HARMONIA DO MUNDO

 

 

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POESIA

 

 

FLORIANO MARTINS

Floriano Martins (Fortaleza, 1957). Poeta, editor, ensaísta e tradutor. Em janeiro de 2001, criou o projeto Banda Hispânica, banco de dados permanente sobre poesia de língua espanhola, de circulação virtual, integrado ao Jornal de Poesia. Organizou algumas mostras especiais dedicadas à literatura brasileira para revistas em países hispano-americanos: Blanco Móvil  (México, 1998), Alforja  (México, 2001), e Poesía (Venezuela, 2006). Também organizou a mostra “Poesia peruana no século XX” (Poesia Sempre, Brasil, 2008), ao mesmo tempo em que foi corresponsável pelas edições especiais “Poetas y narradores portugueses” (Blanco Móvil, México, 2003), “Surrealismo” (Atalaia Intermundos, Lisboa, 2003) e “Poetas y prosadores venezolanos” (Blanco Móvil, México, 2006). Em 1999 realizou uma leitura dramática de William Burroughs: a montagem (colagem de textos com música incidental), na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo e, em 2006, no Centro Cultural Banco do Nordeste, em Fortaleza, a mostra Teatro Impossível, reunindo leitura de poemas, canções, colagens e fotografias. Esteve presente em festivais de poesia realizados em países como Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, El Salvador, Espanha, México, Nicarágua, Panamá, Portugal e Venezuela. Trabalha ainda com fotografia, colagem e design, tendo realizado exposições e capas de livros. Dentre seus livros de poesia mais recentes, encontram-se Tres estudios para un amor loco (trad. Marta Spagnuolo. Alforja Arte y Literatura A.C. México, 2006), Duas mentiras (Projeto Dulcinéia Catadora. São Paulo, 2008), Teatro Imposible (trad. Marta Spagnuolo. Fundación Editorial El Perro y la Rana. Venezuela, 2008), e A alma desfeita em corpo (Apenas Edições. Lisboa, 2009). Juntamente com Lucila Nogueira, organizou e traduziu o volume Mundo mágico: Colômbia (Poesia colombiana no século XX) (Edições Bagaço. Pernambuco, 2007), também sendo autor de Un nuevo continente (Antología del surrealismo en la poesía de nuestra América) (Monte Ávila Editores. Venezuela, 2008). Atuou ainda como curador da 8ª Bienal Internacional do Livro do Ceará (Brasil, 2008) – função que voltará a desempenhar em 2010, e membro do júri do Prêmio Casa das Américas (Cuba, 2009). Juntamente com Claudio Willer, dirige a revista Agulha (www.revista.agulha.nom.br) - Prêmio Antonio Bento (difusão das artes visuais na mídia) da ABCA/2007.

 

 

 

 

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AS JÓIAS DO ABISMO

UMA NOVELA LÍRICA

 

1. E P Í L O G O

 

Selma abria um sorriso luminoso na foto. Desses que juramos guardar por toda a vida. Selma era a mulher perfeita para durar a vida inteira. O infinito conhecia seus caprichos. Já não recordo onde encontrei a foto, porém sei que o sorriso ali permanecia. As fotos habitam sítios por vezes incompreensíveis, metem-se em lugarejos da casa que jamais habitamos. Selma era quem melhor conhecia a casa. Ríamos das vezes em que eu não a encontrava em nossos jogos. Fincava a roupa no sorriso. Bordava um labirinto no olhar. Soletrava o espinhaço do abismo em meu rosto. Selma era um delírio incomum. A casa não ia a parte alguma sem ela.

 

 

 

 

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FORTALEZA DE NOSSA SENHORA DE ASSUNÇÃO 

A igreja está pronta, o diabo é o santo.

 

Havia um silêncio ali perdido pelo meio da noite. Talvez por entre as rachaduras no espinhaço do tempo. Ou uma cicatriz inflamada alucinando o passado que perdera. Nunca se sabe o quanto uma dor repercute. Sofrê-la está no limite da consciência. Algumas cidades sabem mais do que outras como abandonar a si mesma. As luzes estavam como se a noite mal dormisse. As escadas relutavam a ensinar o caminho àqueles que se mostravam melhor leitores das aflições urbanas. A arqueologia nos diz sobre trilhas subterrâneas, pedra, musgo e água que abrigam certos lacres insuspeitos da história. Tudo nos leva a crer que o passado se revela quando cavamos abaixo. Porém há cidades que escondem sua história no piso superior. Um abandono de si mesmo bordado nas alturas, encoberto pela agitação térrea da maquiagem urbana. Cidades planas e sem escavações hereditárias. Quem sabe a minha, talvez a tua cidade, certamente a de alguém. Lugares à beira-mar que se utilizam do sol para distrair sua melancolia incorpórea. E que desmatam sua essência como uma erva daninha. Cidades atormentadas por uma recusa de si mesmas. A noite aqui não dorme nunca. Recapitula o silêncio ao qual se sente imposta. Este vazio desconcertado das ruínas mais jovens da história. Ruínas aéreas, cujas escadas o mito tenta disfarçar. Possivelmente restos de algum pecado que desconhecemos.

 

 

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PRIMEIRA NOITE ENCOBERTA

 

Deteve-se diante das três faces do labirinto.

A noite chorosa a qualquer hora do percurso.

Velhos tecidos manchados e lúgubres impondo

um limite a cada cena com sua névoa de perversões.

Um vulto gravava em sua retina a planta do lugar,

por mais improváveis que fossem regresso ou saída.

Os véus se entreabriam com sua flor de cultos,

sítio de ritos que dilaceram a alma, torpezas

do espírito, agonias do ser em seu último recurso.

O labirinto é uma trapaça com suas três faces.

Pouco adianta reconhecer o dilema que o define.

O tempo contamina o espaço com suas evasivas.

Anônimos expõem seus vícios em cada cela.

Enumerá-los é como abrigar insuspeitável culpa.

O labirinto é a soma do quanto nos desconhecemos.

As três faces do sonho não se engabelam tão fácil.

Pouco importa que a vigília associe erro e naufrágio

e os simplifique como um deslize repentino.

Em um dos quartos entre véus se via prostrada

a moribunda figura que era um rio e um fio de prumo.

Esquálida senhora interrogada por sua resistência,

ali estava à espera de alguém a quem passar

um infortúnio, um novelo de signos, uma graça.

A quem importa reconhecer-se em tal labirinto?

O vulto vislumbrava a si mesmo naquela mulher,

um golpe, um martírio, uma escapadela, revezes

de um conflito onde se confundiam seus planos.

O cenário se transmudava sempre com o assalto

insuspeito de fugidios personagens de seu passado.

O modo como os parentes foram mortos, sinais

de intrigas, fezes familiares, abortos, disfarces

entre orações e contribuições comunitárias.

Não havia pesagem suficiente para tantas almas.

A velha decrépita converteu-se em um enigma

que apontava na direção de uma dor fugidia.

O vulto não sabia por onde recomeçar a sonhar.

A vida não nos leva em consideração jamais.

O labirinto se furta de si a cada face reconhecida.

 

 

 

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O PRODÍGIO DAS TINTAS

 

 

Sopra-nos o vento a música de seu fulgor:

um elo de ecos, um verso de Gonzalo Rojas,

a espinha do universo no piano

de Thelonius Monk em Memories of you.

Lugar metafísico onde tudo combina

com seu diverso e outro latejo,

em um desses momentos por onde cruzamos

as gélidas ruas de Kafka.

A alma esplende em metamorfoses.

Por ali nos indagamos do equívoco do enigma:

– por que tudo é sempre o mistério do vir a ser,

a almofada do maravilhoso, seu estalo de trevas.

Sons de palavras: letras que surgem

do obscuro ritmo entrelaçado de nossos nomes

– do entreato da sagrada miséria às minúcias

de nossa queda, a um só tempo dialética e mundana.

Livros de sons: a voz deixada no oco da tradição,

notas do prodígio que é seguir vivendo

lendo o misterioso nas páginas de Bataille Blake Benn.

Por ali nos indagamos e a tinta não cessa não cessa.

 

 

 

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REINO DE VERTIGENS

 

Teu corpo e o meu caindo sobre o mundo:

noite saqueada por uma caravana de relâmpagos.

Despojos do tempo foragido de sua fonte,

minando abismos à deriva, perdas flutuantes.

O rosto deformado da beleza que as ruínas cultuam,

linguagem extraviada ao querer entrar em si.

Teu corpo e o meu em sua queda mais secreta.

Um labirinto que fosse um deserto e um deus

ciente que dali não há retorno. Fuga de trevas.

Os disfarces fatais da memória ante o infinito.

Indetíveis sombras caindo sobre o mundo.

Teu corpo e o meu: o que resta de um no outro.

 

 

 

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