HARMONIA DO MUNDO

 

 

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POESIA

 

 

PAULO JORGE BRITO E ABREU

Paulo Jorge Cardoso de Oliveira Brito e Abreu, de seu nome completo, nasceu na cidade de Lisboa, a 27 de Maio de 1960. Além de cantor, ele é Poeta, conferencista, ensaísta, filósofo e crítico literário. Licenciou-se, em 1986, em Línguas e Literaturas Modernas pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. A 30 de Novembro de 1999, Brito e Abreu recebeu, vindo do Brasil, o título de Sócio Correspondente da Academia Carioca de Letras, tendo-lhe sido outorgada, no ano 2000, pela União Brasileira de Escritores, a Medalha Peregrino Júnior, «por seu admirável labor de intercâmbio cultural». Em 2006, pelo conjunto da sua actividade como Escritor e publicista, a Escola Secundária D. Diniz concedeu-lhe, adrede e com ardor, a láurea simbiótica e medalha simbólica. Por o atro e o estertor da Pátria em que nasceu, fez Paulo Jorge Brito e Abreu, recentemente, frente à estátua de Gualdim Pais, em Tomar, um voto perante Deus e o juramento Templário. Livros Individuais: Cântico Jovem para a Tua Rebelião, 1984; O Bafo do Dragão, 1987; A Minha Tropa Foram os «Rolling Stones», 1989; Agricultura Celeste, 1992; Loas à Lua, 1996 (2ª edição, 2000); O Livro e a Lavra, 1999 (inclui o Cântico Jovem para a Tua Rebelião); Ignota Fauna, 2005.

O Autor tem assinado os seus livros por Paulo Brito e Abreu. Acrescentou, recentemente, mais um antropónimo à sua assinatura.

 

Cruz,

símbolo dos Templários

 

"Totus tuus"

Ad majorem Dei gloriam

 

   

D. Gualdim Pais (1118-1195)

Grão Mestre da Ordem dos Templários

 

 

 

POESIA

CESÁRIO VERDE E O SONHO

QUINTO IMPÉRIO

AO GÉNIO DE MIGUEL TORGA

RESSURREIÇÃO

CAVALEIRO DO TEMPLO

FLOR DO CÉU

NOVA FALA DE LUÍS DE CAMÕES

MISTAGOGIA CAMPESTRE

THEOSOPHIA

MADRUGADA

IDÍLIO FRANCISCANO

À GUISA DE BOCAGE

AS MAIAS

A ROSACRUZ DE OURO

A CRUZ E A ROSA

LOAS E LAIS A FERNANDO PESSOA

MADONNA

PRIMAVERA PASCAL

CELESTE MÃE

SÉTIMO SALMO

DOS MENINOS DA LUZ

 

PROSA

JORGE TELLES DE MENEZES: DA «SELENOGRAPHIA IN CYNTHIA»

DA EPÍSTOLA, OU SENHA, A JOÃO BELO AZENHA

A TERCEIRA MISSIVA AO MAGO MERLIN

CÉLIA MOURA: O NOME E O NUME

FRANCISCO GAIA JÚNIOR: EM DEMANDA DO ETÉREO

MISTICISMO E POESIA

CONFISSÕES DE UM MÍSTICO

 

ALGUMAS PALAVRAS SOBRE A SUA OBRA

Teresa Ferrer Passos / Teresa Bernardino:

O DISCURSO DA LOUCURA EM «IGNOTA FAUNA»

 

POESIA E PROSA  DO AUTOR 

 

 

 

CESÁRIO VERDE E O SONHO

 

à memória de António Manuel Couto Viana

ao Paulo Borges e ao Pinharanda Gomes

 

Em terras de cristal, em formosuras,

Vi Cesário bem junto a dois mendigos.

A terra tinha frutos, carnaduras,

Semelhantes a seios nos postigos.

 

Os frutos eram mel. Havia cheiros

A lilás e a romã nos nossos campos.

E Cesário, cantando nos canteiros,

Dava Luz, como os doces pirilampos.

 

E as aves matinais, tão chilreantes,

Tinham meigos piar's. Por as cantigas,

Cesário punha flor's nos passeantes,

Deitava olhar´s de mel às raparigas.

 

Cesário perguntava numa praça:

«Dá-me um pouco do sável, minha linda?»

Respondia a mulher: «Por sua graça,

Do carapau, de atum, sôr não prescinda.»

 

Os Poetas são como agricultores

Cantando sem findar numa giesta......

Vem a Luz, depois ficam suas dores

Convertidas em pão e em floresta.

 

Lisboa, 27/ 01/ 1991

 

AD MAJOREM DEI GLORIAM

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QUINTO IMPÉRIO

 

à Ordem da Milícia dos Cavaleiros do Templo

à Hermética Irmandade dos Amigos da Luz

«Igne Natura Renovatur Integra»

 

O mistério é da Rosa

E das quinas e anilhas,

Duma Grei, tão graciosa

Que dá graça às maravilhas.

 

O sidéreo é de Cristo

E nubente é sua Cruz;

A campanha é Trismegisto,

Companheiros de Emaús.

 

O Império é do Verbo

E a parábola é o Pão.......

Nunca azedo nem acerbo,

Diz o núncio à nação:

 

Lisa é Luz, e eu consinto

Que me tomem por natal;

Um só canto e um só quinto,

Um só nome: Portugal.

 

Lisboa, 10 de Junho de 2001

 

 COOPERATORES VERITATIS

 

 

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JORGE TELLES DE MENEZES: DA «SELENOGRAPHIA IN CYNTHIA»

OU DO CENÁCULO EM SINTRA

 

«O mundo é a minha representação.» 

Arthur Schopenhauer

 

O Vaticano é qual o Vate; se o ministério é menestrel, recapitulemos, então, o Ágape agora. E é tempo de assoalhar: comunicação com Amor redunda em comunhão. Daí deriva, assim o cremos, o humanitarismo e a «communio», isto é, o Sal e ser comunitários. Que o alumbrado ledor da minha colação deve ponderar, portanto, no seguinte e no requinte: em primeiro, certeiro, ou primo lugar, foi Hermes e não Apolo o inventor ou promotor da rapsódica Lira; em lugar cifrado, sagrado ou segundo, o esclarecido ou subido filho de Latona foi o Pai do Asclépio, quero eu dizer, ou aduzir: da Poesia trataremos como se ela apresentasse, ou re-apresentasse, uma procura ou cura medianeira: e é Catarse, o purgatório, uma ab-reacção. Como é facto e como é feito, qual a busca, ou a questa, de Jorge Telles de Menezes? Ele o diz, melhor do que ninguém, em sua escala ou didascália: ele escreve «flor invisível…» e a finalidade da sua deambulação nocturna será a busca e o encontro dessa flor.

Considerado, ou siderado? Prossigamos com Heidegger: Menezes clareia, abertamente, na clareira do Ser. Nos interroga o germano: porquê o Ser e não o Nada? No estado e no estudo da especulação, do romântico anelo infiro o comento: essa flor não pertence ao mundo sensível, ela é oculta ou invisível aos olhos da carne. Remembremos e lembremos a Epístola aos Hebreus: «A fé é o firme fundamento das coisas que se esperam e uma demonstração das que não se vêem.» Pois lavorado em lavareda, assim ficou lavrado em vivace de Menezes. O nosso Poeta, portanto, é ser mercuriano, ou ser mensageiro, que  ele é movido, e comovido, por a paixão e a Fé. O símil é grande com o Álvaro de Campos: no Promontório da Lua, o que move o nosso mano é a «Noite antiquíssima e idêntica, / Noite Rainha nascida destronada, / Noite igual por dentro ao silêncio, Noite / Com as estrelas lantejoulas rápidas / No teu vestido franjado de Infinito.» Mas leiamos, agora, o nosso Amigo Jorge: genuflectido e menino aos pés da deusa Ísis, o caminhante ou postulante à santa Iniciação sente e sabe, dessarte, que nos joelhos da diva se encontra «aberto antigo livro / o qual concede a eternidade / aos nautas que o lerem / aos que retirarem o véu / do corpo dessa deusa / e por sua graça / continuarem a viagem / para além do reino da noite»: porque o abraço, farto e forte, é o da Papisa, Poetisa, ou Sacerdotisa; e tu não vês, aqui natal, o amplexo e o beijo da Mater Diana?  Asseveremos, entanto, e numa Astarte mencionemos: se Menezes nos fala da «liquessência do coração» e do fantástico Espelho de Água, é porque «mar» e «Mãe», no linguajar da Gália, são vocábulos, fraternos, duma fania-homofonia… E, se Menezes confia, fortemente, em seu astral ou sua Estrela, é porque, na língua do Lácio, a gota do mar ou «stilla maris» se casa, belamente, com «stella maris», mariana, ou a Estrela do Mar: e a tanto nos leva, ou nos eleva, o Sal de Ámon, a amónia, ou o líquido amniótico……………..

Alucinado, ó ledor? É tempo de elucidar: se na expansão da consciência, o Jorge é qual artista, ou especialista do sonho, é porque o onírico é, deveras, a comunicação, a fala, e a comunhão com os Devas… E se é Profeta quem profere, ouçamos, em lance, a profecia de Joel: «Depois disto, acontecerá que derramarei o Meu Espírito sobre toda a carne: os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, os vossos anciãos terão sonhos, e os vossos jovens terão visões»: e não alembras, ó ledor, a «Carta do Vidente», do ático ou fantástico Rimbaud??? É que ele era, como o Jorge, o Argonauta ou Psiconauta, o «nautívago» na expressão do Poeta Mário Máximo. E no Esculápio, portanto, no estilo ou no estupor, se infere, do endeusado, o entusiasmo; e é a Teurgia ou Teosofia, e é Teatro do Ser de que fala o Tapa-Furos. Se, na melhor tradição dos surrealistas, a Poesia se alimenta do intuitivo, do interior, ou das entranhas da terra, o regresso iniciático ao útero materno é o móbil e motor de toda a Alquimia; diríamos mesmo: ele é o promotor de toda a Magia.

Clarifiquemos, agora, e esclareçamos o ouvinte: Menezes não dejecta, nem rejeita, a metáfora paterna e o Nome do Pai… Mas o Pai, linguisticamente, está ligado com o Patrão; ele encarna, cardinal, o princípio duma autoridade, ao passo que o Poeta procura, purpúrea, a Rosa, a capitosa e o leite, quero eu dizer: a Lua, o lazer, e o princípio do prazer. Se os Poetas mentem muito, ou melhor, se a metáfora do Menezes é qual perspectivismo, por isso mesmo, ó leitor, disserta, na glosa, e asserta o ensaísta: a aventura do Autor não se condói nem coaduna com o «topos» e «Logos» da logística; a questa de alvoroço, ou irmão nosso, é com a mágica «imago» do forte inconsciente; daí que o Mito e o mistério, a magia do símbolo, penetrem, presentes, a Letra de Jorge. É tempo, aqui, do psicodrama solerte. E no grémio, no grupo, é tempo, então, de assoalhar e grafar: com «Selenographia in Cynthia», acontece, entretanto, a cousa assombrosa: é o laço e a liança da Poesia, ou profecia, com o Dogma e Ritual da Alta Magia: não encarna, com efeito, o Menezes, o arquétipo e arcano do leal pelotiqueiro?

Mágico, afinal, Jorge Telles de Menezes. Qual o Blake, o Allen Ginsberg, ou como o Pessoa. Medianeiro, ou mercuriano, de água primeira, é pois a flux ou com frequência que o Poeta é visitado por certas entidades: e elas, no canto, elas são fora do espaço, do tempo, e do princípio da causalidade. Trata-se, como vais ver, de uma outra monda e outro mundo, porque é regresso e é retorno ao País das Maravilhas, ou melhor: ao feérico ou etéreo da infância feraz… Tudo se passa, neste livro, como se o sonho, para finalizar, fosse o Mito e a mentira particulares – e o Mito, em vez disso, o sonho e Utopia do país ou nação… Ele é, digamos ora, a Nova Silva, a novela-Renascença do romântico infrene. Que o Poeta, aqui, soube dinamizar e compreender a nau de Portugal, disso é traslado, ou testemunho, o seu viático ou viagem por o reino dos fantasmas. Do fetiche ou do fantoche asseverava o Estagirita: o homem não pode pensar, correctamente, sem a ajuda das imagens. Por um lado, em Menezes, as imagens, os Mitos e Magias – e por outro, em «Mater Domina», o respeito e reverência pelas rosas e o pão, as Maias e Marias de todas as centúrias. É tal a prelecção, Amigo leitor, que tu miras e admiras no livro de Jorge. Pois em Telles de Menezes, ó caroável, será tal a colação, e a lição, do menino ou divino do Espírito Santo!!!!!!!!!!!

 

Lisboa, 11 / 09/ 2004

 

SIC ITUR AD ASTRA

 

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AO GÉNIO DE MIGUEL TORGA

 

ao Mário Máximo

ao Carlos Carranca

de todo o coração, ao Tobias Pinheiro 

 

Há Poetas azuis que são da rama.

Castanheiros e setas, são do cepo.

Sagrados por Apolo, deitam chama.

São, nas faldas do solo, o Paracleto.

 

Este Orfeu foi revel. Sua palavra

Foi dar, à pedra chã, toda a grainha,

Qual videira com fel, que não é escrava

Do Pão, do Pão da vida, em ladainha.

 

Vate seco de raivas, nunca langue,

No mundo foi saraiva. A vida é plena

Quando, rocha na Dor e não exangue,

Nunca outorga o Pastor a sua pena.

 

Por isso foste a seta. E danças seiva

E foi tua gineta patriarca...

No tronco do carvalho foste a leiva;

Quiçá, que nos orvalha, foste a barca.

 

E desceste, qual falo de Cibele,

Ao seio que não calo, à flava Ceres...

Foste azul e plebeu, também Miguel:

Já podes ir ao Céu, se assim quiseres.

 

Lisboa, 02 / 03 / 1995

 

SIC ITUR AD ASTRA

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RESSURREIÇÃO

 

à Hermética Irmandade dos Amigos da Luz

a Sigillum Militum Christi

aos expertos e peritos no Livro de Toth

 

No palácio infeliz da Desventura,

Eu vi meu coração crucificado.

Monstros, harpias mil... mas ao meu lado

Carpia uma amorosa criatura.

 

Era a Mãe! Minha Mãe que na fundura

Do seu olhar mais belo do que um prado,

O corpo de seu filho, ensanguentado,

Vira descer à negra sepultura.

 

«O meu filho! Meu filho tão pequeno!

Pra que eu te tive em mim, se te perdi?

O meu filho me entrega, ó Nazareno!!!»,

 

Dizia a pobre Mãe, quando eu parti;

Mas diz um Anjo azul, no Céu sereno:

«Ó Mãe, não chores mais, eu estou aqui.»

 

Lisboa, 03/ 05/ 1990

 

MENS AGITAT MOLEM

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DA EPÍSTOLA, OU SENHA, A JOÃO BELO AZENHA

 

Lisboa, 13/06/2006

 

Meu grande Amigo João,

 

Situação-Mãe, situação mansa. E plácida e serena como as águas de um lago. De novo o Luso, o luminar – e o lume e a Luz ao fundo do túnel… São oito da manhã, chilreiam passaritos; e trinam, ou trilam, lírios do campo… Isto é tudo uma questão de metáforas, metonímias, e desenhos almados ou desenhos animados. Na biografia, ou vida, de uma pessoa, ou «persona», o filme é sempre o mesmo; as personagens é que mudam ao mentor, e à medida, que o tempo vai passando. Mas tu és qual matriz, e sempre o mesmo. E eu, para ti, sou o que sou, eu fui, e sempre serei: um «Rolling Stone» alegre, feliz, de cabelo bem comprido – e cuja gargalhada ribombava, ou rolava, por toda a Faculdade………..

Nos últimos dez anos, Joãozinho, têm-se abeirado, e aproximado de mim, os luminares da Rosacruz, da Cabala, e até da Maçonaria; fui agora apresentado ao Centro Quíron, quero eu dizer, ao cenáculo, secreto, da Flávia Monsaraz. Desde a Alta Antiguidade, é o Sopro que nos move – e somos sempre os oráculos, oradores, e homens de oração. E somos, e temos sido, o Camões, o Homero, o Dante, o Isaías, Shakespeare, Villon, Victor Hugo, o Coleridge, o Pessoa, o Percy Bysshe Shelley. Chegou ora e agora a tua vez, menino. Faz do Fado o favorável, boa sorte para o futuro. Faz-me, outrossim, um grande, o grande, e grande favor: passa duas fotocópias deste manuscrito: envia uma pra mim – e outra para o Amigo, o maduro, e amável Pinção. Em nome do Cristo,

 

PAULO JORGE BRITO E ABREU

 

 

 

PARERGO E PARALIPÓMENOS

 

I

 

Nota prima: O Poeta é Sacerdote, e todo o magistério requer o ministério. E tenhamos em atenção que as artes liberais anelam, e apelam, à Santa Liberdade… João Belo Azenha nasceu, para a Luz de Luso, em Cebolais de Cima, a 25 / 06 / 1959; o brilho do Sol fulgura, e figura, em sua Carta Numerológica. O Autor destas linhas conheceu-o, caroal, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa – e cauta, e culta, e conscientemente, juntamente com António Filipe Marques e José Cunha Pinção, em 1980 nós demos, adrede, início, à Tertúlia da Anarquia. Mas, propriamente falando, eu conheci João Belo Azenha ou reconheci, «cognoscente», a Ideia Platónica? Os resíduos arcaicos, ou Arquétipos arcanos? O lídimo Poeta de «Os Os Outra Vez», ele era, e é, arrebatado pelo Fogo; o Espírito baila, o Espírito dança, na cadência musical da bailata cordial. Não se trata, aqui, de ser o Espiritista, aqui se trata, em vez disso, de praticar, acurado, a escrita automática, «o automatismo psíquico puro» por o qual se exprime, providente, o funcionamento, litoral, do nosso pensamento… «Littérature, littera-terre». Não digo, não calo. E aqui eis André Breton.

O Profeta gaulês do Surrealismo, médico de formação, ele conhecia, deveras, a tese de Pierre Janet de doutoramento em Literatura; «O Automatismo Psicológico», em 1889, ele foi, para a Psicologia, o recesso e começo da Modernidade. Repetimo-lo, dessarte: como é facto e como é feito, André Breton foi para nós, alunos de Letras, o mesmo que Hegel e Proudhon para a Geração de Setenta: a mesma desmesura, a mesma clarividência, o mesmo estar numa cava olhando para o Céu. Ou o criticismo, crisol, da crítica cripta, o mesmo que realça, e alicia João Belo, como o maior Surrealista da Língua Portuguesa. Sobrenaturalismo, ou supra-realismo, que o faz, na convulsão, refusar e rejeitar o Nome do Pai – e adoptar, na simbiose, a simbólica de Azenha – e eu fui o primeiro, em parabém, a pública tornar a Palingenesia. Por vocábulos outros, a façanha joanina é forclusar, e ocultar, a metáfora paterna – e voltar, voluntário, ao eclectismo, e volver a diva Azenha no significante: e é a famosa, e primorosa, «fase do espelho», de que falava, sem falácia, o Jacques Lacan. Ou melhor: para o Poeta de Narciso, na linha de Rimbaud, «o Eu é um Outro», mas um Outro marcado por inflação do Ego: e fantasmaticamente, «Cada um é como o Outro / Ofuscante torre de marfim / De si para si murmurando / Não consigo viver sem mim.»

E eis, agora, a conferência feraz. Da Poesia, alcantilada, nós fizemos, quando jovens, o alcançado e alçado Psicodrama das imagens; e no transe e no lance, nos mostra, na senha, o João Belo Azenha: é preciso, para o Escritor, o escultural, é preciso eu inventar um Paraíso para os Poetas. Que sejam fortes, e facundos, e artilheiros, dessarte, ou soldados do Verbo. Quero eu dizer, os arteiros, artefactos, e artistas artesãos. «Raramente», para ti, «se escrevem coisas boas. Mas inda mais raramente», aduzia o portefólio, «se escrevem coisas novas.»         

 

II

 

Trova segunda: Seguindo e segundo a Cultura Portuguesa, a Poesia já feita, ela apela, e anela, a Poesia a fazer – pois todo o leitor é Escritor potencial. E, como dizia o Professor, e o professo, no Colégio Militar ( e Carlos Dias, o seu nome, em Portuguesa disciplina ), quando o assunto é de monta, «agora vamos às palavrinhas.» Agora vamos, dessarte, ao que é forte ou importa. O Sacerdote, e o Doutor, eles têm, no Mana, o múnus e mester: o espalharem, ou espelharem, a sua doutrina, o serem hermeneutas do Hermes Trismegisto. O Senhor criou o mundo de acordo com a conta, o peso e a medida, ou melhor: o mundo foi criado de acordo com as letras do alfabeto hebraico – e só espera, o «Liber Mundi», que nós o compulsemos. Que sejamos os ledores do  Livro de Toth. Pictogramas das Estrelas, que tudo mandam e comandam, repetem, as letras, o Astro e o estro – e a Língua Portuguesa era objecto, entre os alunos, de culto, minha Amiga, e de compreensão. Na linha de Carl Rogers, enfática, ou empática, compreensão. Pois era prima, a Primavera. Era a alegria fantástica das alegorias – e buscávamos, nós, Poetas, os tópicos e tropos; e almejávamos, apenas, ser praticantes, e preensores, da simbólica função. Ou melhor: de metáforas, palavras e de Mitos. De Carl Gustav Jung nós todos sabíamos, sapidamente, que é reserva, a Poesia, de colectivo inconsciente; e se o problema e a prosa apela ao mentar, o romance da Rosa apela ao mentir – e a «mimesis», na liga, é qual o mimar.  Dos Professores, e dos professos, apreendemos, outrossim: há fantasias, e fantasmas, que pesam, numa Psique, quais os pelouros e as pedras: e é de facto o artifício, que o exprimir, muitas vezes, é como o espremer. Que a Filosofia, para o Luso, é qual o Firmamento. Que as Ciências do Espírito são Ciências da Cultura, são Ciências Sociais, e humanos saltérios – e o objecto das hermanas, e humanas, cons-ciências, reflecte ou repete a história do sujeito – e essa história, para a Poesia, é qual o Mito, é verde com-vivência e oblato vitalismo; e membramos, em menagem, as vidas e obras de Nietzsche, Dilthey, Bergson, e Ortega y Gasset……….. Tu deletreias, no carme, e avivas o Set?

Tertuliano era tertúlia, e o Vate, Vaticano – e fazíamos pois nossa a co-moção, e o motor, de Armando Côrtes-Rodrigues: o que é preciso, aqui, é ler Poesia, escrever a Poesia, e viver em Poesia – e eis o Fado e o factício, e esse o múnus, e Nume, da nossa Faculdade, e eis o «topos», e escopo, da lucubração. E prestes a findar este curso ou excurso, pensamos, e pesamos, as nossas palavras: por elas, com efeito, nós seremos julgados na hora da Verdade. Que o orbe e a Obra de João Belo Azenha aguardam, deveras, o hermético hermeneuta, ou melhor, um homem que lobrigue, numa heteromorfia, o «Carnaval de Espelhos». Fernando Botto Semedo, com este título, ele reza, ele proclama, e tem toda a razão: o Actor, a meu conselho, é o que se pinta e maquilha diante do espelho. E só por isso o Parnaso. Por isso o Paraíso, e o Mercúrio-mercês, a hora do Outro é «Os Os Outra Vez»………..

 

 

SIC ITUR AD ASTRA

 

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CAVALEIRO DO TEMPLO

 

ao Francisco José Viegas

ao Pinharanda Gomes

à Hermética Irmandade dos Amigos da Luz

 

Cavalgava noite fria,

O ar gelava como açoite,

E a Voz assim dizia:

«Cavaleiro, boa-noite.»

 

Travessei pelo Deserto

Toda a noute, e onde a Esp'rança?

E a Voz me disse perto:

«Cavaleiro, ora descansa.»

 

Venho exausto, o mar é longe,

Fui corrido pela aldeia...

E a Voz me disse monge:

«Senhor Padre, aqui a ceia.»

 

Sou Templário, minha freira,

Dá-me cota e armadura...

E a Voz era fagueira:

«Senhor Padre, é noite escura.»

 

E sonhei que em pleno dia

Era a nuvem colombina,

Era meigo rouxinol:

«Cavaleiro, eu sou Maria,

Sou a tua pequenina,

Dorme, dorme sob o Sol.»

 

Lisboa, 05/02/2007

 

AD MAJOREM DEI GLORIAM

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FLOR DO CÉU

 

ao Santo Padre Bento XVI

à Teresa Ferrer Passos

ao H. Noronha Galvão

 

Em terras de cristal, em formosuras,

Num jardim que de flores se enfeitava,

Maria, a deusa virgem, desenhava

Na mente nossa o Graal, e as ternuras.

 

Nessas terras de alor, nessas canduras,

Cupido por ali se recreava;

Maria, a virginal, lhe perguntava

Rodeada de Amor, de Maias puras:

 

«Camélias, rosas, lírios me rodeiam

No jardim que das Graças se reclama.

Qual das flores, no Céu, é mais formosa?»

 

Lhe responde o menino que incendeiam

A ele as flores todas, numa flama,

Mas a melhor do mundo ali é Rosa.

 

Lisboa, 07/09/1996

 

AD MAJOREM DEI GLORIAM

 

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NOVA FALA DE LUÍS DE CAMÕES

 

ao Pinharanda Gomes

à memória de Nuno de Sampayo

ao António Carlos Cortez

 

Não mais, canção, não mais, d’Alma canção,

Que no meu triste nada eu desvario.

Que abandonada, ó Musa, a amada viu

«A desgraça, a tristeza, a solidão.»

 

Não mais, amada minha, que a razão

Não pode suportar do Fogo o frio;

Que em lágrimas, que asinha eu choro e rio:

Não mais sigas, ó Musa, o coração.

 

Ó ninfas, ó minh’Alma dolorosa

Com dolo e com paixão já estilhaçada……

Pátria minha, que um dia foste Rosa

 

Para noutro, com Dor, ser’s quase nada;

Vinde a mim, a mim verde Alma chorosa

E sede, ó Pátria, sede a madrugada.

 

Lisboa, 04/04/1996

 

N. B. : propositadamente, o último verso da primeira quadra

é da autoria de Fernando Pessoa…

 

VERBA VOLANT, SCRIPTA MANENT

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MISTAGOGIA CAMPESTRE

 

ao Fernando Henrique de Passos

ao José Cunha Pinção

aos expertos e peritos no Livro de Toth

 

Terra-pão, terra em pousio

Que, na noite do meu ser,

Corres, corres como um rio

E te volves em mulher,

 

A ti darei o meu verso,

O meu sangue, e para cúmulo,

Terra que foste o meu berço

E te portas como túmulo,

 

Dar-te-ei a Cruz, ó salubre

Que no sal desta raiz

É noite, é húmus e úbere,

Corpo e dama, enfim matriz…

 

Que essa planta mais frondosa

Que abre as pétalas à luz,

Em corpo e sangue diz: Rosa;

Diz em páramos: a Cruz.

 

Tomar, Cidade Templária, 16/10/1993

 

SIC ITUR AD ASTRA

 

 

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A TERCEIRA MISSIVA AO MAGO MERLIN

 

«Entendei que, segundo o Amor tiverdes,

Tereis o entendimento de meus versos.» 

Luís de Camões

 

Meu caro Merlin,

 

 

Encarando a Poesia como fidelidade à instância do Ser, e o próprio Ser como pensamento pensante que se revela na aparição do instante e sua consequente re-apresentação, caminhemos então para uma teologia poética que se formará indubitavelmente na reformulação duma Agricultura Celeste ou de uma Ontoteologia. Filosofando a Poesia ou poetizando a Filosofia, «O pensador diz o Ser», aduz Heidegger, «O poeta nomeia o Sagrado».

E Paz e Bem na betlémica morada. A Paz profunda, facunda, e a rosacruciana: a Língua é desse modo a Casa do Ser. Como nos é dado conceituar, ou visionar, a revelação do extático instante é fenómeno que instaura, instaura a «ex-sistência» do Ser como imagem fundável da Eternidade e logo como raiz, radícula ou fundamento radical da questão mediatriz. Essa questão chama-se Homem, ponte e meio para o Santo ou Super-Homem, se por humanal e radical realidade nós entendermos, outrossim, o espanto ou o transe perante o Ser e o mistério da morte. Subjacente e consequente a esse espanto, ou trânsito no Logos, está a meditação poética e filosófica como forma de os limites transcender e logo como incorporação introjectiva dos Arcanos, ou melhor, mediunidade. Ao ser, pois, aquele que gera e à luz dá, na luz apresentando e tornando visível, o Génio é também o ente essencial que faz desabrochar e maturar, aquele que insiste no sentido do Ser. Aqui, digamos sem rebuço que todo este florir se encaminhará para a dilatação do campo cognoscente, para o florear na vida plena e logo para a vivência encarada como fluxo no fluir e rigorosa espontaneidade… Espontaneidade e civilidade. Que o Poeta é qual Vidente, é rosicler, e ele clareia, abertamente, na clareira do Ser…

Pois, na cultura lusitana, o pensamento poético caminha, lado a lado, com a filosófica Poesia. E, para a meditação ser, dessarte, mediação e meio de atingir o surrealismo, ou o realismo fantástico, há que fazer apelo à poética Teologia no sentido da vida nova, do mediúnico renascer como mito e terapia, ou melhor, medicação. E Nazarita ser é conceber o medicamento no sentido e no fluir de uma nova Antropogénese, que em si contém uma Gnose general ou uma genética imersão no mistério dos símbolos. Símbolos esses que, ao serem veramente católicos, e universalistas, nos fazem acreditar numa Alma do mundo para além da vida velha e da aparência, ou seja, da vivência como charla e das coisas sensíveis…

E o poético instante como fulguração ou instauração desse realismo fantástico crer faz-nos, assim, no ecumenismo universal da obra poética como o fundável fundamento de uma nova Revolução. Revolução essa que se torna presente, ou reveladora apresentando-se, na aparição dum Fogo ou dum Arquétipo, no desvendamento e na «alêtheia» do mundo como um real deslumbramento, como a flama no mistério, ou crptofânica e gâmica visitação. Pois «alêtheia» quer dizer: e sempre, sempre, pra fora, das águas do Leteu. Pois, se a Poesia converge, em Novalis, com a Magia radical, as «bodas químicas» são a realidade perene e indiscutível de toda a obra de Arte… Visita, portanto, o interior da Terra; ratificando e rectificando, encontrarás, providente, a Pedra escondida…

O Artista nada mais é, desse modo, do que o homem que incorpora essa visita no transir, no liminar, e no «quid» metafórico do êxtase ou do transe. E o revelar, entanto, é como o desvelar. Que o Alquimista se comporta, dessarte, como um médium, como um porta-voz hermético, como aquele que é visitado por uma luz, por um clarão, e Iniciado no mester, ou no mistério, da Filomitia. O Ser divino a ele se lhe revela, ditando-lhe a mensagem revolucionária; esta, por sua vez, impregna-se em pregnância no tecido inconsciente ou social e é isso que explica, no passado, o aparecimento das religiões, no presente oculto o culto dos Génios e a fama terapêutica das obras literárias.

Se dizemos «terapêutica» é porque pensamos que o leitor de Poesia, ou seja, a pessoa que se converte à Filomitia do verso, sente vir a si, outrossim, o vento ou advento das plagas da universalidade – e é a Catarse de Josef Breuer, é a «desinfecção moral» de que fala, bem selecto, o Pierre Janet. Ou o Psicodrama mimado, em mimese, de Jacob Levy Moreno. E como asserta, certamente, a Teresa Rita Lopes, também se trata, no teor, do Teatro do Ser. Pois se parla, o trovador, a linguagem do tropo, o inconsciente é, portanto, o discurso do Outro… Falando a letra do engrama, o inconsciente é, para Lacan, estruturado e formado como uma linguagem… Que o Artista lobriga, polido, o arquipélago do futuro e um novo e profundo ecumenismo: só a ser assim é que o real será fantástico, o Poeta o encartado e reconhecido Pastor do Ser e da existência; e só dessarte sendo é que o real deslumbrante será e todos os homens, enfim assombrados, alumbrados ou conduzidos para fora das sombras, poderão ver a Luz, a cor do Sol e a autêntica e divina realidade, ou seja, a Poesia.

 

Lisboa, 07/09/2009

 

SIC ITUR AD ASTRA

 

Nota do Autor: «Merlin» é o pseudónimo de um Filósofo e Poeta português que deseja, por enquanto, manter-se incógnito ou ignoto………..

 

 

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«PREFÁCIO»

CÉLIA MOURA: O NOME E O NUME

(escrito pelo autor para o livro Jardins do Exílio de Célia Moura, Edições Hugin)

 

«O homem fala, por conseguinte,mas foi

porque o símbolo o constituiu homem»

Jacques Lacan

 

Venusta Célia Moura. Célia Moura, a venusiana, apresenta, agora, mais um labor e laboratório, depois de, no estreme e espiritual, nos ter deliciado com «Vestida de Silêncio.»

Destarte e na arte, os Jardins do Exílio não são, propriamente, as primícias; são, contudo, o lugar do primor e primordial…

Entremos, portanto, em rosas capitosas e belas, rosas, jardineiras, que nos sobem à cabeça. A tímida e terna menina, no especular e no espelho, extremamente e fremente esclarece o leitor: trata-se, aqui, do exílio da frol e Afrodite, aprisionadas e presas em jardim de cardos e malícias. «Um exílio de temperamentos de arte que a querem como a um segredo ou tormento…»: era assim que Luís de Montalvor se referia aos companheiros do «Orpheu» e é assim que eu gostaria de adjectivar e predicar esta nova produção da venusta primaz.

O leitor, agora, já deve, em sua Alma, ter aprendido e compreendido: com o corpo em carne viva, Célia Moura, celicamente, procura a floração e o princípio do prazer – é, porém, a realidade, com o seu horrível cortejo de relógios, reitores e directores, que regulam sua vida e que matam as rosáceas. Superiormente dotada, amigo ledor, que não te espante o facto e a fatalidade de a nossa Poetisa tropeçar nos buracos e cair, incauta, nos poços: é que ela procura, ingenuamente, uma lauta comunhão, os aros de luz e a transfiguração; por vocábulos outros ela escruta, em escritura, o quimérico da Estrela e a abóbada celeste.

Continuemos, portanto, a vogar e a navegar no paraclético, e poético jardim. Seguindo a linha simbolista, Célia Moura, abalançando-se à jornada, ela acura e depura a linguagem da tribo…….

O leitor verá, bem atónito e artista, que a Palavra, ou seja, o Verbo, de Célia Moura, se desquita e refusa o paradigma utilitário; não estamos nós, então, perante a prática ou pragmática comunicação: nós estamos, isso sim, perante a comunhão, isto é, a parábola elevada ao êxtase, ao transe, à templação da Teoria. Pensamos, dessarte, que este aspecto, que já havíamos divisado, sem livor, na Teologia ou Teosofia de Fátima Pitta Dionísio, atinge a ponte, o ponto incandescente na Sofiologia de Célia Moura, a musical e maravilhosa…….

Mas, no transe e no transir, isto é, no carme e na carne, a solerte invocação ao Verbo e ao Vento é qual sorte, magnânima, de vocação e provocação. Vocação, em primo lugar, da dilatada, ilimitada força uterina; e provocação, em termo ou tema segundo, aos abutres que invectivam e verberam amadores, ou nas palavras da Autora e do arauto, às «maldições mascaradas / no focinho dúbio das hienas!»

A temática, agora, merece a nossa atenção e consideração; consideremos, então, de olhos postos no sidéreo. Se, de um lado está o Verbo, e do outro o verberar, de um lado é o revérbero, e do outro, dessarte, as forças insolentes do Mal e da mentira. Citando, na cifra, o «Sermão da Montanha, a Célia aguarda e espera que o seu verso, na vide, seja salmo ou sortilégio que exorcize a sua vida; tal é a forma ( o ledor que feche o «o» ) alquímica, formadora, transfiguradora, da poética parábola.

Mas dissemos, ó amável, no início do exórdio, que a distinta Célia Moura é força bela e pois venusta, ou melhor, venusiana. Pois os corpos celestes, na Sofiologia, são símbolos activos, invencíveis, que influem nos homens. Ao lermos no Céu, amigo leitor, nós lemos na Terra, porque a abóbada celeste é cifra do humanal. Decifremos, com cuidado, o simbolismo do sidéreo; talvez, então, cheguemos à preensão, compreensão de Célia Moura. E lúcida, e lícita nos seja, aqui, uma autocitação: «O apaixonado leitor de Poesia deve fazer com ela o mesmo que a criança faz com o seu urso de peluche, o mesmo que a menina, sendo maviosa, faz com a sua boneca: conhecer uma obra de arte é prendê-la ao meu peito, apropriar-me dela, fazer dela a carne e o sopro, o sangue e a vida em mim». E é isso que se passa com a mística participação: numa catarse embriagante, amigo leitor, tu vais ser eduzido, educado e seduzido, por a magia de Célia. O ensaísta, aqui, é tão-somente o guardião e sinaleiro, ele indica-te a vereda para a célica mansão – e de acordo com Freud, e Pierre Janet, a catarse é fundamente, é fundamentalmente, a cura pela palavra.

Na plaga e no périplo, continuando, Vénus é simultaneamente a Estrela da Manhã, que saúda o Astro-Rei, e a simpática Estrela da Tarde, que anuncia ou proclama o leitento, o luzente lunar. É portanto, aqui o símbolo, da morte e ressurreição. Não será, pois então, que Célia Moura, à guisa de Voltaire, é aquela que morre todas as noutes, para voltar, ressurrecta, no dia seguinte? Mas que o lídimo ledor fique ciente ou consciente: se ela é renúncia do Sol, da sinergia ou da Aurora, é na Lua, no lácteo, que a mesma se revela. Contra a lei que representa o trabalho e o dia, a dádiva amorosa representa, e apresenta, a noite e a paixão. Essa noite é portanto uma nova apresentação das imagens, é a libertação, ou libração, das palavras enclausuradas, tímidas e presas: a isso se chama, veramente, o imaginar ou divinar. Ou isso faz, na nossa mente, com que a Terra Mater deixe de ser, numa franqueza, a terra mártir e suada. E, se toda a franqueza apela à franquia, tu lê, tu entende estas laudas; pois, vendo a festa e este livro, fica vidente, ó leitor: já está pronta a Primavera para o próximo jardim do século XXI.

 

 Lisboa, 01/04/2001

 

MENS AGITAT MOLEM

 

 

 

 

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THEOSOPHIA

 

«Jesus na manjedoura:

eis a prova de que todas as grandezas deste

mundo são ilusão e mentira.» 

São Francisco de Sales

 

 

À memória de Gualdim Pais.

Com todo o respeito, com todo o Amor,

a minha Mãe Maria Amélia……

 

 

Todo o Nume já passa pelo nome,

Seja Júpiter, Zeus ou Jeová…

O fármaco da Graça é dela a fome,

O âmago d’Amor é Ámon-Rá.

 

E morre na Diana o deus Apolo,

E as rosas são Vénus e a Via.

Tu és lauta liança, e Tu queres colo,

Tu repousas nos braços de Maria.

 

Tomar, 23/07/2004

 

AD MAJOREM DEI GLORIAM

 

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FRANCISCO GAIA JÚNIOR: EM DEMANDA DO ETÉREO

 

 

Agora como outrora e em todos os séculos, duas instâncias ou estações impelem e empurram os homens, na encruzilhada admirável do almo e das Almas: o pensamento matemático e pragmático, e o trágico ou mágico pensamento.. Se o primeiro se preocupa com a lógica das formas, o outro ocupa-se, em vez disso, com a metamorfose e a analogia; se o primo é movido pelo Ego e consciente, comove-se o segundo com o Outro inconsciente.

Preclara e claramente, aduziríamos, para começar, que as imagens e metamorfoses de Francisco Gaia Júnior fazem a escola e a escolha do mágico princípio, quer dizer, da Magia simpática e não matemática. Nautivagando uma visita ao imo da terra, a pinacoteca imensa e tensa deste jovem não nos permite, é certo, orientar-nos segundo o princípio de razão, ou melhor, de individuação; por isso expomos, em parabém, que Francisco Gaia Júnior não vive, com efeito, da pintura pervertida ou invertida: como é facto e como é feito, ele vive, sempre e sim, para o pitoresco e a pintura. Dilucidando, destarte, o nosso leitor, nós diríamos, então, que do lado de Francisco nós temos, para o verso, a Musa maviosa, isto é, o vasto repositório do museu imaginário; do lado dos sofistas, ou melhor, dos Calibans intelectuais, apenas vemos, em vez disso, em falsidade e em mentira, o factício ou falace, os lábios informes da fanada cortesã.

Nesta luta sem tréguas contra o desarmónico e o desaire se inscrevem, agora, o lema e emblema de Francisco Gaia Júnior. Para chegar, entretanto, ao templo das Musas, preciso foi que ele se apartasse, porém, do contingente e acessório, que ele pusesse, pois, de parte a sua própria vontade, a sua vida prática: nos últimos anos, lautamente, ele tem mirado o espectáculo e o espelho da essência do mundo; nos anos derradeiros, porventura, Francisco não tem sido, apenas, mais um indivíduo, mas sim a argonáutica e náutica pessoa, o sujeito puro e extasiado do verbo conhecer.

O atrás delineado leva-nos, portanto, a anelar e concluir: o fruidor do arauto e da Arte de Francisco Gaia Júnior já não está, enquanto esteta, no paradoxo e nos parâmetros do espaço, do tempo e do princípio da causalidade: aquilo que era válido e valia para as ciências naturais, ou meramente físicas, deixa, aqui, de ter valoração, pois em jogo e jovem está, não o indivíduo, e parcial, mas sim a espécie universal; não, numa palavra, a cousa particular, mas sim a tónica e platónica Ideia.

Saudamos, então, neste início de centúria, a metamórfica analogia, ou melhor, uma Ontologia ou Poesia fundamentais. Será poeticamente, ou mentalmente, que habita o mundo o homem simbólico; tal é a cláusula e a clave para o «Dasein» e o desvelo. Eis o topo e as copas da nossa latria, eis a escola e o escopo de nossos progredimentos. Com Francisco Gaia Júnior, em Poesia ou feeria, apresta-se, com efeito, o primordial: já estão prontas as imagens, e pronta está Magia, para o século XXI.

 

Lisboa, 2002

 

 

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MADRUGADA

 

Amor, que em santas plagas me dás, ó querida,

O lábaro e Levita, as laudas, o canto,

A Lira tu me dás em Outono da vida,

E sem mágoas, nem dor, tu bailas entretanto.

 

Minha meiga d’Amor, ó minh’Alma d’Almada,

Ó sépalas tombando branquinhas, em cor……

Ó pomba, minha pomba, não vês, em alvorada,

A criança, querida, nos braços d’honor?

 

Sente as áleas, ó frol. Em castas e Menas

A Lua foi dália, as Almas dançaram…

Se fez o dia a neve, e em círios, ou cenas,

Se fez a noite nácar. E sinos tocaram.

 

SIC ITUR AD ASTRA

 

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IDÍLIO FRANCISCANO

 

aos Amigos do Amor

 

À hora dessas rezas, à noitinha,

Afogado em tristezas, e em pena,

Doce luz eu vi, pois, que se avizinha…

Perguntei-lhe: «Quem sois?» - «Meu nome é Lena.»

 

E tudo era color, ó Rosa minha,

Que à hora do fulgor, a Bela ordena…

Citereia lá vinha, era Rainha,

Libelinha tu és, e flor amena.

 

E pois que a meiga branda, em flor de lis,

Demanda, meu Senhor, pela Sophia;

E pois que é deleitosa, e cor d’Assis

 

A Rosa numa veiga se anuncia,

Eis Bela, a avena bela, é Beatriz,

Que a flor de anis anelo, e nasce o dia.

 

Lisboa, 10/04/1994

 

In Loas à Lua, Sol XXI, 1996.

 

AD MAJOREM DEI GLORIAM

 

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À GUISA DE BOCAGE

 

 

Ó Musa, que me levas, já cansado,

Arrastando os farrapos, e banido,

Agora, já por zoilos maltratado,

Agora, por cruéis avorrecido;

 

Com minh’Alma chagada no valado,

Eu choro, e tu comigo, embravecido,

Tu que em cânticos jovens eras Fado,

Tu que arfavas e rias sendo f’rido.

 

Toma a lágrima, o canto, a solidão,

Toma a lama, as aspérrimas correntes.

Por que dás, por que dás a mim, canção,

 

As Musas clamorosas, e ardentes?

Verdes são campos da cor do limão.

E a Nela? E os outros? E as gentes?

 

 

Tomar, Cidade Templária, 15/09/2006

 

AD MAJOREM DEI GLORIAM

 

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AS MAIAS

 

à Mariana Cardoso

às Mães e às mulheres do meu País

 

Tu nas águas apareces

E apareces nas ervas,

Nos raminhos e nas preces,

Nos veados e nas cervas.

 

És o verde, em toda a terra,

És a Madre, em todo o ló.

A Madrinha, pela serra,

E a Senhora do Ó.

 

Tu soergues o somenos

Numa barca de baunilha;

Eis que vem a flor de Vénus,

Primavera, tua filha.

 

E quando ela são palomas

Da Maria, ou do enfeite,

As amoras são as pomas

E a Senhora dá o leite.

 

 

Tomar, cidade Templária, 01/05/2006

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MISTICISMO E POESIA

 

Politzer diz algures que os materialistas modernos, tendo como base as descobertas científicas, consideram Deus como um ser puramente imaginário. Ora eu diria, mística e poeticamente falando, que a imaginação está para o espírito subjectivo assim como a ciência empírica está para o espírito objectivo, e que portanto, como Bachelard tão bem o descortinou, os eixos da Poesia e da ciência são radicalmente inversos e antagónicos. Indo mesmo às fontes de que Politzer se fez o arauto, Marx e Engels escreveram textualmente que «apenas conhecemos uma ciência, a da História». Resta-nos agora deslindar o fio da meada; resta agora promulgar e publicar que, na esteira de Aristóteles, o mito, a alegoria, a fábula e a ficção vão mais longe que a História e o domínio da «Physis»; que nas mentiras ou fábulas da imaginação e da «rêverie» se encontram mais verdades e virtudes  do que as achadas ou descobertas no mundo real e prosaico; e que portanto a Literatura é uma forma de Metafísica, porque é, acima de tudo e numinosamente falando, uma expressão do sagrado ou do sobrenatural.  O lusitano Álvaro Ribeiro, ao ter entrevisto essa essência sobrenatural ou profética da Literatura estava a ser fiel, afinal, não só à «Poética» de Aristóteles como também à Filologia e Mitologia comparadas, uma vez que Literatura e Filosofia concebem-se, quanto a mim, como pontes ou portas pontificais entre o silêncio dos místicos e a linguagem da Escritura. Sendo a escrita, e consequentemente a Escritura como forma de fábula, uma maneira inventada pelo homem arcano de perpetuar ou sublimar, na memória das comunidades vindouras, o silêncio dos místicos ou dos homens arquétipos como sendo aqueles que em si mesmos fizeram coincidir, na luz criacionista e na liberdade do «Mythos», o radical começo da História e a escatologia final das humanas potencialidades. De tal modo que diremos: antes da Metafísica razoada ou reflectida de forma lógica e consequente, houve uma Metafísica fantasiada e sentida de forma onírica e fantástica; a esta última superação da «Physis» e da História, organizada, quase sempre, ao modo analógico e metafórico dos símbolos, chamamos nós Religião como forma de mito, ou, para sermos mais claros, de sabedoria poética e primitiva, nós diremos primacial.

Pois o que se passa é que ser poeta, rapsodo ou filósofo é estar próximo da morte; é portanto ter sofrido, numa ânsia de Azul ou de sagrado, o beijo do Infinito e revelar a todo um público, sob a forma hermenêutica ou mercuriana, sua ciência liminar de transe, presciência e portanto Iniciação. Ora quem morre, como igualmente quem sonha, fá-lo sempre sozinho pois no antro das Mães e no mundo dos deuses não se pode entrar acompanhado; daí que Literatura e mistagogia requeiram sempre solidão e a tarefa de um poeta, no seu estado superlativo, seja sempre a de um louco, de um saltimbanco ou de um solteiro. Mas, a fazermos fé nas Cartas paulinas, Deus enviou a loucura da Cruz para confundir os fortes e os prepotentes do mundo, e os mais sábios dentre os homens mundanos serão, todavia, considerados loucos pela divina Sabedoria.

Razão damos, pois, a Feuerbach quando ele dizia que a Religião é própria da Humanidade no seu estado infantil. Porém, como poeta e letrado, só podemos conceber a infância como forma superior de criacionismo, quimera supra-real ou surreal fabulação. Quem fabula é porque sonha ou fala sozinho, como as crianças e os loucos; mas, por vezes, é com os deuses e os anjos que fala, à maneira, outrossim, de certos e superlativos literatos. Feuerbach, o réprobo ateu, concordava afinal, sem o saber, com Cristo, o divino iniciador, pois, segundo este, é preciso ser como uma criancinha para entrar no Reino dos Céus. Criancinha chamavam, por paráfrase, os Cristãos primitivos aos Iniciados nos seus mistérios menores, de que hoje não temos a prática nem a correspondência. Nos tempos hodiernos, e dada a proliferação diabólica ou separativa de seitas e partidarismos adentro do Cristianismo, a solução cultual e cultural não será um renovado apego à letra nem ao farisaísmo das autoridades convencionais, mas antes e sempre o alor e a flama, quase extinta mas não morta, da Sabedoria divina como o templo simbólico dos homens, a Amada sempiterna e primaveril do «Cântico dos Cânticos». É nessa conceptualização ou Conceição da Teosofia como salmo ou como cântico que se insere a nossa Obra; possa ela ser o Verbo, o pão nutrício entre as pedras, para todos os que a lerem.

P.S. : Depois de escrevermos estas linhas, constatámos que o quadro geral deste ensaio nos obriga a uma nova reflexão. É que,  surpreendentemente, também Augusto Comte, na sua lei dos três estádios, considera o estado teológico ou fictício como «o ponto de partida necessário da inteligência humana», ao qual se segue, como é sabido, o estado metafísico ou abstracto e, finalmente, o estado positivo ou científico. Também para Augusto Comte, no estado teológico, a que nós chamámos de sabedoria poética ou religiosa, o elemento que predomina é a imaginação, o que nos faz, desde já, reconhecer no poeta, e principalmente no poeta genial, uma forma decantada e sublime do «puer aeternus». Representa, portanto, o poeta uma forma arcaica e mitológica de pensamento, como sendo um «primitivo» que toma como reais e verdadeiras as imagens e os fantasmas dos seus próprios sonhos, vidências e até alucinações… Daí que, tanto na história literária como profética, o poeta tornado vidente ou porta-voz dos deuses seja o carácter humano que mais recusa e abomina, na sua forma adulta ou de adultério espiritual, o estado positivo ou científico como cunho ou distintivo do mundo ocidental ou tecnocrático. Ora, reproduzindo a pessoa humana, desde o nascimento até à velhice, a evolução histórica e mental de toda a humanidade, compreendemos que o mesmo Comte tenha escrito, no seu «Curso de Filosofia Positiva»: «Quem não se recorda, contemplando a sua própria história, que foi sucessivamente teólogo na sua infância, metafísico na sua juventude e físico na sua maturidade?»

Tudo depende, pois, do conceito ou do juízo que se faça da infância e da maneira pela qual se encare, também, a produção imaginativa dos fenómenos inconscientes. Nós achamos que a infância é a Idade de Ouro, o Espírito Santo disseminado ou infuso na humana geração, e que a produção simbólica das imagens e dos arquétipos é, não raro, um desvelamento do Ser assim como revelação do abscôndito no visível ou teofania, na terra, das celestes entidades. Mas se a ficção e os fantasmas do estado religioso forem considerados como mentiras poéticas ou puramente utópicas, resta agora afirmar que esse tipo de mentiras ou ficções são, para aqueles que nelas crêem, mais plausíveis e reais que a prosaica realidade.  Forjada pelo sonho da mente, Vénus nascerá eternamente das águas do mar; eternamente, também, a Mãe de Cristo será virgem e fecunda, como as rosas florescendo ou a terra por lavrar. Falta agora preservar, a bem do Azul e dos paramos do Céu, a virgindade da Poesia.

  Tomar, 05/06/1994

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A ROSACRUZ DE OURO

 

À memória de Eliphas Levi

À memória de Papus

À Hermética Irmandade dos Amigos da Luz

 

Olhos suaves e belos,

Um lábio leve, bem carnudo…

Um ao outro, meu Amor,

Nós já dissemos tudo.

 

Cabelos palma-louro,

Cinza livre, leda palma…

Olha as folhas a caírem

Por dentro da minh’Alma.

 

Olha as folhas, a poisarem

Nos nossos corações;

Olha a seiva, olha o lírio,

Sacrossantas concepções…

 

Sente a seda, sente a vida,

Sente a seda bem viçosa:

Meu Amor, nas tuas mãos,

A formidável Rosa.

 

Sente a palma, a minha pele,

A minha pele roçando a tua.

Na noite núbil de Isabel,

Eis a Rosa, que é a Lua.

 

E para sempre, só quando

O anil em mim ondeia,

Rosa-Bela, penteando

Seus cabelos de sereia.

 

Lisboa, 06/01/1986

 

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CONFISSÕES DE UM MÍSTICO

 

 

 

in memoriam de Max Heindel

ao Santo Padre Bento XVI

ao meu Irmão Luís André

 

 

 

Tal como Píndaro, o grego, a minha Alma deseja alargar os limites do possível, mas dele difiro na medida em que febrilmente aspiro à vida eterna e à minha união com Aquele que tudo engloba porque, enfim, tudo compreende e torna possível.

Alargar os limites do possível e revolucionar porque reformar parece-me sublime e grandiosa tarefa; nunca, porém, nos devemos esquecer que a re-evolução e a reformulação são parentes próximas e gémeas do re-velar e do desenvolver, do mostrar, do ver ou dar a ver ao homem o Eterno e a Lonjura dentro do aqui e do agora, tirando os véus e as falsas roupagens ao finito e ao corpóreo para, num segundo processo, o revelar como in-corpóreo e Infinito.

Se isso não acontece, natural e voluntariamente, à maioria dos humanos, é porque, segundo o Blake, as portas da percepção não estão purificadas. A questão é complexa, sobremaneira interessante, e excepcionalmente grave. Talvez dela dependa a nossa vida como um contínuo morrer, ou a nossa morte como a nossa vida idealizada e ampliada até ao Infinito.

Expliquemo-nos, portanto: alargar os limites ou fronteiras do possível só na nossa Alma será lícito se reconhecermos esse limite como um possível liminar. O «limes» ou o limite do possível transforma-se, assim, em «limen», porta ou liminar, para o Inalcançado e o Impossível. Para tal iniciação no domínio do Mito ou do Sagrado será, pois, necessária e imprescindível uma reformulação e um desenvolvimento da nossa vida no sentido óbvio duma mudança de forma, duma Morte ou duma meta-morfose. Porque mudar de forma na vida é essenciamente evoluir ou re-evolucionar para uma nova existência entificante e para tal é necessária uma Morte para o véu de Maya até no sentido em que tirar o véu é revelar e morrer, afinal, é ser Iniciado.

O Poeta, o Filósofo e o homem religioso aparecem-nos, pois, como os condutores encobertos e ocultos da humanidade sofredora na medida em que todos eles, e cada um à sua maneira, nos revelam e descobrem uma abertura gnosiológica mediante um aprofundamento dos sentidos meta-mórficos ou trans-objectivos. Quem cria ou crê numa Arte, numa Religião ou numa Filosofia, cresce e multiplica-se, procria, tem em si a força da semente que é simultaneamente a Palavra de Deus e o princípio da renovação. Mas ( e segundo S. João ), se o grão de trigo, ao cair na terra, não morrer, não produzirá muito fruto, o que nos leva a pensar no fragmento heraclitiano segundo o qual a vida dos mortais é a morte dos Imortais e vice-versa.

Assim se alcança a Vida eterna, a Lonjura e o Inominado pelo poder que as palavras nos dão de nomear a realidade repetindo em nós o jogo da simbólica Criação e d’Aquele que tudo criou, afinal, pela força do Verbo.

Magicamente se cria assim um mundo como magicamente se cria também uma religião, uma arte ou uma corrente filosófica. Se para criar, como já dissemos, é preciso crescer e mudar de forma, para crescer e pelo crescer se atinge a força da crença, daquela Fé que remove montanhas e cria novos impérios por o genésico dom da Palavra e o intuitivo ou primordial poder da imaginação. Falemos e sonhemos, portanto, para nosso crescimento e para nossa edificação, e criemos em nós imagens, arquétipas imagens, d’Aquele que nos criou.

 

Ad majorem Dei gloriam

 

 

Nota do Autor: Este texto foi publicado na obra Agricultura Celeste (ed. Poetas Lusíadas, 1992). E «Agricultura Celeste», como é facto e como é feito, era o nome que os Antigos davam à Arte da Alquimia.

 

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A CRUZ E A ROSA

 

à memória de Max Heindel

ao Irmão António de Macedo

à memória de Helena Petrovna Blavatsky

 

Se todos forem rudes, e a Rosa, em castigo,

Não tiver um Amigo, não beijar a benesse,

Ergue os olhos ao Pai, que o Paulo é contigo,

Ergue os olhos à missa, e lá será a messe.

 

E quando, ó Rosa minha, tu quando sentires

Que a noite é solitária, e o lábaro, um lamento,

Ergue os olhos ao Céu, ergue os olhos à Íris,

E firme ficarei, ficarei no Firmamento.

 

AD MAJOREM DEI GLORIAM

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LOAS E LAIS A FERNANDO PESSOA

 

                    

I

 

Eu leio, até ao lai, tua Poesia

Que legaste a nós outros, e ao Graal,

Modernista do Verbo e da estesia,

Maravilha da «Ode Triunfal».

 

Guardador de rebanhos e palavras

Que foram qual abraço e qual o Hermes,

Da Rosa, verde lenho e verdes águas,

De ingénitas, irónicas e lemes,

 

Tu lias, ao crepúsculo, o experto

Cesário sentimento nosso Mestre,

E eu leio, ao lusco-fusco, o «A» de Alberto,

Que é símil ao Pastor e ao silvestre.

 

Se a sêmea foi «Orpheu» numa Lisboa,

O sémen é Infante que apaixona;

Se lúdica é a barca, ó tu, Pessoa,

Ajuda-me a trovar uma «Persona».

 

 

II

 

Marítimo é o viático ou viagem

Nas Índias duma nave mais etérea,

Que a Musa tem a gema, e, na «Mensagem»,

A mente vai agir sobre a matéria.

 

Em Gólgota glosavas a semente,

Em Crânio cavalgavas esse potro;

A mântica era a meta, e tua mente,

O discurso d’amável e do Outro.

 

Que eu sinto, meu Amigo, o teu exemplo,

Coas tábulas falando o magistério:

Se a forma de Ulisseia é tal e templo,

Descubro, na Palavra, o Quinto Império.

 

 

III

 

E, se a gema do Mestre é sal e pão,

Se «Opiário», foi alucinogénio,

Não façam, só da «pólis», a prisão,

Não matem, outra vez, o verde Génio.

 

 

Lisboa, Janeiro de 2004*

 

*Inédito enviado pelo autor em 10/8/2008

 

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MADONNA

 

Senhora, se no Sol duma cantiga

Pra mim há doce Luz, que ando a penar,

Dá-me novas do mel, da minha Amiga,

À corda, guia, dá o lumiar.

  

Que já, no augusto sólio, Amor me siga,

Que os róseos Cupidinhos sejam lar,

Amor da doce Fátima, quadriga

Da via d’água, terra, fogo e ar.

 

E pede ao Teu menino, minha barca,

Que o Céu nunca se aparte, ó flor, de nós!!!

Que as lindas margaridas sejam marca,

 

Se inflamem Nise e Vénus pela foz,

Que fia a minha loura o véu da Parca,

Senhora, que é tão rouca a minha voz.

 

 

Tomar, 23 / 09/ 1999

 

AD MAJOREM DEI GLORIAM

 

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PRIMAVERA PASCAL

 

à Ordem da Milícia dos Cavaleiros do Templo

à Hermética Irmandade dos Amigos da Luz

 

Só da Luz, quero a Luz e muita Luz,

Que ela é Pão, que ela é prémio prò dolente…

Ela é Nova, ela é noiva, eu digo sus!

Coragem para o pobre e o doente.

 

Só da Luz. Só d’Amor, em farta Vinha,

O Sol agora vem, e é bem-vindo…

Ai cânticos e frol duma andorinha!

O dia é Primavera, eu digo lindo!

 

Só da Luz, minha leda, e só do Vate:

Vem d’amora, de poma e vem de véu…

Vem comigo, a lidar o bom combate:

Eu n’asa dos teus olhos, vejo o Céu.

 

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CELESTE MÃE

 

Eu vi d’Amor vestida essa donzela

Com rosas nos cabelos cor de ouro…

Ela vinha-me dar um bom agouro,

Ela vinha cessar minha procela.

 

E disse pra mim mesmo: «Quem é Aquela

Por quem os Amorzinhos fazem coro?

Será a tal? Será o meu tesouro?

Quem é que vem na noite meiga e bela?»

 

Ela me disse: «Eu sou a Mãe do pobre

Nascido como poucos pra ser nobre

E pra reinar no meio das estrelas…

 

Não me temas, meu filho, eu sou a Rosa

A quem tu chamas Mater Dolorosa

E venho terminar tuas procelas.»

 

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SÉTIMO SALMO

 

 

Amor, que homílias unes e adunas

Por veredas da casa, eclesial,

Acidália pousada sobre as dunas

Ou nas águas do tálamo Ideal...

 

 

Amor, que és o almagre e sumaúma,

Amor, em tom cereja d'organdi,

Penso em Ti, na alvorada que ressuma

E à Noute, madrugada, penso em Ti.

 

 

Ericina do Eros, Citereia,

Divisa aqui o divo e o dilecto:

Que farta fonte serve uma sereia!!!

Que de mirto, em Arcano e Arquitecto!!!

 

 

Amor, em cujas aras eu sou crente,

Menina, que és Maria, ou que és matina,

Tu olha-me do nicho, sorridente,

E seja o Teu sinal a minha sina.

 

 

                    Tomar, Cidade Templária, 09/11/2007

 

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DOS MENINOS DA LUZ

 

 

Bati à porta, achei o Porto

E o Padre me abençoa……

Não estou vivo, nem estou morto:

Vou sonhando com Pessoa.

 

 

Mas no vento, e palimpsesto,

Vate há lá, que é Vaticano:

Só do Mano Ele é Humano;

Se um mais seis, décimo sexto,

 

 

Mencionemos, professemos,

Cavaleiros, e liemos:

 

 

Ai que tanta Frol e Nada

Feita em Sol, humiliada,

 

 

Ai que tanta Maya ou menos,

Ai que tanto o Sul e menos…

 

 

Marchemos!!!!!

 

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ALGUMAS PALAVRAS SOBRE

 A SUA OBRA:

         

 

 

 

                                            

O DISCURSO DA LOUCURA A ECOAR NUMA «IGNOTA FAUNA»

 

 

Acabo de ler, com a atenção que o autor me merece, o livro de Paulo Brito e Abreu intitulado Ignota Fauna. Já acostumada à sua alta poesia, foi com entusiasmo que o comecei a folhear. Prosa agora, mas prosa inoculada de toda uma notável sensibilidade de Poeta. Poeta que não deixa de escrever com o delírio dos sábios e, também, com a marca do destino que, esperamos, lhe augure, como merece, um estudo académico profundo sobre toda a sua tão desprezada poética, a começar pelo belíssimo livro Agricultura Celeste.

 

Entre o «mythos» e o lógico discurso geram-se afrontamentos e conexões, inesperadas umas, previsíveis outras. A propósito do livro de Ken Kesey (transposto para o cinema por Milos Forman) «Voando Sobre um Ninho de Cucos», Paulo Brito e Abreu tece importantes considerações que são um justíssimo libelo contra o Sistema globalizante em que a sociedade vai vivendo, cada vez mais, como se estivesse a planar «sobre um ninho de cucos», ou como se fosse apenas um robô que, convencendo demais as mentes atulhadas de provisórias soluções, nada constrói de duradouro, mas apenas cria «buracos», donde é difícil, muito difícil sair, se não se possuir a força da resistência.

 

Se para o autor, a criança pouco difere do louco pela sua estratégia de verdade e sonho conjugados, o Poeta também não diverge muito dele, pelo criacionismo da sua linguagem desviante da banalidade e a actuar para além dos tempos.  Paulo Brito e Abreu que sabe, como poucos, pôr o seu pensamento ao serviço da cultura, dá-nos o exemplo de S. Paulo que destacou a questão do escândalo da cruz. Se este escândalo é uma loucura para o mundo, de acordo com aquilo que o mundo define como loucura, tal visão não tem de ser, necessariamente, uma loucura, na perspectiva de Deus.

 

É neste livro que Paulo Brito e Abreu expõe a sua tese sobre o sistema vigente. Na verdade, este não se distingue claramente de um sociedade fechada em que um manicómio ou uma prisão ou um sistema social concentracionário não se contrapõem, mas são quase uma única realidade, e até se chegam a tocar nos seus vários ângulos. E lembra: «Se assassinares no Vietname, és laureado e premiado, mas matando, inadvertidamente, numa briga de bêbedos, espera-te, punitiva, a prisão e o hospício… Com essa cultura mandante, e dominante, não nos espanta nem aturde o facto de ter surgido, nos Estados Unidos, a contracultura ou a cultura de encontros.» (1)

 

Entre as aterrorizadoras forças vencedoras num mundo de capitalismo selvagem, em que grassa  o medo desencadeado pela insustentabilidade do diverso e em que a tecnocracia tomou conta da imaginação humana, transmutando-a num robô acéfalo, a liberdade de pensamento tornou-se um conceito tirânico e despótico. E, ao analisar as consequências da presença avassaladora das máquinas, Paulo Brito e Abreu abre o caminho para a aparição de uma rede de mando sem escrúpulos. O tempo está pronto para implantar a cultura do homem concebido como «produto feito em série» e «quem pensa, altivo, pela sua cabeça, quem discorre e quem julga sem pedir licença a tutores», acaba como membro de um «reino em que impera o falaz e medíocre.» (2)

 

Logo a seguir, o autor acentua: «Os homens do poder, eles hipnotizam as pessoas com a rádio e a televisão».(3) Entre a lógica dionisíaca e a apolínea, entre o êxtase do poeta ou do santo e a ordem que desconhece o caos, Paulo Brito e Abreu chama a atenção para a possibilidade desta engrenagem provocar um poder confuso por mal definição, e estático por paralisia mental. E, conclui que se «o Sistema, anestesiar, com computadores, balelas e telenovelas, é para nos roubar, primeiramente, a capacidade de estese; o arroubamento e a estese são contra o funcionário unidimensional…» (4)

 

Se, como escreve o autor, «a língua é o que permite a ligação» (5), esta obra Ignota Fauna traça algumas linhas de oportuníssima crítica ao mundo contemporâneo em que fomos introduzidos como se fossemos loucos num manicómio. Esse mundo que se torna uma clausura monstruosa que talvez não seja mais do que uma «festa do sonho e da Utopia», como diz Paulo Brito e Abreu. E, citando João Belo, conclui o Poeta, com esta frase paradigmática: «Não é por acaso que nada é por acaso».(6) Frase que, digo eu própria, não podia ser mais certeira, mais clarividente.

 

Numa Segunda Parte (Epílogo), surgem os chamados «Paralipómenos» em que a autor se debruça sobre alguns aspectos da psicanálise Freudiana e Yunguiana, sem deixar de detectar as suas ligações com a poesia, os primitivos, a beleza, e, até sem esquecer o pensamento de Platão, de Malebranche ou de Fernando Pessoa. Nesta Segunda Parte da obra em análise, Paulo Brito e Abreu lembra, com a sua mestria psicológica e a sua experiência de vida, sobre a obra de arte, as psicoterapias e as suas relações com o metafórico «ser ou não ser» de «Hamlet».

 

A terminar, o autor entrega a Fernando Guilherme Azevedo a autoria de uma Nótula com o título «Paulo Brito e Abreu, o Comunitarismo e o “Cântico Imortal”». Como muito bem afirma F. G. Azevedo, neste ensejo, esta sua obra é hoje «uma obra maior e fundamental da Poesia contemporânea portuguesa».(7)

  

Se Ignota Fauna é, como Paulo Brito e Abreu escreve em «Paralipómenos», «manobra e manifesto duma certa alteridade, do eubiótico e crítico direito à diferença», e «essa diferença é o sonho, ou discurso do Outro» (8), é, sem dúvida, também  ̶  e ao modo muito pessoal do autor  ̶  uma contribuição evidente para a abordagem científico-poética dos discursos ideológicos acerca do Homem. Contudo, um Homem em diálogo vivo com a sua liberdade, num amplexo universal a que não falte, ou em que não escasseie o respeito pela sua identidade.

 

27 de Fevereiro de 2009

Teresa Ferrer Passos*

* Ortónimo de Teresa Bernardino.
 


(1) Ignota Fauna, Lavra Editorial, 2005, p.12.

(2) Ibidem, p. 15.

(3) Ibidem, p. 15.

(4) Ibidem, p. 21.

(5) Ibidem, p. 22.

(6) Ibidem, p. 31.

(7) Ibidem, p. 49.

(8) Ibidem, p. 44.

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