POESIA
CARLOS CARRANCA
Carlos Carranca nasceu na Figueira da Foz em 1957, embora mantenha há muitos anos ligações à cidade de Coimbra, à região da Lousã e a Cascais. Licenciado em História, é professor auxiliar convidado da Universidade Lusófona. É docente da Escola Superior de Educação Almeida Garrett, assim como da Escola Profissional de Teatro de Cascais. Foi presidente da Direcção da Sociedade de Língua Portuguesa. Fundador da Direcção do Círculo Cultural Miguel Torga. Fundador da Sociedade Africanóloga de Língua Portuguesa. Entusiasta da obra de Miguel Torga e de Teixeira de Pascoaes, escreveu ensaios sobre algumas vertentes deste dois grandes Poetas da Língua Portuguesa.
Mas, tem sido como Poeta inspirado e também como grande declamador de poesia que a sua personalidade rica de emoção e de uma invulgar dignidade, se tem distinguido de modo inequívoco.
Entre as suas publicações tive o prazer de publicar, em 1995, a sua análise psicológica de Pascoaes que titulou O Fantasma de Pascoaes (1ª edição, Colecção Labirinto, nº4, Edição da revista Gazeta de Poesia do Mundo de Língua Portuguesa; 2ª edição revista, Universitária Editora, 1997).
Da sua obra poética destacamos Ressurreição (Coimbra, 1992), Serenata Nuclear (Coimbra, 1994), Pedras Suspensas (Universitária Editora, Lisboa, 1996), O Poema 4 (2001), Neste Lugar sem Portas (Hugin Editora, Lisboa, 2002), Coimbra à Guitarra (Edições MinervaCoimbra, 2003) e Frátria (Mar da Palavra, Coimbra, 2008). Entre os seus ensaios destacamos Torga, o português do mundo (Coimbra Editora, 1988) e Políticos à Portuguesa no Diário XVI de Miguel Torga, in «Terra feita Voz» ̵ Revista do Círculo Cultural Miguel Torga Comemorativa do Centenário do Nascimento do Poeta, S. Martinho de Anta, 2007.
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POESIAS E PROSAS DO AUTOR
Excerto de «PRÉ-FACE» (in FRÁTRIA)
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ALGUMAS PALAVRAS SOBRE A SUA OBRA
José Fernando Tavares: Do «Mar Português» ao «Mar do Inferno»: Uma Leitura de FRÁTRIA de Carlos Carranca»
Teresa Ferrer Passos / Teresa Bernardino: |
POESIAS E PROSAS DO AUTOR:
PRÉ-FACE
«O que desejamos verdadeiramente? Tocar o coração das coisas ou, como afirmou um dia Unamuno, "nas entranhas do presente buscar a eternidade viva".
(...)
Agitar, inquietar, libertar, essa foi, é e será a eterna missão da Poesia.
Interrogo-me, frequentes vezes, se não estará a poesia mais próxima da magia do que da literatura. Ora, o Poeta não é um literato, é um mágico, sendo na dimensão transfiguradora da realidade que o Poeta se cumpre, e não no acervo de obras consultadas ou na profusão de autores citados. Não é citando os criadores que o Poeta existe, é existindo que o Poeta é.
(...)
A Poesia tenta, pela palavra, libertar-nos do ruído que aprisiona e, em função do outro, libertá-lo, religando-o à palavra perdida no aperfeiçoamento do mundo.
No princípio era o Verbo.
Todas as coisas foram feitas pela palavra, a palavra desocultadora do mundo, da Vida, da beleza.
(...)
Carlos Carranca
FONTE: Carlos Carranca, Frátria, mar da palavra - Edições, Coimbra, 2008, pp.7-9.
A minha vida é
um suicídio em permanente delírio
pela vida que não
cabe.
a vida é
tudo que arde
não cabe
em almas vazias
mas cabe
em horas vazias
do sentido que ela tem
a vida rompe avenidas
do mar que não se detém.
FOZ DO DOURO
Quem me dera
ser agora
a gaivota que poisou
sobre uma rocha.
Com seu bico coçou
o corpo...
Olhou
o mar
e de novo
voou.
EPIGRAMA
Todos
nascemos fora do tempo
e do lugar
crescemos
como o vento
sem ter onde ficar.
NATAL DO ANO DE 2007 DA NOSSA GRAÇA
Nasceu o Menino.
A surpresa não foi o curral
nem a pobreza
nem o toque divino
nem a beleza
sobrenatural
foi o sexo era feminino.
Fonte: Carlos Carranca, FRÁTRIA, mar da palavra - Edições, Coimbra, 2008, pp. 37, 50, 59 e 128.
Guitarra, meu bordão de peregrino!...
Ouve-se o destino
em tua voz misteriosa,
sempre ausente...
Guitarra - vidente,
rosa a rosa
desfolhada no presente
pétala a pétala.
Senhora de Portugal!
Guitarra - nossa - condição.
Guitarra - povo.
Guitarra universal!
Fonte: Carlos Carranca, Coimbra à Guitarra, Coimbra, Minerva Coimbra, 2003, pág.17.
Ao calor
da minha intimidade,
sinto.
E tudo quanto vejo
é este sentir
denso e profundo.
As estrelas, lá no céu, brilham.
E eu,
cosido comigo
nas sombras do meu poço,
ouço
a voz do mundo.
Ainda tenho olhos p'rás estrelas,
mas, velhas,
cintilam, cansadas,
sobre tudo que as esquece.
Olho-as nos olhos.
Uma estranha energia
redobra-lhes a tristeza
que se funde em mim
como se fosse o princípio do fim
- almas que se encontram numa prece.
Fonte: Carlos Carranca, Serenata Nuclear, 1994, pág.26.
Quantas vezes soletro o teu nome,
Mi-guel Tor-ga!...
A última é sempre a vez primeira.
Na fogueira
do teu nome,
sou eu quem se consome
- ritual da Paixão
de te escrever - .
Lembras-te da mística Santa Teresa?
"...morro por não morrer",
sentimento trágico - beleza!
Como o outro da Ibéria
também tu fazes pombas de papel,
livres vão
de Coimbra ao fim do mundo.
E eu
na fome de te nomear
do chão de Federico
ergo-me feliz p'ra te cantar.
- D. Miguel!... (olho o céu, hesito).
Pombas de papel branco
com marcas de um azul da cor do mar,
entram, regressadas não sei donde, pela janela
do Poeta. E tu, num banco,
olhando as horas sobre o rio,
olhas o casario
e os versos que da janela
vão abrindo as asas para ti,
que os vens cumprimentar.
Fonte: Carlos Carranca, Cântico em Honra de Miguel Torga - Antologia Poética, Fora do Texto, Coimbra, 1996, pág.s 42-43.
ALGUMAS PALAVRAS SOBRE AS SUAS OBRAS
DO «MAR PORTUGUÊS» AO «MAR DO INFERNO:
UMA LEITURA DE FRÁTRIA DE CARLOS CARRANCA»
«(...) Na poesia de Carlos Carranca o mar confunde-se com a imagem de um animal iniciático, simultaneamente perigoso e encantador: "Que há de primordial / neste animal / que ruge e nos encanta?". No mesmo poema, o sujeito poético não deixa de contemplar a intemporalidade do mesmo elemento: "[...] Que há de intemporal / neste mal / que nos dói e agiganta?". A interrogação espevita o leitor, e acaba por ser, ela própria, uma confirmação da verdade procurada. (...)
Como já vai sendo hábito no percurso da reflexão poética de Carlos Carranca, estamos, uma vez mais, perante uma alegoria de Portugal, país tão apaixonante de saudade quanto obscuro nos seus fundamentos e no seu destino. Esse "mar português" de que nos fala, dedicado à memória de Miguel de Unamuno e inspirado na poética pessoana, é o símbolo de um país naufragado, o sinal de um profundo descontentamento: "Obsessivo mar / lugar do meu castigo// Contigo / sei apenas naufragar. / Mar da saudade / verdade/ tumular / salgada placenta / que nos mata e alimenta [...]". O elemento marítimo impõe-se com toda a sua evidência e com toda a sua esfíngica brutalidade, o lugar onde o sonho se desfaz: "A vida é sonho sonhado / dentro do sonho. / E o mar / é esse lugar / medonho / de ser forçado a não sonhar / o sonho"(...) Os três momentos que compõem este livro "Mar do Inferno", "Via dos Peregrinos" e "Missa do Parto", afiguram-se-nos como uma peregrinação, não pelos círculos dantescos do empírio, mas sim por um experimentado percurso individual, onde o gosto pela vida (...), mas também marcado pela profunda decepção pelo tempo em que vivemos. (...)»
José Fernando Tavares
Fonte: Internet, blog "Carlos Carranca - Neste Lugar sem Portas".
VINTE ANOS DE POESIA ̵ NESTE LUGAR SEM PORTAS
«De la musique avant toute chose»
Verlaine
A poesia é Neste Lugar sem Portas − título da colectânea dos livros de poesia de Carlos Carranca, escritos nos últimos vinte anos, publicados pela editora Hugin − um lugar bem definido. É um espaço de papel em branco e é um vazio preenchido. É uma abertura para algo de secreto e também de demasiado concreto. É uma porta a abrir o caminho para outros lugares, como se não saísse do mesmo lugar, sendo este já outro lugar.
É um espaço novo a criar o espaço da liberdade. A liberdade, o espaço sem portas privilegiado pelo corpo poético. A liberdade, a inscrever-se num lugar imenso, sem portas e com uma porta aberta para o ser do poeta. O ser a libertar-se das portas e dos lugares da Imagem (1981), da Ressurreição (1992), da Serenata Nuclear (1994), das Pedras Suspensas (1996), do Homo Viator (1997) ou da Íntima Idade (2001). O ser a fazer eclodir a voz, a voz humana (assim chamava o poeta Jean Cocteau a um dos seus mais belos dramas), essa voz cheia de um som melodioso, musical, com uma música secreta, oculta música, música de origem pronta a maravilhar os instantes inesperados, os instantes da emoção já incontida e a saltar, juntando frases, palavras, sílabas, vogais e consoantes num novo e irreconhecível lugar.
É um pouco assim que nasce a poesia, que nasceu a poesia de Carlos Carranca. Uma poética de palavras musicais, melódicas, originárias e inovadoras, sintéticas e a analisar os mais imprevistos sentimentos, a dor e a alegria, a felicidade e desventura, o bem e o mal. Dos mundos subterrânicos do poeta emergem as fontes que alimentam as palavras a ecoar na voz humana. Esses mundos povoados de fantásticas figuras, de memórias mágicas, de feitiços portadores da felicidade e de bons deuses a favorecer os fiéis adoradores, mesmo de simples ídolos.
A poesia é o ofício Maior de Carlos Carranca. E porquê? Porque é, ao cultivá-la, que Carlos Carranca transmite o seu mundo, transmite-se no seu mundo ao mundo que o cerca. A esse mundo sobre que se debruça e que, ao mesmo tempo, está imerso nele e/ou nele se identifica. Esse mundo que o ultrapassa e que Carlos Carranca faz recuar à infância, às figuras lapidares da mãe, do pai, ou seja, da recôndita e indecifrável.
Neste Lugar sem Portas aparecem expressões bem enunciativas do sentido do discurso poético de Carlos Carranca: «Sinto a força da poesia / no calor rústico dos montes»(p.11); «E onde tudo é arte, / é o pão que se reparte / e a poesia»(p.51): «O poeta / é o pássaro / de asas misteriosas // Voa / a inundar / a noite»(p.90); «Tento enumerar a Vida em cada verso» (p.109). Reparemos que, desde o primeiro livro, Imagem, aqui inserido, neste acervo em boa hora oferecido aos portugueses, até ao último, Íntima Idade (2001), o poeta faz-nos desfrutar de uma poesia em que não está presente essa musicalidade encantatória que tantos poetas hoje publicados (e largamente divulgados pelos mais conceituados meios de comunicação social, em que destacamos jornais diários e algumas revistas de literatura) não alcançam. Nesses poetas falta a música, a melodia, o ritmo, a emoção e a invenção, numa conjugação propícia e mesmo indispensável a produzir a arte a que ainda se chama poesia. É que se não obedecer a estas marcas, a poesia já não o é. A poesia não é uma amálgama de palavras desgarradas, desordenadas, afinal adicionadas, ao ritmo da consciência, porque as palavras devem erguer-se ao ritmo da musicalidade da voz da consciência
Vemos hoje eclodir em numerosas publicações aquilo a que poderíamos chamar uma simulação da poesia como género literário definido desde o grande poema de Homero.
De facto, adulterando as suas leis por muito flexíveis que elas sejam, modificando a sua forma por muito inovação que se lhe coloque, desconstruindo a sua metodologia essencial por muitas novas e indiscutivelmente belas metodologias que se lhe imprimam, pode-se criar um novo género literário, mas não se deve considerá-lo poesia. Se a poesia deve não perder toda uma dinâmica criativa, recriando-se e regenerando-se, enriquecendo-se no verbo ou discurso da palavra, igualmente não deve falsear a sua identidade prórpia. Como escreveu Octavio Paz, poeta que recebeu o Prémio Nobel da Literatura, «a frase poética es tiempo vivo, concreto: és ritmo, tiempo original, perpetuamente recreándose. Continuo renacer de nuevo»(in El Arco y la Lira, 1956,p.67), não bastam palavras sobrepondo-se, não bastam palavras em catadupa, não bastam palavras simulando a palavra. É precisa a palavra a escrever-se em novas palavras, em novas simbólicas, em novas magias, mas sempre no canto das palavras a serem a música de cada palavra.
Ora a poética de Carlos Carranca está perfeitamente imbuída dessa condição fundamental e/ou fundamentante de toda a verdadeira poesia. Como exemplo lembremos o poema «Guitarra Universal»: «Guitarra, meu bordão de peregrino!… / Ouve-se o destino / em tua voz misteriosa, / sempre ausente… // Guitarra − vidente, / Rosa a rosa / desfolhada no presente / pétala a pétala. // Senhora de Portugal! // Guitarra − nossa − condição. / Guitarra − povo. / Guitarra universal!»(Ob.Cit.p.64).
E do poema pleno de música surge o poema ao instrumento musical que o povo português toca com dedos de cristal: a «Guitarra Lusitana»(p.65). Entre a poesia da música e a musicalidade da poesia está toda a voz de Carlos Carranca neste Lugar sem Portas.
Teresa Ferrer Passos
Fonte: Apresentação da antologia de poesia Neste Lugar sem Portas de Carlos Carranca no Teatro Mirita Casimiro em Monte Estoril, a 18 de Junho de 2002; Consciência Nacional, Março de 2002; www.triplov.com. (Internet) em 4 de Julho de 2002; A Avezinha, 8 de Maio de 2003.
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