram os mais puros dos seres humanos que Deus privilegiou sempre. Agora, mais uma vez, Deus os escolheu para, através deles, a Rainha do Céu transmitir aos homens um reforço da mensagem de Jesus Cristo. A visão infernal fazia os homens avaliarem até que ponto O continuavam a ofender, até que ponto continuavam a transgredir a Sua Lei. Praticavam o mal, sem pensarem que mereciam um juízo implacável para os seus actos iníquos.
Com uma atenção desmedida, cheia de espanto e até de medo, a pequena Lúcia tentava entender o que escutava e o que via, num assombro desmedido. Eram palavras simples que ouvia da Senhora tão brilhante, mas as frases eram difíceis de interpretar. Eram visões de que Lúcia já ouvira falar na igreja, mas tão confusas e tenebrosas que tinha de procurar as palavras que se aproximavam do que vira. As dificuldades eram imensas. E que responsabilidade transmitir as imagens tão perturbantes, e, ao mesmo tempo, cobertas de um emocionante maravilhamento.
Talvez por todas estas inesperadas visões possuírem a força do invisível, a vidente Lúcia só começará a penetrar os apelos da mensagem de Fátima muitos anos mais tarde com o estudo dos Evangelhos, do Antigo Testamento, com o estudo de hagiografias de santos. Tudo isto, quando já se encontrava (desde 17 de Junho de 1921) no Convento das Irmãs Doroteias, em Vilar, perto do Porto. Será a devoção de Lúcia à Senhora das Aparições que acabará por a conduzir das Doroteias - em cuja Ordem ingressou em 2 de Outubro de 1926 - ao Convento da Ordem das Carmelitas, em Coimbra, em 25 de Março de 1948. Contudo, Lúcia teme, ainda, interpretar mal. Acha que algo lhe pode ter escapado da mensagem de Fátima. Solicita, então, a interpretação dos teólogos, pessoas com uma cultura vasta sobre Deus, Jesus Cristo e Maria, Sua Mãe.
Entre azinheiras, oliveiras, carvalhos e sobreiros, no silêncio dos vales húmidos e sombrios, onde a terra tantas vezes enlameava os pés dos pastorinhos devido às fortes e frequentes chuvas, algo de espantoso tinha acontecido! Conforme a interpretação de Joseph Ratzinger - o Papa Bento XVI - , que conversou longamente com Lúcia para se pronunciar sobre as Aparições de Fátima, o que se verificou foi uma «visão interior, que nada tem a ver com uma visão dada pelos sentidos, nem tão pouco com uma percepção intelectual, sem imagens, como a dos místicos». Estas palavras de Joseph Ratzinger - citadas por José Augusto Mourão no seu artigo «O Inferno da Interpretação» - são um esclarecimento ao próprio fenómeno de Fátima, mas são também algo que fica a pairar como uma tentativa de manter a pureza das mensagens escutadas pela vidente, sem, no entanto, as tornar indiscutíveis e absolutas.
Precisamente naquela Cova de Iria - terra que era uma horta de bom rendimento para os pais da pequena Lúcia -, a pequena pastora Lúcia aprendera com a Senhora a fazer uma oração breve, mas de largo sentido interior: “Orai comigo: Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-vos”. Era, um modo de falar com o Pai celestial estranho, e, ao mesmo tempo, tão encantatório quanto eloquente, que vinha da Senhora descida do Céu, como Ela própria dissera.
Esta oração era para a pequena Lúcia e para os seus primos Francisco e Jacinta - todos os dias a acompanhavam no pastoreio das ovelhas - , um apelo à oração ao Pai celestial e uma proclamação da fé, da esperança e do amor que lhe deviam ter. E com que palavras simples queria que se Lhe dirigissem!
Maria, Mãe de Jesus Cristo, é, segundo o testemunho de Lúcia, expresso em Apelos da Mensagem de Fátima, a Senhora que aparece, apelando sempre à oração, ou seja, à palavra que presentifica em nós o Criador. E ensinava-os a orar, sempre de modo simples: “Pai, Filho, Espírito Santo, adoro-vos profundamente”. Um fundo e um forte apelo ao Amor do Pai é recebido pela pequena Lúcia entre as árvores submissas. Esses sobreiros com uma serenidade infinita, essas azinheiras, quem sabe se sem notarem o vento agitado, perante a chegada visível e simples de Maria. Entre elas, uma azinheira foi mesmo escolhida para dar guarida à sagrada visibilidade de Maria, Ela, a Mãe de Jesus Cristo, Ela também escolhida para Mãe de toda a humanidade, como Jesus a proclamou - já pregado no madeiro - , ao discípulo João, que ali estava junto d’Ele, naquele tempo imbuído de um silêncio de morte («Eis aí a tua mãe» Jo 19, 27) e a elevar um rumor imenso de vida.
Os apelos da Senhora luminosa têm um sentido voltado essencialmente para as criaturas que não perdoam, que não amam, que não se lembram do Pai, ou seja, do Criador. Esse Criador que, antes da memória dos tempos, já as amava, por isso as criara e, criara mesmo à Sua semelhança e com o projecto de serem felizes. É que um Pai ama os filhos antes de os filhos o amarem, escreve a Irmã Lúcia. É, pois, um Pai que sofre pelos actos iníquos dos Seus filhos, pelo desprezo com que estes O tratam, se não mesmo pela negação da Sua própria existência.
Em Apelos da Mensagem de Fátima há a nítida intenção de esclarecer o testemunho dado nas anteriores Memórias escritas por Lúcia. Destacando só as frases que considera essenciais, a Irmã Lúcia relaciona-as constantemente com os Evangelhos, com passagens do Antigo Testamento, com Epístolas de S. Paulo ou mesmo com alguns escritos de Santa Teresa do Menino Jesus. Neste ensejo, Lúcia acentua que as palavras de Jesus Cristo são as próprias palavras do Criador do Universo.
“Fazei tudo o que Ele vos disser”, foi a pequena frase da intervenção de Maria, logo no início da vida pública de Jesus Cristo, nas célebres bodas de Caná. Aí, estavam Jesus e Maria com uma presença bem dinâmica, viva e actuante. Não eram uns convidados que apenas assistiam à festa. Mas uns convidados prontos a ajudar, disponíveis para resolver contratempos que fariam ensombrar o ambiente e obscurecer a alegria de todos.
O primeiro milagre de Jesus é, na verdade, um acto em que Sua Mãe orienta, indicando o Seu Filho, numa atitude de protecção e afecto. A alegria do matrimónio não devia sofrer qualquer perturbação. E Maria interveio, aconselhando os donos da casa. Se precisassem de ajuda, deviam recorrer a seu Filho, que estava afinal ali, tão perto de todos. Por isso, aconselha: “Fazei tudo o que Ele vos disser”. Como salienta a Irmã Lúcia, eis a frase lapidar que indicou à família dos esposos de Caná o que deviam fazer para que aquela união fosse selada pela alegria, sem sombra de tristeza. Levar à confiança em Jesus, foi o objectivo de Sua Mãe.
A presença de Maria nas bodas de Caná na Palestina, há dois mil anos, ou nas aparições da Cova de Iria, em Fátima, no ano de 1917, é, para a Irmã Lúcia, o sinal de que Ela é um guia sempre próximo, um guia para orientar o Homem que não respeita o seu Criador - um Criador todo envolto no grande mistério das coisas invisíveis e que é a própria Santidade. Esse Pai perfeito, que, como ensinou Jesus, também deseja o ser humano perfeito. E como é uma atitude natural um Pai Santo sentir-se ofendido com o mal que os Seus filhos sustentam e realizam, cedendo ao ódio e desprezando o bem.
Os apelos da mensagem de Fátima feitos pela Senhora a irradiar uma luz mais forte do que a luz do Sol, procuram chegar ao coração das criaturas. Eles são, para a vidente da «percepção interior, imaginativa» (Joseph Ratzinger), o reflexo de o Espírito Santo ter projectado seres humanos «à Sua imagem e Sua semelhança» (Genesis, 2, 26). Assim, é a unidade entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo que a Irmã Lúcia procura alicerçar no livro que temos estado a analisar em algumas das suas vertentes, pois em muitas outras pode ser motivo de reflexão.
Nesta breve abordagem, notamos que este livro tenta esclarecer, clarificar, tornar simples, realçar o que de mais importante Lúcia escrevera em Memórias (5ª edição, 1987), cujo manuscrito fora concluído em 1935. A transcendência da mensagem obriga Lúcia a oferecer o essencial da «visão percepcionada» na Senhora, pousada por instantes a parecerem eternos, nos ramos de uma azinheira.
É essa Senhora que se auto denomina, numa das suas aparições, «do Imaculado Coração». E, diz-nos Lúcia, a prova da sacralidade da Virgem foi ter concebido um Filho por obra e graça do Espírito Santo. Um Filho que não é mais do que a própria «imagem» do Pai, porque como disse Jesus: “Eu e o Pai somos um”; “O Pai que Me enviou, foi quem determinou o que devo dizer e anunciar”; “quem Me vê (a Mim), vê o Pai”.(6)
É esta ligação de Deus ao ser humano que Maria procura levar a humanidade a reconhecer, sublinha a vidente Lúcia. A aparição a crianças de um mundo rural distante da cultura das universidades e dos letrados, torna-se reveladora da predilecção do Espírito Santo pelos humildes, pelos puros de coração, no limite, pelas mais simples criaturas, as crianças.
Carregada de singeleza e com a sabedoria da palavra breve, sem fastidiosos discursos, a palavra de Maria acaba por ser acessível à pequena Lúcia, a Jacinta e a Francisco (indirectamente). Talvez a escolha de palavras que Lúcia conhecia bem, como pecado, ofensa, inferno, castigo, recompensa, Céu, sofrimento, sacrifício, amor, fosse o segredo do «processo de tradução» (J. Ratzinger) e, depois, da própria interpretação. Com este vocabulário, o Imaculado Coração de Maria fez-se entender, naquele momento, pela pequena Lúcia.
Mas os apelos da mensagem de Fátima terão de ser confrontados com os ensinamentos deixados por Jesus aos Seus Apóstolos. Há que chamar os mais doutos teólogos do Cristianismo, escreve Lúcia, sem reservas e com a grande emoção de ter sido uma humilde intermediária que «traduziu» com todas as suas limitações.
Em 1917, ano das Aparições de Maria, viviam-se ainda os terrores da Primeira Grande Guerra Mundial, cujo fim se desconhecia. Neste contexto, é bem significante o apelo que a Irmã Lúcia escuta da voz da Senhora que fez a sua última Aparição a 13 de Outubro: “Não ofendam mais a Deus, que já está muito ofendido”.(7) A expressão “ofensa” humana a Deus-Pai, é, em todas as mensagens, a razão maior de cada Aparição. Mas, os apelos de Maria provocam uma nova fidelidade, uma outra confiança, um mais forte amor a Deus: “O Verbo fez-se homem e habitou entre nós”.(8)
Na última Aparição, a 13 de Outubro, são feitos dois grandes apelos: um deles, é o apelo à «santificação da família». Este apelo foi representado na estranha visão de «Maria com o Menino Jesus ao colo e José a seu lado».(9) Diz-nos a vidente: «Deus confiou à família uma missão sagrada de cooperação com Ele na Sua obra criadora».(10) Esta visão ofereceu-lhe, acrescenta Lúcia, «o vislumbre da glória que gozam aqueles que já se encontram na posse do Reino de Deus»(11) - esta visão de Maria com o Menino e José a que Lúcia teve acesso, verificava-se ao mesmo tempo que se dava uma outra visão, a do milagre do Sol. Esta outra visão deu-se em simultâneo e, na verdade, sem que Lúcia lhe prestasse grande atenção. Aquilo que a multidão viu foi o espectáculo do «empalidecer do disco solar perante a luz da presença de Deus».(12) A pequena Lúcia via para um além-do-Sol. Na Terra, já penetrava as imagens oferecidas pelo Céu. Assim se compreende que não desse importância ao fenómeno solar. Que era isso em comparação com aquela imagem do pequenino Jesus ao colo da própria Mãe?
Um outro apelo, nesta mesma data de 13 de Outubro, viu-o a Irmã Lúcia na visão de uma Senhora das Dores - ou de todas as Dores -, ou seja, de uma «Mãe que compartilhou essa dolorosíssima Paixão (de Jesus Cristo) como co-redentora (…)». E a vidente revela: «Na manifestação de Outubro Ela apresenta-se-nos sob a imagem da dor».(13)
A Irmã Lúcia dá grande ênfase ao único apelo de Maria a si própria, na anterior Aparição, datada de 13 de Maio: “Jesus quer (…) estabelecer no mundo a devoção ao meu Imaculado Coração”. Acrescentando: “O meu Imaculado Coração será o teu refúgio e o caminho que te levará a Deus”. Este apelo, concretiza Lúcia, realça como «foi neste Coração que o Pai encerrou o Seu Filho, como se fosse o primeiro sacrário (…) e foi o sangue do seu Coração Imaculado que ministrou ao Filho de Deus a Sua vida e ser humanizado».(14) A terminar, Lúcia diz-nos: «Deus encerrou no Coração de Maria a Sua Palavra».
A propósito, J. Ratzinger - Papa Bento XVI - no Comentário Teológico ao 3º Segredo de Fátima, ensina-nos: «o “imaculado coração” é um coração que, com a Graça de Deus, conseguiu uma perfeita unidade interior e assim “vê a Deus”».(15)
Como notámos constantemente ao longo do livro Apelos da Mensagem de Fátima, para a vidente Lúcia, a Mãe de Jesus Cristo é o elo privilegiado da ligação entre Deus e a humanidade. É Ela a artífice da grande amizade entre o Pai, Jesus e cada criatura. É Ela a escolhida de Deus para fazer a ponte entre Jesus e aqueles que repudiam a arrogância. É Ela a Mãe acolhedora daqueles que sofrem por amor à justiça e são puros de coração. É Ela a Mãe de braços abertos para as vítimas da crueldade, do desprezo e da humilhação.
Como escreveu, recentemente, Bento XVI na Carta Encíclica Deus é Amor, publicada pouco depois da sua ascensão ao Papado, «existe uma múltipla visibilidade de Deus. Na história de amor que a Bíblia nos narra, Ele vem ao nosso encontro, procura conquistar-nos (…) incessantemente vem ao nosso encontro, através de pessoas nas quais Ele se revela».(16)
Dirigindo um poema a Maria, o Papa Bento XVI, escreve:
«Santa Maria, Mãe de Deus,
Vós destes ao mundo a luz verdadeira
(…) Mostrai-nos Jesus.
Guiai-nos para Ele.
Ensinai-nos a conhecê-Lo e a amá-Lo,
para podermos, também nós,
tornar-nos capazes de verdadeiro amor
e ser fontes de água viva
no meio de um mundo sequioso.».(17)
Através das crianças, interlocutores privilegiados, por estarem mais próximos da pureza absoluta, que é a condição da santidade, o Imaculado Coração de Maria adverte, avisa, - por meio da criança, ser de eleição para Deus - aqueles que renegam Deus, mas que Deus considera, mesmo assim, Seus amados filhos. A Mãe de Jesus Cristo procura, assim, chegar aos corações daqueles que não acreditam, que desprezam Deus.
O Seu «Imaculado Coração» procurou três crianças para lembrar, de novo, ao mundo, a vontade de Deus. E, procurou precisamente crianças, porque elas deviam ser para os adultos um exemplo vivo de confiança, de fidelidade e de amor.
Hoje, as crianças são a última esperança humana. Nelas está na essência a audácia de confiar e a capacidade de amar as maravilhas do sacro universo que as cerca! E, Maria, Mãe e Rainha do Céu, aparece-lhes na Terra, transmitindo-lhes a dor de um Deus-Pai ofendido, demasiado ofendido, mas também pronto a perdoar cada ser humano que siga as qualidades da infância distante, mas não perdida. Essas virtudes da infância a perdurarem para que muitos possam ser bem-aventurados. Como disse Jesus no Sermão da Montanha, «Bem-Aventurados os puros de coração porque verão a Deus».(18)
Teresa Ferrer Passos*
* Ortónimo de Teresa Bernardino
* Publicado em Revista de Espiritualidade, Edições Carmelo, nº 58, Abril/Junho 2007, pp.139-153, e em Cadernos Vianenses, Câmara
Municipal de Viana do Castelo, Tomo 39, 2007, pp. 241-253.
(1) Citado por José Augusto Mourão «O Inferno da Interpretação - O Segredo de Fátima», Internet, TriploV.com p.4.
(2) Joseph Ratzinger, Comentário Teológico ao 3º Segredo de Fátima in Internet, www.crossroadsiniciative.com/library_article/553, pág.4.
(3) José Augusto Mourão «O Inferno da Interpretação - O Segredo de Fátima», Internet, TriploV.com, p.1.
(4) Ibidem, p.4.
(5) Ob.cit. in Internet, www.crossroadsiniciative.com/library_article/553, pág. 6.
(6) «Evangelho de S. João» in Apelos da Mensagem de Fátima, págs. 62, 63, 77.
(7) Apelos da Mensagem de Fátima, 2005, pág.155.
(8) Ibidem, pág. 136.
(9) Ibidem, pág. 162.
(10) Ibidem, pág. 163.
(11) Ibidem, pág. 195.
(12) Ibidem, pág. 162
(13) Ibidem, págs. 178-179
(14) Ibidem, pág.135.
(15) Ob. Cit., in Internet, www.crossroadsiniciative.com/library_article/553, pág. 5.
(16) Carta Encíclica Deus é Amor de Bento XVI, 25 de Dezembro de 2005, pág 32.
(17) Ibidem, pág.77.
(18) Evangelho de S. Mateus, 5, 8.
[Página Principal]