Maria Gabriela Rocha de Gouveia Martins assina também pelo pseudónimo NUT. É responsável pela Casa Museu João de Deus, em S. Bartolomeu de Messines, desde o dia 27 de Outubro de 1997.

Nasceu em Faro, no dia 1 de Fevereiro de 1948. Com formação na área do Direito (Universidade Clássica de Lisboa) e em Ciências da Documentação, nas áreas de Bibliotecas e Centros de Documentação. Sócia fundadora da Associação de Jornalistas e Escritores do Algarve, é presidente da direcção do Prémio Litterarius, Racal Clube.

Tem publicado crónicas e artigos em vários jornais e revistas da região do Algarve. Cultiva a poesia e o conto: “Inquietação” (poesia e conto), Editorial Minerva, 2006. Participou na obra colectiva “Poiesis”, Vol. XIV (poesia), Editorial Minerva, 2006; “Poiesis” Vol. XV (poesia), Editorial Minerva (no prelo); Revista Litterarius (poesia e conto), Imagem Local, 2007, etc.

Representada no poema “O Estado do Mundo”, criado no ciberespaço, 2003, a editar em livro; representada na Antologia A Poesia serve-se fria!, no âmbito da II Bienal de Poesia de Silves, 2005.

 

Páginas Web:

http://cantochao.blogspot.com – Canto.Chão;

http://the-last-dance.blogspot.com – The Last Dance;

http://ksar-ash-sharajibe.blogspot.com – ksar ash.sharajibe 2;

http://palaciodasvarandas.blogspot.com – Palácio das Varandas (blogue colectivo);

http://www.harmoniadomundo.net − Harmonia do Mundo (site).

NUT

 

 

 

 

 

 

 

 

 

..........o meu país

 

no meu país há cidades e

vilas e ruas e vielas e casas

e pessoas e bichos e memórias invioladas

raptadas violadas negadas

 

pequenas e grandes

 

no meu país há gente bonita e feia

que fala e diz e desdiz e mente

 

o meu país

 

no meu país há flores e pássaros e

árvores e répteis e

mares e rios e barragens e praias

 

pequenas e grandes

 

no meu país há girassóis virados ao sol e flores

e crianças murchas que nunca cresceram

 

o meu país

 

no meu país dito de marinheiros há barcos caravelas

rotas e reis e infantes e cartas de navegar

 

no meu país feito em fogo

o medo voltou

 

é o vento grito lamento

 

novo

 

do meu velho país

 

 

___________________________________

 

 

 (  a todas as grandes mulheres

                             A minha Mãe )

 

 

 

 

 

………………………………………….mãe

 

 

 

de onde escrevo ,reservam.se as cores

as indefinidas cores que fazem o teu jardim

onde as árvores e OS pássaros trocam odores

e o Sol deixa um calmo rasto do teu perfume

 

...............mãe

 

é por isso que te colho as rosas

e deixo.as pousadas no teu colo à espera

do sopro do vento

que me concebeu em terra

vida ou

cinza aberta em tarde cristalina

 

...............

 

a água que verte das tuas mãos em concha

enche pomares de sorrisos serenos e

reveste os rostos crispados

dos trabalhadores que não pudeste

cantar

 

...............mãe

 

a voz atraiçoou o canto dos pardais

e o melro voou quando saiu de ti

em soluço

solidário

 

era primavera

e tu querias

mas não ousavas

 

porque era amarga a palavra que vaticinava

o medo das memórias  que escondiam

o sinal do teu corpo cansado

 

……………

 

agora ,mãe

sublevo.me em ti

 

 

 

………………………………rugas

 

 

 

há braços no lodo   silêncio no cais

 

.as gaivotas rasam os barcos

e estes trazem rostos sulcados

.abraços

.

.

.

rugas

 

são estradas

percorridas pelos ventos

 

.o sul é agreste

 

.os meninos calçados

de alpergatas

usam rugas nos pés

 

.nas mãos a geada

greta       na faina

sangram

as tardes azuis amargadas pelo

frio

dos humanos

 

pais

.

 

 

 

………………………………... a Rosa iniciática,

                                           18 de Março de 2006

 

 

 

 

             o verso agita-se         Na

mão direita            

afinam-se os instrumentos

os poetas

contemplam a noite Dos amantes

restam

                                voos

                                sentados

os corpos esperam

a orquestra vestida a rigor        O glamour

das damas pavoneia as asas do pavão

ferido de morte

                               Silencia-se

A contemplação das faces

percorridas por libidinosos desejos

Os dedos  nas cordas dos instrumentos náuticos

tocam o sopro do vento

                              pianíssimo

                              nas veias abertas

das gitanas estrofes

                              Tambores rufam

no conforto das emboscadas africanas           

 

                               Moda

                               São Carlos Paris Scalla Nova Iorque

                                o coito da mulher

                               (burka ou o casto            

                                amor )

                                abafado no desassossego das coifas

púbicas

de velhas ninfas sonhadoras    Fashion       o poema do solista

solto na partitura  anorética                          O POETA

 

Louco

                                       

 

 

……………………. .mãe.mar

 

 

 

O húmus

mulher

gera

a palavra

                         SER

é princípio

carnação

Vida / água

sangue / lágrima

selada

na  mão

que

trabalha

 

além

 

embala

o dia

e

sopra

o medo

fácil

 

aquém

 

É seiva / carne

é huri / mãe

é huria / mulher

 

Mar

 

 

 

……………………… .cantar áfrica

 

 

 

‘nha mãe / Rita

não fez escola

 

foi senhora

vivida

fora da vida

 

sanzala

 

e  moleque

desejei

 

                    SER

 

o poema Sol

 

enganei

encantei

namorei

neguei

 

a filosofia

de vida / terra

fui espanto

 

dormente

quente

 

sinhá

do pensamento

 

fiquei

 

 

 

………………………………… .é poeta

 

 

 

tem rugas

na face / ‘nha mãe Rita

calos nas mãos

gretadas

 

da fome

 

seus olhos

não olham

vêem / Clara

a noite

vestida

de leões

amarelos

 

as estrelas

vestem

a madrugada

a duas mãos

 

sós

 

quem ensina

o caminho

de regresso

ao nada

?

 

Rita

‘nha mãe / crioula

?

 

sinhá

 

 

 

                                   África

 

 

pendão rubro

desfralda

a face negra da estrela

fogo

 

o canto

da noite cálida

é sussurro / mágoa

de além mar

sinhá

 

Flô/Rosa

 

botou

lírio ciciado novo

na agreste

leste

sanzala

 

África

 

continente

 

mãe

 

 

 

…………………………………………..um jardim à beira mar

                           [ Shopia de Mello Breyner Andresen ]

 

 

 

regressa a poesia

à casa mãe

                                  ao mar?

 

se

hydra cala

o significado frio

das ondas rasas

                                 alguém chora o canto

                                 duma poeta maior

 

onde se guardam

os sonhos dos deuses?

 

na tarde

 

há sopros de vento frio

e

o silêncio amora a maresia

 

é tarde

                                demasiado tarde

meu amor

quando a noite

 

abraça e mergulha

 

o luar

 

 

 

…………………………um outro 25 de abril

 

 

 

descrevo o voo da ave

na palavra que se quer una

 

                                          meu amor

 

no corpo do melro

negro de bico laranja

há solfejos do nosso luto

e

nas notas soltas

do meu sorriso/farpa

move.se

o espanto do animal

ferido de morte

 

                                      [o canto maior

                                       do sonho

                                       sabe a nós]

 

meu amor

 

tudo o mais

é o gesto inacabado

dum a deus

às madrugadas

confiantes de um outro abril.

 

 

 

…………………………..o Verbo

 

 

 

sou o princípio de mim

inscrita

na palavra fim

 

 

sou altar

ou ara

 

profano

sagrada em ti.

 

 

 

…………………………….três variações para o mesmo tema – primavera

 

 

I

adormeço no sussurro do vento

e a vida

confessa.se  em mês de Março

no sentido  primeiro

da folha

 

.ao renascer.

 

 

II

na sagração

da vida

as árvores revestem

o verde

e a folha recomeça

a dança

 

do ventre

em grito prematuro

 

 

III

convencionou.se o ritual

das estações

e o renascimento

selou

 

o princípio de uma nova

velha era

 

anulou.se o feitiço

 

.prima Vera.

 

 

 

………………………………renascimento

 

 

 

gerada na lágrima da flor

virginal

 

em aparente jardim ou

universo

 

eis o princípio do poema

que em mim renasce

 

amor

 

finito

 

 

 

…………………………………regresso

 

 

 

como a ave que adormece

entre as mãos ausentes do poeta

 

retorno ao húmus da terra

 

exangue

 

para continuar

humana

entre as pedras e as árvores

 

densas

 

da barbárie

 

 

 

…………………………………canto.não

 

 

 

vejo cravado no teu rosto

a ave

que em ti

 

se fez

 

beija –flor

 

foi voo

de pássaro

 

canto

em memória

 

murmúrio

diletante

 

grito

que se perdeu

                                        

                                         em nada

                                         .

                                          quem ousa

 

prender meu pássaro

de mil cores?

 

 

 

………………………………………………rendição

 

 

 

recostei.me no meio do teu sorriso

e deixei.me ficar sem ousar o tempo

ou o espaço finito  do sim e do não

 

adormeci no  cansaço

 

quieto

sensorial

 

qual adolescente que se perde

no primeiro beijo

 

                                                       amante

 

rendo.me

 

à evidência

 

de um acorde

 

 

 

…………………………………………tela I

 

 

 

sei que já não és o branco

da ave que havia na minha tela

 

perdeu o jardim o verde e

rasgou o castanho a terra

 

há um secreto silêncio feito para ti

pássaro azul

 

                                             .

                                             .

                                             .

 

escusa

 

                                               o poeta pintor

                                               sou eu

 

 

 

………………………………………………………tela II

 

 

 

sento.me em frente da tela

vazia

e olho.a ao longo do pincel

absorto em azul

 

espalho.o em pensamentos cruzados

e rebato.o

 

imperturbável

senhora da cor e do movimento

 

quente

sensual

 

um rosto de menina percorre o espaço

fechado do não querer

 

uma mão

 

 

 

…………………………………………………tela III

 

 

 

rasgo a palavra e verto.a na cor que trazes

inserta na tela dos sentimentos oblíquos

tortuosos

 

largo o pincel

 

deixo.o pendurado no silêncio

do impossível retorno

 

nada é exacto

nada

o igual nunca existiu

em si

 

nada

 

além duma tela em branco

como premonição de

 

Thanatos

 

 

 

……………………………………………desconforto

 

 

 

às vezes sou humana

às vezes não

às vezes cubro o rosto e vergo o corpo

muito frio

 

o vento sopra calmo na manhã

a nuvem bate as asas frias

                                                          então

a ave

pousa em contraluz

no reflexo do sol

                                                          é verão

                                                          e

                                                  a palavra

renasce no quintal da casa

 

onde os malmequeres

se refugiam no silêncio das tardes 

                                                         .

                                                         .

                                                 &nbs