ROSA MARIA OLIVEIRA
Exercício de escrita
Devo rever os versos
pede-me o mar no corpo
a morrer.
Porque são pobres
os livros junto à boca
nada dizem sobre a árvore
que dentro de mim avança.
Este dia é preciso, como exercício
de paciência,
de outro modo não acharei o voo
certeiro
límpido e veloz
que falta para o som
da mudança.
«Nasci para retribuir o amor
não o ódio»
Antígona
Em Tebas
Entre os mortos de Tebas
os ossos descobertos gemem
nas trevas.
Por que me temes,
se nasci para cobrir
de amor o coração desfeito?
Como elas as borboletas
Há uma vida para a escrita
amanhecendo com as borboletas
que nada sabem do dia
de amanhã.
Todos os dias se contam
as poucas palavras
que chegam à eternidade.
Como elas as borboletas.
Não temos tempo para surpreender
as ervas que nascem nos lábios
das crianças.
Ainda quando a escrita
pertence aos mortos
não temos pressa de morrer
tanto nos cega
o bater da enxada.
Três poemas do livro da autora, O Voo da Enxada, edição da Junta de Freguesia de Vera-Cruz, Aveiro, 2004, pp. 12, 26 e 54.
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