HARMONIA DO MUNDO

 

 

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POESIA

 

 

MARIA AZENHA

 

 

Maria Azenha nasceu em Coimbra.

Licenciou-se em Ciências Matemáticas pela Universidade

 de Coimbra.

Exerceu funções docentes nas Universidades de Coimbra, Évora e Lisboa, em Escolas Secundárias e de Ensino Artístico.

 

 

 

 

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I

 

Recordo os roseirais do tempo, as esmeraldas, as suas memórias
o verde é a cor das árvores seculares impenetráveis
ouço as noites cantar pelos campos dentro dos cedros
a morte acende dois castiçais movendo a pupila dos olhos

de um lado para outro há um agitar alto de crateras
a lua abre os lençóis da luz aos lábios dos vulcões da noite
poemas que se entranham noutros poemas dentro da aragem
e fundem-se as vozes dos jardins das corolas
luz inesgotável face da água
anjos da eternidade pedalando para sempre
e cantando em violinos aéreos no perfume dos lilases


encontro-me na posição da chama que se desliga do corpo
sou uma paisagem vertical e grande
atravessada por um instrumento cirúrgico

sou uma limalha de sons uma borboleta ávida
que magneticamente atrai outras palavras ao tacto e à vidência
um renascimento uma lembrança uma vocação tremenda


pontos de água e fogo alimentam a boca-ânfora de uma criança
amor é o seu nome , um abstracto nome.
em grandes bosques de silêncio eu amo esta criança
dentro da aurora infantil dos seus dedos
pelas ramagens verdes o fresco fulgor das galerias de sombras
o mistério atravessa-a numa pedra acesa
da sua boca brotam o arbusto de um relâmpago, uma flecha
em todo o seu lento e científico esplendor
oh secretos lábios da minha amada infância
que rebenta em magnólias incendiadas em flor

e quando me inclino sobre os diques dos poentes
o fogo me recolhe em seus barcos de licor e mel
caio brutalmente latejando numa gruta aberta
perdida entre as altas torres das cidades
e as suas negras portas


os objectos parecem vozes nas pontas dos lápis
lá fora os semáforos estão cheios de fórmulas
apagamos as mãos mutilando os gestos
pela noite descem rosas brancas de neve nos bosques

corro então alucinadamente para onde sou visível
os meus gritos mostram raras jóias na chaminé das casas
milhares de homens passam incessantemente
é nas palavras que me deposito em cinzas

uma raiz da noite aprende a respirar. estou acordada
vejo com outros olhos as aves e a pupila dos astros
dom que ascende da clareira dos bosques

 

 

in De Amor ardem os bosques - edição limitada

 

 

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Oval branca

 

 

Este é o livro das horas que faz dançar minha mãe.

Este é o livro das rosas  cerimoniosamente escrito  de aromas e preceitos.

É  um livro que transborda   do resplendor  dos mortos em música de câmara.

Apresento-me  vestida  em oval branca com o fogo verdejante das montanhas;

No alto campanário das tílias há uma pétala que goteja  e sangra. 

Eucaliptos e chaleiras fervem o  chá  de buda.

 

2010-02-22

 

In “O TORMENTO DA NEVE” ( http://www.otormentodaneve.blogspot.com )

 

 

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hoje falaram-me de amor

 

hoje falaram-me de amor

gritaram-me aos ouvidos a palavra amor

disseram-me que o amor é amor e

as pessoas choram em casa fechadas

na televisão que trazem dentro do peito

 

com a palavra amor fazem-se grandes coisas

não sei se já ouviram

mas hoje falaram-me de amor

 

as folhas descidas em maio chovem nos passeios

podem ser gravadas numa caixa de lágrimas

lembram gotas da chuva que caem em cima dos pobres

porque há amor e pobres para amar na palavra amor

 

habito desde sempre um lugar de pedras

dou-me conta que a palavra amor

deve custar muito dinheiro

 

 

(do CD O Mar Atinge-nos)

 

 

 

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um cardume de silêncios

 

um cardume de silêncios
move-se dia e noite
dentro das mãos

beleza que não cabe em galhos ou em ramos
de
palavras aquáticas
que irrompem também das árvores
em terno e incisivo barco

as mulheres carregam grávidas
frutos doces
em seus frágeis ramos

o poema encerra ali o estágio mais alto da verdade:
um livro-casa
um livro-água
com peixes brancos


o mundo inteiro fervilha
em folhas ofegantes
nas fontes

ressignificando  o jardim das mãos

 

 

2008, Março, Lisboa

 

 

 

 

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à volta do poema sem voz

 

 

o Sol aceso sobre a página do caderno onde escrevo. os lençóis do vento batem nas folhas das árvores, e ouço as letras da primavera balouçarem no campo das mesas. vivem na força do poema que passa rápido. não consigo projectá-lo na voz de fora. não importa.

deixo-me inundar pelas suas águas.  que  nascem de uma falta.
o poema passa como expressão de um círculo com outros círculos dentro. libertar-se do centro é o seu movimento. encontrar -se no texto com a poeira da voz. escrevo cópias dele em toda a parte.
a criança deitada na noite, que chora, procura-lhe as mãos, a boca do espaço, uma voz sem voz, a palavra, pela gravidade da sombra que o cerca, a metáfora.
nelas repousam as imagens . reflectem no brilho da escrita a potência criadora da tinta.  os gestos  .
e pela primeira vez o poema fala.
o corpo sente a sua voz intocável pela distribuição das águas.
há rosas subtis que o texto vem procurar em nós.
como disse Rilke,

 

o que faz a sensualidade mais alta é a distribuição da luz.

 

 

2008, março

 

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 A Rosa de Sharon

 

 

e eu que aprendi quase tudo e nenhuma coisa
sobre a vida e sobre a morte
sobre os rostos que me rodeiam
e alguns deles me atiraram pedras ao coração

quando à luz da noite me deito
extasiada pelas chamas do fogo
que me consumiram as mãos
já não sinto dor:
estou dentro dos teus olhos.

faço parte dessas longas chamas
como de uma confidência
esperando que apareça o outro Sol
e não pergunto ao mendigo como se sente
nem ao cego como vê nem ao que não anda
porque ficou na estrada
eu própria me converto no mendigo e no cego
e no que ficou preso aos seus próprios pés.

por isso sonho descobrir todas as estrelas
que me cairam do firmamento
e faço parte como vós dos raios da aurora
das cores imensas do arco-íris e do vento
das montanhas das serras dos ecos das visões
dos misteriosos rios que passam pelas aves e pelos homens
do desfile admirável das formigas
que me arrancaram as lágrimas e agora correm
como tesouros guardados na terra em areia húmida

desejo ver-me reflectida nos olhos das crianças
contemplar a minha irmã palmeira que voou da minha infância
para ficar aqui junto a vós no meio da página
onde vamos explodindo todos juntos na poeira

tudo isto sinto quase ninguém vê
e não pergunto nada
de cada encontro guardo um tesouro
e o devolvo porque se mudou para o nosso comum destino
ao vaguearmos pelas praias com seus antigos náufragos

e o que encontrei é como um pássaro antes do amanhecer
a Rosa de El Sáron que não conhece Ocaso

inclinando-se a teus pés na palavra mais doce


e o mar a sussurrou

 

 

 

2007-10-18

 

 

 

 

 

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explicação dos espelhos

 

 

e multipliquem os espelhos que cantam

tenho o coração escondido para que ninguém o veja

conheço a chuva dos olhos e encosto o ouvido

aos joelhos

 

dou-te uma escada construída por relâmpagos

uma escada feita  de folhas e de cântaros para

matar a sede

e uma pomba dentro do poema

para que possas morrer

 

cantar num rumor

do 

fogo

 

 

 

 

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aniversário

 

 

vi na água um rosto.

pareceu-me estranho.

era um rosto
feminino
de trinta e dois anos.

chamei-o pelo nome
ele sabia o caminho.

trouxe-me de volta
um eco
uma ave
uma foice
um trevo do mar.


deitei-me à água
sem corpo
num barco branco
de
trevas


toda a noite a lua
e o fogo
foram minha coroa de pérolas.

atravessei o oceano
em minhas asas de ar

voaram para longe
sobre o espelho desfeito
do mar.


volto a clamar
pelo nome do rosto
que vi como um sonho

ao Guardião entrego
três moedas de ouro
três nomes gravados
três sinais fechados

 

 

2007-08-28

 

 

 

 

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coração que prepara a noite

 

 

sempre me disseste
que os relógios nunca existiram
e que a Terra era um campo verde de paz

quando me abraçavas
colocavas-me uma coroa de rosas à volta dos olhos,
e eu via pássaros.

agora só a flor nua
no solitário dos rios permanece,
tornaste-te invisível.

sobre a poeira que te cobre o rosto
deixo-te o meu cartão permanente de visita:

coração que prepara a noite
reflecte na água
a luz
de
uma ferida.

 

 

2007-08-08

 

 

 

 

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carta para Leyla

 

(Leyla, uma jovem iraniana, dezanove anos,
várias vezes negociada, é condenada à morte
pelo tribunal de Arak, decidindo lapidá-la)


há um barco negro que dança no teu corpo
o vento leva-me contigo para longe
ouço a tua voz encostada aos meus ouvidos

é como uma lâmina uma sombra
que
cresce no deserto

mais além

o coração em mil  destroços
os teus pequenos braços soterrados

no vazio



és tu que estás no centro
do
presépio


tu nós e o teu filho

 

 

2007-07-20

 

 

 

 

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deusas de ruas 

 

 

nem bucólicas nem divinas
nem correm o risco de ser jovens
dormem nas ruas


parecem desenhar o frio
e o futuro

com uma mão entrelaçada ao colo
e outra peregrina do vazio


cópias estelares de virgens                                    

 

 

2007-07-21

 

 

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há fotografias como punhais

 

 

há fotografias como punhais. e poemas também.

todos os poemas que escreverei já foram escritos
dou-me apenas ao ofício das trevas
de os revelar em pedaços de argila

neles todos estão impressos a chuva e o vento
e as folhas noviças dos séculos e
meu pai e minha mãe que já partiram
esvoaçando num passado remoto.

 

e também a rapariga feia e bela desfigurada pela varíola
que nunca fora amada porque não era bela
e que numa noite na taberna de Vladivostoque
se ofereceu derradeiramente a Joseph Kessel

talvez pouca gente saiba deste verso
que nunca terá sido dito deste modo
e foi acontecido durante a guerra sino-japonesa

quase ninguém esteve lá para o ver

mas eu estive. trouxe-o comigo.
é exactamente por esta razão que os meus poemas

já foram todos escritos.

 

são como chagas alastrando e crescendo em searas de fogo

estando  entre a terra e as estrelas.

sei apesar de tudo porque li Juan Gelman
que cada lágrima é um problema insolúvel

 

2007-07-14

 

 

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que sabemos do branco?

 

 

perdi tudo.

é preciso purificar a noite.
subir os degraus do fogo. destruir o corpo
pouco
a
pouco.

habito o sangue das estrelas
no clarão
mais cintilante.

a minha boca é um espelho,
a minha boca.
Deus é um espelho que se purifica no ouro.


escrevo no coração

do vento:



que sabemos do branco?

 

 

2007,Julho,12,lisboa

 

 

 

 

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a pedra

 

 

caminho por uma pedra
essa pedra sou eu


 

encontro algures uma sombra
essa sombra sou eu

amo essa pedra
amo a luz da pedra
amo o silêncio da pedra

o fruto da pedra é Deus

 

  

2007, Lisboa

 

 

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para voltar ao princípio do mundo

 

 

sei de uma mulher
que penteava os cabelos ao sol
porque tinha no pensamento uma flor

sei que os lavava ao luar
porque tinha no coração uma corola

com a boca mordia o ar
e prendia os vestidos ao vento

era uma mulher sentada numa pedra
coroada por um lírio salgado na fronte

um dia
cortou os cabelos
atirando-os um a um ao mar


e disse: tece-me

e o mar inclinou-se por dentro
para tecer

o poema

 

 

2007, Lisboa

 

 

 

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quando acordei

 

 

quando acordei já não estava
ao colo de minha mãe.
tinham fechado as janelas da casa.
as portas eram agora grandes muralhas.
e eu sentada sobre uma pedra
fiquei para sempre do lado de fora.
muito alto muito alto o tecto
traça o gesto que destrói
as estrelas de há milénios.

há um punhal cravado no jardim da sala
onde minha mãe me pegava ao colo.

para não ouvir os gritos das gotas de água
que caem ainda hoje das torneiras
desço os degraus da chuva
não paro de descer
e num ritual muito antigo e sábio
acendo uma vela

espero a solidão de Deus no incenso a arder...

 

 

2007, Lisboa

 

 

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guardo a minha vida em livros de poemas

 

 

guardo a minha vida em livros de poemas
poemas que vou soletrando devagar
 
é sobre eles que escrevo ao início da noite
para dentro dos pomares grito o teu nome
contra o tédio dos livros mãe
é inverno frio

neva uma rosa

 

 

2007, Lisboa

 

 

 

 

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um biombo de açucenas para os espelhos

(... filha, filha, não posso dizer-te mais nada...)


agora,
entre as duas,
um biombo de açucenas
percorre mil jardinzinhos
no sangue
do
nosso coração.

o espelho da lua partiu-se.

os teus olhos
são ainda
mil
espelhos
floridos em pleno verão.

o teu amor diminuto
foi-se-me
soltando pelos dedos...


ah,
minha alma ferida,
minha chaga
de neve fundida,
junto à flor singela
de um campo de cedros
enfurecido!

as alamedas escrevem por um raio de Sol,
trarei bosques de púrpura
em um combóio de estrelas,
entornando
a mais pura luz branca... sobre o mar do teu coração...
trago-te viva.
 

ouves os repuxos falando sozinhos?
 

quantos pássaros de lírios pousam nos choupos,
e um peixe em minha fronte
com dois mares em volta
cantando...

como é difícil
fazer chegar aos teus ouvidos,
búzios!


em nossa casa há uma figueira que grita!
em tua cabeça arde uma estrela magoada ...

livra-me do suplício de te ver florir
em minha mão.

como é difícil cantar no ceptro do chão!

sou uma manta de água que te vai cobrindo
com o arco-íris dos barcos...

ouve, filha,...
logo virão as chuvas,
logo virão... e tu passeando
sobre ramos brancos de neve
com esse traje de mágoa
ante a mágica e viva flor dos lírios...


porque nascemos entre mil espelhos?

ouve,
nas avenidas há uma fonte
alumiando o sol e as estrelas...

o nosso coração arde muito longe...

 

 

2007,Julho,3,Lisboa

 

 

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ALGUMAS PALAVRAS SOBRE A SUA OBRA

 

 

 

 

A  POESIA  EM  A  CHUVA  NOS  ESPELHOS

  

 

 

Li duas vezes o conjunto de poemas sob o título genérico de A Chuva nos Espelhos, da poetisa Maria Azenha. Todos eles poemas susceptíveis de se lerem hoje, amanhã, depois de amanhã…

 

Poemas cheios de encantamento, poemas nascidos da voz sonorosa de Maria Azenha, que sempre tem conseguido oferecer-nos uma poesia novíssima pela transparência da água pura que se transfigura em alma iluminada com uma luz tão ténue e, ao mesmo tempo, uma luz tão profunda na sua abertura ao mundo.

 

A leveza com que utiliza as palavras, os encadeamentos metafóricos, a expressividade de cada verso a viver de uma plenitude muito interior, fazem-nos sentir que os seus poemas atingiram em A Chuva nos Espelhos uma magia tão penetrante que lê-los não cansa, antes nos repousa, como se inspirássemos o perfume da flor do jasmim ou da tília.

 

 Os «Mistérios» dos Órficos e dos Pitagóricos estão um pouco por cada poema. Aqui, também encontro o reflexo do mito platónico das sombras e da luz, do real e do aparente, a entrelaçarem-se em espelhos, a prolongarem imagens, a deformá-las, a torná-las bizarras, a desvanecê-las.

 

 Mas, os poemas do acervo A Chuva nos Espelhos são, como os textos da Antiguidade, rios de murmúrios suaves e cheios de uma impetuosidade tão visível, que só o som da palavra, mesmo que seja só o «som» da palavra lida, lhes confere toda a sua real dimensão.

 

 Hoje, os poemas feitos com a emoção de um sussurro de água, de rosas brancas ou de biombos de açucenas (poema «um biombo de açucenas para os espelhos»,), deveriam destinar-se a ser escutados com a finura da voz humana, ou seja,  para serem lidos em voz alta: «(...) o espelho da lua partiu-se. / / os teus olhos / são ainda / mil / espelhos / floridos em pleno verão / / (...) ouves os repuxos, falando sozinhos? / / (...) como é difícil / fazer chegar aos teus ouvidos, / búzios!» (pp. 21-22).

 

 O poema «sonho» , como alguns outros, esboça uma «pequena história» jogando, neste caso, com quatro símbolos: «pedras negras», «romãs», «túnicas brancas» e «um cubo». E, as paredes do mito enleiam as metáforas de cada frase, de cada verso : «estamos na sala as três / encontro três pedras negras / três romãs / três túnicas brancas pousadas num cubo (...) » (pág. 32).

 

 Isto, em vez de a tornar oculta, omissa ou secreta, faz transparecer toda a beleza da poética de Maria Azenha.  A poesia do conjunto de poemas A Chuva nos Espelhos oferece-nos «uma escada construída por relâmpagos / uma escada feita de folhas e de cântaros para / matar a sede» (pág. 43).

 

A «sede» que não pode deixar de crescer no deserto sem beleza em que nos atola o esquecimento da arte do poema. Aqui, neste acervo poético, há, sem dúvida, «uma pomba dentro do poema» (pág.43).

Eu gostaria de dizer que há uma pomba dentro de cada poema…

 

9 de Novembro de 2007

 

     Teresa Ferrer Passos

 

 

 

 

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