António Manuel Couto Viana é natural de Viana do Castelo, onde nasceu em 1923. Trata-se do poeta, dramaturgo, ensaísta, memorialista, gastrólogo e autor de livros para crianças.

A sua estreia literária fez-se em 1948 com o livro de poemas O Avestruz Lírico, mas já escrevia desde 1943, pelo menos, em jornais locais de Viana, Braga, Valença e Lisboa.
Dirigiu com David Mourão Ferreira e Luís de Macedo as folhas de poesia Távola Redonda, e em 1956-1957, a revista de cultura Graal. Para além disso fez ainda parte do conselho de redacção de uma outra revista chamada Tempo Presente, entre 1959-1961.

Publicou, até hoje, mais de uma centena de obras, sobretudo de poesia, tendo algumas delas obtido honrosos prémios oficiais.

O livro Cancioneiro do Rio Lima (2001), por ele compilado, juntou-o a outros 34 poetas de várias gerações.

Desde cedo interessou-se pelo teatro, tendo colaborado como actor, cenógrafo, encenador e empresário em várias companhias, das quais destacamos o Teatro do Gerifalto. Uma boa parte da sua actividade teatral como actor, encenador e autor dirigiu-se às crianças, porventura reflexo da sua obra poética retratar um paraíso infantil perdido.

Para além da poesia e do teatro dedicou-se também à literatura infantil, através de ensaios, escrita e tradução de livros, e dirigiu, entre outras edições infanto-juvenis, a publicação Camarada (1949-1951).

Pertence ao Conselho de Leitura dos Serviços de Bibliotecas da Fundação Calouste Gulbenkian, possui o Grande Oficialato da Ordem do Infante Dom Henrique e é "cidadão de mérito" de Viana do Castelo. Em 2004, a Imprensa Nacional - Casa da Moeda editou-lhe a obra quase completa 60 Anos de Poesia, em dois volumes, de quase quinhentas páginas cada um deles. No mesmo ano, saia O Velho de Novo, uma edição da sua poesia (bela edição de luxo, com aguarelas de Paulo Ossião), com a chancela da editora portuense Caixotim.  Estas duas publicações de António Manuel Couto Viana foram prefaciadas, respectivamente, pelo Professor Doutor Fernando Pinto do Amaral e por Pedro Mexia, crítico de literatura e cinema do Diário de Notícias.

Recentemente, A. M. Couto Viana editou o livro de poemas Digo e Repito (Averno, 2008). Pouco depois, foi dada à estampa a sua conferência O Poeta do Oriente do Oriente (Instituto Internacional de Macau, 2008).

O Poeta escreve "de novo", mais uma vez, ainda e sempre "de novo"! António Manuel Couto Viana vive desde a sua juventude em Lisboa. Muitos anos foram passados num andar alugado de um antigo prédio da Rua Marquês de Tomar. Há alguns anos deixou essa memória e foi residir na Casa do Artista. A doença não permitia ali permanecer por mais tempo. Na Casa do Artista, apesar dos reveses da doença, continua a escrever.

Incansável, António Manuel Couto Viana não perde tempo a repousar. Porque o seu modo de viver confunde-se com o do herói que nunca se cansa de lutar. Sem medo dos inimigos e com júbilo pelos amigos, escreve crónica, critica literária ou poesia. Com uma prodigiosa memória, a vida, que deveras sente como a sua maior relíquia, continua a ser o cenário dos seus belos escritos, a escorregarem de si com a emoção de cada momento.

ANTÓNIO MANUEL COUTO VIANA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

POESIAS E PROSAS DO AUTOR:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CARTA A FERNANDO DE PAÇOS

 

 

Para a Teresa e o Fernando Henrique

 

 

Fernando, meu Poeta e meu Amigo:

Hoje, à direita do Pai,

Deixa que eu lembre contigo

Aquele tempo antigo

Que ainda sou e já lá vai.

 

A nossa mocidade literária,

Aberta, sem sarar em em ferida:

A tua, mais solitária.

A minha, mais partilhada coma vida.

 

Sonhos, iniciativas,

Um futuro de esperança a percorrer.

Todas as audácias vivas,

Impulsionadas para vencer.

 

A tua Fuga foi o teu começo.

Demorei quatro anos a alcançar-te,

Quando, súbito, aconteço

Poeta na própria inspiração e arte.

 

Colheste o verso em flor no teu Fértil Jardim

Que, em Segundo Dilúvio, foi arca abençoada

E, na Jangada Aérea, soube levar-te ao fim.

Nas nuvens de alta fé que foram tua estrada.

 

A tua Poesia singular

Penetra no Espírito, conforta.

É uma ave a voar.

A minha, uma ave morta.

 

Mais de sessenta anos

De convívio fraterno!

Tu, humilde como os santos franciscanos.

Eu, sempre às audições do inferno.

 

Fernando, meu Amigo e meu Poeta,

Que saudade de nós!

Tu, a voz inquieta

Em alma múrmura e discreta.

Eu cansado de ouvir a minha inútil voz.

 

17.1.2006

 

 

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FUI QUEM SOU

 

O mundo em que me vivi

Ouve-me de de confissão

E perdoa eu estar aqui

De pés no chão.

 

É já passado a revolta,

A pedra, o insulto, a vaia,

O quanto espalhou à solta

Boca e mão de certa laia.

 

Hoje, pra lá da janela

Da solidão do meu quarto,

Que transfigurei em cela

Meu pão, meu verso, reparto.

 

Nunca nego o que me sobra

Saciando alheia fome.

Assim ergui uma obra

E dei-lhe nome.

 

13.7.2006

 

 

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ESTE QUADRO

 

 

Na parede da Casa de Pedra

 

Este quadro retrata uma cidade

Adivinhada de cima.

Exacta em cada linha que a invade

E com que rima.

 

Colorida.

De uma alegria matinal

Como o nascer do ímpeto da vida

No jogo do pincel sedoso e sensual.

 

Sobre um cartão cinzento

Realça de harmonia

E pensamento.

Expande-se de forma e poesia.

 

Foi Cargaleiro que o assinou.

Tem cinquenta anos de emoção.

A sua arte é como o alar de um voo

De pássaro ou de mão.

 

6.6.2006

 

 

António Manuel Couto Viana, Disse e Repito, Averno, Lisboa, 2008,

pp. 32-33, 22 e 43

 

 

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«Porém , o mais sentido "tufão", que desabou sobre a Leal Cidade do Nome de Deus de Macau, aconteceu a 20 de Dezembro de 1999, na dignidade de uma comovida cerimónia de despedida. Não o anunciara o farol da Guia, o primeiro das costas da China, frente ao mar revolto.

Sabiam-no já, fatalistas, resignados, esta vida, estas gentes, estas moradias, estes palácios e praças e jardins, estes templos e igrejas, amados, venerados, em cinco séculos de história portuguesa, que os tiveram como seus.

Tremeram os alicerces de tudo isto, as raízes cingidas à terra fecunda, geradoras de poetas, de santos, de heróis.

Tremeram, antes de ameaçar ruir com fragor.

O poeta não assistiu ao sismo que a natureza havia imposto. E, que, Deus louvado!, não causou danos materiais, nem feridas que não sarassem.

Findara já a sua tarefa de três anos de enamorado e pedagogo.

Mas o coração deu-lhe um grito. E escreveu,  a sangrar, poemas húmidos de lágrimas. Como este, com que remata a deambulação por um passado que respira como presente e sonha como futuro, ainda que os lábios lhe murmurem (quem sabe se para sempre!): Macau, adeus!»

 

Macau, eu conheci-a

Numa mesa redonda,

Juntando o Oriente ao ocidente

Lidavam, par a par, em cada dia;

Ambas afeitas à onda

Fecunda e activa do presente.

 

Cansou a História

De as ver entrelaçar raízes

E sem ignorar-lhe um passado de glória

Sonhou-lhes futuros mais felizes.

 

Afastaram-se os dois da mesa.

O Ocidente, a chorar, disse adeus à cidade.

Levava uma bandeira portuguesa

Junto ao peito, a escutar o pulsar da saudade.

 

 

 

Texto de uma Conferência (2007) inserida no livro O Poeta no Oriente do Oriente, Instituto Internacional de Macau, Colecção Mosaico, Vol. V, 2008, pp.41- 42.

 

 

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QUEM, DO NATAL ?

 

Quem esperamos ?  Quem,

No silêncio, na sombra, no deserto ?

O Menino divino de Belém,

Ou o rei Encoberto ?

Esperamos alguém:

Qualquer que tenha o coração aberto.

 

É demais esta ausência, este vazio !

Quem adorar, servir, como Deus e senhor ?

– O que estender a ponte sobre o rio

Da miséria e pavor !

O que apascente e que semeie em desafio !

O que disser : – Eu sou !  E for.

 

António Manuel Couto Viana, 60 Anos de Poesia, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, Lisboa, 2004, Vol. I,

p. 476.

 

 

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EXCERTOS DA PEÇA DE TEATRO INFANTIL DE ANTÓNIO MANUEL COUTO VIANA

 

ERA UMA VEZ... UM DRAGÃO

 

in 10 Peças de Teatro Infantil, Serviço de Publicações da M.P., pp.18-21.

 

(...)

 

Cena I

 

(Entram, pela direita, Catrapuz, Catrapaz e Catrapiz, em passo de dança. Vestem-se e movem-se como bonifrates. Catrapuz traz às costas uma trouxa feita de uma capa garrida, Catrapaz segura uma longa espada e, finalmente, Catrapiz toca numa flauta qualquer melodia burlesca)

 

Catrapuz      (apontando o grupo de arbustos)

               Oh, que lugar excelente

                   Para a gente

                   Descansar um bom bocado:

                   Confortável... sossegado!...

                   Tu não achas, Catrapaz?

     Catrapaz      (arrogante)   

                     A quem é forte e audaz

                            Qualquer pouco satisfaz.

                            Mas ouçamos o que diz

                            Catrapiz.

 

    Catrapiz         (aparentando receio)

                        Não nos devemos fiar

                          Nas aparências, amigos!

                          Quantos perigos

                          Se podem bem ocultar

                          Sob as árvores da floresta!

 

    Catrapuz        Ora esta!

                         Então não querem lá ver!?

                         Que poderemos temer?

 

   Catrapaz        (fazendo voltear a espada acima da cabeça)

                         Com a minha espada na mão,

                          Tudo levo de roldão!

 

  Catrapuz        (irónico)

                        Mesmo... um dragão?

 

Catrapaz           (com espanto)

                          Um dragão?!

 

Catrapuz           (com receio)   

                            Um dragão?!

 

Catrapiz             (misterioso, baixando a voz)

                          Lembrai-vos de eu ter contado

                          Que, à noite, no povoado

                          Onde dormimos, eu vira

                          Um vulto estranho rondar

                          O castelo do lugar?

 

Catrapaz           Ah! Julguei que era mentira!

 

Catrapuz          (em à parte, para o público)

                        E era. Posso apostar!

 

Catrapaz         Pois de novo o divisei,

                        Há pouco, quando passei

                        Aquele grupo de arbustos!

                         (apontando para fora da cena)

 

Catrapuz         (irónico)

                       Tu não ganhas para sustos!

 

Catrapaz          (medroso)

                         E o dragão é assim-assim.

                        De tamanho regular?

 

Catrapiz           Podes lá imaginar:

                       Parece que não tem fim!

 

Catrapuz         Tem 'scamas?             

 

Catrapiz           Como a pescada,

                        E a língua, muito encarnada,

                        Dez palmos fora da boca.

 

Catrapaz          Tem juba?

 

Catrapiz            Como um leão!


Catrapuz           E cauda? 

 

Catrapiz            Como um pavão!

 

Catrapaz           Bigodes?

 

Catrapiz            Como uma foca!

 

Catrapuz           Tem garras?

 

Catrapiz             Como um jaguar!

                          E os olhos, sempre a brilhar,

                          São dois sóis na escuridão!

 

Catrapaz            Tem asas?

 

Catrapiz              Como um vampiro!

 

Catrapuz             E dentes?

 

Catrapiz              De crocodilo!

 

Catrapaz             E tem voz?

 

Catrapiz              Como um trovão!

 

Catrapuz            (fingindo-se medroso)

                          Mas que medo um bicho assim

                          Deve causar! Ai, que horror!

 

Catrapaz            (readquirindo a calma)

                         Esqueceste-te de mim,

                         Da minha audácia e valor?

                          (para Catrapiz)

                         Que pena não me teres dito

                         Que o bicho andava pr'a aí!

 

Catrapiz            Podias ficar aflito...

 

Catrapaz            Só se o ficasse por ti!

                          Contra a minha valentia

                          A fera nada podia!

                          Bastava eu erguer a espada

                          E zás!, a língua encarnada

                          Cortaria, em mil bocados,

                          Bem medidos e contados,

                          Que, em fricassé ou assados,

                          Seria manjar do céu.

     

                  (...)

 

                                    

                    

 

 

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ALGUMAS PALAVRAS SOBRE A SUA OBRA:

 

 

 

 

TEATRO E CONTO*

 

 

A. M. Couto Viana acaba de publicar o seu primeiro livro de contos. A novidade encheu-nos de espanto. Contos agora, quando só esperávamos poesia, mais poesia?  Oito contos que nos absorveram, nos puseram, por momentos, longe da desalentada realidade do quotidiano, contos que nos encantaram. E dizemos assim pela temática que versam e pela forma literária com que o Poeta de Avestruz Lírico os revestiu. Eivados de sentido histórico, estes contos – a que chamaríamos pequenas narrativas de sabor picaresco – apresentam tonalidades linguísticas e uma musicalidade formal que não podiam deixar de se revelar num Poeta como A. M. Couto Viana. Por outro lado, as frases curtas e concisas, a temporalidade de cada facto histórico, os pormenores do real, possuem, uma estruturação marcadamente teatral – arte tão do gosto do autor (ele próprio diz ter sido a sua grande vocação), arte que preencheu toda a sua vida, desde os distantes tempos do liceu de Viana do Castelo.

A dramaticidade é uma constante na sua obra, designadamente toda a sua Poética, como se pode verificar em 60 Anos de Poesia, obra publicada, em dois volumosos tomos, pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda (2004). A título de exemplo, lembremos o poema  «Condenado à Infância» (Ob.Cit., Vol.II, p.408), quase em publicação simultânea pela editora Caxotim na antologia O Velho de Novo (p.276): « – Abro-me na saudade e na aventura. / Abro-me, livro, na ânsia / Do fruir da leitura. / A alma, que fragrância! / Quem me cura de mim, neste fim? Quem me cura / Da infância?»).

Quando a poesia salta das suas mãos, o monólogo adquire um carácter dialogante, pleno de uma linguagem toda oralidade, toda virada para aquele que o escuta, como se estivesse na sua frente. A teatralidade está nela contida como se não se pudesse separar nunca do seu autor. A veia dramatúrgica de A. M. Couto Viana, irrompe, pois, na poesia, nas narrativas e nas muitas peças de teatro infantis. Agora, no livro de contos que titulou Meias de Seda Vermelha e Sapatos de Verniz com Fivelas de Prata, publicado pela editora Prefácio, no ano corrente, de novo, o dramaturgo e o actor de mãos dadas com o contista.

Com a sua notável fluência verbal, com a sua ironia, tantas vezes incisiva, há, neste acervo de contos, um tom acentuadamente lúdico, jogando com a piada, com a brejeirice, com uma finura já pouco usual. O carácter mordaz de muitas passagens dá uma tónica de grande vivacidade à encenação narrativa que adquire, então, uma graça invulgar. Vejamos alguns exemplos: «Não era boa rês em matéria de fêmeas, mas era um herói.» (p.36); «Quando soube que o Champer tirara a carta resolveu fardá-lo» (p.15); «A Gracinha apareceu de branco, toda renda e laços. Um anjinho de procissão. A pena de corvo do chapéu de D. Elisinha tremia de emoção» (p.43); «Fora o fidalgo que aproveitara a amizade que o unia ao historiador para encobrir os amores com a cozinheira e o fruto deles, quando a soberana Ordem de Malta o cobiçava para Cavaleiro» (p.72).

Imbuídos de um realismo elegante, natural e, ao mesmo tempo, jocoso,  em cada palavra ressoa o metal de uma voz de experiência feita, sem nunca o autor de Lendas do Vale do Lima (Ed. Valima, 2002), perder de vista o sonho e a pureza dessa infância distante e, afinal, aqui mesmo, aqui, tão dentro da alma do contista novel, do poeta todo a escrever sobre as realidades ridículas de um passado que o marcou, como a poucos e que se renova em cada obra encetada, num renascer contínuo, sem ruptura com os tempos presentes. A propósito, citemos uma passagem do conto «Meias de Seda Vermelha e Sapatos de Verniz com Fivela de Prata», que deu o título ao livro: «O cónego era um quarentão atraente, bem musculado, peito ancho e cinta estreita, ondas largas no cabelo azeviche, a disfarçar a coroa que o velho barbeiro Biscaia se aprimorava a abrir-lhe com a navalha afiada» (p.75).

A coloquialidade de A. M. Couto Viana, torna estes contos um símbolo vivo da memória e uma filigrana esculpindo a saudade tão portuguesa e a reconstruir-se, no tempo e na intemporalidade, com  aquilo que é breve, que é efémero, como o teatro, mas cujos fragmentos criam o caminho das coisas eternas. Como escreveu, recentemente, o filósofo Paulo Borges, «a saudade que fundamos no passado para a projectar no futuro, no anseio de um futuro onde reencontremos o bem vivido, é afinal a saudade do eternamente presente, a saudade do haver vivido, momentaneamente, a plenitude do agora» («Da Saudade» in Cadernos Vianenses, nº34, Viana do Castelo, 2004, p.73). Com o apetite aguçado pela grácil oferta destes contos aos seus leitores, o Poeta escreve, continua a escrever novas e fecundas narrativas, novos e fecundos contos que nos acordam para a juventude que pode persistir até depois dos oitenta.


Teresa Bernardino


* In Suplemento «das artes das letras», O Primeiro de Janeiro, 21 de Junho de 2004. A autora assinou pelo ortónimo Teresa Ferrer Passos.

 

 

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DOIS POETAS, UM PINTOR OU UM CORPO DE TRÊS*

 

  

 

Assinados por António Manuel Couto Viana e José Cúcio, os poemas inseridos em Um Corpo de Três, livro recentemente editado pela Vega, com o Patrocínio da Câmara Municipal de Mira, enquadram-se num interessante conjunto de outros tantos «poemas», que são as pinturas de Victor Milheirão a ilustrar várias páginas deste acervo poético, em que se procura conciliar a poesia com a beleza das terras de Portugal e com as velhas tradições das suas gentes, a pouco e pouco a entrarem nas sombras do esquecimento.

Que transparência nos versos autobiográficos de António Manuel Couto Viana! Que sensibilidade presente na memória dos velhos hábitos da sua avó: O «Vê-la rezar as Trindades» ou a «Colher os cachos da vinha» (p.19), alia-se ao gosto de fiar na roca, cozer as rendas de uma touca, dar aos sábados esmola ou correr à feira em carroção. E, também, que registo maravilhoso do seu primeiro enamoramento na adolescência, no meio da vivacidade de Viana do Castelo: «Lembro a menina de bicicleta, / A pedalar no saibro do jardim: / Cabelo negro, ondeado, a face quieta. / Lembrando-a, lembro-me de mim»(p.15). Ou ainda a saudade, após o seu falecimento, do amigo da juventude, o escritor David Mourão-Ferreira, com quem convivera tantas vezes: «E ainda esses momentos de café, / A ler poemas, a compor poemas, / A aceitar o futuro, com esperança e com fé(…)»(p.39).

E, sempre num regresso a si próprio, A. M. Couto Viana lembra ainda, nestes poemas de Um Corpo de Três - nestes poemas a soltarem-se das amarras da solidão dos tempos do cansaço e da perda -, o belo rio Lima e a sua ponte  ou a ideia da homenagem ao poeta quase póstuma, porque tão tarde, mesmo na hora em que não queria desistir, antes queria escrever ainda mais alguns papéis, viver, mais um pouco, em alguns poemas e em certa prosa repleta de lembranças. Inesquecíveis os últimos poemas de Couto Viana, em que sabiamente se espelha no que foi e revê naquilo que é agora: «Fui fonte, rio, mar… Agora, charco.» (…) «Fui Sol a pino. Agora, sou o ocaso.» (…) «Fui poeta. E o dom da poesia / Coroou-me de uma aura misteriosa» (…) «E a alma foi-me ardente. Agora é fria. / E o meu mundo todo principia / A ser prosa.» (p.43).    

A este acervo da poética vianiana, seguem-se alguns outros poemas de José Cúcio, em que destacamos o poema «O Mar e a Alma».Nele parece reflectir-se Portugal  no seu «jardim de espuma e de gaivotas» ou em «cada praia vazia» (p.63). No poema «Farol», a constância do mar presente na «roda do leme» (p.65). Nos versos de «Madeira» em que se desenha a beleza de uma ilha propícia à fantasia, com esse espantoso ambiente que envolve até ao idílico: «Porto-seguro de sonhos e romances. / Bordado fino em tela multicor. / Presépio lindo em noites de luar. / Jardim suspenso em escarpas e socalcos, /altar de orquídeas e túlipas em flor.» (p.99). Nota-se uma percepção fina de José Cúcio em relação às coisas da terra portuguesa, expressa, por exemplo, no mito da serpente (recorde-se o culto em terras da Lusitânia), mito milenar de um povo virado para o perpétuo, para a  eternidade. Vejam-se os três longos poemas que lhe são dedicados.

Poemas do mar surgem aqui e além, mas sempre numa interligação íntima com a terra portuguesa, o que, de modo particular, se observa no poema «Meu Amor, Meu Alentejo». Lembremos alguns versos reveladores desta sintonia com a interioridade vazia, dispersa e larga: «Meu amor, meu Alentejo, / és a torre de homenagem / do teu povo que resiste / mesmo sem pão e abrigo. / És o sopro de coragem / que nunca morre e persiste / em cada bago de trigo»(p.101). A terminar, José Cúcio traça o perfil da mulher de Mira , essa mulher que ostenta «rendilhados na saia / feitos d’espuma de mar»(p.103).

Entre estes poemas o desvanecimento e o repouso da colorida pintura que magnificamente os ilustra. Com a singeleza do seu traço fino, com a imaginação oferecida às figuras desenhadas, com as cores ténues e o geometrismo que o pincel desencanta, Victor Milheirão completa este Corpo de Três. Tríptico em que poesia e pintura se entrelaçam como árvores a crescer num só espaço. 


Teresa Bernardino


* Diário do Sul, 12 de Maio de 1999. A autora assinou pelo ortónimo Teresa Ferrer Passos.

 

 

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«O SENHOR DE SI»*

 

 

 

Analisar as coordenadas em que se move a poesia de A. M. Couto Viana é sempre uma aventura inesperada e surpreendente. porque, de facto, cada livro deste poeta da geração de José régio e de António Correia de Oliveira, possui a magia de nos proporcionar, não uma poética repetitiva, mas sempre renovada e, por isso, também sempre aliciante.

É que António Manuel Couto Viana, para além de artista do poema, é um artista da vida. A autenticidade com que consegue vivê-la, a atenção que lhe consigna, o amor com que a abraça, a firmeza com que a defronta, fazem dos seus poemas, não um grito de revolta exausta, mas um grito de confiança, um grito luminoso, mesmo onde a luz parece ausente. Assim se tem desocultado ao longo de já muitos anos, um poeta sempre novo na passagem lenta do tempo, desse tempo que a cronologia do relógio deturpa.

Em A. M. Couto Viana, uma viagem, uma recordação, uma experiência pessoal, não são só vivências, são, sobretudo, poemas latentes, nessa sua alma sedenta de verdadeiro sentimento, de pura emoção. E a vivência torna-se infinito enquanto dura o poema. Afinal, enquanto a memória guarde os seus versos. A transfiguração da vida na transparência da palavra tão simples como a origem, surge, precisamente, no pequeno e sábio livro que intitulou O Senhor de Si.

Nestes poemas, a reconstrução da memória desde o nascimento até à juventude. O tempo das origens do ser. O tempo do delineamento impreciso, vago, titubeante. Mas também arrojado de emoções, na ignorância de tudo e a descobrir o mundo fantástico da dor e do riso, do bom e do mau, do falso e da verdade. De tantas guerras e perversões, só para se alcançar a glória efémera de vencer…

Aqui está a criança representada em toda a sua candura. A criança recriada no poema, é o próprio poeta. no entardecer da vida, ainda o jovem a brotar em toda a sua plenitude. Nestes poemas a vibrar a lembrança do nascimento, ergue-se a sonoridade do vento, do sino, do choro; e uma estrela longínqua parece apontar já para o destino de ser poeta, ou seja, de tornar sonorosa a palavra (poema «Memória das Raízes»). Seguem-se outras evocações que marcaram o poeta desses tempos primeiros. A morte do avô é percepcionada pela imobilidade da bengala; as brincadeiras com os bonecos de papel, despertam-lhe, pela primeira vez, a ideia do que é amar (poema «Tragédia de Papel»); as imagens da Grande Guerra, são-lhe oferecidas numa revista, como se fossem imagens só de beleza.

Das guerras verdadeiras às guerras com os pequenos companheiros, a criança que o poeta é ainda, aprende. Aprende sobretudo com o infortúnio do companheiro, com os meninos «maltrapilhos de pais pobres», com a metralha da guerra civil de Espanha, que o põe «a rezar por todos os caídos», com a doença que o conduz ao primeiro contacto com a poesia:

 

«Minha Mãe, num constante, aflito sobressalto,

Sentava-se a meu lado. Eu queixava-me. E só

Me sentia melhor ao ouvi-la ler alto

Um livro milagroso a que chamava o »

 

O menino aprende. Aprende sempre. Mesmo em mais um Natal que, afinal, foi diferente, porque nele fez a descoberta de que, enquanto ele, agasalhado, «tremia», o outro «menino sorria, nuzinho, a tanto frio».

Além destes temas mais de ordem social, o poeta privilegia ainda outro: o do despertar do amor: o amor adolescente que recorda com carinho. Ou naquele dia de feira, a espreitar da janela e a sonhar com a «noite furtiva», «do enlaçar» e a «vontade de ser homem feito» (poema «O Despertar do Desejo»). Ou, na igreja, o olhar, o sorriso e, em simultâneo, o medo de «a voz do coração» o denunciar. Reparemos em alguns versos do poema «Contarelo de Amor»:

 

«Extasiava-me, entre a reza e o cântico,

O seu fino perfil, as mãos postas de santa.

E a voz do coração (romântico, romântico!)

Tinha medo e pudor de subir-me à garganta»

 

Ou outros não menos impressionantes de «Amor Tímido»:

 

«Íamos, quantas vezes, de mão dada,

Sob a chuva de Inverno, ver o mar.

Do meu amor por ti, o que sabias? Nada.

E eu reprimia o beijo que te queria beijar.»

 

 

Nesta poesia marcada pela singeleza do que há de mais íntimo no ser, tão íntimo que eclode, vertiginosa e infantil, na idade amadurecida sem sombra de envelhecimento, há toda a vibração de uma capacidade intuitiva e ingénua que só a mestria do poeta revela claramente.

Esse poeta já latente, nestes versos do poema «O Poeta Adolescente»:

 

«E a alma principia

A imaginar uma poesia,

Indiferente a quem passa.

(…) Dói-me o tema (banal!). E à luz da lua calma

Ainda me dói mais. Mas não me atrevo

A acender uma lâmpada. Escrevo

A poesia apenas na minha alma»

 

E, mais adiante, o simples gesto da ternura maternal, é o sinal para acender a luz e começar a escrever a poesia que estava ainda  só na alma:

 

«Mas, súbito (o que é a intuição das mães!),

Sinto a mão da ternura sobre a minha cabeça:

– «Tão só, na escuridão! O que foi? O que tens?»

 

Mas se António Manuel Couto Viana teme ainda o arrojo de ser poeta, conversa com aqueles que já o são, lê-os, ouve-lhes o canto. Lembremos o poema «Poesia, poesia» dedicada ao poeta Fernando de Paços:

 

«Tu já fazias versos. Mas eu, não:

Tímido em confessar a alma inquieta,

Inventava outros eus, fugindo à tentação

De ser de mim poeta»

 

Na hora de certa poesia marcada pelo estigma do incompreensível e do absurdo, escute-se, melhor dizendo, leia-se o poeta A. M. Couto Viana onde se constrói uma poesia feita com as palavras mais simples, com as ideias mais primordiais, mas também uma poesia que, a venerar a forma, traça memórias sem o limite do tempo.

 

 Teresa Bernardino

 

* Letras e Letras (Dezembro), Porto, 1992.

 

 

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COUTO VIANA E A POESIA HOJE*

 

 

 

Na sede da revista Futuro-Presente surgiu a poesia na sua expressão mais digna e abrangente: o poeta foi António Manuel Couto Viana. Do silêncio dos escaparates das livrarias ou dos jornais literários emergiu a voz sonorosa e límpida da luminosa sabedoria do verso eloquente e certeiro. Ao penetrar com os seus poemas “do além” no espaço citadino de infernal ruído, o poeta afirma não ter espaço. As “portas da cidade” foram franqueadas, mas o espaço é estreito porque os que o escutam são ainda muito poucos.

Diz-se, com frequência, que somos um país de poetas. Mas o país de poetas é ingrato para com os poetas, sobretudo com os que o querem exaltado, revivido, renovado. Eis o exemplo de Camões, nota Couto Viana. Ele foi o maior e viveu o tempo da decadência pátria. Contudo, como foi recebido o seu Lusíadas pelos contemporâneos? Era aos portugueses que ele, como nenhum outro, engrandecia. Portugueses com erros e também com grandes virtudes, assim os cantava Camões. Um Camões desprezado, ignorado, difamado, escrevia a Gesta imortal deste povo.

A. Lopes Vieira, António Correia de Oliveira e Fernando Pessoa foram outros grandes nomes da poesia portuguesa referidos por Couto Viana, na sua conferência. Todos eles movidos pelo amor à pátria que quase os desconheceu e que ainda quase os desconhece. É que não é cultura conhecer um nome, é preciso que a esse nome corresponda o conhecimento da ideia, da forma e da intenção. A cultura, considerou Couto Viana, não tem sido justa com o artista, com o poeta, com o pintor, com o prosador, em suma, com o criador. Hoje como no passado, mesmo quando tanto se propagandeava ser essa a política, dava-se mais valor ao negócio, ao que rendia capitais, porque acumular capitais era o objectivo melhor defendido e quase endeusado.

A cultura não tem sido justa e continua a não sê-lo. Nos dias que passam “quantas obras de mérito se omitem e quanta mediocridade se enaltece” até à exaustão e é difundida por grandes veículos ditos culturais e nas próprias escolas, onde desde cedo os jovens convivem com esses textos e por eles formam a sua personalidade. Para esta realidade, alertou Couto Viana, com veemência. No entanto, apesar deste panorama não ser animador ou estimulante, o poeta, o poeta que sofre as mágoas da nação, pátria e terra de exílio donde jamais se exilará, tem fé.

A fé é a alma que ilumina os versos feridos do poeta. E a esperança dá-lhe o alento, a força para lutar num campo onde ciladas e obstáculos o cercam. Portugal vive uma época sombria, apagada, como se as suas potencialidades se tivessem esgotado sob a acção de um furacão mental que na sua fúria avassaladora pouco deixou de pé. Por isso, avisa Couto Viana, é bem natural que o fim esteja próximo. Fim que será o princípio de um recomeço, de um regresso, qual D. Sebastião ressurgindo das cinzas do esquecimento.

É à poesia que a “fé extinta”, a “esperança morta”, vão “bater à porta”. A pátria esta “dilacerada”, semelhante a Cristo pascal. A ressurreição será, portanto, a única via para a realização suprema de Portugal: o Portugal do Quinto Império de que se ufanava, em tempos de Restauração, o Padre António Vieira, esse outro grande cultor da pátria, e de que dava testemunho o Fernando Pessoa da Mensagem. Esse Quinto Império que “é de alma” e porque a “alma é vida”, esse Quinto Império viverá do Espírito Lusíada.

Espírito vivo que perdura na Língua portuguesa, afirma Couto Viana, com as suas múltiplas dimensões – cultural, religiosa, mental. É esse o “génio da linguagem” que subsiste na “pátria triste” e se revela na “língua eleita”. As suas virtualidades são essenciais, porque “perdendo-a a ela que nos fica?” Esta interrogação foi a maior resposta que o poeta de Ponto de Não Regresso deu à “cidade”, à “cidade” que é o país, que é a comunidade portuguesa espalhada pelas várias partes do mundo – desde a Europa à África, à América e aos confins da Ásia.

Um poeta de profecia, de vanguarda insuspeita, de anúncio, de inconformismo, e também de esperança, quis dirigir-se à gente dispersa, vaga, emudecida pelo desespero, pela angústia da descrença e da desconfiança. Com a sua palavra fulgorosa irradiou as trevas tombadas sobre aqueles que acreditavam ir ele confiar-lhes algo que valesse a pena ouvir. Os ouvidos estão cansados de ouvir palavras falaciosas, palavras que não fazem avançar, antes mantêm tudo como antes. Talvez por esse facto já haja tantos a nada querer escutar e porque, como sentenciou Couto Viana, “o poeta é perigoso hoje”!

 

Teresa Bernardino


 

* O Dia, 27/3/1985.

 

 

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A PÁTRIA HOJE:

 UMA PERSPECTIVA DE A. M. COUTO VIANA*

 

Pátria Minha, Pátria Prometida, eis alguns títulos recentemente publicados no campo da poesia portuguesa. Títulos sem dúvida sintomáticos de uma carência psicológico-afectiva da pátria amada ou tão só desejada por quem a sente cada vez mais distante da sua merecida dimensão. Mesquinha, sem horizontes, sem esperança, a alma do povo espelha-se na alma do poeta que quer continuar a sentir que tem uma pátria, morada do passado, baluarte do presente, suporte do futuro.

São ainda estes textos, no entanto, imagem da crença numa pátria outra, ou seja, numa pátria diferente, mais feliz para os que nela nascem, vivem e hão-de morrer. A eles se junta outro não menos representativo poema: Ponto de Não Regresso. É sobre ele que nos vamos debruçar mais demoradamente. O seu autor, António Manuel Couto Viana, transmite aí algo de muito profundo, com palavras simples e directas. Transmite, paralelamente, a esperança e o desalento, a crença e o descrédito, a alegria e a tristeza, a vontade e a impotência, a firmeza e a dúvida. Com uma ideia única na mente: a salvação da pátria esquecida da sua identidade plena, comprometida pelas rupturas desastrosas e de custos que o seu tamanho físico e espiritual já não vai comportando.

Para melhor se analisar esta recente publicação de Couto Viana entendemos necessário dividir o poema em grupos ideológicos ou temáticos. Assim, surge um primeiro grupo de  poemas sobre Camões. Nestes, inspira-se no próprio Camões, retratando-o hoje: só existe em quem o lê, serve de escudo (e não de espada, é a cultura e está mudo, foi expulso de si próprio e já ninguém o lê. Em “A Camões dolorosamente” considera a pátria vazia de conteúdo, pois a glória do herói e do santo, a raça, já só as encontra na poesia. Sem motivação, Couto Viana pensa em não mais escrever. Contudo, escreve ainda. É que se o presente o oprime porque é triste e sem vislumbre de futuro, se não mesmo carregado de ambições alheias, “a voz subia-lhe na garganta” convidando-o a não cessar o seu canto. E se de novo a desgraça o abatia e prostrava, logo a pátria vinha chamá-lo.

A voz ecoa mais forte se emerge do silêncio. Apesar da noite que impedia ver a cor das bandeiras, apesar dos passos serem tão vacilantes, apesar de já não se ouvirem hinos triunfais, Couto Viana continua a escrever. Continua, ainda que só descrença e desesperança lhe provoque esta pátria das aparências, da superfície. Porque, na verdade, há para ele a outra pátria, a que está oculta. E regressa a Camões: só Camões ainda respira, só ele espelha e só ele a poderá cantar sempre.

Num segundo grupo de poemas escreve “No signo da Páscoa”. O “Tempo de trevas” é o tempo em que vive. É o tempo da espera. Assim, introduz e ressuscita a velha problemática do messianismo sebástico. O Messias, o Desejado, enquadram-se nesta atmosfera de nevoeiro, de suspeita e de incerteza. A espera é difícil porque duvidosa: “quanto tempo teremos de esperar”, interroga. O poema “Aleluia” é a expressão da transferência do messianismo cristão para a ideologia política sebastianista: “Essa, onde há-de surgir quem nos resgate: / Corpo de Deus, ou Pátria, em ascensão, / Para termos a paz no coração / E a razão por combate.” (p. 52) A pátria sangra, por isso, é preciso que a “resgate”. O binómio morte-vida em todo o poema, é constante. Como Deus permaneceu oculto também agora a pátria pode permanecer.

A repetição de certos vocábulos reflectem a angústia que domina o poeta: túmulo, mutilação, calvário, pavor, etc. E, mesmo quando julga ver alguma luz, não resiste a confessar: «No íntimo da esperança cavaram uma cova». No poema «Trovas da minh’alma sebástica», define o espaço que o rodeia: este é «escravidão» e «miséria» e estas «matam devagar». Em «Páscoa 80», «Marcham, firmes» e «Flámula de luto e de alegria», a temática do sebastianismo é inconsistentemente lembrada.

Na sua constante busca do passado, como recurso psicológico para não desesperar perante a visão presente, surge uma das figuras históricas que mais o impressiona e anima. É o Condestável Nuno Álvares Pereira, símbolo de Aljubarrota, símbolo das virtudes pátrias. E exclama: « − A nova Aljubarrota já vem perto, / ó Portugal!»

Porque hoje Portugal dorme, António Manuel Couto Viana procura no jogo entre os termos pátria e futuro, encontrar um relacionamento estreito. É o que acontece em «Heróis, amanhã». O presente tem «os pés sangrentos», porque em «paixões, ambições, pensamentos», nos «dividimos» (p.94). Utilizando expressões como legião, novos cruzados, espada, perigos, etc, respira-se uma ambiência de guerra. Aí se move o poema. Sendo um tipo de poesia idealista e patriótico-guerreira, tem pontos comuns com as manifestações poéticas divulgadas em épocas de subversão nacional como, por exemplo, o período de dominação filipina ou os anos de ocupação francesa (1808, 1809 e 1810).

A concluir Ponto De Não Regresso, A. M. Couto Viana incide na temática da ausência de liberdade nos tempos que se seguiram à revolução de 25 de Abril de 1974. Subordina-a ao título genérico de «No signo do cárcere». Em «Canção às grades» não deixa de sublinhar: «prenderam a madrugada», a «Primavera» e até o «futuro de Portugal». Volta ao tema da prisão injusta no poema «Prisioneiro na alma»: foram presos «por serem portugueses e valentes» (p.107).

Finalmente, em «Súbita vaidade», Couto Viana verifica que, apesar da dor que o consome e sufoca, há nele a confiança suficiente para pensar que as suas palavras possam ser um «aviso». Deste modo, o seu coração «está atento» e a «alma aberta ao amor e à procura» (p.112).

Poesia de raiz sebastianista, exorta os valores esquecidos ou nunca experimentados, está atenta ao desencanto e à frustração, simboliza o pessimismo tão comum na alma do português. Pelas suas características, pensamos que podemos considerar o autor de Ponto De Não regresso, o poeta mais saudosista depois de Teixeira de Pascoaes. Como este, tem saudade do passado, mas também saudade do futuro, que há-de vir: «Dias de Portugal, onde estão vossos sóis (…) / Onde estão? Onde estão? Sombras hiantes / Devoraram nos céus toda a luz do futuro” (p.42).

Com forma estilística de grande beleza e com uma fina sensibilidade, sempre poética, ao fenómeno político, é uma voz diferente no monótono panorama da actual poesia portuguesa. Recuperando velhos sentimentos, relançado passados mitos, transmite de um só ímpeto as suas ideias em cada poema que é, antes de tudo, um grito de revolta no geral silêncio cúmplice ou na submissão aos novos mandarins do poder.

 

Teresa Bernardino

 

* O Dia, 28/12/1983.

 

 

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