HARMONIA DO MUNDO

 

 

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POESIA

 

FLORIANO MARTINS

Floriano Martins (Fortaleza, 1957). Poeta, editor, ensaísta e tradutor. Em janeiro de 2001, criou o projeto Banda Hispânica, banco de dados permanente sobre poesia de língua espanhola, de circulação virtual, integrado ao Jornal de Poesia. Organizou algumas mostras especiais dedicadas à literatura brasileira para revistas em países hispano-americanos: Blanco Móvil  (México, 1998), Alforja  (México, 2001), e Poesía (Venezuela, 2006). Também organizou a mostra “Poesia peruana no século XX” (Poesia Sempre, Brasil, 2008), ao mesmo tempo em que foi corresponsável pelas edições especiais “Poetas y narradores portugueses” (Blanco Móvil, México, 2003), “Surrealismo” (Atalaia Intermundos, Lisboa, 2003) e “Poetas y prosadores venezolanos” (Blanco Móvil, México, 2006). Em 1999 realizou uma leitura dramática de William Burroughs: a montagem (colagem de textos com música incidental), na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo e, em 2006, no Centro Cultural Banco do Nordeste, em Fortaleza, a mostra Teatro Impossível, reunindo leitura de poemas, canções, colagens e fotografias. Esteve presente em festivais de poesia realizados em países como Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, El Salvador, Espanha, México, Nicarágua, Panamá, Portugal e Venezuela. Trabalha ainda com fotografia, colagem e design, tendo realizado exposições e capas de livros. Dentre seus livros de poesia mais recentes, encontram-se Tres estudios para un amor loco (trad. Marta Spagnuolo. Alforja Arte y Literatura A.C. México, 2006), Duas mentiras (Projeto Dulcinéia Catadora. São Paulo, 2008), Teatro Imposible (trad. Marta Spagnuolo. Fundación Editorial El Perro y la Rana. Venezuela, 2008), e A alma desfeita em corpo (Apenas Edições. Lisboa, 2009). Juntamente com Lucila Nogueira, organizou e traduziu o volume Mundo mágico: Colômbia (Poesia colombiana no século XX) (Edições Bagaço. Pernambuco, 2007), também sendo autor de Un nuevo continente (Antología del surrealismo en la poesía de nuestra América) (Monte Ávila Editores. Venezuela, 2008). Atuou ainda como curador da 8ª Bienal Internacional do Livro do Ceará (Brasil, 2008) – função que voltará a desempenhar em 2010, e membro do júri do Prêmio Casa das Américas (Cuba, 2009). Juntamente com Claudio Willer, dirige a revista Agulha (www.revista.agulha.nom.br) - Prêmio Antonio Bento (difusão das artes visuais na mídia) da ABCA/2007.

 

 

 

* * *

 

 

AS TINTAS NEGRAS DO JARDIM | LOS TONOS NEGROS DEL JARDÍN

 

I’ll shoot the moon

right out of the sky

for you baby

 

Tom Waits

(“The Black Rider”, 1993)

 

O que vejo é teu olho dançando no jardim:

descreve a si mesmo com tamanha paixão

o olho pintor de seus quadros em movimento

- confessa-se uma máscara de Lucebert,

três vezes estivera com seu espírito maligno,

quase um pária, quase um duende, o olho.

Sua áspera voz correspondia às imagens

com que seguia redimensionando o jardim.

Fotos de combate, estatuetas corroídas,

papéis amassados, bosta de rato, explosão

de desordem por todos os ângulos, no atelier,

ainda legível um recorte amassado ao chão:

“um poeta que pinte não pode dar grande coisa”.

Segue o universo caindo de si, quase um olho,

tomado de imagens como janelas a descascar.

O que vejo no jardim são detalhes do horror

que ainda comove pequenas histórias ilustradas

- o poeta alimentando o caos, os santos óleos,

pequenas salas de costura onde o mundo se refaz,

olhar inquieto em seu infortúnio: resplendor

dos signos decaídos, guaches de abismos em chamas,

dançávamos e ele não parava de cantar, o olho:

I’ll shoot the moon right out of the sky for you baby

- mostra-me, criatura, as evidências de tua máscara,

não somente o irrefutável, mas sua lástima de si.

O olho excelso no caminho ilumina meu espanto.

Seu bailado acentua-se por toda a pele do jardim:

afeito a dissonâncias, rende-se à dor a criatura.

Uivam figuras patéticas à distância, dança mítica,

legado de antigos filósofos que viam deuses em toda parte.

O olho no jardim é um grande oceano que sangra,

pouco entende do tempo que ocupa com suas serpentes e letras que segue traçando em tintas negras e árvores-pincéis as imagens que nada têm em comum com a eternidade a simples representação do momento em que as coisas são menos e menos o despojo de sua própria agonia quando o desejo confunde-se com o impossível e instaura-se a multa por transgressão e

não somente Hölderlin mas todos os poetas

viveram algum momento como se fossem deuses.

O olho é a proteção do ardor mais secreto da beleza,

embora o jardim contaminado por imagens,

luz que já não se derrama sobre Goethe,

a última rosa do verão, o filme que se esvai

com a noite que atravessa de um encanto a outro.

A semente que cai (novamente a voz de Lucebert),

cai sobre o olho que assimila aquilo que vê.

Pintura e poesia. Mais do que o bailado dos signos

no atônito jardim tomado por seus dramas,

o compasso de nosso corpo negro

firmado no horizonte, sinuosa orquestra de timbres,

os traços caindo inspirados em arabescos

e flautas, bambus refletidos contra o sol,

amuletos-linces, rajas de opala do rio da linguagem,

o olho do amante engana, com seu lápis-trenó,

não existe apenas para a salvação dos cegos.

É grave como a página escrita e o bailado de Mondrian.

O olho é o jardim, mesmo que tomado de paixão.

Projeta-se sobre a idéia (sua) da imagem, um signo branco.

E segue a dançar: vôo de luas em um céu de pincéis.

 

Veo a tu ojo bailando en el jardín:

se describe a sí mismo con tanta pasión

el ojo pintor de sus cuadros en movimiento

–confiesa ser una máscara de Lucebert,

estuvo tres veces con su espíritu maligno,

casi un paria, casi un duende, el ojo.

Su áspera voz correspondía a las imágenes

con que seguía redimensionando el jardín.

Fotos de combate, estatuillas corroídas,

papeles amontonados, excremento de ratón, explosión

de desorden por todos lados, y en el taller,

todavía legible, un recorte arrugado en el piso:

un poeta que pinte no puede llegar muy lejos.

El universo sigue cayendo de sí mismo, casi un ojo,

poseído por imágenes como ventanas descascaradas.

Lo que veo en el jardín son detalles del horror

que todavía conmueve pequeñas historias ilustradas

–el poeta alimentando el caos, los santos óleos,

pequeñas salas de costura donde el mundo se rehace,

mirada inquieta en su infortunio: resplandor

de los signos decaídos, guaches de abismos en llamas,

bailábamos y él no dejaba de cantar, el ojo:

I’ll shoot the moon right out of the sky for you baby

–enséñame, criatura, las evidencias de tu máscara,

no solamente lo irrefutable, sino su lástima de sí misma.

El ojo excelso en el camino ilumina mi espanto.

Su baile crece por toda la piel del jardín:

acostumbrado a las disonancias, se rinde al dolor de la criatura.

Aúllan figuras patéticas a la distancia, danza mítica,

legado de antiguos filósofos que veían dioses en todas partes.

El ojo en el jardín es un gran océano que sangra,

poco entiende del tempo que ocupa con sus serpientes y letras que sigue trazando en tintas negras y árboles-pinceles las imágenes que no tienen nada en común con la eternidad la simple representación del momento en que las cosas son cada vez menos el despojo de su propia agonía cuando el deseo se confunde con lo imposible y se instaura la multa por trasgresión y

no sólo Hölderlin sino todos los poetas

vivieron alguna vez como si fueran dioses.

El ojo es la protección del ardor más secreto de la belleza,

aunque el jardín contaminado por imágenes,

luz que ya no se derrama sobre Goethe,

la última rosa de verano, la película que se desvanece

con la noche que va de un hechizo a otro.

La semilla que cae (nuevamente la voz de Lucebert),

cae sobre el ojo que asimila lo que ve.

Pintura y poesía. Además del baile de los signos

en el atónito jardín tomado por sus dramas,

el compás de nuestro cuerpo negro

firmado en el horizonte, sinuosa orquesta de timbres,

los trazos cayendo inspirados en arabescos

y flautas, bambúes reflejados contra el sol,

amuletos-linces,  franjas de ópalo del río del lenguaje,

el ojo del amante engaña, con su lápiz-trineo,

no existe sólo para la salvación de los ciegos.

Es grave como la página escrita y el baile de Mondrian.

El ojo es el jardín, aunque invadido por la pasión.

Se proyecta sobre su idea de la imagen, un signo blanco.

Y sigue bailando: vuelo de lunas en un cielo de pinceles.

 

 

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poema & fotografia | FLORIANO MARTINS

traducción | BLANCA LUZ PULIDO

 

 

 

* * *

 

 

 

A QUEDA | LA CAÍDA

 

Reúno teus restos em volta do mundo,

ali destroças a anunciada súplica do esquecimento.

Indagam os úmidos tesouros do espelho

 

pelos corais de tua pele, o atlas de teu ser.

Rumoreja o inimigo antes que nos escape,

uma fuga de trevas tecida em suas entranhas.

 

Deixa que teus rastros se evaporem, amor,

que se desfaça toda a matéria ardente sonhada

e o ciclo de teus desmaios diante do sol.

 

Rompe em tremores as formas de tua dor,

em seus degraus vou perdendo meus dons.

Não se evocam sinistras sombras em vão,

 

o tempo se ordena diante de sua própria queda.

Prolongo em cortes a sigilosa tarefa do fogo

nos lugares abandonados do mundo.

 

Alguém necessita prosseguir no combate,

além dos círculos agônicos, dos sinais obscuros.

Reúno os ossos de uma pesada árvore,

 

a idade perdida de tuas resinas, velho amor,

o peixe esculpido em teu ventre e o idioma

com que deciframos a espiral dos desígnios.

 

Contente em te perseguir, disse: “Náufraga minha,

tua dor se mescla à alegria do mundo, o íntimo

de tuas silenciosas perdas sua doce mensagem:

 

o poema traspassa a perplexidade de seu salto,

surpreende a visão dos deuses que lhes são próprios,

dissimula a ronda de toda espécie de torpor.”

 

Não pode ser outra a cena de teu mistério isolado.

Romper com o bosque de seus murmúrios

requer uma parábola muito além do incêndio.

 

Movem-se escamosas figuras em torno ao sonho,

voluptuosas aventuras da dor, desmaios pronunciados.

Reúno tuas peças fixas, ainda que dispersas,

 

sem que nos preocupe o caos de suas fontes.

A extensão de teu enigma toca-me luz e sombra:

“De que calabouço pensas trazer minha alma?

 

Serei teu caos escolhido em uma vitrine?

Descenderei acaso da tribo errante de tuas espinhas?”

Um velho hóspede esquecido te desfaz em molduras,

 

as fabulosas cenas de sua própria miséria.

Devemos tomar cuidado com o tempo, eterno amor,

dentro de sua dura geometria temos lugar certo,

 

segundo suas ordens e a epifania de seus lamentos.

Tudo o que vivemos é pegajosa travessia,

o abismo que em nossas vísceras testemunha

 

o sabor insólito de toda sabedoria, decerto nos reserva

a metáfora de seus servos raptando nossas sombras.

Reúno os despojos encaminhados à partilha

 

de tua lenta agonia, as invisíveis páginas

do livro que nos deu nome e saboroso peso e fim.

Restituirá a memória algo além de vermes?

 

Que minério torna potente a angústia, o desamparo?

Passamos por debaixo do relevo dos sonhos,

o corpo curvado empenhado em não tecer ruídos,

 

nada que desperte a epígrafe voraz de nossas vidas.

Presságios, rios silenciosos, calabouços e grutas

- tudo o que em nós se dava como uma dança do gelo,

 

o círculo imóvel de nossos próprios vapores.

Tua voz sempre segada por meus disfarces:

“O amor devora o lobo das noites, lambe a ferida

 

de seus deuses, destrona o método de toda infâmia”.

Saíamos de nós para a avidez de escombros, descalços

coincidíamos nossos passos com o vidro moído das trilhas.

 

Que canção voltamos a cantar em nome do amor?

De antigos funerais recolhemos seus úmidos signos:

“Tudo no homem se dá no rapto de si mesmo”, “A arte

 

requer um relevo de miséria e um número garantido

de quedas dissimuladas”, “Suas mãos atadas tocam

a fonte do renascimento”. Qual será a misteriosa

 

tribo que escapa a todo escrito. Qual a fúria que penetra

o labirinto das horas, a árvore enlouquecida insurgente

contra a boscagem murmurante de tanta fábula?

 

“Qual será o nome do amor?” Haverá quem escape

de tal trama? Sátiros nos levam de volta ao lar.

Reúno tuas cenas em um mesmo filme, empenhado

 

em dividir o fogo a cada toque órfico da memória.

Tua metade me sonha e sei que sou a testemunha

de seus conhecimentos entrados no fulgor das noites,

 

o portal de seus ruídos convertidos em versos.

Outra parte do amor me chega fiel ao desamparo:

“Nada em ti aceita reconhecer os traços de um mistério,

 

as agulhas que exalam semelhança justo nas bordas

com que polimos a firmeza de nossas feridas,

quando entalhamos o impenetrável de nossa alma”.

 

Recusas o golpe de toda liturgia e nisto destróis

as entradas flamejantes da ordem dos desvios.

Reúno os objetos sagrados de tua representação:

 

as imaginárias colunas por onde o amor se enrosca,

um tema recolhido em leituras que é tua pele,

as passagens que levam tua alma a regressar à minha.

 

Por onde retomo teu vulto, o centro de tua semelhança?

Como regressar à epifania de teus assombros?

De onde mais vem a ventura de contraditórios encantos?

 

“Diverso o amor nos defende da imortalidade.

A enlouquecida forma é sua própria chave,

tanto quanto a carícia compreende-lhe os trágicos esmeros.”

 

Reúno as páginas de um livro muito antigo,

cujo esplendor disfarçadamente percorre nossa espinha.

Sinto-me sem ti, meu profundo amor, atracado

 

em um único corpo, largado em chamas ao fulgor

de uma cidade que deveria ser queimada.

“Que espécie de naufrágio requer a dor uma única vez?

 

Que golpe nos permite ir além de seus efeitos?”

A farsa dos fragmentos toma rápidas decisões,

célere proclama a dispersão de suas partes: folhas,

 

ossos, escamas, versos, estações, toda a umidade

de um saber que se transfigura em si próprio ao se tocar.

Para onde vai tua memória? Como evitar aqui seu exílio?

 

Reúno tuas feridas, o redemoinho de suas imagens.

Por inúmeras vezes pensei que estivesse comigo o amor.

“Os corpos se perdem em suas nuanças; as dores, não”.

Reúno tus restos alrededor del mundo.

Allí destrozas la anunciada súplica del olvido.

Indagan los húmedos tesoros del espejo

 

por los corales de tu piel, el atlas de tu ser.

Murmura el enemigo antes de escapársenos

una fuga de tinieblas urdida en sus entrañas.

 

Deja que tus rastros se evaporen, amor,

que se deshaga toda la materia ardiente soñada

y el ciclo de tus desmayos ante el sol.

 

Desata en temblores las formas de tu dolor,

donde poco a poco voy perdiendo mis dones.

No se evocan siniestras sombras en vano.

 

El tiempo se ordena ante su propia caída.

Prolongo en cortes la sigilosa tarea del fuego

en los lugares abandonados del mundo.

 

Alguien necesita seguir en el combate, más allá

de los círculos agónicos, de las señas oscuras.

Reúno los huesos de un pesado árbol,

 

la edad perdida de tus resinas, viejo amor,

el pez esculpido en tu vientre y el idioma

con que desciframos la espiral de los designios.

 

Feliz de perseguirte, dije: Náufraga mía,

tu dolor se mezcla a la alegría del mundo, lo íntimo

de tus silenciosas pérdidas, su dulce mensaje:

 

el poema rebasa la perplejidad de su salto,

sorprende la visión de los dioses que le son propios,

disfraza el acecho de todo tipo de somnolencia.

 

Esta tiene que ser la escena de tu misterio aislado.

Para romper el bosque de sus murmullos

se necesita una parábola más allá del incendio.

 

En torno al sueño rondan escamosas figuras, voluptuosas

aventuras del dolor, pronunciados desmayos.

Reúno tus piezas fijas, aunque dispersas,

 

sin que nos preocupe el caos de sus fuentes.

La extensión de tu enigma abarca luz y sombra:

¿De qué calabozo piensas traer mi alma?

 

¿Seré tu caos elegido en una vitrina?

¿Descenderé acaso de la tribu errante de tus esqueletos?

Un viejo huésped olvidado te deshace en marcos,

 

las fabulosas escenas de su propia miseria.

Debemos tener cuidado con el tiempo, eterno amor,

dentro de su dura geometría tenemos un lugar asegurado,

 

de acuerdo con sus órdenes y la epifanía de sus lamentos.

Todo lo que vivimos es pegajosa travesía,

el abismo que en nuestras vísceras testimonia

 

el sabor insólito de toda sabiduría, seguramente nos reserva

la metáfora de sus siervos que roban nuestras sombras.

Reúno los despojos encaminados a compartir

 

 tu lenta agonía, las invisibles páginas

del libro que nos dio nombre y sabroso peso y fin.

¿Restituirá la memoria algo más que gusanos?

 

¿Que mineral vuelve potente la angustia, el desamparo?

Pasamos por debajo del relieve de los sueños,

con el cuerpo encorvado empeñado en no tejer ruidos,

 

nada que despierte el epígrafe voraz de nuestras vidas.

Presagios, ríos silenciosos, calabozos y grutas

–todo lo que en nosotros se daba como una danza del hielo,

 

el círculo inmóvil de nuestros propios vapores.

Tu voz siempre segada por mis disfraces:

El amor devora al lobo de las noches, lame la herida

 

de sus dioses, destrona el método de toda infamia. Salíamos

de nosotros hacia la avidez de escombros, descalzos hacíamos

coincidir nuestros pasos con el vidrio molido de los senderos.

 

¿Que canción volvemos a cantar en nombre del amor?

Recordamos los húmedos signos de antiguos funerales:

Todo en el hombre se da en el rapto de sí mismo.  El arte

 

requiere una evidencia de miseria y un número seguro

de caídas disimuladas. Sus manos atadas tocan

la fuente del renacimiento. ¿Cuál será la misteriosa

 

tribu que escapa a todo escrito? ¿Cuál la furia que penetra

el laberinto de las horas, el árbol enloquecido insurgente

contra el bosque murmurante de tanta fábula?

 

¿Cuál será el nombre del amor? ¿Habrá alguien que escape

de su trama? Sátiros nos llevan de regreso al hogar.

Reúno tus escenas en una misma película, empeñado

 

en dividir el fuego a cada toque órfico de la memoria.

Tu mitad me sueña y sé que soy el testigo

de sus conocimientos inmersos en el fulgor de las noches,

 

el portal de sus ruidos convertidos en versos.

Otra parte del amor me llega fiel al desamparo:

Nada en ti acepta reconocer las huellas de un misterio,

 

las agujas que exhalan semejanza justo en los bordes

con que pulimos la firmeza de nuestras heridas,

cuando cincelamos lo impenetrable de nuestra alma.

 

Rechazas el golpe de toda liturgia y así destruyes

las entradas llameantes del orden de los desvíos.

Reúno los objetos sagrados de tu representación:

 

las imaginarias columnas por donde el amor se enrosca,

un tema reunido en lecturas que es tu piel,

los pasajes que llevan a tu alma a regresar a la mía.

 

¿Por dónde recobro tu rostro, el centro de tu semejanza?

¿Cómo regresar a la epifanía de tus asombros?

¿De dónde llega la ventura de contradictorios encantos?

 

El amor diverso nos defiende de la inmortalidad.

La enloquecida forma es su propia llave,

y la caricia abarca sus trágicos esmeros.

 

Reúno las páginas de un libro muy antiguo,

cuyo esplendor disimuladamente recorre nuestra médula.

Me siento sin ti, mi profundo amor, anclado

 

en un cuerpo único, abandonado en llamas al fulgor

de una cuidad que debería ser incendiada.

¿Qué tipo de naufragio necesita una sola vez del dolor?

 

¿Qué golpe nos permite ir más allá de sus efectos?

La farsa de los fragmentos toma rápidas decisiones,

célere proclama la dispersión de sus partes: hojas,

 

huesos, escamas, versos, estaciones, toda la humedad

de un saber que se transfigura en sí mismo cuando lo tocamos.

¿A dónde va tu memoria? ¿Cómo evitar aquí su exilio?

 

Reúno tus heridas, el remolino de sus imágenes.

Innumerables veces pensé que el amor estaba conmigo.

Los cuerpos se pierden en sus matices; los dolores no.

 

 

 

 

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poema & fotografia | FLORIANO MARTINS

traducción | BLANCA LUZ PULIDO

 

 

 

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AS JÓIAS DO ABISMO

UMA NOVELA LÍRICA

 

1. E P Í L O G O

 

Selma abria um sorriso luminoso na foto. Desses que juramos guardar por toda a vida. Selma era a mulher perfeita para durar a vida inteira. O infinito conhecia seus caprichos. Já não recordo onde encontrei a foto, porém sei que o sorriso ali permanecia. As fotos habitam sítios por vezes incompreensíveis, metem-se em lugarejos da casa que jamais habitamos. Selma era quem melhor conhecia a casa. Ríamos das vezes em que eu não a encontrava em nossos jogos. Fincava a roupa no sorriso. Bordava um labirinto no olhar. Soletrava o espinhaço do abismo em meu rosto. Selma era um delírio incomum. A casa não ia a parte alguma sem ela.

 

 

 

 

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FORTALEZA DE NOSSA SENHORA DE ASSUNÇÃO 

A igreja está pronta, o diabo é o santo.

 

Havia um silêncio ali perdido pelo meio da noite. Talvez por entre as rachaduras no espinhaço do tempo. Ou uma cicatriz inflamada alucinando o passado que perdera. Nunca se sabe o quanto uma dor repercute. Sofrê-la está no limite da consciência. Algumas cidades sabem mais do que outras como abandonar a si mesma. As luzes estavam como se a noite mal dormisse. As escadas relutavam a ensinar o caminho àqueles que se mostravam melhor leitores das aflições urbanas. A arqueologia nos diz sobre trilhas subterrâneas, pedra, musgo e água que abrigam certos lacres insuspeitos da história. Tudo nos leva a crer que o passado se revela quando cavamos abaixo. Porém há cidades que escondem sua história no piso superior. Um abandono de si mesmo bordado nas alturas, encoberto pela agitação térrea da maquiagem urbana. Cidades planas e sem escavações hereditárias. Quem sabe a minha, talvez a tua cidade, certamente a de alguém. Lugares à beira-mar que se utilizam do sol para distrair sua melancolia incorpórea. E que desmatam sua essência como uma erva daninha. Cidades atormentadas por uma recusa de si mesmas. A noite aqui não dorme nunca. Recapitula o silêncio ao qual se sente imposta. Este vazio desconcertado das ruínas mais jovens da história. Ruínas aéreas, cujas escadas o mito tenta disfarçar. Possivelmente restos de algum pecado que desconhecemos.

 

 

* * *

 

 

 

 

 

 

PRIMEIRA NOITE ENCOBERTA

 

Deteve-se diante das três faces do labirinto.

A noite chorosa a qualquer hora do percurso.

Velhos tecidos manchados e lúgubres impondo

um limite a cada cena com sua névoa de perversões.

Um vulto gravava em sua retina a planta do lugar,

por mais improváveis que fossem regresso ou saída.

Os véus se entreabriam com sua flor de cultos,

sítio de ritos que dilaceram a alma, torpezas

do espírito, agonias do ser em seu último recurso.

O labirinto é uma trapaça com suas três faces.

Pouco adianta reconhecer o dilema que o define.

O tempo contamina o espaço com suas evasivas.

Anônimos expõem seus vícios em cada cela.

Enumerá-los é como abrigar insuspeitável culpa.

O labirinto é a soma do quanto nos desconhecemos.

As três faces do sonho não se engabelam tão fácil.

Pouco importa que a vigília associe erro e naufrágio

e os simplifique como um deslize repentino.

Em um dos quartos entre véus se via prostrada

a moribunda figura que era um rio e um fio de prumo.

Esquálida senhora interrogada por sua resistência,

ali estava à espera de alguém a quem passar

um infortúnio, um novelo de signos, uma graça.

A quem importa reconhecer-se em tal labirinto?

O vulto vislumbrava a si mesmo naquela mulher,

um golpe, um martírio, uma escapadela, revezes

de um conflito onde se confundiam seus planos.

O cenário se transmudava sempre com o assalto

insuspeito de fugidios personagens de seu passado.

O modo como os parentes foram mortos, sinais

de intrigas, fezes familiares, abortos, disfarces

entre orações e contribuições comunitárias.

Não havia pesagem suficiente para tantas almas.

A velha decrépita converteu-se em um enigma

que apontava na direção de uma dor fugidia.

O vulto não sabia por onde recomeçar a sonhar.

A vida não nos leva em consideração jamais.

O labirinto se furta de si a cada face reconhecida.

 

 

 

* * *

 

 

O PRODÍGIO DAS TINTAS

 

 

Sopra-nos o vento a música de seu fulgor:

um elo de ecos, um verso de Gonzalo Rojas,

a espinha do universo no piano

de Thelonius Monk em Memories of you.

Lugar metafísico onde tudo combina

com seu diverso e outro latejo,

em um desses momentos por onde cruzamos

as gélidas ruas de Kafka.

A alma esplende em metamorfoses.

Por ali nos indagamos do equívoco do enigma:

– por que tudo é sempre o mistério do vir a ser,

a almofada do maravilhoso, seu estalo de trevas.

Sons de palavras: letras que surgem

do obscuro ritmo entrelaçado de nossos nomes

– do entreato da sagrada miséria às minúcias

de nossa queda, a um só tempo dialética e mundana.

Livros de sons: a voz deixada no oco da tradição,

notas do prodígio que é seguir vivendo

lendo o misterioso nas páginas de Bataille Blake Benn.

Por ali nos indagamos e a tinta não cessa não cessa.

 

 

 

* * *

 

 

REINO DE VERTIGENS

 

Teu corpo e o meu caindo sobre o mundo:

noite saqueada por uma caravana de relâmpagos.

Despojos do tempo foragido de sua fonte,

minando abismos à deriva, perdas flutuantes.

O rosto deformado da beleza que as ruínas cultuam,

linguagem extraviada ao querer entrar em si.

Teu corpo e o meu em sua queda mais secreta.

Um labirinto que fosse um deserto e um deus

ciente que dali não há retorno. Fuga de trevas.

Os disfarces fatais da memória ante o infinito.

Indetíveis sombras caindo sobre o mundo.

Teu corpo e o meu: o que resta de um no outro.

 

 

 

* * *