POESIA
TERESA FERRER PASSOS / TERESA BERNARDINO
ALGUMA POESIA INÉDITA
MADEIRA
Lençóis de chuva, puxada pelo forte vento,
Varrem de ti, oh Madeira, as flores coloridas,
as hortas e os silvados.
Num simples ápice, as mansas ribeiras
são altos mares furiosos.
Os pássaros alegres calam todos os trinados e o
uivar do vento cresce, ao compasso da enxurrada.
No susto imenso, as tuas gentes,
com o nome coragem inscrito,
vêem, com o olhar sereno,
as fragas de toneladas
deslizarem com estranho estrondo.
Tudo se desmorona,
as casas alcandoradas e as fortes pontes,
as ruas largas e as arribas cobrem-se
de destroços de automóveis.
Rios de lama ondulam, incontrolados,
arrastam até o que tem vida...
É noite.
O mar cercar-te, oh Madeira, em furiosa ondulação,
descrente do que te está a acontecer...
Então, descontrolado, ao ver-te em perigo,
Luta por ti, sabe que és a sua jóia preciosa.
E foi, por isso, o mar, quem primeiro
desceu às tuas margens.
E foi, por isso, o mar, quem transformou as suas ondas altas
em gigantes que impediram o teu deslizar
para a sua imensidão distante.
Foi ele quem conteve as tuas pontes,
não as deixando entrar nele,
E os frágeis caminhos, em declives caprichosos,
Susteve-os ele temendo o seu mergulhar nele.
As casas, tão pequeninas, descobre-as
perdidas em oceanos de lama.
Mas poupa-as e não as deixa cair
nos seus inóspitos domínios…
A morte inscrita no sossego de muitos corpos, faz o luto
dos portugueses, oh suave ilha, oh Madeira!
Mas, ergue os braços e renasce!
Como vês, as terríveis derrocadas,
com estrondo imenso, vulcânico,
não conseguem desviar de ti, oh Madeira,
o olhar do mar.
O mar, quer que regresses a ti
Tal como eras, belíssima.
E, com o poder das ondas, eleva frente a ti,
o primeiro dos alicerces: o hino ao futuro e à vida.
S. Brás de Alportel, 23 de Fevereiro de 2010
Teresa Ferrer Passos
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O CRISTO DE “PORT AU PRINCE”
Eu, crucificado, aqui estou.
Aqui estou, entre escombros.
Continuo aqui, convosco,
Não vos abandonei.
A minha cruz e o meu corpo estão intactos
Para verdes que não vos perco de vista.
Preso, inerte, na cruz continuarei.
A minha paz está convosco.
Como vós estais presos às pedras da morte
Ou ao sofrimento da vida,
Eu estou preso à cruz.
À espera, sempre convosco,
Da vitória da verdadeira vida.
22 de Janeiro de 2010
Teresa Ferrer Passos
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VIAGEM
Bem dentro da tua barca
Está todo o meu coração.
Pronto nas horas tristes,
Forte na mais amarga.
E também aí o vejo
Nos dias de alegria
Com grutas de paraíso
Ou praias de mil areias.
E na mágica viagem prossigo.
Seja a viagem longa ou breve,
Seja um dia só ou muito anos,
Sinto o encanto de estar contigo.
29 de Outubro de 2009
Teresa Ferrer Passos
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UM SIMPLES TERÇO
À Teresa Maria dos Santos (Encarnação, Mafra)
Sem músculos para pisar o chão
Sinto-lhe as pernas flácidas,
Moles as peles vazias.
Abro-lhe, a medo, o coração.
Busco a sua paz-ciência.
Quero repousar o meu cansaço de palavras
E alongar-me no heróico dos seus dias.
Quero parar nas suas horas benditas,
Perscrutar os olhos deitados na santa.
Quero desvendar-me no segredo do seu terço.
Deitada há quarenta e cinco anos,
Um pequenino corpo de criança de oito,
Imobilizou-se na dor. A clausura demorava, parecia não ter fim.
Os anos passaram. A dor durou.
Sem esperança, insegura, continuou deitada.
Era uma criança. Parecia dormir, na paralisia do seu corpo.
Uma criança cresceu. Uma mulher-criança.
Os anos passavam. Na atrofia dos músculos, continuava.
E a mulher-criança enrouquecia nas lágrimas que soltava.
Um dia, essa mulher-criança rompeu o tamanho do mal.
Precisamente no dia em que segurou nas mãos, um terço.
Trémula, as palavras entoam “Avé Maria, cheia de Graça”.
E a mulher-criança esqueceu-se de si, pela primeira vez.
Repetia “Avé Maria”, “Avé Maria”.
E começou a clamar por outros doentes.
“Avé Maria”, por todos vós, por todos vós!
Saiu de si mesma. Já não se via só como a doente.
Tantos precisavam dela! Alguns, ainda um pouco mais doentes.
Continuou com o terço a escorregar-lhe nos finos dedos,
Na cama dolorosa, com o corpo dorido, a jazer,
Sabia-se lá, por quanto tempo…
Só hoje ouvi sua voz, breve, longa, estremecida.
Só hoje senti na alma as bênçãos do seu sofrer,
Que quarenta e cinco anos, acha tão pouco!
Naquela cama, entorpecida, em apagamento, jaz.
Jaz e ainda tem muitos terços para dizer…
São precisos muitos terços para dar
Coragem a muitos doentes,
Diz na alegria de dizer de novo “Avé Maria”
Gostava de seguir-lhe os dedos imóveis.
Descobrir a Luz que a guia.
Ver a Luz, tão bem como ela a vê...
Gostava que o seu terço de alegria
Chegasse onde mora o desânimo,
Onde avança a revolta e a desistência,
Onde mora o inconformismo perante a longa dor.
Gostava que a sábia ensinasse a toda a gente
Uma nova fé. Mostrasse com o seu terço,
O valor incalculável dos humanos,
O valor ímpar dos mais doentes…
Gostava que nos seus terços, ela construísse
Uma luz nova sobre o valor do sacrifício no mais doente!
Bastava um grão da sua gloriosa fé
Bastava um minuto do seu inalcançável tempo
Bastava ter a sua voz bem perto,
Mesmo só na voz de cada terço,
Para que, no mundo, cada doente,
Construísse no seu castelo de sofrimento
A glória infinita de ser filho de Deus,
Em cada momento.
13 de Agosto de 2009
Teresa Ferrer Passos
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PASSAGEM DE CRUZ
as trevas da noite quente cobriram aquele corpo.
tombado entre flacidez e ternura.
ao longe, miríades de estrelas olhavam a imagem
descida da terra até aos céus.
o vento brando secava o sangue derramado devagar
no corpo abandonado à dor inclemente.
com as faces inchadas e a desordem nos cabelos,
Maria e João e a outra, também Maria,
bebiam do cálice do crucificado. a justiça.
queriam ir com Ele. um mundo desconhecido.
queriam desvendar a Passagem a que a cruz levara.
queriam a Passagem. o Sacro e o Derradeiro.
Jesus a atravessara a rompera. e vencera.
apenas com a palavra pura do Amor.
parecia, morto, uma asa a esvoaçar.
Livre, enfim, Jesus expirara.
Tudo num simples e breve suspiro.
Tudo por toda a severa gente.
Páscoa/o9
Teresa Ferrer Passos
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É SEMPRE SALVAÇÃO…
Nas redes intermináveis do nosso amor,
Saltam os peixes hirtos,
Os búzios rígidos,
As conchas secas.
Nas redes intermináveis do nosso amor,
Ferem luzes a sair de crustáceos aberrantes.
Fendem as rochas os polvos atrozes
Raiando, nas sombras,
Os lobos-marinhos perdidos de si.
E, quebram a nossa vontade os sonidos da mentira!
Nas redes intermináveis do nosso amor,
Zombam de nós as baleias estonteadas,
Silenciam-se, cobardes, os velozes atuns,
Rompem as ondas os tubarões, feridos de medo.
E todos, em uníssono, soletram, com alegria: RUÍNAS!
Nas redes intermináveis do nosso amor
Não vêem que, mesmo nelas, mesmo só a boiar,
O nosso amor é sempre salvação…
19 de Fevereiro de 2009 (15 anos depois do dia do nosso casamento)
Teresa Ferrer Passos
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NO 50º ANIVERSÁRIO DO TEU NASCIMENTO
“O templo de Deus é santo e esse templo sois vós”
Cor 3, 16-17
Num impossível momento,
Entrei no templo.
Lá dentro, habitavas tu.
Na magnífica morada,
Descobri o teu rosto santo.
Eras tu, guardado por um Deus
Santo.
Esperavas-me liberto de amarras,
Pronto para o amor maior do mundo.
E eu, coberta da nudez do espírito,
Saltei para o teu corpo envolto em santidade,
E não senti frio, e não senti calor.
Aí fui eu, aí não fui, aí descansei, aí adormeci.
No teu templo santo, sem paredes ou muros,
Quis o paraíso, quis o céu e a terra,
Quis todos os planetas e os sóis e as galáxias sem fim.
Quis tudo, para tudo te oferecer,
Só que tu tinhas tudo isso no teu templo,
Porque tu eras um templo de Deus.
Mas hoje, hoje acordei frente ao teu corpo.
Estava espantosamente sereno, cheio de paz!
Revestia todo o templo santo que nos abençoa,
Hoje mais do que nunca,
Porque hoje é o dia dos teus anos!
E no fogo do Espírito, sem mais nada,
Celebramos na gruta escondida do teu templo
Magnífico, esses primeiros cinquenta anos de vida.
Sigamos na maravilhosa viagem desta barca em que
Navegamos frente aos desafios da VIDA!
14 de Janeiro de 2009
Teresa Ferrer Passos
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O NATAL DO MENINO JESUS
entre a perseguição e a fuga, nasceste
Menino, tão pequenino como qualquer mortal
entre a rejeição e a dúvida, nasceste
Menino, chorando a lágrima de uma divina missão
entre o medo e a coragem, nasceste
Menino, lendo já o livro que Teu Pai Te oferecera
entre o deserto e a cidade do grande Templo, nasceste
Menino, todo a pular para o mundo mesquinho do humano
entre o pequeno planeta Terra e o gigantesco Universo, nasceste
Menino, a mostrar o valor dos seres humanos tão pequenos
entre os soberbos e os humildes, nasceste
Menino, a espelhares a imagem do Pai de todos eles,
do Pai... também Teu.
8/Dezembro/2008
Teresa Ferrer Passos
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A FERNANDO PESSOA
no meu primeiro quintal
passava o tempo sem espera
na espera de crescer e descobrir
um sentir novo, a brotar
do sol e do céu e da terra pura
e de todas as coisas que via sentindo,
ou apenas sentia
e descobria, no meu primeiro quintal.
Ou amanhã?
Lisboa, 13/Junho/2008
Teresa Ferrer Passos
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ALGUMA POESIA PUBLICADA
PROCURA
Procurar, procurar, mais procurar,
eis a senda que tracei na infância da minha infância.
Cinzelo, volume, desenho opaco
construído no azul, no negro do universo.
Azáfama ruidosa, intransponível,
construída na lentidão dos anos.
Tortura vertiginosa da idade,
jaz no cemitério do meu desejo,
jaz sem contornos, olvidada, submissa
nas vias sem regresso do meu destino!
Fonte: Teresa Bernardino, Asas no Poente, Lisboa, 1987, p. 24.
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JÚPITER
Onde deixaste o calor da lava antiga
oh Júpiter planeta extasiado audácia
de silêncio finíssima poeira e areal?
Explodindo em partículas de carbono e hidrogénio
Foste cápsula de fogo farol ou caverna de falcão.
Agora és a pacata visão nas órbitas de teus satélites.
Imagem de juventude de anos aos milhões
ignoras o deus-tempo a falsa maquinação
de quiméricas origens ou amanhã de extinção.
Não tens tangentes nuvens no céu
chuva lamento florido campo mar pacífico.
És a gélida vivência-solidão entre astros semelhantes.
Em viagem sem regresso giras em redor de ti
não precisas de atmosferas de livros ou de palavras.
Teu gesto círculo veemente – é já vida totalmente.
Fonte: Teresa Bernardino, Universo, Lisboa, 1991, p. 17.
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MULHER
Mastro solitário. Celestial nau.
Brisa refrescante. Rocha sem idade.
Braço repousante. Água transparente.
Fúria de viver. Turbilhão de cidade.
Relâmpago
no céu mais negro
corola
de papoila abandonada
fogo ardente
na eterna madrugada
grito estridente
na noite cerrada.
Arma vibrante
ramo possante
luz de farol
bosque compacto
pórtico de quartzo
rua de marfim
catedral sem fim
... folha verdejante a despontar.
Rectilínea janela para o mar
uma vela acesa
um dia claro
uma rosa formosa
dolorosa
sempre. A amar.
Fonte: Teresa Bernardino, Fragmentos-de-Sol, Lisboa, 1993, p. 21.
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NA QUINTA DA PIEDADE O AMOR É
Na Quinta da Piedade
há uma orquestra de açucenas,
há grilos agitando-se no canto,
há a Cartuxa contemplativa ao lado.
Aqui, nasce o nada feito de crepúsculo,
um grão minúsculo é todo o tempo,
o amor cresce até à eternidade.
Há laranjais vestindo-se de almas novas,
cedros a desenhar fantásticas formas,
e o espírito abrange o vasto horizonte.
Vemos também ternura em cada vinhedo;
a paz mora nas estrelas da noite,
em mágicas nuvens constroem altares.
Mais do que tudo isto!
Aqui a vida não tem sombras nem idade.
o amor vive aqui,
precisamente aqui, na Quinta da Piedade.
Fonte: «Horizonte Luz», in Teresa Ferrer Passos e Fernando Henrique de Passos, Álbum de Amor, Universitária Editora, Lisboa, 1998, p. 96.
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A JESUS
Entre as palhinhas deitado já sabes sorrir
Para os tristes para os puros e para os justos.
No momento de nascer cercado de animais...
A alegria dos gestos de um sonho de amor.
E sorriste… e sorriste como sorriste!
Anunciar o amor entre povos desavindos
Pequenino a sorrir!
E sorris… e sorris só a sonhar com o amor...
Amor Que palavra para oferecer a todos os seres
Com o sorriso mais fundo da vida
E a vida solta-se de ti com o amor lá inscrito
Fonte: «Odes para um Novo Presépio», in Teresa Ferrer Passos e Fernando Henrique de Passos, Retábulo, Universitária Editora, Lisboa, 2002, p. 27.
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OITAVO ANIVERSÁRIO DE NOIVADO
Impossível dádiva a transportar
os anos de um anel sem qualquer idade
ou com uma idade sem números a desenhá-la
E todo ele se inspira num sonho e é maravilha
de sol-poente de flores e de maresia
Com a lucidez da música de Bach
soa com um grito a sua forma
feita de um silêncio de árvore
Eis a escultura de uma vida sóbria e infinita
Eis a pintura de um amor fundo e invisível.
Fonte: «Poema-Esposo», in Teresa Ferrer Passos e Fernando Henrique de Passos, Novo Álbum de Amor, Universitária Editora, Lisboa, 2005, p. 98.
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