HARMONIA DO MUNDO

 

 

FÁTIMA PASSOS

Fátima Passos nasceu, em Viana do Castelo, a 13 de Abril de 1941. Vindo para Lisboa, após o curso liceal em Viana do Castelo, frequentou a Faculdade de Letras, concluindo a Licenciatura em Filologia Românica. Foi docente de Português em vários Liceus de Lisboa e arredores. Em 1995, deu à estampa o livro A Cidade, com Introdução da sua colega no liceu Rainha D. Leonor e romancista Lídia Jorge, com capa e ilustrações do Pintor Pedro Zamith. Trata-se de um livro de prosa poética em que se faz uma análise crítica da sociedade de consumo (Edições da revista Gazeta de Poesia). No mesmo ano, publicou Portucale, em que reuniu alguns dos seus mais belos poemas. Em 1997, surge Era Uma Vez Um Planeta Azul, um livro em que a poesia e a prosa poética contracenam num jogo admirável (publicados também pela revista acima referida). Tem também colaboração poética dispersa na revista Cadernos Vianenses editada pela Câmara Municipal de Viana do Castelo. É o caso de "Viana da Foz do Lima" (colectânea de poemas), Cadernos Vianenses, Tomo 27, ed. Câm. Munic. de Viana do Castelo, Viana do Castelo, 2000. Na antologia Diante do Presépio (Ed. Rei dos Livros, Lisboa, 2001) reuniu poesia de trinta autores (sobre o tema do Natal). À Expo 98 - Tudo o que Passa e Nunca Passa  (Ed. Rei dos Livros, Lisboa, 2000) dedicou algumas páginas que sintetizam o que significou aquele evento na cidade de Lisboa. Na sua última publicação, surge um género literário a que ainda não se tinha dedicado: o conto. Trata-se de Recortes - tantas histórias por contar... (Multinova, Lisboa, 2004). Com carácter memorialístico, estes contos representam, sobretudo, uma homenagem às figuras que povoaram a sua adolescência e juventude, passadas entre as gentes de Viana do Castelo.  Fez também uma tradução do livro O Mistério do Natal da autoria da filósofa alemã Edith Stein (Ed. Rei dos Livros, Lisboa, 2001).  Nos últimos anos, Fátima Passos tem-se dedicado também à pintura, sobretudo à técnica da aguarela, tendo já apresentado os seus quadros em algumas exposições.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

POESIAS E PROSAS DA AUTORA

 

 

 

 

 

 

 

POEMAS INÉDITOS

 

 

MAIO I

 

Cresceram os trigos as aveias e os fenos

Cabeleiras verdes ondeando

Na luz intensa que cai pesada e nua

 

 

 

MAIO II

 

Sem lei e sem limite

Florescem nos caminhos

As margaridas brancas

Os pampilhos de ouro

E as frágeis papoilas cor de fogo

 

Infalível Maio escorre sobre a terra

As intensas tintas da paleta.

 

 

 

AS ÁRVORES DO SUL

 

As árvores do Sul deixam tombar

Os seus braços sobre a terra

Na vertigem do sol implacável

Alfarrobeiras densas de folhagem

Figueiras despojadas na espera

Só as amendoeiras firmes se levantam

E florescem mal os dias crescem

Pincelando de branco e rosa desbotado

O campo a serra

Em frente ao mar palpitante

Extasiado.

 

 

 

PRIMAVERA

 

Estão de volta os pássaros

É tudo o que me falta

Quando se apaga a luz da Primavera.

 

 

 

ALOENDRO

 

Branca é a flor do aloendro

Que liberta na manhã de sol

Seu aroma doce de baunilha

 

Todos os insectos nela se detêm

E até as borboletas brancas

Confundem suas asas

Com tantas pétalas diáfanas

 

 

Não se pode colher pois logo murcha

Tem de bastar-nos olhar

Os enormes tufos brancos

Ao longo da estrada

Por onde seguimos nossa viagem.

 

29 de Julho de 2004

 

 

 

FRÉSIAS

 

As frésias brancas

Trazem a notícia da Primavera que desperta

Na delicadeza dos caules floridos

E no perfume tão leve como asa

 

22 de Fevereiro de 2005

 

 

 

CAMÉLIAS

 

Nos verdes exuberantes dos caminhos

Em jardins antigos e desertos

No silêncio de parques solitários

Assinalam a majestade dos lugares

Estendendo as folhas lisas com seus brilhos de espelho

E as corolas brancas intensas e altivas.

 

30 de Abril de 2006

 

 

 

MAGNÓLIAS

 

As magnólias têm a nobreza

Dos parques que habitam

Suas folhas duras e brilhantes

Sustêm as colunas do sol do meio dia.

 

 

Crescem alargando copas

Estendendo braços

E surpreendem-nos pela invulgar

Beleza de suas enormes flores brancas

Altivas e aéreas como garças.

 

21 de Fevereiro de 2005

 

 

 

ANDORINHAS

 

Tecem os ninhos com saber exacto

E rasgam em alvoroço o silêncio da manhã

Chegam cedo e cedo partem

Buscam os beirais onde se acolhem

Nesse ritmo certo de quem sabe

Os meses os dias as horas os lugares

Os tempos de partida e de chegada

E as pausas vibrantes da alegria.

 

 

Elas são as sentinelas das vivendas brancas

Do outro lado da serra frente ao mar.

 

 

PÁSSAROS

 

 

DANÇAM OS PÁSSAROS NOS SECRETOS CAMPOS DE ABANDONO.

LIBERDADE TÃO INTEIRA E INSUSPEITA

DE VIVER SEM TEMPOS E SEM GRADES.

 

 

DEZEMBRO

 

FLUTUAVAM JÁ AS COPAS DE TÍLIAS E PLÁTANOS

O VENTO ARREBATOU AS SUAS FOLHAS

E VOARAM BREVES TÃO LEVES COMO ASAS.

SÓ OS ÚLTIMOS PÁSSAROS FICARAM

SUSPENSOS NESSES TRONCOS NUS SEM CABELEIRAS

ESQUECIDOS DE SEUS CAMPOS E SEUS VOOS.

 

 

VOLTAM OS PÁSSAROS

 

 

VOLTAM OS PÁSSAROS

RASGAM AS MADRUGADAS COM SEUS CANTOS

E SEUS VOOS

CALAM-SE DEPOIS NO ACONCHEGO DE SEUS NINHOS.

 

 

NÃO ASSIM OS HOMENS. NÃO ASSIM.

GRISALHO-ME POR DENTRO.

É O LUTO QUE FAÇO PELA MORTE

INVENTADA

PARA QUE OS NOSSOS FILHOS

NEM CHEGUEM A SER CRIAS.

 

 

 

 

 

 

No Silêncio dos Dias

 

 

 

 

CAMINHADA

 

 

Corríamos pelos caminhos em flor

Por entre a urze a murta e o tomilho

Ao longe os pinhais nos atraíam

Com seus silêncios e voz

De búzio antigo.

 

Estaria perto o mar

Mas não sabíamos

Que em qualquer lanço do caminho

Onde até os lírios brancos floresciam

Poderiam roubar-nos a alegria.

 

 

O NENÚFAR BRANCO

 

O nenúfar branco era a mais bela flor

Do lago do jardim de Lou Lim Ioc

Quem por ali passava debruçava-se

Sobre tão singular beleza

Mas ninguém suspeitou

Que por amor pudesse alguém

Ir lá colhê-lo e destroçá-lo.

 

 

 

EVOCAÇÃO

 

                a minha MÃE

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Este dia traz-me as linhas do teu rosto

A doçura dos teus gestos

O abandono das tuas mãos nas minhas

E esse confiante e sereno olhar de espera.

 

 

Eras já o ícone de ti própria

Porque tinhas atingido o ponto de partida

E tudo o que tu eras estava entregue

Com amor e paciência

A quem por ti passou no longo

Percurso dos teus dias.

 

 

Por isso eras assim moldada

Em beleza rara

Reflexo discreto mas inteiro

Dessa luz interior que te guiara.

 

 

 

ENCRUZILHADA

 

 

Hei-de sentar-me em todas as esplanadas

No centro das praças

E nas encruzilhadas

Hei-de ver passar tudo o que passa

O cabeça rapada o dos piercings nas orelhas

O dos cabelos enrolados como teia

A menina ousada e desgrenhada.

 

 

Hei-de ver passar tudo o que passa

Hei-de sondar o fundo dos seus olhos de alvorada

No receio de chegar a meio

E não encontrar realmente nada.

 

 

Porque é fácil viver de imagens feitas

Seguir modelos de original vacuidade.

 

 

Escavar o nosso poço onde no fundo

Jorra a limpidez do ser

É tarefa inteira e cansativa

Que nem todos têm ousado empreender.

 

 

 

OS SOLDADOS DA PAZ

 

 

                      Homenagem aos BOMBEIROS

                      que morreram em Mortágua,

                      em 28 de Fevereiro de 2005.

 

 

 

 

Ninguém ouviu os seus gritos de socorro

Esses brados incontidos de desespero e horror

O fogo os abraçou e consumiu com violência

Como se fossem apenas árvores

Ramos secos pouca coisa enfim

Que se pudesse ignorar.

Morreram na voragem

Que o vento atiçou sem clemência

Na surdez e cegueira de uma força

Incontrolável e demente.

 

 

Seus corpos agonizaram no centro da floresta

No silêncio dorido da traição

Eles que eram disponibilidade e entrega

Renúncia calada

E abnegação discreta.

 

 

Mas elevaram-se no fumo como anjos

Para que a vida vencesse

A maldição do desastre

E a febril dança do fogo

Desafiando o sol.

 

 

 

KING'S CROSS

 

 

               7 de Julho de 2005

 

 

 

Tão sempre o mesmo este percurso matinal

Depois do chá com leite do earl grey

Ou do sumo de laranja

O Metro nos aguarda e nos transporta

Em soturnos obscuros corredores

Teia de toupeira bem traçada e orientada.

 

 

Em cada estação sabíamos o horário

O destino todo certo

Líamos até sentados e calados para agarrar

O tempo que desliza tanta é a lida

E tanto sonho ainda por cumprir

Tanta vida ainda por viver.

 

 

Mas alguém na mente compacta concebe

Uma ideia de vertigem

Um destino de missão contra a rotina

A ordem a lei que se ajustava

A este quotidiano acerto de vontades.

Ilumina-se King's Cross em súbita traição

Não é a paragem habitual

A saída e entrada de quem chega

Ou de quem parte

É delírio de fogo estrépito estilhaço

Vida perdida tão mal amada.

 

 

Não teremos mais demora em frescos

Relvados de Green Park

Nem roseirais nem aves citadinas

Nem mais tempo para o sonho

Nem mais fuga aos ritmados dias.

 

 

Quem nos programou esta viagem

Esta última partida para onde nem sequer

Sabemos o ponto de chegada?

 

 

Mas Alguém nos espera com certeza

Alguém nos aguarda para além

De qualquer além

Para nos cumprir os projectos que tivemos

Ou nem tivemos nesse Não-Tempo

Que nem tão pouco saberíamos sonhar.

 

 

 

  NESTE PAÍS COR DE ESMERALDA

 

Quem poderá proteger-nos

Dos gestos perturbados e doentes

Dos elementos naturais

Em delírio e fúria

Da ameaça de perda

Da suspeita da traição

Invisível e sem nome

 

 

Pois neste país cor de esmeralda

Onde o azul do céu é tão profundo e leve

Até o sol perdeu seu brilho

E a luz do ar se tornou cinza.

 

 

 

KATRINA

 

 

Tão delicado e musical

O nome que te deram

Como se fosses uma brisa

Um suave aceno de ramagens

Um delicado sopro pela tarde.

 

 

Mas tinhas enlouquecido na travessia do oceano

Compuseste toda a tua força

Num ímpeto raivoso de destruição

Desgrenhando e devastando

Esse mundo tão seguro e novo.

 

 

O que fizeste de Los Angeles

Agora inundada e perdida

Na escuridão da noite

Ferida no caos desconcertante

Do destroço da ruína da pilhagem.

 

 

Porquê Katrina esse delírio

Essa malquerença essa força indomável

Que nenhuma caixa de Pandora saberia conter

Nem todas as fúrias concertadas e

Unidas poderiam imitar.

 

 

Tão suave o nome que te deram

Tão delicado tão musical

Sopro sereno vento ameno

      Enlouquecido em furacão.

 

 

 

PALÁCIO DA PENA

 

 

Perfil de sombra e de neblina

Que segredos escondes nesses véus

Que te desvendam só quando

A luz desaba e te desnuda.

 

 

 

D. FERNANDO DE COBURGO

 

                 I

 

Tinhas o sentido agudo das estrelas

Vieste então colocar o teu castelo

Num dos pontos mais altos desta serra

Para poderes tocar-lhes com os dedos.

 

                 II

 

E do alto contemplaste este país

Vencido por despropósito e cegueira

E da barbárie torpe nos levaste

Por caminhos que nos deram o sentido

Do exacto valor de cada coisa

E da dimensão transcendente da beleza.

 

 

 

PALAVRAS VÃS

 

 

Tantas palavras soltas e vendidas

Sem peso sem verdade

Sem medida

 

 

Assim o vento leve

Leva a areia

E a sacode contra a rocha

Áspera e dura

Que se desgasta em côncavos refúgios.

 

 

Aí nem a manhã se atreve

Com suas asas brancas

Nem o mar largo com seus voos

De gaivota

Apenas o ar morno e corrompido

Pela estagnação das algas já sem vida.

 

 

 

AQUELES QUE GOVERNAM

 

 

Aqueles que governam como deuses

Intocáveis em cenáculos blindados

Não sabem a cor branca das searas

Nem o suor dos jardineiros incansáveis

 

Basta-lhes a ordem que impuseram

O cumprimento exacto das rotinas

A confiança cega em seus

Corruptos assessores

 

E tudo isto lhes coroa

A repulsiva indiferença.

 

 

 

               LÍBANO

 

A CADA HORA NOS SURPREENDE

O REBATE O ASSALTO A TRAIÇÃO

ENCADEIA-SE O ESPÍRITO A MEMÓRIA

O OLHAR PARA NÃO SABERMOS ONDE

AS MANHÃS DESPERTAM OS CEDROS

DOBRADOS NA VERTIGEM DA TRAGÉDIA.

 

ANTES O SOPRO ARDENTE DO DESERTO

OU O GESTO RÁPIDO DE UM INVERNO INESPERADO.

 

 

E AGORA?

PODERÃO AINDA CRESCER AS PALMEIRAS

E AS CRIANÇAS BRINCAR COM AS TÂMARAS DO CHÃO

E CANAÃ CELEBRARÁ AINDA ALGUMA BODA?

 

NESTE PERCURSO DE CONTENDA E MALDIÇÃO

QUE IMPORTA JÁ A SUCESSÃO DOS DIAS

A BELEZA SOBRESSALTADA DOS ANFITEATROS

ONDE O ROUCO SOM DAS FÚRIAS EXALTADAS

SE AMPLIA E ESPALHA PELA TERRA

SEM SABEREM COMO CALAR O GRITO

E DEVOLVER O SILÊNCIO INTEIRO

AOS MAGNÍFICOS JARDINS DESENCANTADOS.

 

 

 

PRÉMIO NOBEL

 

ESTOCOLMO CELEBRA OS SEUS DEUSES

CONSAGRADOS DO ESPANTO DE QUEM SABE

QUE A PAZ QUE NOBEL PRETENDIA

É CADA VEZ MAIS BANDEIA INALCANÇÁVEL.

 

 

ASSIM O AMOR

 

Lindo o amor o abraço a concordância

O aceno ao longe

As mãos dadas quando as palavras faltam.

 

 

topo

 

 

 

 

                          

 

 

 

BREVES  EXCERTOS DE OBRAS PUBLICADAS

 

 

(...)

 

«Quando te avistei, já tinhas alcançado um ponto extremo e inacessível. Nem percebi como tinhas podido chegar ali. O menor descuido, milímetros de movimento fariam que resvalasses por aquela escarpa íngreme, naquele abismo sem regresso. Fixavas o Poente como se o Sol pudesse surgir dali. Mas era madrugada e o tom lilás do Nascente propagara-se em todas as direcções. Era uma auréola inteira, um arco de incêndio sem abertura. Só quem conhecesse o sítio saberia orientar-se e distinguir os pontos cardiais. Norte, Sul, Ocidente, Oriente. Eram sinais mínimos para ti que vinhas de um planeta exíguo, onde as regras eram outras. Mas eu conhecia o lugar, e percebi logo a tua desorientação, pois estavas precisamente de costas voltadas para Nascente.

(...)

Principezinho!

Senti, então, que uma frescura me roçava com destreza os braços nus e que, desta vez, pelo menos, os sons mais musicais in...in iriam impressionar como sinal reconhecível o teu ouvido.

Senti que estremeceste.

Então, num impulso, sem hesitar, sem medo de qualquer vertigem, eu também já exposta a atracção do abismo, venci os metros que nos separavam, arrebatei-te nos meus braços e disse:

Principezinho, Principezinho, o que fazes aqui?

Tu, sorriste, disseste, cheio de enlevo:

Raposa!

E desatámos a correr, em direcção ao Sol que já nascia.»

 

 

Fonte: Fátima Passos, Recortes ­ Tantas histórias por contar..., Editora Rei dos Livros, Lisboa, 2004, pp. 77, 79 e 80.

 

 

topo

 

 

 

                                                  

 

 

(...)

 

«Quando foi que perdemos de vista o Vosso rosto,

Senhor?

 

Quando foi que deixámos de vê-Lo na superfície azul, verde, loira desta terra?

 

Quando foi que, desatinando, agredimos no rosto os

nossos companheiros de percurso?

 

Quando foi que, olhando o céu, só vimos escuridão,

e o brilho dos astros deixou de ser sinal, anúncio,

promessa?

 

Mas Deus estabeleceu a Sua tenda sobre a Terra.

Tomando rosto de Homem, pôs a mesa do Pão, da

Paz e do Perdão.

 

 

 

 

       Com quem repartimos o Pão?

       Quando estabeleceremos a Paz?

       Como aprenderemos o Perdão?»

 

 

Fonte: Fátima Passos, Era uma Vez um Planeta Azul, Edições Gazeta do Mundo de Língua Portuguesa, Colecção Poiesis, nº 3, Lisboa, 1997, pp.53-54.

 

 

topo

 

 

 

 

 

 

 

«O FAVO»

 

 

(...)

 

«Assim as crianças, espontaneamente, desfilaram nas ruas da cidade, com uma flor na mão e um balão na outra. E proclamaram:

 

Nós queremos correr

sobre os musgos dos bosques

sobre as areias das praias sem dono

e por entre as urzes dos montes

 

Queremos brincar com os animais vadios

e ver crescer as florestas densas

 

Queremos trepar às árvores

e assistir à maturação dos frutos

 

Queremos ver correr os ribeiros indomados

e surpreender o desabrochar das flores

pelos atalhos

 

Não queremos mais ser prisioneiros

do betão armado

perdendo a cor e o riso

nestes labirintos cinzentos...

 

 

— foi o festival mais belo que aconteceu na cidade!

 

 

Fonte: Fátima Passos, A Cidade, Edições Gazeta de Poesia, Colecção Labirinto, nº 6, Lisboa, 1995, pp.47-48.

 

 

topo

 

 

 

 

                         

 

 

(...)

 

«MARÍTIMA»

 

 

I

 

O meu país é uma medusa

extasiada às portas do oceano.

Liquefaz-se em azuláceas ondas

Constelações apontam-lhe destinos

E pasmam rochedos mudos de sol

E caravelas embaladas ao gosto

de partir.

 

 

 

O vento de manhã

Há-de afagar-nos cedo

 

Uma gaivota plana

Depois avança sobre o azul

 

 

 

 

Será este aceno de ave o sinal

Que esperamos?

 

 

II

 

Promontório sobre o mar azul

De translúcidas paredes

Um sopro fino desmancha

As últimas ondas entretece

Os gestos soltos do silêncio corrupto

 

 

Um berço este oceano

Desvendado no mistério denso

Das suas longitudes e profundidades

 

 

 

Brancas as velas retalhando o azul

Asas soltas suspensas

Sobre a tarde

 

 

 

Haveremos de aguardar outras marés

Dom Sebastião não é o único ausente.

 

(...)

 

 

Fonte: Fátima Passos, Portucale, Edições Gazeta de Poesia,1995, Colecção Labirinto, nº7, pp.7-10.

 

 

topo

 

 

 

 

 

(...)

 

«E, AGORA, UM SALTO À AMÉRICA DO SUL»

 

«Segue-se o pavilhão do Peru. Aqui tenho a sensação de entrar num mundo que ainda não acedeu aos benefícios da civilização dita ocidental, mas que, por isso mesmo, parece estar isento dos seus malefícios.

Podemos imaginar que estamos na cordilheira dos Andes, vestindo grossas lãs de muita cor e tocamos flauta. Tanto e tal é o artesanato exposto. Enternece o primitivismo das figurinhas de barro e a singeleza dos presépios.

A comunicação é fácil, pois a língua não é obstáculo. Decido comprar um colete em branco cru, uma malha leve para o fresco do Verão. Outros, a meu lado, entusiasmam-se com as flautas. Há quem sopre, em tentativas de atinar com ma melodia qualquer. O som é pastoril e ecoa pelo pavilhão, tantos são os amadores de música de cana.»

 

(...)

 

 

Fonte: Fátima Passos, Expo 98 - Tudo o que Passa e Nunca Passa, Editora Rei dos Livros, Lisboa, 2000, p.34.

 

 

topo

 

 

 

 

            

 

 

 

 

BREVES PALAVRAS SOBRE A OBRA

 

 

                  VIANA  DO CASTELO

 

 

 

 

 

Introdução ao livro A Cidade

«A PROPÓSITO DA CIDADE OU SOBRE A IDADE DO OURO»

      

                                                                                

«Fátima Passos mostra toda a consciência dos sentidos que usa em torno do tema mais caro da nossa vida - a sobrevivência do ser, numa cidade envenenada. Diria mesmo que a autora destes vinte poemas deixa transparecer na apreciação que faz deste espaço real das nossas vidas, o conceito mítico que preside à sua construção simbólica mais interna - a de que a cidade é, por si só, a criação da saudade duma natureza isenta de Caim.

(...)

Perante a incomodidade do momento que passa, a autora desta cidade feita de favos, muita obra e tão pouco mel, junta-se a todos aqueles que pensam que o futuro está na salvação das imagens verdes que foram da Terra mítica donde veio a nossa segurança arcaica

(...)

Contra essa corrida que passa primeiro pela desconstrução da Terra, a autora conta, talvez de uma forma demasiado cândida, com o poder regenerador das crianças. A sua clarividência primitiva, o seu desejo de liberdade e a sua ânsia de pura companhia (...)»

 

 

                                                                                                                                                                Lídia Jorge

 

 

Fonte: Introdução in Fátima Passos, A Cidade, Ed. Gazeta de Poesia, Col. Labirinto, nº 6 , Lisboa, 1995.

 

 

topo

 

 

 

 

 

 

 

PALAVRA FECUNDANTE  E INTERVENÇÃO

  

 

 

 

No princípio era o mundo. E tudo se confundia e tudo se transformava.

A mudança era a alma do universo efervescente de vida e sonho. A eclodir em formas novas ou em informes contornos, o espírito pairava no silêncio que descobria, a cada instante, a novidade.

O silêncio, o espanto, a intervenção – estes os três tempos maiores de um planeta que, visto do espaço, é azul. Era Uma Vez Um Planeta Azul. Assim titula Fátima Passos este livro, que publicou recentemente. Tem apenas cinquenta e quatro páginas, mas encerra nelas toda uma poética da criação, do nada e da vida, da esperança e também do desencanto.

Escrita em prosa, parece às vezes. Escrita em verso, parece sempre. A autora coloca as duas formas literárias frente a frente, desafiando-se, certamente, e complementando-se, sem dúvida. Colunas muito esguias numa página, confrontam-se com prosa a toda a largura na página seguinte. Estas ainda são, embora raramente, intercaladas com linhas solitárias porque uma ideia se pretende destacar. Trata-se de um processo estético não usual. Contudo, eficaz foi o resultado, pois tornou possível transmitir, através do aspecto gráfico, o próprio sentido da temática desenvolvida, em simultâneo.

Podemos, por outro lado, chamar a este texto de Fátima Passos uma reflexão-poema. Três momentos ou tempos nela se distinguem com o intuito de se realçar que a história do planeta azul não é estática, é antes uma revolução incessante, uma mudança contínua, uma conquista interminável. À boa maneira do poeta romano Ovídeo, é traçada uma evolução lenta, cadenciada, ganhando sentido e uma direcção definida.

Nos dois primeiros Tempos (ou Idades), o Tempo do Silêncio e o Tempo do Espanto, há uma direcção acentuada de progresso: «E no silêncio a palavra»; «E a primeira canção irrompeu da Terra»; «E tudo ganha a nitidez da aurora». No entanto, a passagem ao Tempo da Intervenção cria realidades novas que, ao pretenderem ultrapassar todos os limites do Homem, o acabam por escravizar. Ao procurar «decifrar mil mensagens cósmicas», o Homem perde-se e bate com as asas do sonho no chão: «Na era da abundância, na era da exploração do espaço, metade do planeta azul clamava. De  fome. De doença. De indigência».

É a época do desencanto. Depois do tempo da crença absoluta no progresso, as dores de uma humanidade incapaz de encontrar a felicidade; de um planeta em que moram a pobreza e o abandono ou a riqueza e uma tecno­logia desenfreada, que dão vontade de gritar («Mas grita que hão-de ouvir. Ao menos noutro futuro. Rebentemos de gritar»).

No Tempo primordial ou do Silêncio (como lhe chama Fátima Passos), com a palavra fecunda, desenham-se caminhos de beleza, de amanhecer, de canto. Depois, o Tempo do Espanto é a própria eclosão de um novo ser feito à «imagem e semelhança de Deus». Abrem-se os horizontes do pensamento, alarga-se a imaginação pródiga, e o «silêncio respira».

O «sonho de eternizar a vida breve» é o Tempo da Intervenção e é, igualmente, o Tempo da inesperada perda; há agora uma «espera conformada e triste» e o futuro é a incerteza, o «desassossego». Surge uma verdadeira «Vertigem do poderio do Universo».

A autora denuncia o vazio desta sociedade de tantas distâncias, de tantas diferenças. Uma humanidade confundida pelas guerras (raciais ou religiosas), pelo terrorismo indiscriminado, pelas doenças do vício e da toxicodependência. Tudo isto, e tantas outras coisas, leva Fátima Passos a uma única saída: Deus. Depois de se ter negado o divino, é preciso reencontrá-lo: «Quando foi que perdemos de vista o Vosso rosto, Senhor?»

Era Uma Vez Um Planeta Azul termina com três interrogações, a revelar as preocupações maiores de Fátima Passos: «Com quem repartimos o Pão?»; «Quando estabeleceremos a Paz?»; «Como aprenderemos o Perdão?».

Eis neste livro um convite – com a linguagem da poetisa que é Fátima Passos – à reflexão sobre o mundo que o Homem tem nas suas mãos e que pode tornar melhor, sobretudo através da Paz, da Reconciliação e da Partilha dos bens.

Uma maravilhosa humanidade está ainda ao seu alcance.

 

 

Teresa Ferrer Passos

 

 

 

Fonte: Diário do Sul, 14 de Novembro de 1997; Internet, www.harmoniadomundo.net (14/8/2008).

 

 

topo

 

 

 

 

 

 

À MARGEM DE UNS RECORTES

   

 

 

 

Às águas da memória vai Fátima Passos, a autora de Recortes, retirar as pequenas histórias que compõem este título acabado de ser publicado pela editora Multinova.

As palavras com que tece estas pequenas histórias, foram retiradas do fundo poético da sua alma, sempre a maravilhar-se com a beleza das relações humanas naquilo que elas têm de mais autêntico, de mais puro.

A autora dos livros de poesia Era uma Vez um Planeta Azul e A Cidade regressa à literatura com estes Recortes, não escritos dentro dos cânones da poesia, mas inserindo-se numa prosa eivada de sentimento, de delicadeza e de fascínio pela lembrança.

Essa persistente lembrança daqueles que conviveram com ela, daqueles que deixou de contactar por contingências da vida, daqueles que a seduziram, ora pela sua candura e alegria, ora pela sua ingenuidade, ora ainda pela sua fortaleza de ânimo, ao defrontar os momentos cruéis de uma notícia inesperada.

Já nas obras poéticas anteriores a Recortes, se notava a sensibilidade de Fátima Passos à natureza, com que se identifica, apesar de viver nesta Lisboa cada vez menos com jardins arborizados. Nesta cidade se envolveu desde a sua juventude e aqui ensinou toda a vida, sem contudo, abdicar da saudade da sua pequena cidade, Viana do Castelo. A atestá-lo, o facto de ter ilustrado a capa e contracapa do livro com uma pintura, feita pela própria autora, de uma antiga casa típica desta região do Minho.

Assim exilada na grande cidade devido às circunstâncias, a autora lembra ou relembra a paisagem encantadora que envolvia a sua pequena cidade da infância e da adolescência, como se o tempo não tivesse passado.

Na memória de outrora, a autora traça em rápidas, mas preciosas pinceladas, o perfil de algumas das pessoas que no passado distante ou mais próximo, a marcaram com o estilete da sua ingenuidade e da sua experiência  preciosa: «Orientada por Marina, descobri a grandeza de tantos autores, a singularidade de um rosto, a nobreza de um gesto, a superioridade de um subalterno, a original beleza de uma pedra, de uma folha, de uma árvore» (“Marina”). E também realça a sua ruralidade sadia e sábia: «Mas ainda te recordo (…) E há sempre nesses cenários do monte de Santa Luzia que tu situavas as tuas histórias de mouras encantadas» (“Senhor Inácio”); Outras vezes, Fátima Passos oferece-nos o retrato psicológico da personagem: «Tinhas vinte anos, Sofia. E conhecias todas as ausências, todos os laços desfeitos, todas as primaveras interrompidas» (“Sofia”).

Em Recortes, enredadas entre a realidade e a fantasia, surgem mensagens dirigidas a cada uma dessas figuras que passaram anos, semanas, ou simplesmente um dia com a autora, mas que, mesmo assim, nela deixaram um sinal largo ou um incisivo rasto.

Poderíamos, com um pouco mais de arrojo, chamar a estas pequenas histórias, contos de encantar delineados na comoção de uma carta que poderia ter sido enviada em tempos há muito idos ou apenas à distância de meses. Aqui, se a ficção perpassa, a realidade factual é o motivo dinamizador, é o ponto de partida de Fátima Passos.

De facto, não serão estas pequenas narrativas, propriamente cartas, ou propriamente contos, mas são sem dúvida narrativas com o invólucro de uma carta e de um conto de encantar, ao mesmo tempo. O carácter coloquial que alcançam, o diálogo cheio de vivacidade que constroem, impressionam. E tudo decorre num tempo que já não volta mais, que já não é possível agarrar.

A epistolografia pressupõe a presença de um interlocutor, a quem nos temos de dirigir em discurso directo e num dado momento; uma carta é normalmente escrita num diálogo interrompido por poucos dias ou, no máximo, poucas semanas.

No caso de Recortes, podemos considerá-las cartas ficcionais em que podem passar anos até à sua leitura, sem necessária resposta. São «cartas» interrogativas, mas sem exigirem resposta. São «cartas» para reflectir sobre pedacinhos da vida e do mundo. São «cartas» que sugerem ou propõem, recordando apenas, sem nada esperar em troca.

Esse o enigma destas «cartas» imbuídas de toda uma vertente ficcional: são «cartas» para cada leitor pensar, como se fosse para