HARMONIA DO MUNDO

 

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POESIA

 

TRADUÇÕES

por

FERNANDO HENRIQUE DE PASSOS

 

CAMAREIRA DA GUINÉ EM NOVA IORQUE

 

 

A manhã era azul na alma da camareira

De um hotel de sete estrelas de Nova Iorque.

Com a humildade no olhar, dobrava os lençóis.

Amarrotados demais, pensava.

Um silêncio cortado por um assobio assustou-a.

Uma sombra negra moveu-se. Olhou para trás.

A sombra era branca como os cabelos. Um abraço

Súbito sufocou-a. Não pôde gritar. Esbracejou.

Com uma força desconhecida, libertou-se do corpo

Que lhe esmagava já as nádegas e o sexo. Deu um uivo

Violento. O seu rosto desfigurando-se, aterrorizou o corpo branco.

A mulher negra da Guiné tropeçou, mas não caiu.

Saiu do quarto. Pegou no telemóvel ao fundo do corredor.

O telefone tocou na esquadra da polícia

Da décima terceira avenida de Nova Iorque.

“Um corpo branco tentou possuir a minha alma branca”

disse, com a garganta enrouquecida de susto.    

 

2 de Julho de 2011

 

Teresa Ferrer Passos

 

 

GUINEA CHAMBERMAID IN NEW YORK

 

 

The morning was blue in the soul of the chambermaid

Of a seven stars hotel in New York.

With humbleness in her eyes, she folded the sheets.

Too wrinkled, she thought.

She was frightened by a sudden silence cut by a whistle.

A dark shadow moved behind her. She looked back.

The shadow was white and so was its hair. A sudden

Hug stifled her. She couldn’t shout. She squirmed.

With a strength that she knew not, she got rid of the body

That already was squeezing her buttocks and her sex. She howled

Violently. Her disfigured face terrified the white body.

The Guinea black women stumbled, but she didn’t fall.

She got out of the room.

She picked up the cellular phone at the end of the corridor.

The phone rang at the police station

In New York’s thirteenth avenue.

“A white body tried to possess my white soul”,

She said, her throat hoarsened by scare.*

 

July 2, 2011

 

Teresa Ferrer Passos

 

*Tradução de Fernando Henrique de Passos

 

 

HINO DO SUDÃO DO SUL

Oh God!

We praise and glorify you

For your grace on South Sudan,

The land of great warriors

And cradle of world’s civilization.

 

Oh Father Land!

Arise, shine, raise your flag with the guiding star

And sing songs of freedom with joy,

For peace, liberty and justice shall forever more reign.

 

Oh brave warriors!

Let’s stand up in silence and respect,

Saluting millions of martyrs whose

Blood cemented our national foundation.

We vow to protect our nation.

 

Oh Mother Land!

Land of milk and honey and hardworking people,

Uphold us united in peace and harmony.

The Nile, valleys, forests and mountains

Shall be our sources of joy and pride.

So Lord bless South Sudan.

 

                                            

 

Oh Deus!

Te louvamos e glorificamos

Pelas tuas graças para com o Sudão do Sul,

A terra dos grandes guerreiros

E berço da civilização do mundo.

 

Oh Terra Mãe!

Avança, brilha, ergue a tua bandeira com a estrela que nos guia

E canta alegremente canções de liberdade,

Pois a paz, a liberdade e a justiça para sempre reinarão.

 

Oh bravos guerreiros!

Ergamo-nos em silêncio, respeitosamente

Saudando milhões de mártires, de quem

O sangue cimentou os nossos alicerces nacionais.

Juramos proteger a nossa nação.

 

Oh Terra Mãe!

Terra do leite e do mel e do povo incansável,

Mantém-nos unidos em harmonia e paz.

O Nilo, os vales, as florestas e montanhas

Serão as nossas fontes de orgulho e alegria.

Assim o Senhor abençoe o Sudão do Sul.*

 

*Tradução de Fernando Henrique de Passos

 

INSÓNIA

 

Cá estou de sentinela no meu posto.

Como não posso ver o inimigo,

Adivinho-lhe as formas e o poder.

Negra força que cerca o meu abrigo,

É um fantasma difuso a combater.

 

Por que razão quer triunfar, não sei.

Quando o senti no sono e acordei,

Já descera a viseira e arremetia...

Noite, sudário da desconfiança,

O véu que te protege a cobardia

É que tira grandeza à tua lança!

 

Miguel Torga

 

INSOMNIA

 

Here I am, standing sentinel.

I am not able to see my enemy,

But I can guess his shape and all his power.

Darkest force that lays siege to my shelter,

Indistinct ghost coming after me.

 

He wants to win, but I just don’t know why.

I felt him in my sleep and I woke up.

Down was his beaver, he was attacking me…

Oh night, sudarium of mistrust,

It is the veil that hides your cowardice

That takes away the greatness from your lance! *

 

Miguel Torga

 

* Tradução de Fernando Henrique de Passos

 

 

1973

 

O ferro endurecido rosnou como um trovão

Quando Março chegou; depois, à medida que o ano aquecia

E os inválidos e os bolbos emergiam,

Eu hibernei à janela do sótão,

Fixando ramos agitados na colina,

Separados, como um agricultor doente

Cloroformizado frente a coisas sazonais

Numa baforada de fumo de cigarro e cinza caída.

 

Veio depois a Quaresma, também, como um leão

Vigoroso e indisciplinado,

Um desejo de quebrar o jejum pilhando todo o corpo;

E eu insultei-o com odores de nicotina,

Acendendo um após outro, sentindo-me arrojado,

E mergulhei na profunda desordem do estudo.

 

Seamus Heaney (tradução de Fernando Henrique de Passos)

 

 

 

Olhou com minúcia

os sintomas

os sinais

 

Tumor

dessa angústia

de sermos mortais

 

Carótida aberta

ao sonho

de mais.

 

Carlos Carranca 

 

 

         

 

At symptoms

and signs

he looked minutely

 

Tumor

of the fear

that dead we will be

 

An open carotid

letting in the dream

of more than we see. *

 

Carlos Carranca

 

* Tradução de Fernando Henrique de Passos