além o sol esquecido solfejo de um largo céu de zimbro
além a vida que burila o pão entregue à luz semântica
oh como são desertos os poemas
como se alongam tristes
e tão perto
gravitam no timbre ainda húmido das lanças!
5 de Set.2007
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algum
dia virá que seja natal entre os nós altíssimos do deserto
algum dia desflorará o poema da
justiça que se preveja
nas palavras que se fizeram por
dentro
e eu criança ainda cante aquém
e o meu canto coincida com o
rubro das rosas que desliza.
1Jan.2006
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desisto
do brilho dos astros, das cascatas de pedra
do céu etereamente louro.
vou por aí, sem dizer nada,
aludindo com os olhos.
desisto de aferir a noite
perdida, de procurar as rosas,
ouvir a carne,
de permanecer entre a dor e um
abismo.
se vires, meu amor, o silêncio
levar a água aos gerânios
será a minha sede morta, ou
viva.
2 de
Fev.2006
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na
metamorfose da voragem
*
pai não há
poesia. há um nó desfazendo um percurso nu.
a
existência do vento norte naquele vento
que
bateu à nossa sorte como um trovão extinto.
como a
bala objectiva
que
cerceia o peito dos areais já prontos e o sul. o sul que és tu.
**
está lá fora uma elevação
impetuosa.
na boca
dos que se calaram
abriram-se as pálpebras das mulheres que choram.
ouve pai
esse primevo canto que nos fundeia cambaleante
ao som
fúlgido da lâmpada. é a chuva interior que paira.
***
arroladas
as amendoeiras clamam em tácita cegueira
e as
crianças nascem
importa
pai o coração importa o quanto arde a imensidão
incoercível
na
metamorfose da voragem.
18/ 23março.06
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não
tocarei na palavra velada pelo amor
é preciso que um vulcão a beije
cheire a mar o som
que estremeça mansa a boca
que se declarem as minhas mãos loucas e pagãs
ficará imune o ardor livre a sensação de haver
em movimento
um altar curvo ou o alimento sobre a mãe
não tocarei na arrebatada loucura terrestre
no silêncio que cresce das macieiras
que se declarem os rios que respiram inexoráveis
as noites insolúveis e sãs.
julh06
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Perceberás a muda e móbil aparição dos meus passos.
O sol bebendo pelos ribeiros.
Numa tarde espantarás a inutilidade crepuscular que domina o azul.
A voz
que declarou fervente o estertor dos pássaros.
Ontem ardia uma angústia lúcida. Uma criança efémera.
Um lugar
dissipado. E em toda a urbanidade da sombra vivias tu.
6 de
Outubro de 2006
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Sim
o desacerto é a extensão do meu peito e eu procuro-te
no limo
da linguagem
tão fria
tão
imersa
É nesta
música que cego movendo-me uma réstia
para
depois me levar a migração
à flor
do fosso
onde
tudo recomeça
Estás
a ouvir-me
numa
dissoluta vontade eu sou a secura
eu estou
na tarde da rosa-dos-ventos
eu
sou um enlouquecido movimento
encontrarei o sal das amoras os meus dedos atrás da morte
na
imperceptível morte de agora.
24.Nov.2006
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porque
dispões as mãos e dizes que ciciam os astros,
eu pretendo
intensamente a luz.
tudo se parece
com o mistério que redime a vida
como a boca
triste, concisa
de um poema.
sempre foi
assim o coração que o silêncio celebrou.
29Nov.2006 23 h
e 40m
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isto és tu a
correr pela cruz do meu corpo dos meus olhos famintos
isto és tu
sobre o lago estendendo a mão ao indizível anil das areias
isto és tu a
acontecer com a sublevação do sol
pelos raios
soçobrando.
22Dez.2006
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creio em
ti ousando a onda das mais altas
e velhas
marés
que
ouviram uma cidade deserta esperada
porque
tudo em ti é um murmúrio que fala
como
último instante calhado no olhar de um pássaro.
29
Dez.2006
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de onde
te escrevo, resignam-se as árvores
as inextinguíveis árvores que ouvíamos rezar
e o sol sem ninguém, a sombra híbrida, a vida…
é por isso que eu ando por dentro do coração das coisas, mãe.
março.07
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tenho,
agora, o meu rosto no sangue,
pugna o mais breve pássaro que aprovou o silêncio.
com a dor que sinto,
como um círio extinto dou-me à terra duradoura,
deflagram os longínquos rios quando o sol se apaga.
outrora, a paisagem era a lisura da espuma,
tecia-lhe os olhos.
vinha à boca o trigo íngreme das marés.
e tudo aquilo era vertiginoso, tranquilo -
uma mulher largava o linho anil
e ele trazia-nos todas as rosas, mãe.
abril, 2007