
REVELAÇÃO DE DEUS E POESIA
RELIGIOSA
«O Desejo nasce a partir do
seu “objecto”, é revelação»
«A necessidade é um vazio de
Alma, parte do sujeito»
«A religião é Desejo. (…) É o
excedente possível numa sociedade de iguais, o da gloriosa
humildade, da responsabilidade e do sacrifício, condição da
própria igualdade»
«A sociedade com Deus não é
uma adição a Deus»
Emmanuel Levinas, Totalidade e Infinito, pp. 49 e 51.
«Que venha o
teu tempo, Deus, / o teu dia, / não amanhã, / mas hoje».
Nestes versos recentemente publicados em O Nome e a Forma
escapa das palavras o desejo de Deus. Nesta obra, José
Augusto Mourão, poeta, religioso, semiólogo, toca e irradia a
força do ser-criatura no confronto e na comunhão com o
ser-Criador. A invocação que é usada nos poemas aqui vindos a
lume, repete-se sem cansaço. O tema é o diálogo com Deus, numa
procura incessante e obstinada da verdade que é o Desejo da
alma, no sentido positivo do termo Desejo. Confrontando o
conteúdo destes poemas com o livro Totalidade e Infinito
de Emmanuel Levinas, encontramos uma das possíveis chaves de O Nome e a Forma.
Nesta
obra de poesia religiosa, vive o tempo de Deus a mergulhar na
sua criatura, a chamá-la, a procurá-la, a escutá-la. Há uma
epifania repetindo-se e, ao mesmo tempo, em constante tempo
regenerado ou resgatado pelo próprio Deus. O tempo de Deus é
aqui um Desejo inocente, cheio de pureza, da sua criatura, que
sem necessidade, porque Deus não lhe faz falta, parece procurar
o que, afinal, não é mais do que ser a procurada. O Desejo da
criatura, não uma necessidade da criatura, porque se o fosse, o
Desejo em vez de construir num sentido benfazejo, destruía; em
vez de oferecer, afastava, em vez de se transcender, descendia,
ou seja, degradava-se. Seria uma necessidade. E a necessidade é
insaciável de uma felicidade que pertence à esfera do egoísmo,
do servir-se e não do servir. Na necessidade não reside a
generosidade. Nela está presente o exclusivo interesse do
sujeito e não o apelo do objecto exterior ao sujeito.
Como pensa o
filósofo Emmanuel Levinas, o Desejo de Deus é algo de bem
diferente da necessidade de Deus. O necessário não é mais do que
«um vazio de Alma» e pertence ao sujeito que exige sempre algo
porque lhe falta, porque não possui o que está no Outro. Mas o
Desejo, pertencendo à esfera do objecto, neste caso Deus, é Bom
porque, nada lhe faltando, o procura. O Desejo de Deus está
presente em O Nome e a Forma. Há aqui como que um
excedente. Ora, um excedente, não sendo algo que faz falta, é
algo que se acrescenta por revelação, como elucida Emmanuel
Levinas. Quando José Augusto Mourão invoca Deus faz sempre uma
chamada do fora para o interior e não o contrário.
É neste
contexto metafísico, no contexto da relação da criatura com o
Criador que podemos inserir a obra de José Augusto Mourão O
Nome e a Forma, recentemente publicado na editora Pedra
Angular. Lembrem-se estes versos, a título de exemplo, pois
muitos outros poderiam ser respigados: «quando voltamos os olhos
para Deus / que não está no céu, / mas no mistério da vida
infinita, / inimaginável, / donde Ele vem e se faz próximo»;
ou, «onde devemos esperar-Te, Deus da surpresa / (...) / Deus
dos que não têm voz nem barcos / (...) / Deus gratuito onde
estás? / (...) / onde apareces, Deus amigo dos pobres, / onde te
acharemos, Deus libertador?» do poema «Deus absconditus».
A procura de
Deus envolve em O Nome e a Forma o desvendar do seu Nome
oculto, desde os começos do mundo, e, mesmo assim, à beira das
palavras que deformam e que nas suas simulações ou
desvendamentos intrínsecos, ainda assim transmitem sentidos:
«descemos cada dia do monte da Ascensão / encobertos pela Nuvem
e pelo Nome»;
«dá-nos (...) / a graça de continuar mesmo às escuras / (…) à
procura do teu Nome»;
«toma-nos pela mão, Deus, / e que a nossa vida se ponha de pé /
a caminho do teu Nome, / Deus do nosso consentimento / e do
nosso louvor».
Mas o Nome
não está isento de um Rosto: «dá-nos a graça da revelação do
Rosto»;
ou: «seja o teu rosto / o brasão da casa, / a alegria, o mosto /
na aflição, a asa».
Entre o Nome e o Rosto, José Augusto Mourão traça as linhas de
um sagrado que, imerso no profano, não abdica de todo um
ritualismo litúrgico circunstancial e sem tempo. As expressões
linguísticas dos poemas denunciam um jogo entre transcendência e
imanência. Apenas alguns exemplos: páscoa, ofertório, o pão, o
vinho, o anjo, epifania, salmo, tempo de adventos, momento
penitencial, quinta-feira santa, comunhão, oblação, entre
outras, fazem transparecer o valor dos ritos a confluir entre
si, como se fossem vários rios que tentassem chegar a um imenso
oceano, que neste ensejo nos serve de metáfora para designar o
Pai, o Filho e o Espírito Santo. Como escreve Emmanuel Levinas,
«A sociedade com Deus não é uma adição a Deus».
A sociedade com Deus parte mais do objecto do que do sujeito,
surge mais do fora provocador, ou seja, que fala, do que do
dentro pobre e pequeno demais.
Das
invocações ao exortativo, do penitencial ao louvor, os poemas
aqui reunidos desvelam o autor, quer na sua específica
univocacidade eclesial, quer no seu convívio inevitável com um
mundo enganoso e vão. Um mundo que vive para contradizer a
dimensão humana do espírito e que vê em Jesus uma pesada pedra
de tropeço de que é necessário libertar-se.
14 de
Janeiro de 2010
Teresa
Ferrer Passos
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«ALMA MATER», UM DISCO COM A VOZ DE BENTO XVI
Um CD de louvor à Virgem Maria e
a Jesus foi recentemente publicado pelo Vaticano. É, sem
dúvida, uma belíssima aposta discográfica levada a cabo
sob a égide do Papa Bento XVI, cujo gosto pela música
erudita é bem conhecido. Com composições de músicos
contemporâneos como Simon Boswell, Stefano Mainetti e
Nour Eddine Fatty, o CD alcança uma notória unicidade de
tons e sons, aparentemente menos consentâneos, pois se
as influências ocidentais são predominantes, não se
abdicou de aí incluir as de origem no Próximo-Oriente.
De grande beleza em «Alma
Mater» são as vozes dos coros e a voz «cantabile» de
Bento XVI. À profundidade rítmica da Academia
Filarmónica de Roma junta-se a notável soprano Yasemin
Sannino. Música de sonoridades subtis, os cantores
dos coros oferecem uma finíssima e encantatória melodia,
a que se juntaram as frases impregnadas de poeticidade
do Papa. Todo o conjunto das suas intervenções parece
elevar-se até aos confins do espaço celestial, sem se
perder dos espaços humanos.
Das passagens recitadas por Bento
XVI, destacamos apenas a primeira das que constam do
folheto que acompanha o CD:
«A fé é amor, e portanto cria
poesia e música. A fé é alegria, e portanto cria beleza.
As catedrais não são monumentos
medievais, mas sim edifícios vivos onde nos sentimos "em
casa": encontramos Deus e encontramo-nos com os outros.
Tão pouco a grande música
–
o canto gregoriano, ou Bach ou
Mozart –
é uma coisa do passado, pois vive da vitalidade da
liturgia e da nossa fé.
Se a fé está viva, a cultura
cristã não se torna "passado", antes permanece viva e
presente. E se a fé está viva, também hoje podemos
responder ao eterno imperativo dos salmos: "Cantai ao
Senhor um cântico novo".»
T. F. P.
28/12/2009

MADRE MARIA ISABEL DA SANTÍSSIMA
TRINDADE −
UMA
MULHER DE MÃOS ESCANCARADAS
O
desenho do branco desenha-se na larga e seca planície. A
forma das pequenas casinhas caiadas confunde-se com a
claridade branca do Sol. No Monte do Torrão, aldeia de
Santa Eulália (a poucos quilómetros de Elvas), onde
nasceu, em 1889, Maria Isabel recebera as palavras do
Evangelho desde a infância. Uma fascinação pelas artes
toca o coração de Maria Isabel. Com uma cuidada educação
dada por seus pais, inscreve-se na Escola de Belas-Artes
de Lisboa. Mas a arte de amar é mais forte. Regressa ao
seu solitário Alentejo. Em 1912, tem vinte e três anos.
É, então, que contrai matrimónio com João Pires Picão,
seu primo. Vão viver para S. Domingos, também a pouca
distância de Elvas. O amor ao esposo é agora a sua meta
e o seu contentamento.
Generosa, tudo dá de si porque dar é a sua vocação
maior. Os anos passam na serenidade das soalheiras e das
sombras macias dos sobreiros. Sem filhos, dedica-se
inteiramente ao marido que, entretanto, adoece, sem
sinais de recuperação. Com extremoso amor, Maria Isabel
oferece-lhe o melhor de si. O agravamento do seu estado
de saúde, debilita-a. Quer parecer forte ao olhos do
esposo.
O
cansaço abate-a, mas não a faz desistir de lutar. De
têmpera combativa, procura o auxílio da oração. Suporta
a cruz com abnegação. Mas o esposo sucumbe. A sua morte
aparece-lhe como um fim inevitável. Na hora do seu
falecimento fica paralisada, não sabe que sentido tem a
sua vida sem aquele amparo que durara dez anos, sem ter
recebido a dádiva de um filho. Sente a solidão na sua
alma generosa, pronta para servir. Tem trinta e três
anos. Corria o ano de 1922. Inconformada com o
falecimento do esposo ainda tão jovem, ao longo de onze
anos dá apoio à Igreja de Santa Eulália. Em 1934 entra
nas Dominicanas de Clausura de Azurara, mas a falta de
saúde leva-a a regressar à terra natal. Pouco tempo
depois, em 1936, a Casa de Retiros em Elvas é-lhe
entregue pelo arcebispo de Évora. A partir da
atribuição desta responsabilidade, Maria Isabel vai
doando generosos bens a essa obra.
A guerra
civil espanhola prolongava-se pelo ano de 1939. Em
Espanha, as Ordens Religiosas eram perseguidas pelas
forças comunistas. As Irmãs Concepcionistas de Clausura
de Santa Beatriz da Silva refugiam-se na zona de Santa
Eulália. Tomando conhecimento da sua situação, logo
Maria Isabel oferece as suas casas para as acolher.
Dialogando longamente com as Irmãs daquela Ordem sente
que a vontade do Pai devia ser o grande guia das acções
humanas porque «só devemos querer uma coisa: que se
cumpra em nós a sua santíssima vontade».
Pela
primeira vez desde a morte do marido, sente-se
fortemente ligada a uma comunidade monástica. Presta
toda a atenção às palavras sábias das Irmãs de Santa
Beatriz da Silva. Escuta os seus pontos de vista sobre a
Ordem a que pertencem, sobre os seus objectivos. Sabe
que a Imaculada Conceição é um alento maravilhoso para o
culto divino. As palavras das Irmãs espanholas da
Imaculada Conceição de Santa Beatriz mostram a Maria
Isabel que a Ordem podia ser mais activa, mais dinâmica
se tivesse a dimensão humana de auxiliar os pobres, os
mais desamparados na sociedade.
Na
verdade, a Ordem de Santa Beatriz era de cariz
contemplativo. Juntar à oração a acção, a prática do
auxílio material, seria alargar a construção da Casa do
Espírito Santo. Os pobres precisavam, nestas paragens
alentejanas, de bem mais assistência. A seara de Jesus
exigia esse serviço. «Ninguém nos pode tirar Deus dos
nossos corações; e com Deus nunca seremos pobres nem
abandonados» escreveria Maria Isabel.
A vida
de Maria Isabel orientava-se, agora, no sentido da
dádiva dos seus bens aos pobres desse Alentejo solitário
e pouco afortunado. Por que não fundar uma Ordem que
unisse o espírito contemplativo ao da acção? «É certo
que nada vales, mas comigo, tudo vencerás», eis as
palavras que escutava bem dentro do seu coração. Unido a
ela, Jesus dava-lhe a esperança de conseguir lançar uma
nova Ordem. A cada instante, sentia Jesus incutindo-lhe
perseverança apesar das dificuldades a vencer.
Agora
sentia-se uma mulher capaz de renascer se fosse possível
lançar os fundamentos de uma Ordem de Nossa Senhora da
Conceição ao Serviço dos Pobres, tudo conforme o
espírito de S. Francisco de Assis. As dificuldades não
se fizeram esperar. Mas, «o sacrifício dará fruto a seu
tempo», pensa Maria Isabel nas horas de desalento.
Uma
excepcional força anímica vivia ainda em Maria Isabel
para não vacilar ante os obstáculos. Acredita, com
firmeza: «A oração dispõe-nos para a Graça».
Em 1939, a Congregação das Irmãs Concepcionistas ao
Serviço dos Pobres estava já a erguer-se. Construção
lenta, mas fundada na esperança que não se deixa vergar
pelos tempos nefastos. De facto, só a 5 de Julho de
1955, o Papa Pio XII aprovava a fundação do novo
instituto religioso. É nesse mesmo ano que Madre Isabel
faz a sua Profissão Perpétua.
Vencendo
quem se opunha aos seus desígnios, a Madre Maria Isabel
da Santíssima Trindade, assim rebaptizada na religiosa
senda, realizava o último e grande sonho da sua vida:
entregar aos pobres todos os seus bens e com esses bens
formar uma Congregação para os servir. Ao criar a
Congregação das Concepcionistas ao Serviço dos Pobres,
as suas riquezas multiplicavam-se, todo o património de
que era detentora foi entregue à nova comunidade
religiosa. Os bens doados foram a terra fértil para
concretizar o sonho de Maria Isabel: servir o Pai mesmo
para além da planície larga desse Alentejo em que
nascera.
Ao
Serviço dos Pobres nada se perde, tudo é restaurado e dá
fruto até ao fim dos tempos. Sete anos após a aprovação
papal, Madre Maria Isabel da Santíssima Trindade
terminava a sua obra nessas terras de trigais a perder
de vista. A morte punha fim aos seus incansáveis
trabalhos, a favor dos mais abandonados, no ano de 1962.
Em 1998, foi pedida a sua beatificação.
As
orações daqueles que nela esperaram auxílio, na doença
ou na pobreza, têm sido escutadas. No reino do Espírito
Santo terá continuado a velar pelos mais desprotegidos.
A beatitude revelara-a já em vida. Revestida de
beatitude continuará no céu, nesse céu donde Jesus lhe
sussurrava a Sua Vontade. E que era, afinal, a maior
ambição de Madre Maria Isabel da Santíssima Trindade:
ajudar os pobres. Como ela soube pôr em prática aquilo
que Jesus dissera ao homem rico: «vai, vende tudo o que
tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no
Céu» (Mc 10, 21). Como ela terá meditado nas
Bem-Aventuranças do Sermão da Montanha, das quais
lembramos apenas uma das que mais a terá sensibilizado:
«Bem-aventurados os mansos porque possuirão a terra» (Mt
5, 5).
28 de Dezembro de 2009
Teresa Ferrer Passos

RECORDANDO SANTO ANTÓNIO
NO DIA MUNDIAL DAS MISSÕES
O espírito de Frei António ficou
perturbado. Tinham sido martirizados cinco franciscanos
portugueses, em Marrocos. Ao ver os seus cadáveres
decapitados, quando estava no mosteiro de Santa Cruz em
Coimbra, no ano de 1220, tomou uma rápida decisão:
ingressar na Ordem Franciscana a que aqueles pertenciam.
Era preciso evangelizar as terras do Norte de África.
Depois de ter tido formação
jurídica, filosófica e teológica na Sé Catedral de
Lisboa e no Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra,
sentia-se preparado para levar o nome de Cristo muito
além. A Ordem Franciscana seria aquela onde mais fácil
seria pôr em prática os seus desígnios. A verdade é que
professara na Ordem de Santo Agostinho, por volta de
1211. Era preciso mudar para uma Regra que lhe desse
mais poder de manobra nas lides da missão.
Com o ingresso na Ordem de S.
Francisco de Assis, o entusiasmo pelo seu novo trabalho
conduziu-o ao embarque com destino a Marrocos. Mas a
alegria de lá ter chegado transformou-se em desalento.
Ao ficar gravemente doente, os seus superiores da Ordem
Franciscana acharam melhor que ele regressasse a Lisboa.
A sua saúde frágil parecia ter sido fortemente abalada
pelas duras condições da região marroquina.
Na hora da angústia obedece.
Então, Frei António embarca rumo a Lisboa, a sua terra
natal. Mas os desígnios de Deus não eram esses: Frei
António, afinal, não deveria regressar à pátria. O barco
em que seguia desviou-se para o sul de Itália devido a
perigosa tempestade. Com vinte e poucos anos, o seu
estado de saúde melhorou.
Por este tempo, conhecera a
necessidade de pregadores por aquelas terras. Resolveu,
então, começar pela cidade de Bolonha. Aqui, várias
heresias, como a dos Cátaros e a dos Valdenses, eram
populares, estavam a aumentar o número de adeptos,
cresciam a um ritmo que o assustou. É aqui que Deus quer
a sua presença. Espantosos sermões chamam para junto
dele cada vez maior número de pessoas. Estas, seduzidas
pela sua bonomia e vontade de as ajudar contra os mil e
um obstáculos que se lhes punham, acabam por o
idolatrar.
Agora, Frei António apercebe-se
de que tudo isto é a força da vontade divina. Aqueles
que o começam a ver sempre com a ternura de um pai que
leva ao colo o seu filho, tornam-se a razão dos seus
ensinamentos. E não pára de se deslocar. Numa correria
louca, faz por todo o lado espantosos sermões. Ficou
célebre o título que recebeu: "Incansável Martelo dos
Hereges".
Também outro país, a França,
precisava de um grande missionário contra a heresia.
Ali, a Igreja fundada por São Pedro não estava em perigo
menor de sucumbir. Pregou então contra os Albigenses em
várias cidades daquele país, como Marselha ou Toulouse.
A partir de 1228, com a canonização de Francisco de
Assis, Frei António regressa a Itália. Sem nunca
abandonar os seus estudos de natureza contemplativa, a
pouco e pouco, ia dando lugar à pregação junto das
gentes. Fora necessário enveredar pela palavra junto das
multidões, agora em Bolonha, Florença, Milão, Verona,
etc.
Sem se deixar vencer pelas
adversas condições da época, chegou, já exausto, à
cidade de Pádua. Corria o ano de 1231. Nesta cidade,
viveu a Páscoa desse ano como se a fraqueza física que o
atingia não fosse motivo para suspender a evangelização.
As regiões da Europa, a pouco e pouco, tinha-se
afastando da Igreja de Roma. Frei António não podia
desviar-se um só instante da divulgação do Evangelho de
Jesus Cristo e de Sua Mãe Santíssima.
Achando que a doença não podia
afastá-lo do seu ideal, nada o afastava da missão.
Imobilizado no leito, continua a "pregar" junto daqueles
que o tinham ouvido, enquanto fora possível manter-se de
pé. As suas palavras ecoavam nos milhares que o tinham
escutado em França e em Itália. A fé na sua palavra e na
sua doação ao próximo, parecia adiar a sua morte.
Contudo, mais uma vez, Deus tinha
outro desígnio para o fogoso missionário da Europa.
Em 13 de Junho desse mesmo ano, Frei António falecia na
cidade de Pádua. Regressava agora à Pátria, não do seu
nascimento, mas àquela que ele próprio tinha prometido,
em nome de Jesus Cristo, aos seus vastíssimos
auditórios.
Da sua morte aos nossos dias, a
sua figura continua a ser motivo de veneração, de
esperança e de protecção. Desde a Itália a muitos pontos
do mundo, aquele que seria canonizado um ano depois da
sua morte, é motivo de oração. Àquele que junto de
Cristo conseguira tantas milagrosas dádivas para o povo,
nem a morte foi capaz de fazer esquecer.
O defensor da fé e da sua pureza
recebeu títulos de honra, como os de "Oficina de
Milagres", "Maravilha da Itália, Honra das
Espanhas, Glória de Portugal" ou "Santo Protector dos
Enamorados".
Santo António de Lisboa é um dos
maiores exemplos da vocação missionária. E Portugal
sente que ofereceu um Santo ao mundo.
18 / 10/2009
Teresa Ferrer
Passos
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DEUS À MINHA PORTA
Deus
está lá fora. À minha porta. Eu estou cá dentro. E digo
que Deus não tenta falar comigo. Que Deus não me dá o
mais ínfimo sinal. Que Deus provavelmente nem existe.
Mas, se olhar bem para o fundo de mim mesmo, vejo. Vejo
que sei que Deus está lá fora. À minha porta. E vejo
ainda mais. Vejo que não lhe abro a porta por temer ter
de renunciar a muitas coisas. Coisas a que estou
excessivamente agarrado. Mas olhando ainda mais fundo
dentro de mim mesmo, vejo. Vejo que todas essas coisas,
a que tanto apego tenho, são pechisbeque ao pé dos
tesouros não sonhados que Deus tem para me oferecer. Se
eu O deixar entrar. Mas eu ponho cada vez mais trancas e
ferrolhos na minha porta. Com medo que Ele force a
entrada contra a minha vontade. Mas também isto eu sei.
Sei que Ele nunca o faria. Porque me respeita. Mas sofre
por me ver sofrer. E sofro, de facto. Sofro com o medo
de perder o pechisbeque. Sofro com a ânsia de acumular
mais pechisbeque. Pechisbeque. O cintilante pechisbeque
com o qual o Diabo me enfeitiçou. O sórdido pechisbeque
que o Diabo me vendeu. Em troca de mim mesmo.
Deus
permanece. Deus permanece lá fora. À minha porta.
Esperando que eu o deixe entrar. E continuará à espera.
Até ao meu último suspiro.
8/6/2009
Fernando Henrique de Passos
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PONDE EM NÓS O VOSSO OLHAR
BENFAZEJO!
(Oração para os doentes)
Somos doentes Pai, ponde em nós o Vosso olhar benfazejo!
Tende piedade dos males que trespassam os nossos corpos.
Não deixeis que a doença adormeça os nossos sentidos.
Ávidos de vida, vemo-nos a tropeçar nas pedras dos
caminhos. Prontos para vencer, o nosso corpo perde as
forças vitais. A dar vida a sonhos impossíveis,
acrescentamos as obras do espírito. Com as nossas forças
a resvalar até aos abismos, nada queremos perder de Vós.
Sabemos que a Vossa Casa não é um simples fumo. Somos
doentes Pai, aliviai-nos da dor que cansa! Com o Vosso
olhar, dai-nos uma alma nova! Com as Vossas mãos,
elevai-nos à santidade! Com a Vossa boca, dai-nos um
ânimo heróico! A nós doentes que Te damos graças em dias
longos, dias cheios de oração!
E
quem somos nós? Pai, nós somos as mães com medo de
morrer porque a morte nos separa dos pequenos filhos!
Nós somos os velhos com saudades do mundo, até mesmo
antes de morrermos! Nós somos os jovens que perderam a
saúde e queremos servir-Te melhor do que antes da sua
perda! Nós somos as crianças a resvalar para a morte, e
com fome e sede e um pântano de injustiças… Pai,
consolai-nos, a cada um de nós, com o eco ou o espelho
ou a verdade, com o que acheis melhor que transporte as
largas planícies da Vossa Paciência!
Abril/2009
Teresa Bernardino
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A PROPÓSITO DE…
«Glória a Deus nas alturas e paz
na terra aos homens de boa vontade»
Na comunicação social, mais precisamente, na Antena 2
(Programa Império dos Sentidos), o cronista Pedro
Malaquias teceu considerações que achei distorcidas
sobre esta célebre frase bíblica (29/1/2009). Fiz,
assim, uma breve reflexão sobre ela.
A «Glória a Deus nas alturas» alude a uma glória que é
essencialmente um projecto, uma construção que a ideia
de Deus pressupõe, mas nos ultrapassa. Nós não podemos
entender de que glória se trata. O que é a glória de
Deus é um mistério para o ser humano. A glória de Deus
tem um significado que transcende o homem, não podemos
defini-la concretamente, porque Deus nos transcende. Mas
podemos intuir através da Palavra de Jesus Cristo de que
é algo que passa pela humildade, pelo sofrimento, pelo
sacrifício, pela dor, pela humilhação, pela pobreza,
pelo limitado, pelo fraco, pelo vencido, pelo puro de
coração. A glória de Deus está nas alturas porque o
homem está na base da montanha, não está no cume. No
cume da montanha está o conceito de glória de Deus. Os
critérios divinos não se coadunam, a maior parte das
vezes, com a estreiteza das ambições economicistas e com
elas consumistas e hedonista (a sociedade do bem-estar,
do ócio e do negócio) de dimensão breve no tempo, esse
tempo que os homens estão insistentemente a
contabilizar, como se só esse tempo existisse.
A segunda parte da frase, «e paz na terra aos homens de
boa vontade» não se refere a uma solicitação a Deus de
paz para os homens bons e de guerra para os homens maus,
violentos, nefastos para os «homens de boa vontade».
Estes, que serão, em princípio, os bons de quem Deus
gosta, a quem Deus deve proteger, não podem ter a paz só
por eles próprios. Na verdade, nunca «os homens de boa
vontade» poderão ter alguma paz, se os outros, ou seja,
os homens de «má vontade», revoltados, inclementes,
perversos, existirem no mundo. Nunca haverá paz para os
«homens de boa vontade» se aqui não for pressuposto que
os homens de má vontade ou violentos se converterão «à
boa vontade». Enquanto existir um homem violento, não
haverá «homens de boa vontade», em paz. A paz não pode
passar por uns, sem passar por outros. A paz é uma
construção que não aliena ninguém, porque a minha paz
passa sempre pela tua paz e a tua paz passa sempre pela
minha paz. Assim, a frase, sendo um pedido a Deus de
«paz para os homens de boa vontade», não pode deixar de
ser também um pedido a Deus de uma paz universalista,
para todos os homens. É um pedido a Deus lembrando os
homens de boa vontade. Parte-se do princípio que a
existência dessa minoria que não merece viver na guerra,
justificará a transformação dos «homens de má vontade»
em «homens de boa vontade» para que, desse modo, não
sejam esses os destruidores da paz dos «homens de boa
vontade», vitimando-os, fazendo-os perder a paz porque a
violência dos maus aniquila «a paz dos homens de boa
vontade» e, por isso, não faz sentido dizer que a frase
só solicita a paz para os que já são bons. Os bons só
podem ter paz, se os maus se lhes juntarem no Bem.
Lisboa, 29 de Janeiro de 2009
Teresa Ferrer Passos
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ORAÇÃO BREVE A S. JOÃO DE
DEUS

Sem julgares os pecados de teus irmãos, sofres pelos
teus, e são tantos, dizes. Percorres as ruas da cidade
como um louco, para se rirem de ti, o pecador. Chamas a
atenção do povo por actos impróprios da lucidez. Queres
ser o algoz de ti próprio, precisamente tu, tu que foste
tão contrário a Jesus. Tu que participaste nas guerras
ao serviço dos grandes, queres fazer justiça contra ti
próprio, por tuas próprias mãos, tu que pecaste tanto
naquelas guerras «santas»…
Cobres o corpo de ridículo para que te chamem ridículo,
cobres o corpo de escárnio para que te escarneçam,
cobres o corpo de desprezo para que te desprezem. E o
povo chama-te louco e criva-te de pedras, na cidade. Na
bela cidade de Granada. Acusam-te de louco porque te
comportas como se o fosses, porque desejas esse insulto,
tudo isto depois de te teres convertido ao Sacro Coração
Jesus.
Para ti, a guerra deixou de ter sentido, depois de
ouvires o sermão de João de Ávila. Agora, convertido, a
tua vida já só tem um sentido, o sentido do amor, de que
Jesus falava. E com pedras de escândalo te adornas nas
ruas pejadas de insultos, nas gentes estultas gritando a
tua demência.

É assim que segues, coberto de dores físicas e dores do
espírito, esse espírito tão arrependido. Segues a orar
por mais castigos, talvez precises até dos tormentos
infligidos aos loucos arredados do convívio da lucidez.
E provocando, mais e mais, as pessoas lúcidas, és
conduzido ao hospício, o lar dos loucos. És só mais um
deles e, como eles, és açoitado com o baraço de cordas,
é assim que os enfermeiros os «curam» das fúrias e das
angústias…
Então, sabes como é cruel esse «tratamento», e como, só
por isso, se impõe deixares que te continuem a
supliciar, mesmo merecendo, porque é preciso terminar os
suplícios infligidos sem justeza, a esses pobres loucos.
Mostras, célere, uma paz seráfica, uma passividade sã,
uma fisionomia conformista. Vêem-te numa harmonia
contigo próprio, espantas aqueles que, com crueldade,
dizem poder «curar» os doentes do espírito. Dão-te por
«curado» da loucura… Agora, sabes que tens de trazer,
enfim, aos loucos do hospício, um tratamento todo feito
de grande carinho, de grande amor, conforme a palavra de
Jesus. E deixam-te sair de entre aqueles doentes, seguir
para as ruas. Entregam-te até uma carta de liberdade por
estares são, estares «curado». Então, deixas o hospício
nefando, livre e com o amor no coração para o dares a
todos os doentes, sejam eles do corpo ou da mente, sem
diferença, porque não há verdadeira diferença entre
eles.

É preciso ser rápido porque aqueles doentes sofrem sem
razão, sem ter pecado, como dizes ter tu pecado. Tens a
certeza que, afinal, Jesus não quer que sofras o ódio
contra ti próprio, apesar de, como proclamas, tantos
pecados teres cometido. Jesus quer ver-te, a ti, a quem
ele, num certo dia da tua aventurosa vida, ouviste
chamar «João, João de Deus!», ao seu serviço. Mas servir
só com amor, só com amor a ti e aos desvalidos. O que
Jesus, afinal, quer, é que espalhes amor pelas vítimas
da injusta loucura que não é pecado, mas inocência.
Como carregas aos ombros as suas dores e descobres o
néctar da suavidade que sara as feridas da sua alma.
Como susténs o desalento negro em que mergulham.
Como esvazias o vazio que acossa as suas vidas.
Como agarras as suas mãos fracas com ternura.
Como sentes as suas faces a tombar sobre o teu peito,
agora cheio de amor para amparar os mais fracos.
E, sem hesitar, ofereces aos doentes que encontras pelas
ruas, não um infame hospício, mas uma Casa, toda ela
erguida sobre os alicerces do amor. Pedes esmola, passas
fome. Mas vives, finalmente agora, sem pensar nos
castigos que hás-de dar aos teus pecados. Esses teus
pecados a redimirem-se pelo amor aos abandonados, pelo
amor às vítimas da injustiça, como os loucos, e tantos
outros, no hospício deixados. E as vítimas da violência
começam a ser dignas de viver com a paz, mesmo nos seus
espíritos doentes, conturbados.
16 de Novembro de 2008
Teresa Bernardino*
* Ortónimo
Teresa Ferrer Passos.
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O PADRE MANUEL NUNES FORMIGÃO
NO
SANTUÁRIO DE LOURDES
E A
CAMINHO DE... FÁTIMA
Acabados os estudos académicos e doutoramento em Direito
Canónico e Teologia em Roma, o Padre Manuel Nunes
Formigão decidiu regressar à sua Pátria. Queria exercer
com a maior competência a sua missão de apóstolo de
Jesus Cristo. Desejava ser um grande missionário.
Projectava ser um Padre ou seja um pequeno pai para os
que, no erro ou na virtude, quisessem seguir o Pai de
que Jesus fora a Palavra e o Espírito.
E
ser Padre com um conhecimento profundo dos mistérios
sacros. A Santa Madre Igreja tinha mesmo de ser santa e
mãe. Ele queria ser um apóstolo a vibrar de fé, a
proclamar a sua alma entusiasmada pelos ensinamentos
desse Jesus ressuscitado por graça de Seu Pai e, afinal,
como dissera, a Sua própria Imagem − «Quem me vê, vê o
Pai».
A
missão de servir Jesus Cristo, imagem do Pai universal e
criador de tão magnífico universo, de tão belo quadro
com estrelas, planetas e cometas ordenados num espaço
sem limites e esplendoroso, não lhe dava tréguas no seu
eufórico pensamento.
Mas,
à missão de servir Jesus Cristo unia-se a de servir Sua
Mãe que, na hora do martírio que se consumava no madeiro
em cruz, também era pertinente. Como o Padre Formigão se
impressionava com aquela Mulher que tanto amava o Filho
nascido no mistério da Anunciação do Anjo. Aquela Mãe
extenuada da visão do seu Jesus, a cumprir a dolorosa e
humilhante via sacra até ao Calvário, tanto o fazia
delirar de alegria como o emocionava até às lágrimas que
brotavam do seu coração. Sentia a dor de Maria, Mãe a
envolver-se em sofrimento atroz, ao viver em cada um dos
seus passos, o suplício que o Filho, com abnegação,
suportava.
Era
preciso aumentar a luta contra o mal espalhado pelo
mundo, através de todos aqueles que a isso aderissem por
fidelidade a Jesus, o Salvador. Ao Salvador que
ressuscitando, vencera a morte. A Seu Pai do Céu nada
era, na verdade, impossível. A ressurreição era a arma
que, a partir da ressurreição de Jesus, todos os
verdadeiros cristãos podiam usar, para, ao Seu serviço,
se lhe juntassem para a Reparação do mal espalhado por
tantos homens e mulheres alheados da Verdade. A Mãe
desse Cristo – o Pai incarnado – , como sofrera a maior
mutilação que uma Mãe pode sofrer: ver o seu próprio
filho flagelado e a morrer na humilhação maior que era,
então, morrer pendendo de uma Cruz de madeira.
E o
Padre Manuel Nunes Formigão lia e relia as palavras do
Evangelho de S. João. O Apóstolo Amado, presente no
lugar do Gólgota (quer dizer caveira ou morte) com
Maria, essa Mãe a apagar-se nas suas faces enrugadas de
dor. Ela via a inclemência dos soldados, a troçarem e a
chicotearem Jesus. A tão carinhosa Mãe via o Filho
amado, a esvair-se em sangue que gotejava no madeiro e
ensopava a terra ressequida. E, Ele fazia-o para redimir
a humanidade que cometia o mal sem se lembrar da Palavra
profética revelada nos Livros judaicos. Esses Livros,
estudados e comentados nas sinagogas, eram esquecidos
nas acções de cada instante dos dias.
A
recordar tudo isto o Padre Manuel Nunes Formigão
decidiu, no regresso a Portugal, passar pelo Santuário
de Lourdes onde um dia, no ano de 1858, Maria dirigira a
Palavra à jovem Bernardette, numa pequena gruta das
montanhas dos Pirinéus. Oferecendo-se, de imediato, para
diversos serviços em Lourdes, regressou a Portugal ao
fim de um mês – o mês de Agosto de 1909.
Foi
durante essa breve estadia no Santuário de Lourdes que
escutou um sermão do bispo de Valence. As suas palavras
incentivaram-no a não perder a esperança de
recristianizar esse Portugal, em que a propaganda
republicana atingia o regime monárquico pela
preponderância que a religião católica e os seus
representantes recebiam da Coroa. Para o bispo francês
as peregrinações organizadas pelas dioceses a Lourdes
tinham sido determinantes para a recristianização da
França anticlerical do século XIX. Ora, o Padre Manuel
Nunes Formigão vinha para um Portugal em que ele sabia
quanto a descrença e o anticlericalismo se divulgavam
nos jornais, nas folhas volantes, nas conversas dos
cafés, nas lojas maçónicas, nas reuniões partidárias.
A
implantação da República em 1910 atingiria, de facto, as
instituições religiosas. Então, o Padre Formigão vai dar
aulas para o Seminário de Santarém. Anos mais tarde,
sente que a sua acção missionária podia ser mais
actuante num liceu. Começando a ensinar no Liceu Sá da
Bandeira daquela cidade, desenvolve uma série de
actividades juvenis com vista a criar bases religiosas
aos alunos. Entre outras, destacamos a fundação da
Associação Nun’Álvares para, com esta figura exemplar da
Ordem dos Carmelitas Descalços, poder homenagear Nossa
Senhora , Padroeira de Portugal, desde o século XVII.
Estranhamente, nos princípios de 1917, três crianças
com idades entre os sete e os dez anos, diziam ter visto
e escutado a voz da Virgem Maria, quando pastoreavam
ovelhas na serra d’Aire, no lugar da Cova de Iria, perto
da povoação de Fátima. O Padre Manuel Nunes Formigão
encarregou-se de efectuar um interrogatório às três
crianças − Lúcia, Jacinta e Francisco − acusadas pelas
autoridades de inventar essas aparições de uma Senhora,
como diziam, mais brilhante do que o Sol, e que, ao
perguntarem-lhe donde vinha, dissera vir do Céu. Ao
ouvir os seus relatos, o Padre Formigão colocou fortes
dúvidas sobre os testemunhos. Como podia ser isso, se a
devoção às Aparições de Lourdes era nele tão intensa? O
curso das investigações alterou-se quando o Padre
Formigão recebeu do Hospital Rainha D. Estefânia, em
Lisboa, o pedido para ali se deslocar: Jacinta, aí
internada devido a tuberculose, tinha tido ali mesmo uma
Aparição da Senhora contemplada na Cova de Iria e queria
transmitir-lhe a sua mensagem. As palavras que Jacinta
lhe transmitiu foram decisivas: «É preciso que haja
almas reparadoras». As suas dúvidas começaram, depois de
ouvir Jacinta, a desvanecer-se.
Afinal, ali estivera Maria, Mãe de Jesus. Não apenas em
Lourdes, não só na Cova de Iria, em plena serra d’Aire
naquele lugar de pastores e, depois, também junto à cama
hospitalar de Jacinta, de novo, uma outra aparição,
agora só a Jacinta, mandando-a chamá-lo, tentando assim
demovê-lo da sua relutância em aceitar as Aparições em
Fátima. O povo rude afluía à capela que a Senhora, mais
brilhante do que o Sol, pedira para ser construída sob a
sua invocação. E, o Padre Formigão começou a dar todo o
apoio à causa de Fátima. Assim, em atenção às palavras
transmitidas só a Jacinta, criou uma Ordem Religiosa
encarregada da Reparação da Dor da Mãe de Jesus.
Chamou-lhe Congregação das Reparadoras de Nossa Senhora
das Dores de Fátima. E com esta Ordem, encarregada de
velar pela Reparação das Dores da Mãe Santíssima, fundou
duas publicações, a revista «Stella» e o «Almanaque de
Nossa Senhora de Fátima». A primeira, para um público
mais culto, o segundo para o povo dos campos, das
aldeias e das pequenas cidades da província.
Cinquenta e nove anos após as Aparições em Lourdes, nas
montanhas dos Pirinéus, em França, surgiram, de novo, na
serra d’Aire, em Portugal, revelações de Maria, como a
da futura conversão da Rússia ao cristianismo. A Mãe de
Jesus, eleita, por Ele próprio, a nossa Mãe do Céu, aqui
estava. Entre o povo rude das serranias veio até nós.
Veio para este povo que continua, hoje, a venerá-La
nessa Capela construída de acordo com o seu pedido aos
pastorinhos. Esse Povo que ali, junto da azinheira não
deixa de orar-Lhe com uma fidelidade, com uma dedicação
já bem visível nos anos que se seguiram às Aparições
desse ano distante de 1917.
21
de Abril de 2008
Teresa Ferrer Passos
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O TEMPO EM QUE ESCREVO
Retomei o
meu romance sobre o «Paralítico de Betsaída» (João, 5).
Tive de repensá-lo. Revisitar a sua estrutura. Estive
vários dias sem lhe tocar. E, isto, quando se escreve
romance, é sempre motivo de novos atrasos na sua
progressão.
O romance
exige muito método e uma continuidade rigorosa. Se
surgem problemas, as paragens, a nossa incapacidade para
o continuar a trabalhar, a podar como se fosse uma
árvore de muitas ramagens e flores entrelaçadas em
raminhos enrolados em outros raminhos…
Todos os meus romances têm sido uma
agricultura exigente. Ainda que encha a minha vida de
uma grande força para continuar a defrontar os
obstáculos, mesmo que me ofereça um sentido para existir
que parece alicerçar-me num mundo reconstruído, é um
árduo trabalho, com muitas dificuldades nos laços que
dele se desprendem.
As direcções podem multiplicar-se tanto
que me sinto até desamparada, solitária, nos caminhos
que selecciono, que julgo os melhores, mas sobre os
quais duvido sempre. As horas cheias de angústia que a
vida me coloca em frente não deixam, por vezes, seguir
em frente a ficção que se confronta com a realidade. E
paro.
Olho à minha volta e fico com dúvidas e o
tempo dilui-se e sei que não volta mais. Esse tempo que
me escasseia, esse tempo que quero recuperar, esse tempo
perdido porque não o posso reencontrar, talvez seja
inevitável perdê-lo.
O tempo em que escrevo é, talvez, o único
que é preciso; é, talvez, o tempo certo da escrita. Não
é preciso nem mais um minuto, nem menos um minuto.
Afinal, o Pai celestial deve prepara-me um tempo certo
para acreditar, outro tempo exacto para agir e ainda um
outro tempo para ajuizar e contemplar.
Há também as horas para descobrir os
espaços da luz, como há as horas para defrontar a noite
mais negra.
O fim e o princípio brotam e tocam-se
devagar, mas entre eles há o meio que os divide, que os
torna diversos, mas que os conserva incrivelmente
inseparáveis.
27 de Outubro de 2008
Teresa Bernardino
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Passagens dos Evangelhos de S. João
e de S. Mateus
sobre o Julgamento
Judaico-Romano de
Jesus Cristo
«Falei abertamente ao
mundo (...) e nada disse em
segredo (...) Bem
sabem o que eu disse»
Jo, 18, 20
«O Meu Reino não é daqui
(...) para isto vim ao mundo, a fim de dar testemunho da
verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a Minha voz»
Jo, 19, 36-37
«E na terra, a ninguém
chamem pai, porque só é vosso Pai: Aquele que está nos céus»
Mt,23, 9
«Que é que vale mais? O
ouro ou o santuário que torna o ouro sagrado?»
Mt 23,17
«Ai de vós escribas e
fariseus hipócritas porque pagais o dízimo da hortelã, do funcho
e do cominho e desprezais o mais importante da Lei: a justiça, a
misericórdia e a fidelidade»
Mt 23, 23
«Por fora pareceis justos
aos homens, mas, por dentro, estais cheios de hipocrisia e de
iniquidade»
Mt 23, 28
«Serpentes, raça de
víboras»
Mt 23, 33
«Jerusalém, Jerusalém,
que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados!»
Mt 23, 37
«Então todos os
discípulos O abandonaram e fugiram»
Mt 26, 56
«"Não respondes nada? Que
dizes aos que depõem contra Ti?" Mas Jesus continuava calado»
Mt26, 62-63
«"É réu de morte".
Cuspiram-Lhe depois no rosto e deram-Lhe socos. Outros
esbofetearam-n'O, dizendo: "Adivinha, ó Cristo, quem foi que Te
bateu?»
Mt 26, 66-68
«"Não ouves tudo o que
dizem contra Ti?" Mas Ele não respondeu coisa alguma»
Mt 27, 13-14
«Os que passavam,
injuriavam-n'O meneando a cabeça e dizendo "Tu que destruías o
templo e em três dias o reedificavas, salva-Te a Ti mesmo; se és
Filho de Deus, desce da cruz"»
Mt 27, 39
Selecção de T.B. (24/3/2008)
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«(...) Fomos feridos por uma cegueira
branca, sem pontos de fuga, sem utopias. As paróquias funcionam
como um regime cadastral, mecanicamente oleadas por devoções e
sacramentais desencarnados. O desejo mimético é responsável pela
violência que assola o mundo e as instituições: o círculo
mimético é o movimento constante com que na sociedade humana se
estrutura a violência, que deriva do desejo de se substituir aos
outros para lhes tomar o lugar. Donde as polaridades, os bodes
expiatórios, as paranóias.
Estamos em marcha, à procura da
fonte, o Jordão que abre a estrada a andar sobre as águas. É
essa a experiência em que nos mergulha o baptismo. Daí o perigo.
Daí as trevas. Avançamos perigosa, dolorosamente. É para pensar
essas chagas que o sagrado existe, não para fazer lindo ou
solene, mas para fazer corpo (...).»
José Augusto Mourão
Fonte: José Augusto Mourão, "O Baptismo como Imitação de Cristo"
in Internet, www.triploV.com
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DIA MUNDIAL DAS MISSÕES
Santa Teresa do Menino Jesus, Padroeira
dos Missionários e Doutora da Igreja, teve o sonho de sair do Carmelo de
Lisieux e seguir para o Cambodja. Devido à gravidade do seu estado de
saúde, às portas da morte, apenas lhe foi possível proteger e orientar
com as suas cartas um jovem padre missionário. Também S. Francisco
Xavier, grande evangelizador da Índia, é Padroeiro dos Missionários.
18 de Outubro de 2008
T.F.P.
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OS MILAGRES E AS LEIS DA FÍSICA

Para fazer milagre, Jesus Cristo pode não ter precisado de
violar as leis da matéria criadas por Deus, tal como
o próprio Deus talvez não precise de violar as leis por Si criadas,
sempre que faz um milagre.
Se a Mecânica Quântica estiver certa, as
leis da Física não determinam completamente o modo como a matéria se
comporta.
Por exemplo, se um homem tentar caminhar
sobre as águas, há uma probabilidade ínfima de que, nesse instante, a
água sob os seus pés se "feche" e lhe permita caminhar sem se afundar.
Esta probabilidade é baixíssima. Seria
preciso um homem comum passar triliões de triliões de triliões de vezes
a idade do Universo a tentar, até isso acontecer, porque, em
circunstâncias normais, a matéria escolhe ao acaso entre as várias
possibilidades deixadas em aberto pelo indeterminismo quântico.
Mas Jesus Cristo, na Sua qualidade de Filho
de Deus, para andar sobre as águas, pode naquele momento ter ordenado à
matéria para escolher a possibilidade que Lhe interessava, ou seja,
aquele estado de probabilidade ínfima em que as águas se "fecharam" sob
os Seus pés e Lhe permitiram caminhar sobre elas.
Fernando Henrique de Passos
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«O PEDACINHO DE NEVE»

«O célebre Leonardo da Vinci escreveu fábulas muito simples,
mas muito ricas em ensinamento, como esta “fábula da neve”.
Um pedacinho de neve estava no alto de um rochedo situado no
cume de uma altíssima montanha.
Naquele lugar silencioso, deu largas à imaginação. Começou a
meditar e a dizer de si para consigo:
“Não serei considerada altiva e vaidosa por ser tão
pequena e ter sido colocada em tão alto lugar e suportar que tanta
quantidade de neve que vejo daqui esteja mais abaixo que eu. É claro que
a minha pouca quantidade não merece esta altura. Também sei o que o Sol
pode fazer-me, pelo que vi fazer às minhas conpanheiras, desfeitas por
ele em poucas horas.
E isto sucedeu
porque se colocaram em lugares mais altos do que lhes cabia.”
E o pedacinho de neve, reconhecendo a sua insignificância,
continuou a dizer: “Quero fugir à ira do Sol. Quero descer e encontrar
lugar mais adequado à minha pequenez, à minha ínfima quantidade”.
Lançou-se então pela montanha abaixo, deslizando sobre a
outra neve. E quanto mais baixo lugar procurava, mais crescia a sua
quantidade.
Terminou o seu curso numa pequena colina e viu-se quase com a
mesma grandeza que a colina que a sustinha.
E foi, nesse Verão, a última a ser desfeita pelo calor do
Sol…
Leonardo da Vinci, fundamentado na palavra do Evangelho,
lembra que os orgulhosos serão derretidos e os humildes enaltecidos.
E nós, que observamos o mundo, também sabemos (e temos de
tê-lo presente!) que a ambição do poder, da fama e dos lugares cimeiros
é traiçoeira e destrói mais depressa, como mais rapidamente é derretida
a neve das alturas.
E que os humildes, protegidos pela sua simplicidade e
reconhecimento autêntico do seu valor, serão enaltecidos por Deus e por
todos os que julgam com justiça…»
Fonte: Mário Salgueirinho,
Dar é Receber,
Fundação Voz Portucalense, Porto, 2003, pp.137-138)
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CAMINHOS DO SAGRADO
«(...)Os verdadeiros santos sempre se sentiram
como pecadores. Para eles isto não era nenhum excesso de humildade, mas
sim uma protecção para não se deixarem seduzir pelas projecções dos
outros a um mundo de aparências. Os santos não procuravam parecer
santos. Tornaram-se santos porque manifestaram a Deus tudo quanto eles
eram realmente, com todos os altos e baixos, com todas as luzes e
sombras, para que Deus os curasse e os transformasse (…).
Nós não somos definidos unicamente a partir
das expectativas do mundo. Somos mais do que meros contribuintes da
previdência ou beneficiários de pensão. Nós temos em nós mesmos alguma
coisa de santo, que não está submetida à intervenção do mundo. Tomar
consciência disso faz-nos bem. Liberta-nos do domínio e da tirania deste
mundo, com os seus padrões. Temos em nós uma coisa diferente, uma coisa
santa, íntegra, que não pode ser tocada. Trazemos dentro de nós o
santuário interior em que o próprio Deus faz morada (cf. Jo 14, 23).
Tente conscientemente ver hoje com outros
olhos as pessoas com quem você convive. Tente acreditar que Cristo está
em cada uma delas, que em cada uma existe alguma coisa de sagrado que
precisa ser protegido. Não tente penetrar nelas e atribuir-lhes um
valor, mas deixe-as ser assim como são. Nelas o Sagrado já está
presente. Apesar de todas as contradições, em cada pessoa existe algo de
são e de autêntico. Como é que se sente, quando as considera desta
maneira? Será que de repente conseguirá agora conviver ou comportar-se
com estas pessoas de uma maneira diferente? (...)»
Anselm Grün
Fonte: Anselm Grün, A Protecção do Sagrado, Editora
Vozes, Petrópolis, 2003, pp72-75.
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«TERESA DE JESUS»
«O povo de Deus é um povo de pecadores que
peregrina do pecado à inocência, da desgraça à graça. É uma peregrinação
através do deserto. O deserto é a saudade. Mas a saudade do povo de Deus
está cheia da presença imutável de Deus. O sinal de que se vive nessa
desértica plenitude, é a alegria. A alegria teresiana do deserto
carmelitano, segue ressoando a transbordar, desde há quatro séculos, em
todo o rosário ininterrupto dos seus Fundadores.
Reformar é reformar-se. “Nada muda, na
verdade, enquanto não muda o coração do homem” (…). Ela ensinou aos
homens sem fé ou de pouca fé a realidade e o mistério dessa relação do
Criador e a criatura e é nisso que consiste a religião (cristã)». *
António Garriches
Fonte: Artigo de Jornal ABC, Madrid,
1970 (excerto).

NADA TE PERTURBE…*
Nada te perturbe,
Nada te espante,
Tudo passa,
Deus permanece,
A paciência
Tudo alcança;
Quem possui
Deus
Nada lhe falta:
Deus é o bastante.

Santa Teresa de Jesus
CRUZ, DESCANSO DOCE DA MINHA VIDA…*
Cruz , descanso doce da minha vida,
Sejais bem-vinda.
Oh estandarte, em cujo amparo
O mais fraco será forte!
Oh vida da nossa morte,
Que bem a ressuscitaste!
Ao leão amansaste,
Porque por ti perdeu a vida,
Vós serás a bem-vinda.
Quem não os ama está cativo E longe da
liberdade;
Quem vos quer alcançar
Não terá nenhum desvio,
Oh ditoso poderio,
Onde o mal não acha lugar!
Vós serás a bem-vinda.
Vós foste a liberdade Do nosso grande
cativeiro;
Por vós se limpou o meu mal
Com o usual remédio;
Para com Deus foste o meio
Da alegria consentida,
Vós serás a bem-vinda
Santa Teresa de
Jesus
Fonte: Obras Completas de
Santa Teresa de Jesus, Editorial Plenitud, 1958, págs. 947, 959
(edição em língua espanhola).
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APELOS SACROS DE FÁTIMA **
«Vós que encheis
a minha esperança,
Ó Mãe! Escutai o
humilde canto
De amor e de
gratidão
Que vem do
coração da vossa filha…
Às obras de um
Missionário
Uniste-me para
sempre,
Pelos laços da
oração
Do sofrimento e
do amor»
Santa Teresa do Menino Jesus,
Obras
Completas
«Os adultos têm
algo que é certamente diferente de nós…
quer dizer,Deus (…).
Mas isto é
seguro:
os adultos não estão a preocupar-se com Ele,
pelo que somos nós,
as crianças,
é que temos de nos preocupar»
Rainer Maria Rilke, Histórias de
Deus
Foi com
curiosidade que comecei a ler a obra da Irmã Lúcia, vidente da Cova de Iria, intitulado
Apelos da Mensagem de Fátima (Edições Carmelo, Secretariado dos Pastorinhos, 2005). Uma novidade em
relação a anteriores revelações? Uma complementaridade dos escritos
dados à estampa, há vários anos, e que titulara Memórias? De
qualquer modo, o título era apelativo, chamava-se apelos. Além
disso, subscrevia-o a vidente de Fátima que escutara as mensagens
da Senhora mais brilhante do que o Sol.
De facto, Lúcia
recebera, após a publicação das Memórias, uma vasta
correspondência de leitores. Todos eles procuravam esclarecer os pontos
mais controversos ou obscuros do texto em que dava testemunho escrito
das visões e das palavras verbalmente transmitidas na Cova de Iria, nas
proximidades da aldeia de Fátima, corria o ano de 1917, pela Senhora que
identificou como sendo a própria Virgem Maria, Mãe de Jesus Cristo.
As visões de Maria
tinham sido acompanhadas pela simultânea audição de palavras, de
palavras estranhas, mas significantes, tão significantes que as
entendera, ainda que necessariamente à sua maneira. Segundo o teólogo J.
Ratzinger (actual Papa Bento XVI) «a visão comporta simultaneamente uma
vertente imaginal e uma vertente comunicacional».(1) E no seu Comentário Teológico ao 3º Segredo de Fátima, Ratzinger diz-nos: «A
pessoa é levada para além da pura exterioridade e é tocada por dimensões
mais profundas da realidade que se tornam visíveis para ela».(2)
Ao debruçar-se
sobre o «Segredo de Fátima», o dominicano e semiótico José Augusto
Mourão escreve, bem a propósito, que «cada leitura irá acrescentar o
texto, ao ajudar a desdobrar o sentido». Mas, não deixa de se
interrogar: «Haverá interpretação fora da violência hermenêutica? Como
sair do paradoxo aparente da interpretação, ao mesmo tempo aberta e
determinada e da semiose, ao mesmo tempo infinita e contudo
decidível?».(3)
Com apenas dez anos
e sem cultura religiosa, a pequena Lúcia transmitira, ou seja, traduzira
o que escutara, com as dificuldades inerentes à sua condição. Segundo J.
Ratzinger tratou-se de um «processo de tradução», próprio de uma «visão
interior».
Como declarara aos
seus familiares, aparecera-lhe uma Senhora muito luminosa, que dizia vir
do Céu. A identificação da Mãe de Jesus Cristo, impôs-se-lhe de
imediato. Na perspectiva de Ratzinger, «uma percepção interior,
imaginativa» foi captada, «de acordo com as possibilidades da
vidente».(4)
Ora, a Irmã Lúcia
viu a Senhora resplandecente, entre os ramos sóbrios de uma pequena
azinheira. A sua voz vibrara de apelo, de aviso e de mágoa. Ao longo das
intervenções feitas, desde Maio a Outubro de 1917, os seus apelos
foram recebidos pelo espanto, mas também pela aceitação de três
crianças: além de Lúcia, os seus primos mais novos, Francisco e Jacinta
estavam presentes e percebiam que Lúcia dialogava com a Senhora de
brilho sobrenatural.
Ele, Francisco,
escutava a Senhora, sem a ver. Contudo, Jacinta via-a, embora não
ouvisse o que dizia. Só Lúcia a via e a escutava, ao mesmo tempo.
Em 13 de Julho de
1917, Lúcia e Jacinta viram, então, a mais terrível das visões: a visão
do fogo infernal a provocar grandes sofrimentos nos maus. Com as
infernais imagens, a Senhora, donde brotava a nívea luz, mostrava-lhes o
castigo que mereciam os pecadores pelos seus actos iníquos. Poder-se-á
estranhar que tenham sido crianças, e não adultos, a receber esta
assustadora visão. Escolha estranha, sem dúvida, mas talvez, estando
cheia de mistério, transpareça, de igual modo, um significado: se nos
lembrarmos da predilecção de Jesus Cristo pelos mais pequeninos, os
puros de coração, os inocentes, algo se começa a perceber.
As crianças eram
puras, por isso, poderiam bem mais facilmente ser capazes de acreditar
no que viam e comunicá-lo a todo o mundo, apesar das suas limitações de
interpretação. Aqui, o Inferno simboliza o apelo à conversão, ao
arrependimento.
O
apelo
da
mensagem de Maria respeitava também ao valor de sacrifícios e de
orações, oferecidos ao Altíssimo, como penhor dos pecados cometidos. De
acordo com o que Lúcia nos diz neste seu livro, há que fazer muitos
sacrifícios para merecermos o Céu. Entre os mais difíceis, sem dúvida,
estão aqueles que só são possíveis graças a um espírito com a força de
uma grande humildade. Como nos lembra, sacrifícios podem fazer-se todos
os dias. E, dá-nos algumas sugestões sobre a possibilidade de os fazer.
Para Lúcia,
sacrifício existe quando um espírito é capaz de não responder à ofensa
com outra ofensa, quando é capaz de não se impacientar com ambições não
alcançadas, quando é capaz de viver sem má disposição ou azedume com
aqueles que sabe que o rejeitam, quando é capaz de suportar os
infortúnios com abnegação. São esses sacrifícios - verdadeiros actos de
penitência - que mais mérito encerram e que, nessa medida, mais são
louvados por Deus.
Acerca desta
delicada questão, presente nos apelos marianos, J. Ratzinger
escreve, no Comentário Teológico já referido, que esses
apelos à penitência revelam como é importante para Deus a liberdade
humana. Na sua interpretação da mensagem de Fátima, concretiza que,
afinal, «todo o objectivo da visão é trazer a liberdade para a ribalta e
apontá-la numa direcção positiva. O objectivo da visão não é mostrar um
filme de um futuro fixo e irrevogável (…)». Antes, «tem por intenção
mobilizar as forças de mudança na direcção correcta».(5)
Uma criança,
chamada Lúcia, escuta este importante apelo de Maria, um apelo
à renúncia de si mesmo por amor a Deus e à humanidade. A Mãe de
Jesus Cristo estava, através da criança, a dirigir-se a toda uma
humanidade. Há aqui como uma forma de fazer pedagogia do adulto, e,
precisamente, através da infância. O facto de os três pequenos pastores
seguirem os ensinamentos da Senhora mais brilhante que o Sol, ao
começarem, de imediato, a oferecerem pequenos sacrifícios para salvar do
castigo eterno os maus - ela própria Lúcia e os seus primos, Jacinta e
Francisco, a quem ela conta tudo aquilo que Lhe ouve - é significativo.
De facto, tudo nas
crianças é clareza, tudo nelas é boa intenção e sinceridade. Tudo nelas
transmite serenidade, tudo está imbuído de paz e verdade, porque a
criança não conhece o que é a guerra, não imagina o que é a crueldade,
não prevê a mentira. Para a criança todo o real está repleto de
aparência e toda a simples aparência é também real. A realidade
confunde-se sempre com a verdade. Porque a verdade envolve a realidade.
Por isso, as imagens infernais não assustam os pequenos pastores dos
campos de Fátima, antes despertam ainda mais os seus profundos
sentimentos de condescendência e de generosidade com o próximo. Eles
querem, sem condições, contribuir com os seus sacrifícios para ajudar
não os bons - esses não precisam - mas os maus, os que não são capazes
de serem bons e, assim, não poderem receber a recompensa no Céu.
Perante a terrível
visão, Francisco, Lúcia e Jacinta não fogem, não gritam, não se
atemorizam. Antes, ficam tão preocupados com o sofrimento futuro dos
maus que, de imediato, na sua grande capacidade para ajudar -
generosidade natural na criança -, desejam fazer todos os sacrifícios
imagináveis para os resgatar, para os redimir, para os salvar dos
terríficos tormentos do Juízo Final.
A autenticidade, a
espontaneidade, a ingénua credulidade, e com elas, a absoluta confiança,
são as características superiores das crianças, no conceito de Deus,
como já o ensinara Jesus Cristo: «Sede como crianças, se quereis entrar
no reino do Céu». E, assim, talvez por isto, e também por outras razões
cheias de mistério, são escolhidas, para receberem a mensagem da
Senhora luminosa vinda do Céu, aquelas três humildes crianças da serra
d’Aire, do lugar da pequenina Fátima.
Foram os mais puros
dos seres humanos que Deus privilegiou sempre. Agora, mais uma vez, Deus
os escolheu para, através deles, a Rainha do Céu transmitir aos homens
um reforço da mensagem de Jesus Cristo. A visão infernal fazia os homens
avaliarem até que ponto O continuavam a ofender, até que ponto
continuavam a transgredir a Sua Lei. Praticavam o mal, sem pensarem que
mereciam um juízo implacável para os seus actos iníquos.
Com uma atenção
desmedida, cheia de espanto e até de medo, a pequena Lúcia tentava
entender o que escutava e o que via, num assombro desmedido. Eram
palavras simples que ouvia da Senhora tão brilhante, mas as frases eram
difíceis de interpretar. Eram visões de que Lúcia já ouvira falar na
igreja, mas tão confusas e tenebrosas que tinha de procurar as palavras
que se aproximavam do que vira. As dificuldades eram imensas. E que
responsabilidade transmitir as imagens tão perturbantes, e, ao mesmo
tempo, cobertas de um emocionante maravilhamento.
Talvez por todas
estas inesperadas visões possuírem a força do invisível, a vidente Lúcia
só começará a penetrar os apelos da mensagem de Fátima
muitos anos mais tarde com o estudo dos Evangelhos, do Antigo
Testamento, com o estudo de hagiografias de santos. Tudo isto, quando já
se encontrava (desde 17 de Junho de 1921) no Convento das Irmãs
Doroteias, em Vilar, perto do Porto. Será a devoção de Lúcia à Senhora
das Aparições que acabará por a conduzir das Doroteias - em cuja
Ordem ingressou em 2 de Outubro de 1926 - ao Convento da Ordem das
Carmelitas, em Coimbra, em 25 de Março de 1948. Contudo, Lúcia teme,
ainda, interpretar mal. Acha que algo lhe pode ter escapado da mensagem de Fátima. Solicita, então, a interpretação dos teólogos,
pessoas com uma cultura vasta sobre Deus, Jesus Cristo e Maria, Sua Mãe.
Entre azinheiras,
oliveiras, carvalhos e sobreiros, no silêncio dos vales húmidos e
sombrios, onde a terra tantas vezes enlameava os pés dos pastorinhos
devido às fortes e frequentes chuvas, algo de espantoso tinha
acontecido! Conforme a interpretação de Joseph Ratzinger - o Papa Bento
XVI - , que conversou longamente com Lúcia para se pronunciar sobre as
Aparições de Fátima, o que se verificou foi uma «visão interior,
que nada tem a ver com uma visão dada pelos sentidos, nem tão pouco com
uma percepção intelectual, sem imagens, como a dos místicos». Estas
palavras de Joseph Ratzinger - citadas por José Augusto Mourão no seu
artigo «O Inferno da Interpretação» - são um esclarecimento ao próprio
fenómeno de Fátima, mas são também algo que fica a pairar como uma
tentativa de manter a pureza das mensagens escutadas pela vidente, sem,
no entanto, as tornar indiscutíveis e absolutas.
Precisamente
naquela Cova de Iria - terra que era uma horta de bom rendimento para os
pais da pequena Lúcia -, a pequena pastora Lúcia aprendera com a Senhora
a fazer uma oração breve, mas de largo sentido interior: “Orai comigo:
Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-vos”. Era, um modo de falar com
o Pai celestial estranho, e, ao mesmo tempo, tão encantatório quanto
eloquente, que vinha da Senhora descida do Céu, como Ela própria
dissera.
Esta oração era
para a pequena Lúcia e para os seus primos Francisco e Jacinta - todos
os dias a acompanhavam no pastoreio das ovelhas - , um apelo à
oração ao Pai celestial e uma proclamação da fé, da esperança e do amor
que lhe deviam ter. E com que palavras simples queria que se Lhe
dirigissem!
Maria, Mãe de Jesus
Cristo, é, segundo o testemunho de Lúcia, expresso em Apelos da
Mensagem de Fátima, a Senhora que aparece, apelando sempre à oração,
ou seja, à palavra que presentifica em nós o Criador. E ensinava-os a
orar, sempre de modo simples: “Pai, Filho, Espírito Santo, adoro-vos
profundamente”. Um fundo e um forte apelo ao Amor do Pai é
recebido pela pequena Lúcia entre as árvores submissas. Esses sobreiros
com uma serenidade infinita, essas azinheiras, quem sabe se sem notarem
o vento agitado, perante a chegada visível e simples de Maria. Entre
elas, uma azinheira foi mesmo escolhida para dar guarida à sagrada
visibilidade de Maria, Ela, a Mãe de Jesus Cristo, Ela também escolhida
para Mãe de toda a humanidade, como Jesus a proclamou - já pregado no
madeiro - , ao discípulo João, que ali estava junto d’Ele, naquele tempo
imbuído de um silêncio de morte («Eis aí a tua mãe» Jo 19,
27) e a elevar um rumor imenso de vida.
Os apelos
da
Senhora luminosa têm um sentido voltado essencialmente para as criaturas
que não perdoam, que não amam, que não se lembram do Pai, ou seja, do
Criador. Esse Criador que, antes da memória dos tempos, já as amava, por
isso as criara e, criara mesmo à Sua semelhança e com o projecto de
serem felizes. É que um Pai ama os filhos antes de os filhos o amarem,
escreve a Irmã Lúcia. É, pois, um Pai que sofre pelos actos iníquos dos
Seus filhos, pelo desprezo com que estes O tratam, se não mesmo pela
negação da Sua própria existência.
Em
Apelos da
Mensagem de Fátima há a nítida intenção de esclarecer o testemunho
dado nas anteriores Memórias escritas por Lúcia. Destacando só as
frases que considera essenciais, a Irmã Lúcia relaciona-as
constantemente com os Evangelhos, com passagens do Antigo Testamento,
com Epístolas de S. Paulo ou mesmo com alguns escritos de Santa Teresa
do Menino Jesus. Neste ensejo, Lúcia acentua que as palavras de Jesus
Cristo são as próprias palavras do Criador do Universo.
“Fazei tudo o que
Ele vos disser”, foi a pequena frase da intervenção de Maria, logo no
início da vida pública de Jesus Cristo, nas célebres bodas de Caná. Aí,
estavam Jesus e Maria com uma presença bem dinâmica, viva e actuante.
Não eram uns convidados que apenas assistiam à festa. Mas uns convidados
prontos a ajudar, disponíveis para resolver contratempos que fariam
ensombrar o ambiente e obscurecer a alegria de todos.
O primeiro milagre de Jesus é, na verdade, um acto em que Sua Mãe
orienta, indicando o Seu Filho, numa atitude de protecção e afecto. A
alegria do matrimónio não devia sofrer qualquer perturbação. E Maria
interveio, aconselhando os donos da casa. Se precisassem de ajuda,
deviam recorrer a seu Filho, que estava afinal ali, tão perto de todos.
Por isso, aconselha: “Fazei tudo o que Ele vos disser”. Como salienta a
Irmã Lúcia, eis a frase lapidar que indicou à família dos esposos de
Caná o que deviam fazer para que aquela união fosse selada pela alegria,
sem sombra de tristeza. Levar à confiança em Jesus, foi o objectivo de
Sua Mãe.
A presença de Maria
nas bodas de Caná na Palestina, há dois mil anos, ou nas aparições da
Cova de Iria, em Fátima, no ano de 1917, é, para a Irmã Lúcia, o sinal
de que Ela é um guia sempre próximo, um guia para orientar o Homem que
não respeita o seu Criador - um Criador todo envolto no grande mistério
das coisas invisíveis e que é a própria Santidade. Esse Pai perfeito,
que, como ensinou Jesus, também deseja o ser humano perfeito. E como é
uma atitude natural um Pai Santo sentir-se ofendido com o mal que os
Seus filhos sustentam e realizam, cedendo ao ódio e desprezando o bem.
Os
apelos da
mensagem de Fátima feitos pela Senhora a irradiar uma luz mais forte
do que a luz do Sol, procuram chegar ao coração das criaturas. Eles são,
para a vidente da «percepção interior, imaginativa» (Joseph Ratzinger),
o reflexo de o Espírito Santo ter projectado seres humanos «à Sua imagem
e Sua semelhança» (Genesis, 2, 26). Assim, é a unidade entre o
Pai, o Filho e o Espírito Santo que a Irmã Lúcia procura alicerçar no
livro que temos estado a analisar em algumas das suas vertentes, pois em
muitas outras pode ser motivo de reflexão.
Nesta breve
abordagem, notamos que este livro tenta esclarecer, clarificar,
tornar simples, realçar o que de mais importante Lúcia escrevera em Memórias (5ª edição, 1987), cujo manuscrito fora concluído em 1935.
A transcendência da mensagem obriga Lúcia a oferecer o essencial
da «visão percepcionada» na Senhora, pousada por instantes a parecerem
eternos, nos ramos de uma azinheira.
É essa Senhora que
se auto denomina, numa das suas aparições, «do Imaculado Coração». E,
diz-nos Lúcia, a prova da sacralidade da Virgem foi ter concebido um
Filho por obra e graça do Espírito Santo. Um Filho que não é mais do que
a própria «imagem» do Pai, porque como disse Jesus: “Eu e o Pai somos
um”; “O Pai que Me enviou, foi quem determinou o que devo dizer e
anunciar”; “quem Me vê (a Mim), vê o Pai”.(6)
É esta ligação de
Deus ao ser humano que Maria procura levar a humanidade a reconhecer,
sublinha a vidente Lúcia. A aparição a crianças de um mundo rural
distante da cultura das universidades e dos letrados, torna-se
reveladora da predilecção do Espírito Santo pelos humildes, pelos puros
de coração, no limite, pelas mais simples criaturas, as crianças.
Carregada de
singeleza e com a sabedoria da palavra breve, sem fastidiosos discursos,
a palavra de Maria acaba por ser acessível à pequena Lúcia, a Jacinta e
a Francisco (indirectamente). Talvez a escolha de palavras que Lúcia
conhecia bem, como pecado, ofensa, inferno, castigo, recompensa, Céu,
sofrimento, sacrifício, amor, fosse o segredo do «processo de tradução»
(J. Ratzinger) e, depois, da própria interpretação. Com este
vocabulário, o Imaculado Coração de Maria fez-se entender, naquele
momento, pela pequena Lúcia.
Mas os
apelos da
mensagem de Fátima terão de ser confrontados com os ensinamentos
deixados por Jesus aos Seus Apóstolos. Há que chamar os mais doutos
teólogos do Cristianismo, escreve Lúcia, sem reservas e com a grande
emoção de ter sido uma humilde intermediária que «traduziu» com
todas as suas limitações.
Em 1917, ano das
Aparições de Maria, viviam-se ainda os terrores da Primeira Grande
Guerra Mundial, cujo fim se desconhecia. Neste contexto, é bem
significante o apelo que a Irmã Lúcia escuta da voz da Senhora
que fez a sua última Aparição a 13 de Outubro: “Não ofendam mais
a Deus, que já está muito ofendido”.(7) A expressão “ofensa”
humana a Deus-Pai, é, em todas as mensagens, a razão maior de
cada Aparição. Mas, os apelos de Maria provocam uma nova
fidelidade, uma outra confiança, um mais forte amor a Deus: “O Verbo
fez-se homem e habitou entre nós”.(8)
Na última Aparição,
a 13 de Outubro, são feitos dois grandes apelos: um deles, é o apelo à «santificação da família». Este
apelo foi
representado na estranha visão de «Maria com o Menino Jesus ao colo e
José a seu lado».(9) Diz-nos a vidente: «Deus confiou à família uma
missão sagrada de cooperação com Ele na Sua obra criadora».(10) Esta
visão ofereceu-lhe, acrescenta Lúcia, «o vislumbre da glória que gozam
aqueles que já se encontram na posse do Reino de Deus»(11) - esta visão
de Maria com o Menino e José a que Lúcia teve acesso, verificava-se ao
mesmo tempo que se dava uma outra visão, a do milagre do Sol. Esta outra
visão deu-se em simultâneo e, na verdade, sem que Lúcia lhe prestasse
grande atenção. Aquilo que a multidão viu foi o espectáculo do
«empalidecer do disco solar perante a luz da presença de Deus».(12) A
pequena Lúcia via para um além-do-Sol. Na Terra, já penetrava as imagens
oferecidas pelo Céu. Assim se compreende que não desse importância ao
fenómeno solar. Que era isso em comparação com aquela imagem do
pequenino Jesus ao colo da própria Mãe?
Um outro
apelo,
nesta mesma data de 13 de Outubro, viu-o a Irmã Lúcia na visão de uma
Senhora das Dores - ou de todas as Dores -, ou seja, de uma «Mãe que
compartilhou essa dolorosíssima Paixão (de Jesus Cristo) como
co-redentora (…)». E a vidente revela: «Na manifestação de Outubro Ela
apresenta-se-nos sob a imagem da dor».(13)
A Irmã Lúcia dá grande ênfase ao único
apelo de Maria a si
própria, na anterior Aparição, datada de 13 de Maio: “Jesus quer
(…) estabelecer no mundo a devoção ao meu Imaculado Coração”.
Acrescentando: “O meu Imaculado Coração será o teu refúgio e o caminho
que te levará a Deus”. Este apelo, concretiza Lúcia, realça como
«foi neste Coração que o Pai encerrou o Seu Filho, como se fosse o
primeiro sacrário (…) e foi o sangue do seu Coração Imaculado que
ministrou ao Filho de Deus a Sua vida e ser humanizado».(14) A terminar,
Lúcia diz-nos: «Deus encerrou no Coração de Maria a Sua Palavra».
A propósito, J. Ratzinger - Papa Bento XVI - no
Comentário Teológico
ao 3º Segredo de Fátima, ensina-nos: «o “imaculado coração” é um
coração que, com a Graça de Deus, conseguiu uma perfeita unidade
interior e assim “vê a Deus”».(15)
Como notámos
constantemente ao longo do livro Apelos da Mensagem de Fátima,
para a vidente Lúcia, a Mãe de Jesus Cristo é o elo privilegiado da
ligação entre Deus e a humanidade. É Ela a artífice da grande amizade
entre o Pai, Jesus e cada criatura. É Ela a escolhida de Deus para
fazer a ponte entre Jesus e aqueles que repudiam a arrogância. É Ela a
Mãe acolhedora daqueles que sofrem por amor à justiça e são puros de
coração. É Ela a Mãe de braços abertos para as vítimas da crueldade, do
desprezo e da humilhação.
Como escreveu,
recentemente, Bento XVI na Carta Encíclica Deus é Amor,
publicada pouco depois da sua ascensão ao Papado, «existe uma múltipla
visibilidade de Deus. Na história de amor que a Bíblia nos narra, Ele
vem ao nosso encontro, procura conquistar-nos (…) incessantemente vem ao
nosso encontro, através de pessoas nas quais Ele se revela».(16)
Dirigindo um poema
a Maria, o Papa Bento XVI, escreve:
«Santa Maria, Mãe
de Deus,
Vós destes ao mundo
a luz verdadeira
(…) Mostrai-nos
Jesus.
Guiai-nos para Ele.
Ensinai-nos a
conhecê-Lo e a amá-Lo,
para podermos,
também nós,
tornar-nos capazes
de verdadeiro amor
e ser fontes de
água viva
no meio de um mundo
sequioso.».(17)
Através das
crianças, interlocutores privilegiados, por estarem mais próximos da
pureza absoluta, que é a condição da santidade, o Imaculado Coração de
Maria adverte, avisa, - por meio da criança, ser de eleição para Deus -
aqueles que renegam Deus, mas que Deus considera, mesmo assim, Seus
amados filhos. A Mãe de Jesus Cristo procura, assim, chegar aos corações
daqueles que não acreditam, que desprezam Deus.
O Seu «Imaculado
Coração» procurou três crianças para lembrar, de novo, ao mundo, a
vontade de Deus. E, procurou precisamente crianças, porque elas deviam
ser para os adultos um exemplo vivo de confiança, de fidelidade e de
amor.
Hoje, as crianças
são a última esperança humana. Nelas está na essência a audácia de
confiar e a capacidade de amar as maravilhas do sacro universo que as
cerca! E, Maria, Mãe e Rainha do Céu, aparece-lhes na Terra,
transmitindo-lhes a dor de um Deus-Pai ofendido, demasiado ofendido, mas
também pronto a perdoar cada ser humano que siga as qualidades da
infância distante, mas não perdida. Essas virtudes da infância a
perdurarem para que muitos possam ser bem-aventurados. Como disse Jesus
no Sermão da Montanha, «Bem-Aventurados os puros de coração porque verão
a Deus».(18)
Teresa Ferrer
Passos
*
* Ortónimo de
Teresa
Bernardino.
(1)
Citado por José Augusto Mourão «O
Inferno da Interpretação
-
O Segredo de Fátima», Internet, TriploV.com p.4.
(2)
Joseph Ratzinger, Comentário Teológico ao 3º Segredo de Fátima
in Internet,
www.crossroadsiniciative.com/library_article/553, pág.4.
(3)
José Augusto Mourão «O Inferno da
Interpretação
-
O Segredo de Fátima», Internet, TriploV.com, p.1.
(4)
Ibidem,
p.4.
(5)
Ob.cit.
in Internet,
www.crossroadsiniciative.com/library_article/553,
pág. 6.
(6)
«Evangelho de S. João» in
Apelos da Mensagem de Fátima, págs.
62, 63, 77.
(7)
Apelos da Mensagem de Fátima,
2005, pág.155.
(8)
Ibidem,
pág. 136.
(9)
Ibidem,
pág. 162.
(10)
Ibidem,
pág. 163.
(11)
Ibidem,
pág. 195.
(12)
Ibidem,
pág. 162
(13)
Ibidem,
págs.
178-179
(14)
Ibidem,
pág.135.
(15)
Ob. Cit.,
in Internet,
www.crossroadsiniciative.com/library_article/553,
pág. 5.
(16)
Carta Encíclica Deus é Amor
de Bento XVI, 25 de Dezembro de 2005, pág 32.
(17)
Ibidem,
pág.77.
(18)
Evangelho de S. Mateus, 5, 8.
Fonte: Publicado em Revista de Espiritualidade, Edições Carmelo, nº
58, Abril/Junho 2007, pp.139-153, e em Cadernos Vianenses,
Câmara Municipal de Viana do Castelo, Tomo 39, 2007, pp. 241-253.
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