HARMONIA DO MUNDO

 

 

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POESIA

 

 

CRISTINO CORTES

POESIAS DO AUTOR:

POEMA DE NATAL

TRÊS POEMAS DE MÚSICA DE VIAGEM

 

ALGUMAS PALAVRAS SOBRE A SUA OBRA:

Teresa Ferrer Passos / Teresa Bernardino:

NOVOS POEMAS DE AMOR E MELODIA

ATRAVÉS DE UMA POÉTICA DA VIAGEM EM CRISTINO CORTES

José Fernando Tavares:

SOBRE MÚSICA DE VIAGEM DE CRISTINO CORTES

Luís Serrano:

MÚSICA DE VIAGEM, de Cristino Cortes

José do Carmo Francisco:

MÚSICA DE VIAGEM, de Cristino Cortes

 

 

POEMA DE NATAL

 

Nos arredores da cidade tenho uma lareira.

Acendo-a e creio que nem seria Natal

Sem a chama avermelhada dum monte de madeira

E o calor de dentro de cada um íntimo sinal

 

Esqueçamos o fumo o acto de fumegar e o cheiro

E a barriga aconchegada o que nos vai custar;

O  menino nasceu, há tempo da Páscoa chegar

Um tempo de repouso um riso ao mudar-lhe o cueiro

 

Nem haveria Natal sem frio e sol e quem me dera

Voltar a um coração de criança neste dia;

Acreditar no que é próprio natural a alegria

De quem nada receia tudo sabe e tudo espera...

 

Assim penso fixando e remexendo as brasas da lareira.

É Natal, sim, é Natal desta e de muita outra maneira.

 

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Seguem-se três poemas do livro Música de Viagem,

 

Papiro Editora, Porto, 2008, pp. 44, 76 e 107.

 

 

 

 

ECOS DE FLORBELA

( I )

 

 

A voz daquela que uniu a poesia e a vida, teve

Um sonho e desejo, não se conteve na aproximação

Anda às vezes por aí, ouço-a e por intuição

Facilmente a reconheço, tão pura que nada me deve.

 

Aceita-me triste e desesperado como ando e sou

Diria também se a alma de carícias sentisse nua

E a falta lhes sentisse, qual mágoa que alastrasse à rua

E diria então que o meu resto é tudo o que tenho e dou.

 

Mas de certo o faria com ar intelectual, a lição

Do poeta que sabe ser um fingidor não esquecendo;

É esse o drama de quem no alheio olhar pérolas vendo

Pérolas canta e quer, sabendo que tudo é língua e canção.

 

Nem assim menos me afligiria o drama de Florbela

E há tantas como ela, tantas fiando o destino à janela !

 

 

(...)

 

 

 

A IMAGINAÇÃO, MEMÓRIA E SAUDADE

                               

                               ( III )

 

 

Talvez não tenham sido únicas as tardes que lá passei, tal

Uns anos antes muito gostei de outra região da Itália;

De uma forma ou de outra procuro a fonte de Castália

O fluxo dos deuses, o coração do mundo, a paz final.

 

Não esqueço as pontes, os passeios, as ruelas, os pequenos

Pátios e esconsos corredores, sobretudo uma gente

Sempre disponível e sem sono, a sensação bem quente

De serem aqueles os dias da plenitude, nem menos.

 

Para isto um homem se prepara e em paz consigo mesmo

De certo fica se ao partir o desejo lhe vem dobrado;

Por mim bem sei que hei-de voltar, mais calmo e rico, confiado

No elixir da eterna juventude, ali a esmo.

 

E assim Veneza, crescente memória, volve talismã

Dádiva dos deuses, aquática bênção, e eterna manhã.

 

 

(...)

 

 

 

PARA UMA ARTE POÉTICA, APROXIMAÇÕES

 

                             ( IV )

 

 

Procuro não tanto as palavras mas composição

Entre elas possível, nessa raiz da harmonia;

Ás vezes a estatística me safa e salva o dia

Qual construção sem projecto, antes do sim o não...

 

O imprevisto ao facto empresta o seu encanto.

A linguagem do construtor melhor se adequa

À matéria do canto, pedra a pedra nela estua

A seiva e o pólen, talvez sempre o sumo espanto...

 

E só depois sei ter o poema motivo e um tema

O continente envolve o conteúdo; o resultado

É sempre provisório, o instante é sempre adiado,

Mas prossigo, jamais desisto e não tenho pena.

 

Procura talvez entre as palavras, para além delas

A própria música se dispensa em tão altas janelas.

 

 

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ALGUMAS PALAVRAS SOBRE A SUA OBRA

 

 

 

 

NOVOS POEMAS DE AMOR E MELODIA

 

 

 

Neste tempo de Outono, um tanto quente e soalheiro, foi dado à estampa um novo livro de poemas de Cristino Cortes. Novo não inteiramente, pois o autor publicou, em 1999, Poemas de Amor e Melodia na Universitária Editora, com extra-textos a cores do Pintor Mário Silva.

 

Nesta edição de 2009, dada a lume pela Papiro Editora, Cristino Cortes retira as ilustrações, mas acrescenta vinte e quatro outros poemas “espalhados pelos vários conjuntos que o integravam e por um novo, «Diálogos poéticos»”, como nos informa o autor em “Nota Prévia” a esta edição.

 

Um pouco contrastante nas temáticas, o acervo poético acrescentado possui, no entanto, as características já bem vincadas na versão de 1999 e em outras publicações poéticas do autor.

 

Pensamos que os vinte e quatro poemas novos aqui acrescentados seriam suficientes para dar a Cristino Cortes ensejo a um outro título, a acrescentar às publicações anteriores.

 

«Estou disponível, alma aberta, desponta-me o sorrir». Eis um verso do poema “Quem dormir na minha cama” que revela bem o sentir franco e espontâneo que a sua palavra alcança nos textos que nos tem oferecido, quer em prosa, quer em verso.

 

Poemas de Amor e Melodia é formado por sete partes: «Amor»; «Melodia»; «Todos os dias»; «Intermezzo»; «Novas teorias»; «Diálogos poéticos» e «Cor». Todas estas partes recebem uma atenção ao quotidiano que merece ser relevada, neste breve comentário ao texto poético e ao seu inegável e oportuno contexto.

 

O dia a dia do poeta, os obstáculos da vida profissional, os encantos da vida familiar, o inesperado da beleza das cores e dos seus sentidos mais incógnitos, a fragrância da música instrumental como entoação inspiradora, são algumas tónicas que se acentuam em Cristino Cortes com uma ênfase veemente e cheia de transparência.

 

Em cada estrofe, o poeta transfere-se para a folha de papel em branco. Num «dar-se» vertiginoso, autentica-se no dizer pronto e lírico. Num fazer-se novidade a cada momento, bem mais parece ter um arado a acompanhá-lo no “amanho” da terra, que aqui significa o “amanho” do poema.

 

Lembrem-se os poemas (já incluídos na edição de 1999): “O Amarelo”, “O Cinzento”, “O Verde”, “O Vermelho”, entre outros alusivos às cores.  Neste passeio divertido, os versos deambulam numa magia de palavras inconformadas e/ou conformadas acerca da alma, das formas e dos sentidos das várias cores presentes na natureza e, afinal, também presentes em cada um de nós.

 

Vejamos alguns exemplos: «Hora de expectativa e preguiça / É o cinzento a cor destes dias»; «Ao vermelho se me inclina a alma / Não sei se por essa ser a tonalidade / Do sangue e do heroísmo, rubras papoilas»; «Do verde sem saber faço a minha divisa / A cor dos meus campos e de todo o jardim»; «Mesmo uma qualquer outra palavra azul pode bem ser / Se azul for o coração do poeta que dessa forma a diz».

 

Os poemas sobre os dias de semana servem eles sobretudo para salientar, mais uma vez, a ansiedade do poeta perante a banalidade de tantas horas, de tantos dias, de tantas situações ridículas. Então, o poema dimensiona-se com uma força anímica capaz de vencer a agrura dos minutos perdidos, a rudeza das horas mal empregadas, a estranheza de cada dia monótono, sem razão de ser aparente.

 

É então que o poema adquire a feição de um divertimento. Torna-se uma bola de humor ou um berlinde de sátira. É o caso do poema «Segunda-feira» em que surgem versos deste jaez: «Custa a recuperar da vaga preguiça / Do lastro que a véspera acumulou; / Mas se a alguém tal sensação não visitou / Decerto já não sabe às quantas anda…».

 

No poema «No dia dos namorados» evidencia-se a sátira ao comércio: «Ao comércio não quero nenhum mal mas de mim / Não levam nada, alérgico que sou a rebanhos / Publicidade, estatística, males tamanhos».

 

A mesma ironia aparece em poemas como «Desejos de Ano Novo» ou «Canção de um candidato a médico». Deste último, respigamos alguns versos: «Dia após dia me fazes crescer / Essa bíblia da tensão arterial; / (…) / Cada dia que vai passando o teu estímulo / Me eleva ao perigo o nível do colesterol… (…)».     

 

Poemas feitos ao longo dos longos dias, são um testemunho das vivências da cidade movimentada e feroz, dos citadinos apressados e incompreendidos. Tudo se mistura em fluxos e refluxos de uma poesia à procura de Amor e Melodia, como nos propõe o poema «Regra de Vida»: «Insiste. Insiste sempre.  / / Mesmo que a perspectiva escasseie / As circunstâncias não te ajudem / Os deuses refinem pela ausência / /  Os ecos não te respondem? Insiste. Insiste sempre. (…)».   

 

 1 de Novembro de 2009

Teresa Ferrer Passos

 

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ATRAVÉS DE UMA POÉTICA DA VIAGEM

EM CRISTINO CORTES

 

 

 

Acabado de publicar o livro de poemas Música de Viagem da autoria de Cristino Cortes, foi a sessão de lançamento nos "Encontros de Escritas", a decorrer, então, na Póvoa de Varzim. Editado, em Fevereiro de 2008, pela Papiro Editora, tem, na contracapa, uma Nota de Leitura do poeta António Salvado.

 

É significativo que o autor tenha dividido Música de Viagem em seis Partes: «Canções e outros poemas musicais», «Coisas de família», «Intermezzo», «Paisagem e povoamento», «Outros poemas» e «Para uma arte poética, aproximações». O autor talvez tenha pretendido criar uma ordenação temática que tornasse mais claro e rigoroso o objectivo de mais esta sua publicação.

 

Na 1ª parte, a música constitui uma privilegiada forma de inspiração em que Cristino Cortes escreve em torno de uma natureza que fala, que canta, que sussurra e que penetra na sua interioridade, como se toda uma longa sonata ou uma larga sinfonia se desenhasse em cada palavra, em cada verso, em cada poema.

 

Lembro, do poema «Movimento aquático», estes versos perfumados de uma sonoridade bem viva: «Corre corre veloz / E não deixes de correr / – Parar é ficares só / Tombares, a morte quer dizer...» (pág.13).  E, também, do poema «A Origem das coisas», estas palavras com a emoção a vibrar de acordes de música transcendente: «Não têm as gaivotas palavras  / E são belas! / Não sabem ler, voam com alegria / E têm toda a poesia / Quando há sol e é de dia!» (pág. 14).  Poderia ainda dar outros exemplos desta poesia a transparecer «Ritmos trocados» (pág. 18).

 

Em «Coisas de família», 2ª parte deste acervo, o poeta faz como que uma homenagem aos poetas da sua predilecção, como Garrett, António Nobre, Junqueiro, Pascoaes, Florbela Espanca ou Pessoa. E, a este último, dedica um extenso poema dialogado, envolto numa pouco usual coloquialidade poética em torno dos diversos heterónimos com que o Poeta de Mensagem identificou os seus escritos poéticos, sempre com a sua usual ironia e, também a sua adulta ingenuidade (pureza interior).

 

Como Fernando Pessoa criou, quase a brincar, personalidades tão cheias de identidade própria, com uma integridade de comportamento unívoca e "inteira", que só os vindouros haviam de conhecer, pois nenhuma dessas obras seria publicada durante os seus quarenta e sete anos de vida.

 

O poema «Um café com Pessoa, exactamente noventa anos depois», de verso longo, a extravasar sentidos a divergir e, também, a confluir, tem noventa versos, como a comemorar o dia 8 de Março de 2004, dia que perfez os 90 anos sobre a assinatura do primeiro heterónimo, Alberto Caeiro (com este heterónimo assinou o acervo de poemas, O Guardador de Rebanhos, escritos, como disse Pessoa, de «uma assentada», datado de 8 de Março de 1914).

 

Nesta poema-homenagem aos heterónimos do Poeta, escreve Cristino Cortes, em tom jocoso, no citado poema «Um café com Pessoa...»: «Com que então, meu Caro Fernando, hein!, como é?, quem diria / Da Silva o bom do Alberto Caeiro?! (...) / (...) para suposto pastor pareceu-me que conviria / Um vocábulo assim ligado à terra, à natureza de que ele é parte... (...)» (p.48).

 

«Paisagem e povoamento» é a parte dedicada à poesia inserida nas viagens que se inscrevem em países, em cidades, em bairros, em monumentos. Aqui podemos ver, com o encantamento ou com a decepção, com a alegria ou com a tristeza, os lugares que acalentam ou que ferem o olhar do poeta. Veja-se o poema «Coisas da cidade»: «Aqui estou à sombra de Cesário, por um dia sabendo / Que o Constantino mora próximo e apenas lamentando / Tão poucos haver nesta cidade por onde vamos andando / Oh Lisboa, cidade tão bela, acorda por favor!» (p.66).

 

E, mais adiante, no mesmo poema, Cristino Cortes revela a sua sensibilidade aos recantos de encanto da capital: «(...) o aroma das flores / O canto das aves, saber o que é um ninho, sentir as dores / Do tempo que muda, da cidade que cresce e se espanta» (p.67). Um dos poemas que melhor alcança o sentido do viver na grande e vetusta cidade chama-se «A caminho da Graça». Com um enlevo que só seria natural numa pessoa nascida e criada na casa de seus pais, em Lisboa, Cristino Cortes oferece um retrato muito expressivo do belíssimo bairro da Graça, bem na "gema" da capital: «A caminho da Graça, duas ou três vezes por semana / De S. Vicente descendo ao Limoeiro e pelo Aljube / Terminando na Sé e em Santo António, ou pelo Caldas / Alcançando a Baixa onde por fim terminam as subidas / E descidas, périplos tantos oh maravilhosa Odisseia!» (pág.68).  O gosto da viagem breve ou prolongada, já surge nos livros anteriores de Cristino Cortes, designadamente, Relances de Maré e Vida (1998), Novos Relances de Maré e Vida (2003) e Viagens, Marés e Memórias (2007).

 

De salientar, sem dúvida, a última parte «Para uma arte poética, aproximações», desta "música de viagem", em boa hora dada à estampa: trata-se de um conjunto de dez poemas em que se procura fazer de cada um deles uma síntese da teoria da arte que suporta e dá grandiosidade à poesia. Nestes poemas finais, Cristino Cortes revela o seu fascínio por esta forma de expressão do pensamento, alfobre de altas emoções e criadora de tesouros para dar ânimo às gentes que não vislumbram um horizonte de sonhos ainda realizáveis.

 

É o caso do poema «Para uma arte poética, aproximações ( VII )», de que transcrevemos os quatro primeiros versos: «Ah! Com que saudades não olho para o local / Da poesia, e sem a ver sinto a falta da música / Desse enleio que vem não sei de onde, entra e fica / Qual matutino e tónico eflúvio, sopro vital!» (pág.110). 

 

Com o mesmo sentimento indagador de uma razão para não emudecer, para não claudicar ante os obstáculos da vida, inicia o poema «Para uma arte poética, aproximações ( X )»: «Para que servirá a poesia, se não para a todos / Fazer melhores, dar uma diferente e real paz; / Não será o belo o caminho do bem, onde vás / Se altera o mundo, persistência e bons modos?!» (pág. 113).

 

O cultivo desta arte torna-se para Cristino Cortes uma forma de, todos os dias, nascer e renascer sem cansaço e com a paz do silêncio das palavras escritas. Então, imprime sempre aos seus poemas uma música nova e uma força mais intensa, uma impetuosidade mais clara e um tom de quem procura e, assim, encontra o mundo para além dos banais mundos.

 

30 de Março de 2008

 

Teresa Ferrer Passos*

* Ortónimo de Teresa Bernardino.

 

 

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SOBRE MÚSICA DE VIAGEM DE CRISTINO CORTES

 

Na vida de um autor, sobretudo quando se trata de um autor que se dedica, de forma continuada, à prática da poesia, independentemente da maior ou menor qualidade que ela possa ter, há sempre um momento que podemos identificar como o momento da maturidade de um autor.

Dir-se-ia que a expressão é já um lugar comum no seio da crítica, mas trata-se de uma expressão que, no caso vertente, merece a sua exacta aplicação. Quando penetramos no domínio poético, essa maturidade pode ser de ordem temática, de ordem retórica, ou de ordem simplesmente musical, sobretudo no que respeita à entoação e à prosódia. É o que se verifica através da leitura do mais recente livro de Cristino Cortes, autor sobre o qual já tivemos oportunidade de nos debruçar.

 Intitula-se esse livro justamente Música de Viagem. Nele se conjugam quer o gosto pela viagem (visível nos livros em prosa do autor), quer o gosto pela musicalidade que o poema traduz. Reconhecemos neste livro essa maturidade de que falávamos acima através de um conjunto de indícios nele passíveis de detectar. O sujeito poético começa por introduzir o leitor no seio da sua «música interior» através dos dois sonetos iniciais. À semelhança de outros textos poéticos anteriormente publicados, os sonetos de Cristino Cortes são formalmente elaborados ao modo shakespereano, ou seja, os dois últimos versos surgem-nos com alguma independência em relação à arquitectura clássica do soneto.

O facto de se tratar do décimo livro de poesia publicado pelo autor começa por ser o primeiro indício. Por outro lado, a revisitação de temas e de motivos que sempre foram da predilecção do sujeito poético de Cristino Cortes, é feita ao sabor de uma perspectiva diferente: a observação cuidada, rigorosa, do real (ou de um certo real); a mistura de sons na memória, aspecto visível no poema intitulado «Música interior I»; a invectiva, ora lúdica ora apaixonada, com a qual se dirige aos poetas que povoam o imaginário do sujeito; a pronunciação lírica que torna o descritivo do ambiente urbano mais límpido e menos prosaico; a virtualidade formal, que se move entre o soneto, por exemplo, e a tentativa dramatúrgica no poema intitulado «Um café com Pessoa, exactamente noventa anos depois»; o apontamento irónico, habitual na poesia do autor, surge-nos aqui mais refinado; a notação cultural, sempre presente nas preocupações do autor, acentua-se, por exemplo, na referência à expressão popular «laurear a pevide»; a riqueza do vocabulário, aqui utilizado sem melindres perante o embaraço do leitor mais desprevenido; o tom digressivo, herdado da prosa inspirada de Garrett, próprio do viajante que revela o seu gosto pelo movimento e pela mudança; a tentativa, enfim, (muito perto de ser conseguida) de reflectir acerca da própria condição poética, visível nas dez «aproximações» que surgem na parte final do volume.

Por este conjunto de aspectos, podemos afirmar que Cristino Cortes se encontra aqui de corpo inteiro, um autor que se tem vindo a revelar nos últimos anos. Essa progressiva revelação (sobre a qual a crítica não tem feito reparo) permite-nos afirmar que se trata de um «autor em progresso». De resto, a persistência é uma das características do autor, a qual ele afirma na segunda parte de «Música Interior»: «[…] Mas canto, eu canto sempre, independentemente / Do fundo musical me dando o adequado tom; / É esta a minha vida, sinto-me inteiro e bom / Neste acordo entre o fim e a forma, óbvio, presente. // Justifica-se o canto se alguém o quiser ouvir. / A viola afino, depois será Deus a decidir». Assim se pauta a poesia de Cristino Cortes: descontracção e alegria de viver.

 

José Fernando Tavares

 

 

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MÚSICA DE VIAGEM, de Cristino Cortes

  

Trata-se da última obra poética de Cristino Cortes (Papiro Editora, 2008) e é constituído por 77 poemas distribuídos por 6 partes como se fossem 6 livros independentes: “Canções e outros poemas”, “Coisas de família”, “Intermezzo”, “Paisagem e povoamento”, “Outros poemas” e “Para uma arte poética, aproximações”.

Destes 77 poemas, 48 são sonetos (47 segundo o esquema do soneto inglês, isto é, 3 quadras e um dístico, sendo o outro construído segundo o esquema habitual entre nós). O autor utiliza a rima consoante e toante e também o verso livre.

Raramente, no entanto, o verso é decassílabo sendo vulgar aparecerem versos com 13, 14, 15 e até 16 sílabas. Este número compromete um pouco o ritmo e talvez seja por isso que o poeta recorre, por vezes, à rima interna.

Feita esta pequena introdução que em nada belisca a qualidade da obra como um todo, cabe-me, pois, tecer alguns comentários que, espero, sirvam de modesto guia à leitura da mesma.

O título deve ser entendido como uma metáfora, já que o autor não se debruça sobre nenhuma peça musical, em particular, antes fala de música interior (Canções e outros poemas, p. 6 e 7), pois que como diz na p. 8 “Nada sei de música, não tenho mesmo ouvido” e de ritmo (Id., p. 18, 19 e 20). Há, contudo, uma aproximação da música à alegria; o poeta o diz, por exemplo no poema da p. 24: “Para onde se dirigirá o som desta orquestra/ […] Prodígio de harmonia, coisa rara e não funesta…// À alma empresta alegria […]”. Repare-se na rima interna a que já me referi acima.

“Coisas de família” - trata-se de um conjunto de poemas com dedicatória a autores literários ou cinematográficos: Pier Paolo Pasolini, Sá de Miranda, Garrett, António Nobre, Junqueiro, Pascoaes, Vitorino Nemésio, Jorge de Sena, Florbela, Torga, Alberto Pimenta e Pessoa.

São poemas que partem de um pretexto mais próximo ou mais longínquo com os autores a que são dedicados. É o caso, por exemplo, de “Tarde de estio” que alude ao célebre poema “O sol é grande, caem co’a calma as aves” de Sá de Miranda.

Em “Intermezzo”, palavra italiana roubada à linguagem da música e que significa intermédio, estar de permeio, entre-acto ou entremez (equivalente mais comummente utilizado no teatro) o autor apresenta tão só 3 poemas por, dir-se-ia, não se integrarem em nenhuma das outras partes.

No entanto, acho eu, funciona como um parêntesis em que à margem (?) da obra o autor se analisa: “Ligado à corrente […] eu me quero e procuro” (p. 54) ou “Elo numa cadeia que vem de longe quem sou eu / Para ajuizar do que não entendo ou nem sequer vejo” (p. 55) ou ainda a expressão de um desejo modesto mas total “Uma manhã de sol em pleno Inverno […] Dá para respirar” (p. 56).

“Paisagem e povoamento” – título pedido de empréstimo ao subtítulo do livro “Finisterra” de Carlos de Oliveira incide sobre lugares (a cidade em geral, os campos do Minho, a sua terra natal, a Madeira, Lisboa, Veneza e a oficina do poeta, lugar privilegiado onde se escrevem os poemas que abordam o real, seja o real das viagens, dos lugares visitados e o outro real que é a memória de tudo isso e ainda por extensão, o lugar da solidão que bem vistas as coisas é mais um lugar de silêncio do que de solidão).

“Outros poemas” – conjunto de 13 poemas que não obedecem a um tema comum, antes se dispersam por “faits divers” que dão pretexto a Cristino Cortes para ousar o poema longo (“Privativo e pessoal, o calendário” e “Os cabelos de Inês”). Este último é um poema narrativo, dos mais belos do livro, diga-se em abono da verdade. Copio do poema os seguintes versos (p. 83) para dar ao leitor uma simples amostra deste poema de que muito gosto:

[…]

“Olhava-a como de outras vezes. Agora estava imóvel, morta

Por entre as sedas brancas que a vestiam, os muitos círios que tanto a alumiavam

As flores que a perfumavam e Pedro não sabia como as mãos se davam

[…]

Quanto à última parte “Para uma arte poética, aproximações” trata-se de um conjunto de 10 sonetos que passam em revisão a procura da poesia, os lugares onde pode ser encontrada, o nascimento do poema, a sua construção, aquilo a que o poeta aspira ou procura retirar dela (“Esta poesia aspira ao osso, ao essencial” dirá na p. 108) e bem assim a “utilidade da poesia”. Sobre tudo isso reflecte o poeta numa linguagem simples, sem pretensiosismos de qualquer espécie.

Direi a terminar: esta obra evidencia desde o primeiro poema até ao último um grande sentido de humor e um enorme amor à vida que se traduz numa alegria sensual, dionisíaca.

Creio que com esta obra estamos em presença do que de melhor até hoje publicou o poeta Cristino Cortes.

 

Luís Serrano

 

 

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MÚSICA DE VIAGEM, de Cristino Cortes

 

 

Neste conjunto de 77 poemas, nesta «sinfonia poética» (como lhe chamou António Salvado) o autor revisita poemas de Pasolini, Francisco Sá de Miranda, Almeida Garrett, António Nobre, Guerra Junqueiro, Pascoaes, Vitorino Nemésio, Jorge de Sena, Florbela Espanca, Miguel Torga, Alberto Pimenta, Cesário Verde, Cecília Meireles, Fernando Pessoa, Luís de Camões e Manuel Simões, em Veneza:

 

«Deusa vivendo da beleza própria e exterior, Veneza / A aumenta e mantém com seu perfume, invencível filtro / De amor atraindo o tempo e os deuses, os da música / Aérea e aquática fluindo em força da natureza».

 

Música de viagem porque viaja entre o «eu» e o «Mundo» mas também viagem ao lado de dentro da construção do poema:

 

«Em todo o sítio a encontro, nas viagens que abraço / Ou imagino, também entre as pregas da rotina / Desse fluir diário, qual face de vulgar esquina / Com ela vivo e decerto que bem pouco faço! / É uma inconsciência quase, específica forma / De respirar, um pressentimento, um vago aroma / Na atmosfera se evolando ou pressentindo, oh dona / De magia e mistério, sem fixar regra ou norma! / Ela é fado ou destino, uns dirão graça ou bênção / E outros, talvez, falha, falta ou maldição, depende / Da perspectiva, objectivos em que alguém se entende / - Estes anos em que por algo bate o coração… / Ando com ela, sou-lhe fiel, e não saberia / Fugir-lhe ou deixá-la, mistério, aragem esguia.»

 

(Edição: Papiro Editora, Capa: Ana Machado, Apresentação: António Salvado)

 

 José do Carmo Francisco

 

 

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