
POESIA SACRA
por Fernando Henrique de Passos
(poesias não incluídas na obra Retábulo)
NATAL 2011
Tempo polar.
Facas de gelo
Cortam o selo
Deste mal-estar.
Que transparente,
Quase a rachar…
Que frio lunar
Luminescente.
Pálida luz,
Vinda de longe.
Ao longe um monge
Sob o capuz.
Luz nevoenta.
Estrelas caídas
Nas avenidas
Em morte lenta.
Mas, de repente,
Transformação:
O Inverno é Verão,
O frio é quente!
Tempo-sinal,
Tempo-promessa:
Jesus regressa,
É o Natal…
7/12/2011
PÁSCOA 2011
Do alto do Madeiro,
O Teu olhar de dor
Abarca o mundo inteiro,
O mundo pecador.
Face ao olhar vazio
Da Tua sentinela,
Reténs um arrepio,
Deténs Teu olhar nela.
Toda a Humanidade
Naqueles olhos baços
Fechados à Verdade
Por mais que abras os braços.
O Teu amor, em chamas,
Até por esse algoz,
Apaga-se nas lamas
Do seu olhar sem voz.
Mas Tu estendes a mão
Que tens pregada à Cruz.
Rente ao centurião
Perpassa a Tua Luz.
A Teus pés se debruça
A férrea sentinela.
E louva-Te e soluça,
E tudo é amor nela.
Lavou-lhe a vista o pranto,
E o rosto que era imundo.
Agora o Teu encanto
Abarca todo o mundo.
10/4/2011
O PRIMEIRO NATAL DO MENINO JESUS
Que noite tão escura,
Menino Jesus!
E tu à procura…
Que procuras tu?
Teu berço vazio,
Maria a chorar…
Volta para a gruta,
Não ouves chamar?
É o teu Natal,
Tens de estar ali…
Como pode haver
Um Natal sem ti?
Pára de correr,
Menino Jesus,
Que ainda vais ferir
Teus pezitos nus…
Volta para a gruta
E terás imenso.
Tens à tua espera
Ouro, mirra, incenso…
Tens à tua espera
Pastores e pastoras,
Eles reverentes,
Elas protectoras…
Tens o S. José,
Que lá está também,
Mas, mais do que tudo,
Tens a tua Mãe!
É noite cerrada,
Já te vejo a custo.
Que buscas agora
Atrás desse arbusto?
“É uma ovelhinha,
Tinha-se perdido.
É o meu Natal?
Tinha-me esquecido…”
Já dormes de novo
No teu berço alvo.
Vela-te, a teus pés,
O bichinho salvo…
20/12/2010
PÁSCOA 2010
Ontem à noite, a Última Ceia.
Depois, a Paixão.
O sangue de Cristo, como maré cheia,
Ensopa o chão.
Hoje são as Trevas, e quem quer que creia
Implora perdão.
Perdidos no medo que o Demo semeia
Na escuridão,
Cada um aguarda, cada um anseia,
A Ressurreição.
2/4/2010
O PAI NATAL E O MENINO JESUS
Um velho de barbas brancas,
O olhar malicioso,
Gargalhadas pouco francas,
Em vez de alegria, gozo.
Embaixador da ganância,
Vem em todos os natais
Espicaçar a nossa ânsia
De querermos sempre ter mais.
Aparece em todo o lado:
“Compre isto e isto e aquilo!”
E até vende fiado,
E vende o amor ao quilo…
Volta, Menino Jesus,
Com tua luz benfazeja,
E tira o gorro ou capuz,
Ou lá o que quer que seja,
Ao nojento Pai Natal;
Tira-lhe o cinto e a estola,
Despe-lhe a farda do mal
Que lhe pôs a Coca-Cola;
Vem desnudar teu algoz,
Quem te fez desaparecer,
E faz surgir ante nós
Quem ele era antes de ser
O velho cínico e mau:
Faz surgir São Nicolau!
19/12/2009
NATAL 2009
Meu Cristo Crucificado,
Só ao ver-te escorraçado
Percebi quanto te amo.
Por isso digo: Obrigado
Pelo ditame cretino!
E em voz alta proclamo:
Que vale esse tribunal
Se se aproxima o Natal
E com ele o Deus Menino?
19/12/2009
PÁSCOA 2009
Jesus
Torturado
Na cruz
Pelo pecado
Alheio.
No meio
De dois
Ladrões.
Depois
Das humilhações.
Jesus
Morto
Na cruz.
Após
O Horto
Das Oliveiras.
Após
Horas inteiras
A agonizar.
Por nós.
Por nos amar.
Jesus
Ressuscitando!
A luz
Gritando
Vitória!
O Senhor
Da História
E do Amor
Venceu!
……………………
Venceu?
Desengano meu:
Passados dois mil anos
Sobre o sacrifício pascal,
Nós, seres humanos,
Persistimos no mal.
E, dia após dia,
Jesus continua em agonia…
27/3/2009
NATAL 2008
É Natal e há crise financeira,
O dinheiro evapora-se nos ares,
Vendem menos as lojas, os bazares…
Quem enche os sapatinhos na lareira?
De tanto desejar os bens terrenos,
Eis-nos todos à beira da pobreza.
Nem todos o mereciam, com certeza,
E quem mais merece é quem sofre menos.
Mas a maior pobreza que há no Mundo
É falar-se tão pouco de Jesus:
Um silêncio de trevas que reduz
A alma a lume negro a ir ao fundo.
É Natal e há crise financeira:
Este vazio saibamos nós usar
Para erguermos em nós um santo altar
À noite que é de todas a primeira!
12/12/2008
NATAL 2006
Tiram das escolas Cristos,
Os servos do deus do Mal.
Blasfemam p’ra ser bem vistos,
Mas celebram o Natal.
Matam bebés por nascer,
Os servos do deus do Mal.
Só vivem para o prazer,
Mas celebram o Natal.
Destroem a Criação,
Os servos do deus do Mal.
Só adoram o cifrão,
Mas celebram o Natal.
Jesus, vem-nos ajudar,
E lembrar a quem esqueceu
Que o que vamos celebrar
É o nascimento Teu.
29/11/2006
NATAL 2005
Passou mais um ano e mais um Natal,
Com este já vou em quarenta e sete.
Repito os costumes e o ritual,
Mas o tempo, esse, nunca se repete.
Tiraram este ano Cristos das escolas,
Os últimos Cristos nalgumas aldeias.
O novo Senhor bebe coca-colas,
Não tem ideais, nem sequer ideias.
Num mundo em que a Cruz se tornou um estorvo,
O Mal já só pode derrotar o Bem.
Meu Deus, é preciso que nasças de novo
No frio de uma gruta algures em Belém.
24/12/2005
A SEGUNDA VIRTUDE TEOLOGAL
Quis encontrar a Esperança.
Não a consegui ler nos salmos de David.
Nem no Cântico dos Cânticos.
Nem nas palavras dos profetas.
Nem nos mais sábios pensamentos
Dos mais sábios pensadores
Dos últimos milénios.
Sim, eu sei, ceguei há muitos anos,
Quando decidi que sondaria
Os abismos insondáveis
Sem deixar que ninguém me conduzisse.
Quis encontrar a Esperança.
Não a consegui ver sequer nos olhos de Jesus,
E até o Sermão da Montanha era um bloco negro,
Opaco, impenetrável.
Foi quando o meu Anjo da Guarda me lembrou
“O Estrangeiro” de Camus.
“O Estrangeiro”?, perguntei, estupefacto.
“Desce até ao fundo desse livro.
Depois, junta toda a tua força,
E vira-o do avesso.”
Incrédulo, assim fiz, contudo.
E descobri-a, a Esperança,
No reverso, nas costas, no lado-de-lá
- Do Absurdo.
11/8/2001
NATAL 2000 (II)
Sinto-me em paz com os homens,
Com Deus e com o Destino.
Esta noite, à meia-noite,
Nasceu de novo o Menino.
Sei o que devo fazer,
Tudo é claridade e luz.
Esta noite, à meia-noite,
Nasceu de novo Jesus.
Sinto-me em paz com o mundo,
Sinto-me cheio de amor.
Esta noite, à meia-noite,
Nasceu, num berço de palha,
Outra vez o Redentor.
25/12/2000