HARMONIA DO MUNDO

 

 

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POESIA

 

 

MARIA COSTA

 

Maria Costa nasceu na aldeia saloia da Malveira, concelho de Mafra, em Fevereiro de 1970. Licenciou-se em Direito.

Publicou em 2004 o seu primeiro livro de poesia Sentimentos no Silêncio, tendo ainda representação em algumas antologias poéticas.

 

 

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leve sorriso

 

 

 

 

vi que nevava em galhos nus

sobre eles inclinava-se piedoso um rosto

 

subi ao silêncio

 

soava leve o seu sorriso

de criança muda

 

meu coração a procurar na abóbada das sombras

a sua morada

 

e havia luz na alegria

que deixei muito próxima

da fonte do bosque

onde bebi a água mais azul

 

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é noite e o teu corpo cai

 

 

é noite e o teu corpo cai
como folha num outono que te pertence
és sangue vivo na respiração da chama
aquele cantão de lembranças
a dissipar-se
como a veste da tua morte definitiva

semente de nenhuma esperança
e a certeza que já passaste alguma vez por aqui

os primeiros homens e mulheres
esta árvore dos pântanos
e o dilúvio interno

 

 

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Pensamento

 

 

Achando o espaço onde cabe o princípio.
Mergulhamos as mãos na esperança, retirando-as ao fim de um tempo mediano, antes que se convertam em raízes.

 

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na cidade há um terraço

 

na cidade há um terraço
onde me debruço
o ar é grande
e apetece respirar o céu



tudo isso
são coisas que precisas de saber.

é como se todo o chão do mundo fosse pequeno
para caber dentro dele o meu olhar.

algo parecido com retratos a preto e branco
coisas que fundas me falam à memória
por isso, tão longamente adeus te digo
tão sem nada
tão depressa
pois longe espero dormir
o sono branco da nascente
junto ao ninho das árvores

onde fui pássaro antes de ser gente.

 

Lisboa, 30 de Junho de 2007

 

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tuas mãos escrevendo a eternidade

 

 

sem que tu dês pela veloz mudança
velada de silêncio
em teu cântico


há um modo da infância


que entoa o hino do sol
no cristal dos teus olhos

onde navegam barcos
como se dança fosse
carregados de pétalas da noite

as tuas mãos escrevendo
na aérea matéria do mundo

a eternidade.

 

 

 

2006, Maio

 

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a mais clara estrela

 

 

os olhos vão tão longe

procuram-te no rasgo do espaço
na mais clara estrela

e já na lâmina acesa
do meu sono pergunto:
- onde pousa a voz?

de súbito desliza o branco
iluminado
no secreto sopro
 

 

 

2006, Maio

 

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chove

 

 

chove

e o mundo é grande

igual a um deserto

que não cabe em nós

 

nunca somos de um mundo apenas

é isso que nos dói

quando andamos sobre o soalho

desta casa

escoando para as fendas os barcos que vida tem

 

estou hoje num território

onde

todos os despojos se amontoam e dispersam

dentro do meu olhar

 

talvez não saibas

mas divido contigo

uma coisa feliz

 

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semeia este poema

 

 

 

 

 

semeia este poema no dia

disseste

do corpo a morte

como a derrocada da casa

 

repara

como labora a chuva sobre a terra

 

 

 

disseste-o tão próximo de mim

 

 

2007-07-22