leve sorriso
vi que nevava em
galhos nus
sobre eles
inclinava-se piedoso um rosto
subi ao silêncio
soava leve o seu
sorriso
de criança muda
meu coração a procurar
na abóbada das sombras
a sua morada
e havia luz na alegria
que deixei muito
próxima
da fonte do bosque
onde bebi a água mais
azul
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é noite e o teu corpo
cai
é noite e o teu corpo
cai
como folha num outono que te pertence
és sangue vivo na respiração da chama
aquele cantão de lembranças
a dissipar-se
como a veste da tua morte definitiva
semente de nenhuma esperança
e a certeza que já passaste alguma vez por aqui
os primeiros homens e mulheres
esta árvore dos pântanos
e o dilúvio interno
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Pensamento
Achando o espaço onde
cabe o princípio.
Mergulhamos as mãos na esperança, retirando-as ao fim de um tempo
mediano, antes que se convertam em raízes.
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na cidade há
um terraço
na cidade há um terraço
onde me debruço
o ar é grande
e apetece respirar o céu
tudo isso
são coisas que precisas de saber.
é como se todo o chão do mundo fosse pequeno
para caber dentro dele o meu olhar.
algo parecido com retratos a preto e branco
coisas que fundas me falam à memória
por isso, tão longamente adeus te digo
tão sem nada
tão depressa
pois longe espero dormir
o sono branco da nascente
junto ao ninho das árvores
onde fui pássaro antes de ser gente.
Lisboa, 30 de Junho de
2007
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tuas
mãos escrevendo a eternidade
sem que tu dês pela
veloz mudança
velada de silêncio
em teu cântico
há um modo da infância
que entoa o hino do sol
no cristal dos teus olhos
onde navegam barcos
como se dança fosse
carregados de pétalas da noite
as tuas mãos escrevendo
na aérea matéria do mundo
a eternidade.
2006, Maio
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a mais clara estrela
os olhos vão tão
longe
procuram-te no rasgo do espaço
na mais clara estrela
e já na lâmina acesa
do meu sono pergunto:
- onde pousa a voz?
de súbito desliza o branco
iluminado
no secreto sopro
2006, Maio
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chove
chove
e o mundo é grande
igual a um deserto
que não cabe em nós
nunca somos de um mundo apenas
é isso que nos dói
quando andamos sobre o soalho
desta casa
escoando para as fendas os barcos que vida
tem
estou hoje num território
onde
todos os despojos se amontoam e dispersam
dentro do meu olhar
talvez não saibas
mas divido contigo
uma coisa feliz
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semeia
este poema
semeia este poema no dia
disseste
do corpo a morte
como a derrocada da casa
repara
como labora a chuva sobre
a terra
disseste-o tão próximo de
mim
2007-07-22