HARMONIA DO MUNDO

 

 

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POESIA

 

 

COMO CERTOS CIENTISTAS NOS ROUBARAM A ALMA

                                                                                                         Fernando Henrique de Passos

 

 

 

 

 

 

O MUNDO SEM SENTIDO DA CIÊNCIA

 

Vimos os dois a estrela cadente.

Tu perguntaste-me o que queria dizer,

Mas eu só te soube dizer o que era.

 

FONTE: Fernando Henrique de Passos, As Sete Fases da Lua, Universitária Editora, Lisboa, 2000

 

 

 

 

 

REVELAÇÃO II

 

Foi-me hoje revelada

A mais profunda de todas as verdades:

Um anjo segredou-me

A incomensurabilidade da nossa estupidez.

Corri até à janela.

O verde da relva pareceu-me mais verde.

O azul do céu pareceu-me mais azul.

O dourado do sol pareceu-me mais dourado.

Respirei fundo.

Afinal, ainda há lugar para os mistérios.

 

Fonte: Fernando Henrique de Passos, Horas de Trevas, Horas de Luz, Universitária Editora, Lisboa, 2003

 

 

 

 

 

O CÓDIGO GENÉTICO

 

A maior molécula da Terra…

Em torno dela fervilham proteínas.

Controla, impassível, tudo o que se passa.

Tudo o que somos, tudo o que fazemos,

Tudo é decidido por sua obra e graça.

Existe mais que nós?

Somos seus escravos?

Dúvida insistente,

Persistente, atroz.

 

Ponho-me a pensar:

Quando ponho em dúvida

A omnipotência

Do nosso ADN,

Foi essa molécula

Que fez duvidar,

Ou algo intangível,

Fugidio, perene?

 

 

 

 

 

BREVE HISTÓRIA DA CIÊNCIA

 

Dividimos o mundo em quadradinhos.

Depois, encolhemo-nos para caber nos quadradinhos.

Continuamos a subdividir os quadradinhos.

E são cada vez mais pequenos, os novos quadradinhos.

 

 

 

 

 

VIAGEM AO INTERIOR DA MATÉRIA

 

O cientista decidiu estudar o Homem.

Viu que o Homem era feito de órgãos.

Decidiu estudar os órgãos.

Viu que os órgãos eram feitos de células.

Decidiu estudar as células.

Viu que as células eram feitas de moléculas.

Decidiu estudar as moléculas.

Viu que as moléculas eram feitas de átomos.

Decidiu estudar os átomos.

Viu que os átomos eram feitos de partículas elementares.

Decidiu estudar as partículas elementares.

Viu que as partículas elementares eram finíssimas cordas.

Decidiu estudar as cordas.

Viu que as cordas eram feitas de minúsculas galáxias.

Decidiu estudar essas galáxias.

Viu que as galáxias eram feitas de ínfimas estrelas.

Decidiu estudar essas estrelas.

Viu que em torno das estrelas orbitavam insignificantes planetas.

Decidiu estudar esses planetas.

Viu que nos planetas habitavam homens.

Decidiu estudar esses homens.

Viu-se a si.

Então, queimou todo o seu trabalho

E decidiu viver.

 

 

 

 

 

 

A RAZÃO

 

A razão é das coisas mais estúpidas que existem.

Tornou o nosso mundo numa casa fria, inabitável,

Monstruosa engrenagem de núcleos e electrões,

Sem espaço para a alma em parte alguma.

A razão é das coisas mais estúpidas que existem.

 

 

 

 

 

 

 

 

THE SELFISH GENE AND OTHER STORIES

 

To Richard Dawkins

 

The selfish gene had built several machines.

I saw them in a large cathedral,

Listening to baroque organ music.

Two other machines were playing the organs,

High above the floor.

The cathedral was so immense

And the music was so powerful

That made the machines think about strange things

Like God, Heaven and immortality.

I wondered:

Did the selfish gene expect the machines to think about such things?

Did he expect them to think about anything at all?

Does he know what they feel?

Does he even know they have feelings?

Does he know anything?

Does he know?

Then I realised I was one of the selfish gene machines,

And I did feel a little bit sad.

But the music still sounded divine,

The music wrote three centuries ago by some other machine,

And I forgot about it all

Till I got home and wrote this poem.

I wonder if the other machines will like it.

 

 

 

 

 

 

 

O FUTURO

 

A ciência roubou-nos a Harmonia e a Alma.

Ainda a agraciámos com louros e palma.

Mas um cientista há-de vir um dia

Que nos restitua a Alma e a Harmonia.