MIGUEL TORGA
(1907-1995)
Miguel Torga por Isolino Vaz
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INSÓNIA
Cá estou de sentinela no meu posto. Como não posso ver o inimigo, Adivinho-lhe as formas e o poder. Negra força que cerca o meu abrigo, É um fantasma difuso a combater.
Por que razão quer triunfar, não sei. Quando o senti no sono e acordei, Já descera a viseira e arremetia... Noite, sudário da desconfiança, O véu que te protege a cobardia É que tira grandeza à tua lança!
Miguel Torga
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INSOMNIA
Here I am, standing sentinel. I am not able to see my enemy, But I can guess his shape and all his power. Darkest force that lays siege to my shelter, Indistinct ghost coming after me.
He wants to win, but I just don’t know why. I felt him in my sleep and I woke up. Down was his beaver, he was attacking me… Oh night, sudarium of mistrust, It is the veil that hides your cowardice That takes away the greatness from your lance! *
Miguel Torga
* Tradução de Fernando Henrique de Passos |

HISTÓRIA ANTIGA
Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava, e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.
E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da Nação.
Mas,
Por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque não gostava de crianças.»

«SÍSIFO»
Recomeça…
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar
E vendo
Acordado,
O logro da aventura,
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde com lucidez te recomeças.
Diário, XIII, pág.20.

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«Eu acredito na História. Por isso, espero que ela escarre um dia sobre esta época, agoniada de nojo. Será tarde, evidentemente, para que os tartufos de agora sintam o cilindro da justiça a brunir-lhes a grandeza, e para que os humilhados tenham ainda em vida a desforra que merecem.»
Miguel Torga, Diário IV [1947] *
* Cit. por Dora Gago, Imagens do Estrangeiro no Diário de Miguel Torga
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