HARMONIA DO MUNDO

 

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TEOLOGIA / RELIGIÃO 

 

 

TERESA FERRER PASSOS / TERESA BERNARDINO:

A IGREJA E A ANULAÇÃO DO CASAMENTO CATÓLICO

ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA AO CÉU

NOTA SOBRE S. FRANCISCO XAVIER

SANTA TERESA DO MENINO JESUS, NA HORA DA MISSÃO

MADRE TERESA DE CALCUTÁ − 1º CENTENÁRIO DO NASCIMENTO

REVELAÇÃO DE DEUS E POESIA RELIGIOSA

«ALMA MATER», UM CD COM A VOZ DE BENTO XVI

MADRE MARIA ISABEL DA SANTÍSSIMA TRINDADE

RECORDANDO SANTO ANTÓNIO

S. NUNO DE SANTA MARIA

PONDE EM NÓS O VOSSO OLHAR BENFAZEJO (Oração)

PAIXÃO DIVINA

A PROPÓSITO DE... PAZ NA TERRA

ORAÇÃO BREVE A S. JOÃO DE DEUS

O PADRE FORMIGÃO...

O TEMPO EM QUE ESCREVO

APELOS SACROS DE FÁTIMA

A NOVA BASÍLICA EM FÁTIMA

MEMÓRIA DAS APARIÇÕES EM LOURDES

S. PAULO À PROCURA DO SENTIDO DE JESUS

PARA UMA «NOVA IDADE DO MUNDO»

NOVOS SENTIDOS DE UM OLHAR

 

FERNANDO HENRIQUE DE PASSOS:

DEUS À MINHA PORTA

OS MILAGRES E AS LEIS DA FÍSICA

Cristo da capela das Irmãs Concepcionistas ao Serviço dos Pobres, em Fátima

OUTROS AUTORES:

FUNDAMENTOS BÍBLICOS DO CASAMENTO CRISTÃO

AGUSTINA BESSA-LUÍS SOBRE SANTO ANTÓNIO

DIA DE S. JOÃO DE BRITO

PALAVRAS DE ANDRÉS TORRES QUEIRUGA

TOLENTINO MENDONÇA (excertos de entrevista)

PASSAGENS SOBRE O JULGAMENTO DE JESUS

DIA MUNDIAL DAS MISSÕES

O PEDACINHO DE NEVE

CAMINHOS DO SAGRADO

SANTA TERESA DE JESUS

 

ESPECIAL:

CANONIZAÇÃO DOS 40 MÁRTIRES DO BRASIL

CELEBRAÇÃO DA ASCENSÃO DE JESUS AO CÉU

JESUS CRISTO, LEMBRANDO A PALAVRA

VISITA DE BENTO XVI A PORTUGAL

CENTENÁRIO DE OLIVIER MESSIAEN

 

OUTRAS PÁGINAS DE RELIGIÃO:

NATAL DE JESUS CRISTO / 2011

BEATO JOÃO PAULO II

APONTAMENTOS DE DARCI VILARINHO

PÁSCOA 2011

NATAL DE JESUS CRISTO/2010

PÁSCOA 2010

NATAL DE JESUS CRISTO/2009

PÁSCOA 2009

NATAL DE JESUS CRISTO/2008

PÁSCOA 2008

NUNO ÁLVARES, NOVO SANTO PORTUGUÊS

NO 150º ANIVERSÁRIO DAS APARIÇÕES DE LOURDES

90º ANIVERSÁRIO DAS APARIÇÕES DE FÁTIMA

2º MILÉNIO DO NASCIMENTO DE S. PAULO

NATAL DE JESUS CRISTO / 2007

 

 

 

JESUS CRISTO, LEMBRANDO A PALAVRA ...

 

VÍDEO RARÍSSIMO DE ROBERTO CARLOS

 

«Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados»

(Mt 5, 6)

 

«Este povo honra-Me com os lábios, mas o seu coração está longe de Mim»

(Mt 15, 8)

 

«Tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu»

(Mt 18, 18)

 

«O céu e a terra passarão, mas as Minhas palavras não passarão»

(Mt 24, 35)

 

«Falei abertamente ao mundo; sempre ensinei na sinagoga e no Templo, onde todos os judeus se reúnem, e nada disse em segredo»

(Jo 18, 20)

 

«Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados»

(Mt 23, 37)

 

 

 

 

 

 

 

 

Crucifixo… não tenhamos vergonha de o usar, não tenhamos vergonha de ajoelhar numa igreja, não tenhamos vergonha de participar na Santa Missa. E, acima de tudo, não tenhamos vergonha de sermos cristãos de uma só Fé e de um só Rosto.

 

ADEUS AO CRUCIFIXO

 

(clique em "open" ou "abrir" quando lhe for pedido;

carregue na tecla Esc para sair do slide show)

 

 

 

 

 

ALGUNS FUNDAMENTOS BÍBLICOS DO CASAMENTO CRISTÃO,

a propósito da recente questão levantada pelo padre Joaquim Ferreira, aquando da reunião em Fátima da Associação Portuguesa

dos Canonistas católicos, a que preside, ao referir que não se admite que a homossexualidade intermitente de um dos cônjuges,

num casamento católico, seja razão válida para a sua anulação legal:

 

«Põe-me como um selo sobre o teu coração»

Cant VII, 6

 

«O homem que desonra o seu leito conjugal diz no seu coração:"Quem me vê?" (...)

E não sabe que os olhos do Senhor, são milhares de vezes mais luminosos do que o Sol»

Ecli 23, 18-19

 

«Ai dos que decretam leis injustas»

Is 10,1

 

«O Senhor disse: Porque abandonaram a lei que lhes dei, não ouviram a Minha voz,

nem a seguiram; foram atrás da obstinação do seu coração»

Jer 9, 12-13

 

«Assim, os maridos devem amar as suas mulheres como aos seus próprios corpos.

Aquele que ama a sua mulher, ama-se a si próprio.»

«Por isso, o homem deixará pai e mãe, ligar-se-á à mulher e passarão os dois a ser uma só carne»

Ef 5, 28 e 31

 

«Que cada um de vós saiba possuir o seu corpo em santidade e honra.

sem se deixar levar pelas paixões desregradas» (...)

«Que ninguém nesta matéria, defraude ou engane o seu irmão»

«Deus não nos chamou para a impureza mas para a santidade»

1Tel 4, 4, 5 e 6

 

«Mando aos casados que a mulher se não separe do marido»

«Se, porém, se separar, se não torne a casar»

1 Cor 7, 10-11

 

«"Tudo me é permitido" mas nem tudo me convém.

"Tudo me é permitido", mas eu de nada me farei escravo.»

«Fugi da imoralidade. Qualquer pecado que o homem comete é exterior ao seu corpo;

mas aquele que pratica a imoralidade, peca contra o seu próprio corpo»

«Não sabeis, porventura, que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que habita em vós,

que recebeste de Deus, e que não vos pertenceis a vós mesmos?»

1 Cor 6, 12, 18 e 19

 

 

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A IGREJA E A ANULAÇÃO DO CASAMENTO CATÓLICO

 

 

Os Canonistas Católicos das Causas Matrimoniais reuniram-se em Fátima* (16 de Setembro de 2011) com vista a apresentarem os principais motivos que levam a Igreja a anular um casamento católico. O motivo abordado neste ensejo foi a possibilidade de um dos cônjuges ter tendências homossexuais, dentro do próprio casamento, com o outro cônjuge que é heterossexual. Se o cônjuge heterossexual quiser a Anulação do seu casamento apontando não aceitar práticas homossexuais no seu corpo, a Igreja apresenta razões que consideramos inadmissíveis por ferirem o juramento prestado perante Deus durante o ritual do casamento católico.

 

1. A razão para a não anulação do casamento que o padre Joaquim Ferreira, Presidente da Associação do Canonistas para as Causas Matrimoniais, apresenta como válida, na sua conferência, é o facto de a homossexualidade ser uma doença. E doença com vários graus. Desde o grau de constância homossexual a grau de média constância e a grau de prática acidental, ou seja, intermitente, poderíamos dizer nós. Ora, relativamente a este argumento dos canonistas que diz ser a homossexualidade uma doença que atinge vários graus (como se fosse uma doença de coração ou  uma doença cerebral), parece-nos um abuso de avaliação, pois a homossexualidade é uma tendência sexual e não uma doença.

 

2. O padre Joaquim Ferreira refere-se ainda à vida sexual dos casados pela Igreja  Católica como se esta  se reduzisse a uma mera «função sexual». Ora isto é retirar ao casamento católico o seu sustentáculo fundamental: a sexualidade insere-se num contexto amoroso de natureza espiritual em que a doação de um corpo a outro corpo é o reflexo do Amor supremo de Deus. O casamento católico é um casamento perante Deus e abençoado por Ele.

 

3. Uma argumentação deste cariz é uma cedência da Igreja Católica à prática da homossexualidade dentro do próprio casamento católico. E isto é escandaloso, tendo em conta a doutrina cristã católica. É igualmente paradoxal, pois há uma tomada de posição diferente, quando se trata da prática da homossexualidade fora deste casamento. A Igreja recusa o casamento católico de homossexuais. Dir-me-á o padre Joaquim Ferreira que a homossexualidade destes não é acidental ou com baixa frequência. Mas se o argumento é esse, estão considera-se que a gravidade do acto homossexual depende da frequência desse tipo de sexualidade? Porque é pouco frequente ou acidental já não é uma prática homossexual? Já pode praticar-se? Esta hipótese é também incoerente. Nesta conformidade, como é que a Igreja perfilhará as palavras de Jesus sobre o casamento: «Já não são um, mas dois na mesma carne» (Mt 19, 6)?

 

4. O argumento da natureza patológica da homossexualidade, evidenciada pela brandura dos graus (graus da doença) de gravidade desta, será argumento suficientemente válido para que a Igreja não aceite um pedido de Anulação do matrimónio pelo cônjuge que se sente ofendido? Não é esta argumentação falaciosa? Não será aqui usado um embuste inqualificável, vindo esse embuste da palavra de eclesiásticos de Direito Canónico como o padre Joaquim Ferreira?

  

5. A possibilidade, aventada na reunião dos Canonistas Católicos, de esses cônjuges não cumpridores dos princípios sexuais pelos quais se rege o casamento católico, guardarem castidade nos dias em que a sua tendência sexual aflora, é julgar que o cônjuge que não aceita a tendência homossexual, fica indiferente à infidelidade do outro cônjuge e ao compromisso assumido, não sentindo dolorosamente o seu amor frustrado. É obrigá-lo a aceitar submissamente os desejos perversos do outro, pois foi uma falsidade comprometer-se a assumir um casamento de acordo com os princípios católicos. A Igreja parece aqui desconhecer até que ponto o cônjuge não respeitado na sua confiança, se sente escandalizado. Como disse Jesus, «Ai do homem por quem vem o escândalo» (Mt 18, 7).

 

6. Os Canonistas esquecem-se de que as relações entre um homem e uma mulher num casamento celebrado pelo ritual católico exigem uma relação de amor na fidelidade e na confiança mútua, o que não se pode compadecer com cedências de má fé. A lei da Igreja procura ignorar igualmente o que significa um dos cônjuges confrontar-se com uma situação que se concretiza no próprio quarto onde dormem um ao lado do outro. Isto não deve ser mesmo equiparável a uma infidelidade que lhe é exterior. Na verdade, é uma infidelidade que está dentro, que se vive na maior intimidade da união matrimonial. A homossexualidade, mesmo intermitente ou acidental, é uma escolha sexual como qualquer outra prática sexual não aceite pela moral cristã, moral essa que não pode deixar de estar presente no casamento católico. 

 

7. Quer o Antigo Testamento, quer o Novo Testamento revelam claramente que o único casamento aceite aos olhos de Deus é o heterossexual. Assim, não se pode concordar com este consentimento tácito proposto pela Igreja Católica em relação a qualquer espécie de homossexualidade no casamento católico, tendo, afinal, esta como único objectivo da sua argumentação, evitar a Anulação do casamento solicitada pelo cônjuge que foi defraudado na aliança de um amor depositado na confiança mútua. O cônjuge homossexual, pura e simplesmente, atraiçoou o outro, logo no momento do casamento, ao jurar-lhe fidelidade, ainda para mais perante Deus. Sabia que se tratava de um vínculo de mútua doação de corpos na heterossexualidade.

 

8. Esta legislação eclesiástica que não permite a Anulação do casamento católico à custa de uma aceitação sacrificial da vítima, é uma perversão, uma falsidade, uma hipocrisia. E como Jesus censurou a hipocrisia com firmeza! Lembremos algumas palavras Suas: «Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, formosos por fora, mas por dentro cheios de ossos de mortos, e de toda a espécie de imundície. Assim também vós, por fora, pareceis justos aos homens, mas, por dentro, estais cheios de hipocrisia e de iniquidade» (Mt 23 27-28). A aliança quebrada por um dos membros do casal é tão despropositada e agressiva para o outro, que só poderá contar com a misericórdia divina, que não a humana, precisamente porque é humana.

 

23 de Setembro de 2011

 

Teresa Ferrer Passos

* Fonte: Agência Ecclesia

 

 

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1195-1240

 

«"Assim como a flor quando espalha o perfume não se corrompe, também o verdadeiro humilde não se eleva quando louvado".* Louvam-no, não unicamente porque a sua língua bendita exalta o Senhor, mas porque ele opera nas almas uma estranha mudança; é uma espécie de expectativa que se introduz nas suas vidas. De que fala o Santo? Sossega-os nos seus lamentos, dá satisfação às suas opressões, anima-os nas suas guerras, resgata-os nas suas dívidas, sustenta-os nas suas fomes»

 

Agustina Bessa-Luís, Santo António, Guimarães Editores, Lisboa, 1973, p.149

 

* Filho da fidalga D. Teresa Tavera e de Martins de Bulhões, recebeu no baptismo o nome de Fernando Martins de Bulhões. Viviam em casa própria no bairro da Sé, em Lisboa. Fernando frequentou a escola da Sé e até aos 15 anos viveu com os pais e com uma irmã de nome Maria. Aos 20 anos professou nos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho em Lisboa, no Mosteiro de São Vicente de Fora. Nesta ordem monástica prosseguirá os seus estudos teológicos. Rumou a Coimbra ao mosteiro de Santa Cruz, onde tinha à sua disposição a melhor biblioteca monacal do País.

 

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ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA AO CÉU

(15 de Agosto)

 

 

 

 

«Antes de conceber o Senhor no corpo,

Maria já o tinha concebido na alma»

Santo Agostinho

 

O Anúncio do nascimento do Filho de Deus a Maria é um aviso, uma preparação, um saber prévio. Ela nada sabe dos desígnios de Deus, ela de nada suspeita. Ela viveu até àquele momento o momento escolhido por Deus como qualquer outra jovem mulher. Ela nada sente de diferente em si, ela julga-se igual a qualquer outra pessoa.

 

Afinal, Deus tinha-a escolhido desde que nascera. O pecado não a habitara apesar de ela estar no mundo. Aquela jovem da Palestina seria, pela vontade de Deus, a mãe de Seu Filho. A missão seria redimir o mundo humano pelo sacrifício da Sua própria morte no suplício da cruz seguido da sua ressurreição, ao terceiro dia. Seu Filho, devia chamar-se Jesus, diz-lhe o anjo. Ele venceria a morte do corpo ao ressuscitar e, com esta vitória venceria o pecado. O pecado que era a origem da morte do corpo e da consequente perda da eternidade desse mesmo corpo.

 

Como declara o anjo, Maria era a mulher «cheia de graça» e «o Senhor estava com ela» (Lc 1, 28). O anúncio do anjo coloca-a como um receptáculo «de graça diante de Deus», ao dar ao mundo o Filho do Altíssimo: «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1, 38). A comunhão absoluta com Deus manifesta-se de imediato. Quanta felicidade a habita. A confiança nas palavras que escuta, fá-la acreditar em tudo o que lhe era transmitido do Alto. Dirá algum tempo depois: «O meu espírito exulta de alegria em Deus que olhou para a humilde condição de sua serva» (“Magnificat”, Lc 1, 47). Ela sempre se sentira pronta a cumprir a vontade de Deus, pronta de um modo que até parecia já conhecer o que Deus lhe destinava. Ela sente agora como Deus dividia com uma mulher, precisamente ela, o mistério da salvação do mundo caído no pecado.

 

A mulher escolhida por Deus para ser a arca que acolheria Seu Filho, na sua passagem entre os homens, está ali perante um anjo que fala em nome do Altíssimo. Aos seus olhos humanos está perante um impossível que só a Omnipotência de Deus pode resolver. A verdade é que ela «não conhecia homem». Como daria à luz um filho? Só Deus o pode fazer, e como Maria o sente! A Deus, Maria dirigirá, pouco tempo mais tarde, estas palavras: «É Santo o Seu nome e a Sua misericórdia vai de geração em geração para aqueles que lhe são fiéis» (“Magnificat” Lc 1, 49-50).

 

Mas naquela hora, no tempo que Deus achou oportuno, o anjo esclarece-a: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a Sua sombra. Por isso mesmo é que o Santo que vai nascer há-de chamar-Se Filho de Deus» (Lc 1, 35). Tudo estava revelado, em primeiro lugar, a Maria. O mistério daquela maternidade anunciada pelos profetas da Palestina, deixava de o ser. A partir de agora ela sente-se a cooperante, a unida à intimidade de Deus por uma maternidade maior. Uma maternidade que unia o sagrado ao humano, de um modo mais fundo e nunca alcançado, desde a criação do Homem. Nesta hora nova, Deus e o humano comungavam do segredo da Salvação e da vida eterna de uma forma inteiramente revolucionária.

 

Ser a mãe de Seu Filho «muito Amado» foi aceite por Maria com uma comunhão cheia do espírito de Deus. A partir daquela hora, ela sabe que o seu corpo será um cálice de barro para receber na terra o Filho do Altíssimo. Só a própria encarnação divina poderia salvar o homem do pecado. Assim, Maria é a primeira testemunha humana da divindade de Jesus, a primeira e maior cooperante dos desígnios divinos. Coopera logo com a sua alma, como diz Santo Agostinho. Como se havia de verificar nas célebres Bodas de Caná, será também Maria a ter o primeiro lugar, ao ser a primeira pessoa a pedir a Jesus um milagre e é a ela que Jesus o realiza, apesar de, como lhe respondeu inicialmente, «não ter chegado ainda a sua hora».

 

O diálogo entre o divino e o humano impunha-se de forma bem visível; a face de Deus, presente na face de Jesus, Seu Filho, torna-se próxima do Homem. A força da maternidade oferece a Maria um estatuto que não pode deixar de passar pelo divino. Uma mulher escolhida pelo Espírito Santo entrega o seu corpo para guardar o Filho de Deus. A subida à esfera da própria divindade fá-la ver com a clareza dos olhos de Deus: «Derrubou os poderosos dos seus tronos e exaltou os humildes. Encheu de bens os famintos e aos ricos despediu-os de mãos vazias» (“Magnificat” Lc 1, 52-53).

 

Se Deus era o rei do Céu, Maria só podia ter a qualidade de rainha do Céu. Se Jesus, após a morte na cruz ascenderia ao reino de Seu Pai, a Maria, após a sua morte, como poderia ser recusada por Ele a sua assunção, ou seja, a sua integração, de corpo e alma, no Céu? Se Maria era a Mãe do Filho do Omnipotente, como lhe poderia ser recusada a ressurreição dos mortos, tal como acontecera a seu filho Jesus, após a sua morte terrena?

 

Maria terá morrido crivada pelos sofrimentos do filho na cruz, de acordo com a tradição, pouco depois de Jesus. Então, Deus a recebeu, em corpo e alma, assumindo-a no Céu, como Mãe de Seu Filho. Assim, Maria vai ser o primeiro ser humano a alcançar a ressurreição da carne em corpo e alma, antes do cumprimento das promessas de ressurreição dos mortos a todos os humanos, por Jesus.

 

Como nos lembra Santo Agostinho, «antes de conceber o Senhor no corpo, Maria já o tinha concebido na alma». De facto, Maria ao receber a grande notícia do anjo naquela hora bendita, aceita espiritualmente a maternidade de Jesus. Só depois o Espírito Santo «virá sobre si» e «com a sua sombra» a fará conceber esse Filho, a que deverá chamar Jesus, que significa aquele que salva.  

 

Um lugar de eleição estava-lhe destinado por Deus. Através de Maria, Deus intervém no mundo, mantendo as leis do mundo. As palavras de Maria deixadas nessa bela Oração, a que se chamou “Magnificat”, não deixam de reflectir já a sua eminente presença futura no reino do Céu, na sua integridade de corpo e alma: «Desde agora todas as gerações me hão-de chamar ditosa porque me fez grandes coisas o Omnipotente» (Lc 1, 48-49). Maria sente o futuro a ser presente nela.

 

A Assunção em corpo e alma de Maria foi idêntica à de seu filho, com a diferença de que Ela não Ascendeu ao Céu como Jesus, porque ela foi escolhida por Deus como humana e não descera do seio do Pai como Jesus. Dai, não se poder chamar Ascensão. Mas a festa da Assunção de Maria ao Céu, celebrada desde, pelo menos, o princípio do século VII, não devia ser esquecida por aqueles que hoje se sentem seguidores de Jesus Cristo e, em consequência, por todos aqueles que veneram sua Mãe, como Mãe de todos nós: «Eis aí a tua mãe» (Jo 19, 27), proclama Jesus ao Apóstolo João, antes de expirar.

 

Esta celebração da Assunção de Maria ao Céu tornou-se um dogma oficial da Igreja Católica com o Papa Pio XII, no ano de 1950. Assumida  por Deus como mãe de seu Filho e como mãe da humanidade, o Altíssimo haveria, com a sua justiça infinita, de ressuscitar o seu corpo e alma, mesmo antes de todas as outras criaturas.

 

15 de Agosto, dia da Festa da Assunção de Nossa Senhora

 

Teresa Ferrer Passos

 

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CANONIZAÇÃO DOS 40 MÁRTIRES DO BRASIL

 

 

«Apareceram jesuítas que derramaram o sangue no exercício das suas funções missionárias, quer no Brasil quer a caminho dele, como o glorioso grupo dos 40 Mártires (Beatos Inácio de Azevedo e Companheiros) em 1570; logo no ano seguinte o P.e Pedro Dias e onze companheiros; e em 1643 o P.e Luís Figueira com um abundante séquito de missionários. (...) As missões do Norte foram férteis em ministrar ao estabelecimento do cristianismo, entre os naturais do Brasil, o sacrifício da vida (Ceará, Maranhão e nas fronteiras do Brasil com a Guiana francesa).»

 

Serafim Leite S. I., Suma Histórica da Companhia de Jesus no Brasil (1549-1760),

Lisboa, 1965, pp. 171-172.

 

 

 

Trata-se de 40 jovens jesuítas, quase todos entre os 20 e os 30 anos de idade, que se dirigiam de barco para o Brasil, a fim de ajudar na sua evangelização, mas que, nas Ilhas Canárias, foram interceptados por navios de calvinistas que, sabendo que eles eram missionários católicos, os deitaram ao mar. Era o dia 15 de Julho de 1570.

Chefiados pelo Padre Inácio de Azevedo, 32 eram portugueses e oito espanhóis. Os 32 portugueses provinham das seguintes 25 terras: Alcácer do Sal (Francisco de Magalhães; Alcochete (Manuel Rodrigues); Borba (Domingos Fernandes); Braga   (Brás Ribeiro e João Fernandes); Bragança (Nicolau Dinis); Celorico da Beira (Manuel Fernandes); Ceuta (Manuel Pacheco); Chacim (Bento de Castro); Chaves (Pedro de Fontoura); Covilhã (Francisco Álvares); Elvas (Aleixo Delgado e Álvaro Mendes); Entre-Douro e Minho (João Adaucto); Évora (Luís Correia e Luís Rodrigues); Estremoz (Manuel Álvares); Fronteira (Pedro Nunes); Lisboa (João Fernandes); Marco de Canaveses (Amaro Vaz); Montemor-o-Novo (António Fernandes); Nisa (Diogo Pires); Ourém (Simão Lopes); Pedrógão Grande (Diogo de Andrade); Porto (Inácio de Azevedo, Gonçalo Henriques, Simão da Costa, António Correia e Gaspar Álvares); Santa Maria da Feira (Marcos Caldeira); Trancoso (António Soares); Viana do Alentejo (André Gonçalves);

 

Com vista à sua canonização, cada um destes Mártires merece a memória, a devoção, a imitação e a homenagem dos seus conterrâneos, que, por sua vez, se devem sentir orgulhosos deste seu glorioso antepassado, reconhecido pela Igreja Universal, a nível mundial.

Sugerem-se algumas iniciativas possíveis em cada uma destas localidades: - venerar uma imagem do seu Beato (ou dos 40) numa capela ou numa igreja; - dar o seu nome a uma rua, praça ou outro local público; - dar o seu nome a uma instituição escolar, cultural ou religiosa; - dedicar uma capela, igreja ou paróquia à sua protecção; - celebrar a sua festa com novena ou pelo menos com missa solenizada e pregação; - dispor de um escrito com a sua vida ou resumo dela, para distribuir ao público; procurar que, na oferta turística, cultural ou histórica da região ou da localidade, haja uma referência ao Beato, ali nascido e ali venerado; - preocupar uma “associação” ou um “grupo” de jovens pelo estudo e divulgação da sua vida, promovendo iniciativas em sua honra; etc.

Os Serviços da “Causa de Canonização dos Mártires do Brasil” estão disponíveis para colaborar onde foram requisitados.

 

* * *

 

Estes mártires foram beatificados pelo Papa Pio IX, em 11 de Maio de 1854. Para a sua canonização, é condição necessária que o seu culto seja reconhecido como permanente entre o povo cristão. Mas será melhor ainda se, por seu intermédio, Deus manifestar a sua intervenção, através de um milagre autêntico. Para isso, vamos pedir a Deus a canonização destes jovens e heróicos missionários, modelos para a nossa juventude.

 

Algum material de apoio disponível:

- Os 40 Mártires do Brasil – Eduardo Kol de Carvalho, Braga, 2011.

- Velas ao Largo – Maria da Soledade, 1970.

- Uma Glória Nacional – 1961.

- Raízes Terrestres dos 40 Mártires – Ernesto Domingues, 1971.

- Três quadros dos Mártires, formato A4 – a cores.

- “História e Novena” (folhetos) – cada 10 exemplares.

 

Comunicação de graças obtidas, envio de donativos para ajuda da Causa de Canonização, pedidos de celebração de missas por intercessão dos Beatos em geral ou de um deles em particular:

 

Causa de Canonização dos Mártires do Brasil

Estrada da Torre, 26

1750-296 LISBOA (Portugal)

E-mail: martires@netcabo.pt

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CELEBRAÇÃO DA ASCENSÃO DE JESUS AO CÉU

 

Fonte: Blog Presentepravoce

 

 

«[Jesus] Depois, levou-os até junto de Betânia e, erguendo as mãos, abençoou-os.

Enquanto os abençoava, separou-se deles e elevava-se ao Céu.

E eles, depois de o terem adorado,

 voltaram para Jerusalém com grande alegria.

E estavam continuamente no Templo a bendizer a Deus»

Lc 24, 50-53

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«Depois do evento Cristo Ressuscitado, ocorre o retorno do Filho de Deus ao Céu, pois uma vez vindo de Deus, também para Deus haveria de voltar. (...) Primeiro Jesus peregrina por vários lugares em sua missão, passa pelo suplício do Calvário, morre, ressuscita e se ascende ao céu. (...) precisamos entender que a celebração da Ascensão nos garante o cumprimento da missão de Jesus na terra como o enviado de Deus. Sua subida para o alto não é algo que vai demonstrar para nós uma distância definitiva, mas ao contrário, nos faz crer que, Jesus estando junto do Pai, se faz ao mesmo tempo, presente na vida de todos os filhos de Deus. “Ele está no meio de nós” e sempre estará, “Cristo ontem, hoje e sempre”.
                                                                                                                                             Padre Wagner Augusto Portugal (5/6/2011)

Fonte: Rádio Vaticano online
 

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«Quinta-feira da Ascensão celebra a Ascensão de Jesus ao Céu, depois de ter sido crucificado e de ter ressuscitado. Ocorre cerca de quarenta dias depois da Páscoa, e é sempre a uma quinta-feira. E, também, sempre nessa data, celebra-se o Dia da Espiga ou Quinta-feira da Espiga. Tradicionalmente, de manhã cedo, rapazes e raparigas vão para o campo apanhar a espiga e outras flores campestres. Com elas, formam um ramo com espigas de trigo, folhagem de oliveira, malmequeres e papoilas. O ramo pode também incluir centeio, cevada, aveia, margaridas, pampilhos, etc.»

Fonte: Blog Wild Berry

 

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DIA DE S. JOÃO DE BRITO. 20 ANOS DA MORTE DE PEDRO ARRUPE

1.   Hoje é dia de São João de Brito, mártir em Oriyur, na Índia, por propagar a fé cristã na zona do Madurai (Estado de Tamilnadu), por defender o matrimónio monogâmico (como São João Baptista). Foi decapitado (como São João Baptista), em 4 de Fevereiro de 1693.

 

Já no cárcere, desde o dia 31 de Janeiro, escreveu no dia 3, ao Superior da sua Missão: “A culpa de que me acusam vem de ser que ensino a lei de Nosso Senhor, e de nenhuma maneira hão-de ser adorados os ídolos. Quando a culpa é virtude, o padecer é glória”. Que São João de Brito nos inspire a sua fé, a sua dedicação ao Evangelho e a sua coragem e determinação.

 

Nasceu na Mouraria em Lisboa, junto ao Castelo, numa casa que foi abalada no terramoto de 1755, mas que foi reconstruída. Está-se a tentar que, ao menos parte dela, se constitua numa espécie de “Casa-museu de São João de Brito”, para poder receber visitantes e devotos e espalhar o conhecimento e a devoção a este grande missionário, santo e mártir lisboeta e jesuíta.

 

2.   Amanhã, cumprem-se 20 anos sobre a partida de outro “santo”, o Padre Pedro Arrupe. Cremos que será canonizado um dia. Foi o Padre Geral dos Jesuítas, que passou o tempo do Concílio, manifestando sempre uma grande abertura aos novos tempos, contra certos ventos e certas marés, muito presas ao passado ou às burocracias. Constituiu uma aragem fresca do Evangelho que Deus enviou à Companhia, à Igreja e ao Mundo, nas décadas de 79 e 80.

 

4/2/2011

 

João Caniço S.J.

 

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«Mesmo o crente pode fazer perguntas ao seu Deus, afirma o teólogo [Andrés Torres Queiruga] . “Temos o direito a perguntar porque é que, sabendo que o mundo iria ter o mal, Deus criou o mundo... É a mesma pergunta que um filho pode fazer ao pai ou à mãe. Porque, apesar do mal, pensamos que a existência vale a pena e podemos fazer o bem. Se Deus me cria livre, é para exercer a minha liberdade.”

A experiência do amor completa a da liberdade: “Deus, ao criar-nos, quer ser consequente com a sua criação, está a apoiar-nos na nossa luta contra o mal. E aí podemos ficar mais felizes com a felicidade do outro do que com a própria.”»

 

Fonte: António Marujo, «A religião traz a felicidade ou ela já está no cérebro?» in Público, 24 de Dezembro de 2010

 

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O NATAL, a contemplação e a vida,

na palavra do  PADRE J. TOLENTINO DE MENDONÇA

 

 

 

«É muito estranho que Maria tenha escolhido uma manjedoura para colocar o seu recém-nascido porque a manjedoura é o lugar onde os animais se alimentam, um sítio que consideraríamos impuro. E o Evangelista tem a noção disso porque diz que Maria enfaixa o Menino e o coloca sobre a manjedoura.

 

A manjedoura tem uma grande importância porque tem a ver com uma passagem do profeta Isaías (I, 3) que diz: "O boi conheceu o seu dono e o jumento a manjedoura do seu Senhor, mas o meu povo não me conheceu".

 

Então, o boi , o jumento e a manjedoura contam uma história que é de descrença e que pode ser de fé. Nós somos chamados a conhecer quem é o Senhor, e Aquele Menino que na sua fragilidade, na sua pobreza, nos aparece, é verdadeiramente o Senhor da História.

 

Que Deus se dê a ver numa fragilidade tal, é alguma coisa que nos obriga também a desconstruir tudo aquilo que sabemos de Deus e que sabemos do homem porque ali se mostra que é na fragilidade e no dom que nós tocamos o essencial do mistério da vida»

 

Fonte: Excertos da entrevista concedida pelo Pe. José Tolentino Mendonça Teólogo e Poeta   ao programa Ecclesia (RTP2) em 24 de Dezembro de 2010.

 

 

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Francisco Xavier nasceu em Navarra, em 1506. Foi missionário em Goa, Malaca, Japão e China, entre outros lugares, onde converteu mais pessoas ao cristianismo do que outro qualquer missionário, desde S. Paulo. Com vários milagres realizados ao longo do seu apostolado no Oriente, morre na ilha de Sanchoão na China (antes de Macau, foi domínio português),  em 3 de Dezembro de  1552. Mais tarde, os seus restos mortais foram encontrados incorruptos. Transferidos para a Basílica do Bom Jesus em Velha Goa, no ano de 1647, aí continuam hoje. Canonizado pelo Papa Gregório XV em 1622, é Padroeiro das Missões ao lado de Santa Teresa do Menino Jesus.

 

3 de Dezembro de 2010

T. F. P.

 

 

«Oração pela conversão dos infiéis»

«Deus eterno, Criador de todas as coisas, lembrai-Vos que as almas dos infiéis são obras de vossas mãos, e que são feitas à vossa imagem e semelhança. Vede, porém, Senhor, como em desdouro do vosso Nome o inferno se enche destas almas. Lembrai-Vos que Jesus Cristo, vosso Filho, derramou todo o seu Sangue e padeceu morte atrocíssima por elas. Não permitais, pois, Senhor, que o vosso Filho seja por mais tempo desprezado pelos infiéis. Deixai-Vos antes aplacar e mover à piedade pelas orações de vossos Santos e da Igreja, esposa de vosso Santíssimo Filho. Lembrai-Vos da vossa misericórdia e, esquecendo a sua idolatria e infelicidade, fazei que também eles enfim conheçam a Jesus Cristo, Nosso Senhor, que é nossa Salvação, Vida e Ressurreição nossa, e por quem fomos livres e salvos, a quem seja dado honra, glória e louvor para sempre.»

                                                                                                    São Francisco Xavier

 

 

 

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SANTA TERESA do MENINO JESUS, NA HORA DA MISSÃO

 

 

«Sabeis, Senhor que a minha única ambição é fazer-Vos conhecer e amar», escrevia Teresa do Menino Jesus e da Santa Face numa passagem da oração pelo padre Maurice Bellière[1]. Nessa curiosa oração por um seminarista, a iniciar a sua actividade de missionário, sobressai um carinho muito especial pelo jovem fraco, que tem de vencer as tentações de uma vida nem sempre marcada pela espiritualidade, mas que acaba por querer ser sacerdote, sacerdote missionário.

 

Lembremos também um passo da carta em que Teresa lhe escreve estas palavras: «Ó meu Jesus! Dou-Vos graças por realizardes um dos meus maiores anseios, o de ter um irmão, sacerdote e apóstolo»[2]. A «Apóstola» de Jesus regozijava-se por aquele que sentira a vocação de ir por toda a terra divulgar «o Caminho, a Verdade e a Vida», tal como se definira o próprio Jesus Cristo. Escreve ainda Teresa, nesta carta: «Que o seu sublime apostolado se exerça já sobre aqueles que o cercam, que ele seja um apóstolo digno do vosso Coração Sagrado»[3].

 

A missão é, para a autora, a estrela que deve guiar todos os caminhos da fé. Mesmo num convento contemplativo, em que a oração tudo envolve, tudo oferece e distingue como expressão suprema do amor a Deus, Teresa sente a importância da palavra quando deseja incarnar o pregador que tudo defronta para espalhar a doutrina salvadora de Jesus, a imagem incarnada de Deus. E Jesus fora o primeiro a anunciar a importância de converter as almas perdidas, as almas sem sede de Deus e, por isso, mergulhadas no pecado.

 

Como Teresa do Menino Jesus e da Santa Face desejava poder divulgar por todas as gentes do mundo, «grego, romano, homem livre ou escravo», a palavra da Boa Nova vinda, através de Jesus, de Deus. É na carta ao padre Bellière, que ela confessa, no seu ardoroso entusiasmo: «Divino Jesus, escutai a oração que Vos dirijo por aquele que quer ser vosso missionário. Guardai-o no meio dos perigos do mundo»[4].

 

De facto, Jesus viera à terra, não para condenar os pecadores, mas, precisamente, para os salvar. Por isso, não deveria Teresa, ela própria, ajudar a fazê-Lo chegar aos que O desconheciam? Como seria feliz, se lhe fosse dada a oportunidade de defrontar todos os perigos, os mais terríveis, os mais cruéis, os suplícios maiores, a tortura, o martírio para falar aos pecadores de Jesus e enchê-los da Sua divina graça.

 

Ser missionária! Que ambição desmedida, pensava, ela tão fraca, tão minada pela tuberculose! Mas, se fosse possível… Então, a sua vida alcançaria o ponto mais alto, na imensa dádiva ao serviço de Deus. Escreve: «plantar no solo infiel a tua Cruz gloriosa, anunciar o evangelho nas cinco partes do mundo, ser missionária não apenas durante alguns anos, mas desde a criação do mundo e sê-lo até à consumação dos séculos»[5]. Eis o programa da jovem carmelita, exposto ao longo das páginas dos seus manuscritos.

 

Quando surge a oportunidade de apadrinhar um jovem missionário antes da partida, ressurge o seu entusiasmo, flagrante nas palavras ditas nos seus cadernos íntimos: «O Martírio, eis o sonho da minha juventude, este sonho cresceu comigo sob os claustros do Carmelo. Mais uma vez sinto que o meu sonho é irrealizável»[6].

 

Na hora da viagem que ela própria não podia fazer, pensa que o “seu missionário” não podia claudicar ao levar na sua voz e no seu coração, levar a toda a gente, Jesus, o Deus feito homem, expressão da luz mais brilhante do Amor. Mas levá-lo especialmente àqueles a quem faltava essa graça enorme de guardarem em si o sentimento-chave da vida: o amor, o único veículo que, transpondo as fronteiras do mal, conduzia a Deus.

 

A missão era, para Teresa, um culminar do seu caminho para o Pai, um fechar do seu percurso de aperfeiçoamento humano na direcção do reino dos céus. O aperfeiçoamento do seu caminho na terra precisava de se completar na missão desempenhada na distância das suas irmãs em Lisieux. Mas, como seguir por esses caminhos árduos, como seguir por aí, se ela era uma «alma tão pequenina, tão impotente», e a essa sua pequenez se juntava um corpo debilitado, consumido pela tuberculose que a prostrava cada dia com mais intensidade?

 

Agora, parecia-lhe que «as doces amarguras do martírio»[7] lhe estavam vedadas; contudo, dali, da sua pequenina cela, podia, apesar dos seus sofrimentos físicos, orar e apoiar o trabalho de um jovem missionário. Dirigir-lhe palavras de incitamento, fazer orações exortativas, grandes orações que «abrasavam com fogo de amor». Devia, mesmo ao longe, louvar o sacrifício e a entrega a Jesus daqueles que faziam conhecer o nome de Deus.

 

Havia que dar a conhecer o nome de Jesus, sem fugir do combate, sem medos cobardes. Era-lhe essencial não deixar sem a sua palavra escrita os padres missionários que tinham seguido para o Oriente. Mas não era só pelos missionários, os padres Roulland ou Bellière, que Teresa pedia o auxílio divino, mas, como acrescentava, «por aqueles que hão-de crer em Vós por meio do que lhes ouvirão dizer»[8].

 

A palavra certa, a palavra iluminada, a palavra ditada pelo Espírito Santo, eis o segredo da palavra do grande conquistador de almas, conforme sonhava Santa Teresa do Menino Jesus e da Santa Face, apesar de viver entre as paredes frias do convento de Lisieux e a grave doença que a esgotava. Esperava, em breve, a última noite da sua vida. E nessa noite, gostaria de começar uma oração assim: «Glorifiquei-Vos sobre a terra; levei a cabo a obra que me destes a realizar; fiz conhecer o Vosso nome àqueles que me destes: eram vossos, e destes-mos. Agora conhecem que tudo o que me destes veio de Vós; porque lhes comuniquei as palavras que me comunicastes, receberam-nas e acreditaram que fostes Vós que me enviastes (…)»[9]. Desde essa hora visionária, Santa Teresa do Menino Jesus tornava-se, com um saber vindo do céu, a Padroeira Mundial das Missões.

 

1 de Novembro de 2010

 

Teresa Ferrer Passos

 


 

[1] Santa Teresa do Menino Jesus, Obras Completas, Edições Carmelo, Marco de Canaveses, 1996, p.1081.

[2] Ibidem.

[3] Ibidem.

[4] Ibidem.

[5] Santa Teresa do Menino Jesus, Manuscritos Autobiográficos, Livraria Apostolado da Imprensa, Porto, 1960, p. 231.

[6] Ibidem.

[7] Ibidem, p. 237.

[8] Ibidem, p.312.

[9] Ibidem.

 

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MADRE TERESA DE CALCUTÁ

 

1º CENTENÁRIO DO NASCIMENTO

 

1910-2010

 

 

 

 

«Onde há seres humanos, há pessoas que têm fome de amor. Tu conheces as pessoas do teu meio, que vivem ao teu lado, que têm fome de amor, que te estão a pedir amor e que têm necessidade de ternura e atenções?»

Madre Teresa de Calcutá

 

 

 

Agnes Gonxha Bojaxhiu nasceu, em 26 de Agosto de 1910, na cidade de Skopje, actual capital da República da Macedónia. Aos doze anos desejou, pela primeira vez, ser missionária. À juventude dedicada aos estudos superiores em literatura inglesa, aliaram-se a leitura e a interpretação dos Evangelhos. A Boa Nova do Reino de Deus começava a ecoar na voz e nos actos de Agnes Gonxha.

Com os valores supremos revelados pelo Mestre, a mulher das vestes brancas debruadas de azul, foi construindo na “Casa do coração puro”, a plenitude do seu amor fraternal. O amor ao próximo cresceu na alma daquela professora, à beira da paixão pelos seres humanos mais solitários e desamparados.

No amor, pensava, o mais insignificante ser humano valia um tesouro. Havia que segui-lo, seguindo Jesus. Havia que amá-lo, amando Jesus. Havia que procurá-lo nas ruas e nos becos da miséria da cidade de Calcutá, a cidade magnífica em que os miseráveis, tantos deles doentes incuráveis, proliferavam. Havia que doar-lhes a carícia do gesto, a ternura da palavra e a esperança do amor de Deus.

 

 

Depois da sua experiência monástica na Congregação de Nossa Senhora do Loreto, a vontade de instituir uma nova Ordem, impôs-se-lhe. Toma o nome de Teresa em homenagem a Santa Teresa de Lisieux, depois sua padroeira. Especialmente vocacionada para dar o amor nas ruas eivadas de miseráveis,  surge, em 1948, a Ordem das Missionárias da Caridade. Erguia-se, então, uma fortaleza de amor ao próximo com uma nova prática, uma nova acção. Uma primeira dinâmica foi levada a efeito a favor dos excluídos da sociedade indiana.

As Missionárias da Caridade expandiram-se por muitos países de um mundo humano em que as leis do capitalismo sufocaram as leis de Jesus, as leis de Deus. Mas em que ainda era possível romper com os circuitos antagónicos à fraternidade entre os homens. Missionária fundadora, Madre Teresa de Calcutá, nome que a imortalizou, foi a obreira incansável até à paragem do seu coração, no dia 5 de Setembro de 1997. Um coração cansado, mas ainda entusiasmado como no primeiro dia, a oferecer-se todo aos que estavam mais sedentos de amor.

26 de Agosto de 2010

Teresa Ferrer Passos

 

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Palavras do Papa Bento XVI EM PORTUGAL:

 

 

Encontro com a Cultura,

 Centro Cultural de Belém,

Lisboa (12/5/2010)

 

«PARA NÓS A VERDADE É DIVINA E TEM EXPRESSÃO HUMANA EM JESUS CRISTO»

 

«A IGREJA FAZ-SE DIÁLOGO. O DIÁLOGO É UMA PRIORIDADE NO MUNDO»

 

«FAZEI COISAS BELAS E TORNAI AS VOSSAS VIDAS LUGARES DE BELEZA»

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Homilia dirigida aos sacerdotes na cerimónia de Vésperas

 na Igreja da Santíssima Trindade, em Fátima (12/5/2010)

 

«OS SACERDOTES SÃO RESPONSÁVEIS PELO ANÚNCIO DA FÉ»

 

«AJUDAI-VOS POR MEIO DA  ORAÇÃO»

 

AOS SEMINARISTAS: ESTEJAM CONSCIENTES DA GRANDE RESPONSABILIDADE QUE VÃO ASSUMIR»

 

«SOMOS LIVRES PARA SER SANTOS»

 

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Discurso dirigido a membros de organizações de acção Pastoral Social,

na igreja da Santíssima Trindade, em Fátima (13/5/2010)

«AS INICIATIVAS QUE VISAM TUTELAR [proteger] OS VALORES ESSENCIAIS E PRIMÁRIOS DA VIDA, DESDE A SUA CONCEPÇÃO, E DA FAMÍLIA, FUNDADA SOBRE O MATRIMÓNIO INDISSOLÚVEL DE UM HOMEM COM UMA MULHER, AJUDAM A RESPONDER A ALGUNS DOS MAIS INSIDIOSOS E PERIGOSOS DESAFIOS QUE HOJE SE COLOCAM AO BEM COMUM»

 

 

 

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REVELAÇÃO DE DEUS E POESIA RELIGIOSA

 

 

«O Desejo nasce a partir do seu “objecto”, é revelação»

 

«A necessidade é um vazio de Alma, parte   do sujeito»

 

«A religião é Desejo. (…) É o excedente possível numa sociedade de iguais, o da gloriosa humildade, da responsabilidade e do sacrifício, condição da própria igualdade»

 

«A sociedade com Deus não é uma adição a Deus»

 

Emmanuel Levinas, Totalidade e Infinito, pp. 49 e 51.

 

 

«Que venha o teu tempo, Deus, / o teu dia, / não amanhã, / mas hoje»1. Nestes versos recentemente publicados em O Nome e a Forma escapa das palavras o desejo de Deus. Nesta obra, José Augusto Mourão, poeta, religioso, semiólogo, toca e irradia a força do ser-criatura no confronto e na comunhão com o ser-Criador. A invocação que é usada  nos poemas aqui vindos a lume, repete-se sem cansaço. O tema é o diálogo com Deus, numa procura incessante e obstinada da verdade que é o Desejo da alma, no sentido positivo do termo Desejo. Confrontando o conteúdo destes poemas com o livro Totalidade e Infinito de Emmanuel Levinas, encontramos uma das possíveis chaves de O Nome e a Forma.

 

 

Nesta obra de poesia religiosa, vive o tempo de Deus a mergulhar na sua criatura, a chamá-la, a procurá-la, a escutá-la. Há uma epifania repetindo-se e, ao mesmo tempo, em constante tempo regenerado ou resgatado pelo próprio Deus. O tempo de Deus é aqui um Desejo inocente, cheio de pureza, da sua criatura, que sem necessidade, porque Deus não lhe faz falta, parece procurar o que, afinal, não é mais do que ser a procurada. O Desejo da criatura, não uma necessidade da criatura, porque se o fosse, o Desejo em vez de construir num sentido benfazejo, destruía; em vez de oferecer, afastava, em vez de se transcender, descendia, ou seja, degradava-se. Seria uma necessidade. E a necessidade é insaciável de uma felicidade que pertence à esfera do egoísmo, do servir-se e não do servir. Na necessidade não reside a generosidade. Nela está presente o exclusivo interesse do sujeito e não o apelo do objecto exterior ao sujeito.

 

Como pensa o filósofo Emmanuel Levinas, o Desejo de Deus é algo de bem diferente da necessidade de Deus. O necessário não é mais do que «um vazio de Alma» e pertence ao sujeito que exige sempre algo porque lhe falta, porque não possui o que está no Outro. Mas o Desejo, pertencendo à esfera do objecto, neste caso Deus, é Bom porque, nada lhe faltando, o procura. O Desejo de Deus está presente em O Nome e a Forma. Há aqui como que um excedente. Ora, um excedente, não sendo algo que faz falta, é algo que se acrescenta por revelação, como elucida Emmanuel Levinas. Quando José Augusto Mourão invoca Deus faz sempre uma chamada do fora para o interior e não o contrário.

 

É neste contexto metafísico, no contexto da relação da criatura com o Criador que podemos inserir a obra de José Augusto Mourão O Nome e a Forma, recentemente publicado na editora Pedra Angular. Lembrem-se estes versos, a título de exemplo, pois muitos outros poderiam ser respigados: «quando voltamos os olhos para Deus / que não está no céu, / mas no mistério da vida infinita, / inimaginável, / donde Ele vem e se faz próximo»2; ou, «onde devemos esperar-Te, Deus da surpresa / (...) / Deus dos que não têm voz nem barcos / (...) / Deus gratuito onde estás? / (...) / onde apareces, Deus amigo dos pobres, / onde te acharemos, Deus libertador?» do poema «Deus absconditus»3.

 

A procura de Deus envolve em O Nome e a Forma o desvendar do seu Nome oculto, desde os começos do mundo, e, mesmo assim, à beira das palavras que deformam e que nas suas simulações ou desvendamentos intrínsecos, ainda assim transmitem sentidos: «descemos cada dia do monte da Ascensão / encobertos pela Nuvem e pelo Nome»4; «dá-nos (...) / a graça de continuar mesmo às escuras / (…) à procura do teu Nome»5; «toma-nos pela mão, Deus, / e que a nossa vida se ponha de pé / a caminho do teu Nome, / Deus do nosso consentimento / e do nosso louvor»6.

 

Mas o Nome não está isento de um Rosto: «dá-nos a graça da revelação do Rosto»7; ou: «seja o teu rosto / o brasão da casa, / a alegria, o mosto / na aflição, a asa»8. Entre o Nome e o Rosto, José Augusto Mourão traça  as linhas de um sagrado que, imerso no profano, não abdica de todo um ritualismo litúrgico circunstancial e sem tempo. As expressões linguísticas dos poemas denunciam um jogo entre transcendência e imanência. Apenas alguns exemplos: páscoa, ofertório, o pão, o vinho, o anjo, epifania, salmo, tempo de adventos, momento penitencial, quinta-feira santa, comunhão, oblação, entre outras, fazem transparecer o valor dos ritos a confluir entre si, como se fossem vários rios que tentassem chegar a um imenso oceano, que neste ensejo nos serve de metáfora para designar o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Como escreve Emmanuel Levinas, «A sociedade com Deus não é uma adição a Deus»9. A sociedade com Deus parte mais do objecto do que do sujeito, surge mais do fora provocador, ou seja, que fala, do que do dentro pobre e pequeno demais.

 

Das invocações ao exortativo, do penitencial ao louvor, os poemas aqui reunidos desvelam o autor, quer na sua específica univocacidade eclesial, quer no seu convívio inevitável com um mundo enganoso e vão. Um mundo que vive para contradizer a dimensão humana do espírito e que vê em Jesus uma pesada pedra de tropeço de que é necessário libertar-se.

 

14 de Janeiro de 2010

 

 Teresa Ferrer Passos

 


1 José Augusto Mourão, O Nome e a Forma, Pedra Angular, Lisboa,  2009, p.177.

2 Ibidem, p.240.

3 Ibidem, p.24.

4 Ibidem, p.221.

5 Ibidem, p.236.

6 Ibidem, p.72.

7 Ibidem, p.239.

8 Ibidem, p.152.

9 Emmanuel Levinas, Totalidade e Infinito, Edições 70 (Edição original, 1980), Lisboa, 1988, p.51.

 

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«ALMA MATER», UM DISCO COM A VOZ DE BENTO XVI

 

Um CD de louvor à Virgem Maria e a Jesus foi recentemente publicado pelo Vaticano. É, sem dúvida, uma belíssima aposta discográfica levada a cabo sob a égide do Papa Bento XVI, cujo gosto pela música erudita é bem conhecido. Com composições de músicos contemporâneos como Simon Boswell, Stefano Mainetti e Nour Eddine Fatty, o CD alcança uma notória unicidade de tons e sons, aparentemente menos consentâneos, pois se as influências ocidentais são predominantes, não se abdicou de aí incluir as de origem no Próximo-Oriente.

De grande beleza  em «Alma Mater» são as vozes dos coros e a voz «cantabile» de Bento XVI. À profundidade rítmica da Academia Filarmónica de Roma junta-se a notável soprano Yasemin Sannino.  Música de sonoridades subtis, os cantores dos coros oferecem uma finíssima e encantatória melodia, a que se juntaram as frases impregnadas de poeticidade do Papa. Todo o conjunto das suas intervenções parece elevar-se até aos confins do espaço celestial, sem se perder dos espaços humanos.

Das passagens recitadas por Bento XVI, destacamos apenas a primeira das que constam do folheto que acompanha o CD:

«A fé é amor, e portanto cria poesia e música. A fé é alegria, e portanto cria beleza.

As catedrais não são monumentos medievais, mas sim edifícios vivos onde nos sentimos "em casa": encontramos Deus e encontramo-nos com os outros. Tão pouco a grande música o canto gregoriano, ou Bach ou Mozart é uma coisa do passado, pois vive da vitalidade da liturgia e da nossa fé.

Se a fé está viva, a cultura cristã não se torna "passado", antes permanece viva e presente. E se a fé está viva, também hoje podemos responder ao eterno imperativo dos salmos: "Cantai ao Senhor um cântico novo".»

 

T. F. P.

28/12/2009

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MADRE MARIA ISABEL DA SANTÍSSIMA TRINDADE

 

UMA MULHER DE MÃOS ESCANCARADAS

 

 

O desenho do branco desenha-se na larga e seca planície. A forma das pequenas casinhas caiadas confunde-se com a claridade branca do Sol. No Monte do Torrão, aldeia de Santa Eulália (a poucos quilómetros de Elvas), onde nasceu, em 1889, Maria Isabel recebera as palavras do Evangelho desde a infância. Uma fascinação pelas artes toca o coração de Maria Isabel. Com uma cuidada educação dada por seus pais, inscreve-se na Escola de Belas-Artes de Lisboa. Mas a arte de amar é mais forte. Regressa ao seu solitário Alentejo. Em 1912, tem vinte e três anos. É, então, que contrai matrimónio com João Pires Picão, seu primo. Vão viver para S. Domingos, também a pouca distância de Elvas. O amor ao esposo é agora a sua meta e o seu contentamento.

 

Generosa, tudo dá de si porque dar é a sua vocação maior. Os anos passam na serenidade das soalheiras e das sombras macias dos sobreiros. Sem filhos, dedica-se inteiramente ao marido que, entretanto, adoece, sem sinais de recuperação. Com extremoso amor, Maria Isabel oferece-lhe o melhor de si. O agravamento do seu estado de saúde, debilita-a. Quer parecer forte ao olhos do esposo.

 

O cansaço abate-a, mas não a faz desistir de lutar. De têmpera combativa, procura o auxílio da oração. Suporta a cruz com abnegação. Mas o esposo sucumbe. A sua morte aparece-lhe como um fim inevitável. Na hora do seu falecimento fica paralisada, não sabe que sentido tem a sua vida sem aquele amparo que durara dez anos, sem ter recebido a dádiva de um filho. Sente a solidão na sua alma generosa, pronta para servir. Tem  trinta e três anos. Corria o ano de 1922. Inconformada com o falecimento do esposo ainda tão jovem, ao longo de onze anos dá apoio à Igreja de Santa Eulália. Em 1934 entra nas Dominicanas de Clausura de Azurara, mas a falta de saúde leva-a a regressar à terra natal. Pouco tempo depois, em 1936, a Casa de Retiros em Elvas é-lhe entregue  pelo arcebispo de Évora. A partir da atribuição desta responsabilidade, Maria Isabel vai doando generosos bens a essa obra. 

 

A guerra civil espanhola prolongava-se pelo ano de 1939. Em Espanha, as Ordens Religiosas eram perseguidas pelas forças comunistas. As Irmãs Concepcionistas de Clausura de Santa Beatriz da Silva refugiam-se na zona de Santa Eulália. Tomando conhecimento da sua situação, logo Maria Isabel oferece as suas casas para as acolher. Dialogando longamente com as Irmãs daquela Ordem sente que a vontade do Pai devia ser o grande guia das acções humanas porque «só devemos querer uma coisa: que se cumpra em nós a sua santíssima vontade».

 

Pela primeira vez desde a morte do marido, sente-se fortemente ligada a uma comunidade monástica. Presta toda a atenção às palavras sábias das Irmãs de Santa Beatriz da Silva. Escuta os seus pontos de vista sobre a Ordem a que pertencem, sobre os seus objectivos. Sabe que a Imaculada Conceição é um alento maravilhoso para o culto divino. As palavras das Irmãs espanholas da Imaculada Conceição de Santa Beatriz mostram a Maria Isabel que a Ordem podia ser mais activa, mais dinâmica se tivesse a dimensão humana de auxiliar os pobres, os mais desamparados na sociedade.

 

Na verdade, a  Ordem de Santa Beatriz era de cariz contemplativo. Juntar à oração a acção, a prática do auxílio material, seria alargar a construção da Casa do Espírito Santo. Os pobres precisavam, nestas paragens alentejanas, de bem mais assistência. A seara de Jesus exigia esse serviço. «Ninguém nos pode tirar Deus dos nossos corações; e com Deus nunca seremos pobres nem abandonados» escreveria Maria Isabel.

 

A vida de Maria Isabel orientava-se, agora, no sentido da dádiva dos seus bens aos pobres desse Alentejo solitário e pouco afortunado. Por que não fundar uma Ordem que unisse o espírito contemplativo ao da acção? «É certo que nada vales, mas comigo, tudo vencerás», eis as palavras que escutava bem dentro do seu coração. Unido a ela, Jesus dava-lhe a esperança de conseguir lançar uma nova Ordem. A cada instante, sentia Jesus incutindo-lhe perseverança apesar das dificuldades a vencer.

 

Agora sentia-se uma mulher capaz de renascer se fosse possível lançar os fundamentos de uma Ordem de Nossa Senhora da Conceição ao Serviço dos Pobres, tudo conforme o espírito de S. Francisco de Assis.  As dificuldades não se fizeram esperar. Mas, «o sacrifício dará fruto a seu tempo», pensa  Maria Isabel nas horas de desalento.

 

Uma excepcional força anímica vivia ainda em Maria Isabel para não vacilar ante os obstáculos. Acredita, com firmeza: «A oração dispõe-nos para a Graça»*. Em 1939, a Congregação das Irmãs Concepcionistas ao Serviço dos Pobres estava já a erguer-se. Construção lenta, mas fundada na esperança que não se deixa vergar pelos tempos nefastos. De facto, só a 5 de Julho de 1955, o Papa Pio XII aprovava a fundação do novo instituto religioso. É nesse mesmo ano que Madre Isabel faz a sua Profissão Perpétua.

 

Vencendo quem se opunha aos seus desígnios, a Madre Maria Isabel da Santíssima Trindade, assim rebaptizada na religiosa senda,  realizava o último e grande sonho da sua vida: entregar aos pobres todos os seus bens e com esses bens formar uma Congregação para os servir. Ao criar a Congregação das Concepcionistas ao Serviço dos Pobres, as suas riquezas multiplicavam-se, todo o património de que era detentora foi entregue à nova comunidade religiosa. Os bens doados foram a terra fértil para concretizar o sonho de Maria Isabel: servir o Pai mesmo para além da planície larga desse Alentejo em que nascera.

 

Ao Serviço dos Pobres nada se perde, tudo é restaurado e dá fruto até ao fim dos tempos. Sete anos após a aprovação papal, Madre Maria Isabel da Santíssima Trindade terminava a sua obra nessas terras de trigais a perder de vista. A morte punha fim aos seus incansáveis trabalhos, a favor dos mais abandonados, no ano de 1962. Em 1998, foi pedida a sua beatificação.

 

As orações daqueles que nela esperaram auxílio, na doença ou na pobreza, têm sido escutadas. No reino do Espírito Santo terá continuado a velar pelos mais desprotegidos. A beatitude revelara-a já em vida. Revestida de beatitude continuará no céu, nesse céu donde Jesus lhe sussurrava a Sua Vontade. E que era, afinal, a maior ambição de Madre Maria Isabel da Santíssima Trindade: ajudar os pobres. Como ela soube pôr em prática aquilo que Jesus dissera ao homem rico: «vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu» (Mc 10, 21). Como ela terá meditado nas Bem-Aventuranças do Sermão da Montanha, das quais lembramos apenas uma das que mais a terá sensibilizado: «Bem-aventurados os mansos porque possuirão a terra» (Mt 5, 5). 

 

28 de Dezembro de 2009

Teresa Ferrer Passos

 


* Todas as citações foram retiradas da Novena à Serva de Deus Madre Maria Isabel da Santíssima Trindade, Évora, 2008.

 

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RECORDANDO SANTO ANTÓNIO

 

NO DIA MUNDIAL DAS MISSÕES

 

 

O espírito de Frei António ficou perturbado. Tinham sido martirizados cinco franciscanos portugueses, em Marrocos. Ao ver os seus cadáveres decapitados, quando estava no mosteiro de Santa Cruz em Coimbra, no ano de 1220, tomou uma rápida decisão: ingressar na Ordem Franciscana a que aqueles pertenciam. Era preciso evangelizar as terras do Norte de África.

 

Depois de ter tido formação jurídica, filosófica e teológica na Sé Catedral de Lisboa e no Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, sentia-se preparado para levar o nome de Cristo muito além. A Ordem Franciscana seria aquela onde mais fácil seria pôr em prática os seus desígnios. A verdade é que professara na Ordem de Santo Agostinho, por volta de 1211. Era preciso mudar para uma Regra que lhe desse mais poder de manobra nas lides da missão.

 

Com o ingresso na Ordem de S. Francisco de Assis, o entusiasmo pelo seu novo trabalho conduziu-o ao embarque com destino a Marrocos. Mas a alegria de lá ter chegado transformou-se em desalento. Ao ficar gravemente doente, os seus superiores da Ordem Franciscana acharam melhor que ele regressasse a Lisboa. A sua saúde frágil parecia ter sido fortemente abalada pelas duras condições da região marroquina.

 

Na hora da angústia obedece. Então, Frei António embarca rumo a Lisboa, a sua terra natal. Mas os desígnios de Deus não eram esses: Frei António, afinal, não deveria regressar à pátria. O barco em que seguia desviou-se para o sul de Itália devido a perigosa tempestade. Com vinte e poucos anos, o seu estado de saúde melhorou.

 

Por este tempo, conhecera a necessidade de pregadores por aquelas terras. Resolveu, então, começar pela cidade de Bolonha. Aqui, várias heresias, como a dos Cátaros e a dos Valdenses, eram populares, estavam a aumentar o número de adeptos, cresciam a um ritmo que o assustou. É aqui que Deus quer a sua presença. Espantosos sermões chamam para junto dele cada vez maior número de pessoas. Estas, seduzidas pela sua bonomia e vontade de as ajudar contra os mil e um obstáculos que se lhes punham, acabam por o idolatrar.

 

Agora, Frei António apercebe-se de que tudo isto é a força da vontade divina. Aqueles que o começam a ver sempre com a ternura de um pai que leva ao colo o seu filho, tornam-se a razão dos seus ensinamentos. E não pára de se deslocar. Numa correria louca, faz por todo o lado espantosos sermões. Ficou célebre o título que recebeu: "Incansável Martelo dos Hereges".

 

Também outro país, a França, precisava de um grande missionário contra a heresia. Ali, a Igreja fundada por São Pedro não estava em perigo menor de sucumbir. Pregou então contra os Albigenses em várias cidades daquele país, como Marselha ou Toulouse. A partir de 1228, com a canonização de Francisco de Assis, Frei António regressa a Itália. Sem nunca abandonar os seus estudos de natureza contemplativa, a pouco e pouco, ia dando lugar à pregação junto das gentes. Fora necessário enveredar pela palavra junto das multidões, agora em Bolonha, Florença, Milão, Verona, etc.

 

Sem se deixar vencer pelas adversas condições da época, chegou, já exausto, à cidade de Pádua. Corria o ano de 1231. Nesta cidade, viveu a Páscoa desse ano como se a fraqueza física que o atingia não fosse motivo para suspender a evangelização. As regiões da Europa, a pouco e pouco, tinha-se afastando da Igreja de Roma. Frei António não podia desviar-se um só instante da divulgação do Evangelho de Jesus Cristo e de Sua Mãe Santíssima.

 

Achando que a doença não podia afastá-lo do seu ideal, nada o afastava da missão. Imobilizado no leito, continua a "pregar" junto daqueles que o tinham ouvido, enquanto fora possível manter-se de pé. As suas palavras ecoavam nos milhares que o tinham escutado em França e em Itália. A fé na sua palavra e na sua doação ao próximo, parecia adiar a sua morte.

 

Contudo, mais uma vez, Deus tinha outro desígnio para o fogoso missionário da Europa.  Em 13 de Junho desse mesmo ano, Frei António falecia na cidade de Pádua. Regressava agora à Pátria, não do seu nascimento, mas àquela que ele próprio tinha prometido, em nome de Jesus Cristo, aos seus vastíssimos auditórios.

 

Da sua morte aos nossos dias, a sua figura continua a ser motivo de veneração, de esperança e de protecção. Desde a Itália a muitos pontos do mundo, aquele que seria canonizado um ano depois da sua morte, é motivo de oração. Àquele que junto de Cristo conseguira tantas milagrosas dádivas para o povo, nem a morte foi capaz de fazer esquecer.

 

O defensor da fé e da sua pureza recebeu títulos de honra, como os de "Oficina de Milagres",  "Maravilha da Itália, Honra das Espanhas, Glória de Portugal" ou "Santo Protector dos Enamorados".

 

Santo António de Lisboa é um dos maiores exemplos da vocação missionária. E Portugal sente que ofereceu um Santo ao mundo.

 

18 / 10/2009

Teresa Ferrer Passos

 

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DEUS À MINHA PORTA

 

 

Deus está lá fora. À minha porta. Eu estou cá dentro. E digo que Deus não tenta falar comigo. Que Deus não me dá o mais ínfimo sinal. Que Deus provavelmente nem existe. Mas, se olhar bem para o fundo de mim mesmo, vejo. Vejo que sei que Deus está lá fora. À minha porta. E vejo ainda mais. Vejo que não lhe abro a porta por temer ter de renunciar a muitas coisas. Coisas a que estou excessivamente agarrado. Mas olhando ainda mais fundo dentro de mim mesmo, vejo. Vejo que todas essas coisas, a que tanto apego tenho, são pechisbeque ao pé dos tesouros não sonhados que Deus tem para me oferecer. Se eu O deixar entrar. Mas eu ponho cada vez mais trancas e ferrolhos na minha porta. Com medo que Ele force a entrada contra a minha vontade. Mas também isto eu sei. Sei que Ele nunca o faria. Porque me respeita. Mas sofre por me ver sofrer. E sofro, de facto. Sofro com o medo de perder o pechisbeque. Sofro com a ânsia de acumular mais pechisbeque. Pechisbeque. O cintilante pechisbeque com o qual o Diabo me enfeitiçou. O sórdido pechisbeque que o Diabo me vendeu. Em troca de mim mesmo.

Deus permanece. Deus permanece lá fora. À minha porta. Esperando que eu o deixe entrar. E continuará à espera. Até ao meu último suspiro.

 

8/6/2009

 

Fernando Henrique de Passos

 

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PONDE EM NÓS O VOSSO OLHAR BENFAZEJO!

(Oração para os doentes)

 

Somos doentes Pai, ponde em nós o Vosso olhar benfazejo! Tende piedade dos males que trespassam os nossos corpos. Não deixeis que a doença adormeça os nossos sentidos. Ávidos de vida, vemo-nos a tropeçar nas pedras dos caminhos. Prontos para vencer, o nosso corpo perde as forças vitais. A dar vida a sonhos impossíveis, acrescentamos as obras do espírito. Com as nossas forças a resvalar até aos abismos, nada queremos perder de Vós. Sabemos que a Vossa Casa não é um simples fumo. Somos doentes Pai, aliviai-nos da dor que cansa! Com o Vosso olhar, dai-nos uma alma nova! Com as Vossas mãos, elevai-nos à santidade! Com a Vossa boca, dai-nos um ânimo heróico! A nós doentes que Te damos graças em dias longos, dias cheios de oração!

E quem somos nós? Pai, nós somos as mães com medo de morrer porque a morte nos separa dos pequenos filhos! Nós somos os velhos com saudades do mundo, até mesmo antes de morrermos! Nós somos os jovens que perderam a saúde e queremos servir-Te melhor do que antes da sua perda! Nós somos as crianças a resvalar para a morte, e com fome e sede e um pântano de injustiças… Pai, consolai-nos, a cada um de nós, com o eco ou o espelho ou a verdade, com o que acheis melhor que transporte as largas planícies da Vossa Paciência!

  Abril/2009

                                                                                                Teresa Bernardino

 

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A PROPÓSITO DE…

«Glória a Deus nas alturas e paz

na terra aos homens de boa vontade»

 

 Na comunicação social, mais precisamente, na Antena 2 (Programa Império dos Sentidos), o cronista Pedro Malaquias teceu considerações que achei distorcidas sobre esta célebre frase bíblica (29/1/2009). Fiz, assim, uma breve reflexão sobre ela.

A «Glória a Deus nas alturas» alude a uma glória que é essencialmente um projecto, uma construção que a ideia de Deus pressupõe, mas nos ultrapassa. Nós não podemos entender de que glória se trata. O que é a glória de Deus é um mistério para o ser humano. A glória de Deus tem um significado que transcende o homem, não podemos defini-la concretamente, porque Deus nos transcende. Mas podemos intuir através da Palavra de Jesus Cristo de que é algo que passa pela humildade, pelo sofrimento, pelo sacrifício, pela dor, pela humilhação, pela pobreza, pelo limitado, pelo fraco, pelo vencido, pelo puro de coração. A glória de Deus está nas alturas porque o homem está na base da montanha, não está no cume. No cume da montanha está o conceito de glória de Deus. Os critérios divinos não se coadunam, a maior parte das vezes, com a estreiteza das ambições economicistas e com elas consumistas e hedonista (a sociedade do bem-estar, do ócio e do negócio) de dimensão breve no tempo, esse tempo que os homens estão insistentemente a contabilizar, como se só esse tempo existisse.

A segunda parte da frase, «e paz na terra aos homens de boa vontade» não se refere a uma solicitação a Deus de paz para os homens bons e de guerra para os homens maus, violentos, nefastos para os «homens de boa vontade». Estes, que serão, em princípio, os bons de quem Deus gosta, a quem Deus deve proteger, não podem ter a paz só por eles próprios. Na verdade, nunca «os homens de boa vontade» poderão ter alguma paz, se os outros, ou seja, os homens de «má vontade», revoltados, inclementes, perversos, existirem no mundo. Nunca haverá paz para os «homens de boa vontade» se aqui não for pressuposto que os homens de má vontade ou violentos se converterão «à boa vontade». Enquanto existir um homem violento, não haverá «homens de boa vontade», em paz. A paz não pode passar por uns, sem passar por outros. A paz é uma construção que não aliena ninguém, porque a minha paz passa sempre pela tua paz e a tua paz passa sempre pela minha paz. Assim, a frase, sendo um pedido a Deus de «paz para os homens de boa vontade», não pode deixar de ser também um pedido a Deus de uma paz universalista, para todos os homens. É um pedido a Deus lembrando os homens de boa vontade. Parte-se do princípio que a existência dessa minoria que não merece viver na guerra, justificará a transformação dos «homens de má vontade» em «homens de boa vontade» para que, desse modo, não sejam esses os destruidores da paz dos «homens de boa vontade», vitimando-os, fazendo-os perder a paz porque a violência dos maus aniquila «a paz dos homens de boa vontade» e, por isso, não faz sentido dizer que a frase só solicita a paz para os que já são bons. Os bons só podem ter paz, se os maus se lhes juntarem no Bem.

 

Lisboa, 29 de Janeiro de 2009

Teresa Ferrer Passos  

 

 

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ORAÇÃO  BREVE  A  S.  JOÃO  DE  DEUS

 

 

 

 

Sem julgares os pecados de teus irmãos, sofres pelos teus, e são tantos, dizes. Percorres as ruas da cidade como um louco, para se rirem de ti, o pecador. Chamas a atenção do povo por actos impróprios da lucidez. Queres ser o algoz de ti próprio, precisamente tu, tu que foste tão contrário a Jesus. Tu que participaste nas guerras ao serviço dos grandes, queres fazer justiça contra ti próprio, por tuas próprias mãos, tu que pecaste tanto naquelas guerras «santas»…

 

Cobres o corpo de ridículo para que te chamem ridículo, cobres o corpo de escárnio para que te escarneçam, cobres o corpo de desprezo para que te desprezem. E o povo chama-te louco e criva-te de pedras, na cidade. Na bela cidade de Granada. Acusam-te de louco porque te comportas como se o fosses, porque desejas esse insulto, tudo isto depois de te teres convertido ao Sacro Coração Jesus.

 

Para ti, a guerra deixou de ter sentido, depois de ouvires o sermão de João de Ávila. Agora, convertido, a tua vida já só tem um sentido, o sentido do amor, de que Jesus falava. E com pedras de escândalo te adornas nas ruas pejadas de insultos, nas gentes estultas gritando a tua demência.

 

 

É assim que segues, coberto de dores físicas e dores do espírito, esse espírito tão arrependido. Segues a orar por mais castigos, talvez precises até dos tormentos infligidos aos loucos arredados do convívio da lucidez. E provocando, mais e mais, as pessoas lúcidas,  és conduzido ao hospício, o lar dos loucos. És só mais um deles e, como eles, és açoitado com o baraço de cordas, é assim que os enfermeiros  os «curam» das fúrias e das angústias…

 

Então, sabes como é cruel esse «tratamento», e como, só por isso, se impõe deixares que te continuem a supliciar, mesmo merecendo, porque é preciso terminar os suplícios infligidos sem justeza, a esses pobres loucos.

 

Mostras, célere, uma paz seráfica, uma passividade sã, uma fisionomia conformista. Vêem-te numa harmonia contigo próprio, espantas aqueles que, com crueldade, dizem poder «curar» os doentes do espírito. Dão-te por «curado» da loucura… Agora, sabes que tens de trazer, enfim, aos loucos do hospício, um tratamento todo feito de grande carinho, de grande amor, conforme a palavra de Jesus. E deixam-te sair de entre aqueles doentes, seguir para as ruas. Entregam-te até uma carta de liberdade por estares são, estares «curado». Então, deixas o hospício nefando, livre e com o amor no coração para o dares a todos os doentes, sejam eles do corpo ou da mente, sem diferença, porque não há verdadeira diferença entre eles.

 

 

É preciso ser rápido porque aqueles doentes sofrem sem razão, sem ter pecado, como dizes ter tu pecado. Tens a certeza que, afinal, Jesus não quer que sofras o ódio contra ti próprio, apesar de, como proclamas, tantos pecados teres cometido. Jesus quer ver-te, a ti, a quem ele, num certo dia da tua aventurosa vida, ouviste chamar «João, João de Deus!», ao seu serviço. Mas servir só com amor, só com amor a ti e aos desvalidos. O que Jesus, afinal, quer, é que espalhes amor pelas vítimas da injusta loucura que não é pecado, mas inocência.

 

Como carregas aos ombros as suas dores e descobres o néctar da suavidade que sara as feridas da sua alma.

    

Como susténs o desalento negro em que mergulham.

 

Como esvazias o vazio que acossa as suas vidas.

 

Como agarras as suas mãos fracas com ternura.

 

Como sentes as suas faces a tombar sobre o teu peito, agora cheio de amor para amparar os mais fracos.

 

E, sem hesitar, ofereces aos doentes que encontras pelas ruas, não um infame hospício, mas uma Casa, toda ela erguida sobre os alicerces do amor. Pedes esmola, passas fome. Mas vives, finalmente agora, sem pensar nos castigos que hás-de dar aos teus pecados. Esses teus pecados a redimirem-se pelo amor aos abandonados, pelo amor às vítimas da injustiça, como os loucos, e tantos outros, no hospício deixados. E as vítimas da violência começam a ser dignas de viver com a paz, mesmo nos seus espíritos doentes, conturbados.

 

16 de Novembro de 2008

Teresa Bernardino*

 

 

* Ortónimo Teresa Ferrer Passos.

 

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O PADRE MANUEL NUNES FORMIGÃO

NO SANTUÁRIO DE LOURDES

E A CAMINHO DE... FÁTIMA

 

 Acabados os estudos académicos e doutoramento em Direito Canónico e Teologia em Roma, o Padre Manuel Nunes Formigão decidiu regressar à sua Pátria. Queria exercer com a maior competência a sua missão de apóstolo de Jesus Cristo. Desejava ser um grande missionário. Projectava ser um Padre ou seja um pequeno pai para os que, no erro ou na virtude, quisessem seguir o Pai de que Jesus fora a Palavra e o Espírito.

E ser Padre com um conhecimento profundo dos mistérios sacros. A Santa Madre Igreja tinha mesmo de ser santa e mãe. Ele queria ser um apóstolo a vibrar de fé, a proclamar a sua alma entusiasmada pelos ensinamentos desse Jesus ressuscitado por graça de Seu Pai e, afinal, como dissera, a Sua própria Imagem − «Quem me vê, vê o Pai».

A  missão de servir Jesus Cristo, imagem do Pai universal e criador de tão magnífico universo, de tão belo quadro com estrelas, planetas e cometas  ordenados num espaço sem limites e esplendoroso, não lhe dava tréguas no seu eufórico pensamento.

Mas, à missão de servir Jesus Cristo unia-se a de servir Sua Mãe que, na hora do martírio que se consumava no madeiro em cruz, também era pertinente. Como o Padre Formigão se impressionava com aquela Mulher que tanto amava o Filho nascido no mistério da Anunciação do Anjo. Aquela Mãe extenuada da visão do seu Jesus, a cumprir a dolorosa e humilhante via sacra até ao Calvário, tanto o fazia delirar de alegria como o emocionava até às lágrimas que brotavam do seu coração. Sentia a dor de Maria, Mãe a envolver-se em sofrimento atroz, ao viver em cada um dos seus passos, o suplício que o Filho, com abnegação, suportava.

Era preciso aumentar a luta contra o mal espalhado pelo mundo, através de todos aqueles que a isso aderissem por fidelidade a Jesus, o Salvador. Ao Salvador que ressuscitando, vencera a morte. A Seu Pai do Céu nada era, na verdade, impossível. A ressurreição era a arma que, a partir da ressurreição de Jesus, todos os verdadeiros cristãos podiam usar, para, ao Seu serviço, se lhe juntassem para a Reparação do mal espalhado por tantos homens e mulheres alheados da Verdade. A Mãe desse Cristo – o Pai incarnado – , como sofrera a maior mutilação que uma Mãe pode sofrer: ver o seu próprio filho flagelado e a morrer na humilhação maior que era, então, morrer pendendo de uma Cruz de madeira.

E o Padre Manuel Nunes Formigão lia e relia as palavras do Evangelho de S. João. O Apóstolo Amado, presente no lugar do Gólgota (quer dizer caveira ou morte) com Maria, essa Mãe a apagar-se nas suas faces enrugadas de dor. Ela via a inclemência dos soldados, a troçarem e a chicotearem Jesus. A tão carinhosa Mãe via o Filho amado, a esvair-se em sangue que gotejava no madeiro e ensopava a terra ressequida. E, Ele fazia-o para redimir a humanidade que cometia o mal sem se lembrar da Palavra profética revelada nos Livros judaicos. Esses Livros, estudados e comentados nas sinagogas, eram esquecidos nas acções de cada instante dos dias.

A recordar tudo isto o Padre Manuel Nunes Formigão decidiu, no regresso a Portugal, passar pelo Santuário de Lourdes onde um dia, no ano de 1858, Maria dirigira a Palavra à jovem Bernardette, numa pequena gruta das montanhas dos Pirinéus. Oferecendo-se, de imediato, para diversos serviços em Lourdes, regressou a Portugal ao fim de um mês – o mês de Agosto de 1909.

Foi durante essa breve estadia no Santuário de Lourdes que escutou um sermão do bispo de Valence. As suas palavras incentivaram-no a não perder a esperança de recristianizar esse Portugal, em que a propaganda republicana atingia o regime monárquico pela preponderância que a religião católica e os seus representantes recebiam da Coroa. Para o bispo francês as peregrinações organizadas pelas dioceses a Lourdes tinham sido determinantes para a recristianização da França anticlerical do século XIX. Ora, o Padre Manuel Nunes Formigão vinha para um Portugal em que ele sabia quanto a descrença e o anticlericalismo se divulgavam nos jornais, nas folhas volantes, nas conversas dos cafés, nas lojas maçónicas, nas reuniões partidárias.

A implantação da República em 1910 atingiria, de facto, as instituições religiosas. Então, o Padre Formigão vai dar aulas para o Seminário de Santarém. Anos mais tarde, sente que a sua acção missionária podia ser mais actuante num liceu. Começando a ensinar no Liceu Sá da Bandeira daquela cidade, desenvolve uma série de actividades juvenis com vista a criar bases religiosas aos alunos. Entre outras, destacamos a fundação da Associação Nun’Álvares para, com esta figura exemplar da Ordem dos Carmelitas Descalços, poder homenagear Nossa Senhora , Padroeira de Portugal, desde o século XVII.

 Estranhamente, nos princípios de 1917, três crianças com idades entre os sete e os dez anos, diziam ter visto e escutado a voz da Virgem Maria, quando pastoreavam ovelhas na serra d’Aire, no lugar da Cova de Iria, perto da povoação de Fátima. O Padre Manuel Nunes Formigão encarregou-se de efectuar um interrogatório às três crianças − Lúcia, Jacinta e Francisco − acusadas pelas autoridades de inventar essas aparições de uma Senhora, como diziam, mais brilhante do que o Sol, e que, ao perguntarem-lhe donde vinha, dissera vir do Céu. Ao ouvir os seus relatos, o Padre Formigão colocou fortes dúvidas sobre os testemunhos. Como podia ser isso, se a devoção às Aparições de Lourdes era nele tão intensa? O curso das investigações alterou-se quando o Padre Formigão recebeu do Hospital Rainha D. Estefânia, em Lisboa, o pedido para ali se deslocar: Jacinta, aí internada devido a tuberculose, tinha tido ali mesmo uma Aparição da Senhora contemplada na Cova de Iria e queria transmitir-lhe a sua mensagem. As palavras que Jacinta lhe transmitiu foram decisivas: «É preciso que haja almas reparadoras». As suas dúvidas começaram, depois de ouvir Jacinta, a desvanecer-se.

Afinal, ali estivera Maria, Mãe de Jesus. Não apenas em Lourdes, não só na Cova de Iria, em plena serra d’Aire naquele lugar de pastores e, depois, também junto à cama hospitalar de Jacinta, de novo, uma outra aparição, agora só a Jacinta, mandando-a chamá-lo, tentando assim demovê-lo da sua relutância em aceitar as Aparições em Fátima. O povo rude afluía à capela que a Senhora, mais brilhante do que o Sol, pedira para ser construída sob a sua invocação. E, o Padre Formigão começou a dar todo o apoio à causa de Fátima. Assim, em atenção às palavras transmitidas só a Jacinta, criou uma Ordem Religiosa encarregada da Reparação da Dor da Mãe de Jesus. Chamou-lhe Congregação das Reparadoras de Nossa Senhora das Dores de Fátima. E com esta Ordem, encarregada de velar pela Reparação das Dores da Mãe Santíssima, fundou duas publicações, a revista «Stella» e o «Almanaque de Nossa Senhora de Fátima». A primeira, para um público mais culto, o segundo para o povo dos campos, das aldeias e das pequenas cidades da província.

Cinquenta e nove anos após as Aparições em Lourdes, nas montanhas dos Pirinéus, em França, surgiram, de novo, na serra d’Aire, em Portugal, revelações de Maria, como a da futura conversão da Rússia ao cristianismo. A Mãe de Jesus, eleita, por Ele próprio, a nossa Mãe do Céu, aqui estava. Entre o povo rude das serranias veio até nós. Veio para este povo que continua, hoje, a venerá-La nessa Capela construída de acordo com o seu pedido aos pastorinhos. Esse Povo que ali, junto da azinheira não deixa de orar-Lhe com uma fidelidade, com uma dedicação já bem visível nos anos que se seguiram às Aparições desse ano distante de 1917.

 21 de Abril de 2008

Teresa Ferrer Passos

 

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O TEMPO EM QUE ESCREVO

 

 

 

Retomei o meu romance sobre o «Paralítico de Betsaída» (João, 5). Tive de repensá-lo. Revisitar a sua estrutura. Estive vários dias sem lhe tocar. E, isto, quando se escreve romance, é sempre motivo de novos atrasos na sua progressão.

 

O romance exige muito método e uma continuidade rigorosa. Se surgem problemas, as paragens, a nossa incapacidade para o continuar a trabalhar, a podar como se fosse uma árvore de muitas ramagens e flores entrelaçadas em raminhos enrolados em outros raminhos…

Todos os meus romances têm sido uma agricultura exigente. Ainda que encha a minha vida de uma grande força para continuar a defrontar os obstáculos, mesmo que me ofereça um sentido para existir que parece alicerçar-me num mundo reconstruído, é um árduo trabalho, com muitas dificuldades nos laços que dele se desprendem.

As direcções podem multiplicar-se tanto que me sinto até desamparada, solitária, nos caminhos que selecciono, que julgo os melhores, mas sobre os quais duvido sempre. As horas cheias de angústia que a vida me coloca em frente não deixam, por vezes, seguir em frente a ficção que se confronta com a realidade. E paro.

Olho à minha volta e fico com dúvidas e o tempo dilui-se e sei que não volta mais. Esse tempo que me escasseia, esse tempo que quero recuperar, esse tempo perdido porque não o posso reencontrar, talvez seja inevitável perdê-lo.

O tempo em que escrevo é, talvez, o único que é preciso; é, talvez, o tempo certo da escrita. Não é preciso nem mais um minuto, nem menos um minuto. Afinal, o Pai celestial deve prepara-me um tempo certo para acreditar, outro tempo exacto para agir e ainda um outro tempo para ajuizar e contemplar.

Há também as horas para descobrir os espaços da luz, como há as horas para defrontar a noite mais negra.

O fim e o princípio brotam e tocam-se devagar, mas entre eles há o meio que os divide, que os torna diversos, mas que os conserva incrivelmente inseparáveis.

27 de Outubro de 2008

Teresa Bernardino

 

 

 

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Passagens dos Evangelhos de S. João

 

 e de S. Mateus

 

sobre o Julgamento Judaico-Romano de

 

 Jesus Cristo

 

 

 

«Falei abertamente ao mundo (...) e nada disse em

 

 segredo (...) Bem sabem o que eu disse»

 Jo, 18, 20

 

«O Meu Reino não é daqui (...) para isto vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a Minha voz»

Jo, 19, 36-37

 

«E na terra, a ninguém chamem pai, porque só é vosso Pai: Aquele que está nos céus»

Mt,23, 9

 

«Que é que vale mais? O ouro ou o santuário que torna o ouro sagrado?»

Mt 23,17

 

«Ai de vós escribas e fariseus hipócritas porque pagais o dízimo da hortelã, do funcho e do cominho e desprezais o mais importante da Lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade»

Mt 23, 23

 

«Por fora pareceis justos aos homens, mas, por dentro, estais cheios de hipocrisia e de iniquidade»

Mt 23, 28

 

«Serpentes, raça de víboras»

Mt 23, 33

 

«Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados!»

Mt 23, 37

 

«Então todos os discípulos O abandonaram e fugiram»

Mt 26, 56

 

«"Não respondes nada? Que dizes aos que depõem contra Ti?" Mas Jesus continuava calado»

Mt26, 62-63

 

«"É réu de morte". Cuspiram-Lhe depois no rosto e deram-Lhe socos. Outros esbofetearam-n'O, dizendo: "Adivinha, ó Cristo, quem foi que Te bateu?»

Mt 26, 66-68

 

«"Não ouves tudo o que dizem contra Ti?" Mas Ele não respondeu coisa alguma»

Mt 27, 13-14

 

«Os que passavam, injuriavam-n'O meneando a cabeça e dizendo "Tu que destruías o templo e em três dias o reedificavas, salva-Te a Ti mesmo; se és Filho de Deus, desce da cruz"»

Mt 27, 39

 

Selecção de T.B. (24/3/2008)

 

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«(...) Fomos feridos por uma cegueira branca, sem pontos de fuga, sem utopias. As paróquias funcionam como um regime cadastral, mecanicamente oleadas por devoções e sacramentais desencarnados. O desejo mimético é responsável pela violência que assola o mundo e as instituições: o círculo mimético é o movimento constante com que na sociedade humana se estrutura a violência, que deriva do desejo de se substituir aos outros para lhes tomar o lugar. Donde as polaridades, os bodes expiatórios, as paranóias.

Estamos em marcha, à procura da fonte, o Jordão que abre a estrada a andar sobre as águas. É essa a experiência em que nos mergulha o baptismo. Daí o perigo. Daí as trevas. Avançamos perigosa, dolorosamente. É para pensar essas chagas que o sagrado existe, não para fazer lindo ou solene, mas para fazer corpo (...).»

 

José Augusto Mourão

 

 

Fonte: José Augusto Mourão, "O Baptismo como Imitação de Cristo" in Internet, www.triploV.com

 

 

 

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DIA MUNDIAL DAS MISSÕES

 

Santa Teresa do Menino Jesus, Padroeira dos Missionários e Doutora da Igreja, teve o sonho de sair do Carmelo de Lisieux e seguir para o Cambodja. Devido à gravidade do seu estado de saúde, às portas da morte, apenas lhe foi possível proteger e orientar com as suas cartas um jovem padre missionário. Também S. Francisco Xavier, grande evangelizador da Índia, é Padroeiro dos Missionários.

 

18 de Outubro de 2008

T.F.P.

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OS MILAGRES E AS LEIS DA FÍSICA

 

 

 

 

 

Para fazer milagre, Jesus Cristo pode não ter precisado de violar as leis da matéria criadas por Deus, tal como o próprio Deus talvez não precise de violar as leis por Si criadas, sempre que faz um milagre.

 

Se a Mecânica Quântica estiver certa, as leis da Física não determinam completamente o modo como a matéria se comporta.

 

Por exemplo, se um homem tentar caminhar sobre as águas, há uma probabilidade ínfima de que, nesse instante, a água sob os seus pés se "feche" e lhe permita caminhar sem se afundar.

 

Esta probabilidade é baixíssima. Seria preciso um homem comum passar triliões de triliões de triliões de vezes a idade do Universo a tentar, até isso acontecer, porque, em circunstâncias normais, a matéria escolhe ao acaso entre as várias possibilidades deixadas em aberto pelo indeterminismo quântico.

 

Mas Jesus Cristo, na Sua qualidade de Filho de Deus, para andar sobre as águas, pode naquele momento ter ordenado à matéria para escolher a possibilidade que Lhe interessava, ou seja, aquele estado de probabilidade ínfima em que as águas se "fecharam" sob os Seus pés e Lhe permitiram caminhar sobre elas.

 

Fernando Henrique de Passos

 

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«O PEDACINHO DE NEVE»

 

 

 

 

 

 

«O célebre Leonardo da Vinci escreveu fábulas muito simples, mas muito ricas em ensinamento, como esta “fábula da neve”.

Um pedacinho de neve estava no alto de um rochedo situado no cume de uma altíssima montanha.

Naquele lugar silencioso, deu largas à imaginação. Começou a meditar e a dizer de si para consigo:

Não serei considerada altiva e vaidosa por ser tão pequena e ter sido colocada em tão alto lugar e suportar que tanta quantidade de neve que vejo daqui esteja mais abaixo que eu. É claro que a minha pouca quantidade não merece esta altura. Também sei o que o Sol pode fazer-me, pelo que vi fazer às minhas conpanheiras, desfeitas por ele em poucas horas.

E isto sucedeu porque se colocaram em lugares mais altos do que lhes cabia.

E o pedacinho de neve, reconhecendo a sua insignificância, continuou a dizer: “Quero fugir à ira do Sol. Quero descer e encontrar lugar mais adequado à minha pequenez, à minha ínfima quantidade”.

Lançou-se então pela montanha abaixo, deslizando sobre a outra neve. E quanto mais baixo lugar procurava, mais crescia a sua quantidade.

Terminou o seu curso numa pequena colina e viu-se quase com a mesma grandeza que a colina que a sustinha.

E foi, nesse Verão, a última a ser desfeita pelo calor do Sol…

Leonardo da Vinci, fundamentado na palavra do Evangelho, lembra que os orgulhosos serão derretidos e os humildes enaltecidos.

E nós, que observamos o mundo, também sabemos (e temos de tê-lo presente!) que a ambição do poder, da fama e dos lugares cimeiros é traiçoeira e destrói mais depressa, como mais rapidamente é derretida a neve das alturas.

E que os humildes, protegidos pela sua simplicidade e reconhecimento autêntico do seu valor, serão enaltecidos por Deus e por todos os que julgam com justiça…»

 

 

Fonte: Mário Salgueirinho, Dar é Receber, Fundação Voz Portucalense, Porto, 2003, pp.137-138)

 

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CAMINHOS DO SAGRADO

 

 

 

 

«(...)Os verdadeiros santos sempre se sentiram como pecadores. Para eles isto não era nenhum excesso de humildade, mas sim uma protecção para não se deixarem seduzir pelas projecções dos outros a um mundo de aparências. Os santos não procuravam parecer santos. Tornaram-se santos porque manifestaram a Deus tudo quanto eles eram realmente, com todos os altos e baixos, com todas as luzes e  sombras, para que Deus os curasse e os transformasse (…).

Nós não somos definidos unicamente a partir das expectativas do mundo. Somos mais do que meros contribuintes da previdência ou beneficiários de pensão. Nós temos em nós mesmos alguma coisa de santo, que não está submetida à intervenção do mundo. Tomar consciência disso faz-nos bem. Liberta-nos do domínio e da tirania deste mundo, com os seus padrões. Temos em nós uma coisa diferente, uma coisa santa, íntegra, que não pode ser tocada. Trazemos dentro de nós o santuário interior em que o próprio Deus faz morada (cf. Jo 14, 23).

Tente conscientemente ver hoje com outros olhos as pessoas com quem você convive. Tente acreditar que Cristo está em cada uma delas, que em cada uma existe alguma coisa de sagrado que precisa ser protegido. Não tente penetrar nelas e atribuir-lhes um valor, mas deixe-as ser assim como são. Nelas o Sagrado já está presente. Apesar de todas as contradições, em cada pessoa existe algo de são e de autêntico. Como é que se sente, quando as considera desta maneira? Será que de repente conseguirá agora conviver ou comportar-se com estas pessoas de uma maneira diferente? (...)»

 

Anselm Grün

 

 

 

Fonte: Anselm Grün, A Protecção do Sagrado, Editora Vozes, Petrópolis, 2003, pp72-75.

 

 

 

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«TERESA DE JESUS»

«O povo de Deus é um povo de pecadores que peregrina do pecado à inocência, da desgraça à graça. É uma peregrinação através do deserto. O deserto é a saudade. Mas a saudade do povo de Deus está cheia da presença imutável de Deus. O sinal de que se vive nessa desértica plenitude, é a alegria. A alegria teresiana do deserto carmelitano, segue ressoando a transbordar, desde há quatro séculos, em todo o rosário ininterrupto dos seus Fundadores.

Reformar é reformar-se. “Nada muda, na verdade, enquanto não muda o coração do homem” (…). Ela ensinou aos homens sem fé ou de pouca fé a realidade e o mistério dessa relação do Criador e a criatura e é nisso que consiste a religião (cristã)». *

 

António Garriches

 

Fonte: Artigo de Jornal ABC, Madrid, 1970 (excerto).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

NADA TE PERTURBE…*

 

Nada te perturbe,

Nada te espante,

Tudo passa,

Deus permanece,

A paciência

Tudo alcança;

Quem possui Deus

Nada lhe falta:

Deus é o bastante.

 

 

Santa Teresa de Jesus

 

CRUZ, DESCANSO DOCE DA MINHA VIDA…*

 

Cruz , descanso doce da minha vida,

Sejais bem-vinda.

 

Oh estandarte, em cujo amparo

O mais fraco será forte!

Oh vida da nossa morte,

Que bem a ressuscitaste!

Ao leão amansaste,

Porque por ti perdeu a vida,

Vós serás a bem-vinda.

Quem não os ama está cativo E longe da liberdade;

Quem vos quer alcançar

Não terá nenhum desvio,

Oh ditoso poderio,

Onde o mal não acha lugar!

Vós serás a bem-vinda.

Vós foste a liberdade Do nosso grande cativeiro;

Por vós se limpou o meu mal

Com o usual remédio;

Para com Deus foste o meio

Da alegria consentida,

Vós serás  a bem-vinda

                      

Santa Teresa de Jesus

 

Fonte: Obras Completas de Santa Teresa de Jesus, Editorial Plenitud, 1958, págs. 947, 959 (edição em língua espanhola).

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APELOS SACROS DE FÁTIMA **

 

 

 

«Vós que encheis a minha esperança,

Ó Mãe! Escutai o humilde canto

De amor e de gratidão

Que vem do coração da vossa filha…

 

Às obras de um Missionário

Uniste-me para sempre,

Pelos laços da oração

Do sofrimento e do amor» 

Santa Teresa do Menino Jesus, Obras Completas

 

 

   «Os adultos têm algo que é certamente diferente de nós…

quer dizer,Deus (…). Mas isto é seguro:

os adultos não estão a preocupar-se com Ele,

pelo que somos nós, as crianças,

é que temos de nos preocupar»

Rainer Maria Rilke, Histórias de Deus

 

 

 

 Foi com curiosidade que comecei a ler a obra da Irmã Lúcia, vidente da Cova de Iria, intitulado Apelos da Mensagem de Fátima (Edições Carmelo, Secretariado dos Pastorinhos, 2005). Uma novidade em relação a anteriores revelações? Uma complementaridade dos escritos dados à estampa, há vários anos, e que titulara Memórias? De qualquer modo, o título era apelativo, chamava-se apelos. Além disso, subscrevia-o a vidente de Fátima que escutara as mensagens da Senhora mais brilhante do que o Sol.

De facto, Lúcia recebera, após a publicação das Memórias, uma vasta correspondência de leitores. Todos eles procuravam esclarecer os pontos mais controversos ou obscuros do texto em que dava testemunho escrito das visões e das palavras verbalmente transmitidas na Cova de Iria, nas proximidades da aldeia de Fátima, corria o ano de 1917, pela Senhora que identificou como sendo a própria Virgem Maria, Mãe de Jesus Cristo.

As visões de Maria tinham sido acompanhadas pela simultânea audição de palavras, de palavras estranhas, mas significantes, tão significantes que as entendera, ainda que necessariamente à sua maneira. Segundo o teólogo J. Ratzinger (actual Papa Bento XVI) «a visão comporta simultaneamente uma vertente imaginal e uma vertente comunicacional».(1) E no seu Comentário Teológico ao 3º Segredo de Fátima, Ratzinger diz-nos: «A pessoa é levada para além da pura exterioridade e é tocada por dimensões mais profundas da realidade que se tornam visíveis para ela».(2)

Ao debruçar-se sobre o «Segredo de Fátima», o dominicano e semiótico José Augusto Mourão escreve, bem a propósito, que «cada leitura irá acrescentar o texto, ao ajudar a desdobrar o sentido». Mas, não deixa de se interrogar: «Haverá interpretação fora da violência hermenêutica? Como sair do paradoxo aparente da interpretação, ao mesmo tempo aberta e determinada e da semiose, ao mesmo tempo infinita e contudo decidível?».(3)

Com apenas dez anos e sem cultura religiosa, a pequena Lúcia transmitira, ou seja, traduzira o que escutara, com as dificuldades inerentes à sua condição. Segundo J. Ratzinger tratou-se de um «processo de tradução», próprio de uma «visão interior».

Como declarara aos seus familiares, aparecera-lhe uma Senhora muito luminosa, que dizia vir do Céu. A identificação da Mãe de Jesus Cristo, impôs-se-lhe de imediato. Na perspectiva de Ratzinger, «uma percepção interior, imaginativa» foi captada, «de acordo com as possibilidades da vidente».(4)

Ora, a Irmã Lúcia viu a Senhora resplandecente, entre os ramos sóbrios de uma pequena azinheira. A sua voz vibrara de apelo, de aviso e de mágoa. Ao longo das intervenções feitas, desde Maio a Outubro de 1917, os seus apelos foram recebidos pelo espanto, mas também pela aceitação de três crianças: além de Lúcia, os seus primos mais novos, Francisco e Jacinta estavam presentes e percebiam que Lúcia dialogava com a Senhora de brilho sobrenatural.

Ele, Francisco, escutava a Senhora, sem a ver. Contudo, Jacinta via-a, embora não ouvisse o que dizia. Só Lúcia a via e a escutava, ao mesmo tempo.

Em 13 de Julho de 1917, Lúcia e Jacinta viram, então, a mais terrível das visões: a visão do fogo infernal a provocar grandes sofrimentos nos maus. Com as infernais imagens, a Senhora, donde brotava a nívea luz, mostrava-lhes o castigo que mereciam os pecadores pelos seus actos iníquos. Poder-se-á estranhar que tenham sido crianças, e não adultos, a receber esta assustadora visão. Escolha estranha, sem dúvida, mas talvez, estando cheia de mistério, transpareça, de igual modo, um significado: se nos lembrarmos da predilecção de Jesus Cristo pelos mais pequeninos, os puros de coração, os inocentes, algo se começa a perceber.

As crianças eram puras, por isso, poderiam bem mais facilmente ser capazes de acreditar no que viam e comunicá-lo a todo o mundo, apesar das suas limitações de interpretação. Aqui, o Inferno simboliza o apelo à conversão, ao arrependimento.

O apelo da mensagem de Maria respeitava também ao valor de sacrifícios e de orações, oferecidos ao Altíssimo, como penhor dos pecados cometidos. De acordo com o que Lúcia nos diz neste seu livro, há que fazer muitos sacrifícios para merecermos o Céu. Entre os mais difíceis, sem dúvida, estão aqueles que só são possíveis graças a um espírito com a força de uma grande humildade. Como nos lembra, sacrifícios podem fazer-se todos os dias. E, dá-nos algumas sugestões sobre a possibilidade de os fazer.

Para Lúcia, sacrifício existe quando um espírito é capaz de não responder à ofensa com outra ofensa, quando é capaz de não se impacientar com ambições não alcançadas, quando é capaz de viver sem má disposição ou azedume com aqueles que sabe que o rejeitam, quando é capaz de suportar os infortúnios com abnegação. São esses sacrifícios - verdadeiros actos de penitência - que mais mérito encerram e que, nessa medida, mais são louvados por Deus.

Acerca desta delicada questão, presente nos apelos marianos, J. Ratzinger escreve, no Comentário Teológico já referido, que esses apelos à penitência revelam como é importante para Deus a liberdade humana. Na sua interpretação da mensagem de Fátima, concretiza que, afinal, «todo o objectivo da visão é trazer a liberdade para a ribalta e apontá-la numa direcção positiva. O objectivo da visão não é mostrar um filme de um futuro fixo e irrevogável (…)». Antes, «tem por intenção mobilizar as forças de mudança na direcção correcta».(5)

Uma criança, chamada Lúcia, escuta este importante apelo de Maria, um apelo à renúncia de si mesmo por amor a Deus e à humanidade. A Mãe de Jesus Cristo estava, através da criança, a dirigir-se a toda uma humanidade. Há aqui como uma forma de fazer pedagogia do adulto, e, precisamente, através da infância. O facto de os três pequenos pastores seguirem os ensinamentos da Senhora mais brilhante que o Sol, ao começarem, de imediato, a oferecerem pequenos sacrifícios para salvar do castigo eterno os maus - ela própria Lúcia e os seus primos, Jacinta e Francisco, a quem ela conta tudo aquilo que Lhe ouve - é significativo.

De facto, tudo nas crianças é clareza, tudo nelas é boa intenção e sinceridade. Tudo nelas transmite serenidade, tudo está imbuído de paz e verdade, porque a criança não conhece o que é a guerra, não imagina o que é a crueldade, não prevê a mentira. Para a criança todo o real está repleto de aparência e toda a simples aparência é também real. A realidade confunde-se sempre com a verdade. Porque a verdade envolve a realidade. Por isso, as imagens infernais não assustam os pequenos pastores dos campos de Fátima, antes despertam ainda mais os seus profundos sentimentos de condescendência e de generosidade com o próximo. Eles querem, sem condições, contribuir com os seus sacrifícios para ajudar não os bons - esses não precisam - mas os maus, os que não são capazes de serem bons e, assim, não poderem receber a recompensa no Céu.

Perante a terrível visão, Francisco, Lúcia e Jacinta não fogem, não gritam, não se atemorizam. Antes, ficam tão preocupados com o sofrimento futuro dos maus que, de imediato, na sua grande capacidade para ajudar - generosidade natural na criança -, desejam fazer todos os sacrifícios imagináveis para os resgatar, para os redimir, para os salvar dos terríficos tormentos do Juízo Final.

A autenticidade, a espontaneidade, a ingénua credulidade, e com elas, a absoluta confiança, são as características superiores das crianças, no conceito de Deus, como já o ensinara Jesus Cristo: «Sede como crianças, se quereis entrar no reino do Céu». E, assim, talvez por isto, e também por outras razões cheias de mistério, são escolhidas, para receberem a mensagem da Senhora luminosa vinda do Céu, aquelas três humildes crianças da serra d’Aire, do lugar da pequenina Fátima. 

Foram os mais puros dos seres humanos que Deus privilegiou sempre. Agora, mais uma vez, Deus os escolheu para, através deles, a Rainha do Céu transmitir aos homens um reforço da mensagem de Jesus Cristo. A visão infernal fazia os homens avaliarem até que ponto O continuavam a ofender, até que ponto continuavam a transgredir a Sua Lei. Praticavam o mal, sem pensarem que mereciam um juízo implacável para os seus actos iníquos.

Com uma atenção desmedida, cheia de espanto e até de medo, a pequena Lúcia tentava entender o que escutava e o que via, num assombro desmedido. Eram palavras simples que ouvia da Senhora tão brilhante, mas as frases eram difíceis de interpretar. Eram visões de que Lúcia já ouvira falar na igreja, mas tão confusas e tenebrosas que tinha de procurar as palavras que se aproximavam do que vira. As dificuldades eram imensas. E que responsabilidade transmitir as imagens tão perturbantes, e, ao mesmo tempo, cobertas de um emocionante maravilhamento.

Talvez por todas estas inesperadas visões possuírem a força do invisível, a vidente Lúcia só começará a penetrar os apelos da mensagem de Fátima muitos anos mais tarde com o estudo dos Evangelhos, do Antigo Testamento, com o estudo de hagiografias de santos. Tudo isto, quando já se encontrava (desde 17 de Junho de 1921) no Convento das Irmãs Doroteias, em Vilar, perto do Porto. Será a devoção de Lúcia à Senhora das Aparições que acabará por a conduzir das Doroteias - em cuja Ordem ingressou em 2 de Outubro de 1926 - ao Convento da Ordem das Carmelitas, em Coimbra, em 25 de Março de 1948. Contudo, Lúcia teme, ainda, interpretar mal. Acha que algo lhe pode ter escapado da mensagem de Fátima. Solicita, então, a interpretação dos teólogos, pessoas com uma cultura vasta sobre Deus, Jesus Cristo e Maria, Sua Mãe.

Entre azinheiras, oliveiras, carvalhos e sobreiros, no silêncio dos vales húmidos e sombrios, onde a terra tantas vezes enlameava os pés dos pastorinhos devido às fortes e frequentes chuvas, algo de espantoso tinha acontecido! Conforme a interpretação de Joseph Ratzinger - o Papa Bento XVI - , que conversou longamente com Lúcia para se pronunciar sobre as Aparições de Fátima, o que se verificou foi uma «visão interior, que nada tem a ver com uma visão dada pelos sentidos, nem tão pouco com uma percepção intelectual, sem imagens, como a dos místicos». Estas palavras de Joseph Ratzinger - citadas por José Augusto Mourão no seu artigo «O Inferno da Interpretação» - são um esclarecimento ao próprio fenómeno de Fátima, mas são também algo que fica a pairar como uma tentativa de manter a pureza das mensagens escutadas pela vidente, sem, no entanto, as tornar indiscutíveis e absolutas.

Precisamente naquela Cova de Iria - terra que era uma horta de bom rendimento para os pais da pequena Lúcia -, a pequena pastora Lúcia aprendera com a Senhora a fazer uma oração breve, mas de largo sentido interior: “Orai comigo: Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-vos”. Era, um modo de falar com o Pai celestial estranho, e, ao mesmo tempo, tão encantatório quanto eloquente, que vinha da Senhora descida do Céu, como Ela própria dissera.

Esta oração era para a pequena Lúcia e para os seus primos Francisco e Jacinta - todos os dias a acompanhavam no pastoreio das ovelhas - , um apelo à oração ao Pai celestial e uma proclamação da fé, da esperança e do amor que lhe deviam ter. E com que palavras simples queria que se Lhe dirigissem!

Maria, Mãe de Jesus Cristo, é, segundo o testemunho de Lúcia, expresso em Apelos da Mensagem de Fátima, a Senhora que aparece, apelando sempre à oração, ou seja, à palavra que presentifica em nós o Criador. E ensinava-os a orar, sempre de modo simples: “Pai, Filho, Espírito Santo, adoro-vos profundamente”. Um fundo e um forte apelo ao Amor do Pai é recebido pela pequena Lúcia entre as árvores submissas. Esses sobreiros com uma serenidade infinita, essas azinheiras, quem sabe se sem notarem o vento agitado, perante a chegada visível e simples de Maria. Entre elas, uma azinheira foi mesmo escolhida para dar guarida à sagrada visibilidade de Maria, Ela, a Mãe de Jesus Cristo, Ela também escolhida para Mãe de toda a humanidade, como Jesus a proclamou - já pregado no madeiro - , ao discípulo João, que ali estava junto d’Ele, naquele tempo imbuído de um silêncio de morte («Eis aí a tua mãe» Jo 19, 27) e a elevar um rumor imenso de vida. 

Os apelos da Senhora luminosa têm um sentido voltado essencialmente para as criaturas que não perdoam, que não amam, que não se lembram do Pai, ou seja, do Criador. Esse Criador que, antes da memória dos tempos, já as amava, por isso as criara e, criara mesmo à Sua semelhança e com o projecto de serem felizes. É que um Pai ama os filhos antes de os filhos o amarem, escreve a Irmã Lúcia. É, pois, um Pai que sofre pelos actos iníquos dos Seus filhos, pelo desprezo com que estes O tratam, se não mesmo pela negação da Sua própria existência.

Em Apelos da Mensagem de Fátima há a nítida intenção de esclarecer o testemunho dado nas anteriores Memórias escritas por Lúcia. Destacando só as frases que considera essenciais, a Irmã Lúcia relaciona-as constantemente com os Evangelhos, com passagens do Antigo Testamento, com Epístolas de S. Paulo ou mesmo com alguns escritos de Santa Teresa do Menino Jesus. Neste ensejo, Lúcia acentua que as palavras de Jesus Cristo são as próprias palavras do Criador do Universo.

“Fazei tudo o que Ele vos disser”, foi a pequena frase da intervenção de Maria, logo no início da vida pública de Jesus Cristo, nas célebres bodas de Caná. Aí, estavam Jesus e Maria com uma presença bem dinâmica, viva e actuante. Não eram uns convidados que apenas assistiam à festa. Mas uns convidados prontos a ajudar, disponíveis para resolver contratempos que fariam ensombrar o ambiente e obscurecer a alegria de todos.

O primeiro milagre de Jesus é, na verdade, um acto em que Sua Mãe orienta, indicando o Seu Filho, numa atitude de protecção e afecto. A alegria do matrimónio não devia sofrer qualquer per­turbação. E Maria interveio, aconselhando os donos da casa. Se precisassem de ajuda, deviam recorrer a seu Filho, que estava afinal ali, tão perto de todos. Por isso, aconselha: “Fazei tudo o que Ele vos disser”. Como salienta a Irmã Lúcia, eis a frase lapidar que indicou à família dos esposos de Caná o que deviam fazer para que aquela união fosse selada pela alegria, sem sombra de tristeza. Levar à confiança em Jesus, foi o objectivo de Sua Mãe.

A presença de Maria nas bodas de Caná na Palestina, há dois mil anos, ou nas aparições da Cova de Iria, em Fátima, no ano de 1917, é, para a Irmã Lúcia, o sinal de que Ela é um guia sempre próximo, um guia para orientar o Homem que não respeita o seu Criador - um Criador todo envolto no grande mistério das coisas invisíveis e que é a própria Santidade. Esse Pai perfeito, que, como ensinou Jesus, também deseja o ser humano perfeito. E  como é uma atitude natural um Pai Santo sentir-se ofendido com o mal que os Seus filhos sustentam e realizam, cedendo ao ódio e desprezando o bem.

Os apelos da mensagem de Fátima feitos pela Senhora a irradiar uma luz mais forte do que a luz do Sol, procuram chegar ao coração das criaturas. Eles são, para a vidente da «percepção interior, imaginativa» (Joseph Ratzinger), o reflexo de o Espírito Santo ter projectado seres humanos «à Sua imagem e Sua semelhança» (Genesis, 2, 26). Assim, é a unidade entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo que a Irmã Lúcia procura alicerçar no livro que temos estado a analisar em algumas das suas vertentes, pois em muitas outras pode ser motivo de reflexão.

Nesta breve abordagem, notamos que este livro tenta esclarecer, clarificar, tornar simples, realçar o que de mais importante Lúcia escrevera em Memórias (5ª edição, 1987), cujo manuscrito fora concluído em 1935. A transcendência da mensagem obriga Lúcia a oferecer o essencial da «visão percepcionada» na Senhora, pousada por instantes a parecerem eternos, nos ramos de uma azinheira.

É essa Senhora que se auto denomina, numa das suas aparições, «do Imaculado Coração». E, diz-nos Lúcia, a prova da sacralidade da Virgem foi ter concebido um Filho por obra e graça do Espírito Santo. Um Filho que não é mais do que a própria «imagem» do Pai, porque como disse Jesus: “Eu e o Pai somos um”; “O Pai que Me enviou, foi quem determinou o que devo dizer e anunciar”; “quem Me vê (a Mim), vê o Pai”.(6)

É esta ligação de Deus ao ser humano que Maria procura levar a humanidade a reconhecer, sublinha a vidente Lúcia. A aparição a crianças de um mundo rural distante da cultura das univer­sidades e dos letrados, torna-se reveladora da predilecção do Espírito Santo pelos humildes, pelos puros de coração, no limite, pelas mais simples criaturas, as crianças.

Carregada de singeleza e com a sabedoria da palavra breve, sem fastidiosos discursos, a palavra de Maria acaba por ser acessível à pequena Lúcia, a Jacinta e a Francisco (indirectamente). Talvez a escolha de palavras que Lúcia conhecia bem, como pecado, ofensa, inferno, castigo, recompensa, Céu, sofrimento, sacrifício, amor, fosse o segredo do «processo de tradução» (J. Ratzinger) e, depois, da própria interpretação. Com este vocabulário, o Imaculado Coração de Maria fez-se entender, naquele momento, pela pequena Lúcia.

Mas os apelos da mensagem de Fátima terão de ser confrontados com os ensinamentos deixados por Jesus aos Seus Apóstolos. Há que chamar os mais doutos teólogos do Cristianismo, escreve Lúcia, sem reservas e com a grande emoção de ter sido uma humilde intermediária que «traduziu» com todas as suas limitações.

Em 1917, ano das Aparições de Maria, viviam-se ainda os terrores da Primeira Grande Guerra Mundial, cujo fim se desconhecia. Neste contexto, é bem significante o apelo que a Irmã Lúcia escuta da voz da Senhora que fez a sua última Aparição a 13 de Outubro: “Não ofendam mais a Deus, que já está muito ofendido”.(7) A expressão “ofensa” humana a Deus-Pai, é, em todas as mensagens, a razão maior de cada Aparição. Mas, os apelos de Maria provocam uma nova fidelidade, uma outra confiança, um mais forte amor a Deus: “O Verbo fez-se homem e habitou entre nós”.(8)

Na última Aparição, a 13 de Outubro, são feitos dois grandes apelos: um deles, é o apelo à «santificação da família». Este apelo foi representado na estranha visão de «Maria com o Menino Jesus ao colo e José a seu lado».(9) Diz-nos a vidente: «Deus confiou à família uma missão sagrada de cooperação com Ele na Sua obra criadora».(10) Esta visão ofereceu-lhe, acrescenta Lúcia, «o vislumbre da glória que gozam aqueles que já se encontram na posse do Reino de Deus»(11) - esta visão de Maria com o Menino e José a que Lúcia teve acesso, verificava-se ao mesmo tempo que se dava uma outra visão, a do milagre do Sol. Esta outra visão deu-se em simultâneo e, na verdade, sem que Lúcia lhe prestasse grande atenção. Aquilo que a multidão viu foi o espectáculo do «empalidecer do disco solar perante a luz da presença de Deus».(12) A pequena Lúcia via para um além-do-Sol. Na Terra, já penetrava as imagens oferecidas pelo Céu. Assim se compreende que não desse importância ao fenómeno solar. Que era isso em comparação com aquela imagem do pequenino Jesus ao colo da própria Mãe?

Um outro apelo, nesta mesma data de 13 de Outubro, viu-o a Irmã Lúcia na visão de uma Senhora das Dores - ou de todas as Dores -, ou seja, de uma «Mãe que compartilhou essa dolorosíssima Paixão (de Jesus Cristo) como co-redentora (…)». E a vidente revela: «Na manifestação de Outubro Ela apresenta-se-nos sob a imagem da dor».(13)

A Irmã Lúcia dá grande ênfase ao único apelo de Maria a si própria, na anterior Aparição, datada de 13 de Maio: “Jesus quer (…) estabelecer no mundo a devoção ao meu Imaculado Coração”. Acrescentando: “O meu Imaculado Coração será o teu refúgio e o caminho que te levará a Deus”. Este apelo, concretiza Lúcia, realça como «foi neste Coração que o Pai encerrou o Seu Filho, como se fosse o primeiro sacrário (…) e foi o sangue do seu Coração Imaculado que ministrou ao Filho de Deus a Sua vida e ser humanizado».(14) A terminar, Lúcia diz-nos: «Deus encerrou no Coração de Maria a Sua Palavra».

A propósito, J. Ratzinger - Papa Bento XVI - no Comentário Teológico ao 3º Segredo de Fátima, ensina-nos: «o “imaculado coração” é um coração que, com a Graça de Deus, conseguiu uma perfeita unidade interior e assim “vê a Deus”».(15)

Como notámos constantemente ao longo do livro Apelos da Mensagem de Fátima, para a vidente Lúcia, a Mãe de Jesus Cristo é o elo privilegiado da ligação entre Deus e a humanidade. É Ela a artífice da grande amizade entre o Pai, Jesus e cada criatura. É  Ela a escolhida de Deus para fazer a ponte entre Jesus e aqueles que repudiam a arrogância. É Ela a Mãe acolhedora daqueles que sofrem por amor à justiça e são puros de coração. É Ela a Mãe de braços abertos para as vítimas da crueldade, do desprezo e da humilhação.

Como escreveu, recentemente, Bento XVI na Carta Encíclica Deus é Amor, publicada pouco depois da sua ascensão ao Papado, «existe uma múltipla visibilidade de Deus. Na história de amor que a Bíblia nos narra, Ele vem ao nosso encontro, procura conquistar-nos (…) incessantemente vem ao nosso encontro, através de pessoas nas quais Ele se revela».(16)

Dirigindo um poema a Maria, o Papa Bento XVI, escreve:

 

«Santa Maria, Mãe de Deus,

Vós destes ao mundo a luz verdadeira

(…) Mostrai-nos Jesus.

Guiai-nos para Ele.

Ensinai-nos a conhecê-Lo e a amá-Lo,

para podermos, também nós,

tornar-nos capazes de verdadeiro amor

e ser fontes de água viva

no meio de um mundo sequioso.».(17)

 

Através das crianças, interlocutores privilegiados, por estarem mais próximos da pureza absoluta, que é a condição da santidade, o Imaculado Coração de Maria adverte, avisa, - por meio da criança, ser de eleição para Deus - aqueles que renegam Deus, mas que Deus considera, mesmo assim, Seus amados filhos. A Mãe de Jesus Cristo procura, assim, chegar aos corações daqueles que não acreditam, que desprezam Deus.

O Seu «Imaculado Coração» procurou três crianças para lembrar, de novo, ao mundo, a vontade de Deus. E, procurou precisamente crianças, porque elas deviam ser para os adultos um exemplo vivo de confiança, de fidelidade e de amor.

Hoje, as crianças são a última esperança humana. Nelas está na essência a audácia de confiar e a capacidade de amar as maravilhas do sacro universo que as cerca! E, Maria, Mãe e Rainha do Céu, aparece-lhes na Terra, transmitindo-lhes a dor de um Deus-Pai ofendido, demasiado ofendido, mas também pronto a perdoar cada ser humano que siga as qualidades da infância distante, mas não perdida. Essas virtudes da infância a perdurarem para que muitos possam ser bem-aventurados. Como disse Jesus no Sermão da Montanha, «Bem-Aventurados os puros de coração porque verão a Deus».(18)

 

Teresa Ferrer Passos*

 

* Ortónimo de Teresa Bernardino.


 

(1) Citado por José Augusto Mourão «O Inferno da Interpretação - O Segredo de Fátima», Internet, TriploV.com p.4.

(2) Joseph Ratzinger, Comentário Teológico ao 3º Segredo de Fátima in Internet, www.crossroadsiniciative.com/library_article/553, pág.4.

(3) José Augusto Mourão «O Inferno da Interpretação - O Segredo de Fátima», Internet, TriploV.com, p.1.

(4) Ibidem, p.4.

(5) Ob.cit. in Internet, www.crossroadsiniciative.com/library_article/553, pág. 6.

(6) «Evangelho de S. João» in Apelos da Mensagem de Fátima, págs. 62, 63, 77.

(7) Apelos da Mensagem de Fátima, 2005, pág.155.

(8) Ibidem, pág. 136.

(9) Ibidem, pág. 162.

(10) Ibidem, pág. 163.

(11) Ibidem, pág. 195.

(12) Ibidem, pág. 162

(13) Ibidem, págs. 178-179

(14) Ibidem, pág.135.

(15) Ob. Cit., in Internet, www.crossroadsiniciative.com/library_article/553, pág. 5.

(16) Carta Encíclica Deus é Amor de Bento XVI, 25 de Dezembro de 2005, pág 32.

(17) Ibidem, pág.77.

(18) Evangelho de S. Mateus, 5, 8.

 

Fonte:  Publicado em Revista de Espiritualidade, Edições Carmelo, nº 58, Abril/Junho 2007, pp.139-153, e em Cadernos Vianenses, Câmara Municipal de Viana do Castelo, Tomo 39, 2007, pp. 241-253.

 

 

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A NOVA BASÍLICA EM FÁTIMA

 

  

1. «Sobre o fundo das palavras da "Avé-maria" passam diante dos olhos da alma os principais episódios da vida de Jesus» (1)

 

Em 13 de Outubro deste ano de 2007 abriu ao culto mais uma Basílica construída no limite sul do recinto envolvente da capelinha das Aparições da Virgem Maria, em Fátima. No limite Norte já existia uma Basílica dedicada à Mãe de Jesus Cristo. Este novo templo invoca a Santíssima Trindade. Tem nove mil lugares sentados e espaços para o sacramento da reconciliação. Há passagens bíblicas nos muros exteriores, traduzidas para vinte e três línguas, abordando o carácter trinitário de Deus, o Pai, o Filho, Jesus, e o Espírito Santo, por quem Maria O concebeu, por Sua obra e graça.

 Mas porquê a construção de mais um grande templo naquele recinto onde, para além da capelinha solicitada por Maria, havia ainda uma basílica que lhe foi dedicada?

O seu custo ascendeu já a sessenta milhões de euros. Segundo fontes eclesiásticas foi construído com as ofertas dos cristãos que ali veneram a Virgem Maria.

 

 2. «O terço converge para o Crucificado que desta forma abre e fecha o próprio itinerário da oração» (2)

 

As opiniões sobre a construção da Basílica da Santíssima Trindade são todas, mais ou menos, consensuais. Segundo uns, parece um auditório para espectáculos profanos; para outros, até poderá ser um «jeitoso T8» (3).

O aspecto arquitectónico, tanto exterior como interior, enquadra-se no estilo cubista tão característico da arquitectura civil. As dimensões exorbitantes relativamente ao que seria necessário, impõem-se: na área destinada ao sacramento da Confissão (agora chamado da Reconciliação), há corredores com 150 metros, há salões de espera de atendimento com 600 lugares sentados (a maioria dos cinemas de Lisboa são mais pequenos), se os peregrinos forem portugueses; se forem estrangeiros, há outros 120 lugares sentados. Quer para uns, quer para outros, há ainda 32 salas/gabinetes, respectivamente, com vista a cada peregrino receber o sacramento referido.

 «Gente sentada e gente de pé», escreve Frei Bento Domingues na sua crónica no jornal O Público. E acrescenta: «Para gente de pé, continua o recinto da Cova de Iria , a maior basílica do mundo a céu aberto (...). A divindade não precisa de templos para habitar entre nós (...)». Na verdade, «o coração humano, em espírito e verdade, é a sua morada e o mistério da Santíssima Trindade, a nossa ilimitada habitação: nele  vivemos, nos movemos e existimos (Act 17, 28)». (4)

 Para preencher os vastos espaços, foram seleccionados três papas: Pio XII, por ter consagrado o Imaculado Coração de Maria ao mundo inteiro, em 1942, e tê-la coroado (Coroa de Ouro), em 1946. Paulo VI, por ter visitado este santuário mariano em 1967. João Paulo II, por ter vindo rezar à capelinha das Aparições após ter escapado com vida ao atentado que sofreu, no dia 13 de Maio de 1981. Mas, como se não fossem o suficiente, foi também colocada a estátua do 1º Bispo depois da restauração da Diocese, D. José A. C. da Silva.

 

3. «Repetir o nome de Jesus (...) enlaçado com o de sua Mãe Santíssima, e de certo modo deixando que seja Ela própria a sugerir-no-lo, constitui um caminho de assimilação que quer fazer-nos penetrar cada vez mais profundamente na vida de Cristo.» (5)

 

A dimensão da estatuária papal é pouco consentânea com o local em que se insere. Estamos num santuário de Maria, escolhido por Ela própria para ter uma pequena capela sob a sua invocação. Afinal, a imagem de Maria, Mãe do Filho de Deus e nossa Mãe, é bastante mais reduzida em tamanho. O Papa João Paulo II é mesmo colocado num lugar mais destacado e visível do que a Rainha do Céu, no seu santuário em Portugal. Como pediu, Maria está recolhida na pequenina capela que solicitou aos pastorinhos de Fátima.

 A verdade é que a maioria dos crentes se desloca a Fátima para rezar junto da capelinha das Aparições, ou seja, no local onde foi escutada por Lúcia a «Senhora mais branca do que a luz do Sol». E aí está a pequena capela  para nela ser visitada e poder ser, junto dos povos, uma Mãe atenta aos seus filhos. Atenta a esses filhos que Jesus identificou com o seu discípulo João, junto da Cruz: «Eis aí a tua Mãe» (Jo 19, 27).

 
4. «À luz da própria Avé-maria nota-se claramente que o carácter mariano não só não se opõe ao cristológico como até o sublinha e exalta. (...) O Rosário torna-se verdadeiramente um caminho espiritual, onde Maria faz de mãe, mestra e guia, e apoia o fiel com a sua poderosa intercessão» (6)

 

As portas da Basílica da Santíssima Trindade, em número de treze, alternam com paredes cobertas de mensagens extraídas dos Livros Bíblicos. Estas mensagens, ao sobrevalorizarem profetas e apóstolos, fazem o peregrino perder-se da Mãe em Jesus Cristo, divinal e protectora, que ali chamou à conversão os pecadores porque o Pai do Céu já estava muito ofendido. Não seria mais lógico haver sobretudo passagens das Memórias de Lúcia, ouvidas à Senhora do Rosário de Fátima? Se estamos num santuário mariano, como dar relevo sobretudo àqueles que lhe são alheios e de quem a Virgem Maria não falou?

 Tudo aquilo que no santuário de Fátima é estranho a Maria não desperta qualquer interesse àqueles que visitam o local. A finalidade dos peregrinos em Fátima é honrar, venerar e orar a Maria, Mãe de Jesus e Mãe de Deus, conforme a Anunciação do Anjo. Veja-se a grande emoção que envolve os peregrinos ao incorporarem-se na Procissão das Velas e na Procissão do Adeus. Na Cova de Iria, Maria conduz o Povo ao Filho, a Jesus; Maria indica a cada um, na imagem do Filho, o Pai. Lembremos as frases de Jesus: «Sede perfeitos, como Meu Pai é perfeito», «Quem Me vê, vê o Pai». Por sua vez, Maria tem na Sua voz, a voz do Espírito Santo que a escolheu, como anunciou o Anjo, para Mãe de Seu Filho, Jesus, o Príncipe da Paz.

 Nem no dia da inauguração, os fiéis presentes tiveram interesse em ler as epígrafes gravadas nas paredes externas. Por outro lado, a sua profusão é de tal ordem que desmotiva a leitura.

Naquele lugar especial, Maria falou aos pequenos pastores para ensinar à humanidade aquilo que o Espírito Santo queria que lhe fosse revelado, nesse ano de 1917. Aqui, na Cova de Iria, o ensino, ou é o da Palavra de Maria, Mãe de Jesus, ou forçando a pedagogia da Santíssima Trindade, esta só pode cair no vazio. Logo, presta-se ao desinteresse, à indiferença.

 


 

5. «Neste processo de configuração a Cristo no Rosário, confiamo-nos, de modo particular, à acção maternal da Virgem Santa (...). O primeiro dos "sinais" realizado por Jesus − a transformação da água em vinho nas bodas de Caná − mostra-nos precisamente Maria no papel de mestra, quando exorta os servos a cumprirem as disposições de Cristo» (7)

 

Como disse, recentemente, o Papa Bento XVI ao bispo António Marto da diocese de Leiria-Fátima, "Fátima é escola de fé com a Virgem Maria por Mestra". Neste lugar das alturas da serra d'Aire, Maria, "da sua cátedra, ensinou aos pequenos Videntes e depois às multidões as verdades eternas e a arte de orar, crer e amar"(8). E na Encíclica Spe Salvi (Salvos pela esperança), recentemente publicada, Bento XVI acentua que Maria é a «estrela da esperança», dessa «esperança cristã que tem os outros como horizonte» (a última parte da Encíclica Spe Salvi, é dedicada à Mãe de Jesus).

  A Basílica da Santíssima Trindade é um templo com muitas portas, mas no modelo que Jesus nos dá do Céu, Ele diz-nos que aí só há uma porta e que ela é estreita. No interior da nova Basílica há um largo mural de terracota coberta de ouro.  Não será um «bezerro de ouro», em má hora colocado no Santuário mariano?

Esta ideia lembra-nos esse célebre «bezerro de ouro» que o povo de Israel, no tempo de Moisés, introduziu no templo, após fazer fundir o ouro das jóias das suas mulheres, para adorarem esse ídolo, símbolo da riqueza, substituindo o seu Deus e Senhor. Mas o Senhor disse a Moisés: «O povo está pervertido. Fizeram um bezerro, um ídolo de ouro (...). A Minha cólera vai inflamar-se contra eles» (Êx 32, 1-10).

 Aqui, também, parece estar presente um certo «bezerro de ouro». Aqui, no lugar que os Céus tinham escolhido para celebrar a Mãe, bendita entre as mulheres e cheia de Graça, se recita todos os dias o Terço, sem esquecer  o Pai Nosso e a Salve-rainha. E, precisamente, nesta última oração, os peregrinos pedem-Lhe para que depois desta vida "nos mostre Jesus" e que "rogue por nós para que sejamos dignos das promessas de Cristo".

 Na Cova de Iria, Maria mostra, claramente, a Lúcia, Jacinta e Francisco, que "está em risco a salvação eterna dos seus filhos e, por isso, repete o apelo de Jesus: «Arrependei-vos e acreditai no Evangelho». (Mc 1,15). A mensagem de Jesus torna-se assim a mensagem de Maria" (9).

 E a mensagem de Maria aos pequenos pastores de Fátima foi repleta de palavras de humildade, a começar pela capelinha onde caberiam poucos, mas onde à sua volta, uma multidão teria sempre lugar ao Sol ou à chuva, mas sempre a sentir uma fé inquebrantável.

 

 6 de Dezembro de 2007

Teresa Ferrer Passos

 

 

(1) João Paulo II, O Rosário da Virgem Maria − Carta Apostólica, p.7.

(2)  Idem, Ibidem, p.49.

(3) Internet, Blog Movimento da Mensagem de Fátima , Ermesinde.

(4) Frei Bento Domingues, Público, 15/ 10/2007.

(5) João Paulo II, O Rosário da Virgem Maria − Carta Apostólica, p. 46.

(6) Idem, Ibidem, pp. 45 e 50.

(7) Idem, Ibidem, pp. 20 e 21.

(8) Fátima Missionária, nº 11, Dezembro de 2007, p.34.

(9) Almanaque de Nossa Senhora de Fátima, 2008, p.68.

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1º CENTENÁRIO do NASCIMENTO

de OLIVIER MESSIAEN,

 o compositor chamado «Angélico»

(1908-2008)

 

 

 

No 100º Aniversário do Nascimento do compositor francês Olivier Messiaen, a Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa organiza o ciclo integral da obra para órgão em seis concertos e que vai ter lugar de 1 de Novembro a 6 de Dezembro de 2008 na cidade do Porto.

 

O Concerto de encerramento, no dia 10 de Dezembro, realiza-se na Igreja de S. António dos Portugueses, em Roma.

O centenário do nascimento do compositor e organista Olivier Messiaen (1908-1992), um dos maiores do século XX, constitui a ocasião para a organização, rara na Europa, do integral das obras para órgão.

A Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa, activa na investigação e produção artística da música sacra, bem como na formação de músicos nesta área e, nomeadamente na vertente organística, promove em 2008 o ciclo integral da obra para órgão de Olivier Messiaen, que inclui seis concertos.

A cidade do Porto, designada mesmo como "cidade dos órgãos", apresenta um contexto privilegiado no que respeita à oferta de instrumentos de grande qualidade e com diversos perfis conceptuais, permitindo, através dos órgãos sinfónicos da Sé Catedral e das Igrejas de S. Martinho de Cedofeita e da Senhora da Conceição, a execução integral, em seis concertos, das obras de Olivier Messiaen, entre as maiores e complexas de todo o repertório do século XX para este instrumento.

O perfil artístico, que envolve organistas nacionais e estrangeiros, será também uma oportunidade de potenciar esta área de estudos sistemáticos organísticos, que encontra, com a música sacra, a sua vertente científica no Centro de Investigação em Ciências e Tecnologias das Artes (CITAR), bem como será uma oportunidade de promoção nacional e internacional de todo o contexto musical portuense..

Os patrocínios internacionais do Pontifício Instituto de Música Sacra em Roma e do Instituto Português de Santo António em Roma, bem como a participação de prestigiados organistas, entre os quais Winfried Bönig, organista titular da Sé Catedral de Colónia (um dos maiores interpretes de Messiaen), permitem já uma projecção internacional deste evento que se realizará entre 1 de Novembro e 10 de Dezembro (dia do 100° nascimento) de 2008.

O concerto de encerramento, a cargo do docente da Escola das Artes Giampaolo Di Rosa, será, realizado em Roma, na Igreja Nacional Portuguesa - onde G. Di Rosa acaba de ser nomeado Organista titular do novo órgão sinfónico de 4 teclados projectado por Jean Guillou - e onde está prevista a participação de eminentes personalidades do mundo eclesiástico e cultural.

Particularmente importante será a participação de Professores da Universidade ligados às áreas da Teologia, Filosofia, Musicologia e Análise Musical, que irão contribuir fundamentar os aspectos científicos dos conceitos artísticos realizados, cujos resultados serão apresentados numa mesa redonda na abertura do inteiro ciclo.



PROGRAMA:

Olivier Messiaen | Integral da obra para órgão, 2008 centenário do nascimento
*

Sé Catedral do Porto, 1 Novembro 2008, 21h30
Daniel Ribeiro (Portugal):
«Verset pour la fête de la Dédicace», «Les Corps Glorieux»
*
Igreja de S. Martinho de Cedofeita, 14 Novembro 2008, 21h30
Giampaolo Di Rosa (Itália):
«Monodie», «Livre d'Orgue»
*
Igreja da Senhora da Conceição, 15 Novembro 2008, 21h30
António Esteireiro (Portugal), Daniel Ribeiro :
«Apparition de l' Eglise éternelle», «Le Banquet céleste», «L'Ascension», «Messe de la Pentecôte»
*
Igreja de S. Martinho de Cedofeita, 5 Dezembro 2008, 21h30
António Mota (Portugal):
«Diptyque», «Méditations sur le Mystère de la Sainte Trinité»
*
Igreja da Senhora da Conceição, 6 Dezembro 2008, 21h30
Winfried Bönig (Alemanha):
«Livre du Saint Sacrement»
*
Igreja de S. António dos Portugueses em Roma, 10 Dezembro 2008 (centenário do nascimento), 21h00
Giampaolo Di Rosa:

«Offrande au Saint Sacrement», «La Nativité du Seigneur»
 

 

 

 

THE LIFE OF MESSIAEN
by CHRISTOPHER DINGLE,
Cambridge University Press, March 2007.
 

   The Life of Messiaen paints a more nuanced picture of the man and the musician, peering behind Messiaen's public persona to examine the private difficulties and creative struggles that were the true backdrop to many of his greatest achievements.

   Based upon the latest research, including previously overlooked sources, this book provides an excellent introduction to Messiaen's life and work, presenting a fascinating new perspective of a man whose story is more remarkable than the myths surrounding it. (Malcolm Ball - Internet, www.oliviermessiaen.org )


 

 

Olivier Messiaen's System of Signs
Notes Towards Understanding His Music
Andrew Shenton
Hardback
Ashgate Publishing Group


« Andrew Shenton's groundbreaking cross-disciplinary approach to Messiaen's music presents a systematic and detailed examination of the compositional techniques of one of the most significant musicians of the twentieth century as they relate to his desire to express profound truths about Catholicism.

   It is widely accepted that music can have mystical and transformative powers, but because 'pure' music has no programme, Messiaen sought to refine his compositions to speak more clearly about the truths of the Catholic faith by developing a sophisticated semiotic system in which aspects of music become direct signs for words and concepts.

   Using interdisciplinary methodologies drawing on linguistics, cognition studies, theological studies and semiotics, Shenton traces the development of Messiaen's sign system using examples from many of Messiaen's works and concentrating in particular on the "Meditations sur le mystere de la Sainte Trinite" for organ, a suite which contains the most sophisticated and developed use of a sign system and represents a profound exegesis of Messiaen's understanding of the Catholic triune God.

   By working on issues of interpretation, Shenton endeavours to bridge the traditional gap between scholars and performers and to help people listen to Messiaen's music with spirit and understanding.» (Malcolm Ball - Internet, www.oliviermessiaen.org )

 

 

Excertos de uma carta* de

OLIVIER MESSIAEN a Nicholas Armfelt :

 

 

Le 6 février 1977

 

Cher Monsieur

 

 

(…) L'Oiseau-Tupi surtout est prodigieux, comme rythme, comme ligne mélodique, et comme variété de timbres. J'ai été absolument renversé par le KOK AKO (Blue-wattée Crow, Calleras chinera). Je ne connais pas cet oiseau. Est-il de la même famille que les corbeaux fouteurs (Gymnorhina)? En tout cas, cet oiseau prodigieux fait ce que les flutistes et les clarinettistes ont découvert depuis peu, c'est-à-dire des double-sons! Si vous pouviez m'en donner une description, cela me rendrait grand service. Je connaissais déjà l'Oiseau-Tupi, l'Oiseau-Cloche, et le Mo houa à tête jaune. Mais beaucoup d'autres oiseaux que vous m'avez envoyés sont pour moi une révélation. (…) Je vous prie de croire, cher Monsieur, à ma profonde reconnaissance. Olivier Messiaen

 

* Internet, www.oliviermessiaen.org

 

 

 

 

 

 

A RELIGIOSIDADE NA MÚSICA DO SÉCULO XX

  –  OLIVIER MESSIAEN

 

 

 

 

 

Olivier Messiaen nasce, em 10 de Dezembro de 1908, na cidade de Avignon, em França. Com 11 anos, vai, com seus pais, para Paris, onde estuda e compõe parte da sua obra.

«Oito prelúdios para piano» é a sua primeira obra incluída no Catálogo oficial, datando de 1929. No teatro dos Campos Elíseos fez, com vinte e quatro anos, a sua primeira exibição pública, com a obra «As ofertas esquecidas». No ano seguinte, compõe «Tema e variações para violino e piano», composição dedicada a "Mi", expressão carinhosa de Claire Delbos, com quem casa nesse ano.

 

 

Dois anos depois, em 1934, compõe a sua primeira obra já com um sentido claramente religioso. «A Ascensão», assim lhe chamou. Desde então, toda a sua obra de composição musical se inspira na temática cristã, como por exemplo, em 1935, «A Natividade do Senhor» (primeiro dos grandes ciclos de órgão) ou os «Cantos da terra e do céu» (1938).

 

Prisioneiro dos ocupantes alemães nazis, em Junho de 1940, é no campo de Görlitz, na Silésia, que, apesar das difíceis circunstâncias, dá asas à criação musical, tendo como auditório outros prisioneiros. Por exemplo, o «Quarteto para o fim do mundo». Alcançando a liberdade, está em Paris, no ano de 1943. Compõe, com essa data, «Visões do Ámen», a que se seguem, nos anos seguintes, «Vinte olhares sobre a infância de Jesus» e «Três pequenas liturgias da presença divina».

 

 

Em 1949, inicia a sua obra teórica Tratado do Ritmo, da Cor e da Ornitologia, actualmente publicado em oito volumes. Anos depois, em Paris, publica «Despertar dos pássaros» e «Pássaros exóticos». Em 7 de Julho de 1969, com 61 anos, Olivier Messiaen cria em Lisboa a composição «Transfiguração de Nosso Senhor Jesus Cristo». Muitas outras composições musicais de índole espiritual cristã, têm a sua assinatura. O louvor e a glória do Divino constituem uma obsessiva fonte de inspiração.

 

 

Como escreve o seu amigo Claude Samuel, no site internético especialmente dedicado ao 1º Centenário do seu nascimento, este compositor francês considera o canto dos pássaros a mais bela forma musical da natureza, mesmo não esquecendo a humana.

Tendo escrito uma única ópera, intitulou-a «S. Francisco de Assis», tendo trabalhado nela durante oito anos. Ao longo desse seu trabalho, fez «uma viagem especial à Caledónia para captar o canto de um pássaro chamado gerigona. Mesmo que «não seja o seu opus último, esta ópera deve ser considerada como uma obra testamentária» (Internet, Claude Samuel, www.messiaen2008.com/biographie.php ).

 

 

 

Fazendo uma ligação entre as cores, o canto das aves e o ritmo, criou, ao longo do século XX (morre em 1992) uma obra musical sui generis de temática quase exclusivamente religiosa, o que deu azo a muitos sarcasmos e críticas insultuosas a este compositor de inegável coragem num mundo dessacralizado e ateu.

A sua personalidade ímpar ofereceu ao século XX uma feição menos monolítica e consensual no que toca à crença numa espiritualidade de matriz cristã, alargando o espaço religioso que parecia estar irremediavelmente condenado a um silêncio, em que a audácia e o destemor não moravam mais.

 

27/2/2008

 

Teresa Ferrer Passos*

 

* Ortónimo de Teresa  Bernardino.

 

 

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MEMÓRIA DAS APARIÇÕES EM LOURDES

 

 

«Quando se viu uma vez a Virgem, a qualquer sacrifício estaria disposta para a voltar a ver.»

Santa Bernardette

 

 

Bernardette, no dia 11 de Fevereiro de 1858, foi, com a irmã e uma amiga, juntar madeira perto de Massabielle, ao longo do Gave. Quando passava o riacho, ouviu um ruído estranho que vinha de uma gruta: «Eu vi uma Senhora vestida de branco». Bernardette fez o sinal da cruz e recitou o terço na presença da Senhora. A seguir, deixou de a ver quase instantaneamente. Esta a primeira Aparição.

No dia 14, Bernardette sentiu uma força interior que a levou a querer, de novo, ir à Gruta, apesar do desacordo de seus pais. A mãe, perante a sua insistência, anuiu. Depois da primeira dezena de terços, viu, de novo, a Senhora. A pequena Bernardette lançou-lhe água benta. A Senhora sorriu e baixou a cabeça. Logo que foi concluído o terço, a Senhora desapareceu de novo. Assim terminou a segunda Aparição.

Nestas duas primeiras Aparições, a Senhora esteve em silêncio.

No dia 18 de Fevereiro, a Senhora dirigiu, pela primeira vez, a palavra a Bernardette: «Eu não te prometo dar-te a felicidade neste mundo, mas num outro. Queres fazer-me o favor de vir aqui durante quinze dias?»

Nessas visitas á Gruta, a Senhora identifica-se: Ela é a Imaculada Conceição. Ela é Maria, a Mãe de Jesus.

Assim, Bernardette tornou-se uma criança vidente. A imagem sacra de Maria está ali. Presente, interveniente. Atenta ao pecado, à dor, à humanidade em busca de auxílio. Sobretudo, a protecção na doença implacável, a que Jesus fora tão sensível na sua peregrinação terrena.

A visão, a palavra, o sorriso e o gesto impressionam Bernardette, até ao limite. Como é possível acontecerem-lhe tais maravilhas? Inicia-se, na sua vida, um tempo novo, de contemplação e de reflexão. Tudo agora é, para ela, um momento que passa sobre as horas perfumadas da sua existência perante o olhar de Maria.

O povo segue-a, ao saber de tais intervenções divinas na Gruta que Bernardette visita. Por sua vez, as autoridades exigem que ela seja ouvida, como se tivesse cometido um crime. O diálogo com as coisas sacras não é bem visto pela sociedade que define Deus como uma entidade muito distante.

É o delírio dos crentes e a alucinação dos descrentes.

Nas montanhas dos Pirenéus, a luz de Cristo surge no rosto luminoso de Maria.

E Bernardette dá testemunho, entoando bem alto o som da voz carinhosa, mas com um forte aviso do Céu, que deixou de poder esperar. O Céu surgiu na Gruta da montanha e ali deixou a Sua Morada. Uma Morada talvez eterna. 

 

11 de Fevereiro de 2008

Teresa Ferrer Passos

 

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S. PAULO À PROCURA DO SENTIDO DE JESUS

 

 

«Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus. Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Jesus Cristo. Deus destinou-O a ser vítima que, mediante o seu próprio sangue, nos consegue o perdão, contanto que acreditemos»

S. Paulo, Epístola aos Romanos, 3, 23-26

Internet, www.paulinos.org.br

 

 

«Eram os tempos da paciência de Deus», escreve S. Paulo. A humanidade perdeu-se da sua origem primordial, do seu Criador, da sua Paternidade. A origem só se dava a conhecer pela própria obra criada, obra em que se incluía o homem. Mas o homem não a encontrava. E, afinal, só o homem a podia reconhecer porque possuía o espírito, uma qualidade que os outros seres não possuíam. E era precisamente por meio do espírito que ia reconhecendo na existência a sua precariedade e a sua incompletude. Com o espírito sentia a emoção perturbada pela ausência do Criador.

O homem sentia a falta de alguma coisa que lhe pertencia. Não a sabia nomear. Não conseguia descobrir essa raiz de que se afastara. A ausência de Deus era redutora. O sentimento das suas limitações inquietava-o e fazia-o viver numa solidão absurda.

A interrogação eram as suas horas, os seus dias, os seus anos carregados de angústia. A angústia tinha as suas raízes na ausência de sentido da sua existência, sem essa Paternidade donde viera e da qual não estava destinado a separar-se. O afastamento do antes de si, dava-lhe a certeza de que a sua vida estava esvaziada de sentido.

 Perante essa realidade em que o ser humano se enredava, Deus desvendou-Se, dando-Se a conhecer, manifestando-Se na carne. Fê-lo, como escreve S. Paulo na Epístola aos Romanos, através de Jesus, onde o Verbo habitou, fazendo-se carne.

E Deus, o nosso Pai, porque era a nossa Origem Primeira, procurou na personificação de Jesus o amor dos filhos extraviados, desviados de Si, transviados da prática do bem. Das veredas do mal não eram capazes de sair. No sentimento da soberba, os homens tinham-se perdido do Pai.

O homem esquecera-se da origem que lhe oferecera o “paraíso”. Perdera-se irremediavelmente dele. Mas, continuava com uma imagem arquétipa, uma imagem longínqua, sem visibilidade, mas ainda assim uma imagem, uma imagem subconsciente desses primeiros tempos. Uma imagem de Paternidade escondia-se nas malhas labirínticas de um Criador escondido, mas sempre vigilante. Mesmo assim, para o ser humano Ele jazia num apagamento, numa treva, para a qual não tinha visão.

Do “paraíso” tinha ficado na memória humana apenas o valor do bem. Sobrevivia imerso numa vaga memória. As sucessivas gerações seguiam na esteira do valor do mal, a sua própria antítese. Os caminhos justos do bem eram distorcidos e desprezados. O bem − o rumo difícil − era vencido pelo mal − o trilho fácil.

O bem e o mal permaneciam em vasos comunicantes, mas o mal prevalecia nas acções. E o Verbo permanecia em silêncio. O amor desse Pai, escondido no Espírito Santo, distante: os homens não se sentiam Seus filhos. Por isso, não O amavam. Sem amor, viviam separados d’Ele. E, na paciência, Deus esperava. A paciência de Deus era a própria espera, mas os Seus filhos viviam na discórdia e não viam a espera do Pai.

Os passos dos homens, distantes da sabedoria do amor divino, estavam longe da confiança. O medo de errar, o medo de perder, o medo do fim, o medo do sonho, o medo do amor, tudo os afastava do Pai que era a fonte do amor.

Só a fonte do amor estava no Pai, o Pai que nos esperava e a Quem não chegávamos. O Pai tudo justificaria e a tudo daria razão de ser. A criatura desviava-se do Pai que a todas as gerações antecedia. Sem a solidez daquilo que ultrapassava a vida, sem o infinito que dava a eternidade, sem a força da necessidade do bem, o ser humano alienava-se, cada vez mais, da sua transcendência.

Ora, se o Criador não se aproximasse, se não fosse ao seu encontro, se não se mostrasse na carne e pela carne, o homem nunca chegaria às alturas do Verbo, nunca reencontraria o Pai, essência de amor. «Quem nos poderá separar do amor de Cristo? A tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo, a espada?». E, logo a seguir, S. Paulo cita a Escritura: «Por tua causa somos entregues à morte o dia inteiro, somos considerados como ovelhas destinadas ao matadouro» (Rom 8, 35-36). A verdade é que só a fé oferece essa força de não temer a humilhação nem a própria morte, em nome do Pai.

     Jesus Cristo vem manifestá-Lo, a partir da sua própria carne. Sem a Sua intervenção, o ser humano permaneceria num deserto árido, atirado para um universo de mistificadoras suposições. Um ser sem passado não teria à mão alicerces sólidos na sua vida. O presente, opressivo e opressor, não o deixaria respirar. O futuro não o deixaria ser feliz porque sem um plano de vida, afundava-se na esterilidade da sua existência. O desespero não o deixaria prosperar. Amedrontado pela corrupção da carne, não almejaria a plenitude do amor guiado pela sua origem divina.

Para S. Paulo, quem dá testemunho do Pai, senão Jesus Cristo? Só Ele se irmana aos homens ao ser concebido numa mulher por graça do Espírito Santo. Só Ele manifestou o Verbo. Através do Seu sangue redimiria todos aqueles que O seguissem nos actos e nos pensamentos, O seguissem pela comunhão do amor divino. O Seu sangue, oferecido em holocausto, seria o selo do amor do Deus encarnado, o selo do amor absoluto de Deus aos Seus filhos, que assim saberiam quanto eram amados.

O sacrifício divino, visível na humanidade de Jesus, após a condenação à morte na cruz, seria, segundo S. Paulo, o primeiro objectivo do Pai. O Pai que foi com Jesus, um só, poderia ter enviado um profeta para ensinar a Sua doutrina. Mas não foi isso que aconteceu. E porquê? Porque Jesus é muito mais do que isso. Como escreveu, «Deus destinou-O a ser vítima» (Rom 3, 25). O julgamento, o sangue vertido na tortura, os suplícios, a morte derradeira na cruz e, três dias depois, a Sua Ressurreição, constituem a razão da Sua descida à terra para que o encontro com o ser humano se tornasse para aqueles que n’Ele acreditassem num encontro de amor ao Pai.

O testemunho de Jesus − único na história da humanidade − mostra como o perdão do pecado é carregado pelo próprio Deus na cruz sacrificial. O perdão é alcançado para o homem através do sangue vertido pelo «Verbo que se fez carne e habitou entre nós» (Jo 1, 14).

Sem o gesto, as mãos estendidas e os braços voltados para aqueles que se deixariam sempre desviar da origem primordial, o homem continuaria a enterrar-se num pântano sem amor, fé e confiança no Pai. A fome do amor, que tudo consome, não o deixaria regressar à origem, regeneradora e fonte de alimento puro.

 O Pai que ampara, ia revelar-Se, transparecer a Seus filhos, como se fosse um deles, através de Jesus. A verdade chegava aos homens pela aparição do próprio Pai, na Sua pessoa. O Pai amava os Seus filhos, mas era preciso um testemunho. Quando a sua paz se perturbou ao vê-los sem condições para subir a Ele, disse-lhes, “estou aqui”! Como realça S. Paulo, «Deus demonstra o seu amor para connosco porque Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores» (Rom 5, 8).

Os Seus filhos não podiam chegar até Ele, sem o Seu auxílio. Sem Ele próprio lhes estender as mãos. Nada seria possível ao homem, sem o auxílio desse Pai que lhe parecia distante, enquanto Ele próprio não o abraçasse.

E abraçou-o com os braços bem abertos. Eis Jesus Cristo condenado à morte na cruz. O braços escancarados, aguardando a chegada dos seus amados filhos. Não, naquela hora. Era a hora do começo. Até ao fim dos tempos. O Pai sabia bem que muitos não O reconheceriam, mas, mesmo que fossem poucos, alguns teriam possibilidade de se salvar do pecado: «Se quando éramos inimigos fomos reconciliados com Deus por meio da morte do seu Filho, muito mais agora, já reconciliados, seremos salvos pela sua vida» (Rom 5, 10).

O reino de Deus está pronto para muitos, mas transpô-lo é difícil. Porque Jesus O revelou no mistério da morte na cruz, O transmitiu na ressurreição e O exaltou na ascensão ao céu perante os discípulos. Foi na vitória sobre o mal que o Pai interveio e interveio através da imolação do «cordeiro de Deus». O «cordeiro de Deus» é Jesus e, com ele, todos os outros filhos de Deus que n’Ele crerem. Como acentua S. Paulo, Jesus reconcilia o homem pecador com o Pai: «A escolha não depende da vontade ou do esforço do homem, mas da misericórdia de Deus». (Rom 9, 16)

A justiça de Deus «manifesta-se no tempo presente» (Rom 3, 26). E nada mais seria preciso a Jesus para cumprir o objectivo do Pai, do que a redenção da humanidade. Os milagres e as parábolas de Jesus não são o Seu atributo essencial. São os Seus atributos secundários. É que Jesus é muito mais do que um profeta ou do que um sábio, Jesus redime os que pecavam. Foi para esses que Ele aqui veio, que Ele aqui esteve.

O Filho de Deus, «o Verbo que encarnou e habitou entre nós», veio para o que era Seu. Mas, muitos não O reconheceram, nem O hão-de reconhecer… Ele falou pelo Verbo, Ele foi «uma pedra de tropeço, Ele foi uma pedra de escândalo, mas quem acreditar nela não será confundido» (Rom 8, 33). A pedra de escândalo era Jesus, porque Deus habitou o Seu coração para que o ser humano não mais tivesse razão para se afastar d’Ele, duvidando do seu amor.

 

 Julho/2009

Teresa Ferrer Passos

 

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PARA UMA «NOVA IDADE NO MUNDO»

 

 

 A Influência de Joaquim de Flora em Portugal e na Europa, obra recentemente publicada (2005, Roma Editora) por José Eduardo Franco e Frei José Augusto Mourão (professores na Universidade Nova de Lisboa) é um dos mais importantes contributos para o estudo do pensamento teológico e político na Idade Média. De facto, Joaquim de Flora (1130/35-1202), teólogo contemplativo da Ordem de Cluny, foi um dos mais influentes espíritos do século que marcou o nascimento da figura do intelectual e das universidades.

A originalidade dos seus escritos deve-se sobretudo à preeminência que dá no livro Concordia Nova ao Espírito Santo, relativamente ao Pai (Idade dos Anciãos) e a Jesus Cristo (Idade dos Jovens). As duas primeiras idades correspondiam aos tempos primordiais da humanidade e à era de Cristo. Este ponto de vista transgredia a concepção comummente aceite de que o Génesis bíblico correspondia a um Paraíso terrestre em que o homem e a mulher (Adão e Eva) tinham sido perfeitos e, por isso, felizes, até à queda pecaminosa que os fizera perder a pureza que era própria da sua grande espiritualidade.

Ao longo dos tempos, o Homem teria decaído cada vez mais, tornar-se-ía mais rebelde à obediência ao Pai e acabaria por terminar o seu caminho na Terra com um terrível apocalipse que castigaria implacavelmente os pecadores e daria a recompensa aos eleitos ou puros de coração (Bem-aventurados os puros de coração porque verão a Deus, Mat.5, 8). Este final de caminho em descida em vez de ascensão, perturbava demais a sensibilidade de Joaquim de Flora. Como conciliar a história da salvação cristã com esta evolução progressiva rumo ao pecado em vez de ser uma via da perfeição, ou seja, da virtude? Na verdade, a espiritualidade constitui para Joaquim de Flora o cerne da perfeição humana, o ponto em que o ser humano toca mais de perto a perfeição do Pai («Sede perfeitos como meu Pai é perfeito», disse Jesus), e o único que garante a toda a humanidade um caminho de salvação e não de perdição.

Segundo o abade do mosteiro de S. João de Fiore, a evolução da humanidade processa-se, com um lento, mas progressivo aperfeiçoamento da conduta humana. A Idade do Pai, o Deus judaico (Antigo testamento), respeitava ainda a uma época de trevas, de ignorância e de barbarismo, de grandes pecados da carne, cuja punição era, desde logo, exercida pelo Pai. Essa precedência do mal leva-o a colocar a Idade do Espírito Santo como a última idade da evolução humana e, precisamente, a coincidir com a vitória dos puros ou espirituais (Idade das Crianças).

Autor de uma obra que se antecipou a algumas teorias filosóficas futuras, rejeitou, designadamente, a cruzada armada contra o Infiel, o desprezo pelo espírito de pobreza e as concepções de índole apocalíptica e milenarista com que a Bíblia era interpretada pela Igreja.

As perspectivas filosóficas milenaristas, segundo as quais o mundo teria de acabar no fim de um milénio, constituiram o principal motivo de o abade de Flora procurar fazer uma reforma da leitura do Livro sacro. Uma das mais influentes teorias monásticas sobre a evolução da humanidade formulada sobre a tríade das Idades do mundo, surgia, assim, para contrariar as análises da Bíblia propagadas pelo Papa e, em consequência pelos teólogos da Igreja.

A Influência de Joaquim de Flora em Portugal e na Europa, obra conjunta de José Augusto Mourão e José Eduardo Franco é um valioso contributo para o conhecimento mais aprofundado da importância do pensamento deste monge contemplativo e das suas repercussões na Europa dos séculos subsequentes.

Até aos nossos dias a teoria da Idade (final) do Espírito Santo tem tido adeptos entre teólogos, filósofos e poetas. Na Itália do século XIV, Dante compôs a Divina Comédia «tirando consequências escatológicas bem concretas do edifício profético assente na doutrina das Três Idades» (p.77). Na verdade, há um esquema Joaquimita, quando Dante faz a narrativa processando-se desde o Inferno (1º Livro) até ao Paraíso (3º Livro), com o estado intermédio do Purgatório (2º Livro).

No século XIX, o filósofo Fichte haveria de dizer que vivendo nós na “era da perversidade total, tudo leva a pensar que esta antecederá o tempo da regeneração” (p.89). Os autores referem-se igualmente à sua influência em Lessing, porque «concebe a Terceira Idade como o futuro reino da razão, da realização humana perfeita e da consumação dos ideais do Cristianismo» (p.88). Além disso, neste filósofo alemão abundam as «referências a S. João e ao Eterno Evangelho do Apocalipse» (p.91). A palavra escrita de Joaquim de Flora também não passou despercebida a Augusto Conte, quando dividiu a evolução histórica da humanidade em três estádios: estádio teológico, estádio metafísico e estádio positivo ou científico. Este último estádio corresponde à Idade do Espírito Santo numa «manifesta extrapolação do numinoso para o âmbito do domínio terrestre» (p.88).

A prevalência do espírito de Joaquim de Flora no nosso tempo é salientado, de igual modo, ao referir-se a estrutura da obra romanesca O Nome da Rosa do italiano Umberto Eco e o ensaio filosófico de Giorgio Agamben, destacando uma passagem de Le temps qui reste (Paris, Rivages, 2000): “Toda a modernidade está empenhada num corpo-a-corpo hermenêutico com o messiânico”. E conclui-se: «A linguagem messiânica tem de ser pensada hoje como a tradução (...) de uma atmosfera psicopolítica e psicoreligiosa» (p.90).

Muitos outros autores sobre quem incidiu a luz espiritual de Joaquim de Flora são referidos neste interessante ensaio de José Eduardo Franco e José Augusto Mourão. Referimo-nos, designadamente, às importantes repercussões do pensamento joaquimita em Fernando Pessoa, Agostinho da Silva e Natália Correia.

Também o movimento «New Age» e a expansão da cibercultura não podem desinserir-se da espiritualidade da Concordia Nova. Esta «concórdia» preconiza «a vinda de tempos novos»; por outro lado, como se sublinha, a «questão de fundo é a reforma e a conversão permanente» (p.84).

O mundo pode converter-se à perfeição. Esta está ao alcance do Homem. Não é uma utopia. Uma impossibilidade. É uma conquista. Uma vitória sobre as forças diabólicas que arruinam a esperança e desencadeiam a revolta. Aqueles que amam a paz não abdicarão de seguir por aí. Os puros de coração não despertarão só quando forem espezinhados pelos que nada têm de comum com eles.

O mundo do abade Joaquim de Flora é portador de uma mensagem que não pode ser esquecida, muito especialmente, nos nossos dias. Uma abertura absoluta a todas as correntes é benéfica, mas há que salvaguardar as inspiradas no Espírito Santo da Revelação, sob pena de infidelidade aos princípios em que se acredita. Se os tempos antigos cometeram erros, não se deve pensar que a cultura de massas  contemporânea está imune a outros erros não menos graves. A intolerância para com as correntes espiritualistas, especificamente no universo cultural português, não abona em favor das correntes materialistas, antes as reduz a um comportamento intransigente e dogmático, idêntico àquele que elas condenam com tanta veemência!

A Idade da Perfeição ou do Espírito Santo não está num paraíso distante, mas num paraíso que está à mão da humanidade construir e que é, acima de tudo, uma escada ascendente que é preciso subir degrau a degrau até atingir o ponto mais alto. Para o alcançar, há que vencer o desalento e conquistar a esperança, alicerce de todas as vitórias: «a originalidade de Joaquim de Flora assenta na ideia da história como progresso, na compreensão da revelação e no conhecimento de Deus, na existência de uma terceira idade, idade da esperança e o anúncio de um reparator que prepara a vinda dos novos tempos» (p. 137).

Neste contexto, quem nos garante que o ciberespaço não virá a ser ainda um instrumento provocador, uma impressão digital incisiva ou um veículo dinamizador do caminho para a progressiva reconversão espiritual da sociedade humana? Uma nova ordem foi fundada por Joaquim de Flora no século XII (em 1196 uma Bula papal autoriza-o a fundação de um mosteiro sob a invocação de S. João Evangelista e do Espírito Santo). Também no século XXI uma nova ordem terá de ser lançada na conquista do aperfeiçoamento humano até ao triunfo do ideal formulado pelo Cristo que o teólogo de Flora não desfigura. Antes, é a pedra angular sobre a qual se erguerá a mística Idade do Espírito Santo. No aperfeiçoamento moral da sociedade humana assentará a “Lei Nova” (p.138). Na Conclusão de A Influência de Joaquim de Flora em Portugal e na Europa escreve-se: «um abade de província transformou-se em profeta das “novas equipas” em meio urbano e um exegeta ortodoxo, submisso aos Papas, tornou-se o pai espiritual de inúmeras “rebeliões selvagens”, suspeito de heresia (...) Joaquim alimentou todos os “apocalipses de facções”, servindo os movimentos mais contrários: desde Espirituais franciscanos, seguidores de David Joris, seitas iluministas, rosacrucianos, maçónicos, aos templários» (p.139). Um espírito iluminado, Joaquim de Flora caminhou na via sacra da perfeição rumo à almejada Idade do Espírito Santo.

 

17/8/2005

Teresa Ferrer Passos

 

Publicações:  Internet, www.triploV.com (8/9/2005); O Primeiro de Janeiro, Suplemento «das artes das letras», 12/9/2005; Notícias de S. Braz, (S. Brás de Alportel), Setembro/2005; A Avezinha (Albufeira), 20/10/2005;Internet, www.harmoniadomundo.net (2007); Teresa Ferrer Passos, Escritos Voando no Tempo, Escrituras Editora, Colecção Fonte Velha, S. Paulo, 2009, p.210.

 

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NOVOS SENTIDOS DE UM OLHAR

 

 

Com a marca dos dias efémeros surgiu, pouco antes do Natal de 2002, o livro Mas Há Sinais… (ed.Paulinas) da autoria de Henrique Manuel (também assina por Henrique Manuel Pereira). Trata-se de um desses livros tão clarificadores, tão transparentes, tão abertos que o consideramos semelhante a uma quadrícula de caderno escolar, e, ao mesmo tempo, ao lê-lo, com atenção, descobrimos, em cada uma das suas páginas, as profundezas da razão, os enigmas do espírito, as diatribes das palavras todas feitas de carne a sangrar e a atingir, mesmo assim, as montanhas das coisas sagradas.

Em Mas há Sinais…, Henrique Manuel escavou, no silêncio e na meditação, toda a riqueza presente nas pequeninas coisas que passam, às vezes, tão despercebidas e em que nos movemos ao longo de cada um dos nossos dias. Em comportamentos desse dia a dia, a que poucos dão importância, desvenda o autor sentidos de solidariedade ou de desprezo, de comunhão ou de egoísmo, de procura ou de desencontro. Ante esses sentimentos antagónicos, vagos, a aniquilar a beleza interior de cada pessoa, Henrique Manuel propõe uma nova emoção, que se deverá traduzir em novas maneiras de responder aos desafios. Uma nova emoção a conduzir, em última instância, aqui e agora, ao erguer de uma outra morada. A morada da felicidade de si para o outro e do outro para si. Como se fossem o «outro» e o «eu» vasos comunicantes, que misturam conteúdos, sem perderem as suas propriedades e valor próprio. E esta felicidade edifica-se com «o ritmo da natureza – um diálogo entre a paciência e a persistência – tão diferente da resignação!» (p.43). E, mais adiante, questiona: «Quantas vezes não fazemos nada só com medo de fazermos pouco?» (p.66) E, em outra passagem: «Não nos arriscamos a seguir pura e simplesmente a voz do amor e perdemos dia após dia o paraíso» (p.101). Tudo isto para escalar a montanha de ser feliz, porque essa é a meta a atingir por cada um de nós, se não queremos perder o tempo que Deus nos oferece desde o princípio do mundo: «Seja hoje outro o teu riso; a tua alegria tão real / que as próprias aves te confundam com a primavera. //(…) Aí tens este dia como um sulco por semear. / Sê hoje feliz. É-me absolutamente necessário que o sejas» (p.129).

Sim, há aqui, na verdade, sinais. E, um deles,  bem a transparecer, é o próprio autor desta obra, tão imbuída de simplicidade. Sinais de que um jovem de trinta e poucos anos pode ser hoje, ao mesmo tempo, um contemplativo da acção, um pensador dos mistérios que a vida humana provoca, um poeta da emoção, um cultor da escrita diarística ou auto-biográfica a perpassar em cada momento inesperado.

Estamos com um livro bem singular, em que poemas e textos de prosa se entrelaçam, todos eles eivados de um bem estruturado pensamento ético-normativo, exemplar da corrente de pensamento cristã-personalista. Encontramos, igualmente, nesta recolha de escritos aparentemente fragmentários, mas na realidade com uma univocidade constante, o género sentencioso das pequenas histórias do tipo fábula sempre com sábios exemplos para a vida. Está aqui, a percorrer estas páginas, o poeta que tece os seus poemas com arte e como se fossem outros tantos cânticos de sabedoria desfiados em fios de luz. São também eles motivados pelos sentidos maiores da acção humana.

Henrique Manuel faz neste seu livro transparecer a sua alma inquieta, mas traduz essa inquietação com a lucidez própria de um espírito forte, que escreve as palavras de si para os outros como se não saindo de si, todo tomando pleno sentido nos outros.

Estamos perante uma obra que já foi transmitida oralmente através da Rádio Renascença. As suas páginas foram escritas como se cada hora desenhasse, antes de tudo, um novo passo para aprender a viver: «Se aceitamos a dureza de um momento, o enfrentamos e aprendemos com ele, então crescemos. A crise passa» (p.146). E o autor atinge o voo largo dos instantes: «Mesmo com olhos cansados e o coração cinzelado por cicatrizes, não olhar para trás e fitar o futuro, sempre atentos à plenitude de cada momento» (p.152).

Nestes escritos para o diálogo, o autor expõe e expõe-se como se não quisesse deixar de ser um desses a quem se pretende dirigir. O autor também sofre, tem medo, sonha, não aceita, confia ou duvida. Ele próprio é um dos seus ouvintes ou leitores. Esta uma das suas mais relevantes características.

Mas em todo este trigo que Henrique Manuel nos oferece, fomos desocultando várias espécies de trigo que é preciso salientar para que nada deste pão se perca. É preciso separar, dividir para que aquele que escreve não se dilua numa única fornada de pão. Notamos que, como é preciso separar as águas diferentes, também é necessário que o autor cultive cada um deles em terreno próprio, em terra que faça as sementes germinarem de acordo com as suas propriedades próprias. E assim, cada uma delas cresça mais, sem que umas limitem as outras. Parece-nos que seria de, no futuro, cultivar cada uma destas (senão mesmo outras) temáticas separadamente: o ético que eclode vibrante; o poético que assume a beleza da estética literária; o diarístico que pode dar-nos a dimensão de quem o escreve; o religioso que tem uma só fé, a fé no Cristo revelado pelos Apóstolos; o sentencioso que ensina como se fosse uma fábula; o retórico que alcança a força das palavras. Separar para colher as espécies puras de cada espiga de trigo. Um desafio para o autor de Mas há Sinais. Como naquela manhã em que pediu «um olhar positivo para tudo o que de negativo nos desafia» (p.144)…

 

Teresa Ferrer Passos

 

Fonte: A Avezinha (12/1/2006); Notícias de S. Braz (10/12/2005); Suplemento «das Artes das Letras» in O Primeiro de Janeiro (22/11/2004); Internet, www.triploV.com (30/3/2003); Excertos in Voz Portucalense (Porto), 19 de Março de 2003.

 

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