HARMONIA DO MUNDO

 

 

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POESIA

 

 

 

FERNANDO BOTTO SEMEDO

Fernando Botto Semedo nasceu, em Lisboa, no dia 18 de Junho de 1955. É Licenciado em História. Membro da Associação Portuguesa de Escritores (APE), o autor foi objecto de crítica literária de João Gaspar Simões, José Augusto Mourão, António Cândido Franco,  Teresa Ferrer Passos, Maria Estela Guedes e João Rui de Sousa, entre outros. A sua poesia reflecte o isolacionismo que não perde o sentido da relação. A sua saúde débil não o demove de continuar a fazer de cada palavra novos poemas.     

Referenciamos alguns dos seus trinta e três livros publicados, exclusivamente na área da poesia, desde 1982: Ágoas Livres (1982); Olhar de um Mar...(1983), Nulo-de-Algures  (1984), Palco de Sombra (1989); Cais-de-uma-Vez (1989); Mar Infinito (1992); Poemas do Silêncio (1996); Vintém das Escolas (2002); Poemas de um Livro Rasgado (2007); Chama de Água (2008); Sangue em Flor (2009).

 

 

 

OBRA POÉTICA DO AUTOR

 

 

 

 

DOIS POEMAS

DO LIVRO

SANGUE EM FLOR

 

 

 

«Lembrais-vos dos contos que vos eram

Destruídos de noite, numa enorme nave

Do inominável ? Lembrais-vos daqueles

Segundos de sangue esquizofrénico e

Tardio na eternidade ?»

 

*

 

Aproximaram-se do poema de um deus infantil,

E vislumbraram uma catedral universal

Invertida e destruída por um sol que rasgava

Todos os códigos algemados na saudade

De um eterno terror, sangue da minha

Alma de infante do nada.

 

             Fonte: Fernando Botto Semedo, Sangue em Flor, Apenas, Lisboa, 2009, pp. 21 e 36.

 

 

 

 

 

TRÊS POEMAS

DO LIVRO

CHAMA DE ÁGUA

 

 

 

Ao fundo da minha alma branca

Vejo uma alameda infinita de papoilas

De luz, num bailado de galáxias

Do ser de todas as crianças de gesso,

Que choram os brinquedos partidos

Da sua infância longínqua e perdida,

Onde um universo de cristal brilha muito

No sangue de um Deus orvalhado

Com poemas da água límpida do bem.

 

 

*

 

«O meu sangue branco é uma folha das infinitas

Árvores das primaveras, que hoje nasceram

Na alma de todos os homens, prisioneiros

Da realidade da matéria e do seu escandaloso

Peso e deformação. Beijo aqui as palavras

Mais simples e os versos mais despojados,

Para que o Deus livre de tudo livre

Recolha as suas lágrimas de comoção pela Criação.»

 

 

*

 

«Borboletas infinitas de um segundo

Percorrem agora as veias do meu sangue

De poema breve, como que para dizer que a

Sua efemeridade é um milagre da eternidade

Da vida e da poesia. Vejo explosões de milhões

De sóis-de-alma tingirem com palavras incompreensíveis

Todos os recantos de todas as linguagens»

 

 

                                                                                                                                            Fernando Botto Semedo

 

 

 

             Fonte: Fernando Botto Semedo, Chama de Água, Lisboa, 2008, pp. 13, 19 e 21.

 

 

 

 

 

 

 

 

A NOITE É DE LUZ E VEM SILENCIOSA E BRANCA

 

 

 

A noite é de luz, e vem devagar,

Com sua alma branca e silenciosa,

Com as suas comovidas e misteriosas lágrimas,

Acolher-se à minha alma sem luz,

À minha alma sonhando com a casa eterna,

Do amor e da comunhão com o Deus infantil,

Que jamais revelou o seu rosto, talvez

Cicatrizado pela dor e por uma infinita saudade.

 

 

A noite é de luz, e vem devagar,

Com a sua feminina presença vestal,

Com o seu infinito bailado de galáxias

Do desconhecido, com os seus brinquedos quebrados

Numa infância destruída, acolher-se à minha alma sem luz,

À minha materna alma, para um eterno

E branquíssimo poema, com a sua partitura nítida

Na invisibilidade que me cega.

 

 

 

7/06/2002

(poema inédito)

 

 

 

 

 

 

Ó-AVENIDAS-DE-SORRISO

 

 

Ó-Avenidas-De-Sorriso-

Ó-Avenidas-De-Exposição-

Ó-Arbustos-De-Um-Lugar

 

Ó-Catedrais-De-Uma-Súplica-De-Seiva-

Ó-Mil-E-Uma-Noites-Contíguas-

A-Um-Sonho-Florindo

 

Sonho-De-Infinito-Sonho

 

Fonte: Fernando Botto Semedo, Cais-De-Uma-Vez, Lisboa, 1989, pág. 77.

 

 

 

 

 

 

ALGUMAS PALAVRAS SOBRE O AUTOR:

 

 

 

 

 

 

POÉTICA DA INVISIBILIDADE

 

  

«No Silêncio das Palavras de Deus». Este o título de um dos poemas incluídos no livro Vintém das Escolas (ed. Autor, 2002) de Fernando Botto Semedo. Neste poema, podemos desocultar alguns dos temas favoritos na poética do autor: Deus, as crianças, o sofrimento.

 

Temas que se entrelaçam, como se fossem um único. Como se não se distinguissem na teia das palavras escolhidas num absoluto de nada, esse absoluto de nada em que o poeta se revê, tantas vezes, nos seus livros. Flutuando entre as asas do sonho, há neste poema de F. Botto Semedo, o olhar opaco da impenetrabilidade do ser.

 

Esferas de obscuridade gravitam em cada verso; pululam neles ideias que se descobrem em cada sílaba; e a razão faz rumo a sentidos de invisibilidade que se iluminam.

 

Ofuscando-se em viagens sem lugar ou algum espaço, F. Botto Semedo é o poeta português que melhor faz transparecer os enigmas da construção poética. Nada se dilucida no seu discurso, tudo nele se proclama vago e, mesmo, imerso nas trevas. É por isso que o poema «No silêncio das Palavras de Deus», inserto neste livro, se nos afigura mais uma síntese da poética do autor do que uma parcela.

 

E o que acontece com este, acontece um pouco com todos os seus outros poemas, publicados em vários volumes. Cada um deles é sempre um todo ou/e um tudo. O poeta entrega-se ao verbum como sujeito e como objecto, é-lhe interior e é a sua exterioridade. Um e outro interpenetram-se. No poema «No Silêncio das Palavras de Deus» presentificam-se e silenciam-se as próprias palavras. O silêncio dialoga para além de si próprio e também aquém de todas as palavras ditas.

 

Como os livros anteriores de F. Botto Semedo, Vintém das Escolas é um livro para reler, não para ler. É um livro de um poeta cantor das palavras omissas, cantor das palavras escondidas em cada palavra.

 

A estética das suas construções poéticas não tem sido objecto de cuidadas análises, o que a sua já longa e também valiosa obra pressupunha. A palavra poesia ficaria mais pobre se Vintém das Escolas não tivesse sido dado à estampa numa hora, talvez, escrita «no silêncio das palavras de Deus»…

 

Se «o silêncio é uma espiral de pureza e luz», a alma do poeta é um confrangimento de dor em que se confrontam a beleza de Deus, a plenitude das crianças e as lágrimas de um mundo ofuscado pela ganância do dinheiro, pelo desprezo dos fracos, pela dessacralização do amor. Entre a pureza da criança e a fragilidade daquele que sofre, está a poesia lírica de F. Botto Semedo.

 

Lembremos os seus dois penúltimos livros Canto Descalço (2002) e Poemas da Mágoa (2003). Quer um, quer outro, apresentam-se na continuidade dos anteriores livros publicados pelo poeta. Todos, afinal, irmanados por algo de comum: a cruzada pelos injustiçados e pelos que choram, pelos que sonham ainda e pelos que já só lhes resta a triste realidade dos dias solitários, apagados e cheios de um silêncio de sons desconhecidos.

 

Em Canto Descalço, surge uma poesia que é um grito de liberdade e/ou de libertação, usando Botto Semedo um vocabulário restringido ao mínimo, e, em simultâneo, um vocabulário que alicerça toda uma linguagem de cântico ou de salmo, conforme se preferir designá-la. Porque há aqui sempre uma tonalidade espiritual que oscila entre o vazio e o absoluto, entre o infinito e a angústia. Imagens e metáforas dão forma a poemas epigramáticos, lapidares, entoando aquilo a que em música chamaríamos um «canto chão», monocórdico.

 

Sons e imagens sucedem-se e oferecem-nos uma musicalidade que não se insere em qualquer moda ou acorrentamento às linhas de rumo dos poetas contemporâneos. Seguem-se apenas alguns dos muitos exemplos que poderíamos apresentar, neste ensejo:

«O silêncio é uma casa alvíssima

Onde encontro o essencial e a Luz»

                          (Canto Descalço, p.22)

 

 «A minha alma é uma criança que corre, maravilhada,

Por lugares e sentimentos impossíveis»

(Ibidem, p.23)

 

«Sinto brilhar a minha alma eterna

 No seio da noite e dos seus astros»

                                  (Ibidem, p.28)

 

«As estrelas infinitas do eterno

São palhaços tristes que caíram

Das galáxias interiores para uma

Folha alva cheia da dor de um

Sangue santo»

                                 (Poemas da Mágoa, p.16)

 

«Negativos de todos os poemas

Arruinaram-se na revelação

Da minha alma à entrada

Do amor alienado do Deus

Que é cinza infinita pela

Revolução branca»

                                   (Ibidem, p.54)

Na «casa» dos poetas de voz silenciada pelos clamores da omnipotente comunicação de massas, segue o seu caminho a obra da «mágoa» e «descalça» do autor destes opúsculos da poética palavra.

 

No seu último título, Harmonia Branca (Ed. Autor, 2004), diz Botto Semedo no primeiro verso do livro: «O papel branco é uma casa do silêncio». Esta é uma interessante metáfora do que tem representado para ele a poesia que, ao longo destes mais de vinte anos tem levado até aos seus leitores. Sem o apoio da maioria dos críticos dos nossos jornais de cultura, o papel onde inscreve os seus versos é bem uma casa onde reina o silêncio. Mas esse silêncio é quebrado pela palavra que é, afinal, uma surpresa para o próprio Botto Semedo. E, logo a seguir, oferece-nos uma razão para que no silêncio e, precisamente, por causa do silêncio, a poesia continue a nascer no seu mundo fechado.

 

Vamos transcrever, quase na íntegra, o poema inicial de Harmonia Branca, no qual encontramos, em síntese, a maneira muito pessoal de o autor definir a arte poética.

«As palavras do poema existem em si,

São entidades dispersas que se enlaçam (…)

(…). Surge o poema nos desenhos

Das palavras, em que o poeta apenas segura a folha

Numa grande abertura de alma, por onde o nada e

O tudo dizem e não dizem, ordenando-se por sua

Real vontade independente. Os poemas escrevem-se

A si-próprios. Apenas desejam uma frágil sensibilidade,

Para instaurarem a sua primavera branca, cheia

De uma alegria plena de Espírito eterno e suavíssimo»

                                                                (Ob. Cit., p.11)

 

Estamos perante um poeta que não se verga em troca de panegíricos, esses panegíricos mais ou menos efémeros, mais ou menos fugazes. E como tais comportamentos são tão banais na nossa praça de poetas, em busca de endeusamentos.

 

Vejam-se, os grandes destaques das páginas de Cultura da maioria dos órgãos de Comunicação do nosso país. Eis aí, todos os dias, aqueles que se situam dentro dos cânones das modas triunfantes, das modas que fazem ganhar fama e louvores e prémios, mesmo que elas sejam sinónimo de decadentes manifestações artísticas, designadamente literárias…
 

Teresa Ferrer Passos

 

Fonte:  Teresa Ferrer Passos, «Poética da Invisibilidade», «Suplemento Das Artes Das Letras» in O Primeiro de Janeiro (14/Junho/ 2004).