..........o meu
país
no meu país há
cidades e
vilas e ruas e vielas e casas
e pessoas e bichos e memórias invioladas
raptadas violadas negadas
pequenas e grandes
no meu país há gente bonita e feia
que fala e diz e desdiz e mente
o meu país
no meu país há flores e pássaros e
árvores e répteis e
mares e rios e barragens e praias
pequenas e grandes
no meu país há girassóis virados ao sol e flores
e crianças murchas que nunca cresceram
o meu país
no meu país dito de marinheiros há barcos caravelas
rotas e reis e infantes e cartas de navegar
no meu país feito em fogo
o medo voltou
é o vento grito lamento
novo
do meu velho país
___________________________________
(
a todas as grandes mulheres
A minha Mãe )
………………………………………….mãe
de onde escrevo ,reservam.se
as cores
as indefinidas
cores que fazem o teu jardim
onde as árvores e
OS pássaros trocam odores
e o Sol deixa um
calmo rasto do teu perfume
...............mãe
é por isso que te
colho as rosas
e deixo.as
pousadas no teu colo à espera
do sopro do vento
que me concebeu em
terra
vida ou
cinza aberta em
tarde cristalina
...............
a água que verte
das tuas mãos em concha
enche pomares de
sorrisos serenos e
reveste os rostos
crispados
dos trabalhadores
que não pudeste
cantar
...............mãe
a voz atraiçoou o
canto dos pardais
e o melro voou
quando saiu de ti
em soluço
solidário
era primavera
e tu querias
mas não ousavas
porque era amarga
a palavra que vaticinava
o medo das
memórias que escondiam
o sinal do teu
corpo cansado
……………
agora ,mãe
sublevo.me em ti
………………………………rugas
há braços
no lodo silêncio no cais
.as
gaivotas rasam os barcos
e estes
trazem rostos sulcados
.abraços
.
.
.
rugas
são
estradas
percorridas pelos ventos
.o sul é
agreste
.os
meninos calçados
de
alpergatas
usam
rugas nos pés
.nas mãos
a geada
greta
na faina
sangram
as tardes
azuis amargadas pelo
frio
dos
humanos
pais
.
………………………………...
a Rosa iniciática,
18 de Março de 2006
o verso agita-se Na
mão
direita
afinam-se
os instrumentos
os poetas
contemplam
a noite Dos amantes
restam
voos
sentados
os corpos
esperam
a
orquestra vestida a rigor O glamour
das damas
pavoneia as asas do pavão
ferido de
morte
Silencia-se
A
contemplação das faces
percorridas por libidinosos desejos
Os dedos
nas cordas dos instrumentos náuticos
tocam o
sopro do vento
pianíssimo
nas veias abertas
das
gitanas estrofes
Tambores rufam
no
conforto das emboscadas africanas
Moda
São Carlos Paris Scalla Nova Iorque
o coito da mulher
(burka ou
o casto
amor
)
abafado no desassossego das coifas
púbicas
de velhas
ninfas sonhadoras Fashion o poema do solista
solto na
partitura anorética O POETA
Louco
…………………….
.mãe.mar
O húmus
mulher
gera
a palavra
SER
é princípio
carnação
Vida / água
sangue / lágrima
selada
na mão
que
trabalha
além
embala
o dia
e
sopra
o medo
fácil
aquém
É seiva / carne
é huri / mãe
é huria / mulher
Mar
……………………… .cantar áfrica
‘nha mãe / Rita
não fez escola
foi senhora
vivida
fora da vida
sanzala
e moleque
desejei
SER
o poema Sol
enganei
encantei
namorei
neguei
a filosofia
de vida / terra
fui espanto
dormente
quente
sinhá
do pensamento
fiquei
…………………………………
.é
poeta
tem rugas
na face / ‘nha mãe
Rita
calos nas mãos
gretadas
da fome
seus olhos
não olham
vêem / Clara
a noite
vestida
de leões
amarelos
as estrelas
vestem
a madrugada
a duas mãos
sós
quem ensina
o caminho
de regresso
ao nada
?
Rita
‘nha mãe / crioula
?
sinhá
África
pendão rubro
desfralda
a face negra da
estrela
fogo
o canto
da noite cálida
é sussurro / mágoa
de além mar
sinhá
Flô/Rosa
botou
lírio ciciado novo
na agreste
leste
sanzala
África
continente
mãe
…………………………………………..um jardim à beira mar
[ Shopia de Mello Breyner Andresen ]
regressa a poesia
à casa mãe
ao mar?
se
hydra cala
o significado frio
das ondas rasas
alguém chora o canto
duma poeta maior
onde se guardam
os sonhos dos
deuses?
na tarde
há sopros de vento
frio
e
o silêncio amora a
maresia
é tarde
demasiado tarde
meu amor
quando a noite
abraça e mergulha
o luar
…………………………um outro 25 de abril
descrevo o voo da
ave
na palavra que se
quer una
meu amor
no corpo do melro
negro de bico
laranja
há solfejos do
nosso luto
e
nas notas soltas
do meu
sorriso/farpa
move.se
o espanto do
animal
ferido de morte
[o canto maior
do sonho
sabe a nós]
meu amor
tudo o mais
é o gesto
inacabado
dum a deus
às madrugadas
confiantes de um
outro abril.
…………………………..o Verbo
sou o princípio de
mim
inscrita
na palavra fim
sou altar
ou ara
profano
sagrada em ti.
…………………………….três variações para o mesmo tema – primavera
I
adormeço no
sussurro do vento
e a vida
confessa.se em
mês de Março
no sentido
primeiro
da folha
.ao renascer.
II
na sagração
da vida
as árvores
revestem
o verde
e a folha recomeça
a dança
do ventre
em grito prematuro
III
convencionou.se o
ritual
das estações
e o renascimento
selou
o princípio de uma
nova
velha era
anulou.se o
feitiço
.prima Vera.
………………………………renascimento
gerada na lágrima
da flor
virginal
em aparente jardim
ou
universo
eis o princípio do
poema
que em mim renasce
amor
finito
…………………………………regresso
como a ave que
adormece
entre as mãos
ausentes do poeta
retorno ao húmus
da terra
exangue
para continuar
humana
entre as pedras e
as árvores
densas
da barbárie
…………………………………canto.não
vejo cravado no
teu rosto
a ave
que em ti
se fez
beija –flor
foi voo
de pássaro
canto
em memória
murmúrio
diletante
grito
que se perdeu
em nada
.
quem ousa
prender meu
pássaro
de mil cores?
………………………………………………rendição
recostei.me no
meio do teu sorriso
e deixei.me ficar
sem ousar o tempo
ou o espaço
finito do sim e do não
adormeci no
cansaço
quieto
sensorial
qual adolescente
que se perde
no primeiro beijo
amante
rendo.me
à evidência
de um acorde
…………………………………………tela I
sei que já não és
o branco
da ave que havia
na minha tela
perdeu o jardim o
verde e
rasgou o castanho
a terra
há um secreto
silêncio feito para ti
pássaro azul
.
.
.
escusa
o poeta pintor
sou eu
………………………………………………………tela II
sento.me em frente
da tela
vazia
e olho.a ao longo
do pincel
absorto em azul
espalho.o em
pensamentos cruzados
e rebato.o
imperturbável
senhora da cor e
do movimento
quente
sensual
um rosto de menina
percorre o espaço
fechado do não
querer
uma mão
…………………………………………………tela III
rasgo a palavra e
verto.a na cor que trazes
inserta na tela
dos sentimentos oblíquos
tortuosos
largo o pincel
deixo.o pendurado
no silêncio
do impossível
retorno
nada é exacto
nada
o igual nunca
existiu
em si
nada
além duma tela em
branco
como premonição de
Thanatos
……………………………………………desconforto
às vezes sou
humana
às vezes não
às vezes cubro o
rosto e vergo o corpo
muito frio
o vento sopra
calmo na manhã
a nuvem bate as
asas frias
então
a ave
pousa em contraluz
no reflexo do sol
é verão
e
a palavra
renasce no quintal
da casa
onde os
malmequeres
se refugiam no
silêncio das tardes
.
.
&nbs