Borda-se o mar
a ânsia litoral
na
descrição secreta de uma praia
Um texto de água se decifra no silêncio
que se disseca no tombar
das águas
Rochoso rosto que em si desperta
a rouquidão das ondas
A orla das palavras

Cobrem-se de
areias pervertidas
das minhas margens de água
Os barcos
as palavras
Murcham brancas
O vento habita a decifração das cores
das horas
O afluxo de sangue aves
flores

Penso a distância
a maré-alta Penso o mar
Olhar de sal no rosto
Do infinito
penso o fervor das horas
Penso a tempestade
o decalque do retorno
a combustão do sonho
Penso A
ilha que amanhece circular
Três poemas de Joaquim Matos do livro Palavra
Indeferida, Centro Cultural do Alto Minho, Viana do Castelo,
1989, págs. 12, 22, 26.
No Prefácio, Maria da Glória Padrão escreve que
«a "palavra indeferida" é a palavra sem despacho favorável. E, por
isso, é que "há" e não houve qualquer sinal de disforia-sempre:
secura, ausência, privação. O presente, ainda do pórtico, plana
sobre todos os outros tempos preteridos ou a vir. O presente alaga
os infinitos. Uma ilha é o maior dos espaços.»
Joaquim Matos nasceu, em Matosinhos, em 21 de
Janeiro de 1929. Foi docente de Português do ensino secundário, com
extrema dedicação à sua actividade profissional. Fundou e dirigiu o jornal de temas
literários Letras & Letras, editado, no Porto, de 1987 a 1994 (110
números). De 1997 a 2007, o mesmo jornal mensal foi publicado na
Internet.
Da sua
obra poética destacamos Ossadas Vivas (Porto, 1970);
Colhendo o Vento nos Frutos (Brasília Editora, Porto, 1984), (Porto, 1996) e O Que Apetece Dizer-Te
(Porto, 2004), um dos seus últimos livros.
Sobre o livro de poemas
Uma Noite com Maat , diz-nos, na
Nota Prévia, o escritor Mário Cláudio: «Ao alcance da mão é a
eternidade de um firmamento inventado que se vislumbra, a cintilar
nas galáxias, depois das galáxias, a anunciar o abismo onde não
sopra o fétido hálito da morte. (...) É que, decorrido o tempo das
páginas e das letras, esgotados os 'cálculos' e os 'medos' "que
fizeram do corpo um cemitério", recuperará as feições de perpétua
gargalhada».
