HARMONIA DO MUNDO

 

 

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POESIA

 

 

MISCELÂNEA (POESIA)

 

por Fernando Henrique de Passos

 

 

 

 

AGRIMENSOR DE SOMBRAS

 

ao agrimensor K.

 

Percorro as ruínas,

Tempos ancestrais,

Respiro as neblinas,

Fumos outonais.

 

Procuro um achado,

Algum cofre oculto,

Um resto selado

De um antigo culto.

 

Perco-me na sombra,

Nas formas esguias

Da noite que tomba

Sobre as lajes frias.

 

Mas a lua brilha,

Prossigo a procura.

Meço milha a milha

Toda a ilha escura.

 

E somo distâncias

E quadro os totais

E vêm-me ânsias

De aí ver sinais.

 

A lua apagou-se.

(Se sobrasse um raio,

Um raio que fosse,

Pra ser meu lacaio…)

 

Meço a profundeza,

Vou medindo ainda,

Desta noite presa

De uma treva infinda.

 

Meço lajes frias,

Colunas tombadas,

Janelas sombrias,

Corpos de alvoradas.

 

Sei que esta é a cura,

O fio que conduz

À gnose futura,

À futura luz…

 

28/5/2010

 

Fernando Henrique de Passos

 

 

 

 

 

 

CINZA, PÓ E NADA

 

Somos cinza, pó e nada,

Berço da palavra “sem”,

Vento uivando numa estrada

Onde não passa ninguém.

 

Somos cinza, pó e nada,

Uma fenda no vazio,

Sombra de luz apagada,

Leito onde não corre rio.

 

Somos cinza, pó e nada,

Apollo 11 sem Lua,

Casa velha abandonada

Onde a noite desagua.

 

Somos cinza, pó e nada,

Um espantalho no deserto,

Uma feira desarmada

Num dia vago e incerto…

 

Mas quando a noite se cerra

E quando o céu fica mudo,

Mesmo assim minha voz clama:

Pois que o pó volte a ser terra,

Que a cinza volte a ser chama,

Que o nada volte a ser tudo!

 

23/5/2010

 

Fernando Henrique de Passos

 

 

 

 

 

 

SOLSTÍCIO DE VERÃO

 

É o solstício de Verão,

Volto aos rituais antigos.

Eis-me de novo pagão,

Com monges por inimigos.

 

Eis que tudo recomeça,

E volto ao meu velho ofício.

Montarei, peça por peça,

Um fabuloso edifício.

 

Mas a quem ofertarei,

Quando finda, a construção?

Irei dá-la ao Cristo-Rei!

Eis-me de novo cristão!

 

21/6/2009

 

Fernando Henrique de Passos

 

 

 

 

 

 

VIAGEM SEM FIM

 

Se o medo te deixa doente,

Vai em frente

De olhar fixo na lonjura

Até sentires que chega a cura.

Se achas que parar se torna urgente,

Vai em frente

E torna o teu passo mais cadenciado

Até deixares de estar cansado.

Se a dor que te toma é pungente,

Vai em frente

Repetindo sem cessar uma oração

Até que a dor seja paixão.

Se enfrentas um monstro repelente,

Vai em frente,

Mata a criatura daninha

E mete de novo a espada na bainha.

Se deparas com um maciço imponente,

Vai em frente

E rebenta o muro da Realidade.

Os teus olhos contemplarão enfim toda a Verdade

E ficarás contente.

Mas não pares ainda – deves continuar a ir em frente…

 

6/5/2009

 

Fernando Henrique de Passos

 

 

 

 

 

 

O JOGADOR

 

O jogador joga a cartada derradeira:

Aposta o que não tem.

O fim está à beira:

Já perdeu tudo; já não é ninguém.

 

Les jeux sont faits,

Diz o croupier.

O jogador sai pé ante pé.

Sente-se em paz sem saber porquê.

 

(E a bola salta na veloz roleta,

Mas o jogador já não está ali.

Dorme ébrio de Deus na fria valeta.

Vela-o, a seu lado, Jesus, que sorri.)

 

8/2/2009

 

Fernando Henrique de Passos

 

 

 

 

 

NATAL 2008

 

É Natal e há crise financeira,

O dinheiro evapora-se nos ares,

Vendem menos as lojas, os bazares…

Quem enche os sapatinhos na lareira?

 

Mas a maior pobreza que há no Mundo

É falar-se tão pouco de Jesus:

Um silêncio de trevas que reduz

A alma a lume negro a ir ao fundo.

 

É Natal e há crise financeira:

Este vazio saibamos nós usar

Para erguermos em nós um santo altar

À noite que é de todas a primeira!

 

12/12/2008

 

Fernando Henrique de Passos

 

 

 

 

 

 

SEIS ARCHOTES NA NOITE

 

Conheço o meu Caminho.

Por que não vou em frente?

Nem sequer estou sozinho…

Nem sequer estou doente…

 

Sou preso por que laços

Que não sei desfazer?

O que me tolhe os passos,

Me impede de correr?

 

É o apego ao nada,

É a amizade ao medo.

Em terra abençoada,

Transformo-a num degredo.

 

Mas vou olhar a luz

Que teima em me seguir

E, como quem seduz,

Deixar-me seduzir.

 

E vou abrir janelas

Na alma em si fechada

E já ébrio de estrelas

Fazer-me enfim à estrada.

 

E irei de mão dada

Aonde Deus quiser

Com minha terna amada,

Minha terna Mulher…

 

8/7/2008

 

Fernando Henrique de Passos

 

 

 

 

 

 

QUARESMA

 

Se o ensimesmado

Em si se ensimesma,

Que seja acordado

Pela Quaresma!

 

Desça às profundezas,

Volte à tona d’água,

Livre das tristezas,

Liberto da mágoa!

 

Use o sofrimento

Como catapulta

Para novo alento,

E verá que exulta!

 

E jamais esqueça:

P’ra vencer a dor

A melhor promessa

É sempre o Amor!

 

7/2/2008

 

Fernando Henrique de Passos

 

 

 

 

 

 

JANGADA DE AMOR

 

A tua alma encalhou dentro de ti

Mas há uma voz que te sorri

E te diz p’ra construíres uma jangada

(E reconheces a voz da tua amada…):

 

“Sou eu que te proponho:

Agarra-te aos restos do teu sonho

E deixa-te arrastar

Até onde ele te levar.”

 

Assim farei,

Mesmo sem saber onde aportarei.

E se acaso encalhar numa ilha abandonada

Sei que terei comigo a minha amada.

(E não preciso de mais nada…)

 

5/12/2007

 

Fernando Henrique de Passos

 

 

 

 

 

 

MILAGRE EM S. BRÁS

 

Na escuridão canta um grilo,

A Lua brilha no céu.

O espaço é vasto e tranquilo

Como um grande mausoléu.

 

Mas nele fervilha a vida,

À espera de alguma coisa.

E anda uma ave perdida

Num vaivém que nunca poisa.

 

Imobiliza-se a ave,

Poisa por fim no lajedo.

O vento é mais que suave,

Mal agita o arvoredo.

 

A ave solta um trinado…

Muito mais que um rouxinol,

É um mago disfarçado:

Fez nascer de noite o Sol!

 

 

30/9/2007

 

Fernando Henrique de Passos