POESIA
JOÃO CARLOS RAPOSO NUNES
João Carlos Raposo Nunes nasceu, em Lisboa, em 1958. Livreiro (e alfarrabista) na Baixa de Setúbal, João Raposo, como é mais conhecido, publicou o seu primeiro livro de poemas, Todo o Voo (que termina) Neste Corpo, em 1976. No ano seguinte, dá à estampa É Esta a Nossa Onda Gigante e 30 Haiku. Seguiu-se O Rolar da Pedra (Ed. Pirilampo,1980), Flores Dispersas (1986), Enviado ao Abandono (1988) e Bulbul − Cânticos Arrábidos (Plurijornal, 1990).
A sua livraria, a que chamou Uni-Verso (bem a propósito), foi palco de tertúlias poéticas, nas tardes de sábado. A sua direcção da página «Arca do Verbo» no jornal O Setubalense, foi uma nova lufada de ar fresco na cultura da cidade sadina, durante vários anos. Com paixão pelos livros, João Carlos Raposo Nunes continua a defrontar as dificuldades financeiras a que o pequeno comércio livreiro obriga, sobretudo devido à concorrência esmagadora dos grandes Centros Comerciais. Com uma poesia muito original, foi deixando de publicar (se não a deixou mesmo de escrever). A livraria Uni-Verso continua a ser a fonte da grande dinâmica organizativa que o caracteriza, pois resistir continua a ser o seu lema.
POESIA DO AUTOR
Voa, velha águia, o Céu infinito
Leva contigo o meu pensamento
Faz ecoar entre as nuvens o meu grito
Enquanto penetro em sonhos no firmamento
A vida é rude aqui na terra
Perco-me a cismar no horizonte
Enquanto me foge a alma pela serra
Pássaros poisam suaves ao pé da fonte
O Universo é mutação constante
Terei asas, serei anjo, serei deus
Explosão de cores a todo o instante
Qual meteorito cruzando os Céus
Para cair sobre a terra como um segredo
Que se revela ao perder o medo
João Carlos Raposo Nunes
Fonte: João Carlos Raposo Nunes, Enviado ao Abandono, Edições Cabrita e Arauto, 1988, p.6.
CÂNTICO QUARTO
Dois rios me olham
como dois sóis apagados.
Neve de fogo onde me devolvo
a escrever na noite visionária
o deslumbramento da Língua.
A Arrábida me deixa gravado nos pés
o sangue do caminho.
Louco do Império,
Cavaleiro da Pátria
sílaba a sílaba tocando o céu
que desloca as estrelas que ensinam.
Entre-Sado-e-Tejo
rompe a aurora a profecia.
O Atlântico chega ao portinho,
Imensa Bacia
onde lavamos as chagas
abertas do mundo.
João Carlos Raposo Nunes
Fonte: João Carlos Raposo Nunes, Bulbul ÷ Cânticos Arrábidos, Ed. Plurijornal, 1990, p.60.
BREVE POEMA PARA MIGUEL TORGA
(ao meu irmão Tó-Zé)
É noite quando desço as mangas do frio e me esgoto
no meio da confusão e dos perfumes de nadas.
Amar a mulher-serpente, pássaro de asas abertas carregando
o gelo de outros lugares, e os livros a brilharem cheios de versos.
Mas também podemos ver as areias do deserto, rastejando
sob a vigilância do Sol. O Marão espreita a Arrábida,
o mato cresce, são cores que vêem de outras eras.
Ganges e Sado desaguam na Alma do Poema,
lentamente, trazendo nas águas tantas vidas em cinzas.
PortuGôa onde aporta a Nau da Saudade carregada de sonhos,
de silêncios e Mantras. O lugar da Hora Finistérrica.
Ouves os passos da serra a galope em alto mar?
Setúbal, 9 de Março de 1995
João Carlos Raposo Nunes
Fonte: João Carlos Raposo Nunes, «Breve Poema a Miguel Torga», Gazeta de Poesia do Mundo de Língua Portuguesa, nº 5, Primavera/Verão 1995, p.73.
ALGUMAS PALAVRAS SOBRE A SUA OBRA
Recensão
a propósito da obra Bulbul (Cânticos Arrábidos)
«(...) Num espaço assinalado por Alberto Osório de Castro, Camilo Pessanha e António Barahona, três poetas que tiveram uma experiência directa do Oriente, a poesia de João Carlos Raposo Nunes, afasta desde logo, com o seu primeiro verso e depois com os vários poemas dedicados à Arrábida, a Setúbal e ao pinhal de Leiria, qualquer ideia de proximidade física do Oriente. Com efeito, a originalidade deste livro - e não nos parece pequena - consiste ou evanesce no que o Oriente e a Índia têm nele de metafórico ou alegórico, ou de análogo até ao que aqui no Ocidente e em Portugal existe, dizendo então o poeta que as águas do Ganges «correm na direcção do Atlântico» ou que as mulheres alentejanas estão «envolvidas em saris». Neste sentido, o Bulbul de João Carlos Raposo Nunes é um bulbul metafórico, que canta mais na Arrábida (onde contudo para ele nasce o Ganges, tal como o Sado para o poeta é visto «a nascer do Himalaia») ou nas planícies do sul do Alentejo que propriamente nos areais e palmares de Goa, como empírica e realisticamente nos diz o poeta de O Sinal da Sombra.(...)»
António Cândido Franco
Fonte: António Cândido Franco, Recensões, Colóquio/ Letras, nº 135-136, Janeiro/1995, pp.249-250.