POESIA
MISCELÂNEA (POESIA)
por Fernando Henrique de Passos
ao agrimensor K.
Percorro as ruínas,
Tempos ancestrais,
Respiro as neblinas,
Fumos outonais.
Procuro um achado,
Algum cofre oculto,
Um resto selado
De um antigo culto.
Perco-me na sombra,
Nas formas esguias
Da noite que tomba
Sobre as lajes frias.
Mas a lua brilha,
Prossigo a procura.
Meço milha a milha
Toda a ilha escura.
E somo distâncias
E quadro os totais
E vêm-me ânsias
De aí ver sinais.
A lua apagou-se.
(Se sobrasse um raio,
Um raio que fosse,
Pra ser meu lacaio…)
Meço a profundeza,
Vou medindo ainda,
Desta noite presa
De uma treva infinda.
Meço lajes frias,
Colunas tombadas,
Janelas sombrias,
Corpos de alvoradas.
Sei que esta é a cura,
O fio que conduz
À gnose futura,
À futura luz…
Fernando Henrique de Passos
Somos cinza, pó e nada,
Berço da palavra “sem”,
Vento uivando numa estrada
Onde não passa ninguém.
Somos cinza, pó e nada,
Uma fenda no vazio,
Sombra de luz apagada,
Leito onde não corre rio.
Somos cinza, pó e nada,
Apollo 11 sem Lua,
Casa velha abandonada
Onde a noite desagua.
Somos cinza, pó e nada,
Um espantalho no deserto,
Uma feira desarmada
Num dia vago e incerto…
Mas quando a noite se cerra
E quando o céu fica mudo,
Mesmo assim minha voz clama:
Pois que o pó volte a ser terra,
Que a cinza volte a ser chama,
Que o nada volte a ser tudo!
Fernando Henrique de Passos
SOLSTÍCIO DE VERÃO
É o solstício de Verão,
Volto aos rituais antigos.
Eis-me de novo pagão,
Com monges por inimigos.
Eis que tudo recomeça,
E volto ao meu velho ofício.
Montarei, peça por peça,
Um fabuloso edifício.
Mas a quem ofertarei,
Quando finda, a construção?
Irei dá-la ao Cristo-Rei!
Eis-me de novo cristão!
21/6/2009
Fernando Henrique de Passos
VIAGEM SEM FIM
Se o medo te deixa doente,
Vai em frente
De olhar fixo na lonjura
Até sentires que chega a cura.
Se achas que parar se torna urgente,
Vai em frente
E torna o teu passo mais cadenciado
Até deixares de estar cansado.
Se a dor que te toma é pungente,
Vai em frente
Repetindo sem cessar uma oração
Até que a dor seja paixão.
Se enfrentas um monstro repelente,
Vai em frente,
Mata a criatura daninha
E mete de novo a espada na bainha.
Se deparas com um maciço imponente,
Vai em frente
E rebenta o muro da Realidade.
Os teus olhos contemplarão enfim toda a Verdade
E ficarás contente.
Mas não pares ainda – deves continuar a ir em frente…
6/5/2009
Fernando Henrique de Passos
O JOGADOR
O jogador joga a cartada derradeira:
Aposta o que não tem.
O fim está à beira:
Já perdeu tudo; já não é ninguém.
Les jeux sont faits,
Diz o croupier.
O jogador sai pé ante pé.
Sente-se em paz sem saber porquê.
(E a bola salta na veloz roleta,
Mas o jogador já não está ali.
Dorme ébrio de Deus na fria valeta.
Vela-o, a seu lado, Jesus, que sorri.)
8/2/2009
Fernando Henrique de Passos
NATAL 2008
É Natal e há crise financeira,
O dinheiro evapora-se nos ares,
Vendem menos as lojas, os bazares…
Quem enche os sapatinhos na lareira?
Mas a maior pobreza que há no Mundo
É falar-se tão pouco de Jesus:
Um silêncio de trevas que reduz
A alma a lume negro a ir ao fundo.
É Natal e há crise financeira:
Este vazio saibamos nós usar
Para erguermos em nós um santo altar
À noite que é de todas a primeira!
12/12/2008
Fernando Henrique de Passos
SEIS ARCHOTES NA NOITE
Conheço o meu Caminho.
Por que não vou em frente?
Nem sequer estou sozinho…
Nem sequer estou doente…
Sou preso por que laços
Que não sei desfazer?
O que me tolhe os passos,
Me impede de correr?
É o apego ao nada,
É a amizade ao medo.
Em terra abençoada,
Transformo-a num degredo.
Mas vou olhar a luz
Que teima em me seguir
E, como quem seduz,
Deixar-me seduzir.
E vou abrir janelas
Na alma em si fechada
E já ébrio de estrelas
Fazer-me enfim à estrada.
E irei de mão dada
Aonde Deus quiser
Com minha terna amada,
Minha terna Mulher…
8/7/2008
Fernando Henrique de Passos
QUARESMA
Se o ensimesmado
Em si se ensimesma,
Que seja acordado
Pela Quaresma!
Desça às profundezas,
Volte à tona d’água,
Livre das tristezas,
Liberto da mágoa!
Use o sofrimento
Como catapulta
Para novo alento,
E verá que exulta!
E jamais esqueça:
P’ra vencer a dor
A melhor promessa
É sempre o Amor!
7/2/2008
Fernando Henrique de Passos
JANGADA DE AMOR
A tua alma encalhou dentro de ti
Mas há uma voz que te sorri
E te diz p’ra construíres uma jangada
(E reconheces a voz da tua amada…):
“Sou eu que te proponho:
Agarra-te aos restos do teu sonho
E deixa-te arrastar
Até onde ele te levar.”
Assim farei,
Mesmo sem saber onde aportarei.
E se acaso encalhar numa ilha abandonada
Sei que terei comigo a minha amada.
(E não preciso de mais nada…)
5/12/2007
Fernando Henrique de Passos
MILAGRE EM S. BRÁS
Na escuridão canta um grilo,
A Lua brilha no céu.
O espaço é vasto e tranquilo
Como um grande mausoléu.
Mas nele fervilha a vida,
À espera de alguma coisa.
E anda uma ave perdida
Num vaivém que nunca poisa.
Imobiliza-se a ave,
Poisa por fim no lajedo.
O vento é mais que suave,
Mal agita o arvoredo.
A ave solta um trinado…
Muito mais que um rouxinol,
É um mago disfarçado:
Fez nascer de noite o Sol!
30/9/2007
Fernando Henrique de Passos