Dora Maria Nunes Gago nasceu em S. Brás de Alportel a 20 de Junho de 1972.
É licenciada em Ensino de Português e Francês pela Universidade de Évora, mestre em Estudos Literários Comparados e doutorada em Línguas e Literaturas Românicas pela Universidade Nova de Lisboa.
Foi Leitora do Instituto Camões em Montevideu (Uruguai) no ano lectivo 2001/2002 e é professora na Escola EB 2,3/S Dr. Isidoro de Sousa em Viana do Alentejo.
Publicou Planície de Memória (1997), Sete Histórias de Gatos (em co-autoria com Arlinda Mártires – 1ª ed. 2004, 2ª ed. 2005); A Sul da escrita (Prémio Nacional de Conto Manuel da Fonseca, 2007); Imagens do estrangeiro no Diário de Miguel Torga (2008) e tem artigos, ensaios, poemas e contos dispersos por antologias, revistas e jornais portugueses.
Além disso, tem apresentado diversas comunicações em Colóquios Internacionais, sendo, actualmente, colaboradora da linha de investigação nº 6 («Representações de Portugal nas Literaturas Estrangeiras e Representações do Estrangeiro na Literatura Portuguesa») do Departamento de Línguas e Culturas da Universidade de Aveiro.
DORA GAGO
POESIAS E PROSAS DA AUTORA
indefinido
entre mim
e o infinito
que germina
no ventre dorido
do Tempo
Borboletas brancas
pairam
no útero da tarde
libertam
o Sonho oculto
no seio da Saudade.
Estevas de solidão
florescem
no desfolhar
dos dias
onde amadurecem
promessas
feitas de espera.
Suspiro de terra,
Canto de ternura
perfumada
grito de secura
profanada
na lonjura
do Nada.
O astro do silêncio
desce pelos dedos
da Planície
Toca as sombras
e os segredos
acendendo a Lágrima Oculta.
Fonte: Dora Gago, Planície de Memória (poesia), Edições Gazeta do Mundo de Língua Portuguesa, Lisboa, 1997,
Colecção Poiesis, nº 4, pp. 13, 23,31, 41, 46.
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ALGUMAS PALAVRAS SOBRE A SUA OBRA
POESIAS E PROSAS DA AUTORA
ALGUMAS POESIAS DO LIVRO PLANÍCIE DE MEMÓRIA
ALGUMAS PALAVRAS SOBRE A SUA OBRA
Teresa Bernardino:
UMA LEITURA SOBRE SETE HISTÓRIAS DE GATOS
A PROPÓSITO DE PLANÍCIE DE MEMÓRIA
Rosa Maria Oliveira:
APRESENTAÇÃO DE A SUL DA ESCRITA
Teresa Sá Couto:
UMA LEITURA SOBRE SETE HISTÓRIAS DE GATOS*
E se os gatos vivessem no tempo em que os animais falavam? A verdade é que, mesmo já não vivendo nesses quiméricos tempos, eles se conseguem entender, isto apesar de se servirem apenas de sílabas monocórdicas!
Quase só convivendo com os humanos, eles são ainda capazes de ter o sentimento do amor, lutar contra a adversidade, defrontar o abandono e tratar os filhos com uma imensa ternura! Que contraste, às vezes, com a pessoa humana… É esta a temática de Sete Histórias de Gatos, título recentemente publicado por Arlinda Mártires e Dora Gago, duas autoras com uma ou duas passagens pela poesia. Arlinda Mártires, a preparar a sua dissertação de mestrado. Dora Gago, autora de outra já concluída, sobre literatura comparada. Ambas, docentes de língua e literatura portuguesa em Viana do Alentejo.
Em boa hora as autoras enveredam pela ficção. Na verdade, acabam de oferecer ao público juvenil Sete Histórias de Gatos, um livrinho que se inspira nesses deliciosos e tímidos animais, os gatos. Especialmente vocacionados para a vida ao ar livre, eles têm sido a companhia privilegiada de muitas pessoas, abandonadas pela família, pelos amigos ou pelo infortúnio da perda dos entes queridos, de muitas pessoas, dizíamos, a viverem a maior das solidões, às vezes na doença, às vezes na velhice.
Sete Histórias de Gatos é uma leitura aconselhável aos nossos jovens, mas, porque não, aos adultos cada vez mais afastados da sensibilidade às coisas simples e aos afectos, porque isso, dizem, não são coisas para a sua idade... É, pois, um lenitivo para o espírito dos mais jovens; é, igualmente, uma possível reflexão para os mais velhos, em especial para aqueles que vêem, muitas vezes, nos animais que tanta companhia e ternura oferecem, um estorvo, um empecilho, um contratempo, a excluir dos seus cuidados, da sua atenção.
Têm estas sete pequenas histórias «biográficas» de gatos, a particularidade de cognominar cada um dos gatos-personagens com o nome de um grande músico, de um herói fabuloso, de uma rainha afamada da História ou de um poeta imortal. Arlinda Mártires, natural de Alfundão no Baixo Alentejo e Dora Gago, nascida em S. Brás de Alportel no Algarve, constroem, assim, cada personagem felina, a partir da figura histórica eleita pelo seu próprio nome.
Surge o primeiro gato. Chama-se Ulisses. Um gato abandonado, a viver na «casinha da alfarrobeira». Um gato que, generoso, partilha os alimentos com outros gatos que os donos, também abandonaram.
Segue-se a história do Mozart «que adorava música, ou não se chamasse Mozart, como o compositor austríaco do século XVIII», a viver um enamoramento com todo o seu olhar e com a força do seu coração.
Depois, é a biografia daquele gato Sócrates, com o nome de um grande filósofo grego, a assumir a responsabilidade de tal «baptismo». Por isso, vive com o desejo de saber coisas novas, de extrair das aparências aquilo que não se vê.
E, logo depois, contam-se as aventuras da frágil Minerva. Com o nome da deusa romana da sabedoria, mas não sendo «filha do rei dos deuses». Na sua fragilidade, acontece o puro amor maternal: «Quando Minerva terminou a mamada, avisou-a que dormisse e não saísse por nada»…
E continuam as autoras na sua senda biográfico-ficcional: é a Cleópatra que «nascida em berço de oiro», reconhece, por fim, como «partilhar é bom» e se torna capaz de receber o gato pobre, «escorraçado e não amado».
Vemos agora a história da bela e cheia de fidelidade mulher do herói grego Ulisses: Penélope. Tal como a exemplar esposa da Antiguidade, a gatinha Penélope «passava os soalheiros dias sob as amendoeiras, deitada no chão de pedra, entre os manjericos e as ervilhas-de-cheiro». Quantas vezes, «ficava horas sobre o muro, a ver passar os quartos de lua, escondendo-se dos gatos namoradeiros»… à espera do seu bichinho desaparecido…
E a última história de gatos tem o título do grande poeta do humanismo Renascentista, Petrarca e de sua muito amada Laura. O par amoroso, que a história imortalizou, aqui está representado também, com dois gatos enamorados: «Durante toda a vida, que foi longa, ele amou Laura»… Ele, que crescera «à revelia dos seres humanos, que só se aperceberam da sua existência, quando ele já era inteiramente independente». «Cada movimento dela era um bailado», «irreal, bela demais para ser verdadeira»; ele «sentiu vontade de a ir espreitar, trepar pela chaminé da casa, procurar uma janela aberta…».
Como o sentimento do amor filial, maternal ou entre amantes, pode ser comuns aos animais; como as impetuosidades da paixão podem não ser apenas apanágio dos humanos; como os animais têm expressões de fidelidade e de carinho, quantas vezes mais frequentes que entre os seres humanos. Esta a mais visível intenção de Arlinda Mártires e Dora Gago ao escreverem estas simples, mas intensas e cheias de vivacidade Sete Histórias de Gatos. A intercalá-las, realçamos uns encantadores desenhos das personagens «biografadas».
Esses gatinhos cheios de emoção, respiram vida: ânimo e tristeza, alegria e paciência, coragem e espírito aventureiro são descritos na palavra. Ao lado, o traço profundo do lápis de carvão onde está ainda a arte de Arlinda Mártires.
O mundo, cada vez com mais premência, precisa das úteis lições dos animais. É urgente que as nossas crianças aprendam com eles, se já não conseguirem aprender nada de bom na «escola» dos humanos…
26 de Setembro de 2004
Teresa Ferrer Passos*
* Diário do Sul, 27 de Outubro de 2004; Notícias de S. Braz (S. Brás de Alportel), Dezembro de 2004; A Avezinha, 23/12/2004.
A PROPÓSITO DE PLANÍCIE DE MEMÓRIA*
«A planície adormeceu / no regaço de Setembro». Estes os dois primeiros versos de um dos poemas do livro Planície de Memória, que acaba de ser publicado (Colecção Poiesis, nº4, editado pela revista cultural Gazeta do Mundo de Língua Portuguesa). A autora é a jovem Dora Gago. Neste acervo, ela oferece-nos uma poesia transparente e sem longas retóricas verbais. É a singeleza que a distingue; é um sentido vivo e fundo do pensamento que nela se perscruta. A perpassar todos os poemas, palavras simples entrelaçam-se, ou melhor, enredam-se com os sentimentos de forma tão subtil como flagrante.
Natural de S. Brás de Alportel (Algarve), a autora vive, actualmente, em Évora, depois de uma longa estadia em Vila Viçosa. A envolvência destas regiões com tanto de comum e de diverso, bem a marcou. Em Planície de Memória surgem essas belas terras do Alentejo, por onde se estendem as margens do rio Divor e os relevos da serra de Ossa: há, aqui, todo o espírito feito memória; há um corpo de searas feito uma planície sem fim.
Entre o tempo que é o silêncio do espaço e a seiva que é a secreta porta da vida, a planície adormece e, ao mesmo tempo, vive; a planície é um «canto de ternura» e um «suspiro de terra», porque nela estão os seres que a sentem como uma «flauta», ou uma «lágrima», ou ainda um «sonho». Tudo vibra nas espigas crivadas de Sol, as asas sulcam a distância e nasce o «não-ser», a ser toda a esperança no amanhã e já hoje a florir nas açucenas, que rompem a terra sem que se lance a semente. E são as «borboletas brancas» que «libertam o Sonho oculto / no seio da Saudade» (p.23).
A saudade, uma memória do passado e outra do futuro. A saudade, esse fundo disperso da lembrança, esse silêncio e ser e também nada – uma «sede de ser» (p.18) ou um «cálido delírio / que o amor teceu / promessa incontida / de Vida / que em ti / floresceu» (p.15).
Planície de Memória teve, neste espaço de Diário do Sul, uma breve apresentação. Apresentação que ficaria incompleta se não salientássemos o nome do artista plástico António Couvinha, que ilustrou a capa e a contracapa deste livro. Na capa, podem ver-se elementos simbolizando a mulher – talvez a própria mulher alentejana, com o seu olhar de lonjura e com a sua boca, expressão de palavras plenas de naturalidade; na contracapa, uma simbólica da planície com aves a sobrevoar a solidão e em que o espírito da mulher está presente como na poética dos versos, dos primeiros versos publicados por Dora Gago.
E, assim, como escreveu a autora: «Caladas / são as paredes / do sonho / onde talho / minha sede / de Ser».
Teresa Ferrer Passos
APRESENTAÇÃO DE A SUL DA ESCRITA DE DORA NUNES GAGO[1]
Eduardo Lourenço diz que «espaço e tempo são para nós realidades com um rosto, o rosto daquilo que amamos». Mas quando se dá a passagem destas realidades para a ficção, a palavra literária que vive da consciência dilacerada de si própria procura, sobretudo, celebrar a precariedade da nova condição, esforçando-se por revelar o ser das personagens que estão destinadas à transcendência. Nesta obra é visível, antes de mais, um rosto geográfico, ponto cardeal carregado de sentido e de história, de ser e de paisagem: o Sul. Este sul é o Alentejo e é o Algarve. O primeiro tem vigor e beleza na imensidade das suas planícies, tem a contemplação; o segundo tem os limites naturais, tem a definição.
Embora pequeno, é significativo o painel de nomes de poetas e escritores que Dora Gago seleccionou para fazer regressar à vida num tempo simbólico e encontra-se, deste modo, distribuído: cinco figuras têm origem no Algarve (Ibn Amar, António Aleixo, Emiliano da Costa, João de Deus) e quatro no Alentejo ( Garcia de Resende, Bernardim Ribeiro, Fialho de Almeida e Florbela Espanca).
A vida é uma repetição contínua de gestos inaugurados por outros e, nestas narrativas de inspiração biográfica, não é excepção à regra. Focalizando-se no aspecto trágico da vida das personagens, a autora salienta a ideia de que tudo é uma só realidade e o tempo só começa a ser tomado a sério com aquilo que há nele de dramático, de doloroso e de angustiante. Apenas com a morte se desvanece o reino da incerteza. Enquanto viveram, as personagens foram dilaceradas pelo abandono, pela loucura, pelo tédio ou pela doença. Mas todas participaram no acto primordial da redenção – o da arte da escrita, através da qual expressaram o sentimento da inexorabilidade, do tédio e da evanescência do instante. Fundiram contrários em nome da reconciliação com a harmonia do mundo e com os desígnios do destino. A propósito da capacidade do ser humano suportar as inconciliáveis visões do mundo, parecem-me oportunas as palavras de Florbela Espanca dirigidas a Guido Battelli em 1930: «Sou uma céptica que crê em tudo, uma desiludida cheia de ilusões, uma revoltada que aceita, sorridente, todo o mal da vida, uma indiferente a transbordar de ternura.»
Nestes contos, o tempo das personagens é um tempo prodigioso em que algo de forte e de significativo se plenamente manifestou plenamente (cativeiro, doença, suicídio, casamento…). É o tempo do presente entregue a si mesmo e que se enreda em si mesmo. O carácter dramático do destino de algumas personagens é ainda acentuado pelo facto de estarem afastados das suas terras de origem (Ibn Amar morre em Sevilha, Florbela Espanca em Matosinhos, Teixeira Gomes na Argélia, por exemplo).
O filósofo alemão Heidegger afirma que o destino colectivo não é um «conjunto de destinos individuais». Apenas com a co-participação e na luta é que provém o poder do «destino colectivo». Não podemos avaliar com rigor se, neste livro, os oito homens e a única mulher contemplada (ainda que tenha dado origem à narrativa mais extensa) estão ou não no corredor de um destino colectivo. Algumas personagens estão mesmo separadas, cronologicamente, umas das outras por séculos; poucas se cruzam. Contudo, a autora parece escavar na escrita as fundações para os alicerces de um destino colectivo, a partir da convergência de tensões interiores, de lições de independência e de alguma inquietude intelectual, tudo isso traduzido numa luta à margem do conservadorismo nacional.
Creio que este desejo é claramente exposto nas últimas páginas do livro pela consciência espiritualizada de Teixiera Gomes quando afirma: «Fiquei num local destinado a escritores e artistas, uma espécie de panteão espiritual. Não é uma divisão elitista, tendo apenas a finalidade de manter unidos certos espíritos que já em vida tiveram algumas afinidades.»[2]
Neste sentido, caminhamos finalmente para a chave de ouro deste livro: o seu título A Sul da escrita, na minha opinião, é uma expressão muito feliz. Na verdade, a sua dimensão mítico-poética contém a origem, os rostos, a contemplação, a definição de um implícito destino comum, uma parte essencial, vital, da alma portuguesa.
Rosa Maria Oliveira (professora, poetisa), Aveiro
[1] Texto apresentado no lançamento do livro, realizado na Biblioteca Municipal Manuel da Fonseca em Santiago do Cacém a 19/10/2007
[2] A Sul da escrita, ed. Campo das Letras, p. 65.
(Acerca de uma Planície de Memória)*
Hora de memória. Aqui estamos a traçar as horas dos serenos vinhedos, searas e girassóis ou dos mansos rebanhos. Na solidão da planície vivem os heróis da terra. É preciso cantá-los. E a poesia ou a ficção é o seu livro. É o poeta o trovador. A palavra escrita é uma oração ao ser humano que aqui vive. Aqui também nesta Planície de Memória que Dora Gago nos quis oferecer com a sua sensibilidade e o seu talento.
A obra escrita existe para se transmitir porque ela é, em si mesmo, um testemunho. Não é uma exibição de vaidade ou ostentação ou tão pouco uma forma de enriquecer. A obra de arte – escrita ou não – é uma dádiva, uma comunhão concebida no sofrimento, no cansaço, mas igualmente uma grande alegria. A obra escrita é uma das mais valiosas memórias da humanidade. Como diz o poeta Fernando Henrique de Passos: «E mudos para sempre, os velhos livros esquecidos / Serão os únicos a contemplar a eternidade».1
Louvemos os que têm a coragem de transmitir os segredos da sua alma generosa, solidária, que sente necessidade da comunhão com os outros e estes outros são os seus leitores. Planície de Memória mostra como a poesia autêntica não morreu. Os poetas continuarão, apesar dos falsos cultores deste género literário já terem prestado um mau serviço à poesia, afastando muito leitores que nela encontravam momentos de valiosa, de útil comunhão com o autor.
Recebamos com alegria esta Planície do espírito que Dora Gago traçou com entusiasmo em cada uma das suas palavras. A planície alentejana, na sua solidão e nas suas lágrimas esperava-a. Esta terra a perder de vista e, ao mesmo tempo, tão esquecida dos grandes centros do consumo e do luxo, bem a merece.
Teresa Ferrer Passos**
* Texto de Apresentação do livro Planície de Memória de Dora Gago na Escola Secundária de Arraiolos em 12/11/1997.
1 Poema inédito (public. em Fernando Henrique de Passos, As Sete Fases da Lua, Universitária Editora, Lisboa, 2000.)
Palavras para as letras da nostalgia
Galardoado com o Prémio Nacional de Conto Manuel da Fonseca, «A sul da Escrita» faz jus ao patrono do Prémio: a escrita é depurada e delicada, é um hino à criação literária de autores nascidos no sul de Portugal, ao mesmo tempo que colhe a alma da terra exibindo-lhe as texturas, as melodias e os cheiros. Conto após conto, o leitor é envolvido em sinestesias que o catapultam para a única terra possível: a terra das casas brancas semeadas na planície tendo por tecto um azul infinito, das badaladas lânguidas dos sinos, do «canto trinado das cigarras», do «odor amarelecido do feno aquecido pelo sol quente», do amarelo odorífico das mimosas, do «cheiro forte da terra molhada e criadora».
O «panteão espiritual» do Sul começa com Ibn Amar, «poeta do Al-Garb», corre o ano de 1086. Narrado na primeira pessoa, o poeta, escravo e prisioneiro de guerra, encarcerado numa sela em Sevilha pelas mãos de Al-Mutamid, antes seu amigo, revê a sua terra, a sua vida, as escolhas e os caminhos que essas escolhas ditaram. Na claustrofobia do cativeiro, relembra traições, intrigas, invejas, ambições que «vão minando e corroendo os carácteres mais puros, como a traça faz no mais belo e rico tecido». Porém, o tecido da sua alma mantém incólume o ouro: enquanto espera pelo futuro, desenvolve a sua poética «depurada de toda a vileza e traição» e, com ela, tece a sua imortalidade.
Segue-se o ano de 1536 para se testemunhar o último suspiro de Garcia de Resende, o «poeta-amante que preferia a morte a viver sem a sua amada», que escreveu para o futuro a Cultura e a História portuguesas num legado abraçado, continuado e divulgado pelo poeta do mundo, que seria Luís de Camões. Ainda no século XVI, surge o eterno canto do rouxinol que, místico, canta a saudade e a alma exausta: Bernardim Ribeiro
Entra-se em 1859 com o canto de ternura de João de Deus. Puro na poesia, zeloso no ensino das primeiras letras, o autor da Cartilha Maternal cumpria a sua missão de corrente na lapidação da cultura portuguesa. Ainda no século XIX irrompe o «poeta, dândi, cronista e panfletário», o singular Fialho de Almeida.
O século XX traz a infeliz que vagueou pela vida «perdida nos seus devaneios»: Florbela Espanca. É o conto mais longo da série e recria pungentemente a vida triste da «Princesa desalento», os amores infelizes, a imaturidade afectiva, a má reputação, as tentativas de suicídio até ao consumado.
No sentido inverso do desprezo social surge o popular e amado António Aleixo, o ti Toino, com a sua vida de miséria que albergava a riqueza da alma. E corre assim o texto: «António sente-se feliz com o apoio do povo, apesar da doença que o vai consumindo, das forças que se esvaem, como a água através da peneira …Desconfia que o final se aproxima a passos largos. É nisto que vai meditando, a caminho do hospital, quase deitado no chão da carroça do seu vizinho, para ver se adormece a dor e a agonia. Todavia, não sabe ainda que quando deixar a vida, é nessas quadras soltas que a sua alma continuará viva, permanecerá de geração em geração, a ensinar a profunda e sincera filosofia da vida.».
Também Emiliano, penúltimo inscrito neste hino de Dora Nunes Gago, está quase a abalar da vida. O médico e «poeta da luz e da cor» conhece a dor da perda, pois está-lhe sulcada na existência. «Sentado no seu cadeirão, com uma folha de papel poisada no colo, toda a dor, o sofrimento, mas também as cores pujantes da natureza se convertiam em poesia.».
O canto finda com o esplendor da vida de Teixeira Gomes, sétimo Presidente da República (entre 1923-25), falecido a 18 de Outubro de 1941, na Argélia. Desde cedo conviveu com escritores, entre eles João de Deus e Fialho de Almeida. É no retiro argelino que produz muitas das suas obras reveladoras de um humanista preocupado com a justiça e seduzido pela sensualidade. Mas é também com este final que a autora dos nove contos abre as portas para o futuro, num claro desafio: não nos esquecermos dos que puseram o seu sangue no idioma, que é também o nosso, é fazermos a parte que nos cabe, é garantir-lhes a imortalidade.
A Sul da Escrita, Dora Nunes Gago, Editorial Campo das Letras, Porto, Outubro de 2007
07-12-2007
Teresa Sá Couto
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