HARMONIA DO MUNDO

 

 

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POESIA

 

FERNANDO HENRIQUE DE PASSOS

QUADROS DE POESIA DO AUTOR

I     COMO ALGUNS CIENTISTAS NOS ROUBARAM A ALMA

II    AMOR INÉDITO

III  MISCELÂNEA

IV   BLOGUE EM 4X4

V    MICRO-ANTOLOGIA DE POESIA PUBLICADA

VI   LIVROS PUBLICADOS

 

ALGUMAS PALAVRAS SOBRE A SUA OBRA

Carlos Carranca:

«ACERCA DE ÁLBUM DE AMOR»

«LUAMENTE»

José Fernando Tavares:

«DO ESPÍRITO DIONISÍACO AO ESPÍRITO APOLÍNEO»

Paulo Brito e Abreu:

«PASSEIO PREAMBULAR»

Joaquim Matos:

«UM ZIGOTO POÉTICO»

Teresa Ferrer:

CIÊNCIA EM PORTUGAL, HOJE»

 

 

Maybe There's Some Hope, Fernando Henrique de Passos, 1984

 

 

 

 

«LUAMENTE»

 

 

«São sete as fases da lua de Fernando Henrique de Passos e sucedem-se na "trepidação do Mundo", na "paz de um teorema".

São sete? Talvez... Assim as deve ter conhecido o pintor-poeta quando nos falou em sete luas, sete sóis, sete bruxas velhas, sete salamandras, sete segarregas, sete piadas de agoiro. Concluindo: sete amores.

São sete as partes deste livro: sete portas, sete janelas, sete arcas proibidas, e só uma deusa, a guardiã do segredo.

São sete os tempos do poeta: sete tempos solitários, sete rosas-dos-tempos, sete chamas sagradas...

E o poeta a "enganar o tempo", e o tempo a enganar o poeta, e este "sozinho, a olhar o mar" ou, quem sabe, o mar a olhar o poeta...

"Só mais um cigarro, / Por amor de Deus", suplica-nos Fernando de Passos — o pobre, roído do vício —, evocando Deus, pedindo a alguém o alimento da fome, enquanto alguém, lá longe, planta (quem sabe?), sete cerejeiras bravas, sete nogueiras, sete castanheiros.

São sete os caminhos do tédio. E que fazer senão matar uma barata? — "Que chatice tão chata — / Matei uma barata / E era o pobre Gregor."

São sete, talvez, as "velhas bandeiras", lençóis onde o poeta adormece.

Há um poema lírico, fónico-sim onde a oralidade é reencarnada, reinventada; onde o absurdo é marca de lucidez, onde a lucidez encontra no absurdo a dimensão da descoberta.

Das sete luas, tenho para mim que só uma é verdadeira: "Uma lua acesa / No estreito quarto de sete portas". Uma lua que faz o poeta subir à montanha, donde nos fala de Deus e da Mulher sagrada.

Do cimo da Montanha pede à Divindade Suprema que o afaste das paixões, que o deixe viver apenas, o seu único amor, a Mulher revelada.

Hoje, o poeta e a musa anseiam por Deus e deixam-nos o conselho:

"Fazei soprar ventos

Na Chama Sagrada

Que é o vosso amor,

Até que ele cresça,

Até ser incêndio."»

Monte Estoril, 12 de Março de 2000

 

Carlos Carranca de Oliveira e Sousa*

 

*Também assina pelo ortónimo Carlos Carranca.

 

Fonte: Carlos Carranca de Oliveira e Sousa, «Prefácio» intitulado «Luamente» in Fernando Henrique de Passos, As Sete Fases da Lua, Universitária Editora, Lisboa, 2000.; Internet, www.harmoniadomundo.net (9/2/2009).

 

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«FERNANDO HENRIQUE DE PASSOS:

DO ESPÍRITO DIONISÍACO AO ESPÍRITO APOLÍNEO»

 

 

«A história da poética no Ocidente contempla um princípio que sempre lhe foi essencial. Esse princípio, que mais parece uma contradição pelos atributos que contém, é um princípio metafísico, pois radica-se em dois pressupostos ambivalentes que tiveram origem no seio da cultura e do pensamento gregos, em particular no que respeita à concepção formal e ideológica da Tragédia. Este género de representação teatral tornou-se caro à civilização ocidental pelas raízes profundas que daí advieram, as quais conheceram um desenvolvimento meteórico desde a Alta Antiguidade até à época moderna. Esses dois princípios de que falávamos unificam-se numa dimensão espiritual que lhes é comum, apesar da sua aparente contradição: referimo-nos à relação do espírito dionisíaco com o espírito apolíneo.   

Esta relação complexa, a qual nunca deixou de ser uma relação espiritual, e pelo facto de ter merecido uma sistematização teórica (por vezes discutível) desenvolvida por um pensador como Nietzsche, tem servido para compreender, explicar e interpretar uma expressão significativa do fenómeno literário contemporâneo, sobretudo no que diz respeito à estesia poética e às suas implicações, quer culturais, quer psicológicas. A combinação entre a Tragédia Clássica e a Poesia, permitiu o aparecimento de um grande número de correntes poéticas que souberam extrair dessa sabedoria trágica (para usarmos uma expressão de Gabriel Marcel) uma porção significativa dos seus fundamentos filosóficos. Na verdade, a poesia deve à Tragédia muita da sua essência espiritual, assim como também muito do seu dramatismo. Se pensarmos então nessa dicotomia, igualmente dramática, entre o espírito apolíneo e o espírito dionisíaco, o contributo da Tragédia para a Poesia torna-se absolutamente incontornável.

Há uma voz que se desprende do fundo, possuída por uma verdade ancestral, essa mesma voz que Homero ouvira, e que Camões também ouviu identificando-a com a das Tágides. Mas também há Baco e Apolo, com o seu poder de deuses imortais, apesar dos defeitos que o Ocidente lhes reconheceu desde que teve consciência da sua promiscuidade e da sua vilania. E porquê Baco e Apolo? Porque Baco representa a embriaguez e a obscuridade. Apolo, por sua vez, é o símbolo do equilíbrio e da luminosidade. Dito desta maneira, mais parece que ambos se opõem de uma forma violenta e que estão de costas voltadas um para o outro. De facto, há na simbologia destes dois seres divinos uma profunda oposição, mas depreende-se dessa oposição uma continuidade e uma coerência que jamais permitirão separá-los. Dir-se-ia que um não pode viver sem o outro, tal como dois gémeos diferentes que se completam na sua diferença.

Se Baco é o deus do vinho e da embriaguez, o instigador dos exultantes cânticos guerreiros, isso quer dizer que há uma parte da humanidade que permanece incólume aos desígnios da razão. O mesmo poderíamos dizer da arte da poesia: é a embriaguez que a move e tonifica; é na sombra que refulge e se extasia. Quanto a Baco, que é a divindade da noite, do êxtase e do excesso, podemos dizer que há nele algo que nos repugna e nos atrai. Explica-se em parte, desta maneira, esse fenómeno quase incompreensível que consiste na atracção pelo abismo. Nesta atitude desesperada perante a inebriante imensidão do abismo, encontramos um princípio de interrogação e de despojamento face ao mistério do desconhecido. Esta atracção por aquilo que se não conhece nem se explica, nem sempre corresponde ao desejo do suicídio. Trata-se de outra manifestação da morte, a qual está longe de corresponder à singela banalidade de uma morte física. À semelhança dos cânticos guerreiros, que exaltam a morte como um rito de passagem para outra dimensão da existência, também a poesia exulta perante o espírito imortal que jaz adormecido no coração dos homens. Explica-se assim a permanência desse espírito dionisíaco na poesia ocidental: longe de qualquer obscuridade mais esotérica, há nela todo o mistério da noite, essa noite cerrada dos tempos que permite aos poetas sondar a oculta natureza na qual coabitam com toda a casta de demónios, entre deuses superiores e inferiores. Há na natureza humana uma dimensão oculta a partir da qual a arte sobrevive. Dessa obscuridade dá-nos notícia a grande poesia universal, à qual teremos de juntar as experiências poéticas mais arrebatadoras e imortais.

É justamente a dimensão dionisíaca da poesia que nos permite considerar ser o poeta aquela entidade viva que caminha de mão dada com o demónio. Ele será aquele que caminha sempre em primeiro lugar, pois é dessa maneira que augura o seu poder, o qual é, enfim, o grande poder da poesia. Caminhar de mão dada com o demónio deve ser aqui interpretado como um estádio passageiro do processo poético, aquele momento de viragem singular que determinará a passagem ritual para o estádio apolíneo, para a luz vivificante e rejuvenescedora. Trata-se, à maneira da Tragédia Clássica, de um processo dramático que culmina num pathos desesperado perante a crueldade dos homens. Esse momento crepuscular representa também o inconformismo do sujeito poético perante as injustiças do mundo, circunstância que o leva a remar contra a corrente dos sistemas e das instituições estabelecidas pelo poder político. Deve-se fazer também esta leitura a propósito dessa parceria demoníaca.

Não nos será legítimo perspectivar nesse espírito dionisíaco apenas a vertente maldita do sujeito poético. Jamais o malditismo se bastou a si mesmo, como Gomes Leal, Baudelaire, Verlaine, Appolinaire, Artaud ou Aragon nos puderam demonstrar através do destino do seu trabalho poético. A condição maldita é apenas o motivo instigador da transgressão da própria palavra de modo a que esta possa chegar à sua pureza original. O grito de revolta que todo o malditismo poético sugere, mais não é do que a vontade de entregar ao mundo a verdade da sua voz interior. Os cânticos guerreiros não se limitam a ser uma manifestação bárbara, plena de um ritualismo inconsequente: essa música é uma manifestação poética de reminiscência primitiva. Porém, por mais primitiva que seja, ela possui uma ordem interior que escapa aos atributos da razão do homem contemporâneo.

A transição para o estádio apolíneo só acontece quando o sujeito poético reencontra a lucidez que havia perdido. Essa perda, consumada ao sabor dos eflúvios báquicos (e esta é uma metáfora que se aplica a inúmeras vertentes da realidade pessoal de um autor), ressurge com o brilho da aurora. Dir-se-ia tratar-se de uma ressurreição para a luz, a luz ofuscante do dia claro. Este processo dramático esteve sempre presente na própria génese poética. A sua ocorrência manifesta-se na poesia contemporânea porque também faz parte da condição do homem actual, seja ele poeta ou não. Mas é no poeta que melhor pode cumprir-se essa trágica, mas também benéfica, realidade. O poeta insurge-se contra o mundo e contra si próprio: ele é o mundo em mutação. Um pouco à semelhança de um Deus desconhecido, ele é também o representante da humanidade inteira.

No caso de um autor como Fernando Henrique de Passos, matemático e homem de ciência, podemos dizer que esse processo dramático se manifesta na sua trágica plenitude. E ainda bem que assim é. Caso contrário, os seus poemas deixariam de possuir o alcance universal que a palavra poética exige. Dizemos isto a propósito da publicação do livro intitulado Horas de Trevas, Horas de Luz (Registos de uma depressão intermitente). Tal como o próprio título nos indica, trata-se do registo pessoal de uma experiência particular, que não deixa de denunciar, talvez sem disso se dar conta, essa dramática continuidade entre o espírito dionisíaco e o espírito apolíneo. Verifica-se neste livro o anúncio da transição de um estádio no qual domina a obscuridade crepuscular, para outro, no qual domina a luminosidade auroral. À semelhança dos eflúvios de Baco e da luz de Apolo, também estes dois estádios se completam, numa espécie de permuta metafísica, apesar da sua aparente oposição. Estes dois rostos da condição humana nem por isso deixam de pertencer ao mesmo corpo material, tal como as faces de uma moeda qualquer.

Se a depressão psicológica parece ser (é-o, de facto) um dos aspectos motivadores desta poesia, também a lucidez, aliada ao rigor da palavra (rigor que o sujeito poético do autor bebe directamente da sua formação objectiva), se nos afigura ser um elemento imprescindível para a sua compreensão. Desde há muito, reconhecemos na poesia de Fernando Henrique de Passos uma expressão rigorosamente pensada (quase fria), aliada, porém, a um cálido e intenso lirismo. Esta aparente contradição conduz-nos a uma personalidade que jamais dispensou um exemplar complemento humanístico à sua formação científica, veiculado pela vertente literária. Não é de todo invulgar encontrarmos personalidades que se dedicam à criação poética no seio da actividade científica. O que talvez não se afigure tão vulgar na poesia de Fernando Henrique de Passos seja, não apenas o seu profundo lirismo e o seu vigilante sentido prosódico, mas também a sua personalidade complexa que o leva a contemplar o universo a partir de uma perspectiva tão particular e tão pouco usual em relação ao homem comum. Se esta poesia possui um atributo peculiar, esse atributo reside justamente no modo como o sujeito poético expressa o seu modo de ver e de compreender o real no seu despojamento e na sua desmedida verdade.

Este livro de Fernando Henrique de Passos, para além da dimensão marcadamente lírica que possui, afigura-se-nos também como o testemunho de uma experiência interior, circunstância que lhe confere também uma dimensão simultaneamente dramática e confessional. A dimensão dramática, ou teatral, reside no próprio dinamismo vocabular de cada poema. Dir-se-ia que o sujeito poético, ao colocar-se na primeira pessoa, está a tentar dialogar com o hipotético leitor; dá-se ainda o caso de o sujeito poético do autor se dirigir a um «tu», o qual talvez seja o leitor ideal, o seu mais imediato confessor. Por outro lado, esse tom confessional que aqui se encontra serve para acentuar a dimensão dramática deste livro. Essa criança que caminha, perdida no deserto, e que interroga a esfinge, no segundo prólogo deste livro, é a criança que reside no sujeito poético; mas ela representa também a humanidade inteira, essa humanidade sofredora que se submete ao mistério da vida sem que jamais o possa desvendar. Confirma-se aqui o humanismo desta poesia, a qual nos dá notícia de um profundo combate contra a obscuridade. O sujeito poético do autor mergulha incondicionalmente até ao fundo do poço para depois se levantar e erguer a cabeça para a luz acolhedora. Ele assume-se como um cavaleiro andante que combate as trevas de modo a que estas o não dominem. Não deixa de ser significativo o poema intitulado «Impressões colhidas num bar», o qual se nos afigura como o mergulho num pesadelo insuportável. Há nele a descrição de uma realidade simultaneamente real e virtual; é um espaço preenchido pela angústia e pela vertigem dionisíaca; por esse motivo exerce sobre o leitor um efeito semelhante ao da atracção pelo abismo.

Para além desse combate constante contra as trevas, o qual representa a vertente dionisíaca deste livro, o sujeito poético revela-nos ainda um outro conflito não menos significativo: o conflito com a matéria. Esta faz parte das trevas, mas também sobrevive na luminosidade apolínea; de aí o seu duplo perigo. A matéria representa o culminar de uma prisão eterna; ela é a pena que todos os homens têm de cumprir, independentemente da sua raça, nacionalidade ou condição social. Basta, para isso, que estejam vivos.

Para concluirmos esta breve reflexão em torno do livro de Fernando Henrique de Passos, resta-nos considerar que o sujeito poético manifesta a preocupação de ascender a uma totalidade, ou, pelo menos, a uma forma particular dessa totalidade. No poema intitulado «Em busca de uma teoria do Tudo», para além de deixar transparecer a preparação científica do autor, e para além de ser um dos poemas mais longos deste livro, é aquele que mais directamente revela o registo de uma discursividade de carácter teatral.  Uma vez mais é o problema da materialidade do real que é posto em causa. A ênfase dramática é dada através do registo coloquial; é dada através do grito, esse grito, por vezes surdo, que está presente em todos os poemas deste livro.

Na poesia de Fernando Henrique de Passos, o leitor desce ao fundo do abismo, mas também lhe acontece subir ao cume da montanha mais alta. É assim que se desenrola esta «depressão intermitente»: entre a luz e as trevas; entre o dionisíaco e o apolíneo; entre o sonho e o pesadelo; entre a saudade de um tempo passado e aquilo que resta dele. Este livro não se limita a ser apenas um livro de poesia. É também um testemunho impressionante acerca do papel da condição humana na sua relação com o mal. O que fica para além das palavras é a própria esperança, talvez o sentimento mais útil e urgente que nos é dado sentir na hora presente

7 de Outubro de 2001

José Fernando Tavares

Fonte: José Fernando Tavares, «Prefácio» in Fernando Henrique de Passos, Horas de Trevas Horas de Luz, Universitária Editora, Lisboa, 2003; Internet, www.harmoniadomundo.net (9/2/2009).

 

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«PASSEIO  PREAMBULAR»  

“Ciência sem consciência não é senão a ruína da alma.”

François Rabelais

 

I

 

Certamente, Teresa Ferrer Passos e Fernando Henrique de Passos, de há muito firmados e afirmados no firmamento da Poesia, a mesma professam como lema e filosofema, eu digo uma paixão. Embora o Autor destas linhas não seja, de modo formal, um racionalista, muito embora os Autores de Retábulo: I − Odes para um Novo Presépio; II − Oráculo em Torno de Mistérios, outrossim, sintam e saibam o sentimento como tónus, uma verdade nós retemos da hegelina dialéctica: os três móveis ou motrizes do Espírito Absoluto, no homem, são, precisamente, a Arte, a Religião, e a Sophia ou Filosofia. A miúdo ou amiúde, estas actividades se encontram, na cultura dos povos, interligadas e mescladas: o poema pode valer como a parábola do culto e a filosofia, finalmente, como exercício e ofício poéticos.

Cantando e encantando, além disso, pode o artista, como é, aqui, o caso, realizar um surto ou uma sorte de exorcismo. Com este último conceito ou conceição, forçoso será dizê-lo: nós estamos bem na plaga de Fernando Henrique de Passos; não longe da praia, também, onde se coloca e desloca a Teresa Ferrer Passos. O primeiro, destarte e na arte, ensina e proclama: «Tenho que dar a forma de poesia / A um exorcismo muito especial, / Capaz de erradicar de vez este meu mal, / Esta angústia existencial (…)»

Na estância ou substância dramática (e de jogo de espelhos, de fantasmas e de sombras se trata, sobremaneira, esta obra ou esta ópera), Teresa Ferrer Passos sabe a espera e a esperança do deserto: pelo deserto passará, então, o lídimo e legítimo criador. Os Autores deste Retábulo, sabem, melhor do que ninguém, que o sofrimento é a escola do poeta e do profeta, ou melhor, que o alado e disseminado cruzado aceita e pratica a cruz do crisol.

A paixão e compaixão só podem resultar quando a dolência do “frater” surge, na Sorte, a par da nossa dor: tal o princípio de uma doutrina que pede a misericórdia e refuta o sacrifício, que é como quem diz, afinal: de acordo com a mensagem cristiana, quanto mais mísero ou miserável for o ser humano, tanto mais carinhosa, caroável, cordial, será, para com ele, a nossa atitude... Só laborando nessa lavra se tornará, o nosso Poeta, o tão clamado e proclamado Pastor do Ser; só percorrendo as parábolas da vida poderá, o mesmo Poeta, matar a fome do Eterno com o pão e a Palavra da mesma Eternidade.

Em que ficamos, então, e no que ponderamos? Qual a estação, eu digo o estado, de Fernando Henrique de Passos e Teresa Ferrer Passos? Eles movem-se e comovem-se, acima de tudo, com os pés e as raízes fincados na terra; as asas e as flores, fitando a imensidão e prontas para o voo. E saibamos e professemos a ciência etimológica: os companheiros da mesma companha, ou seja, aqueles que se agraciam com o dom da companhia, são aqueles que partem e repartem o pão do mesmo espírito.

É tal o condão, ou tal a condição, do livro que tu tens, amigo leitor, ante os olhos atentos e estrénuos: e nós pensamos que, muito acima do patrão e património, valoriza e simboliza, este casal, o coração do matrimónio. Quem partilha, outrossim, o mesmo nome, partilha o mesmo Verbo e declara o mesmo Nume: por muito que lhes pese a solidão, a solitude, e a falta de solidez das humanas vocações, Teresa Ferrer Passos e Fernando Henrique de Passos, doravante, não estão sós; estão, isso sim, com todos os homens e mulheres que prezam e praticam estas três ovantes cousas: Fraternidade, Igualdade, a sempiterna Liberdade.

 

 

II

 

Livres pensadores, afinal, Teresa Ferrer Passos e Fernando Henrique de Passos. Pesando e ponderando, por isso mesmo, os teoremas, teses e problemas, os Autores deste “liber”, em busca do teor ou Teoria, proferem, eu digo preferem, a Liberdade à Autoridade: ou diríamos, talvez, que a Liberdade e a Lira são próprias da “polis”; - Autoridade, iniquidade, são próprias da polícia. Em filosóficos valores, fundir e confundir o Deus do Amor e mansidão com o despótico, iracundo e velho Jeová, é lema não seguido, nem preferido, pela moderna Poesia portuguesa.

Esta fusão, ou confusão, entre as autoridades da Terra e os mandantes do céu foi tema prepotente e decorrente na nossa infância, situada, historicamente, no português salazarismo. No extremo oposto dessa prisão, ou superstição, Fernando Henrique de Passos, que é nosso irmano e coetâneo, lobriga e descobre o Cristo Rei «coberto de alto a baixo de publicidade», ou melhor, descobre e castiga uma cidade em que, apesar do cristianismo oficial, a figura do Grande Mestre é vendida, ou traída, «por trinta dinheiros, por trinta tostões(…)»

Ora o que ensina e doutrina este livro, não obstante a guerra, a injustiça, e a provação da privação, é que tu deves, amigo leitor, tornar a Cristo «do mundo inteiro» e verdadeiro, mesmo com polícias e a despeito das sevícias, «mesmo com as lágrimas de todo o teu sofrimento!» Doutrina e ensina, por vocábulos outros, o que já Aristóteles divisara e pressentira: o destino do ser humano é disseminar e atear uma chama, mas essa flama, alfim, foi criada por um deus.

É tempo, agora, de uma breve, de uma leve conclusão: nos dias gloriosos do longínquo porvir, a serpente mercurial não poderá, não se irá degenerar – no cifrão comercial. Matar humano ser porque ele não acredita num divo ou no divino da nossa dilecção será considerado, para sempre, falaciosa erronia dos séculos passados. Porque é do avito, ou do arcaico, que ripostam as armas. São da resposta, do real e do Retábulo, se nos Deus agraciar, as matinas e manhãs, ou melhor, os cantantes amanhãs.

 

Lisboa, 3/ 10/ 2001

                                                                                                                            Paulo  Brito e  Abreu 

                                           

Fonte: Paulo Brito e Abreu, «Prefácio» intitulado «Passeio Preambular», in Fernando Henrique de Passos e Teresa Ferrer Passos, Retábulo, Universitária Editora, 2002; Internet, www.harmoniadomundo.net (9/2/2009).

 

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«ACERCA DE ÁLBUM DE AMOR»

 

 

«Conheci-os há anos, pela mão amiga de Victor de Sá. Desde logo me surpreendeu o olhar enternecido de ambos a sugerir um postal, desses que nossos avós guardavam num álbum.

 

Amantes de um tempo sem espaço até à morte que mata e ressuscita, dependem um do outro, indivisíveis, eternamente unos – figuras de um romance vivo, de carne e osso onde eles, os amantes, alheios ao mundo que os rodeia, constroem o seu casulo de felicidade.

 

«Cheios de alegria / como já não há» (disse-o, num verso, Fernando Henrique de Passos) avançam, sombra um do outro.

 

Repositório de duas vidas, este livro guarda o insondável se­gredo da paixão.»

  

Monte Estoril, 15.IX.97 

Carlos Carranca

 

 

Fonte: Carlos Carranca, «Apresentação» in Fernando Henrique de Passos e Teresa Ferrer Passos, Álbum de Amor, Universitária Editora, Lisboa, 1998; Internet, www.harmoniadomundo.net (9/2/2009).

 

 

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UM ZIGOTO POÉTICO

 

         (...) «Num zigoto poético, «Este livro é nós os dois, / Soma da nossa alegria», se fecha um mundo de sonhos, de encantamentos, de prazeres e de alegrias, onde o tempo se constrói e se consome no espaço exíguo de uma ilha sem limites, paraíso perdido recuperado na inocência e na nudez da verdade, em comunhão com Deus. Felicidade transbordante que reclama a letra da imprensa, para ser partilhada: «Há um excesso de vida neste vento. / Todas as coisas que me vão no pensamento / Se transformam em imagens deformadas / Numa vertigem louca a ser sopradas / Contra o débil corpo que é meu e cambaleia / Por entre a fúria dos turbilhões de areia», ao que, no jeito da desgarrada, outra voz responde: «Pelas horas incertas do teu relógio de fogo, / Crescem sentidos, sentimentos, sensuais, / Ardentes».

     Na concepção dos autores, que o mesmo é dizer na sua intenção, não há sacralização, nem profanação, na sua poesia. Uma relação dialéctica entre transcendência e imanência anula a oposição entre esses dois polos, incorporando-os no debuxo da Criação, onde todas as expressões do amor, da sensualidade à alma, anulam a dicotomia pecado-santidade. Este manuseamento dos conteúdos emancipa os poemas do «suspirar» romântico e do foro estritamente materialista. Por aqui, assoma uma frescura numa poética de encantamentos.

     E nesta perspectiva de convergência, se devem ler os arrebatamentos do corpo: «A alegria dos corpos enlaçados», «os beijos escaldantes», «Sonho com o teu corpo aberto / Aos meus impulsos viris», «O que eu quero, oh minha bela, / É o que tu sabes dar», «A celebração carnal / Do nosso amor, que é tão casto / Que os anjos nos vêm ver», «As minhas mãos febris / Nas tuas costas nuas», «Os nossos corpos húmidos», «E Cristo aqui presente», «Quando, enfim, te trespasso, / E tu te tornas lume (…) / Então Cristo abre os braços / E enche-nos de paz…», «Arde a fogueira / Dos nossos corpos», «As chamas que me consomem / E me lembram sem cessar / Que és mulher e eu sou homem…». Na mesma montagem, a voz de Teresa: «feitiço da tua pele suave», «sensação funda», «Pelas horas incertas do teu relógio de fogo, / crescem sentidos, sentimentos, sensuais / Ardentes», «Quero-te sólida e frágil maravilha do mundo, / A devorar-me, voraz», «E os meus lábios, trilhando-se nas alturas, / baixam à vulnerável montanha do teu corpo…».

         Este realismo sensual não é incompatível com a presença divina: «Do alto, a luz / Que vem de Jesus», «O nosso destino / É agora o Céu», «Graças a Deus, / Estás a meu lado», «Vieste do céu / Trouxe-te Jesus / Vieste da paz / Do sol e da luz», «Queríamos a morada da luz transparente, / De sinal divino», «E nos nossos corpos acende-se uma luz… não é / Uma luz qualquer… é a luz do espírito a subir no nosso corpo!», «Há junquilhos também, desfolhados por anjos», «é um Deus piedoso / ante a rouquidão da voz».

         Neste barro de sopro divino, Fernando Henrique de Passos, homem das ciências, com maior inclinação para a objectividade na expressão poética, onde a física está presente, recorre ainda a uma roupagem romântica de ouvido: a amada é princesa, inspiração, fada, luz, pássaro azul, encanto, protectora, ilha. Teresa Ferrer Passos, mulher das letras, para a sua expressão procura os caminhos da metáfora e da alegoria, sem extinguir, no entanto, o incêndio dos corpos. Em ambos, para além do amor há o amor. É o espaço que eles reclamam para a sua poesia, sem outras ambições declaradas: «continuarei a caminhada, / Guiado apenas pela luz da minha amada», «A amar vivendo e a amar escrevendo».

Pedrouços, 17 de Abril de 2004

Joaquim Matos*

* Poeta e Crítico Literário (fundador do jornal Letras e Letras, extinto em 1997).

Fonte: Joaquim Matos, «Prefácio» in Fernando Henrique de Passos e Teresa Ferrer Passos, Novo Álbum de Amor, Universitária Editora, 2005; Internet, www.harmoniadomundo.net (9/2/2009).

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CIÊNCIA EM PORTUGAL, HOJE

  

 

Disse um dia o poeta e filósofo Antero de Quental que a Europa «subiu sobretudo pela ciência», enquanto Portugal, pela sua ausência, desceu, foi-se degradando, acabou por se reduzir a especulações filosóficas, melhor dizendo, a especulações teológicas ou teosóficas. Mergulhados numa religiosidade mais imbuída de paganismo do que de espírito cristão, não superámos as consequências nefastas que, em pleno século do experiencialismo sofremos, devido à influência predominante do ensino jesuítico. Este aliado ao isolacionismo e aos métodos da escolástica fez-nos soçobrar, quando a Europa Central e do Norte aproveitavam as descobertas práticas dos navegadores  e, com eles, dos astrónomos, dos matemáticos e dos geólogos portugueses.

A culminar, o impulso dado pela Inquisição, desde 1540, provocou o descalabro de todos os edifícios científicos que se podiam ter elevado aqui, sem dúvida, com prioridade sobre as outras nações (pelos capitais e saber oriundos dos Novos Mundos). A decadência da ciência no Portugal de Quinhentos não teve como corolário uma expansão cíclica, como gostaria de dizer Spengler. O que se verifica é uma endémica «apagada e vil tristeza» castradora das nossas possibilidades.

E nem sequer as novas condições de comunicabilidade entre povos, instituições e ideologias em que o mundo contemporâneo se revê imprimiram características de criatividade à ciência feita em Portugal. Todos os anos é atribuído um Prémio Nobel da Química, da Física, da Economia e da Medicina. Nós continuamos, há décadas, com um único Prémio Nobel: Egas Moniz. Esta excepção confirma a regra.

Os factores referidos no ponto anterior resultam de uma mentalidade consolidada ao longo dos anos. Não é fácil alterá-la. Mas desejar é já possuir. Urge mudar. E  porque as estruturas mentais levam longo tempo a ser desmoronadas, urge sermos rápidos. Há que pensar em termos de revolução, porque não pode deixar de ser uma revolução. E começá-la implica vencer o espírito jesuítico, presente ainda na importância concedida ao saber livresco, ao comentarismo de raiz aristotélica, ao eruditismo em que há o uso e abuso do autor estrangeiro.

Vive-se o gosto da mediania, prolifera o sentimento da inveja, viceja o interesse por traduzir a obra científica alheia em substituição da elaboração autóctone. Cultiva-se a ciência nas nossas universidades como se o seu objectivo maior fosse a transmissão de conhecimentos, ou seja, a formação de quadros docentes. É desprezado o estudo metódico com vista às grandes sistematizações e à conquista de novas contribuições decisivas para o avanço da ciência contemporâ­nea.   

Há, em Portugal, todo um mecenetarismo não ultrapassado pelo espírito de ganhar mais, isto é, de pôr o capital ao serviço da ciência, não em função exclusiva da ciência, mas da aquisição de novos lucros. A ciência pela ciência ainda não faz sentido em Portugal, como o faz em outros países, designadamente da Europa. As limitações postas ao labor científico são muitas. Para exemplificar, lembremos os prazos impostos para a apresentação de teses de doutoramento ou afins pós-doutoramentos...

Erguem-se, assim, barreiras psicológicas desmotivantes para os estudiosos das ciências exactas. Igualmente, é  nefasta a divulgação de um espírito que se opõe à importância da competitividade. A ver­dade é que as sociedades em que esta existe, e é estimulada, são as mais agressivas no plano da ciência como noutros campos da cultura.

Uma elite especializada em que cada elemento procure dar o melhor de si –  na área da ciência  que cultiva – é indispensável ao progresso e mais do que ao progresso, ao vanguardismo inovador. Professores com pesadas cargas horárias de aulas, nas  quais prevalece o critério da transmissão de conhecimentos, sem a novidade implícita  da participação discente, nada podem acrescentar de verdadeiramente equiparável ao que se realiza no estrangeiro.

A universidade portuguesa não deve continuar alheada do NOVO que é o trabalho fulcral das universidades dos países desenvolvidos, não apenas do ponto de vista económico, mas principalmente no que toca à cultura, nas suas diversificadas vertentes. Os tempos medievos já estão bem distantes para que a ciência não se liberte de condicionalismos de prestígio social ou financeiro. O Colégio Universitário de Dublin, a Universidade de Princeton, a Universidade de Cambridge são apenas alguns exemplos de como a competição entre os melhores tem a vantagem de provocar o aparecimento de uma  vanguarda nos caminhos fascinantes da ciência contemporânea.

Estas breves palavras apenas pretenderam ser uma contribuição para traçar alguns dos factores em que se atola a ciência em Portugal, apesar de haver sinais de que algo está para acontecer com as novas gerações de cientistas portugueses. A título de curiosidade, publica-se, seguidamente, um texto escrito há alguns anos por um aluno da Faculdade de Ciências de Lisboa que, apesar de se inserir num estilo pedagógico virado para a repetitiva citação dos autores estrangeiros, nos dá uma visão personalizada e, ao mesmo tempo, sintetizadora, da FÍSICA ANTES DE GALILEU.  Aos que gostam de conhecer os primórdios da  Física Quântica e aos candidatos à investigação científica este é um exemplo a reter.

 

Teresa Ferrer*

 

* Ortónimo de Teresa Ferrer Passos.

 

FONTE: «Introdução» in Fernando Henrique de Passos, A Física antes de Galileu, Gazeta de Poesia, Col. Labirinto, nº5, 1995; Internet, www.harmoniadomundo.net (13/9/2008).

 

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