HARMONIA DO MUNDO

 

 

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POESIA

 

 

mariagomes

 

além o sol esquecido solfejo de um largo céu de zimbro

além a vida que burila o pão entregue à luz semântica

 

oh como são desertos os poemas

como se alongam tristes 

e tão perto

gravitam no timbre ainda húmido das lanças!

 

5 de Set.2007

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algum dia virá que seja natal entre os nós altíssimos do deserto

algum dia desflorará o poema da justiça que se preveja
nas palavras que se fizeram por dentro

e eu criança ainda cante aquém
e o meu canto coincida com o rubro das rosas que desliza.

1Jan.2006

 

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desisto do brilho dos astros, das cascatas de pedra
do céu etereamente louro.
vou por aí, sem dizer nada, aludindo com os olhos.
desisto de aferir a noite perdida, de procurar as rosas,
ouvir a carne,
de permanecer entre a dor e um abismo.

se vires, meu amor, o silêncio levar a água aos gerânios
será a minha sede morta, ou viva.

2 de Fev.2006

 

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na metamorfose da voragem

*
pai não há poesia. há um nó desfazendo um percurso nu.
a existência do vento norte naquele vento
que bateu à nossa sorte como um trovão extinto.
como a bala objectiva
que cerceia o peito dos areais já prontos e o sul. o sul que és tu.

**

está lá fora uma elevação impetuosa.
na boca dos que se calaram
abriram-se as pálpebras das mulheres que choram.
ouve pai esse primevo canto que nos fundeia cambaleante
ao som fúlgido da lâmpada. é a chuva interior que paira.

***

arroladas as amendoeiras clamam em tácita cegueira
e as crianças nascem

importa pai o coração importa o quanto arde a imensidão
incoercível
na metamorfose da voragem.

18/ 23março.06

 

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não tocarei na palavra velada pelo amor
é preciso que um vulcão a beije
cheire a mar o som
que estremeça mansa a boca

que se declarem as minhas mãos loucas e pagãs

ficará imune o ardor livre a sensação de haver
em movimento
um altar curvo ou o alimento sobre a mãe

não tocarei na arrebatada loucura terrestre
no silêncio que cresce das macieiras
que se declarem os rios que respiram inexoráveis
as noites insolúveis e sãs.

julh06

 

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Perceberás a muda e móbil aparição dos meus passos.
O sol bebendo pelos ribeiros. 

Numa tarde espantarás a inutilidade crepuscular que domina o azul.

A voz que declarou fervente o estertor dos pássaros.


Ontem ardia uma angústia lúcida. Uma criança efémera.

Um lugar dissipado. E em toda a urbanidade da sombra vivias tu.

 

6 de Outubro de 2006

 

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Sim o desacerto é a extensão do meu peito e eu procuro-te

no limo da linguagem

tão fria

tão imersa

 

É nesta música que cego movendo-me uma réstia

para depois me levar a migração

à flor do fosso

onde tudo recomeça

 

Estás a ouvir-me

numa dissoluta vontade eu sou a secura

eu estou na tarde da rosa-dos-ventos

eu sou um enlouquecido movimento

encontrarei o sal das amoras os meus dedos atrás da morte

na imperceptível morte de agora.

 

24.Nov.2006

 

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 porque dispões as mãos e dizes que ciciam os astros,

eu pretendo intensamente a luz.

 

tudo se parece com o mistério que redime a vida

como a boca triste, concisa

de um poema.

sempre foi assim o coração que o silêncio celebrou.

 

29Nov.2006 23 h e 40m

 

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isto és tu a correr pela cruz do meu corpo dos meus olhos famintos

 

isto és tu sobre o lago estendendo a mão ao indizível anil das areias

 

isto és tu a acontecer com a sublevação do sol  

pelos raios soçobrando.

 

22Dez.2006

 

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creio em ti ousando a onda das mais altas

e velhas marés

que ouviram uma cidade deserta esperada

 

porque tudo em ti é um murmúrio que fala

como último instante calhado no olhar de um pássaro.

 

29 Dez.2006

 

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de onde te escrevo, resignam-se as árvores
as inextinguíveis árvores que ouvíamos rezar
e o sol sem ninguém, a sombra híbrida, a vida…
é por isso que eu ando por dentro do coração das coisas, mãe.

março.07

 

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tenho, agora, o meu rosto no sangue,
pugna o mais breve pássaro que aprovou o silêncio.
com a dor que sinto,
como um círio extinto dou-me à terra duradoura,
deflagram os longínquos rios quando o sol se apaga.

outrora, a paisagem era a lisura da espuma,
tecia-lhe os olhos.
vinha à boca o trigo íngreme das marés.
e tudo aquilo era vertiginoso, tranquilo -
uma mulher largava o linho anil
e ele trazia-nos todas as rosas, mãe.

abril, 2007