HARMONIA DO MUNDO

 

 

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POESIA

 

 

 

MICRO-ANTOLOGIA POÉTICA

de

Fernando Henrique de Passos

 

 

 

INSTANTES

 

Coleccionar instantes,

Pontos – cintilantes –

No fio cinzento do tempo.

Coleccionar diamantes.

À espera da Chegada, do Momento.

 

 

Fonte: Fernando Henrique de Passos, Entrelinhas, Sílex, Lisboa, 1992, p. 7.

 

 

 

TP 196

 

Vimos dos Açores,

Da lua-de-mel.

Pego na caneta,

Pego no papel.

 

Foram cinco dias,

Foi a vida inteira.

Agradeço a Deus

À minha maneira.

 

Voltamos a casa

Doidos de esperança.

Ela é rapariga,

Eu, uma criança.

 

Vimos dos Açores,

Vimos de avião.

Bebemos o Vinho,

Comemos o Pão.

 

Cheios de alegria

Como já não há,

Nós queremos chegar,

Queremos chegar já.

 

Vimos dos Açores,

Da lua-de-mel.

Caneta na mão,

Assino o papel.

 

 

Fonte: Teresa Ferrer Passos e Fernando Henrique de Passos, Álbum de Amor, Universitária Editora, Lisboa, 1998, p. 26.

 

 

 

AUTO-CRÍTICA

 

Há muitos que sofrem

Com o sofrimento

Do povo chinês.

Eu jogo xadrez.

 

E tu preocupas-te

Com muitas notícias

Que escutas ou lês.

Eu jogo xadrez.

 

Há carnificinas

Pelo mundo fora

Semana a semana,

Mês atrás de mês.

Todos se revoltam.

Eu jogo xadrez.

 

Há tanta injustiça,

Há tantos absurdos,

Há tantos porquês…

E eu, de pantufas,

Bem junto à lareira,

Eu, jogo xadrez.

 

 

Fonte: Fernando Henrique de Passos, As Sete Fases da Lua, Universitária Editora, Lisboa, 2000, p. 31.

 

 

 

O MAL

 

Olhei-me no espelho.

Vi atrás de mim uma sombra esverdeada,

De contornos vagamente simiescos.

Voltei-me, e já lá não estava nada.

Mas, nas minhas costas,

Soou do espelho uma gargalhada.

 

 

Fonte: Teresa Ferrer Passos e Fernando Henrique de Passos, Retábulo, Universitária Editora, Lisboa, 2002, p. 68.

 

 

 

NATAL 99

 

Pai Natal, oh Pai Natal,

Traz contigo o Deus Menino!

Não tragas cartões de crédito,

Não tragas brindes, descontos,

Não tragas taxas e pontos,

Não tragas prémios, vantagens,

Automóveis e viagens.

Não mostres mulheres despidas,

Seduzidas por perfumes.

Não acenes às crianças

Com espingardas, bombas, gumes,

Capazes de espedaçar,

Nos écrans dos jogos vídeo,

Homens como tu e eu.

Pai Natal, o Ano Novo

É ano de Jubileu;

Pai Natal, tenta lembrar-te,

Já foste são Nicolau.

Vai ver as ruas sem luzes

Do fim das grandes cidades;

Vai ver quem dorme ao relento

No duro chão de cimento

Dos tristes jardins que temos;

Vê os grandes continentes

Onde não há de comer;

Vê o ódio, vê a guerra

Alastrando pela Terra…

Chora, se ainda és capaz,

E depois enxuga os olhos

E vai lá a cima e traz

Aquele que tem nas mãos

O fio do nosso destino…

Traz a festa, traz calor,

Traz a Graça, traz o Amor -

Traz contigo o Deus Menino…

 

 

Fonte: Fernando Henrique de Passos, Horas de Trevas, Horas de Luz, Universitária Editora, Lisboa, 2003, p. 63.

 

 

 

AMOR DE GATOS 

 

Somos dois pequenos gatos

Muito, muito apaixonados.

Roçamo-nos um no outro,

Soltando doces miados.

 

De noite, sob o luar,

Corremos pelos telhados,

Acordamos os vizinhos

Que nos insultam, zangados.

 

Nós é que não nos ralamos,

Rimos dos pobres coitados -

Somos dois pequenos gatos

Muito, muito apaixonados.

 

 

Fonte: Teresa Ferrer Passos e Fernando Henrique de Passos, Novo Álbum de Amor, Universitária Editora, Lisboa, 2005, p. 26.