CRISTINO CORTES

 

Seguem-se três poemas do livro Música de Viagem,

 

Papiro Editora, Porto, 2008, pp. 44, 76 e 107.

 

 

 

 

ECOS DE FLORBELA

( I )

 

 

A voz daquela que uniu a poesia e a vida, teve

Um sonho e desejo, não se conteve na aproximação

Anda às vezes por aí, ouço-a e por intuição

Facilmente a reconheço, tão pura que nada me deve.

 

Aceita-me triste e desesperado como ando e sou

Diria também se a alma de carícias sentisse nua

E a falta lhes sentisse, qual mágoa que alastrasse à rua

E diria então que o meu resto é tudo o que tenho e dou.

 

Mas de certo o faria com ar intelectual, a lição

Do poeta que sabe ser um fingidor não esquecendo;

É esse o drama de quem no alheio olhar pérolas vendo

Pérolas canta e quer, sabendo que tudo é língua e canção.

 

Nem assim menos me afligiria o drama de Florbela

E há tantas como ela, tantas fiando o destino à janela !

 

 

(...)

 

 

 

A IMAGINAÇÃO, MEMÓRIA E SAUDADE

                               

                               ( III )

 

 

Talvez não tenham sido únicas as tardes que lá passei, tal

Uns anos antes muito gostei de outra região da Itália;

De uma forma ou de outra procuro a fonte de Castália

O fluxo dos deuses, o coração do mundo, a paz final.

 

Não esqueço as pontes, os passeios, as ruelas, os pequenos

Pátios e esconsos corredores, sobretudo uma gente

Sempre disponível e sem sono, a sensação bem quente

De serem aqueles os dias da plenitude, nem menos.

 

Para isto um homem se prepara e em paz consigo mesmo

De certo fica se ao partir o desejo lhe vem dobrado;

Por mim bem sei que hei-de voltar, mais calmo e rico, confiado

No elixir da eterna juventude, ali a esmo.

 

E assim Veneza, crescente memória, volve talismã

Dádiva dos deuses, aquática bênção, e eterna manhã.

 

 

(...)

 

 

 

PARA UMA ARTE POÉTICA, APROXIMAÇÕES

 

                             ( IV )

 

 

Procuro não tanto as palavras mas composição

Entre elas possível, nessa raiz da harmonia;

Ás vezes a estatística me safa e salva o dia

Qual construção sem projecto, antes do sim o não...

 

O imprevisto ao facto empresta o seu encanto.

A linguagem do construtor melhor se adequa

À matéria do canto, pedra a pedra nela estua

A seiva e o pólen, talvez sempre o sumo espanto...

 

E só depois sei ter o poema motivo e um tema

O continente envolve o conteúdo; o resultado

É sempre provisório, o instante é sempre adiado,

Mas prossigo, jamais desisto e não tenho pena.

 

Procura talvez entre as palavras, para além delas

A própria música se dispensa em tão altas janelas.

 

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