POESIA
FÁTIMA PASSOS
Fátima Passos nasceu, em Viana do Castelo, a 13 de Abril de 1941. Vindo para Lisboa, após o curso liceal em Viana do Castelo, frequentou a Faculdade de Letras, concluindo a Licenciatura em Filologia Românica. Foi docente de Português em vários Liceus de Lisboa e arredores. Em 1995, deu à estampa o livro A Cidade, com Introdução da sua colega no liceu Rainha D. Leonor e romancista Lídia Jorge, com capa e ilustrações do Pintor Pedro Zamith. Trata-se de um livro de prosa poética em que se faz uma análise crítica da sociedade de consumo (Edições da revista Gazeta de Poesia). No mesmo ano, publicou Portucale, em que reuniu alguns dos seus mais belos poemas. Em 1997, surge Era Uma Vez Um Planeta Azul, um livro em que a poesia e a prosa poética contracenam num jogo admirável (publicados também pela revista acima referida). Tem também colaboração poética dispersa na revista Cadernos Vianenses editada pela Câmara Municipal de Viana do Castelo. É o caso de "Viana da Foz do Lima" (colectânea de poemas), Cadernos Vianenses, Tomo 27, ed. Câm. Munic. de Viana do Castelo, Viana do Castelo, 2000. Na antologia Diante do Presépio (Ed. Rei dos Livros, Lisboa, 2001) reuniu poesia de trinta autores (sobre o tema do Natal). À Expo 98 - Tudo o que Passa e Nunca Passa (Ed. Rei dos Livros, Lisboa, 2000) dedicou algumas páginas que sintetizam o que significou aquele evento na cidade de Lisboa. Na sua última publicação, surge um género literário a que ainda não se tinha dedicado: o conto. Trata-se de Recortes - tantas histórias por contar... (Multinova, Lisboa, 2004). Com carácter memorialístico, estes contos representam, sobretudo, uma homenagem às figuras que povoaram a sua adolescência e juventude, passadas entre as gentes de Viana do Castelo. Fez também uma tradução do livro O Mistério do Natal da autoria da filósofa alemã Edith Stein (Ed. Rei dos Livros, Lisboa, 2001). Nos últimos anos, Fátima Passos tem-se dedicado também à pintura, sobretudo à técnica da aguarela, tendo já apresentado os seus quadros em algumas exposições.
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POESIAS E PROSAS DA AUTORA: EXCERTOS DE OBRAS PUBLICADAS: |
BREVES PALAVRAS SOBRE A OBRA: Lídia Jorge: Teresa Ferrer Passos / Teresa Bernardino:
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POESIAS E PROSAS DA AUTORA
MAIO I
Cresceram os trigos as aveias e os fenos
Cabeleiras verdes ondeando
Na luz intensa que cai pesada e nua
MAIO II
Sem lei e sem limite
Florescem nos caminhos
As margaridas brancas
Os pampilhos de ouro
E as frágeis papoilas cor de fogo
Infalível Maio escorre sobre a terra
As intensas tintas da paleta.
AS ÁRVORES DO SUL
As árvores do Sul deixam tombar
Os seus braços sobre a terra
Na vertigem do sol implacável
Alfarrobeiras densas de folhagem
Figueiras despojadas na espera
Só as amendoeiras firmes se levantam
E florescem mal os dias crescem
Pincelando de branco e rosa desbotado
O campo a serra
Em frente ao mar palpitante
Extasiado.
PRIMAVERA
Estão de volta os pássaros
É tudo o que me falta
Quando se apaga a luz da Primavera.
ALOENDRO
Branca é a flor do aloendro
Que liberta na manhã de sol
Seu aroma doce de baunilha
Todos os insectos nela se detêm
E até as borboletas brancas
Confundem suas asas
Com tantas pétalas diáfanas
Não se pode colher pois logo murcha
Tem de bastar-nos olhar
Os enormes tufos brancos
Ao longo da estrada
Por onde seguimos nossa viagem.
29 de Julho de 2004
FRÉSIAS
As frésias brancas
Trazem a notícia da Primavera que desperta
Na delicadeza dos caules floridos
E no perfume tão leve como asa
22 de Fevereiro de 2005
CAMÉLIAS
Nos verdes exuberantes dos caminhos
Em jardins antigos e desertos
No silêncio de parques solitários
Assinalam a majestade dos lugares
Estendendo as folhas lisas com seus brilhos de espelho
E as corolas brancas intensas e altivas.
30 de Abril de 2006
MAGNÓLIAS
As magnólias têm a nobreza
Dos parques que habitam
Suas folhas duras e brilhantes
Sustêm as colunas do sol do meio dia.
Crescem alargando copas
Estendendo braços
E surpreendem-nos pela invulgar
Beleza de suas enormes flores brancas
Altivas e aéreas como garças.
21 de Fevereiro de 2005
ANDORINHAS
Tecem os ninhos com saber exacto
E rasgam em alvoroço o silêncio da manhã
Chegam cedo e cedo partem
Buscam os beirais onde se acolhem
Nesse ritmo certo de quem sabe
Os meses os dias as horas os lugares
Os tempos de partida e de chegada
E as pausas vibrantes da alegria.
Elas são as sentinelas das vivendas brancas
Do outro lado da serra frente ao mar.
PÁSSAROS
DANÇAM OS PÁSSAROS NOS SECRETOS CAMPOS DE ABANDONO.
LIBERDADE TÃO INTEIRA E INSUSPEITA
DE VIVER SEM TEMPOS E SEM GRADES.
DEZEMBRO
FLUTUAVAM JÁ AS COPAS DE TÍLIAS E PLÁTANOS
O VENTO ARREBATOU AS SUAS FOLHAS
E VOARAM BREVES TÃO LEVES COMO ASAS.
SÓ OS ÚLTIMOS PÁSSAROS FICARAM
SUSPENSOS NESSES TRONCOS NUS SEM CABELEIRAS
ESQUECIDOS DE SEUS CAMPOS E SEUS VOOS.
VOLTAM OS PÁSSAROS
VOLTAM OS PÁSSAROS
RASGAM AS MADRUGADAS COM SEUS CANTOS
E SEUS VOOS
CALAM-SE DEPOIS NO ACONCHEGO DE SEUS NINHOS.
NÃO ASSIM OS HOMENS. NÃO ASSIM.
GRISALHO-ME POR DENTRO.
É O LUTO QUE FAÇO PELA MORTE
INVENTADA
PARA QUE OS NOSSOS FILHOS
NEM CHEGUEM A SER CRIAS.
No Silêncio dos Dias
CAMINHADA
Corríamos pelos caminhos em flor
Por entre a urze a murta e o tomilho
Ao longe os pinhais nos atraíam
Com seus silêncios e voz
De búzio antigo.
Estaria perto o mar
Mas não sabíamos
Que em qualquer lanço do caminho
Onde até os lírios brancos floresciam
Poderiam roubar-nos a alegria.
O NENÚFAR BRANCO
O nenúfar branco era a mais bela flor
Do lago do jardim de Lou Lim Ioc
Quem por ali passava debruçava-se
Sobre tão singular beleza
Mas ninguém suspeitou
Que por amor pudesse alguém
Ir lá colhê-lo e destroçá-lo.
EVOCAÇÃO
a minha Mãe
Este dia traz-me as linhas do teu rosto
A doçura dos teus gestos
O abandono das tuas mãos nas minhas
E esse confiante e sereno olhar de espera.
Eras já o ícone de ti própria
Porque tinhas atingido o ponto de partida
E tudo o que tu eras estava entregue
Com amor e paciência
A quem por ti passou no longo
Percurso dos teus dias.
Por isso eras assim moldada
Em beleza rara
Reflexo discreto mas inteiro
Dessa luz interior que te guiara.
ENCRUZILHADA
Hei-de sentar-me em todas as esplanadas
No centro das praças
E nas encruzilhadas
Hei-de ver passar tudo o que passa
O cabeça rapada o dos piercings nas orelhas
O dos cabelos enrolados como teia
A menina ousada e desgrenhada.
Hei-de ver passar tudo o que passa
Hei-de sondar o fundo dos seus olhos de alvorada
No receio de chegar a meio
E não encontrar realmente nada.
Porque é fácil viver de imagens feitas
Seguir modelos de original vacuidade.
Escavar o nosso poço onde no fundo
Jorra a limpidez do ser
É tarefa inteira e cansativa
Que nem todos têm ousado empreender.
OS SOLDADOS DA PAZ
Homenagem aos BOMBEIROS
que morreram em Mortágua,
em 28 de Fevereiro de 2005.
Ninguém ouviu os seus gritos de socorro
Esses brados incontidos de desespero e horror
O fogo os abraçou e consumiu com violência
Como se fossem apenas árvores
Ramos secos pouca coisa enfim
Que se pudesse ignorar.
Morreram na voragem
Que o vento atiçou sem clemência
Na surdez e cegueira de uma força
Incontrolável e demente.
Seus corpos agonizaram no centro da floresta
No silêncio dorido da traição
Eles que eram disponibilidade e entrega
Renúncia calada
E abnegação discreta.
Mas elevaram-se no fumo como anjos
Para que a vida vencesse
A maldição do desastre
E a febril dança do fogo
Desafiando o sol.
KING'S CROSS
7 de Julho de 2005
Tão sempre o mesmo este percurso matinal
Depois do chá com leite do earl grey
Ou do sumo de laranja
O Metro nos aguarda e nos transporta
Em soturnos obscuros corredores
Teia de toupeira bem traçada e orientada.
Em cada estação sabíamos o horário
O destino todo certo
Líamos — até sentados e calados — para agarrar
O tempo que desliza — tanta é a lida
E tanto sonho ainda por cumprir
Tanta vida ainda por viver.
Mas alguém na mente compacta concebe
Uma ideia de vertigem
Um destino de missão contra a rotina
A ordem a lei que se ajustava
A este quotidiano acerto de vontades.
Ilumina-se King's Cross em súbita traição
Não é a paragem habitual
A saída e entrada de quem chega
Ou de quem parte
É delírio de fogo estrépito estilhaço
Vida perdida tão mal amada.
Não teremos mais demora em frescos
Relvados de Green Park
Nem roseirais nem aves citadinas
Nem mais tempo para o sonho
Nem mais fuga aos ritmados dias.
Quem nos programou esta viagem
Esta última partida para onde nem sequer
Sabemos o ponto de chegada?
Mas Alguém nos espera com certeza
Alguém nos aguarda para além
De qualquer além
Para nos cumprir os projectos que tivemos
Ou nem tivemos nesse Não-Tempo
Que nem tão pouco saberíamos sonhar.
NESTE PAÍS COR DE ESMERALDA
Quem poderá proteger-nos
Dos gestos perturbados e doentes
Dos elementos naturais
Em delírio e fúria
Da ameaça de perda
Da suspeita da traição
Invisível e sem nome
Pois neste país cor de esmeralda
Onde o azul do céu é tão profundo e leve
Até o sol perdeu seu brilho
E a luz do ar se tornou cinza.
KATRINA
Tão delicado e musical
O nome que te deram
Como se fosses uma brisa
Um suave aceno de ramagens
Um delicado sopro pela tarde.
Mas tinhas enlouquecido na travessia do oceano
Compuseste toda a tua força
Num ímpeto raivoso de destruição
Desgrenhando e devastando
Esse mundo tão seguro e novo.
O que fizeste de Los Angeles
Agora inundada e perdida
Na escuridão da noite
Ferida no caos desconcertante
Do destroço da ruína da pilhagem.
Porquê Katrina esse delírio
Essa malquerença essa força indomável
Que nenhuma caixa de Pandora saberia conter
Nem todas as fúrias concertadas e
Unidas poderiam imitar.
Tão suave o nome que te deram
Tão delicado tão musical
Sopro sereno vento ameno
Enlouquecido em furacão.
PALÁCIO DA PENA
Perfil de sombra e de neblina
Que segredos escondes nesses véus
Que te desvendam só quando
A luz desaba e te desnuda.
D. FERNANDO DE COBURGO
I
Tinhas o sentido agudo das estrelas
Vieste então colocar o teu castelo
Num dos pontos mais altos desta serra
Para poderes tocar-lhes com os dedos.
II
E do alto contemplaste este país
Vencido por despropósito e cegueira
E da barbárie torpe nos levaste
Por caminhos que nos deram o sentido
Do exacto valor de cada coisa
E da dimensão transcendente da beleza.
PALAVRAS VÃS
Tantas palavras soltas e vendidas
Sem peso sem verdade
Sem medida
Assim o vento leve
Leva a areia
E a sacode contra a rocha
Áspera e dura
Que se desgasta em côncavos refúgios.
Aí nem a manhã se atreve
Com suas asas brancas
Nem o mar largo com seus voos
De gaivota
Apenas o ar morno e corrompido
Pela estagnação das algas já sem vida.
AQUELES QUE GOVERNAM
Aqueles que governam como deuses
Intocáveis em cenáculos blindados
Não sabem a cor branca das searas
Nem o suor dos jardineiros incansáveis
Basta-lhes a ordem que impuseram
O cumprimento exacto das rotinas
A confiança cega em seus
Corruptos assessores
E tudo isto lhes coroa
A repulsiva indiferença.
LÍBANO
A CADA HORA NOS SURPREENDE
O REBATE O ASSALTO A TRAIÇÃO
ENCADEIA-SE O ESPÍRITO A MEMÓRIA
O OLHAR PARA NÃO SABERMOS ONDE
AS MANHÃS DESPERTAM OS CEDROS
DOBRADOS NA VERTIGEM DA TRAGÉDIA.
ANTES O SOPRO ARDENTE DO DESERTO
OU O GESTO RÁPIDO DE UM INVERNO INESPERADO.
E AGORA?
PODERÃO AINDA CRESCER AS PALMEIRAS
E AS CRIANÇAS BRINCAR COM AS TÂMARAS DO CHÃO
E CANAÃ CELEBRARÁ AINDA ALGUMA BODA?
NESTE PERCURSO DE CONTENDA E MALDIÇÃO
QUE IMPORTA JÁ A SUCESSÃO DOS DIAS
A BELEZA SOBRESSALTADA DOS ANFITEATROS
ONDE O ROUCO SOM DAS FÚRIAS EXALTADAS
SE AMPLIA E ESPALHA PELA TERRA
SEM SABEREM COMO CALAR O GRITO
E DEVOLVER O SILÊNCIO INTEIRO
AOS MAGNÍFICOS JARDINS DESENCANTADOS.
PRÉMIO NOBEL
ESTOCOLMO CELEBRA OS SEUS DEUSES
CONSAGRADOS DO ESPANTO DE QUEM SABE
QUE A PAZ QUE NOBEL PRETENDIA
É CADA VEZ MAIS BANDEIA INALCANÇÁVEL.
ASSIM O AMOR
Lindo o amor o abraço a concordância
O aceno ao longe
As mãos dadas quando as palavras faltam.
BREVES EXCERTOS DE OBRAS PUBLICADAS
(...)
«Quando te avistei, já tinhas alcançado um ponto extremo e inacessível. Nem percebi como tinhas podido chegar ali. O menor descuido, milímetros de movimento fariam que resvalasses por aquela escarpa íngreme, naquele abismo sem regresso. Fixavas o Poente como se o Sol pudesse surgir dali. Mas era madrugada e o tom lilás do Nascente propagara-se em todas as direcções. Era uma auréola inteira, um arco de incêndio sem abertura. Só quem conhecesse o sítio saberia orientar-se e distinguir os pontos cardiais. Norte, Sul, Ocidente, Oriente. Eram sinais mínimos para ti que vinhas de um planeta exíguo, onde as regras eram outras. Mas eu conhecia o lugar, e percebi logo a tua desorientação, pois estavas precisamente de costas voltadas para Nascente.
(...)
— Principezinho!
Senti, então, que uma frescura me roçava com destreza os braços nus e que, desta vez, pelo menos, os sons mais musicais − in...in − iriam impressionar como sinal reconhecível o teu ouvido.
Senti que estremeceste.
Então, num impulso, sem hesitar, sem medo de qualquer vertigem, eu também já exposta a atracção do abismo, venci os metros que nos separavam, arrebatei-te nos meus braços e disse:
−Principezinho, Principezinho, o que fazes aqui?
Tu, sorriste, disseste, cheio de enlevo:
−Raposa!
E desatámos a correr, em direcção ao Sol que já nascia.»
Fonte: Fátima Passos, Recortes Tantas histórias por contar..., Editora Rei dos Livros, Lisboa, 2004, pp. 77, 79 e 80.
«Quando foi que perdemos de vista o Vosso rosto,
Senhor?
Quando foi que deixámos de vê-Lo na superfície azul, verde, loira desta terra?
Quando foi que, desatinando, agredimos no rosto os
nossos companheiros de percurso?
Quando foi que, olhando o céu, só vimos escuridão,
e o brilho dos astros deixou de ser sinal, anúncio,
promessa?
Mas Deus estabeleceu a Sua tenda sobre a Terra.
Tomando rosto de Homem, pôs a mesa do Pão, da
Paz e do Perdão.
Com quem repartimos o Pão?
Quando estabeleceremos a Paz?
Como aprenderemos o Perdão?»
Fonte: Fátima Passos, Era uma Vez um Planeta Azul, Edições Gazeta do Mundo de Língua Portuguesa, Colecção Poiesis, nº 3, Lisboa, 1997, pp.53-54.
(...)
«Assim as crianças, espontaneamente, desfilaram nas ruas da cidade, com uma flor na mão e um balão na outra. E proclamaram:
Nós queremos correr
sobre os musgos dos bosques
sobre as areias das praias sem dono
e por entre as urzes dos montes
Queremos brincar com os animais vadios
e ver crescer as florestas densas
Queremos trepar às árvores
e assistir à maturação dos frutos
Queremos ver correr os ribeiros indomados
e surpreender o desabrochar das flores
pelos atalhos
Não queremos mais ser prisioneiros
do betão armado
perdendo a cor e o riso
nestes labirintos cinzentos...
— foi o festival mais belo que aconteceu na cidade!
Fonte: Fátima Passos, A Cidade, Edições Gazeta de Poesia, Colecção Labirinto, nº 6, Lisboa, 1995, pp.47-48.
«MARÍTIMA»
I
O meu país é uma medusa
extasiada às portas do oceano.
Liquefaz-se em azuláceas ondas
Constelações apontam-lhe destinos
E pasmam rochedos mudos de sol
E caravelas embaladas ao gosto
de partir.
O vento de manhã
Há-de afagar-nos cedo
Uma gaivota plana
Depois avança sobre o azul
Será este aceno de ave o sinal
Que esperamos?
II
Promontório sobre o mar azul
De translúcidas paredes
Um sopro fino desmancha
As últimas ondas entretece
Os gestos soltos do silêncio corrupto
Um berço este oceano
Desvendado no mistério denso
Das suas longitudes e profundidades
Brancas as velas retalhando o azul
Asas soltas suspensas
Sobre a tarde
Haveremos de aguardar outras marés
Dom Sebastião não é o único ausente.
(...)
Fonte: Fátima Passos, Portucale, Edições Gazeta de Poesia,1995, Colecção Labirinto, nº7, pp.7-10.
«E, AGORA, UM SALTO À AMÉRICA DO SUL»
«Segue-se o pavilhão do Peru. Aqui tenho a sensação de entrar num mundo que ainda não acedeu aos benefícios da civilização dita ocidental, mas que, por isso mesmo, parece estar isento dos seus malefícios.
Podemos imaginar que estamos na cordilheira dos Andes, vestindo grossas lãs de muita cor e tocamos flauta. Tanto e tal é o artesanato exposto. Enternece o primitivismo das figurinhas de barro e a singeleza dos presépios.
A comunicação é fácil, pois a língua não é obstáculo. Decido comprar um colete em branco cru, uma malha leve para o fresco do Verão. Outros, a meu lado, entusiasmam-se com as flautas. Há quem sopre, em tentativas de atinar com ma melodia qualquer. O som é pastoril e ecoa pelo pavilhão, tantos são os amadores de música de cana.»
(...)
Fonte: Fátima Passos, Expo 98 - Tudo o que Passa e Nunca Passa, Editora Rei dos Livros, Lisboa, 2000, p.34.
BREVES PALAVRAS SOBRE A OBRA
«A PROPÓSITO DA CIDADE OU SOBRE A IDADE DO OURO»
«Fátima Passos mostra toda a consciência dos sentidos que usa em torno do tema mais caro da nossa vida - a sobrevivência do ser, numa cidade envenenada. Diria mesmo que a autora destes vinte poemas deixa transparecer na apreciação que faz deste espaço real das nossas vidas, o conceito mítico que preside à sua construção simbólica mais interna - a de que a cidade é, por si só, a criação da saudade duma natureza isenta de Caim.
(...)
Perante a incomodidade do momento que passa, a autora desta cidade feita de favos, muita obra e tão pouco mel, junta-se a todos aqueles que pensam que o futuro está na salvação das imagens verdes que foram da Terra mítica donde veio a nossa segurança arcaica
(...)
Contra essa corrida que passa primeiro pela desconstrução da Terra, a autora conta, talvez de uma forma demasiado cândida, com o poder regenerador das crianças. A sua clarividência primitiva, o seu desejo de liberdade e a sua ânsia de pura companhia (...)»
Lídia Jorge
Fonte: Introdução in Fátima Passos, A Cidade, Ed. Gazeta de Poesia, Col. Labirinto, nº 6 , Lisboa, 1995
Às águas da memória vai Fátima Passos, a autora de Recortes, retirar as pequenas histórias que compõem este título acabado de ser publicado pela editora Multinova.
As palavras com que tece estas pequenas histórias, foram retiradas do fundo poético da sua alma, sempre a maravilhar-se com a beleza das relações humanas naquilo que elas têm de mais autêntico, de mais puro.
A autora dos livros de poesia Era uma Vez um Planeta Azul e A Cidade regressa à literatura com estes Recortes, não escritos dentro dos cânones da poesia, mas inserindo-se numa prosa eivada de sentimento, de delicadeza e de fascínio pela lembrança.
Essa persistente lembrança daqueles que conviveram com ela, daqueles que deixou de contactar por contingências da vida, daqueles que a seduziram, ora pela sua candura e alegria, ora pela sua ingenuidade, ora ainda pela sua fortaleza de ânimo, ao defrontar os momentos cruéis de uma notícia inesperada.
Já nas obras poéticas anteriores a Recortes, se notava a sensibilidade de Fátima Passos à natureza, com que se identifica, apesar de viver nesta Lisboa cada vez menos com jardins arborizados. Nesta cidade se envolveu desde a sua juventude e aqui ensinou toda a vida, sem contudo, abdicar da saudade da sua pequena cidade, Viana do Castelo. A atestá-lo, o facto de ter ilustrado a capa e contracapa do livro com uma pintura, feita pela própria autora, de uma antiga casa típica desta região do Minho.
Assim exilada na grande cidade devido às circunstâncias, a autora lembra ou relembra a paisagem encantadora que envolvia a sua pequena cidade da infância e da adolescência, como se o tempo não tivesse passado.
Na memória de outrora, a autora traça em rápidas, mas preciosas pinceladas, o perfil de algumas das pessoas que no passado distante ou mais próximo, a marcaram com o estilete da sua ingenuidade e da sua experiência preciosa: «Orientada por Marina, descobri a grandeza de tantos autores, a singularidade de um rosto, a nobreza de um gesto, a superioridade de um subalterno, a original beleza de uma pedra, de uma folha, de uma árvore» (“Marina”). E também realça a sua ruralidade sadia e sábia: «Mas ainda te recordo (…) E há sempre nesses cenários do monte de Santa Luzia que tu situavas as tuas histórias de mouras encantadas» (“Senhor Inácio”); Outras vezes, Fátima Passos oferece-nos o retrato psicológico da personagem: «Tinhas vinte anos, Sofia. E conhecias todas as ausências, todos os laços desfeitos, todas as primaveras interrompidas» (“Sofia”).
Em Recortes, enredadas entre a realidade e a fantasia, surgem mensagens dirigidas a cada uma dessas figuras que passaram anos, semanas, ou simplesmente um dia com a autora, mas que, mesmo assim, nela deixaram um sinal largo ou um incisivo rasto.
Poderíamos, com um pouco mais de arrojo, chamar a estas pequenas histórias, contos de encantar delineados na comoção de uma carta que poderia ter sido enviada em tempos há muito idos ou apenas à distância de meses. Aqui, se a ficção perpassa, a realidade factual é o motivo dinamizador, é o ponto de partida de Fátima Passos.
De facto, não serão estas pequenas narrativas, propriamente cartas, ou propriamente contos, mas são sem dúvida narrativas com o invólucro de uma carta e de um conto de encantar, ao mesmo tempo. O carácter coloquial que alcançam, o diálogo cheio de vivacidade que constroem, impressionam. E tudo decorre num tempo que já não volta mais, que já não é possível agarrar.
A epistolografia pressupõe a presença de um interlocutor, a quem nos temos de dirigir em discurso directo e num dado momento; uma carta é normalmente escrita num diálogo interrompido por poucos dias ou, no máximo, poucas semanas.
No caso de Recortes, podemos considerá-las cartas ficcionais em que podem passar anos até à sua leitura, sem necessária resposta. São «cartas» interrogativas, mas sem exigirem resposta. São «cartas» para reflectir sobre pedacinhos da vida e do mundo. São «cartas» que sugerem ou propõem, recordando apenas, sem nada esperar em troca.
Esse o enigma destas «cartas» imbuídas de toda uma vertente ficcional: são «cartas» para cada leitor pensar, como se fosse para o único leitor, o único receptor. Peguemos em “Dona Cândida”, ou em “Meca” ou em “António Rafael”.
Comecemos também nós a escrever cartas manchadas pela tinta da caneta e pela pausa da palavra feita relação eu-tu. Escrevamos aos familiares, aos amigos próximos ou distantes. Aqui está a sugestão dada pela autora de Recortes para que esse género literário, hoje a perder-se da memória da sociedade, regresse ao nosso convívio.
As mensagens e os blogues internéticos substituíram-nas, com desvantagens maiores do que benefícios reais. De facto, a autora não cultiva tais meios tecnológicos.
Antes, os considera um refúgio pouco natural, fechado sobre si mesmo, ausentes de uma aragem natural e falhos de convívio por onde passe a singeleza dos sentimentos longa e largamente expressos. Um pouco semelhantes ao ar dos pinheiros ou do mar, a um jardim em que a criança sonha correr atrás dos cisnes e as árvores contracenam num fragrância de silêncio calmo.
Recortes revela a esperança da autora naquela magia da vida que o pequenino “António Rafael” simboliza, quando escreve: «Se eu fosse uma nuvem, ficava suspenso no céu azul, olhava para a Terra e via a magia a espalhar-se».
A magia a espalhar-se e a criar o convívio entre caminhos de paz. Assim será, se não esquecermos a palavra viva do diálogo humano.
Teresa Ferrer Passos
Fonte: Suplemento «das Artes das Letras» in O Primeiro de Janeiro, 8 de Novembro de 2004; Cadernos Vianenses, Câmara Municipal de Viana do Castelo, Viana do Castelo, 2005, nº36, pp.245-247; Internet, www.harmoniadomundo.net (15/8/2008).