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POESIA

 

 

DORA GAGO

Dora Maria Nunes Gago nasceu em S. Brás de Alportel a 20 de Junho de 1972.

É licenciada em Ensino de Português e Francês pela Universidade de Évora, mestre em Estudos Literários Comparados e doutorada em Línguas e Literaturas Românicas pela Universidade Nova de Lisboa.

Foi Leitora do Instituto Camões em Montevideu (Uruguai) no ano lectivo 2001/2002 e é professora na Escola EB 2,3/S Dr. Isidoro de Sousa em Viana do Alentejo.

Publicou Planície de Memória (1997), Sete Histórias de Gatos (em co-autoria com Arlinda Mártires – 1ª ed. 2004, 2ª ed. 2005); A Sul da escrita (Prémio Nacional de Conto Manuel da Fonseca, 2007); Imagens do Estrangeiro no Diário de Miguel Torga (2008) e tem artigos, ensaios, poemas e contos dispersos por antologias, revistas e jornais portugueses.

Além disso, tem apresentado diversas comunicações em Colóquios Internacionais,  sendo, actualmente, colaboradora da linha de investigação nº 6 («Representações de Portugal nas Literaturas Estrangeiras e Representações do Estrangeiro na Literatura Portuguesa») do Departamento de Línguas e Culturas da Universidade de Aveiro.

 

POESIAS E PROSAS DA AUTORA:

ALGUMAS POESIAS DA AUTORA

EXCERTOS DE OBRAS EM PROSA

BREVES NOTAS SOBRE UM LIVRO DE OTÍLIA P. MARTINS

 

ALGUMAS PALAVRAS SOBRE A SUA OBRA:

Teresa Ferrer Passos/Teresa Bernardino:

VIDAS PARALELAS EM ACTO, A SUL DA ESCRITA

A PROPÓSITO DE PLANÍCIE DE MEMÓRIA

Rosa Maria Oliveira:

APRESENTAÇÃO DE A SUL DA ESCRITA

Teresa Sá Couto:

CANTO DO SUL

 

 

 

 

 

POESIAS E PROSAS DA AUTORA

 

 

 

 

 

BREVES NOTAS DE LEITURA

 

 

«Le mal existe, mais non pas sans le bien,

comme l’ombre existe, mais non sans la lumière»

 (Alfred de Musset, Lorenzaccio)

 

 

Num ensaio intitulado L’oeuvre de Julien Green une poétique du mal*, Otília Pires Martins, Professora Associada com Agregação do Departamento de Línguas e Culturas da Universidade de Aveiro, proporciona-nos uma profunda análise ao universo literário da vasta obra de Julien Green, onde a escrita se assume como o caminho para a unidade de um ser dramaticamente dividido e atravessado pelas mais diversas dicotomias, a começar, como evidencia a autora, pela duplicidade linguística, pelas duas «pátrias», duas religiões, para além da luta constante entre o instinto e a religião, a sexualidade e a fé, o bem e o mal, as trevas e a luz.

É, precisamente, a dilaceração entre todas estas forças antagónicas que se procura e analisa neste aturado trabalho de investigação, pois, como é referido:

“C’est dans la déchirure provoquée par cette dualité qu’il nous faut chercher la genèse de la puissance dramatique de l’oeuvre greenienne, de sa violence et de sa folie.” (p.27).

 

Green é apresentado, desde o início, como um “pintor da condição humana”, um visionário, cuja obra se assume, simultaneamente, como testemunho e apelo metafísico, oscilando entre o real e o fantástico, o visível e o invisível.

Assim, na primeira parte, intitulada “Le mal moral ou l’angoisse d’exister”, são analisados os vícios e paixões caracterizadores das personagens que habitam o “inferno greeniano”(a avareza, a curiosidade, a indolência). É ainda focada a poética do espaço no imaginário deste autor, partindo de lugares reais, onde vemos inscrever-se sub-repticiamente, o elemento fantástico, assumindo, por exemplo, a casa uma configuração maléfica, para se enveredar por um maravilhoso eivado de elementos integradores altamente simbólicos: a noite, a lua e a água.

Na segunda parte, intitulada “Le mal charnel ou l’obsession de l’impur”, são desenvolvidos diversos aspectos como a obsessão e a sacralização da beleza, a homossexualidade, a sensualidade, a violência, o horror ao pecado, a obsessão do impuro, a imagem da feminilidade maléfica. Deste modo se evidencia o combate entre o bem e o mal, o corpo e o espírito, a sensualidade e a fé.

Na terceira e última parte (“Le mal metaphysique ou la présence du demon”), percorremos os meandros configuradores da constante presença satânica que, através da oposição com Deus desagua numa ambivalência antitética.

O leitor tem assim o privilégio de percorrer e descobrir o “dantesco” reino de silêncio e solidão de Julien Green interpenetrado pela violência, pelo ódio e o sadismo, mas também por “gritos” (de revolta, de recusa ou de simples pedido de ajuda). Nesse universo ficcional, a escrita, subterfúgio a que recorrem inúmeras personagens, (sob forma de uma real mise en abyme) desempenha uma função libertadora, catártica, assumindo-se como um modo de evasão, fuga e purificação, através da qual, o mal, representado pelos mais diversos monstros, poderá ser exorcizado.

Após uma análise rigorosa, profunda e concisa, tecida através de um notável estilo ensaístico, é sob a égide do humanismo que L’oeuvre de Julien Green une poétique du mal termina, visto que, neste universo aparentemente aterrador é possível divisar a luz, as marcas do Bem, da grandeza, como salienta a autora:

 

“L’oeuvre greenienne met en évidence les problèmes que pose l’existence du Mal mais, de même que l’ombre prouve l’existence de la lumière, l’angoisse devant la décheance laisse deviner une nostalgie de la grandeur.“ (p.329).

 

Assim, é divisando o que se encontra para além da aparência, o tal sentido oculto onde reside a própria essência (“o essencial é invisível aos olhos” como afirma Saint Exupéry no seu Principezinho”) que a obra greeniana “nous montre l’aventure extraordinaire, humaine et spirituelle, d’un homme en quête de Dieu” (p.330).

Em suma, após termos sido guiados pelos mais recônditos e labirínticos meandros da obra de Julien Green, somos impelidos a penetrar, através da sua leitura (ou releitura), num universo fortemente marcado por forças ambivalentes e antitéticas, remetendo-nos, assim, para Nietzsche que afirma que “o homem precisa daquilo que em si há de pior se pretende alcançar o que nele existe de melhor.”

 

Dora Nunes Gago

 


* Otília Pires Martins, L’oeuvre de Julien Green une poétique du mal – dualité et déchirure dans le univers greenien, Edições Colibri, 2009. (356 p.)

 

 

 

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Há um ponto

indefinido

entre mim

e o infinito

que germina

no ventre dorido

do Tempo

 

 

 

 

 

 

Borboletas brancas

pairam

no útero da tarde

 

libertam

o Sonho oculto

no seio da Saudade.

 

 

 

 

 

 

Estevas de solidão

florescem

no desfolhar

dos dias

onde amadurecem

promessas

feitas de espera.

 

 

 

 

 

 

Suspiro de terra,

Canto de ternura

perfumada

grito de secura

profanada

na lonjura

do Nada.

 

 

 

 

 

 

O astro do silêncio

desce pelos dedos

da Planície

 

Toca as sombras

e os segredos

acendendo a Lágrima Oculta.

 

 

 

Fonte: Dora Gago, Planície de Memória (poesia), Edições Gazeta do Mundo de Língua Portuguesa, Lisboa, 1997,

Colecção Poiesis, nº 4, pp. 13, 23,31, 41, 46.

 

 

 

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«A SUL DA ESCRITA»

 

(...)

 

João, o Cantor da Ternura

(...)

«Sentado na esplanada do Café Martinho, João de Deus toma tranquilamente o seu café matinal, enquanto contempla maravilhado a primeira edição do seu livro Campo de Flores, que se deveu a um grupo de amigos.

Já há dez anos que deixou Coimbra. Como o tempo voou! Havia decidido regressar ao Algarve em 1859, assim que terminasse o curso de Direito. No entanto, acabou por se deter algum tempo pela planície alentejana. Um amigo convidou-o para trabalhar em Évora como jornalista e depois desceu até Beja. Escreveu no Bejense, onde em 1863 criticou Castilho, o velho poeta cego e ultra-romântico, considerado "padrinho" da nova geração de poetas que ele considerava "promissora".

Todavia, a "Deusa das finanças" não lhe sorriu. Tanto na advocacia como no jornalismo ganhava menos do que necessitava para viver. Felizmente, havia aprendido algo de costura com o seu pai, alfaiate, e chegou a aceitar algumas encomendas tanto de costuras como de versos.

Contudo, aquele ano fora povoado de agradáveis surpresas. Além da publicação do livro, os amigos propuseram-no como deputado por Silves. Ele não queria tal cargo, pois achava que não era digno dele. Passara os dias antes das eleições a pedir ao eleitorado que não votasse nele. Mas enfim, os eleitores teimosos lá o elegeram»

(...)

 

"Florbela, a princesa Desalento"

(...)

«Decide deitar-se, fecha os olhos e sente-se embalada, pelo rumor daquela tempestade teimosa, mas algo serena. Dentro de poucos minutos o irmão Apeles visita-lhe os sonhos, vem sempre habitar esse espaço onde o vazio começa a germinar. De novo surge o radioso e trágico 6 de Junho de 1927. O hidroavião pilotado por Apeles Espanca, 1º tenente da Marinha, precipita-se no Tejo, cerca de meia milha a sul da Torre de Belém. No entanto, nos sonhos dela, ele flutua ileso nas águas, transportando nas mãos dois fragmentos do aparelho... Sorri e estende-lhe a mão. Porém, quando ela o tenta abraçar, afasta-se rápida e progressivamente, desvanecendo-se como o nevoeiro. Mergulha como um filho de Neptuno nas águas do rio que ondulam na suavidade azul. Volta ainda a erguer os braços até se desvanecer definitivamente.

Solta um grito sobressaltada e o seu olhar choca com o branco das paredes do quarto.»

 

 

Fonte: Dora Nunes Gago, A Sul da Escrita, Campo das Letras, Porto, 2007, págs. 23 e 34.

 

 

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ALGUMAS PALAVRAS SOBRE A SUA OBRA

 

 

VIDAS PARALELAS EM ACTO, A SUL DA ESCRITA

 

Escreveu, Herberto Helder,  há alguns anos, no seu livro de poemas Poemacto: «Sei que os campos imaginam as suas / próprias rosas. / As pessoas imaginam seus próprios campos / de rosas. E às vezes estou na frente de campos / como se morresse; outras, como se agora somente / eu pudesse acordar»*. Versos escritos entre o visível e o invisível de cada ser humano, versos a provocar-nos a interligação, a comunhão, senão mesmo a respiração monocórdica das pessoas com a natureza circundante.

Lembrámos estes versos a propósito do livro A Sul da Escrita** que recebeu da Câmara Municipal de Santiago do Cacém, em 2007, o Prémio Nacional de Conto Manuel da Fonseca. As palavras metafóricas de Herberto Helder, nestes versos a falar um pouco à maneira de «Fernando Pessoa», está a imbuir a escrita de A Sul da Escrita de Dora Nunes Gago.

Neste conjunto de nove textos biográficos de autores do Alentejo e do Algarve, Dora Nunes Gago conduz-nos através das vidas dessas nove personalidades que se distinguiram na poesia, na literatura ou na política, mas conduz-nos como se a natureza e as pessoas se entrelaçassem de tal modo que parecessem viver uma única realidade. A natureza e a existência humana confrontam-se e completam-se, dissolvem-se e regressam à vida, morrem e tornam-se imortais. 

Cada uma das personalidades retratadas por Dora Nunes Gago cobre-se, em cada momento da sua vida instável, submissa ou revoltada, de enigmáticas máscaras. E, em diálogo com os outros ou consigo próprias, surgem as figuras de poetas como Ibn Amar ou João de Deus, de Garcia de Resende, o Homem da corte renascentista, e do romanceiro Bernardim Ribeiro, sempre um pouco imerso em delirante e não menos inefável literatura. Todos os biografados pela autora de A Sul da Escrita se impõem, apesar de repletos de diabólicos obstáculos, por vezes, incontornáveis; todos eles estão circunscritos entre paredes negras que só a escrita consegue superar, dando-lhes as cores do paraíso.

As circunstâncias inesperadas atravessam os percursos das personagens a crescer entre véus de descrença e de desalento. A  vida está em todos os biografados, mas em especial em Florbela Espanca, António Aleixo ou Fialho de Almeida, a contracenar com o recurso à indiferença, à beleza de um verso ou ao gume da espada da saudade, da seiva das árvores ou ao perfume breve de uma flor. Entre a recordação do passado e o futuro distante está a figura de Teixeira Gomes. A beber com o espírito a luz e a cor está o poeta Emiliano da Costa. Destacada, entre as nove biografias, situa-se a cálida e extenuada poetiza das planícies alentejanas, Florbela Espanca.

Em busca de uma nova esperança, o desespero da poetiza de Charneca em Flor, ascende à flor maior que é o olhar para um passado que a amesquinha pela sua vulgaridade e um presente que não a sacia, não a contenta, não a faz ser viva. Em dezassete páginas se faz o conto do último dia de Florbela Espanca, o que contrasta com os restantes que nunca ultrapassam as sete.

É, sem dúvida, a Mulher  dos sentimentos contraditórios e de emoções intensas, a Mulher a quem nenhuma sensação é estranha, mas também a Mulher que querendo ser feliz, o conseguiu ser, não com o amor daqueles em quem ela confiou, mas  com a palavra que a poesia elevou até aos limites da beleza com que se exalta toda a criação humana.

A Sul da Escrita, um livro escrito por Dora Nunes Gago que continua aqui com a sua força cósmica, já patente no seu livro de poesia Planície de Memória. Ela aqui está bem presente com uma escrita A Sul da Escrita de transparente poética.

10 de Outubro de 2008

Teresa Bernardino

* Ou o Poema Contínuo, Súmula, Assírio & Alvim, Lisboa, 2001, pp.14-15.

** Campo das Letras, Porto, 2007.

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A PROPÓSITO DE PLANÍCIE DE MEMÓRIA

 

 

«A planície adormeceu / no regaço de Setembro». Estes os dois primeiros versos de um dos poemas do livro Planície de Memória, que acaba de ser publicado (Colecção Poiesis, nº4, editado pela revista cultural Gazeta do Mundo de Língua Portuguesa). A autora é a jovem Dora Gago. Neste acervo, ela oferece-nos uma poesia transparente e sem longas retóricas verbais. É a singeleza que a distingue; é um sentido vivo e fundo do pensa­mento que nela se perscruta. A perpassar todos os poemas, palavras simples entrelaçam-se, ou melhor, enredam-se com os sentimentos de forma tão subtil como flagrante.

Natural de S. Brás de Alportel (Algarve), a autora vive, actualmente, em Évora, depois de uma longa estadia em Vila Viçosa. A envolvência destas regiões com tanto de comum e de diverso, bem a marcou. Em Planície de Memória surgem essas belas terras do Alentejo, por onde se estendem as margens  do rio Divor e  os relevos da serra de Ossa: há, aqui, todo o espíri­to feito memória; há um corpo de searas feito uma planície sem fim.

Entre o tempo que é o silêncio do espaço e a seiva que é a secreta porta da vida, a planície adormece e, ao mesmo tempo, vive; a planície é um «canto de ternura» e um «suspiro de terra», porque nela estão os seres que a sentem como uma «flauta», ou uma «lágrima», ou ainda um «sonho». Tudo vibra nas espigas crivadas de Sol, as asas sulcam a distância e nasce o «não-ser», a ser toda a esperança no amanhã e já hoje a florir nas açucenas, que rompem a terra sem que se lance a semente. E são as «borboletas bran­cas» que «libertam o Sonho oculto / no seio da Saudade» (p.23).

A saudade, uma memória do passado e outra do futuro. A saudade, esse fundo disperso da lembrança, esse silêncio e ser e também nada – uma «sede de ser» (p.18) ou um «cálido delírio / que o amor teceu / promessa incon­tida / de Vida / que em ti / floresceu» (p.15).

Planície de Memória teve, neste espaço de Diário do Sul, uma breve apresentação. Apresentação que ficaria incompleta se não salientássemos o nome do artista plástico António Couvinha, que ilustrou a capa e a contra­capa deste livro. Na capa, podem ver-se elementos  simbolizando a mulher – talvez a própria mulher alentejana, com o seu olhar de lonjura e com a sua boca, expressão de palavras plenas de naturalidade; na contracapa, uma simbólica da planície com aves a sobrevoar a solidão e em que o espírito da mulher está presente como na poética dos versos, dos primeiros versos publicados por Dora Gago. 

E, assim, como escreveu a autora: «Caladas / são as paredes / do sonho / onde talho / minha sede / de Ser».


Teresa Ferrer Passos


 

 Fonte: Diário do Sul (Évora), 22 de Setembro de 1997.

 

 

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APRESENTAÇÃO DE A SUL DA ESCRITA DE DORA NUNES GAGO[1]

 

Eduardo Lourenço diz que «espaço e tempo são para nós realidades com um rosto, o rosto daquilo que amamos». Mas quando se dá a passagem destas realidades para a ficção, a palavra literária que vive da consciência dilacerada de si própria procura, sobretudo, celebrar a precariedade da nova condição, esforçando-se por revelar o ser das personagens que estão destinadas à transcendência. Nesta obra é visível, antes de mais, um rosto geográfico, ponto cardeal carregado de sentido e de história, de ser e de paisagem: o Sul. Este sul é o Alentejo e é o Algarve. O primeiro tem vigor e beleza na imensidade das suas planícies, tem a contemplação; o segundo tem os limites naturais, tem a definição.

Embora pequeno, é significativo o painel de nomes de poetas e escritores que Dora Gago seleccionou para fazer regressar à vida num tempo simbólico e encontra-se, deste modo, distribuído: cinco figuras têm origem no Algarve (Ibn Amar, António Aleixo, Emiliano da Costa, João de Deus) e quatro no Alentejo ( Garcia de Resende, Bernardim Ribeiro, Fialho de Almeida e Florbela Espanca).

A vida é uma repetição contínua de gestos inaugurados por outros e, nestas narrativas de inspiração biográfica, não é excepção à regra. Focalizando-se no aspecto trágico da vida das personagens, a autora salienta a ideia de que tudo é uma só realidade e o tempo só começa a ser tomado a sério com aquilo que há nele de dramático, de doloroso e de angustiante. Apenas com a morte se desvanece o reino da incerteza. Enquanto viveram, as personagens foram dilaceradas pelo abandono, pela loucura, pelo tédio ou pela doença. Mas todas participaram no acto primordial da redenção – o da arte da escrita, através da qual expressaram o sentimento da inexorabilidade, do tédio e da evanescência do instante. Fundiram contrários em nome da reconciliação com a harmonia do mundo e com os desígnios do destino. A propósito da capacidade do ser humano suportar as inconciliáveis visões do mundo, parecem-me oportunas as palavras de Florbela Espanca dirigidas a Guido Battelli em 1930: «Sou uma céptica que crê em tudo, uma desiludida cheia de ilusões, uma revoltada que aceita, sorridente, todo o mal da vida, uma indiferente a transbordar de ternura.»

Nestes contos, o tempo das personagens é um tempo prodigioso  em que algo de forte e de significativo se plenamente manifestou plenamente (cativeiro, doença, suicídio, casamento…). É o tempo do presente entregue a si mesmo e que se enreda em si mesmo. O carácter dramático do destino de algumas personagens é ainda acentuado pelo facto de estarem afastados das suas terras de origem (Ibn Amar morre em Sevilha, Florbela Espanca em Matosinhos, Teixeira Gomes na Argélia, por exemplo).

O filósofo alemão Heidegger afirma que o destino colectivo não é um «conjunto de destinos individuais». Apenas com a co-participação e na luta é que provém o poder do «destino colectivo». Não podemos avaliar com rigor se, neste livro, os oito homens e a única mulher contemplada (ainda que tenha dado origem à narrativa mais extensa) estão ou não no corredor de um destino colectivo. Algumas personagens estão mesmo separadas, cronologicamente, umas das outras por séculos; poucas se cruzam. Contudo, a autora parece escavar na escrita as fundações para os alicerces de um destino colectivo, a partir da convergência de tensões interiores, de lições de independência e de alguma inquietude intelectual, tudo isso traduzido numa luta à margem do conservadorismo nacional.

Creio que este desejo é claramente exposto nas últimas páginas do livro pela consciência espiritualizada de Teixiera Gomes quando afirma: «Fiquei num local destinado a escritores e artistas, uma espécie de panteão espiritual. Não é uma divisão elitista, tendo apenas a finalidade de manter unidos certos espíritos que já em vida tiveram algumas afinidades.»[2]

Neste sentido, caminhamos finalmente para a chave de ouro deste livro: o seu título A Sul da escrita, na minha opinião, é uma expressão muito feliz. Na verdade, a sua dimensão mítico-poética contém a origem, os rostos, a contemplação, a definição de um implícito destino comum, uma parte essencial, vital, da alma portuguesa.

 

Rosa Maria Oliveira (professora, poetisa), Aveiro


 

[1] Texto apresentado no lançamento do livro, realizado na Biblioteca Municipal Manuel da Fonseca em Santiago do Cacém a 19/10/2007

[2] A Sul da escrita, ed. Campo das Letras, p. 65.

 

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CANTO DO SUL

Palavras para as letras da nostalgia

 

 

 

 

 

Galardoado com o Prémio Nacional de Conto Manuel da Fonseca, «A sul da Escrita» faz jus ao patrono do Prémio: a escrita é depurada e delicada, é um hino à criação literária de autores nascidos no sul de Portugal, ao mesmo tempo que colhe a alma da terra exibindo-lhe as texturas, as melodias e os cheiros. Conto após conto, o leitor é envolvido em sinestesias que o catapultam para a única terra possível: a terra das casas brancas semeadas na planície tendo por tecto um azul infinito, das badaladas lânguidas dos sinos, do «canto trinado das cigarras», do «odor amarelecido do feno aquecido pelo sol quente», do amarelo odorífico das mimosas, do «cheiro forte da terra molhada e criadora».

 

 

O «panteão espiritual» do Sul começa com Ibn Amar, «poeta do Al-Garb», corre o ano de 1086. Narrado na primeira pessoa, o poeta, escravo e prisioneiro de guerra, encarcerado numa sela em Sevilha pelas mãos de Al-Mutamid, antes seu amigo, revê a sua terra, a sua vida, as escolhas e os caminhos que essas escolhas ditaram. Na claustrofobia do cativeiro, relembra traições, intrigas, invejas, ambições que «vão minando e corroendo os carácteres mais puros, como a traça faz no mais belo e rico tecido». Porém, o tecido da sua alma mantém incólume o ouro: enquanto espera pelo futuro, desenvolve a sua poética «depurada de toda a vileza e traição» e, com ela, tece a sua imortalidade.

 

Segue-se o ano de 1536 para se testemunhar o último suspiro de Garcia de Resende, o «poeta-amante que preferia a morte a viver sem a sua amada», que escreveu para o futuro a Cultura e a História portuguesas num legado abraçado, continuado e divulgado pelo poeta do mundo, que seria Luís de Camões. Ainda no século XVI, surge o eterno canto do rouxinol que, místico, canta a saudade e a alma exausta: Bernardim Ribeiro

 

Entra-se em 1859 com o canto de ternura de João de Deus. Puro na poesia, zeloso no ensino das primeiras letras, o autor da Cartilha Maternal cumpria a sua missão de corrente na lapidação da cultura portuguesa. Ainda no século XIX irrompe o «poeta, dândi, cronista e panfletário», o singular Fialho de Almeida.

 

O século XX traz a infeliz que vagueou pela vida «perdida nos seus devaneios»: Florbela Espanca. É o conto mais longo da série e recria pungentemente a vida triste da «Princesa desalento», os amores infelizes, a imaturidade afectiva, a má reputação, as tentativas de suicídio até ao consumado.

 

No sentido inverso do desprezo social surge o popular e amado António Aleixo, o ti Toino, com a sua vida de miséria que albergava a riqueza da alma. E corre assim o texto: «António sente-se feliz com o apoio do povo, apesar da doença que o vai consumindo, das forças que se esvaem, como a água através da peneira …Desconfia que o final se aproxima a passos largos. É nisto que vai meditando, a caminho do hospital, quase deitado no chão da carroça do seu vizinho, para ver se adormece a dor e a agonia. Todavia, não sabe ainda que quando deixar a vida, é nessas quadras soltas que a sua alma continuará viva, permanecerá de geração em geração, a ensinar a profunda e sincera filosofia da vida.».

 

Também Emiliano, penúltimo inscrito neste hino de Dora Nunes Gago, está quase a abalar da vida. O médico e «poeta da luz e da cor» conhece a dor da perda, pois está-lhe sulcada na existência. «Sentado no seu cadeirão, com uma folha de papel poisada no colo, toda a dor, o sofrimento, mas também as cores pujantes da natureza se convertiam em poesia.».

 

 

O canto finda com o esplendor da vida de Teixeira Gomes, sétimo Presidente da República (entre 1923-25), falecido a 18 de Outubro de 1941, na Argélia. Desde cedo conviveu com escritores, entre eles João de Deus e Fialho de Almeida. É no retiro argelino que produz muitas das suas obras reveladoras de um humanista preocupado com a justiça e seduzido pela sensualidade. Mas é também com este final que a autora dos nove contos abre as portas para o futuro, num claro desafio: não nos esquecermos dos que puseram o seu sangue no idioma, que é também o nosso, é fazermos a parte que nos cabe, é garantir-lhes a imortalidade.

 

A Sul da Escrita, Dora Nunes Gago, Editorial Campo das Letras, Porto, Outubro de 2007

 

07-12-2007

Teresa Sá Couto

 

 

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