HARMONIA DO MUNDO

 

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O site Harmonia do Mundo irá acabar em breve.

Será substituído pelo blogue Harmonia do Mundo,

já em fase experimental.

 

 

 

OPINIÃO

 

 

Teresa Bernardino/Teresa Ferrer Passos:

O PRIMEIRO-MINISTRO DE PORTUGAL EM MOÇAMBIQUE

UM ACORDO ORTOGRÁFICO EM BUSCA DO CONSENSO

A VIOLÊNCIA, ÁFRICA E O OCIDENTE

A PROPÓSITO DO DIA DA RESTAURAÇÃO

VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES

O REFERENDO AO POVO QUE FEZ ESTREMECER A EUROPA

IMAGENS DE LINCHAMENTO PERCORREM O MUNDO

ESCLARECIMENTO DE CONTAS PÚBLICAS

NÓTULA SOBRE A ACTUAL CRISE

ISLÂMICA TENDA

ATÉ QUANDO?!

O SENTIMENTO PATRIÓTICO EM PORTUGAL

UM CENTRO PARA O DESCONHECIDO

OS MUNDOS DO POBRE NUM MUNDO DE RICOS

REFUGIADOS DA SOMÁLIA A FERRO E FOGO

O NOVO MUSEU DE GRAVURAS RUPESTRES DO VALE DO CÔA

A GUINÉ EQUATORIAL E A CPLP

DOS ABUSOS SOBRE CRIANÇAS

REVELAÇÃO DE DEUS E POESIA RELIGIOSA

OS DESCOBRIMENTOS PORTUGUESES E A CIÊNCIA EUROPEIA

LEI INJUSTIFICADA NUMA SOCIEDADE ABERTA

O ACORDO ORTOGRÁFICO

AUNG SAN SUU KYI, A BIRMÂNIA E A PAZ

REGIÕES VERSUS CENTRALIZAÇÃO

TRÁFICO DE CRIANÇAS

SOFRIMENTO HUMANO IGNORADO?!

NO CIBERESPAÇO, QUE CIBERCULTURA?

CIÊNCIA EM PORTUGAL, HOJE

NOTAS SOBRE O ENSINO POPULAR EM PORTUGAL

A PROPÓSITO DA REVOLTA MILITAR DE 31 DE JANEIRO DE 1891

MACHADO SANTOS, A CARBONÁRIA E A REVOLUÇÃO

O CENTENÁRIO DA REPÚBLICA À VOLTA DE JUNQUEIRO

VOZES DA REALIDADE HUMANA EM QUESTÃO

MATARAM O REI E O PRÍNCIPE HERDEIRO

O DESTINO DO IMPERADOR DO BRASIL, D. PEDRO I

Fernando Henrique de Passos:

ARDI E A TEORIA DA EVOLUÇÃO

O PAPA E O PRESERVATIVO

A ESTRANHEZA DO ALTRUÍSMO

SARAMAGO, CAIM E FREI JOSÉ AUGUSTO MOURÃO

 

VÁRIA:

O ACORDO ORTOGRÁFICO

LEI LABORAL MAIS MODERNA E FLEXÍVEL

CAVACO SILVA NA TOMADA DE POSSE

MARCELO REBELO DE SOUSA E O CHUMBO DO PEC 4

CAVACO SILVA E A SITUAÇÃO DE PORTUGAL EM 2011

ANTÓNIO COSTA E TEIXEIRA DOS SANTOS

O DESCALABRO DO ENSINO EM PORTUGAL

O EGIPTO DE 2011 E O IRÃO DE 1979

ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS DE 2011

SUSPEITA E JUSTIÇA

A POTENCIALIDADE PURA, por Deepack Chopra

ENTREVISTA do poeta brasileiro Sérgio Campos concedida ao escritor Floriano Martins

DEUS, QUEM É?

ALGUMAS NOTAS DE CRISTINO CORTES

MADRE TERESA DE CALCUTÁ E O ABORTO

CAVACO SILVA EVOCA A ÉTICA EM POLÍTICA

 

LINKS PARA OUTRA PÁGINAS DE OPINIÃO:

CRISE NACIONAL 2011

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

A PALAVRA DE DOM MANUEL CLEMENTE

NOTAS COLHIDAS NO BLOGUE DE MARCELO REBELO DE SOUSA

1º CENTENÁRIO DA IMPLANTAÇÃO DA REPÚBLICA

REGICÍDIO: I CENTENÁRIO (1908-2008)

 

 

 

 

 

 

O PRIMEIRO-MINISTRO DE PORTUGAL EM MOÇAMBIQUE

 

 

Barragem de Cahora Bassa

 

Após um longo processo de transferência da Hidroeléctrica de Cahora Bassa (uma das maiores barragens de África), o Primeiro-Ministro de Portugal visitou Moçambique no sentido de criar as condições para a concretização desse desiderato. A venda de capitais para a República de Moçambique será de 7,5% num valor total de 15% até agora detidos por Portugal.

 

A assinatura do protocolo efectuou-se a 9 de Abril, e teve como interlocutor o Presidente da República de Moçambique, Armando Guebuza (reeleito no cargo em 2010). Os 7,5% ficarão entregue à empresa pública moçambicana CEZA e os restantes 7,5 por cento à REN (Redes Energéticas Nacionais).

 

Esta empresa poderá integrar-se em sociedades que tenham o objectivo de pôr em execução o projecto de redes de infraestruturas de transportes de electricidade em Moçambique, orçado em dois mil milhões de dólares. O Presidente da REN, Rui Cartaxo, está, assim, disposto a participar através de parcerias com empresas moçambicanas, nomeadamente a EDM ­ Electricidade de Moçambique.

 

O Primeiro-Ministro português, acompanhado dos seus Ministros dos Negócios Estrangeiros e da Economia, assegurou a realização futura de “cimeiras bilaterais” com vista ao diálogo sobre “os assuntos mais importantes que existem entre os nossos dois países”, como afirmou Henrique Banze, Vice-Ministro dos Negócios Estrangeiros de Moçambique. Sublinhou ainda que esta visita do Primeiro-Ministro de Portugal “contribui para o reforço e aprofundamento do nosso relacionamento bilateral".

 

No regresso a Lisboa, Passos Coelho considerou muito positiva a sua viagem a este país do Índico em vias de grande desenvolvimento. Lá voltará para uma Cimeira da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), em Junho. Mais tarde, haverá ainda uma Cimeira Bilateral com o governo de Maputo.

 

10 de Abril de 2012

 

Teresa Bernardino

 

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UM ACORDO ORTOGRÁFICO EM BUSCA DE CONSENSO

 

 

Os ministros da Educação da CPLP reuniram-se a 28 e 29 de Março em Luanda (Declaração final a 30), com vista a estudarem as alterações ao Acordo Ortográfico que não foi assinado por Angola e Moçambique por discordância com algumas normas de carácter gráfico que são pouco consentâneas com a ortografia anterior usada na Língua Portuguesa. Podem mesmo considerar-se como possíveis dois vocabulários, um nacional e outro comum.

 

A presidência angolana da CPLP tem entravado a aprovação plena do Acordo Ortográfico, como se escreve no Jornal de Angola, para «melhorar a eficácia e eficiência dos sistemas de educação dos estados-membros». Aquele órgão de comunicação social de Angola acrescenta ainda que, apesar dos inconvenientes da ortografia segundo parâmetros que não ganharam unanimidade para a sua aprovação, o Acordo Ortográfico «constitui uma contribuição para a promoção e defesa da língua portuguesa na CPLP e no mundo».

 

Os ministros da Educação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, defenderam «a importância do ensino técnico profissional como ensino de eleição para uma maior empregabilidade, desenvolvimento económico e consequentemente redução da pobreza nos Estados da CPLP.»

 

Defendeu-se nesta VII Reunião que «se criem projectos a serem financiados pelo fundo especial da CPLP ou por outros fundos adstritos ao desenvolvimento da cooperação no âmbito nacional, bilateral, multilateral, com vista à elaboração dos vocabulários ortográficos nacionais».

 

O Secretário de Estado da Cultura de Portugal já considerou que o Acordo Ortográfico deverá ser objecto de um estudo sério e profundo e continuado ainda até 2015, ano em que entrará definitivamente em vigor.

 

De facto, esse estudo é urgente e já deveria ter começado a ser feito pelos linguistas, no sentido de defender a língua portuguesa nas suas versões nacionais e não numa homogeneidade ortográfica que não respeita, por vezes, o significado de cada vocábulo.

 

2 de Abril de 2012

Teresa Bernardino

 

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O ESTADO E O ACORDO ORTOGRÁFICO

 

 

 

 

"Ao estado não compete legislar sobre a língua."

 

"A Faculdade de Letras não discutiu o Acordo porque era um acordo político."

 

"Acho repelente o Estado decidir sobre uma consoante muda".

 

 

António Feijó,

Director da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa,

em entrevista à RDP 2 (10/2/2012)

 

 

***

 

O CCB E O ACORDO ORTOGRÁFICO

 

 

Vasco Graça Moura, actual Presidente do Centro Cultural de Belém, justifica a decisão de suspender o acordo ortográfico em documentos imanados do CCB devido à sua inconstitucionalidade. Um dos argumentos é que o acordo infringe «os artigos da Constituição que protegem a língua portuguesa, não apenas como factor de identidade nacional mas como valor cultural em si mesmo». A verdade é que países como Angola e Moçambique ainda não ratificaram o acordo ortográfico e, segundo a ordem jurídica portuguesa, «a vigência de uma convenção internacional depende, antes de mais, da sua entrada em vigor na ordem jurídica internacional».

 

Fonte: Sol (3/2/2012)

 

 

***

 

 

PARA QUE EXISTE O CCB?

 

 

«Sugeri que fosse analisada a possibilidade de introduzir conversas com temas como a música, a medicina, o teatro lírico e o teatro declamado. É possível acrescentar sem grandes custos esse tipo de intervenção».

 

«Para que é que existe o CCB? A promoção da cultura, em particular da portuguesa, desenvolvendo a criação e a difusão, em todas as suas modalidades».

 

«A história da arte, a crítica da arte, têm sempre uma faixa actualizada, independentemente do período histórico considerado. Agora, não se pense que isto vai ser um centro de projecção das vanguardas. Recorrerá às vanguardas como às retaguardas, sem nenhuma espécie de complexo».

 

Vasco Graça Moura, Presidente do CCB,

em entrevista ao jornal Público (1/2/2012)

 

 

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LEI LABORAL MAIS MODERNA E FLEXÍVEL

 

 

 

«João Proença, o sindicalista do PS, percebeu que o momento não é para politiquices e teve a coragem de assinar um acordo que agrada, sobretudo, aos patrões. Por muito que o digam, a UGT não se vendeu ao patronato. Percebeu apenas que a única maneira de segurar empregos e reanimar a economia é retirar direitos incompatíveis com a conjuntura. O que se fez foi lançar a bóia aos empresários. Retirando-lhes desculpas e desafiando-os, reforçados por uma lei laboral mais moderna e flexível, a mostrarem o que valem.» (in http://rr.sapo.pt/ )

 

19/1/2012

Ângela Silva*

 

* Desassombrada e corajosa intervenção na Rádio Renascença (Programa de Paulino Coelho). De louvar, num momento em que uma parte significativa da Comunicação Social se colou, com acentuada pouca sensatez, à CGTP (afecta ao Partido Comunista) de Carvalho da Silva.

Teresa Ferrer Passos

 

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A VIOLÊNCIA, ÁFRICA E O OCIDENTE

 

A violência entre povos de religiões diferentes tem-se intensificado no Norte de África e na África Central apesar da abertura às democracias de raiz europeia. É o caso do flagelado Egipto dos últimos tempos do Presidente Mubarak. Após a sua queda, a continuação das grandes insurreições populares contra o governo militar que se lhe seguiu, não acalmou os ânimos mais exaltados, em especial dos aderentes à religião maioritária do país, a religião muçulmana. Os cristãos coptas foram já vítimas de vários atentados à sua vida nas suas próprias igrejas.

 

No passado dia de Natal, foram mortas várias dezenas de pessoas que celebravam o culto numa igreja cristã dos arredores de Abuja, capital da Nigéria. O atentado foi reivindicado pela seita islamita fundamentalista Boko Haram. Temendo a onda de violência que assola várias regiões da Nigéria, milhares de pessoas abandonaram as suas casas na cidade de Damaturu, no nordeste do país.

 

Perante a perigosa continuidade dos atentados sobre os cristãos e as eventuais retaliações ou ajustes de conta, o Presidente Goodluck Jonathan afirmou: “A violência contra pessoas inocentes é um ataque injustificado à nossa liberdade e à segurança coletiva”. Por sua vez, o arcebispo da diocese nigeriana de Jos, Ignatius Ayau Kaigama, revelou à Rádio Vaticano que muitos cristãos começaram a abandonar o norte do país africano em busca de zonas "mais seguras", por se sentirem "pouco aceites".

 

Estas palavras seguiram-se ao ultimato do grupo que reivindicou os atentados feito aos cristãos do Norte da Nigéria no sentido de que abandonassem esta região. Há nestas zonas do grande continente africano uma instabilidade latente que coloca as religiões na ponta da espada erguida por dirigentes religiosos e políticos.

 

No mais novo país do mundo, o Sudão do Sul, a situação também se apresenta bastante perigosa devido à persistência dos ataques a grupos de etnias diferentes. Aqui, o mal-estar, a desconfiança entre tribos animistas, e muçulmanos e cristãos deste país recém-independente, provocou recentemente a morte de milhares de pessoas e a deslocação de muitas outras. A tribo Murle e a Lou-Nuer atacam-se mutuamente.

 

Com os mais diversos motivos, a injustiça espalha-se pelos vastos campos onde uns vivem e outros se refugiam. Depois, é o confronto com a escassez de alimentos, a fome e a morte. Às dissidências políticas e religiosas interpretadas à luz da guerra, a seca, provocada por mudanças climáticas resultantes do efeito global das excessivas emissões de CO² na atmosfera pelas grandes potências mundiais, tem sido a responsável pela morte de milhões de pessoas na África tropical e equatorial.

 

Os países ricos não se têm envolvido neste problema que afeta populações pobres. Populações que vivem essencialmente da produção agrícola das suas pequenas explorações, vêem-se confrontadas com uma difícil sobrevivência. A morte está para todos, a cada instante, iminente. A desconfiança, o medo e o ódio balançam nestes países em que ninguém sabe concretamente quem é o inimigo e quem é a próxima vítima.

 

A evolução política no sentido do regime democrático levada a cabo pelas potências ocidentais colonialistas de muitos desses países, tem criado resistências de chefes tribais mais habituados à autonomia das suas terras. Por vezes, desencadeiam-se grandes revoltas pró-independência, como a da região do Biafra no Sul da Nigéria (1967-1970) que foi responsável por mais de um milhão de mortos. Os governos altamente centralizados resultantes da herança dos antigos governos colonizadores, são muitas vezes mal vistos pelos chefes tribais de religião animista ou, maioritariamente, muçulmana.

 

O princípio político de que todos têm de evoluir para o regime democrático tem provocado desordens calamitosas entre populações indefesas e esfomeadas. Se o regime democrático tem, desde a Revolução Francesa (1789), servido os interesses dos povos dos países ocidentais herdeiros da “paideia” (pedagogia) da Grécia Clássica (séc. V a. C.), quem nos garante que esta fórmula pode bem servir os interesses de outros povos com um passado de raízes bem diferentes e mesmo antagónicas?

 

É talvez isso que o regime autocrático da China de hoje nos mostra à saciedade. Enquanto a Europa e os EUA se confrontam com o empobrecimento crescente que as suas democracias não são capazes de estancar, a China tem um índice de crescimento económico que conseguiria comprar as dívidas soberanas de muitos desses países.

 

As democracias ocidentais não são a panaceia milagrosa, como nos últimos anos parece ser aceite pelos maiores líderes do Ocidente, para todos os países quer sejam da África ou da Ásia. Lembremos o caso do Egipto recente, da Líbia ou da Tunísia no Norte de África. Os países do Ocidente devem ter a humildade de não se considerar os portadores da salvação política para todos os outros países do Globo.

 

Ao apoiar movimentos auto-denominados de pró-democracia, podem estar a fomentar soluções falaciosas para povos de psicologia muito diferente da europeia ou norte-americana, que não poderão viver em paz com adaptações políticas e económicas que lhes são completamente estranhas e mesmo até aberrantes para o seu ancestral passado histórico, que está bem longe dos dois ou três séculos de colonização, aproximadamente. Como diz um sábio ditado popular, “cada roca com seu fuso, cada povo com seu uso”.

 

10/1/2012

Teresa Ferrer Passos*

 

 

* Ortónimo de Teresa Bernardino.

 

 

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A propósito do Dia da Restauração

da Independência de Portugal,

em 1 de Dezembro de 1640*

 

«Foi a partir sobretudo da década de 1620, que a propaganda ideológica anti-espanhola começou a assumir, em Portugal, uma feição acentuadamente favorável à rejeição do domínio do rei estrangeiro. De facto, a publicação da Corte na Aldeia de Francisco Rodrigues Lobo, em 1619, era uma chamada de atenção para a riqueza da História de Portugal – com os seus inesquecíveis heróis e os seus reis magníficos –, da cultura universalista que a cimentava, da língua rica e melodiosa, que a fazia chegar até ao vasto Brasil, à África de variados dialectos e às gentes do fascinante Oriente»

     

Teresa Ferrer Passos, D. Antão de Almada e a Restauração de 1640, Universitária Editora, 1999.

 

 

* O dia 1 de Dezembro de 2011 será o último feriado nacional comemorativo desta data, devido à grave crise de ordem económica que o nosso país atravessa.

 

 

 

 

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VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES

 

 

 

A notícia é dos jornais: “Quarenta mulheres morrem por ano, vítimas de violência doméstica” (média estatística). A propósito de um artigo de jornal apareceu um comentário na internet que é polémico, e mesmo pertinente, ao omitir uma parte significativa das palavras de S. Paulo sobre a relação entre a mulher e o marido. Aquele comentário a que nos referimos critica S. Paulo em tom jocoso acerca da expressão “as mulheres devem ser submissas aos homens” (Ef 5, 22).

 

Ora, em primeiro lugar, o autor do comentário desenquadrou a frase do seu contexto histórico e, mais grave, desinseriu-o da mentalidade da época. Este texto foi escrito há dois mil anos, logo nada tem a ver com os costumes do nosso tempo. Além disso, Paulo de Tarso escreveu esta frase de acordo com a Lei de Moisés, cujo rigor o próprio Jesus Cristo pôs em causa.

 

Por isso, S. Paulo, como seguidor de Cristo, (após ter sido um dos grandes perseguidores judeus de cristãos), acrescentou a seguir: “Os maridos devem amar as suas mulheres, como aos seus próprios corpos. Aquele que ama a sua mulher, ama-se a si mesmo” (Ef 5, 28). E, mais adiante: “O homem deixará pai e mãe, ligar-se-á à mulher e passarão os dois  a ser uma só carne” (Ef 5, 31).  E, diz ainda nesta sua Carta aos Efésios  (importante cidade da Ásia Menor): “Ame cada um de vós sua mulher como a si mesmo” (Ef 5, 33).

 

Ora estas três últimas frases parecem até contradizer a primeira que diz que “as mulheres deviam ser submissas aos maridos”. Contudo, nem sequer isso acontece porque a “submissão” é aqui sinónimo de obediência ou aceitação da vontade do marido. De facto, a obediência ou aceitação da vontade do marido deverá significar para S. Paulo, ser generosa ou condescender por amor. Amar não é uma exigência, mas uma transigência.

 

Obedecer (“ser submissa”) não quer dizer que se tem medo e que não se ama. E é isso que observamos nos escritos de S. Paulo, pois ele diz-nos que, em relação à obediência a Deus como Pai (o Criador), a obediência não é uma escravidão, mas uma prova de amor. A obediência é, neste caso, uma comunhão de amor. Porque S. Paulo está constantemente a inserir o amor dos homens num amor mais amplo que é o de Deus, não lhe repugna aconselhar as mulheres a obedecer ou condescender com o marido.

 

Para S. Paulo é fundamental a comunhão entre ambos, como o revela bem quando ensina aos habitantes da cidade de Éfeso que “ame cada um de vós sua mulher como a si mesmo” (Ef 5, 33). Chega mesmo ao ponto de aconselhar, na sua viagem missionária ao Próximo Oriente:  “Maridos, amai as vossas mulheres como também Cristo amou a igreja [casa dos que acreditaram n’Ele]” (Ef 5, 25). E mesmo obedecer (ou ser submissa) não era, de forma alguma, um conceito obsoleto, pois o próprio S. Paulo, referindo-se a Cristo escreveu: “Apesar de Filho de Deus, aprendeu a obedecer” (Carta aos Hebreus 5, 8).

 

E a culminar esta breve reflexão sobre a hipótese de as mulheres cristãs serem educadas dentro de uma perspectiva psicologicamente doentia em relação à violência dos seus maridos, de modo algum se pode responsabilizar S. Paulo, ele o arauto do amor a todas as criaturas nas suas vertentes mais diversificadas, ele, o apóstolo que pregou a caritas como a raiz e a seiva que devia envolver toda a espécie de relações humanas.

 

O amor era para S. Paulo a essência de Deus e, vindo do Pai, não devia escassear aos seus filhos para os poder receber na Sua morada. Para que não restem dúvidas sobre a pedagogia de S. Paulo em relação à mulher, lembramos de novo a passagem da Carta aos Efésios em que ele é bem claro sobre o amor com que as mulheres devem ser tratadas pelos maridos: “Os maridos devem amar as suas mulheres, como aos seus próprios corpos”.

 

Não se trata, afinal, e segundo S. Paulo, de concordar com a violência física sobre a mulher, como o comentador infere da frase “as mulheres sejam submissas”. Aqui a submissão tem o significado de aceitação amistosa, ou seja, por amor. Por último, não se deve ler o passado exclusivamente à luz da mentalidade do presente.

 

30 de Novembro de 2011

 

 

Teresa Ferrer Passos*

 

 

* Ortónimo de Teresa Bernardino

 

 

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O REFERENDO AO POVO QUE FEZ ESTREMECER A EUROPA

 

 

 

George Papandreou, Primeiro-Ministro da Grécia, assume, subitamente, e ante a estupefacção dos Mercados Financeiros europeus, um golpe de força para conter a sangria do Povo grego pela “Troika”, representação dos interesses supra-nacionais da União Europeia, do Fundo Monetário Internacional e do Banco Central Europeu.

Ao avançar com o anúncio de um Referendo ao povo grego sobre a continuidade do país na Zona Euro, já em Dezembro, a Grécia surgiu com uma corajosa aposta contra as exigências da “governação europeia” representada pela França/Alemanha.

Um pequeno país do Sul da Europa, chefiado por um social-democrata, vive há longos meses revoltado pelas violentas e já quase insustentáveis medidas de austeridade impostas pela “Troika”. A tudo isso se juntariam ainda outras medidas financeiras mais duras, após o perdão de 50% da dívida pública grega, acrescido de um novo empréstimo de 100 mil milhões de euros.

Na verdade, Papandreou está a fazer frente, apesar das suas fragilidades visíveis, a uma “Troika” do capital europeu que ganha ao emprestar e ao receber os juros respeitantes aos empréstimos contraídos.

A verdade é que o equilíbrio dos países ricos da Zona Euro fica sempre sustentado, caso os países mais fracos continuem na Zona Euro numa submissão praticamente incondicional (o poder de manobra dos países pobres é praticamente nulo).

As economias mais débeis da Europa, entre as quais se encontram Portugal, Irlanda, Espanha e, em vias de os seguir, a Itália (?!), encontram-se sob pesada vigilância a que os governos não conseguem fugir. Alguém teria de dizer “basta!”. Coube, para já, à Grécia, fazê-lo.

 

2/11/2011

Teresa Ferrer Passos*

 

 

* Ortónimo de Teresa Bernardino

 

 

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IMAGENS DE LINCHAMENTO PERCORREM O MUNDO

 

 

 

Imagens de rebeldes em fúria, após a captura do Coronel Kadhafi, não terão ferido as almas em que ainda perpassa a piedade, esse olhar de construção, e não de destruição, perante o criminoso mais hediondo?

À solta, vimos no ecrã a ignomínia humana que não se contém perante um combatente vencido pelas armas.

À solta, vimos a desvergonha de erguer sobre estas imagens imbuídas da crueldade humana, um chamado novo e promissor regime.

Como se apresentam estas imagens sem um resquício de comoção, sem uma sombra de turvação no espírito?

Como se aplaude este acto na praça pública com disparos de metralhadora e se acha na alegria destes guerreiros cegos, uma expressão de justiça?

Como acreditar que estes líbios, em guerra com outros líbios representados por Kadhafi, a vítima do linchamento, não conduzirão a muita e terrível violência?

Forças que se dizem defensoras dos direitos humanos e da justiça de um poder judicial independente, podem, com isenção, sancionar estes actos?

A aceitação tácita, no dia seguinte, por políticos da Europa, designadamente de Portugal, destas imagens de imolação por linchamento de um ser humano na praça pública, mesmo considerando-o o maior criminoso do mundo, é assustadora.

Será que o capitalismo cego de um "relojoeiro cego" se instalou já, no mundo dito do Ocidente cristão?

Será que as imagens da crueldade já não afligem as mentes humanas, porque estas caíram na maior das desgraças, o louvor da injustiça com o palco do mundo garantido?

 

21 de Outubro de 2011

Teresa Ferrer Passos*

 

 

* Ortónimo de Teresa Bernardino.

 

 

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ESCLARECIMENTO DE CONTAS PÚBLICAS

O aviso ao Governo do Professor Marcelo Rebelo de Sousa deve ser altamente considerado pelo Primeiro-Ministro Passos Coelho, porque não esclarecendo com toda a transparência as Contas Públicas do Estado Português, dá a impressão de esconder uma parte da verdade sobre as responsabilidade do(s) governo(s) dos anos anteriores, pelo menos de uma década.

Fonte: Facebook (Página de Fernando Passos)

17/10/2011

Teresa Ferrer Passos

 

 

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NÓTULA

 

Aos senhores Deputados da Assembleia da República

 

É escandalosa a vossa preocupação com a classe média da Função Pública!

Pareceis estar estonteados, desnorteados, em pânico, com os cortes financeiros que a atingem (e que vos atingem, em particular).

Preocupai-vos antes com aqueles que têm salários abaixo dos 1000 euros por mês!

Com aqueles que têm as mais baixas pensões da Europa!

Preocupai-vos com os velhos e os doentes que não têm dinheiro para comprar os medicamentos!

Preocupai-vos  com os milhares de desempregados que querem trabalhar

e perderam o emprego que lhes dava sustento e às suas famílias!

Por isso, a esses senhores deputados lembremos as palavras de Raul Brandão escritas no livro Os Pobres:

«Batera em vão a todas as portas, aniquilado, sem ideias e sem forças».

 

15/10/2011                                    

Teresa Ferrer Passos*

 

 

* Ortónimo de Teresa Bernardino

 

 

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ISLÂMICA TENDA

 

Gentes ululantes agitam a pobreza, a esmola e a penitência dos anos sem memória. Nas praças vastas e sem barreiras, as multidões elevam tendas brancas em busca de um alívio e paz e esperam nervosas e ávidas de mudança a chegada de Deus. As orações são soletradas devagar e as gentes vergadas num chão poeirento guardam pedras de arremesso nas sarjetas e nos sacos-cama. As calmas horas de Deus arrumam a raiva das horas. Os dias preenchidos com um mundo de trabalhos arrasadores das forças humanas, descansam.

Só ouvimos os gritos a ecoar no sangue dos feridos caídos nos muros derrubados das casas. Os vivos cercam as tendas e agitam ainda bandeiras de uma libertação desconhecida. Muitos, com as feridas na face e no dorso contorcem a dor da vitória. Os mortos deixam-se levar para sítios desconhecidos, sem orientação alguma. São todos escravos de chefes invisíveis. Quem os guia na escalada fulminante das balas? Quem os atiça sob os golpes certeiros das pedras? Quem lhes fornece a metralha e as bombas que incendeiam as vestes esfarrapadas pelas lutas corpo-a-corpo?

Os soldados confundem-se entre os polícias e estes procuram estonteados o povo a manifestar os hinos enfaixados de Não. Mas um Não informe, sem sentido algum. Um Não continua a sussurrar, incoerente e audaz. Revoltas do Não-Poder contracenam com as revoltas do Poder, envolvendo-se no caos das burcas e das longas vestes negras. O medo é alimentado pelas armas novas que passam de mão em mão e proliferam. Tudo se passa na derrota ou na vitória ou na nebulosa sorte indefinida. A dor traça riscos de obediência a ordens cegas ou absurdas.

Entre os combatentes de apregoadas liberdades, formam-se maiorias desfazem-se minorias, de todas as facções presentes em tribos e etnias. No meio dos campos de gladiadores, só prevalece a oração a Deus. Nos intervalos das balas, nos caminhos da morte, no discurso dos senhores, só ela é forte na islâmica tenda das diferenças.

 

25 de Fevereiro de 2011

 

Teresa Ferrer Passos*

 

 

* Ortónimo de Teresa Bernardino.

 

 

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ATÉ QUANDO?!

 

Até quando as minorias continuarão a não ter voz numa sociedade em que se fez uma revolução (25 de Abril de 1974) para acabar com a exploração dos mais pobres?

 

Até quando um governo que se auto-denomina socialista continuará a penalizar as minorias menos favorecidas economicamente?

 

Até quando um governo que legisla com decretos-lei imbuídos de atropelos à Lei, continuará a ser tolerado pela Assembleia da República e pelo Presidente da República?

 

Até quando teremos “pacientemente” de esperar?!

 

Até quando?!

 

18 de Março de 2011

 

Teresa Ferrer Passos*

 

 

* Ortónimo de Teresa Bernardino 

 

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«O SENTIMENTO PATRIÓTICO EM PORTUGAL» ¹

 

«A problemática da nacionalidade portuguesa iniciada por Camões, prosseguida pelos poetas dos fins do século XIX e 1ª metade do século XX não morreu nem morrerá, pois os momentos de crise que temos vivido e haveremos ainda de viver serão incentivos, serão dinamizadores, serão inspiradores do despertar do povo que, por vezes, adormece sonhando com a grandeza do país que deu "novos mundos ao mundo".»

 

(...)

 

«Em 1640, como no combate vitorioso de Salga ², ficou bem patente que o sentimento patriótico aliado a uma eficiente estratégia eram sempre preferíveis à participação precária e hesitante do estrangeiro na restauração nacional. Basta lembrar o resultado do apoio militar inglês quando as tropas de Junot invadira, em 1807, Portugal. A expulsão do francês traduziu-se na ocupação militar e económica do inglês.»

 

 

                                                                                                                                             Teresa Bernardino

 

 

 

¹ O Sentimento Patriótico em Portugal, Lisboa, 1983, pp. 76 e 85.

² Nos campos de Salga, na ilha Terceira (Açores), que foi o último reduto da independência de Portugal, até Agosto de 1583.

 

 

 

 

 

 

Ao Governo e ao Senhor Primeiro-Ministro reitero o compromisso de cooperação que há cinco anos assumi perante os Portugueses. Pela minha parte, pode contar o Governo com uma magistratura activa e firmemente empenhada na salvaguarda dos superiores interesses nacionais.*

 

Aníbal Cavaco Silva, Presidente da República

 

* Discurso de Tomada de Posse na Assembleia da República, em 9 de Março de 2011

 

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«Tive muita pena que o Passos Coelho não tivesse até ao último minuto feito uma proposta ao primeiro-ministro no sentido de viabilizar o PEC. Depois de aprovado o PEC, aí sim, estaríamos em condições de avançar para eleições.»

 

24/3/2011

Marcelo Rebelo de Sousa

 

 

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«Vivemos uma década perdida em termos de ganhos de nível de vida.»

 

«É essencial traçar um caminho que permita o reforço da nossa competitividade e o aumento da produtividade do trabalho e do capital.»

 

«A perda de competitividade da economia portuguesa é talvez o sintoma mais grave das nossas fragilidades.»

 

10/3/2011

Aníbal Cavaco Silva, Presidente da República

 

 

Fonte: Página do Presidente da República no Facebook.

 

 

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«O discurso do ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, na sexta-feira, ficará para a história como a mais desastrada e desastrosa comunicação política que alguma vez foi feita em Portugal.»

 

«As crises políticas são previsíveis e evitáveis.»

 

«Se é bom para o país haver uma crise estamos no caminho certo.»

 

António Costa*

 

* 17/3/2011 (Programa “Quadratura do Círculo”, SIC Notícias)

 

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«Talvez o Ministério venha um dia a pedir, para poupar esforço e tinta, que os alunos sublinhem uma frase a fim de obterem toda a pontuação. E talvez inclua nos testes de Física um glossário com o significado das palavras usadas nos enunciados. O Gabinete de Avaliação Educacional do Ministério da Educação, que já tem deixado passar erros em várias provas nacionais, não pára de nos espantar. Agora resolveu, num teste intermédio do 11.º ano da disciplina de Física e Química A, repito, do 11.º ano, fazer uma transcrição de um livro meu (Física Divertida, Gradiva, 1991), com apenas quatro linhas mas adaptada (adaptada?), e pedir aos alunos para transcrever (sic) uma informação trivial que se encontra no texto (…).»

 

Carlos Fiolhais

Fonte: Sol, 28/2/2011

 

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O EGIPTO DE 2011 E O IRÃO DE 1979

 

«Para os egípcios, a história da revolução de 1979 deve servir como um sério aviso», afirma o escritor iraniano Abbas Milani num artigo recente na revista The New Republic».

«Em 1978, o aiatola Khomeini escondeu as suas verdadeiras intenções sob o manto da democracia. Chegado ao poder, Khomeini criou o actual regime teocrático e despótico», recorda. O mesmo ambiciona a Irmandade Islâmica, disse o politólogo egípcio Wahid Abdul Magid ao Los Angeles Times: «Eles apostam numa tomada de poder através de eleições».

«O país no centro de todas as atenções é uma das nações árabes onde o apelo do islão político é mais forte. Uma sondagem realizada em 2010 pelo Pew Research Center dos Estados Unidos revela que 85% dos egípcios vêem como positiva a influência do islão na política e apenas 59% consideram a democracia como a melhor forma de governo.»

 

Pedro Guerreiro, Sol, 4/2/2011

 

 

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UM CENTRO PARA O DESCONHECIDO

– A 1ª VIAGEM DA FUNDAÇÃO CHAMPALIMAUD 

 

 

 

A Fundação Champalimaud acaba de publicar uma obra alusiva ao processo de construção do Centro para o Desconhecido – Centre for the Unknown – 730 dias, da conjunta responsabilidade do jornalista Rui Ochôa e do arquitecto Charles Corrêa.

 

Com uma Introdução do arquitecto indiano Charles Corrêa, este notável repositório de fotografias tiradas ao longo destes 730 dias de edificação, é enriquecido pelas epígrafes dos pequenos passos dados pelo autor, ao longo da planificação desta estrutura arquitectónica.

 

A cada fotografia corresponde um pensamento do autor deste arrojado e belo projecto. Cada palavra é emblemática de todo um trabalho científico que se pretende vir a rumar aos mais altos planos da cultura dos povos de aquém e de além-mar em África, nas Américas e nos asiáticos países.

 

A obra está dividida em três partes: A viagem (iniciada em 5/10/2008); Ponto de Viragem (2/10/2009); Ponto de Chegada (2/10/2010). Como escreve Charles Corrêa na Introdução, “na Índia, os rios têm um significado sagrado. Ter-lhe-á o Tejo servido de musa inspiradora para a obra ímpar que colocou aos seus pés em Belém", diz-nos Rui Ochôa.

 

Qual galeão do século XXI, o edifício do Centro para o Desconhecido, criado para um estudo aplicado nas áreas das ciências oncológicas, da visão e da neurologia, tem por lema a ideia que presidiu a toda a dinâmica desencadeada ao longo da espantosa gesta dos descobrimentos portugueses de Quatrocentos.

 

Qual navio transatlântico que golpeia o Atlântico com o braço da foz gigante do Tejo, qual “Escola de Sagres” do século XXI, o Centro para o Desconhecido devolve à cidade de Lisboa a força que incutiu, há mais de quatro séculos, aos mares e às terras desconhecidas que nos enriqueceram e que enriqueceram o mundo.  

 

Que Leonor Beleza, a presidente da Fundação Champalimaud, alcance o objectivo que o seu fundador, António Champalimaud, almejava. Que os cientistas e toda a equipa dos seus colaboradores sejam navegadores nas águas profundas desse desconhecido que mantém ainda submerso,  na época contemporânea, muitas das realidades humanas.

 

 29/1/2011

Teresa Ferrer Passos*

 

 

* Ortónimo de Teresa Bernardino

 

 

 

 

 

ELEIÇÕES À PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA EM 23/1/2011

 

 

«Esta é a candidatura que é preciso silenciar, a única que incomoda o sistema»

 «Decência e dignidade para um povo que não está a ser respeitado»

 «É impossível calar uma consciência.»

  Comício na Guarda,  16 de Janeiro/2011

«Só com uma cidadania forte, exigente e interpelativa podemos fazer com que o nosso país se desenvolva e afirme a sua democracia.»

 Comício em Santarém, 17 de Janeiro/2011

Após uma reunião com sindicatos do sector, na sede da Federação Nacional de Professores (Fenprof), Fernando Nobre afirmou que «não é entendível» que se tirem «803 milhões de euros» à Educação no Orçamento do Estado deste ano quando se pretende que seja «um desígnio nacional».(...)«Num momento em que o desemprego já é uma chaga nacional».

 

19/1/2011                                    Fonte: Correio da Manhã

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«Enquanto alguns descobriram há meia dúzia de anos e fizeram bons discursos sobre cidadania, Fernando Nobre oferece-nos há décadas uma prática militante de uma cidadania global e todo-o-terreno, sobretudo em terrenos onde as condições eram mais difíceis, onde as pessoas enfrentavam mais dificuldades e era preciso intervir com mais urgência»

                                                                  Catalina Pestana

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«Nobre é a única alternativa à total degradação, desfaçatez e corrupção que têm sido os “políticos de carreira”»

                                                                Clara Pinto Correia

Jantar-Comício em Santarém, 17/1/2011

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«Na ousadia constroem-se as pátrias e defendem-se os povos, não na cautela medrosa e cobarde – eis o exemplo oferecido pelo candidato à Presidência da República Portuguesa, Fernando Nobre»

19/1/2011

                                                                 Teresa Ferrer Passos

                                                   

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VENCEDORES E DIGNIDADE

1. Os vencedores:

A vitória de Cavaco Silva à primeira volta consumou-se, tal como o candidato e Presidente da República, solicitara ao povo português. O apoio dos eleitores afectos ao CDS e ao PSD foi um dos seus sustentáculos. O apoio dos socialistas descontentes com o Governo Sócrates aumentou o números dos seus votos. O apoio de muitos que não aceitam a calúnia como arma de arremesso político, determinou a maioria à primeira volta.   

A votação conquistada pelo candidato Fernando Nobre - 14% -  com um discurso anti-sistema ideológico e cultural, foi significativa. O candidato da mundialização da justiça social, o candidato da ousadia sobre a qual tem traçado toda a sua vida, teve uma votação de vitória. Vitória alcançada sem apoios partidários e que conquista á volta de meio milhão de votos. Esta vitória só se pode juntar à vitória de Cavaco Silva, pelos princípios patrióticos defendidos por ambos e também pela ausência de métodos caluniosos para atingir o Poder. 

2. Os vencidos:

O grande vencido destas eleições foi Manuel Alegre. Oscilando entre o apoio do Partido Socialista e do Bloco de Esquerda, foi, sem dúvida, extremamente hábil na gestão desses apoios contraditórios, a nível eleitoral. Mas, não conseguiu ser poupado pelos eleitores, especialmente do Partido do Governo, por não se reconhecerem num candidato apoiado pelo Bloco de Esquerda, nem estarem, muitos deles, satisfeitos com o desempenho do Governo do seu partido. O Primeiro-Ministro poderia ter evitado apoiar o candidato sustentado, em primeiro lugar, pelo Bloco de Esquerda. A alternativa era apoiar o candidato Cavaco Silva, que nenhuma obstrução governativa lhe dirigiu ao longo de cinco anos de Presidência cordata, ou não apoiava nenhum candidato, dando liberdade aos afectos ao PS para optarem pelo candidato da sua preferência, dentro do esquema eleitoral.

O candidato do Partido Comunista  Francisco Lopes, lutou, dentro dos princípios do seu partido, por uma votação que continuasse a corresponder à fracção política habitual, ou seja, entre os 7 e os 9%. Ficou pela fasquia mais baixa, os 7%, mas com um comportamento que, se falhou pelo recurso à calúnia ao candidato Cavaco Silva, foi coerente com os planos eleitoralistas usados há mais de trinta anos, pelo seu partido.

3. Os derrotados:

O candidato da Madeira, José Manuel Coelho, comportou-se como um bobo da corte, um histrião, um palhacinho que se aproveitou do número de apoiantes na Madeira, para achincalhar a democracia, em geral e o candidato Cavaco Silva, em particular.

O candidato de Viana do Castelo, Defensor Moura, afecto ao Partido Socialista, não só deu azo a um mau exemplo da dignidade dos naturais da sua cidade que, na verdade, não se revê, de modo algum nele, como teve a baixeza de, na própria noite da sua debilíssima votação, recusar felicitar o vencedor e continuar com as calúnias.

4. O Povo português escolheu. Que o vencedor destas eleições à Presidência da República, o Professor Aníbal Cavaco Silva, corresponda às suas expectativas, aos seus anseios, às suas esperanças.

24 de Janeiro de 2011

Teresa Ferrer Passos*

*Ortónimo de Teresa Bernardino.

     

 

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OS MUNDOS DO POBRE NUM MUNDO DE RICOS

 

 

A pobreza é um escândalo na evolução da humanidade. Nas cidades há pobres. Mas também nos campos. Desde a Europa à América e à Ásia, desde as vastas savanas da África mediterrânica à África nas margens do Índico e do Atlântico, há milhões de crianças sem o principal direito de todo o ser humano: o direito à subsistência.  A pobreza espezinha populações inteiras num mundo dominado pela ganância de minorias insaciáveis de lucros e pela ambição desmedida daqueles que exigem empregos abundantemente remunerados.

 

Neste planeta mundializável, como tudo o faz prever, a globalização sem travões não é generosa, mas egocêntrica. Aqui, tanto governos como empresários privados são indiferentes à subversiva subalimentação em que as sociedades crescem e morrem numa total irrealidade humana. As mulheres são exploradas no trabalho mal remunerado. Os homens seguem os passos da guerra que os alimenta na mentira da riqueza.

 

Um mundo grita a miséria. Outro mundo exige a abundância. Os mundos da diferença e da indiferença confrontam-se e coexistem. A paz é uma sombra nas civilizações afastadas do sentido da fraternidade social. Civilizações em que os que muito têm se esquecem dos seus deveres para com esses a quem chamam pobres. A paz é uma aparência numa terra sem bem-estar, porque onde há fome impera o sofrimento.

 

Uma farsa humana repousa onde há carência alimentar. Aí só pode viver também o reino do atraso cultural e moral. Sob a ditadura de minorias votadas à tecnologia progressista, mas que se esquecem da importância da solidariedade humana.

 

Numa sociedade que não se deixa conduzir pela fraternal união, os pobres multiplicam-se e a revolta vive nos seus corações amedrontados. A sua vida torna-se um simulacro e esperam no desespero. No desespero da revolução que redima os poderosos e os consciencialize da injustiça em que vegetam, felizes.

   

16 de Outubro de 2010

Teresa Ferrer Passos*

 

 

 

* Ortónimo de Teresa Bernardino

 

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REFUGIADOS DA SOMÁLIA A FERRO E FOGO

 

O Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados, António Guterres fez, ontem, uma comunicação ao mundo no sentido de os países receberem condignamente refugiados da Somália, em consequência das desumanas condições de vida naquele país do Nordeste africano. De momento, o país que deu mais cobertura à sua fuga da pátria foi o Kénia. Aqui, já se encontram num campo da região de Kukama, à volta de 76.000 pessoas e em outro (o maior do mundo), em Dadaab, à volta de 300.000 pessoas. Só em Agosto, mais de 6.500 pessoas da Somália fugiram das brutalidades do exército sobre os revoltosos de religião islâmica. O ex-Primeiro-Ministro português apelou à consciência dos governantes com vista à disponibilização de tudo o que for possível para socorrer estas populações. Além disso, mostrou-se contrário ao “lavar de mãos” dos governantes que os reenviam “sem apelo” para os países donde acabam de fugir. Que António Guterres na sua Alta missão alcance a escuta e a benevolente acção dos governos e dos povos abertos ao espírito que deve unir todos os homens, o espírito de fraternidade.

 

8/Setembro/2010  

Teresa Ferrer Passos*

 

* Ortónomo de Teresa Bernardino

 

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O NOVO MUSEU DAS GRAVURAS RUPESTRES DO VALE DO CÔA

 

 

No dia 30 de Julho foi inaugurado o Museu de Arte e Arqueologia de Vila Nova de Foz Côa. Esteve presente o Primeiro-Ministro, José Sócrates que salientou a importância do facto dizendo tratar-se esta estação arqueológico de uma verdadeira "gravura para o futuro". A Ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, classificou o acontecimento como "um momento de grande simbolismo".

 

De facto, a descoberta de um cenário pré-histórico – Paleolítico Superior – de grande valor artístico impunha medidas preservadoras. Estas pinturas do período da Arte Rupestre foram detectadas durante as escavações efectuadas, em 1996, com vista à construção de uma barragem nesta região. Era, então, ministro da Cultura, Manuel Maria Carrilho e Primeiro-Ministro, António Guterres.

 

Ao longo de mais de dois anos, acesas críticas recaíram sobre o ministro da Cultura, Manuel Maria Carrilho, por ter defendido com grande determinação o património histórico daquela região portuguesa, em detrimento da construção da barragem.

 

A conservação das pinturas gravadas na rocha marca a vitória da cultura sobre o desenvolvimento tecnológico desenfreado. Desenvolvimento que, se puser em causa a cultura humana de milénios de história, não constrói nada de positivo. Antes, destrói porque não tem em conta o previsível esfacelamento da valiosa herança humana em que temos de nos continuar a rever. Há o perigo de se esquecer o Homem, a apagar-se sob o peso de um progresso cego e desalmado.

 

5 de Agosto de 2010

Teresa Ferrer Passos*

 

 

* Ortónimo de Teresa Bernardino

 

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A GUINÉ EQUATORIAL E A COMUNIDADE DE LÍNGUA PORTUGUESA

 

A Guiné Equatorial reconheceu a língua portuguesa como o terceiro idioma oficial do país, com vista a integrar-se na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Este país pretende aderir à CPLP durante a cimeira de Luanda, ainda que várias personalidades (entre elas Mia Couto, o bispo D. Januário, Manuel Alegre e a Amnistia Internacional, entre outros), se estejam a opor a essa pretensão. Um dos argumentos contra a adesão é o de que o país não tem nada a ver com a língua portuguesa e, além disso, o seu governo não respeita os direitos humanos. 

A partir do decreto do Presidente Teodoro Obiang que classifica a língua portuguesa como a terceira língua oficial da Guiné Equatorial, a integração deste país na CPLP tornou-se um facto incontornável. Foram as naus portuguesas capitaneadas por Fernão Pó que descobriram, em 1472, o território que corresponde hoje à Guiné Equatorial. Esta região, segundo o historiador português João de Barros, já tinha sido motivo de várias expedições de outro navegador português, Fernão Gomes, em anos anteriores. 

Motivações históricas e culturais foram referidas também pelo embaixador cessante da Guiné Equatorial, em Luanda, Eustáquio Nseng Esono. Declarando ser uma decisão meditada, Nseng Esono afirmou que o seu governo aguarda por uma decisão dos Chefes de Estado membros da Comunidade. Explicitando melhor a posição do seu país, quanto a este pedido de integração na CPLP, o embaixador Nseng Esono esclareceu que a Guiné Equatorial pertenceu, desde 1472, a Portugal, por ter sido descoberta por Fernão do Pó. 

A ilha Fernão Pó, hoje chamada ilha Bioco, Annobón e a costa da Guiné, que formam o território da actual Guiné Equatorial, foram cedidas, mais tarde, pela rainha portuguesa Maria II ao rei de Espanha, Carlos III. A cedência efectivou-se, em 1778, pelo Tratado do Pardo, em troca de território em continente americano. A ilha Bioco é a ilha onde se situa Malabo, a capital da Guiné Equatorial. Singulariza-se esta região africana pelo facto de ser o único país africano de expressão espanhola (Ibérica). 

A integração da Guiné Equatorial na CPLP parece-nos ser, mesmo só por estas razões, uma pretensão não só legítima, como de importante significado histórico para Portugal. E, a isto não devem ser também estranhos, os governos dos países africanos e do Brasil, também eles territórios descobertos por navegadores de Língua Portuguesa.

 

Lisboa, 21 de Julho de 2010

Teresa Ferrer Passos*

 

* Ortónimo de Teresa Bernardino

 

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DOS ABUSOS SOBRE CRIANÇAS...

 

 

 No mundo contemporâneo proliferam as notícias de abuso sexual de crianças e adolescentes indefesos. Muitos adultos esquecem que, como escreveu Fernando Pessoa, «o que há de melhor no mundo são as crianças». As crianças, nos nossos dias, são vítimas do desrespeito e da prepotência de alguns educadores sem escrúpulos.

As notícias correm céleres no mundo da comunicação social. Umas, dizem-nos que mães e pais abusam dos seus filhos desde a mais tenra idade; outras, que educadores de colégios maltratam os seus alunos mais pequeninos; e, recentemente, vêm a lume numerosos casos de membros do clero da Igreja Católica que cometeram, durante anos, abusos sexuais sobre crianças. O mais grave é que as penas dos tribunais civis quando julgam os autores dos crimes cometidos, são penas leves; outras vezes, nem sequer há julgamentos. Tudo vai sendo adiado durante anos e, assim, vai sendo esquecido, e vai também ficando impune.

Há padres que não só não foram julgados pelos tribunais civis, como nem sequer foram expulsos da Igreja. E foram mesmo encobertos pelos superiores hierárquicos, para abafar o escândalo. Estas notícias são graves porque esses eclesiásticos são pessoas cultas e pessoas que dizem estar a servir uma religião que, segundo as Palavras de Jesus, só pode considerar tais actos abomináveis.

Um padre da Igreja Católica que assim procede contra uma criança indefesa, transforma-se num falsário dos Evangelhos que diz transmitir nas missas que celebra. Como disse Cristo, ninguém entrará no Reino de seu Pai se não tiver um espírito puro, tal como uma criança.

Com estes comportamentos nos colégios que dirigem ou em que ensinam ou nas paróquias de que são responsáveis, induzem à desconfiança, ao medo de os pais a eles entregarem a educação dos filhos. Estes padres da Igreja Católica dão uma vergonhosa imagem da mensagem que Deus transmitiu, através de Jesus, à humanidade.

Sacerdotes como estes não devem permanecer nas suas funções religiosas se deturpam e se se comportam à margem dos ensinamentos de Jesus. Ao abusarem de uma criança, desprezam a humilde natureza do pequeno ser. Esquecem o sentimento indispensável para «entrar no reino de Deus», o sentimento que permite «ver Deus» como ensinou Jesus no Sermão da Bem-Aventuranças.

Um adulto que atenta contra a pureza de uma criança amputa-lhe a personalidade. A criança, ser em contínua transformação, sofre uma ruptura e descobre uma intencionalidade maléfica com a qual nunca se confrontara no seu vasto mundo inocente. A criança  descobre a dimensão enganadora do adulto de modo drástico e fica prisioneira irremediavelmente.

O caso dos eclesiásticos católicos que praticaram, durante anos, abusos sexuais sobre crianças atenta, em primeiro lugar, contra o próprio Jesus Cristo, o Deus que encarnou para que a humanidade conhecesse verdadeiramente os seus valores supremos. Renegando com os seus criminosos actos  as palavras de Jesus, não há dúvida que são criaturas a afastar das funções eclesiais, sob pena de se incorrer no completo descrédito da Igreja que afirmam servir.

O que se verifica é que não servem a Cristo nem servem a humanidade, antes a atraiçoam e vilipendiam de modo infame. Esquecem a resposta de Jesus, quando os discípulos lhe perguntaram «quem é o maior no reino dos céus»: «Ele chamou um menino colocou-o no meio deles e disse: “Se não voltardes a ser como criancinhas, não podereis entrar no reino dos céus. Quem, pois se fizer humilde como este menino, será o maior no reino dos céus”» (Mt.18, 4-5).

 

29 de Abril de 2010

Teresa Ferrer Passos*

 

* Ortónimo de Teresa Bernardino

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OS DESCOBRIMENTOS PORTUGUESES E A CIÊNCIA EUROPEIA

 

Acaba de ser dada à estampa a obra Os descobrimentos Portugueses e a Ciência Europeia, numa edição conjunta da Fundação Champalimaud e Alêtheia Editores. Trata-se de uma panorâmica da gesta Quatrocentista dos Portugueses que privilegia a exposição de vários documentos coetâneos.

 

Aqui encontramos todo um acervo de mapa-mundi, planisférios, portulanos, cartas de marear, embarcações e instrumentos náuticos. Uma lenta viagem que se processou ao longo de, aproximadamente, um século. A acompanhar esta panóplia de fontes imagéticas, surge um texto da autoria de Henrique Leitão que fornece ao leitor alguns pontos de vista fundamentais para a necessária valorização do século de Ouro da história dos Portugueses.

 

A propósito do papel inovador e revolucionário dos Portugueses de então, fornece importantes informes sobre os fundamentos técnico-científicos indispensáveis, sem dúvida, ao pleno êxito de que foi revestida a grande aventura marítima, a partir de 1419. Sem uma excelente indústria de construção naval nas cidades costeiras atlânticas, sem o gosto dos humanistas pela novidade do saber, sem uma unidade entre marinheiros e teóricos da ciência náutica, astronómica e geográfica, toda a estrutura dos descobrimentos atlânticos e no Índico teria sido gorada.

 

De facto, em Portugal e Espanha, os dois países da península Ibérica onde permaneceu, na Idade Média, o saber científico cultivado por judeus e moçárabes, houve condições especiais para estes países ficarem na vanguarda da ciência dos séculos XV e XVI. Como acentua Henrique Leitão, o estudo de fenómenos naturais, o desvendar de regiões e povos de geografia desconhecida, a compreensão do campo magnético da terra e a nova escala planetária nos meios de transporte e na circulação entre países, podem, só por si, revelar o sentido pioneiro dos descobrimentos portugueses no enquadramento europeu contemporâneo.

 

A ciência moderna nasceu na Península Ibérica. A presença islâmica até quase ao fim do século XV ofereceria a Portugal e a Espanha uma situação privilegiada no que respeita às matemáticas, geometria e aritmética, à geografia e à cosmografia. A Península Ibérica foi uma região em que a ciência nunca ficou completamente obscurecida pela cultura aristotélica, que se mantinha ainda bem viva e actuante na Europa Central e do Norte, no século XV. Ao lado das universidades de Coimbra e de Lisboa, surgem também aqueles que estudam e se encontram para trocar conhecimentos, como que formando "escolas" paralelas de saberes feitos da curiosidade ante aquilo que, em cada ano, se ía conhecendo.

 

De novidade em novidade, cada viagem era um novo manancial de conhecimentos científicos. Entre um século XV de saber de experiências feito, todo repleto de busca e de encontros, de riscos ante o desconhecido e de cálculos rigorosos, e o século XVI de saber meditado e fundado nas muitas e variadas experiências, os campos da ciência europeia moderna estavam lançados.

 

Como lembra Henrique Leitão, as formulações teórico-matemáticas de Pedro Nunes(1502-1578) demonstram já a nova mentalidade do homem de saber. E cita o grande matemático: «Nenhuma cousa é mais evidente que a demonstração matemática, a que em nenhuma maneira se pode contrariar»(Ob.Cit.,p.81).

 

E, mais adiante, é Henrique Leitão que conclui: «Uma história da ciência na Europa não poderá nunca omitir o período em que os descobrimentos marítimos portugueses alteraram de forma radical o modo como a ciência começou a ser praticada e o lugar que passou a ocupar na sociedade»(Ob.Cit., p.90). A experiência e a natureza abriram caminho a Nova Ciência de que virá a beneficiar a Europa transpirenaica, pois nela não se tinha estabelecido um poder real centralizado apoiado na Inquisição que impediriam os avanços livres e arrojados das bases lançadas em Quatrocentos, no país de um Duarte Pacheco Pereira, de um João de Castro e de um Garcia de Orta, companheiros de Pedro Nunes e de muitos outros que os tempos e as vontades esqueceram.

 

3 de Janeiro de 2010

 

Teresa Ferrer Passos*

 

 

* Ortónimo de Teresa Bernardino

 

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A POTENCIALIDADE PURA 

 

A primeira lei espiritual do sucesso, a lei da a potência pura, afirma que este é nosso estado essencial. Essa é a consciência pura, campo de todas as possibilidades e da criatividade infinita. Nosso corpo físico, o universo físico - tudo que existe no mundo material -, provém do mesmo lugar: de um campo de percepção silenciosa e imóvel, a partir do qual tudo é possível. Não há separação entre esse campo energético e nossa essência espiritual, nosso Eu. Esse campo constitui nosso próprio Eu. E quando sabemos que nossa natureza essencial consta de pura potencialidade, nós nos alinhamos com o poder que manifesta tudo no universo.

O conhecimento de quem realmente somos nos dá a capacidade de realizar qualquer sonho que tenhamos, porque o mesmo campo que a natureza utiliza para criar uma floresta, uma galáxia ou um corpo humano também pode efectuar a realização de nossos sonhos. Tudo é possível no campo da potencialidade pura, pois ele é a fonte de todo poder e inteligência, e da infinita capacidade de organização.

Portanto, o sucesso na vida depende de sabermos quem realmente somos. Quando nosso ponto de referência interno é nosso espírito , nosso verdadeiro ser, experimentamos todo o poder dele. Quando nosso ponto de referência interna é o ego ou a auto imagem nos sentimos separados de nossa fonte, e a incerteza dos acontecimentos cria medo e dúvida. O ego é influenciado por objectivos externos ao Eu - circunstâncias , pessoas e coisas. É fortalecido pela aprovação alheia. Quer controlar, porque vive com medo. Mas o ego não é o que nós realmente somos: ele é nossa máscara social, o papel que interpretamos.

 

As necessidades de receber aprovação, de controlar as coisas e de exercer poder externo se baseiam no medo. Esse tipo de poder não é o poder da potencialidade pura, o poder do Eu, ou poder verdadeiro. O poder do Eu é poder autêntico porque se apoia nas leis da natureza , e vem do autoconhecimento. O poder do Eu atrai coisas que desejamos para nós: ele magnetiza as pessoas, as situações e as coisas para apoiarem nossos desejos. Esse apoio das leis da natureza é o estado de graça . Quando estamos em harmonia com a natureza, criamos uma ligação entre nossos desejos e o poder de levá-las à materialização .

Como você pode vivenciar a lei da potencialidade pura ? Uma forma de fazê-lo é através da prática do silêncio e da meditação. Significa desligar o mundo e reservar tempo para simplesmente ser. Na Bíblia há a expressão "Fique em silêncio e saiba que eu sou Deus". O silêncio é o primeiro requisito para a manifestação de nossos desejos, porque no silêncio você se conecta com o campo de percepção pura e de infinito poder organizador.

 

Imagine-se jogando uma pedrinha em um lago tranquilo e observando a formação de ondulações . È isso o que você faz quando entra em silêncio e introduz sua intenção. Mesmo a mais ténue provoca ondulações através do campo da consciência universal que conecta seu desejo com todas as outras coisas. Esse campo pode orquestrar para você uma infinidade de detalhes. Mas se sua mente for como um oceano turbulento, você pode explodir uma bomba e não notar nenhuma alteração.

 

Praticar o não julgamento é outra forma de experimentar a lei da potencialidade pura. E quando você está constantemente julgando as coisas como certas ou erradas, boas ou más, acaba criando turbulência em seu diálogo interno. Essa turbulência restringe o fluxo de energia entre você e o campo de potencialidade pura. No espaço silencioso entre os pensamentos existe um estado de consciência pura, um silêncio interior que liga você ao verdadeiro poder. Por intermédio da prática do não julgamento você silencia e a mente tem acesso a sua inquietude interior.

Outra forma de ter a experiência da potencialidade pura é passar momentos em contacto com a natureza. Pela observação você começa a sentir a harmonia entre todos os elementos e força de vida. A pródiga manifestação de abundância no universo é uma expressão da mente criativa da natureza. Se você ligar na mente da natureza, terá acesso ao campo da potencialidade pura e criatividade infinita, e espontaneamente receberá pensamentos criativos.

 

Seja num curso de água, numa floresta, numa montanha ou no mar, a ligação com a inteligência da natureza lhe traz uma sensação de união com todas as formas de vida, dando -lhe suporte para entrar em contacto com a essência mais íntima de seu ser. Essa essência está repleta de magia e mistério. (...)

 

Fonte: Deepack Chopra, As Setes Leis Espirituais do Sucesso, Editora Best Seller.

 

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ARDI E AS SUAS IMPLICAÇÕES PARA

A TEORIA DA EVOLUÇÃO DE DARWIN

 

Comecemos por sublinhar as implicações que a descoberta de Ardi não tem. Esta descoberta não põe minimamente em causa a teoria da evolução de Darwin (ao contrário do que já ouvimos dizer em meios de comunicação social que tinham a obrigação de ser mais responsáveis), nem sequer altera uma vírgula à ideia chave desta teoria, a ideia de que todos os seres vivos actualmente existentes resultaram de um processo de evolução a partir de seres vivos muito mais simples, e que essa evolução se dá graças a dois mecanismos complementares: por um lado, mutações aleatórias que ocorrem por vezes num descendente de um dado indivíduo de uma dada espécie em relação aos seus progenitores; por outro lado, o mecanismo de selecção natural.

O que muda então com a descoberta de Ardi e com as conclusões agora publicadas, resultado de um aturado estudo do que se pôde encontrar do seu esqueleto? Para responder, refiramos primeiro alguns números. Pensa-se que o processo de evolução terá começado há cerca de quatro biliões de anos, no decurso dos quais, partindo de um ou poucos organismos vivos extremamente simples (unicelulares), se chegou aos milhões de espécies vivas actualmente existentes. (Este número tem vindo a diminuir, graças à acção da mais “inteligente” dessas espécies. Mas isso é outra história…). Ora, como é evidente, nem de perto nem de longe se conhece todos os detalhes deste gigantesco processo. Mas há alguns detalhes que se conhece ou se julga conhecer. Foi um destes detalhes que a descoberta de Ardi obrigou a rever.

Acreditava-se que o ser humano, por um lado, e os grandes símios (chimpanzé, orangotango, gorila), por outro, descendiam de um antepassado comum. (Nota: isto é ligeiramente diferente da crença comum segundo a qual Darwin teria afirmado que “o homem descende do macaco”.) Até aqui, a descoberta de Ardi não veio alterar nada; continua-se a acreditar no mesmo. Mas acreditava-se também que esse antepassado comum seria muito parecido com o chimpanzé e muito diferente do homem actual. Afinal, a descoberta de Ardi parece apontar precisamente para a situação oposta: o antepassado comum aos grandes símios e ao homem actual terá sido muito mais parecido com este último do que com o chimpanzé! (Claro que, se recuarmos mais e mais, iremos encontrando antepassados do homem cada vez mais diferentes dele, cada vez mais animalescos.)

 

5/10/2009

 

Fernando Henrique de Passos

 

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O PAPA E O PRESERVATIVO

 

O Papa é considerado pelo mundo ocidental, em uníssono, como um assassino, por se opor ao uso do preservativo como meio de impedir a propagação da sida (ou AIDS, como é conhecida no Brasil). Ora, ele só seria realmente um assassino se não propusesse um meio alternativo de combater a propagação da sida. Mas ele propõe esse meio alternativo: a monogamia estrita. Se cada homem só tivesse relações sexuais com a sua esposa, e cada mulher só tivesse relações sexuais com o seu esposo, a sida nunca se propagaria. Acho apenas que se deveria abrir uma excepção: no caso de um homem e de uma mulher casados, em que um é portador de sida e o outro não, a Igreja tinha a obrigação moral de permitir o uso do preservativo nas relações sexuais entre eles.

 

19/3/2009

                                                                                                  Fernando Henrique de Passos

 

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ENTREVISTA do poeta brasileiro SÉRGIO CAMPOS (1941-1994)

concedida a  FLORIANO MARTINS

 

— O soneto não é uma novidade em sua poesia (nem mesmo um artifício ditado por certos modismos); desde o primeiro livro que você o persegue (ou é perseguido por ele), contribuindo a estabelecer uma poética em sua obra. Recordo-me de você me haver dito certa vez: “Faço uma arte arcaica e assusto mais aos outros poetas que ao poder”. O que o teria exatamente levado a escrever sonetos?

— Fixei-me às formas clássicas da poesia. Isso advém de minha formação intelectual, de um interesse espontâneo pela linguagem, pela arte greco-latina. Também escrevo esta poesia porque me individualiza, por sinal a mesma motivação da poética de Góngora, como nos esclarece Ángel Pariente. Embora tenha figurado entre os novíssimos, no início da década de 60, em São Paulo, em torno do editor Massao Ohno, já meu primeiro livro, A casa dos elementos (1984), evidencia, com suas seis odes, creio, o rigor, a solenidade e o fervor quase religioso à palavra e à linguagem como espaço de celebração.

— Que dizer com relação aos que apontam seu dardo venenoso contra o soneto, acusando-o de decadente (como se o germe do déjà-vu pudesse ser inoculado nas formas literárias)?

— Não me cumpre defender o soneto-forma. Há quem diga, tomando por base elementos de análise literária, ou por absoluta perversidade, que o soneto cumpriu seu ciclo histórico. Que ciclo será este? Que evento fatal o encerrou? Que idade tem a poesia? É certo que, nos albores do século XVII, na Península Ibérica, o soneto, com Góngora e Quevedo, atingiu culminâncias. No entanto, já Fray Luis de León escrevera sob as luzes do século de ouro que “hablar no es comun, sino negocio de particular juyzio, ansí en lo que se dise como la manera como se dise”. Há, todavia, admiráveis sonetos escritos em nosso século, de absoluta modernidade. Ocorre que pesa sobre ele uma invencível maldição. O mau poeta, escrevendo em versos livres, é simplesmente mau; contudo, se escreve sonetos, eles é que não prestam… Ele exige muito do poeta e abriga essa fatalidade de consagrar ou destruir irremediavelmente. Marcam-me, mas não são maioria em meus livros.

— Anoto palavras de André Gide: “O artista ou o sábio não devem preferir-se à Verdade que pretendem anunciar (aí está sua moral). Não devem preferir a palavra ou a frase à Fantasia que querem ambos mostrar: diria que nisto reside toda estética”. Borges, por sua vez, dizia descrer das estéticas, afirmando que elas não passavam de “abstrações inúteis; variam para cada escritor e ainda para cada texto e não podem ser outra coisa que estímulos ou instrumentos ocasionais”. O que pensa a este respeito, você que já disse pertencer a “uma linguagem estética”?

— Minha estética é basicamente a da repetição. Não escrevo poemas semelhantes. Reescrevo um poema elevando a escrita à enésima potência. Webern já exprimia esta idéia ao escrever sobre suas Variações orquestrais: “Seis notas são fornecidas… e o que se segue nada mais é que esta forma repetida, sempre e sempre!” Ademais a linguagem como potência do inconsciente se afirma pela repetição. Ela define o mundo da representação. Como assinala Deleuze, “a repetição pertence ao humor e à ironia, sendo por natureza transgressão”. Sim, transgressão à lei moral, onde tudo é bom ou mau. Toda vez que repetimos contra a lei (mormente um prazer, uma sensação erótica, profana), a lei moral nos sanciona. Por outro lado é preciso imediatamente desacelerar a escrita. Não podemos concorrer com a velocidade vertiginosa dos fatos. A poesia dos fatos é efêmera. Cabe a propósito lembrar Borges, na palavra de seu interlocutor imaginário: “Ninguém pode ler dois mil livros. Nos quatro séculos que vivo não terei passado de meia dúzia. Além disso não importa senão reler”. Penso que reescrever educa/reeduca. Aliás, como diz um bom companheiro, não se escreve mais que meia dúzia de bons poemas na vida; os mais são repetição. Finalizando, em rumo à sua indagação, tenho um duplo de Borges a dizer em suas Sete noites: “O fato estético é algo tão evidente, imediato e indefinível, quanto o amor, o gosto da fruta, a água”. Fico com este, é claro.

— De acordo com John Cage, “toda influência deriva de nossa própria obra (e não de algo externo a ela)”. Acredita que as influências sejam causa ou efeito no contexto geral de uma obra literária? Seria possível enumerar as suas?

— O próprio Cage responde, a meu ver, a esta pergunta. Observa ele que “uma idéia, deixando a cabeça onde nasceu, volta transformada”. Noto que minhas influências, se assim posso dizer, resultam do retorno (o eterno retorno) das indagações que o poema, fazendo-se, me lança. É um processo demorado mas, cedo ou tarde, sem cerimônia, as palavras, circuladas, regressam em contraponto e desse embate resulta o poema. Hesito muito, portanto, em dá-lo como consumado. Tenho inúmeros poemas clamando serem resgatados aos livros em que os inumei. Planejo, a longo prazo, republicar poemas reescritos.

— É a experiência o que difere um poeta dos demais. Através dela identidades se erguem, não sem antes enfrentarem a ansiedade da realização e sua impossibilidade. A experiência poética habita os limites da palavra que a constrói. Onde se situam as margens de sua atividade criadora?

— Diria que a experiência com as palavras define o poeta. Ele precisa ter uma relação especial, única em relação a elas. Precisa delas como o próprio ar, de ouvi-las em busca de novos sons, poli-las, redescobrindo sob o azinhavre a legenda dos mitos, dispô-las em conjuntos para observar seus conflitos e conciliações, povoar delas seu pátio de utopias. Conquanto se tenha dito que a palavra ilude, ao operar a transformação da realidade em conceito, creio que se isto fosse verdade, estaríamos face a uma saudável trapaça. Diria mesmo, concordando com Canetti, que entre a palavra e os seres humanos os poetas preferem aquelas, embora se entreguem a ambos. Minhas margens de atividade criadora são, portanto, a primeira sílaba da primeira palavra de um conjunto e a última do movimento polifônico de vida que ela desencadeia. Poeta, para mim, é o ser capaz de realizar a experiência de fecundação da palavra, de fazer amor com elas, e de ser também amado nessa encantação.

— Bataille dizia que todo valor é sorte, “sua existência depende da sorte”. Você demorou mais de trinta anos para encontrar-se como poeta, e pode-se dizer que tal encontro tenha sido provocado por um acidente. Um golpe de sorte, certamente. Diria que o acaso rege nossas vidas?

— De fato, fiquei vinte anos sem escrever poesia. Entendi que tudo já havia sido escrito. Este recesso me fez muito bem e melhor ainda a meus raros leitores. Pude ampliar consideravelmente meu universo musical. Nutro pela música paixão idêntica à que devoto à poesia. Contém ela, portanto, esta característica de uma obsessiva busca da expressão musical. Curiosa, a propósito, a carta de Valéry a Gide, em 1891, dizendo: “Estou mergulhado até a cabeça no Lohengrin. Esta música me levará, assim o pressinto, a deixar de escrever”. Guardadas as proporções, ocorreu comigo fenômeno parecido. Quanto ao pensamento de Bataille, penso que voltei a escrever por uma necessidade interior surgida num momento de crise. Ao fazê-lo, contudo, senti-me como um adulto em busca de alfabetização funcional. Tenho desde então, principalmente na área de idéias, muito me aplicado para diminuir a margem insondável de minha ignorância.

— Você me disse certa vez: “Estou cansado de tantas causas. Há causas em excesso no mundo. Deixemos que a casualidade nos habite ainda que por um momento”. Até que ponto um escritor tem a obrigação de ver e denunciar as fraturas e faturas dos poderes do mundo em que vive?

— A frase reflete um estado de impaciência ante o mundo visto como uma máquina paranóica (daquelas de Deleuze & Guattari) de gerar crises. Estou farto de diagnósticos, dos laudos cadavéricos da realidade. Penso que muitos de nós estão a se portar como esquizóides, ancorados na infância do porquê, quando se mostra evidente que a crise decorre da própria sociedade em que vivemos. Quanto ao final da pergunta, penso não conferir à minha poesia um caráter salvacional ou evangelizador, mas é-lhe inegável a motivação humanizadora.

— Na verdade a crise é algo inerente ao próprio desfiar da história, sendo possível que através dela a arte se expresse. Contudo, nossa época me parece diabolicamente entorpecida à sombra de um foco (simulacro?) de crises. Uma cruel contradição deste final de século que ostenta a velocidade (mitos, conceitos, regras) como emblema inconfundível?

— Penso que há crise e crise. A natural, do homem, é permanente e não se precipita numa arte de ocasião. E há a crise-instituição, que é a de que falam os livros e sobre a qual trabalham os pensadores. Elas acontecem, são territorializadas e espacializadas e configuram verdadeiros rituais. Segundo bem expressa Cioran, malgrado divergência em tantos campos, “uma civilização começa a decair a partir do momento em que a vida torna-se sua única obsessão”. Se assim é, a chamada arte da crise deveria, por coerência, negar a história e a própria vida. Mas não é isso que costuma acontecer nas crises. Elas parecem ter o sinistro poder de aglutinar oportunistas em cortejos fúnebres, atropelando sepulturas, a brandir os estandartes das vanguardas. No entanto, segundo penso, a verdadeira arte é encontrada e resgatada sob as cinzas. Arte é o que sobrevive. Só o que sobrevive sabe reciclar-se e gerar novas formas de vida. A crise-instituição, histórica, civilizatória, talvez revele a arte ao deflagrar um processo, que pode vir a dar numa (re)avaliação e convalidação. Quando Blake, Van Gogh ou Artaud, por exemplo, criaram sua arte foram considerados loucos individuais, não seus tempos. Não creio em arte da crise. Esta, por sinal, em nossa época, transformou-se em rendosa indústria (como a velocidade, magia roubada aos mitos e, por obra da tecnologia, lacrada em motores). Crise consome crise. Já a arte, quando consome, consome quem a cria. É bem diferente. Pergunto-me se não será este fin de siècle o cenário de um paradoxo, ou seja, um mundo em mudança, no pensamento, na arte, e, nos salões, a celebração do fim de um milenar simulacro bíblico, num grande reveillon da burguesia, com muito champanhe, presunto e melão.

— Se, ao eleger mitos, na expectativa de “iludir o sistema”, a arte acaba caindo direto nos braços da ideologia dominante, então caberia ao artista, mais do que a simples negação do herói, a negação do próprio tempo do herói, não elegendo mitos sequer como sublimação do aflito. Seria esta então a fórmula que tornaria a arte insuscetível de ser absorvida, metabolizada ou, afinal, expelida pela ideologia dominante?

— Entendo que o sistema já metabolizou toda a contestação. A sociedade burguesa tem o fôlego de todos os gatos. Veja as graphic novels esgotadas nas bancas: o Capitão Marvel morre de câncer causado pela radiação atômica; New York está em chamas; o Homem-Aranha transforma-se em psicanalista (freudiano, creio); fantasmas líricos emergem da memória de um edifício que a especulação imobiliária demoliu… Negar o herói, portanto, não parece produzir maior efeito (elas já o negam), nem mesmo destruir mitos (eles os recriam para as mais diversas finalidades). A sublimação do aflito converteu-se na certeza de ainda fazer a quina sozinho. Restaria uma estratégia consistente numa corrosiva lógica original (“Se é possível a alguém ser processado e viver normalmente, então não há problema em ser processado”). Mas Kafka é sutil e as pessoas parecem não saber mais operar com a lógica. Contudo, mesmo contra as projeções e algumas evidências, penso que devamos continuar trabalhando, esgotando o que Octavio Paz chama “as possibilidades de saúde”. A capacidade de sobrevivência ilimitada do homem pode polarizar-se num milênio arrancado às vísceras de um nihil reativo.

— A arte moderna está ligada, como diria Marx, à perda do caráter?

— Marx se surpreendera com a capacidade da burguesia em criar e destruir, com a voracidade com que consome e recicla para gerar algum tipo de ganho. Ilustra-o com a epígrafe notável que é “tudo que é sólido se desmancha no ar”, utilizada por Marshall Berman em livro indispensável (à exceção de seu diabólico projeto de repintar o Bronx). Observa Marx que “…o capital transmudou toda a honra e dignidade pessoais em valor de troca”. E construiu seu sistema, a meu ver uma utopia que cabe discutir aqui. Contudo, sua visão da perda do caráter na arte da burguesia parece-me absolutamente correta. Pouco mais tarde Baudelaire viria a taxá-la de prostituição.

— Diria então que a arte já se converteu na própria “instituição burguesa do poético” (conforme expressão de Luís Costa Lima)?

— A classe dominante fez de seus subsistemas, na arte, um corredor cultural por onde trafega há já duzentos anos o modernismo como expressão da “liberdade de criar”. E aí está ele, com algo da “velha dama indigna” que hoje faz de seu fetiche (ainda) a produção do novo. Seria uma estupidez negá-lo, mas suas obras fundamentais já haviam sido quase todas geradas no final dos anos 20. Na música e nas artes plásticas diviso ainda hoje esta modernidade (conceito tão discutido, para alguns vazio). Mas na literatura, mormente após a Segunda Guerra, pouco de importante aconteceu. Ao contrário, assusta-me essa geração crescente de estéticas descartáveis a serviço da indústria cultural, ao lado do hortus conclusus de intelectuais e artistas de elite (alguns deles — reconheço — de invejável competência) a administrar a arte de vanguarda deste século como propriedade privada. O pós-modernismo teve o mérito de abrir essa caixa-preta, trazendo consigo a saudável idéia de que uma visão do mundo não supera outra, convive com ela, na feliz expressão de Teixeira Coelho, resgatando o humanismo à fenda histórica que o devorara. Todavia, deixou-se abandonar de compromissos e projetos, ficando à mercê da mídia, que o reconverteu à arte-moda no mundo burguês, que se alimenta de seu abismo. Isso resulta, a meu ver, em paradoxo, pois as pessoas que vivem a moda e correm alucinadamente contra seu próprio espelho, estão, no íntimo, emitindo patético apelo por um mínimo de solidez e confiança. Talvez aqui encontre a força de um compromisso: tentar, com rigor e consistência, a tradução poética desse apelo.

 

Fonte:  Entrevista incluída em Escritura Conquistada (Diálogos com Poetas Latino-americanos), de Floriano Martins, livro publicado pela Letra & Música Comunicação, convênio entre Biblioteca Nacional (Rio de Janeiro) e Universidade de Mogi das Cruzes (S. Paulo) in Jornal de Poesia (Internet, www.revista.agulha.nom.br).

Nota sobre Sérgio Campos:

Graças a ele pude aprender o pouco que sei a respeito de ópera, o que foi fundamental para a minha poesia, que possuía já uma forte relação com o teatro. A vida dele está repleta de circunstâncias trágicas, apesar de seu espírito sempre alegre e aguerrido.

(...) é um de nossos melhores poetas e hoje totalmente esquecido. Sérgio morreu há alguns anos e sua morte contribuiu muito para seu esquecimento. Ninguém perdoa um vivo que não quer fazer parte da gincana literária, da maratona do ego, e mais ainda um morto que se recusa às retóricas circenses de seu espetáculo mortuário. Sérgio é tudo isto, em face do que foi condenado ao esquecimento. E toda a família desapareceu, de maneira que não tenho nem mesmo como organizar a sua obra para eventual publicação. É um destino curioso. Vez que outra publico poemas seus em algum lugar.

 

Fortaleza (Brasil), 6/Março/2009

Floriano Martins

 

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A ESTRANHEZA DO ALTRUÍSMO

 

Para a ciência, o altruísmo é uma coisa bizarra. É assim há séculos, mas sobretudo desde a aceitação da teoria da evolução de Darwin, com o seu mecanismo eminentemente egoísta da “sobrevivência do mais apto”. Segundo algumas opiniões, três físicos teóricos portugueses (Francisco C. Santos, Marta D. Santos, Jorge M. Pacheco, “Social diversity promotes the emergence of cooperation in public goods games”, Nature, Vol. 454, No. 7201, pp. 213-216) deram um passo importante para a explicação do altruísmo do ponto de vista científico. A sua ideia foi introduzir uma nova variável nos modelos matemáticos comummente utilizados para tentar descrever as sociedades humanas. Essa nova variável é a diversidade social ou, para sermos mais exactos, um aspecto dessa diversidade, a saber, o diferente número de conexões que cada indivíduo tem com os restantes. A abordagem parece-nos artificial. Enquanto não surgir uma proposta mais sólida, preferimos continuar a acreditar que há coisas no ser humano que transcendem e sempre transcenderão a ciência.

 

Fernando Henrique de Passos

 

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LEI INJUSTIFICADA NUMA SOCIEDADE ABERTA

 

A pretensão de levar à discussão na Assembleia da República (conforme foi defendido pelo Primeiro-Ministro, recentemente) a questão do casamento “de jure”, ou seja, de direito, dos homossexuais, não deixa de causar espanto e perplexidade.

 

É que não se trata de uma legislação para pôr fim a uma situação injusta. Não se trata de legislar novas leis a favor de excluídos como os pobres, as mulheres que não têm as mesmas oportunidade profissionais, os deficientes cujas diferenças físicas não são respeitadas eficazmente.

 

O objectivo da discussão do casamento dos homossexuais é legislar a favor da possibilidade de poderem contrair um contrato de casamento idêntico ao casamento com as suas estruturas normalmente seguidas.

 

A homossexualidade como união livre de dois homens ou de duas mulheres não sofre na sociedade portuguesa de qualquer sanção jurídica. Não consta que haja discriminação no emprego, na habitação ou nos direitos cívicos, caso um indivíduo tenha comportamentos íntimos não consentâneos com a estrutura social vigente.

 

 Trata-se de um assunto do foro pessoal ou íntimo e se ninguém é prejudicado com isso, é impossível que qualquer lei possa evitá-lo. Ninguém deixou ainda de ter esse comportamento sexual, se o desejou no seu foro íntimo.

 

 Ninguém o pode impedir, se não ofende a integridade de outra pessoa, porque esta não só o consente como o deseja. Ninguém sofreu qualquer discriminação social por esta prática aberrante, e digo aberrante por não ser natural (nem mesmo está de acordo  com os códigos da maioria dos animais irracionais). Pelo sentido provocador que tem esta pretensão, em qualquer sociedade, a união de duas pessoas do mesmo sexo não pode equiparar-se a um casal que tem uma legitimidade jurídica na comunhão das suas vidas dada pelo casamento religioso ou civil, ou mesmo a uma união de facto.

 

A pretensão de se legislar a favor do casamento de pessoas do mesmo sexo não tem qualquer justificação aceitável. Trata-se de uma questão que foi levantada por uma escassa minoria de pessoas cujo principal motivo de legalização jurídica é usufruir de direitos patrimoniais e de descendência artificial (como a consequente adopção de crianças procriadas por casais heterossexuais).

 

 Quando alguém diz que discorda do estatuto de casamento de pessoas do mesmo sexo, di-lo porque este estatuto respeita a uma figura jurídica consignada como sendo apenas uma comunhão entre duas pessoas de sexos diferentes. Este ponto é  a primeira condição que fundamenta o contrato jurídico de um casamento, que se pauta por uma ligação afectivo-sexual recíproca, uma comunhão de vida entre um homem e uma mulher. Por isso, casamento só existe entre um homem e uma mulher.

 

A vida em comum de pessoas do mesmo sexo não implica (nunca implicou) um estatuto jurídico, porque não exige compromissos mútuos e a complementaridade de sexos diferentes. Logo, como chamar casamento a uma ligação cuja base consiste em duas pessoas viverem em união, como se fossem marido e mulher, mas tendo o mesmo sexo e não sexos diferentes? E aqui é que está o cerne do problema.

 

Pretendem os adeptos do casamento homossexual defender que não são duas realidades diferentes. Esquecem que, na essência, não há nenhuma correspondência efectiva. Daí criarem uma questão falaciosa, mais do que falaciosa, uma enganadora questão. Deste modo, o estatuto social do casamento até hoje aceite como tal, é gravemente ofendido porque esta figura jurídica é, na sua fundamentação ética, uma ligação entre sexos diferentes o que, em consequência, permite ainda a constituição, na maioria dos casos, de uma nova geração de seres (caso do casamento tenham resultado filhos).

 

A coabitação “marital” de homossexuais é uma deformação social extravagante, numa sociedade ansiosa por encontrar novas maneiras de se identificar em relação ao passado. Só quando se insere em esquemas e falácias deste jaez é que uma sociedade exorbitante nos comportamentos julga ter chegado à inovação. Mas esta inovação está inquinada de imitações que negam a própria capacidade criatividade do ser humano.

 

A imitação vai ao ponto de utilizar a própria vida afectivo-sexual da instituição do casamento. Quer apropriar-se dela para atingir fins pouco claros. Todos estes esquemas defensores de um sistema em que se impõe a diferença são falaciosos. Os caminhos desviantes em que querem prosperar conduzem ao que pode haver de mais pernicioso na sociedade humana, a não conseguir escapar dos rumos que levam à angústia e ao desespero.

 

 Uma sociedade pode ser uma sociedade aberta, democrática e de direito, sem ter de consentir em tudo quanto a nega nos seus fundamentos, nos seus valores maiores, os quais a maioria dos seus cidadãos não põe em causa.

 

Lisboa, 10/2/2009

 

Teresa Ferrer Passos*

 

* Ortónimo de Teresa Bernardino

 

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«DEUS, QUEM É?»

 

«(...) As pessoas, e de modo geral o casal heterossexual, monogâmico e sacramentado que dialoguem, escutem a Deus e uns aos outros, para descobrir e viverem do amor e no amor sob as várias formas complementares e integradoras do projecto de Deus (eros, filia e agapé) − ou seja que se completam revelando o Criador e o Salvador como Amor que desenvolvem nas relações de amor solidário: acolhem-se, escutam-se, descobrem-se e completam-se na comunicação e comunhão de vida, traduzida na vida familiar, profissional, a participação social e do voluntariado. Efectivamente amar é assumir a vida como adequado serviço dos outros, como dom recebido de Deus que devemos imitar servindo (...) Para que o nosso amor seja dinâmico e progressivo, é essencial acreditar que Deus é Amor para nos deixarmos amar em verdade e nos tornarmos capazes de purificar a memória e perdoar para bem acolher e ver, com competência e clarividência fraterna, o que é urgente fazer como resposta às dificuldades ocorrentes. E é normal que o amor esclarecido e eficaz seja fonte de comunhão, de alegria partilhada, da felicidade da paz autêntica (...)»

 

Frei Bernardo Domingues

 

Fonte: Frei Bernardo Domingues «Deus, quem é?», in Revista de Espiritualidade, nº 60,  Out./Dez.2007, Edições Carmelo, Marco de Canavezes, pág.319, 320.

 

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  UM OLHAR ALGARVIO, OLHARES ILHÉUS E ESPAÇOS MUSEOLÓGICOS

 Algumas notas de Cristino Cortes *:

 

 «(...) A minha maior surpresa [estranhamente, chamam-lhe Ria Formosa], no entanto, está no sapal − como admitir que esta zona de "lagos" e pântanos é uma riqueza agrícola e piscatória, uma maternidade de aves e de peixes e, simultaneamente, um espectáculo para a vista?! Deste último aspecto prescindo: não me parece que seja um aspecto muito agradável o que estes charcos e pântanos, meio terra meio água, à vista desarmada oferecem às cidades que envolvem – e dos cheiros [pestilentos, por vezes] que lhes emprestam em dias de determinada direcção do vento também não poderei dizer nada de positivo ou recomendável...»

«(...) Para mim a ilha Terceira é a terra de Vitorino Nemésio – facto que ele orgulhosamente inscrevia no frontispício de alguns dos seus livros – e só por isso se justificaria fazer-lhe uma demorada visita. (...) A Terceira é, pois, a terra de Vitorino – , mas é também a cidade de Angra do Heroísmo, património mundial reconhecido pela Unesco, e é ainda a Base das Lajes. (...) ali se alberga, permanentemente, um destacamento das forças armadas norte-americanas. (...) O hóspede é rico, mas está em casa alheia – é bom fazer-lhe sentir essas distâncias, ele é nosso convidado, dá-nos jeito, mas não mais do que isso.»

«(...) Uma das grandes finalidades das visitas museológicas, o secreto desejo de cada um, é a elucidação da maneira como teria sido a vida de certas classes há alguns séculos atrás, em meios que hoje só pelo estudo e investigação podemos reconstituir com maior ou menor dificuldade.

Especificamente para a arte − para o conjunto das chamadas "belas-artes" − a situação é um pouco diferente. Basta lembrar que uma das suas principais funções é o que se convencionou chamar o "culto do belo", o qual se conseguiria através da "educação do gosto".

Deste ponto de vista estão, talvez, esses museus mais directamente relacionados com o sistema de ensino; eles dirigem-se mais a estudantes das disciplinas artísticas, a pintura e a escultura tradicionalmente, sem prejuízo de essa ser uma matéria em que todo o homem bem formado deve ter conhecimentos e interesse. É que o gosto também se educa, e durante toda a vida é tempo de evoluir e aprender.

(...) Os museus deixaram de ser, assim, votados exclusivamente ao domínio artístico. Eles passaram a incorporar a representação das mais diversas facetas do modo de viver: das artes decorativas aos vestígios arqueológicos, do mobiliário ás louças e porcelanas, dos desaparecidos ofícios à arte da guerra, da história local ao perfil de individualidades que se notabilizar am no seio das suas comunidades − e certamente muitos outros.»

 

Fonte: Cristino Cortes, Viagens... Marés e Memórias, Papiro Editora, Porto,2007, pp.105-106, 118-119, 142-143.

 

* Cristino Cortes é Licenciado em Economia. Nasceu, em 1953, em Fiães (Trancoso), residindo nos arredores de Lisboa, desde 1971. Publicou vários livros de poesia como, por exemplo, Nas margens do Hades (Edições Átrio, 1993), Em Lisboa, pelo Natal... (Ulmeiro, 1995), Cronologia e outros Poemas (Livro Aberto,2005). Na área do ensaio deu à estampa Relances de Maré e Vida (Universitária Editora, 1998), Novos Relances de Maré e Vida (Universitária Editora, 2003 ), Viagens... Marés e Memórias (2007). Actualmente, tem colaborado com artigos de opinião no Suplemento «das Artes das Letras» de O Primeiro de Janeiro. Tem também organizado antologias e conferências. A sua actividade profissional é exercida no âmbito do Ministério da Cultura.

 

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O ACORDO ORTOGRÁFICO

 

 

O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (assinado pelos 7 países lusófonos - Portugal, Brasil, Angola, S. Tomé e Príncipe, Guiné, Moçambique e Cabo Verde) em 12 de Outubro de 1990, a que se juntou Timor em 2004, oferece a Portugal a memória do descobrimento do Brasil em 1500, após as descobertas ao longo da costa ocidental e oriental africana e da parte Oriental da ilha de Timor, hoje independente.

Oferece à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) uma nova solidariedade, uma nova unidade. Só nas terras de Santa Cruz (Brasil) são 190 milhões, a falar a nossa língua, há mais de cinco séculos.

Na XII reunião do Conselho de Ministros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, realizada em Lisboa no dia 2 de Novembro de 2007, o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Luis Amado, considerou que o protocolo modificativo do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, iria ser aprovado até fins de 2007. Contudo, este prazo foi, mais uma vez adiado. O Estado português espera agora, que o Acordo,  já modificado várias vezes (Segundo Protocolo Modificativo), seja aprovado pelo Presidente da República Cavaco Silva ainda no ano de 2008, para entrar efectivamente em vigor no ano de 2014.

Com vista a reflectirmos um pouco sobre o significado desta unificação da ortografia dos países de Língua portuguesa, vou referir alguns dos maiores cultores da lusa linguagem, nas suas versões diversificadas, conforme a geografia em que se inseriram.

E aqui está Carlos Drummond de Andrade com a sua emoção e musicalidade no poema «Além da Terra, Além do Céu»: «Além da terra, além do céu / no trampolim do sem-fim das estrelas, / no rastro dos astros, / na magnólia das nebulosas. / Além, muito além do sistema solar / até onde alcançam o pensamento e o coração, / vamos! / vamos conjugar / o verbo fundamental essencial  / o verbo transcendente, acima das gramáticas / e do medo e da moeda e da política, / o verbo sempreamar / o verbo pluriamar, / razão de ser e viver»

A história da língua portuguesa iria alterar o rumo da, então, ainda colónia, quando D. João VI escolheu o Brasil para se refugiar do conquistador da Europa, Napoleão, representado pelas invasoras tropas do comandante Junot.

D. João VI elevou o Brasil de colónia a reino em 1815. Ao subir ao trono, na cidade do Rio de Janeiro, vago pela morte de sua mãe, a rainha louca, em 1816, criava as condições políticas para que o Brasil  fosse, em 1822, independente da metrópole.

No célebre grito junto do rio Ipiranga, ao lado dos adeptos da independência, o príncipe D. Pedro, filho primogénito de D. João VI, gritou com eles: «Liberdade ou morte!». Em 1822, o futuro maior Império da língua portuguesa, tornava-se, pelas suas dimensões – hoje, é noventa vezes maior do que o Portugal europeu – o baluarte da língua portuguesa. Nascia sob a égide de D. Pedro, príncipe de Portugal, elevado pelos brasileiros a 1º Imperador do Brasil.

O novo Acordo Ortográfico dignifica e dimensiona a «pequena casa lusitana» à qual se referiu Camões em Os Lusíadas:

«As armas e os barões assinalados, / Que da ocidental praia Lusitana, / Por mares nunca de antes navegados,  / Passaram ainda além da Taprobana,  / Em perigos e guerras esforçados,  / Mais do que prometia a força humana,  / E entre gente remota edificaram  / Novo Reino, que tanto sublimaram (...)».

Este novo diploma da língua lusa oferece também aos portugueses um culto novo da língua de Torga, traz uma simplicidade gráfica que o povo brasileiro foi construindo com criatividade e espírito de tolerância. A língua de Sophia de Mello Breyner Andresen adquire, agora, a plenitude, ao ligar a ortografia sem barroquismos à pureza do pensamento. 

Neste Acordo Ortográfico, a assinar, brevemente, pela Comunidade Lusófona, vemos o quanto pode ainda enriquecer-se o mundo da língua portuguesa, ao qual se referia Fernando Pessoa, quando dizia: «minha pátria é a língua portuguesa». A sua frase ganhou a grandeza que merecia. A língua portuguesa é uma expressão unívoca, a sua forma quase não diverge do som.

Hoje, estamos todos unidos por uma língua comum, com uma escrita sem "antiguidades gráficas", no Brasil como em Portugal.

Em Angola, toda virada para o ocidental Atlântico, lemos os patrióticos romances de Pepetela: «e indo chocar em baixo da Fortaleza contra a antiga ponte que os portugueses encheram de entulho e pedras e cimento, fazendo a Ilha deixar de ser ilha para ficar península (...) e se misturando as águas que vinham da lagoa com as águas do mar e as cores vivas se espalhando a caminho da Corimba, agora que a Ilha de Luanda voltava a ser ilha e Kianda ganhava o alto mar, finalmente livre.» (in O Desejo de Kianda).

Nas terras de Moçambique, a vislumbrar o oriental Índico lemos o «Fogo da noite», um dos muitos inspirados poemas de Domi Chirongo: «Ia dormir / desconsegui / tentei sonhar / acordei / com rajadas / borbulhentas / fortemente / localizadas, / era o fim / das ideias brilhantes... / para trás / ficavam planos / de uma vida / inacabada / ficava a planta / de uma casa idealizada / para trás / ficava o jardim / que um dia / quis construir...»

Na Guiné, envolta nas ilhotas perdidas e nos rios desenhados entre palmeiras e alto capim, ouvimos a música da palavra com que o poeta Julião Soares Sousa nos sensibiliza em «Cantos do meu país»: «Canto as mãos que foram escravas /  nas galés / corpos acorrentados a chicote / nas américas // Canto cantos tristes/ do meu País / cansado de esperar / a chuva que tarda a chegar  //  Canto a Pátria moribunda / que abandonou a luta /  calou seus gritos / mas não domou suas esperanças // Canto as horas amargas / de silêncio profundo / cantos que vêm da raiz / de outro mundo / estes grilhões que ainda detêm / a marcha do meu País».

Nas paradisíacas ilhas de Cabo Verde, a parecerem perdidas no grande mar, escutamos José Luís Tavares para quem «nenhum destino está contido nas estrelas» como disse ao receber o Prémio de Poesia atribuído, em 2004, pela Fundação Calouste Gulbenkian: «Nenhum destino está escrito nas estrelas. O meu, construí-o por caminhos de cabras e de pedras, ouvindo perto o rugido do mar e os gemidos dos ventos da serra, entre gente de humilde condição, porém, de uma altivez tal apenas comparável aos impassíveis penhascos que outrora me vigiaram a infância. (...)».

Em S. Tomé e Príncipe, o canto belo da língua portuguesa ecoa nas margens a soltarem-se em Portugal, desse Atlântico das epopeias trágico-marítimas, com o encanto e o rigor do pensamento poético e romanesco do grande pintor José de Almada Negreiros. Veja-se este brevíssimo texto. Como à maneira de Esopo, é uma palavra cheia de sabedoria e que intitulou «A Flor»: «Pede-se a uma criança: Desenhe uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. (...) Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: Uma flor! Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas, são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!»

Em Goa e Macau, tão distantes, nascem canções de amor a um Deus que Cristo revelou e foi a Sua Imagem, a um Deus cansado de esperar e com a alegria de elevar S. João de Brito aos altares da Fé e do Império.

Em  Goa, lembramos a poesia de Adeodato Barreto «Canção do Bhául »: «Teus caminhos, Senhor, / teus caminhos de amor, / perdidos, / oculta-os a Mesquita, / a cobiça infinita / da Igreja, / do Pagode... / Aos meus ouvidos / vibrou, há muito já, o Teu apelo, / e a minha alma deseja,/ mas não pode, / recolhê-lo (...)

Na Cidade do Santo Nome de Deus, Macau, em que a cultura e a língua portuguesa sobrevivem sobretudo através do Instituto de Macau e da Revista Oriente Ocidente, não esquecemos o macaense Luís Gonzaga Gomes e as suas narrativas das lendas  e superstições de Macau, de fundo chinês, a que não faltou nunca o mítico dragão: «há quem assevere  que não obstante esse dragão encontrar-se moribundo, as suas pulsações são ainda sensíveis, sendo ainda capazes de, no seu estertor, soltar alguns arrancos, daqueles capazes de transformar a colónia em novo El Dorado».

E em Timor Lorosae, há ainda o poema «Gerações» de Xanana Gusmão, a respirar a tragédia de um tempo que parece ainda não querer passar: «(...) uma mãe que gemia / sem forças seu corpo desenhava / marcas da angústia / esgotada // Os farrapos que a cobriam / rasgados / no ruído da sua própria carne / sob o selvático escárnio / dos soldados indonésios / em cima dela, um por um (...)». Não quero perder ainda uma referência à memória de um Fernando Sylvan, a voz fagueira de Oan Timor. Aí se erguem os versos de um povo-infância a olhar a língua dos descobridores e a tentar cultivar a língua do verdadeiro Descobridor: «as crianças brincam na praia dos seus pensamentos / e banham-se no mar dos seus longos sonhos // a praia e o mar das crianças não têm fronteiras // e por isso todas as praias são iluminadas / e todos os mares têm manchas verdes //mas muitas vezes as crianças crescem / sem voltar à praia e sem voltar ao mar»

Já mais perto das praias da «ocidental casa lusitana», as ilhas do arquipélago da Madeira, têm Herberto Helder, um dos poetas da língua portuguesa, nas suas vertentes fantástica e surrealista. E transcrevo excertos de um dos seus poemas: «De repente, as letras. O rosto sufocado como / se fosse abril num campo da noite. / O rosto no meio das letras, sufocado a um canto, / de repente. / Mulheres correndo, de porta em porta, com lenços / sufocados, lembrando letras, levando / lenços, letras ­ nas patas / negras, grandiosamente abertas. / Como se fosse abril, sufocadas no meio. / Era o som delas, como se fosse abril a um canto / da noite, lembrando.» (in Ou o Poema Contínuo - Súmula, p.15).

Agora, no mais vasto arquipélago dos Açores, aqui ao nosso lado, ao nosso ocidental lado, em ilhas isoladas pelos vulcões tenebrosos e afáveis, num incêndio a flamejar ou escavados nas solitárias cinzas fumegantes, pontifica Vitorino Nemésio, sempre oportuno e a não errar em tempos sem «limite de idade». Evoquemos estas palavras: «Como sempre, a norma linguística infringida irrita inutilmente [...] os guardiões do purismo, que os há aqui em nome de Machado de Assis como entre nós de Camilo. Nem esqueçamos que o "caldo de Vieira" é tão português de Portugal como português do Brasil. [...] A verdade é que a língua só lucra com os desaforos dos utentes. Quanto mais desmanchada, mais rica ao voltar à ordem. A sede de sentido acompanha e persegue o caos aparente do grafómano, e até o erro de sintaxe e de ortografia é fecundo: o primeiro porque dá uma ordem nova às palavras; o segundo porque regista a livre realidade dos fonemas.» (Jornal Observador, 22/9/1972).

Aqui estamos a escrever com a língua de partes tão distantes. A língua aproximou-as; a língua poderá afastá-las. Mas se a lusografia for uma única, tanto mais difícil será esta última consequência. Esperemos que o Acordo Ortográfico, que deverá ser assinado em breve, nos traga a certeza de que em tão diversos continentes e entre culturas tão dispersas a beleza da Língua Portuguesa, em que escrevem, hoje, António Lobo Antunes (Portugal), José Eduardo Agualusa (Angola), Baltasar Lopes da Silva (Cabo Verde) ou Paulo Urban (Brasil) será o sustentáculo de uma autêntica comunidade lusófona de cariz, maioritariamente, afro-luso-brasileira.

 

10 de Abril de 2008

Teresa Ferrer Passos*

 

* Ortónimo de Teresa Bernardino

 

 

Fonte: Internet, www.harmoniadomundo.net (10/4/2008); Internet, www.triploV.com (10/4/2008); Internet, www.revista.agulha.nom.br (Nov./Dez.2008);Teresa Ferrer Passos, Escritos Voando no Tempo, Escrituras Editora, S. Paulo, 2009

 

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AUNG SAN SUU KYI, A BIRMÂNIA E A PAZ

 

Aung San Suu Kyi nasceu na Birmânia, em 1945. Seu pai, herói da independência do país, foi assassinado quando ela tinha apenas dois anos.

Submetido a uma férrea ditadura militar, a Birmânia (desde então denominada Myanmar) viu milhares de adeptos da democracia serem presos, torturados e mortos.

Em 1988, houve a notícia de dez mil pessoas mortas, em consequência da repressão dos militares no poder.

Fundadora da Liga Nacional para a Democracia, Aung San Suu Kyi ganhou as eleições por uma maioria esmagadora, em 1990. A escolha dos eleitores foi desrespeitada.

 Em 1991, era-lhe atribuído o Prémio Nobel da Paz, por todos os seus corajosos esforços em prol dos Direitos Humanos na sua pátria.

Sufocada a tentativa de democratização do país, Aung San Suu Kyi ficou em prisão domiciliária até aos dias de hoje.

Recentes manifestações de rua, tiveram como apoiantes os próprios monges budistas, o que levou a mais uma brutal repressão exercida pelo regime militar. Mosteiros foram invadidos, monges assassinados e muitos outros privados da liberdade.

Quando é que as eleições democráticas e a escolha dos votantes são respeitadas?

A Comunidade Internacional não tem peso e prestígio para repor a Ordem Democrática e os Direitos Humanos, em Myanmar, a antiga Birmânia?

O mundo que se diz a favor dos direitos humanos, não consegue vencer as ditaduras férreas que proliferam em vários Estados, entre os quais está a Birmânia, há tantos anos?! *

 

     3/10/2007

Teresa Ferrer Passos*

 

* Ortónimo de Teresa Bernardino

 

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 REGIÕES VERSUS CENTRALIZAÇÃO 

 

Sempre tenho defendido a regionalização do  País. Na Idade Média, as regiões enriqueceram as monarquias. Foi a divisão do poder político, económico e jurídico que permitiu uma justiça mais eficaz, uma divisão da riqueza mais adequada aos cargos exercidos, uma sociedade mais solidária e fraterna.

 

O regime feudal mostrou, durante séculos, que deveria ser o regime ideal de uma sociedade justa e avançada culturalmente. A soberania regional-local, não pode deixar de dar às populações um poder real, um poder que não se confunde com os interesses da centralização.

 

 O sistema absolutista que vigorou durante o regime monárquico e que era fortemente centralizador arruinou os alicerces da monarquia portuguesa e permitiu, em pleno regime republicano, a ascensão de uma ditadura também centralizadora.

 

As medidas tomadas por este Governo no que respeita à Saúde e à Educação, designadamente no interior, já a desertificar-se num assustador êxodo para Lisboa e arredores (sobretudo), não pode deixar as autarquias indiferentes. Os interesses fundamentais das suas populações devem ser urgentemente defendidos. Os Centros de Saúde e os SAP(s) a serem encerrados, os hospitais com pouco pessoal e sem tecnologia actualizada, as actividades culturais e desportivas sem uma real dinamização, são factores que retiram a vida às pequenas cidades, vilas e aldeias do país mais afastado do litoral marítimo.

 

Todo o interior do país está a confrontar-se com um monstruoso êxodo das populações, vítimas do desprezo de uma política acentuadamente centralizada mais interessada em aumentar a concentração urbana nas cidades do litoral, especialmente Lisboa, do que em desenvolver as pequenas cidades com um sistema de infra-estruturas atractivo para a fixação populacional.

 

Em todos os países, designadamente da Europa, para já não falar de Espanha, as  cidades, quer do interior quer da periferia, têm um grau de desenvolvimento cultural, industrial e agrário muito idênticos. Viver em Paris ou na periférica Toulouse não cria aos habitantes desta última cidade, diferenças nítidas em relação às condições de educação, de cultura, de saúde ou de desenvolvimento económico na primeira.

 

Em Portugal, há que fazer, para começar, a revolução das cidades, capitais de distrito. Depois, a revolução terá de se alargar ás outras cidades e às vilas. Sem que isso se incremente, por iniciativa das próprias autarquias, ou seja, dos órgãos do poder local, nunca sairemos da estrutura satirizada já por Eça de Queirós no seu romance A Cidade e as Serras, publicado no longínquo ano de 1902…    

 

O Algarve, que se integrou em Portugal tardiamente, em relação ao resto do nosso país, tem uma situação histórica e geográfica específica. A comunidade estrangeira residente, é significativa. Contudo, a colonização de ingleses, holandeses ou alemães tem de ser contida. Caso tal não se verifique, culturas cujo prestígio internacional é muito superior ao do Algarve, abafarão a cultura desta região portuguesa.

 

Se temos excelentes romancistas, se temos excelentes intérpretes de música clássica, se temos cientistas de craveira internacional, designadamente na universidade do Algarve, para quê, por exemplo, grande número de espectáculos serem dominados por intérpretes da comunidade estrangeira residente ou convidados por esta, como acontece no Museu do Trajo Algarvio de S. Brás de Alportel?

 

Não temam, senhores autarcas!

 

Defendam os valores de Portugal e, em especial, das regiões. Talvez seja assim que os povos se prestigiam e se tornam capazes de ninguém se atrever a tentar substituí-los! “Regiões, Sim, em nome de Portugal”.

 

29 de Novembro de 2007

 

Teresa Ferrer Passos*

 

* Ortónimo de Teresa Bernardino

 

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TRÁFICO DE CRIANÇAS COM CONIVÊNCIA DA SOCIEDADE CIVIL...

 

Uma ONG (Organização Não Governamental) francesa denominada Arca de Zoé pretendeu sair do Chade (país centro-norte africano) com 103 crianças. Tinham elas idades compreendidas entre 1 e 10 anos e, sem qualquer documentação que o legitimasse, íam metê-las num avião, comandado por um piloto belga e com tripulação espanhola, com destino a França.

 

As autoridades do país (antiga colónia francesa) consideraram este procedimento como ilegítimo e altamente condenável pelas leis pelas quais se rege o Chade, uma das, não muito frequentes, democracia africanas.

 

 A acção levada a cabo pelos franceses da ONG foi, desde logo, considerada um rapto de crianças com o fim de as traficar, ou seja, de as vender por boas somas de dinheiro. De facto, a ONG pretendia vender as crianças a famílias francesas que as queriam adoptar, pois tinham sido informadas de que se tratava de crianças órfãs, vindas de uma região mártir da guerra, a região de Darfur. Esta é uma região sudanesa, com a qual o Chade tem fronteira.

 

 No Chade muitos refugiados de Darfur têm encontrado guarida. Mas, as crianças eram mesmo chadianas e tinham as suas famílias. Esta ONG considerou talvez que tivessem, ou não tivessem pais, isso não era muito importante; serem órfãs ou não, que importava? O que importava mesmo era satisfazer os pedidos dos clientes...

 

  Se não fossem as medidas imediatas do Presidente do Chade, Idriss Deby Itno, estas crianças teriam sido, na sua quase totalidade, retiradas aos seus pais e mães, evidentemente famílias pobres, mas que não os abandonaram à sua sorte. Querem os seus filhos, consigo, porque lhes deram a vida.

 

Este país, um dos mais pobres de África, coloca ainda os valores da família, ou seja, da maternidade progenitora, em lugar mais alto do que as «vantagens» da vida da sociedade consumista-materialista dos países europeus, sob a supervisão da globalização, a descaracterizar o sentido superior da família autêntica e, ao mesmo tempo, a querer mesmo apagar a sua importância no universo da vida humana!

 

 O princípio pelo qual se rege a adopção não pode colocar famílias ricas acima das famílias pobres. É preciso não esquecer que foram estas que, mesmo pobres, deram a vida aos seus filhos. Por isso, lhes chamam filhos.

 

O conceito de verdadeiras mães e verdadeiros pais está em crise na sociedade Ocidental. O conceito de que só há uma verdadeira mãe, tenha ela as características sociais que tiver, não pode ser escamoteado em função dos interesses egoístas das famílias bem instaladas na vida e financeiramente abonadas que consideram que o filho de um estranho, pode bem substituir um filho verdadeiro, ou seja, dado ao mundo através do seu próprio corpo.

 

Os países pobres que abundam na África ou na Ásia ou nas Américas Centrais ou do Sul, estão a ser vítimas de organizações que, para ganhar fortunas, esquecem que Mãe há só uma!

 

3 de Novembro de 2007

 

Teresa Ferrer Passos*

 

* Ortónimo de Teresa Bernardino

 

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«O maior destruidor da paz nos nossos dias é o aborto, porque é uma guerra directa, um crime directo cometido pela própria mãe. (…) É que, se uma mãe pode matar o próprio filho, que me impede a mim de vos matar a vós e a vós de me matar a mim? Nada. (…) Façamos com que toda a criança nascida e por nascer seja desejada» *

 

* Excerto do discurso proferido por Madre Teresa de Calcutá, na ocasião em que lhe foi entregue o Prémio Nobel da Paz, em 1979 (in Kathryn Spink, Madre Teresa de Calcutá, Ed. A.O., Braga, 1990, pág.191).

 

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SOFRIMENTO HUMANO IGNORADO?!

 

Junta Médica recusa Aposentação a uma professora cancerosa que é obrigada a manter as funções docentes numa escola de Ovar. A desumanidade impera neste tempo de insensibilidade, perante o sofrimento alheio. A desumanidade parte, aqui, escandalosamente, de médicos!

 

Hoje, a Ministra da Educação anuncia que a referida professora vai ser substituída, de imediato, porque não garante, no seu estado de saúde, a qualidade de ensino que é exigível a um professor. E, acentua que os alunos não podem ser prejudicados por a professora não oferecer aulas com a qualidade exigível à docente.

 

O escândalo destas justificações está no facto de a Ministra da Educação não dirigir uma única palavra à professora, referindo o sofrimento com que tem estado a leccionar, o sacrifício desnecessário que lhe foi exigido por uma Junta Médica, ela sim, sem qualidade humana.

 

Porque é esquecida a docente? Não é ela a vítima de uma doença que lhe dá grande sofrimento, até à morte? Porque não merece uma palavra de apoio, pelo seu espírito de abnegação, ao não abandonar as suas funções, apesar de ter uma doença que o justificaria plenamente?

 

A Ministra da Educação considera mais importante a qualidade do ensino ministrado a uma turma, do que o sacrifício pelo terrível sofrimento de um ser humano? Este é o Governo com Ministros mais desumanos, desde a Revolução de 25 de Abril!

 

Serão eles ministros afectos ao Partido Socialista, ou ministros que querem, sub-repticiamente, destruir um Partido que deveria ter como prioridade maior a solidariedade social?!

 

20 de Outubro de 2007

                                                                                                                                                                 Teresa Bernardino

 

 

 

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CAVACO SILVA EVOCA A ÉTICA EM POLÍTICA

 

«(…) fui surpreendido com declarações de destacadas personalidades do partido do Governo exigindo ao Presidente da República que interrompesse as férias e viesse falar sobre a participação de membros da sua casa civil na elaboração do programa do PSD (o que, de acordo com a informação que me foi prestada, era mentira).

E não tenho conhecimento de que no tempo dos presidentes que me antecederam no cargo, os membros das respectivas casas civis tenham sido limitados na sua liberdade cívica, incluindo contactos com os partidos a que pertenciam.

Considerei graves aquelas declarações, um tipo de ultimato dirigido ao Presidente da República. (...)»

 

Fonte: Declaração do Presidente da República em 29 de Setembro de 2009 (Internet, http://www.presidencia.pt )

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SARAMAGO, CAIM E O FREI JOSÉ AUGUSTO MOURÃO*

 

 

 

A palavra não transcende o homem; é o homem que transcende a palavra. Antes da palavra está o homem com as suas percepções, os seus sentimentos, os seus pensamentos. Depois o homem inventa a palavra, tosca ferramenta para quem quer comunicar a vida interior. Tosca ferramenta, porque a vida interior do ser humano, com a sua infinita riqueza, nunca poderá ser totalmente capturada por um conjunto finito de palavras. (Do mesmo modo, nenhum conjunto finito de fórmulas matemáticas poderá alguma vez capturar toda a infinita riqueza do universo; por isso não acredito na possibilidade de os físicos acabarem por chegar a uma “teoria do tudo”.) Era por o poder expressivo da palavra ser tão limitado que Miguel Torga, de quem o Frei José Augusto Mourão se ri, emendava e voltava a emendar os seus textos (e, com ele, milhares de outros escritores fazem o mesmo). Ele tinha consciência de que nenhum texto podia traduzir exactamente o que ele queria dizer; e ia emendando na tentativa de que o texto se aproximasse cada vez mais da intenção. Este é para mim o ponto fulcral: por detrás de um texto há um autor de carne e osso (e alma!) e há a intenção do autor – ele quer dizer qualquer coisa; a preceder o texto há o sentido que o autor quer através dele transmitir. Tudo o que fica dito parece óbvio, e pareceria também óbvia a inutilidade de o dizer, não fossem as palavras do Frei José Augusto Mourão. É que o Frei José Augusto Mourão, entre gargalhadas, afirma ser absurdo que, nas escolas, se pergunte aos alunos qual a “mensagem” ou sentido de um dado texto. Quando essa é realmente a única pergunta importante! (Por muito difícil que seja a sua resposta; e a resposta é difícil, pelo carácter limitado do poder expressivo da palavra, precisamente referido na abertura deste curto comentário.) Mas, para o Frei José Augusto Mourão, o texto é um objecto inerte, completamente independente do ser com vida que lhe deu origem; um objecto inerte de que apenas interessa estudar a teia das relações formais internas, como quem estuda, digamos, um mineral. (O contrário é que seria o correcto: estudar até mesmo um mineral sem esquecer a intenção do seu criador, neste caso Deus.). E esse objecto inerte não tem qualquer sentido. O conceito de “sentido” só entra no seu estudo quando se faz o inventário de todos os sentidos que ele podia ter, nenhum dos quais valendo mais do que os outros. Esta atitude é o maior pecado da ciência moderna e dá pelo nome de “formalismo”. É pena que o Frei José Augusto Mourão rejeite o que a ciência tem de bom (as verdades que ela vai descobrindo acerca desta casa que Deus nos deu para habitar e a que chamamos Universo) e adira ao que a ciência tem de pior (a negação da existência de um sentido por detrás das coisas).

Quando um membro do clero incorre nestes pecados, somos tentados a falar em fim do mundo, tentação comum a todos os conservadores de todas as épocas. Mas é sempre cedo para falar na morte do mundo, porque Deus tem reservas infinitas de vida com que o abastece permanentemente. E a vida multiplica-se de novo sempre que num jovem nasce a ideia de Deus sob uma forma pura, viva, não desencarnada, ou seja, como o oposto de um esqueleto agrilhoado às correntes do formalismo. Para esse jovem tudo terá um sentido e as coisas não serão todas iguais.

NOTA FINAL: Estas considerações surgem na sequência de uma conferência sobre a obra Caim de José Saramago proferida pelo Frei José Augusto Mourão, e em que as frias concepções deste último surgem como forma de diluir as malévolas intenções do primeiro. Mas nós sabemos quem é José Saramago. Sabemos com que intenção escreveu esta obra. Não o podemos esquecer. Não o devemos esquecer. Agora, como sempre, trava-se uma luta entre o Bem e o Mal. As coisas não são todas iguais.

 

17/1/2010

 

Fernando Henrique de Passos


 

* Considerações suscitadas por uma conferência proferida pelo frade dominicano José Augusto Mourão no Convento do Dominicanos de Lisboa em 16 de Janeiro de 2010.

 

 

 

 

 

NO CIBERESPAÇO, QUE CIBERCULTURA?

  

 

«A cultura moderna, definida pelo predomínio da tecnologia,

dos interesses económicos e militares,

não pode sobreviver sem uma sempre desperta imaginação crítica e utópica»

E. Subirats, Metamorfisis de la Cultura Moderna, 1991

 

 

A cultura tecnológica tem limites que negam algumas das mais importantes qualidades do ser humano, esse ser humano que a História testemunha, guarda e identifica. Trata-se de uma cultura que acorrenta, que manipula, sobretudo porque oferece estímulos cada vez mais sofisticados e, ao mesmo tempo, que seduzem os mais vulneráveis pela solidão em que a sociedade tecno-consumista os lançou desde há pelo menos duas ou três décadas.

O olhar deixou de ser analítico, com um sentido crítico e observador. A desconfiança não parece ser uma característica da sociedade pós-moderna. Levantou-se uma atitude acrítica e crédula, demasiado crédula quanto a tudo que se recebe sem desejar, que é imposto parecendo dar liberdade de escolha. A publicidade invadiu todos os meios de comunicação social, mais dominados por máquinas electrónicas ligadas ao humano do que por pessoas identificadas com normas eticamente aprováveis. O predomínio da mentalidade relativista e minimalista criou as condições ideais para que o humano fosse cada vez menos humano e o electrónico cada vez mais humanizado.

Toda a novidade encerra uma carga benéfica, mas nada nos garante que também não venha imbuída de erros, deformantes ou minimizadores daquilo que já foi concebido. A novidade não possui nem conduz sempre a um avanço, a um progresso garantido. Mas possui sempre algo que diverge daquilo que existia antes.

O novo é o diferente. O novo pode não ser o melhor, mas pelo menos é, irrefutavelmente, a única coisa que pode ou pôde ser. Porque se assim não fosse, o novo nunca teria lugar. O novo seria impossível. A coisa nova não é imune à falha, porque ela própria antes de surgir resultou da imaginação que constrói, que cresce, que prolifera numa minoria que contesta, que rejeita o caminho seguido até então. Essa minoria opõe-se, de modo crítico primeiro, de modo utópico depois, ao status quo vigente, à afasia generalizada, à indolência geral.

Tudo o que nasce de novo resulta de uma insatisfação e de uma descrença no mundo cultural em que se vive. Assim começou de modo tímido, em 1953, com Wiener, Shannon e Turing o edifício que levaria, nos nossos dias, ao ciberespaço e à cibercultura. 

Esta revolução sem armas de guerra evoluiu para a grande Rede Internética que globaliza e torna cada vez mais vastos os universos individuais, quer no sentido do melhor, quer no sentido do pior, como o identifica o filósofo Virilio em Cibermundo, a Política do Pior.  Pessimista em relação à cultura electrónica é também Simmel ao falar de «tragédia da cultura» e ao associar a economia monetária ao poder científico-tecnológico.

Como escreveu Baudrillard, em 1997, «a Internet apenas simula um espaço mental livre, um espaço de liberdade e de descoberta (…) É-se o interrogador automático ao mesmo tempo que o respondedor automático da máquina (…) É isso o êxtase da comunicação. Não há mais o outro, em face, nem destinação final. O sistema gira assim, sem fim e sem finalidade (…)», recorda José Augusto Mourão em O Mundo e os Modos de Comunicação (pp. 207-208, Coimbra, Minerva, 2005). As vastíssimas auto-estradas da informação percorridas no mundializado espaço electrónico que está, cada vez mais ao alcance de todos, é o tema geral em que se divide esta sua curiosa intervenção ensaística no cibermundo internético.

O Mundo e os Modos de Comunicação é um livro sapiencial, que prende a atenção e nos dá uma visão muito rigorosa da problemática do universo tecnológico a que, desde a infância, somos progressivamente obrigados a obedecer, sob pena de nos isolarmos do mundo humano, esse humano em busca de uma máquina para sobreviver por já não saber viver com os outros, ou porque as cidades são, cada vez mais, monstros sem alma, sem encontro, sem descoberta da felicidade. «Um obscuro ambiente de fim de mundo envenena o ar. Neste ambiente o corpo tornou-se um obstáculo à comunicação» escreve José Augusto Mourão (p.10).

No corpo visível é preciso construir pontes que iludam a sua visibilidade. A visibilidade tornou-se um domínio do preciosismo ilusório e trágico. A carne desencarna-se como se fosse necessária a morte do vivo, com toda a sua dinâmica adulterada e fria. Crescem virtuais linhas de escândalo na cidade frenética do virtual e de um fantasmagórico em que a maravilha se transforma num ecrã de luz intensa e com  um som penetrante a escapar-se volátil e esquelético, sem poesia, sem discurso de verdade onde se esconde todo o conteúdo. Por isso, o autor de O Mundo e os Modos de Comunicação insiste na ideia de que «a imagem do corpo entrou em crise» (p.12).

Estamos frente ao «homem electrónico [que] não tem essência carnal. O corpo pós-humano é uma tecnologia, um ecrã, uma imagem projectada» (p.15). O humano adquire uma dimensão que o ultrapassa através dos meios de comunicação em que a tecnologia não disfarça a sua caricatura do mundo. A máscara afivela-se sem que o tempo se aperceba que tudo está ao serviço da mudança impenitente e ainda cheia de enigmas, a adensarem-se e fulminando tudo quanto pertencia a um real contemporizador com as horas de um tempo ainda não muito distante, as horas longas e férteis para aqueles espíritos habituados a serem essencialmente livres, plenos de autonomia e a arbitrar as decisões em que a democracia desempenhava uma função desinibidora e actuante.

Estamos perante um livro que nos provoca, nos faz pensar. E, nos arrepia quando o autor diz que «as redes dos computadores põem simplesmente entre parêntesis a presença física dos participantes» (p.15). O Mundo e os Modos de Comunicação é, afinal, e apesar de o autor não se enquadrar nos adeptos das grandes auto-estradas electrónicas, uma grande auto-estrada da angústia humana ante a perda previsível e irremediável de caminhos mais à medida humana, mais à escala das emoções e dos comportamentos de risco, aventura e sonho.

Questões em aberto são postas de modo incisivo e pragmático.  É preciso alertar aqueles que ainda lêem para questões discutíveis e de labirínticas teias de pensamentos tanto recentes com antigos, tanto do mundo do romance como do mundo da poesia ou do ensaísmo. Áreas tão estranhas como a teologia, a ciência ou a tecnologia parecem imbricar-se, como se fossem temáticas familiares umas às outras, mas também surgem como se fossem campos fechados, que não se pudessem transpor, como se fossem compartimentos estranhos e alienados da realidade.

Tudo se encaixa num já vastíssimo ciberespaço a estender os seus tentáculos que avançam a uma velocidade impensável e a tender para o infinito, o incorporal, o fim das coisas e o império das imagens que ninguém conhece e que se volatilizam como se fossem um fumo rápido ou como se fossem um vento que não deixa rasto.

Quando José Augusto Mourão escreve que «o ciberespaço significa a morte dos objectos reais» (p.208) ou que «a idolatria moderna está aí: na sobreavaliação de Imagens que substituem as coisas» (p.212) ou ainda que «o sujeito da vivência virtual é desprovido de corpo» (p.212), tudo se torna mais claro e evidente. A realidade natural é posta em causa pelo ciberespaço. O sujeito humano perde a sua estrutura e integridade ética. O virtual transforma a frescura e a transparência de cada coisa num simulacro que respeita à imagem, sem vida natural, sem autenticidade.

No mundo virtual há uma aparência dominante. O real deixa de ter a virtude de o ser. Num real de novas dimensões espaciais tudo cresce como num esquema labiríntico e, ao mesmo tempo lógico, mas em que a emoção é um estado deformado, «light», exclusivista e com os contornos do deprimente ou com a atitude do consentimento, mesmo do aberrante. Como acentua José Augusto Mourão, «a técnica está a mudar a nossa percepção do mundo. O nosso verdadeiro lugar é o possível. A realidade é apenas uma das variações do possível» (p.81).

Numa abrangência quase a atingir o quadro de paredes virtuais que nunca cortam o caminho, o ciberespaço é um baluarte das novas correntes materialistas/minimalistas. É ele que dá expansão às suas teses, que eleva a ideia de que tudo vale sem diferenças e tudo começa a ser avaliado como se cada valor tivesse o mesmo grau de legitimidade no contexto humano. O mundo dos valores cristãos ocidentais está a ruir perante a onda avassaladora do princípio do prazer como o valor máximo e o único indiscutível nesta sociedade do consumo e da informação sem freios.

Ao admitir-se e ao aceitar-se a legitimidade de todos os valores individualmente considerados, deixa de haver espaço para valores universais, para a distinção entre bem e mal, entre justo e injusto, entre válido e inválido. A civilização ocidental, ao condescender com os novos valores de uma moda implacável, confrangedora e redundante deixa sossobrar os valores intemporais da realidade humana. De facto, diz Mourão, «o processo de multiplicação infinita de informação, o desaparecimento dos centros, o apagamento progressivo das figuras de poder, dá lugar a uma ilusão de liberdade e de autonomia (…). O ciberespaço não é a abolição das fronteiras nem das muralhas da cidade, mas sim a invisibilidade de fronteiras e muralhas, de valores e de poderes» (p.210).

A ambiguidade, as ambivalências, o anonimato, as tutelas do poder de lobbies poderosos, a cultura encapotada por interesses obscuros, os proteccionismos financeiros de redes incontroláveis dentro da rede internética do ciberespaço, conduziram filósofos como, Baudrillard, E. Subirats, Fiorese, P.Virilio, G. Simmel ou Serres, entre outros, a colocar-se numa posição de desconfiança e crítica das novas tecnologias da informação. Citando-os ao longo de O Mundo e os Meios de Comunicação, J. A. Mourão trata esta temática com o rigor que exigem os estranhos rumos das vastíssimas auto-estradas cibernéticas em construção há poucos anos e já com tão inesperado êxito junto das sociedades ávidas de um «admirável mundo novo». A urgência de encontrar uma saída para a angústia em que a informação e o consumismo as tem mergulhado, vulnerabiliza-as e fá-las presa fácil da avidez incontida e prepotente. A sociedade, após duas violentas guerras mundiais, ficou fragilizada.

À mercê dos «deuses» de uma tecnologia desencarnada que a levou à veneração, como um verdadeiro mito, do lazer, deixou-se conduzir a um lazer fictício, repleto de imagens sedutoras como a velocidade, as fantasias imagéticas, os robotizados planos de repouso, a idolatria do corpo que não salvaguarda o lugar da carne física, separada do corpo se torna absurda.

No mundo dos cyborgs, dos bits, dos freaks, dos híbridos, dos blogs, dos links, dos hipertextos, há pouco lugar para um corpo em movimento, pronto à aventura, ao sonho, à palavra que permanece, à amizade que não se reduz a um e-mail, ao amor que não se compadece com sexo à margem da comunhão e da fidelidade. Crescimento, globalização, abolição das diferenças na real desigualdade, são chavões que deturpam todos os sentidos úteis da informatização social. Às massas, incapazes de se aperceberem das assustadoras mudanças económicas e políticas das comunidades globalizantes, só resta obedecer cegamente, submeter-se ao todo e deixar-se iludir conforme os padrões dos novos tempos. 

Em O Mundo e os Meios de Comunicação, José Augusto Mourão oferece-nos uma visão que não deve ser omitida, esquecida ou desprezada pelos meios de comunicação. Aqui se encontram afirmações a alimentar a polémica que a nova cibercultura deveria escutar para não ser alvo de tantas limitações quando diz ter como fio condutor os grandes espaços da liberdade.

Como escreve o autor deste valioso ensaio semiótico, «com o colapso da realidade vs ficção, também a dualidade cartesiana espírito/corpo é eclipsada pelo conceito de «cyborg» que mina o conceito de «humano».(…). Se as fronteiras entre humano e artificial colapsam, todas as outras realidades se dissolvem também e as suas partes tornam-se ininteligíveis, como prevê Donna Haraday no seu “Manifest for Cyborg”» (p.15). E mais adiante: «Nunca fomos tão frequentados por monstros. Estão aí a “nova carne”, o cyborg, o pós-humano» (p.18).

Ler esta obra é receber um sinal de alerta sobre o ciberespaço. Não o deixemos passar ao nosso lado.

 

S. Brás de Alportel, 18 de Janeiro de 2006

Teresa Ferrer Passos*

 

* Ortónimo de Teresa Bernardino

 

 

Publicações: Internet, www.triploV.com (17/1/2006); Suplemento «das Artes das Letras» in O Primeiro de Janeiro, 13/3/2006; Internet, www.harmoniadomundo.net (1/9/2007); Teresa Ferrer Passos, Escritos Voando no Espaço, Escrituras Editora, S. Paulo, 2009, p.215.

 

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CIÊNCIA EM PORTUGAL, HOJE

  

 

Disse um dia o poeta e filósofo Antero de Quental que a Europa «subiu sobretudo pela ciência», enquanto Portugal, pela sua ausência, desceu, foi-se degradando, acabou por se reduzir a especulações filosóficas, melhor dizendo, a especulações teológicas ou teosóficas. Mergulhados numa religiosidade mais imbuída de paganismo do que de espírito cristão, não superámos as consequências nefastas que, em pleno século do experiencialismo sofremos, devido à influência predominante do ensino jesuítico. Este aliado ao isolacionismo e aos métodos da escolástica fez-nos soçobrar, quando a Europa Central e do Norte aproveitavam as descobertas práticas dos navegadores  e, com eles, dos astrónomos, dos matemáticos e dos geólogos portugueses.

A culminar, o impulso dado pela Inquisição, desde 1540, provocou o descalabro de todos os edifícios científicos que se podiam ter elevado aqui, sem dúvida, com prioridade sobre as outras nações (pelos capitais e saber oriundos dos Novos Mundos). A decadência da ciência no Portugal de Quinhentos não teve como corolário uma expansão cíclica, como gostaria de dizer Spengler. O que se verifica é uma endémica «apagada e vil tristeza» castradora das nossas possibilidades.

E nem sequer as novas condições de comunicabilidade entre povos, instituições e ideologias em que o mundo contemporâneo se revê imprimiram características de criatividade à ciência feita em Portugal. Todos os anos é atribuído um Prémio Nobel da Química, da Física, da Economia e da Medicina. Nós continuamos, há décadas, com um único Prémio Nobel: Egas Moniz. Esta excepção confirma a regra.

Os factores referidos no ponto anterior resultam de uma mentalidade consolidada ao longo dos anos. Não é fácil alterá-la. Mas desejar é já possuir. Urge mudar. E  porque as estruturas mentais levam longo tempo a ser desmoronadas, urge sermos rápidos. Há que pensar em termos de revolução, porque não pode deixar de ser uma revolução. E começá-la implica vencer o espírito jesuítico, presente ainda na importância concedida ao saber livresco, ao comentarismo de raiz aristotélica, ao eruditismo em que há o uso e abuso do autor estrangeiro.

Vive-se o gosto da mediania, prolifera o sentimento da inveja, viceja o interesse por traduzir a obra científica alheia em substituição da elaboração autóctone. Cultiva-se a ciência nas nossas universidades como se o seu objectivo maior fosse a transmissão de conhecimentos, ou seja, a formação de quadros docentes. É desprezado o estudo metódico com vista às grandes sistematizações e à conquista de novas contribuições decisivas para o avanço da ciência contemporâ­nea.   

Há, em Portugal, todo um mecenetarismo não ultrapassado pelo espírito de ganhar mais, isto é, de pôr o capital ao serviço da ciência, não em função exclusiva da ciência, mas da aquisição de novos lucros. A ciência pela ciência ainda não faz sentido em Portugal, como o faz em outros países, designadamente da Europa. As limitações postas ao labor científico são muitas. Para exemplificar, lembremos os prazos impostos para a apresentação de teses de doutoramento ou afins pós-doutoramentos...

Erguem-se, assim, barreiras psicológicas desmotivantes para os estudiosos das ciências exactas. Igualmente, é  nefasta a divulgação de um espírito que se opõe à importância da competitividade. A ver­dade é que as sociedades em que esta existe, e é estimulada, são as mais agressivas no plano da ciência como noutros campos da cultura.

Uma elite especializada em que cada elemento procure dar o melhor de si –  na área da ciência  que cultiva – é indispensável ao progresso e mais do que ao progresso, ao vanguardismo inovador. Professores com pesadas cargas horárias de aulas, nas  quais prevalece o critério da transmissão de conhecimentos, sem a novidade implícita  da participação discente, nada podem acrescentar de verdadeiramente equiparável ao que se realiza no estrangeiro.

A universidade portuguesa não deve continuar alheada do NOVO que é o trabalho fulcral das universidades dos países desenvolvidos, não apenas do ponto de vista económico, mas principalmente no que toca à cultura, nas suas diversificadas vertentes. Os tempos medievos já estão bem distantes para que a ciência não se liberte de condicionalismos de prestígio social ou financeiro. O Colégio Universitário de Dublin, a Universidade de Princeton, a Universidade de Cambridge são apenas alguns exemplos de como a competição entre os melhores tem a vantagem de provocar o aparecimento de uma  vanguarda nos caminhos fascinantes da ciência contemporânea.

Estas breves palavras apenas pretenderam ser uma contribuição para traçar alguns dos factores em que se atola a ciência em Portugal, apesar de haver sinais de que algo está para acontecer com as novas gerações de cientistas portugueses. A título de curiosidade, publica-se, seguidamente, um texto escrito há alguns anos por um aluno da Faculdade de Ciências de Lisboa que, apesar de se inserir num estilo pedagógico virado para a repetitiva citação dos autores estrangeiros, nos dá uma visão personalizada e, ao mesmo tempo, sintetizadora, da FÍSICA ANTES DE GALILEU.  Aos que gostam de conhecer os primórdios da  Física Quântica e aos candidatos à investigação científica este é um exemplo a reter.

Teresa Ferrer*

 

 

* Ortónimo de Teresa Bernardino..

 

Fonte: «Introdução» in Fernando Henrique de Passos, A Física antes de Galileu, Gazeta de Poesia, Col. Labirinto, nº5, 1995; Internet, www.harmoniadomundo.net (13/9/2008).

 

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NOTAS SOBRE O ENSINO POPULAR EM PORTUGAL

(Nos Primeiros Anos da República)

 

 

Os estudos sobre o ensino para as classes populares em Portugal são inexistentes, pois, como verificamos, os dados sobre este tema são escassos e os poucos elementos que  encontramos muito dispersos. Esta ausência de fontes escritas deve-se não só às dificuldades económicas surgidas ao longo do período republicano como também ao desinteresse pela cultura popular e à irremediável perda de documentação ocasionada pelos saques que terão sido feitos nas instituições de carácter popular pelo regime implantado em 1926.

 

 

I - As primeiras Universidades Livres

 

A primeira tentativa de implantação de um ensino destinado às classes sociais mais desfavorecidas foi posta em prática na Inglaterra, onde, nos princípios do século XIX, são fundadas as chamadas University Settlements e University Extensions.

Estas escolas foram bem aceites em diversos países da Europa, mas foi sobretudo na Bélgica, na França, na Hungria e, mais tarde, em Espanha que a ideia das Universidades populares criou raízes mais fundas. Assim, em 1836, é criada em Bruxelas a primeira Universidade Livre, por iniciativa de Teodoro Verhaegen.  Em França, a formação de uma Universidade Popular recua aos tempos da Comuna (1870), período de grande agitação operária, pela acção do tipógrafo Georges Deherme, num dos mais miseráveis centros sociais de Paris, o Faubourg Saint-Antoine. Na Alemanha, temos conhecimento da organização de sociedades operárias igualmente com fins educativos e culturais.

Em 1907, a Hungria realizava um congresso onde se formularam algumas considerações sobre a existência de um ensino livre subdividido em três níveis: um ensino primário para os iletrados, outro para os que tivessem abandonado a escola primária e um terceiro para divulgar as conquistas da ciência.

Em Espanha, há universidades populares em 1912, tendo sido fundada a mais célebre em Valência, por Blasco Ibañez.

Para além da Europa, sabemos que se efectuaram numerosas conferências e cursos de divulgação científica nos Estados Unidos, que eram da responsabilidade de algumas sociedades de filantropia, pacifismo, etc., mas que não tiveram as características de uma educação social especialmente  dedicada ao proletariado, sobretudo das cidades, como aconteceu no Velho Continente.

 

 

II - Portugal e o ensino popular

1 - Antecedentes

 

Na segunda metade do século XIX, o jornalismo desempenhou um papel de relevo na divulgação de conhecimentos de carácter político, social, cultural e filosófico, embora o seu campo de acção fosse bastante limitado pela grande percentagem de analfabetos e porque os estratos sociais mais iletrados correspondiam às pessoas de menor capacidade económica.

Contudo, outros factores tiveram um impacto de não menor força, como é o caso das Conferências do Casino, realizadas em 1870, por iniciativa de Antero e José Fontana, que eram norteados pelo desejo de dar divulgação popular aos problemas que tanto preocupavam alguns dos mais sensíveis pensadores portugueses. Mas, ainda que aí estivessem presentes «uma ou outra figura de lojista ou de operário, dela estiveram ausentes as mulheres, assim como o grosso do campesinato e do operariado»[1]. Foi nesta ocasião que o Governo decretou a liberdade de ensino, que então mais não era do que a possibilidade de criação de colégios laicos particulares, não, por esse factos de significativa importância no que respeita à educação popular propriamente dita[2].

Nessa época havia apenas instituições de índole caritativa, entre as quais estão os asilos para a infância desvalida, cuja criação remontava a 1834, e certas corporações públicas, tais como a Associação Civilização Popular, o Grémio Popular e o Centro Promotor dos Melhoramentos das Classes Laboriosas, que fundou diversas escolas gratuitas[3]. Em 1872, José Fontana fundava a Associação de Fraternidade Operária, que pouco tempo sobreviveria, pois surgiram «dúvidas em algumas classes que a formavam quanto à possibilidade de melhoria da sua situação económica».

Em 1889, seria estabelecida por Bartolomeu Rodrigues e Miguel Seixas a Academia de Estudos Livres, de que foi presidente Bernardino Machado. Nela se efectuaram cursos de Línguas, Ciências, Contabilidade e Artes destinados às camadas mais incultas da população. Foram, também, proferidas aí várias conferências  por Teófilo Braga, Bernardino Machado, Cincinato da Costa e muitos outros[4]. A extinção dos clubes políticos de Lisboa e dos partidos ditos progressistas, em 1892, deu origem a que alguns sócios fundassem a Academia de Instrução Popular, com sede em Alfama e da qual foram beneméritos Afonso Costa e José Rodrigues Testa[5].

Nos princípios do nosso século, foram feitas diversas conferências igualmente destinadas a promoverem a instrução das classes trabalhadoras: assim, em 1902, um grupo de proletários e estudantes organizou um ciclo de conferências na cidade do Porto; em 1908, outra série é efectuada na Associação dos Lojistas de Lisboa; na Sociedade de Geografia fizeram-se também algumas palestras, mas nenhuma destas iniciativas teve consequências para a institucionalização definitiva do ensino popular.

Com a mesma finalidade publicam-se, a partir de 1907, alguns jornais e revistas destinados a despertar o interesse pelo debate público e pela difusão da cultura nas camadas populares. Entre essas publicações podemos citar Nova Silva, Amigos do ABC, A Águia, Renascença Portuguesa, Vida Portuguesa, Portucale, etc.[6]

 

 

2 - Nascimento das Universidades Populares

a) Renascença Portuguesa

 

A sociedade denominada Renascença Portuguesa foi fundada por Jaime Cortesão, na cidade do Porto, em 1912. Com filiais em Porto e Coimbra teve como principal órgão a revista A Águia e, mais tarde, o quinzenário Vida Portuguesa. Como nos informa o seu estatuto, destinava-se a «promover a maior cultura do povo português, por meio da conferência, do manifesto, da revista, do livro, da biblioteca, da escola, etc.».

Por iniciativa do grupo de intelectuais que formaram esta associação foi fundada a primeira Universidade Popular no Porto, sendo proferida a primeira lição em 17 de Junho de 1912. A 24 de Novembro deste ano, foi inaugurada em Coimbra outra Universidade Popular. Em ambas efectuaram conferências e deram lições Jaime Cortesão, Leonardo Coimbra, Fidelino de Figueiredo, Teixeira de Pascoaes, etc.[7]

A escassez de fundos desta instituição obriga a Câmara Municipal do Porto a outorgar-lhe um auxílio monetário no valor de 300$000, com efeitos a partir de 1 de Janeiro de 1913. O défice foi motivado porque as verbas auferidas pela sociedade eram insuficientes se atendermos às elevadas despesas, pois derivavam apenas das parcas quotas dos sócios, dos raros donativos pecuniários e do produto das publicações e entradas pagas em algumas sessões.

Nesta Universidade eram ministrados cursos especiais, tais como Desenho aplicado às indústrias, Modelagem em barro, Escrituração Comercial, Ortografia, História, Geografia, Português, Literatura Portuguesa e Noções de Ciências.

Alguns anos depois, em 1919, a Universidade Popular Portuguesa foi considerada de utilidade nacional sendo aprovado o novo estatuto. Neste, é determinado que a sua sede seja fixada em Lisboa, podendo ter delegações em diferentes pontos do país. Além disso, o Estado passa a conceder-lhe o subsídio mensal de 400$000 «destinado ao desenvolvimento da sua biblioteca, dos seus programas cinematográficos educativos e publicações de vulgarização».

 

 

b) A Universidade Livre de Lisboa

 

Outra importante iniciativa no domínio do ensino popular foi a fundação da Universidade Livre de Lisboa, em 28 de Janeiro de 1912. A sua criação deveu-se a Alexandre Ferreira que, com um grupo de homens defensores da importância da educação para a total liberdade humana, tornaram realidade uma nova Universidade Popular autónoma cuja principal função seria «promover, tanto quanto possível, a educação moral, social, estética e científica do povo português». Para que a sua acção se pudesse alargar ao maior número de pessoas possível, a Universidade Livre de Lisboa iria até «aos centros fabris, junto das oficinas, às aldeias, aos pequenos e grandes povoados, realizando lições, conferências, palestras e leituras».

Deste modo, a Universidade Livre procurava «desenvolver o gosto pela leitura e o perfeito conhecimento das coisas e dos factos (…) segundo o sistema de ensino baseado na observação e na experiência»[8].

No seu primeiro período de funcionamento, iniciado em Fevereiro, realizaram-se «doze conferências em vários pontos da cidade, sendo de preferência escolhidas as sedes das associações operárias».

Contudo, impondo-se o estabelecimento de cursos fixos, foi inaugurada, no mês de Novembro, a sua sede na Praça Luís de Camões. As aulas eram nocturnas e entre as disciplinas contam-se o Francês, a Matemática aplicada ao Comércio, a Literatura Francesa, a Taquigrafia, a Psicologia e a História das Religiões, sendo os cursos mais frequentados a Psicologia e a Literatura Francesa.

A sua actividade escolar foi bastante intensa, pois de Outubro de 1912 a Julho de 1913 foram dadas 213 e 19 conferências com um total de assistentes de 19.946 pessoas e publicaram-se 26 obras no período que vai da sua fundação a Janeiro de 1914. Entre essas publicações encontra-se o Boletim Mensal[9] destinado a difundir não só conhecimentos científicos como também a própria actividade da Universidade Livre. Em 1914, o número de cursos elevou-se para 12 e no ano seguinte para 15, incluindo-se neles a Modelagem, a Escrituração Comercial, a Geografia, etc.

As classes sociais presentes nos cursos não corresponderam bem ao ideal dos fundadores desta instituição, pois eram bastante heterogéneas. No entanto, nota-se um número significativo nos indivíduos de pequenas profissões, como empregados de comércio, sapateiros, marceneiros, canteiros, torneiros, etc., cujo número vemos aumentar de ano para ano (1913-1914: 262; 1914-1915: 405; 1915-1916: 473).

Os fundos para a manutenção da Universidade Livre de Lisboa deviam-se à quotas dos sócios, às receitas das vendas dos volumes publicados e ainda a subsídios recebidos da Provedoria Central da Assistência Pública e da Câmara Municipal de Lisboa[10].

 

*

 

Como acabamos de verificar, foram longas e múltiplas as tentativas para organizar um ensino verdadeiramente popular em Portugal, mas elas goraram-se, pois deveram-se apenas a iniciativas particulares que não conseguiram obter a resposta adequada do Estado para que a sua actividade cultural junto das camadas populares não estivesse limitada à curta existência da 1ª República.

 

Teresa Bernardino

 

 

 

Fonte: Diário de Notícias, 6/5/1976; Teresa Bernardino, Ensaios Literários e Críticos, Universitária Editora, Lisboa, 2001, pp. 19-26.


 

[1] Joel Serrão, Temas de Cultura Portuguesa, Lisboa, 1960, vol. II, p.77.

[2] Idem, Ibidem.

[3] Revista Ensino Livre, nº3 (5 de Novembro de 1871).

[4] Boletim Mensal da Universidade Livre de Lisboa, nº12, Dezembro de 1914, p. 216.

[5] Jornal A Voz do Operário (30 de Março de 1913).

[6] António José Saraiva, História da Literatura Portuguesa, p. 994.

[7] Revista Vida Portuguesa, nº1 (31 de Outubro de 1912).

[8] Ver Boletim Mensal…, nº12, p.219.

[9] Entre os seus colaboradores destacam-se figuras ilustres como Bernardino Machado, Guerra Junqueiro, Teófilo Braga, Carneiro de Moura, Bento Carqueja, etc.

[10] A partir de 1917 não temos conhecimento da actividade da Universidade Livre, pois a publicação do seu Boletim Mensal, onde encontrámos os informes acima referidos, poderá ter sido então suspensa devido às dificuldades económicas com que se vinha debatendo, havia algum tempo, esta popular instituição.

 

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A PROPÓSITO DA REVOLTA MILITAR DE 31 DE JANEIRO DE 1891

 

DERROTA E ESPERA DE UM TEMPO NOVO

 

 

«Viva a República! A força militar do Porto, saindo

unanimemente, às 3 horas da madrugada de hoje, dos seus

quartéis, acaba de cobrir-se de glória, determinando o fim

da monarquia de Bragança em Portugal e proclamando a República!

Este movimento esperado a um tempo a esta parte, porque

para ele trabalhara activamente o partido republicano, de

acordo com o elemento militar, tem um carácter acentuadamente

político e uma significação solenemente nacional»

 

Jornal A República Portuguesa (31 de Janeiro de 1891)

 

 

 

 

Envolta em dificuldades de vária ordem, quanto ao tempo mais propício, quanto ao dia e à hora mais certeiras, envolta em traições inesperadas, uma revolta militar eclodia no Porto, a 31 de Janeiro de 1891, tendo em vista proclamar um regime salvador da Pátria: a República.

 

No Campo de Santo Ovídio, o regimentos de Infantaria 10 dirigido pelo capitão António de Amaral Leitão e pelo alferes Malheiro, e o de Caçadores 9  pelo sargento Coelho, defrontam as forças monárquicas, com o imediato apoio popular das gentes fiéis aos ideais do regime republicano da capital do Norte.

 

Apesar de às 7 horas da manhã ter sido proclamada a República, na Câmara Municipal do Porto, hasteada a bandeira do Centro Democrático Federal e de Alves da Veiga ter mesmo indicado os nomes de um Governo Provisório na presença destas forças militares revoltosas, tudo se esfumaria. A verdade é que não apareciam as outras unidades militares esperadas há várias horas.

 

 Sob os tiros das forças do regime monárquico vigente, sem que aparecessem novas forças militares pró republicanas com as quais se contava, sem essa investida solidária aos primeiros revoltosos, a insurreição é esmagada. Os revoltosos, aclamados por muito povo, dispersam, sem alcançar a vitória quase alcançada.

A derrota da República. A derrota da Pátria.

 

Posteriormente, os seus chefes são presos, julgados em conselho de guerra e condenados a deportação para Angola com penas que atingiram os vinte anos, como foi o caso do capitão Amaral Leitão.¹

 

Os erros cometidos na organização do movimento revolucionário permitiram que a monarquia, sem prestígio e sem uma conduta governativa patriótica, a monarquia em declínio evidente, acabasse por só ser vencida por novo golpe de estado militar, em Lisboa, no glorioso dia 5 de Outubro de 1910.

 

 

31 de Janeiro de 2010

Teresa Ferrer Passos*

 

* Ortónimo de Teresa Bernardino**

 

 

¹ Nasceu em Farminhão, em 7 de Março de 1845. Ligado aos ideias republicanos, desde há muitos anos, não deixou de sair com o seu batalhão de Infantaria 10 sediado no Porto, apesar do não aparecimento do major Graça a cujas ordens se devia subordinar, conforme o golpe preparado. Casado com Teresa de Jesus Cardoso e com uma filha de apenas um ano, Maria do Carmo, o capitão Amaral Leitão procurou a fronteira espanhola após a derrota do movimento revolucionário. Foi denunciado por um padre que reconheceu o cão que, fielmente, o seguia, correndo atrás da carruagem. Nas proximidades de Viseu, foi preso pela polícia da Monarquia. Foi depois  julgado e condenado, em tribunal de Guerra, a vinte anos de degredo em Angola. O revolucionário Amaral Leitão acabaria por fugir num barco francês que o fez chegar ao Brasil. Neste país, desempenhou funções militares com a mesma patente que tinha em Portugal. Em 1900, devido à passagem do século,  foram amnistiados os condenados envolvidos no 31 de Janeiro. Assim, regressou a Portugal onde sua Mulher tinha recolhido ao apoio de um convento e de pessoas amigas para sobreviver com sua filha, então já com dez anos de idade. Já atingido pela tuberculose, morreria pouco tempo depois, em 14 de Janeiro de 1903. Maria do Carmo, sua única filha (1890-1976) haveria de receber do ministro da Justiça Afonso Costa uma pensão vitalícia, a partir do ano de 1913, três anos volvidos após a implantação da almejada República.

 

** De seu nome completo Teresa Maria de Ferrer Leitão Bernardino Passos Silva é bisneta do capitão António de Amaral Leitão e Teresa Amaral Leitão (Mulher de alto espírito e que, sendo monárquica, muito sacrificou pelos ideais republicanos de seu marido).

 

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MACHADO SANTOS, A CARBONÁRIA E A REVOLUÇÃO *

 

Machado Santos, a Carbonária e a Revolução é o primeiro opúsculo publicado na Colecção Textos Universitários. Contrariamente ao que o designativo da colecção suscita, a leitura deste opúsculo desfaz a inicial impressão que nos levou a pensar num conjunto de publicações para um público com características culturais de nível universitário. Parece-nos, antes, uma colecção destinada não só a enriquecer o leitor que já possui uma base cultural, mas igualmente o cidadão comum cuja actuação só poderá ter uma larga perspectiva de futuro se estiver esclarecido pelo conhecimento do passado histórico.

Numa sociedade que, dia a dia, exige mais da capacidade optativa dos seus componentes, desmistificar figuras e instituições que prepararam ou sustentaram a 1ª República, é inadiável. Além disso, levar às camadas populares as vicissitudes, as contradições e os pilares da história da nação é uma exigência. Assim, urge incrementar publicações deste tipo a preços módicos, como acontece com esta colecção. No entanto, como consegui-lo sem um esquema eficiente de distribuição a nível nacional? Com efeito, impunha-se que o Estado garantissse a iniciativas deste género, o cumprimento do seu objectivo maior. Consciencializar os portugueses, preparando-os para os difíceis e controversos caminhos do porvir, é tarefa ingente mas indispensável, se não quisermos viver num país que se singulariza, cada vez mais, como pátria adiada…

Inicia-se esta publicação por um pequeno estudo biográfico sobre Machado Santos, da autoria de João Medina, seguindo-se-lhe dois interessantes depoimentos, um do hoje quase desconhecido Joaquim Madureira, prosador notável do jornal O Intransigente, e outro de Augusto Vivero e A. de la Villa, extraído do volume intitulado Como Cáe un Trono. La Revolución en Portugal.

Como João Medina acentua nas suas notas introdutórias, Machado Santos, o «republicano recalcitrante», além de andar (hoje) arredio dos manuais escolares e dos volumes de erudição historiográfica (p.10), não tem sido correctamente avalido, não no que respeita à sua actividade de revolucionário, como também pelas suas críticas expressas em O Intransigente e que iam desde o partido de Afonso Costa ao de Bernardino Machado. Evidenciando a sua profunda inserção na Carbonária portuguesa, sociedade secreta fundamental na eclosão do 5 de Outubro, João Medina destaca a acção de Machado Santos na tomada do Regimento de Infantaria 16, «um dos quartéis onde os revoltosos não contavam com oficiais republicanos», e na ocupação da Rotunda, onde resiste com as poucas forças que não o abandonaram - civis armados, sargentos, cadetes e soldados.

Ao concluir estas linhas sobre o «agitador irrequieto», João Medina realça a sua constante insatisfação perante uma política em que se tomavam medidas não adequadas à realidade social existente e em que subtis oportunismos desprestigiavam os partidos mais populares. Por isso, participa no movimento contra a ditadura de Pimenta de Castro, em 1915, ou contra o Governo de António José de Almeida, em 1918, cujos resultados o conduziriam a enveredar por outra via - a formação de uma Frente Nacional Republicana -, que ultrapassasse os debilitantes conflitos partidários.

Quanto ao depoimento de Joaquim Madureira incluído neste opúsculo, destaca-se o apreço pelas suas qualidades, entre as quais a de grande patriota. Como escreve, «era aquele o momento de lançar a revolução e de fazer a República (…) tentando vingar o sangue dos camaradas (…) que haviam procurado resgatar uma pátria e redimir um povo» (pp.33-34).

No que concerne ao  excerto da autoria de A. Vivero e A. de la Villa, é, sem dúvida, significativo o seu conteúdo, não apenas porque os autores, não sendo portugueses, observam os factos com menor carga emotiva, como ainda porque nos dão valiosos informes sobre a Carbonária, organização que, «já poderosíssima nos dias de João Franco, adquire agora admirável brilho, derramando-se por todo o País em contagiosa epidemia de patriotismo» (p.48). 

 Teresa Bernardino

 

 

Fonte: Diário de Notícias, 15/7/1989; Teresa Bernardino, Ensaios Literários e Críticos, Universitária Editora, Lisboa, 2001, pp. 115-117; Teresa Ferrer Passos (ortónimo), Escritos Voando no Tempo, Escrituras Editora, S. Paulo, 2009, pp. 37-40.

 * Cooperativa Editora História Crítica, Lisboa, 1980

 

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O CENTENÁRIO DA REPÚBLICA "À VOLTA DE JUNQUEIRO"

 

Recentemente publicado pela Escola das Artes do Departamento de Som e Imagem da Universidade Católica do Porto, À Volta de Junqueiro (Porto, 2010) é uma obra colectiva na medida em que entrevista vinte e oito personalidades ligadas a Guerra Junqueiro.

A selecção, da responsabilidade de Henrique Manuel S. Pereira, seguiu o critério da abordagem da sua obra como é o caso de António Cândido Franco, as ligações familiares e os contactos de amizade, como acentua Henrique Manuel S. Pereira, o dinamizador deste ambicioso projecto. Dar a conhecer Junqueiro é o lema do Departamento de Som e Imagem da Universidade Católica do Porto.

Tendo Henrique Manuel S. Pereira conduzido todas as entrevistas desta colectânea – apoiada financeiramente pela Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República – é bem visível a importância que nelas ganham as estreitas relações entre Junqueiro, a queda da monarquia e o emergir do regime republicano. Entre os entrevistados figuram personalidades de quadrantes ideológicos e políticos diversificados: o bispo do Porto D. Manuel Clemente, o ex-presidente da República Mário Soares, e também intelectuais como Eduardo Lourenço, Manuela de Azevedo, Maria Helena da Rocha Pereira, José Eduardo Franco, Nuno Júdice, Fernando Guimarães e Pinharanda Gomes, entre muitos outros.

Na breve introdução à obra, Henrique Manuel S. Pereira afirma: «Da recolha em áudio e vídeo apuraram-se largas horas de gravação, pelo que, tendo em vista um só documentário com cerca de uma hora, seria inevitavelmente grande o desperdício do material remanescente do espartilho narrativo. Impôs-se assim a ideia de, preservando a vivacidade coloquial em que se moldou, reunir, sob a forma de livro, parte substancial do material colectado, no pressuposto de que também os livros, mesmo os volumosos, têm os seus limites...» (Ob. cit., pp.12-13).

O Posfácio foi entregue a Eugénio Lisboa que, em jeito de conclusão, escreveria: «Não fica mal, creio eu, juntar ao impressionante acervo de testemunhos que este livro recolhe, dedicados à revisita da musa junqueiriana, algumas passagens do primeiro dos textos acima citados. Régio começa por observar: "Quando, a propósito de Junqueiro, se fala em retórica, é sempre no significado depreciativo atribuído ao termo. Ora bem: Aqui principia a nossa questão. Nenhum significado depreciativo implica em si o termo retórica. Retóricos são todos os literatos, porque é da sua arte sê-lo. Grandes retóricos são todos os grandes poetas: Camões ou Bocage, por exemplo, Teixeira de Pascoaes ou Fernando Pessoa. O que sucede é variarem muito as suas formas de retórica."» (Ob. cit., p. 441).

Nas questões enunciadas ou nas breves interrogações ao jeito de conversa  feitas por Henrique Manuel S. Pereira aos seus entrevistados, nota-se uma preocupação constante por todos os percursos que Junqueiro traçou ao longo da sua obra (designadamente a poética) eivada tantas vezes de uma cáustica risada que sustentava a "Velhice do Padre Eterno".  

 

18 de Agosto de 2010

Teresa Ferrer Passos*

 

* Ortónimo de Teresa Bernardino

 

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VOZES DA "REALIDADE HUMANA" EM QUESTÃO

 

 

O padre Alberto de Brito e a jornalista Laurinda Alves apresentaram o livro Ouvir, falar, amar, que se debruça sobre a experiência deste sacerdote que exerceu o cargo de assistente mundial das Comunidades de Vida Cristã nos últimos seis anos, tendo visitado mais de 50 países. O contacto com diferentes realidades humanas ofereceu-lhe um conhecimento rente à carne da pessoa humana.

 

Como salientou Alberto de Brito, na ocasião do lançamento desta publicação bem oportuna nos tempos que correm, «aquilo que separa as pessoas não são as ideias, nem as crenças, nem as opiniões políticas, são os sentimentos. E gerir esses sentimentos é um acto de verdade que requer coragem».

 

Com experiência humana semelhante, podemo-nos referir ao Doutor Fernando Nobre, Presidente, há muitos anos, da AMI. Assim, o convite a Fernando Nobre para cabeça de lista do PSD por Lisboa, foi uma pedrada no charco. O charco que caracteriza o cenário de incompatibilidade partidária crescente em Portugal, desde a reprovação do PEC, apresentado pelo governo do engenheiro José Sócrates.

 

As críticas que, de imediato, o atingiram violentamente, por ter aceite este convite dirigido por Pedro Passos Coelho, Presidente do PSD, resultaram de ter sido candidato à Presidência da República com o lema pela Cidadania, sem partidos políticos. A mudança de opinião constituiu motivo de ataques à alta dignidade do Doutor Fernando Nobre.

 

A revolta veiculada pela Comunicação Social mostra, à saciedade, como esta democracia − Democracia? − não suporta a Liberdade de cada cidadão escolher, no momento em que o entender, mudar de rumo político ou de ideologia.

 

É urgente, afinal, mudar de mentalidade, sob pena de estarmos a cair nos erros que, tanto se criticaram, após a queda do Estado Novo. Parece-nos que, nos tempos que correm, só é permitida a liberdade dos Senhores do Poder, porque a liberdade dos outros é claramente, e quase sempre, escamoteada.

 

12/4/2011

Teresa Ferrer Passos

 

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MATARAM O REI E O PRÍNCIPE HERDEIRO

− O 1º CENTENÁRIO DE UM CRIME DE ESTADO

 

 

A família real chegava ao Terreiro do Paço vinda de uma pequenas férias em Vila Viçosa. O rei D. Carlos, a rainha D. Amélia e o príncipe Luís Filipe com dezoito anos (primogénito). O príncipe D. Manuel esperava-os no cais das Colunas. Seus pais e irmão vinham do Barreiro, depois da viagem de comboio.

Entraram na carruagem descoberta, conforme a própria escolha do rei. Pouco passava das 17 horas do dia 1 de Fevereiro de 1908. A rainha recebera, ao desembarcar, flores, em sinal de cortesia. A segurança policial era insignificante à sua chegada. O Primeiro-Ministro João Franco achava que o odiado era ele, não o rei. Quem podia correr perigo seria sempre ele...

O rumo é o palácio das Necessidades, em Alcântara. A carruagem real segue na direcção da rua do Arsenal. Populares dispersos ovacionam os ocupantes. Depois, uma detonação. Um disparo faz, de imediato, tombar o rei. A rainha e os príncipes ficam em pânico. O príncipe Luís Filipe, que devido às ameaças de que seu pai era vítima, andava armado, faz cair o assassino do pai. Em seguida, outro disparo de um homem que sobe o estribo. Agora, o alvo é Luís Filipe. Atingido num pulmão, morre poucos minutos depois. A carruagem não pára. Não pode parar. Há o perigo de também a rainha e o príncipe Manuel serem igualmente mortos. Chegam ao palácio das Necessidades envoltos na dor de uma grande lágrima.

O silêncio domina nas ruas de Lisboa. Uns pensam que a monarquia tem os dias contados. Choram o rei. Choram o príncipe Luis Filipe. Outros, sentem que, dentro do seu ideal republicano, o regime monárquico foi fortemente atingido. Atingido de morte. A monarquia tem de cair, o rei é acusado pela imprensa republicana de ser o único verdadeiro perigo da nação. A propaganda em jornais, revistas, folhetos, é anticlerical e é favorável à defesa do ultramar português como parte integrante da nação.

Assim, há que salvar a nação dessa "fauna" que não deixa o povo mandar. As eleições só davam a vitória aos partidos republicanos em Lisboa ou no Porto, de facto as grandes cidades do republicanismo. As eleições e os primeiros-ministros não conseguiam resolver os problemas. Logo, o responsável só podia ser o regime monárquico, a instituição monárquica. Só restava usar métodos mais eficazes para acabar com a causa desse terrível "dragão" que os partidos republicanos viam na monarquia. De facto, dois anos depois, após mais um acto eleitoral, em Agosto de 1910, que derrotou os partidários da República, fez reabrir a ideia de que a arma era a revolução.

A 5 de Outubro de 1910, militares do exército e da marinha unidos a populares de organizações secretas como a Carbonária e a Maçonaria, depõem o jovem rei D. Manuel II que, pouco antes, subira à chefia do Estado. À janela dos Paços do Concelho de Lisboa, é proclamada a República.

Os partidários da República que consideravam o regime monárquico responsável por todos os males do país, inclusive vinte anos antes a cedência à Grã-Bretanha (ultimato de 1890 que desencadeou a 1ª revolta republicana contra o rei D. Carlos) de uma parte considerada território nacional - a zona entre Angola e Moçambique (Rodésia, o actual Zimbabué), ganhavam o poder e, por uma revolução militar, derrubavam a Monarquia Constitucional (parlamentarista desde 1820).

Hoje, cem anos depois do assassinato do rei D. Carlos, perfilam-se dois candidatos, se o Regime Monárquico fosse restaurado, após referendo popular:

D. Duarte João, Duque de Bragança, (nasceu, em 1945, na Suíça, na Embaixada de Portugal) descende do rei - defensor do sistema Absolutista - D. Miguel, rei que foi penalizado, com todos os seus descendentes, pela Lei do Banimento, datada de 1834.

O rei D. Miguel foi considerado usurpador do trono, após a derrota na guerra civil contra o rei D. Pedro IV, seu irmão (primogénito). Assim, em 1834, assinou a Convenção de Évora-Monte pela qual, ele e toda a sua descendência, era banida do país (Lei da Proscrição e Banimento) e pela qual qualquer descendente seu, não podia chefiar o Estado português com o Estatuto da Realeza. Esta Lei seria ratificada pela rainha D. Maria II, em 1838. Parece evidente que só uma Assembleia Popular Constitucional de um Regime Monárquico (e não uma Assembleia Nacional Republicana) a poderá alterar e anular, com força de Lei.

O outro candidato, que alguns partidários da Monarquia Constitucional apresentam, é D. Pedro, Duque de Loulé, descendente do rei D. João VI e da rainha D. Carlota, pela linha de sua filha, a princesa D. Ana, casada com o 1º Duque de Loulé. O porta-voz do actual Duque de Loulé, D. Pedro Mendoça, é o Dr. Luis Bívar de Azevedo que afirmou, recentemente, ao jornal Correio da Manhã, ser ele o legítimo descendente do trono português, pois «extinta a via dinástica de D. Pedro IV, pela morte sem geração do rei D. Manuel II, em 1932, e estando banida a ala miguelista, a única linha legítima e genuinamente portuguesa, que manteve inalterados os seus direitos dinásticos», é a de D. Pedro, actual Duque de Loulé.

Contudo, D. Duarte João, Duque de Bragança, filho do Duque D. Duarte Nuno (que poderia ter sido rei com o nome de D. Duarte II, se a monarquia tivesse sido restaurada) e de uma princesa descendente em linha recta de D. Pedro IV de Portugal − Pedro I, que declarou a independência e foi o primeiro Imperador do Brasil −, tem sido reconhecido por grande número de defensores da Causa Real (e pelo próprio regime Republicano quer pela 2ª, assim como pela 3ª e actual República), como o único Legítimo Representante da Casa Real Portuguesa.

Se os partidários de D. Duarte João, Duque de Bragança (descendente, numa linha genealógica, de D. Miguel e em outra linha genealógica de D. Pedro IV) e os partidários de D. Pedro, Duque de Loulé, os quiserem apresentar como pretendentes ao Trono português, tal só se pode considerar, após Referendo popular que teria de escolher, em primeiro lugar, se deseja continuar com o Regime Republicano (com quase um século de vigência, alternada por três Repúblicas) ou repor o anterior Regime Monárquico (com oito séculos de Chefia do Estado Português). Só depois da consulta eleitoral do Povo Português, os dois pretendentes se teriam de defrontar, tendo em conta, os Superiores Direitos Jurídicos, de cada uma das partes envolvidas.

 

3 de Fevereiro de 2008

 

Teresa Ferrer Passos*

 

* Ortónimo de Teresa Bernardino

 

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 NOTAS SOBRE O DESTINO

DO IMPERADOR DO BRASIL, D. PEDRO I

 

Após longos anos de negociações diplomáticas goradas e de intervenções armadas em solo nacional com pesados custos económicos, os primeiros anos de Governo do príncipe regente D. João, futuro D. João VI, sobreviveram sob os dois fogos cruzados das grandes potências europeias da época: a França e a Inglaterra.

Ora procurando dar satisfação às imposições da primeira, ora acedendo ás imposições da segunda, a orientação da política externa portuguesa revelava uma insegurança e uma indeterminação jamais experimentada pelo povo português.

A iminência da invasão do território nacional pelas forças napoleónicas, como consequência da política pró-britânica seguida por Portugal, provocou uma situação de pânico altamente lesiva da soberania portuguesa: a saída apressada da família real para a colónia do Brasil, acompanhada de um funcionalismo e de uma burguesia receosos de perderem os seus importantes cargos e negócios.

A influência inglesa foi marcante nesta decisão. Com efeito, o monarca mandou publicar um decreto no dia 26 de Novembro de 1807, pelo qual noticiava que a Corte abandonava o território nacional enquanto durasse a presença das tropas francesas, que, particularizava, deviam ser bem recebidas e «assistidas de todo o necessário». Esta atitude da Coroa portuguesa surgia pela primeira vez nos fastos da heróica história de Portugal. 

Conforme fora previsto, e quase sem resistência, Junot, com o auxílio de tropas espanholas, penetrava e estabelecia-se em Portugal. O pensamento expresso por Camões em Os Lusíadas ressoava acusador: «O fraco rei tornava fraca a forte gente».

1) O Príncipe D. Pedro (13/10/1798- 23/9/1834) no Brasil

No fim do ano de 1807 assim seguia para o Brasil o príncipe D. Pedro, com apenas nove anos. Neste contexto, a D. Pedro irá ser ministrada uma educação em que não está ausente a forte mentalidade brasileira; acompanhando-a, o príncipe tomava contacto com as populações, os seus gostos e costumes, a sua sensibilidade política, a sua tessitura social. E não lhe eram desconhecidos os movimentos autonomistas nos países vizinhos que tanta atenção despertavam na colónia.

Com a transferência da Corte para o Rio de Janeiro, a sua preparação literária foi cuidada. Também era privilegiada a caça, a equitação e o manejo das armas. A propósito, escreve Luis Norton: «Como fosse o infante D. Miguel o predilecto materno e não fosse el-rei pai mui cuidadoso, crescia»1.

Apesar de não possuir uma grande preparação no domínio das Letras, notava-se nele um gosto apurado pela matemática, pelas línguas (latim, inglês, francês e alemão) e pela música, que cultivou com brilho. Devem-se-lhe a composição de dois hinos, uma sinfonia e uma ópera, que viria a ser representada no teatro italiano de Paris. Em 1817, com dezanove anos, foi conferido ao príncipe D. Pedro o título de Príncipe Real do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves2. Este facto vinha na linha da política desenvolvida por D. João VI desde a sua chegada ao Brasil, no fim do ano de 1807.

Com efeito, a abertura dos portos brasileiros, em 1808, ao comércio internacional, com especial benefício para a Grã-Bretanha, se lesou gravemente Portugal, trouxe inegáveis vantagens à colónia e marcou a sua libertação económica. Os ensinos científico, literário e artístico foram profundamente incrementados, criou-se uma Imprensa Régia e publicou-se, algum tempo depois, a Gazeta do Rio de Janeiro.

Quando, em 1811, os ocupantes franceses da metrópole portuguesa foram definitivamente expulsos, a Coroa permaneceu no Brasil. O regresso não se colocava como uma necessidade nacional. Era algo de já distante dos intuitos da família real, com excepção da rainha D. Carlota Joaquina que preferia regressar a Lisboa. Mas para D. João VI e os seus conselheiros, o problema da ausência da Pátria  europeia era cada vez mais secundário.

O mesmo não se pensava aquém das fronteiras nacionais da Península Ibérica: a todos preocupava a permanência da família real  na América do Sul, pois sem que o regresso se verificasse o governo do inglês Beresford não deixaria de se fazer sentir em Portugal. Noutra óptica, aos ingleses começava a interessar o retorno da Corte portuguesa.

Em 1814, várias tentativas foram feitas, mas sem êxito. Neste ambiente de expectativa , Gomes freire de Andrade e mais alguns partidários desencadearam um movimento que previa a substituição do rei pelo Duque de Cadaval. A derrota da conspiração, que custou a vida ao seu principal inspirador, gorou o intento  dos patriotas portugueses, mas a ameaça não se mostrou persuasiva ao continuar a Corte na cidade do Rio de Janeiro.

 2) Ascensão da colónia a Reino

Neste mesmo ano de 1817, em que Gomes Freire de Andrade efectuou o seu acto revolucionário, havia uma manifestação pró-republicana em Pernambuco, o que criava um novo perigo para a monarquia portuguesa, agora em terras do Brasil. As pressões da Metrópole para o regresso do soberano criavam as condições para os brasileiros perderem a autonomia já conquistada. É nessa possibilidade que surgem as primeiras contestações ao poder real.

A ascensão da colónia a Reino, em 1815, por iniciativa de D. João VI, era um privilégio que ninguém queria ver desperdiçado. Conforme sublinha Luís Norton, «o Brasil tinha sido elevado por D. João à dignidade, proeminência e denominação de Reino e não se resignava a ser esbulhado dessa dignidade, para regressar à categoria de colónia»3.

A subordinação de Portugal à governação do Inglês, anterior aliado, para expulsar o Francês, o desprezo do rei absoluto pela Pátria europeia, os prejuízos da guerra com Napoleão (políticos, económicos e morais), a propaganda liberal acusando o monarca de descurar as grandes questões nacionais, entre outras motivações, criaram os condicionalismos indispensáveis à vitória do movimento militar do Porto em 24 de Agosto de 1820.

Após a sua eclosão, constituiu-se uma Junta do Governo Supremo do Reino com o objectivo de convocar Cortes para elaborar uma Constituição que, entre outros aspectos, retirava ao soberano dois poderes, até então, sob a sua alçada: o legislativo e o judicial.

A incapacidade revelada por D. João VI em defender a Pátria, perante o espectro da guerra, a sua recusa de regressar quando atingida a paz, à custa do sacrifício e do orgulho de ser português, tinham provocado um clima de descontentamento e um sentimento de insubmissão que se manifestou, de imediato, com a exigência feita pelas Cortes Constituintes no sentido de o rei e a sua família regressarem sem demora ao Reino. Foi o marquês de Palmela, um dos mais actuantes políticos no contexto revolucionário, quem foi enviado ao Brasil para comunicar ao rei a instauração da nova ordem.

Em Fevereiro de 1821, a instabilidade do Reino projectava-se, no entanto, ao Brasil, com a revolta das capitanias do Norte. Na Baía, várias manifestações tiveram o apoio popular e burguês. A revolta militar do Rio de Janeiro, no dia 26, teve como principal motor o desejo de ver reconhecida pelo rei a Constituição que as Cortes aprovassem. Depois de ter enviado seu filho, o príncipe D. Pedro, para ouvir os revoltosos, D. João VI mandou-o anunciar-lhes que, de facto, aprovava o sistema constitucional. Mas, reforçando a sua decisão, foi dirigir-lhes ele próprio a palavra: «Oh, meu Deus!, porque não me disseram há mais tempo que o povo seria tão feliz com essa Constituição! Se o soubesse, não o teria feito esperar tanto!».4

Era assim encerrado o regime Absolutista e nascia o período Liberal, ainda que alguns golpes e interrupções lhe adiassem a vitória efectiva para o ano de 1834. Alcançado no Portugal continental, o Brasil alimentava-o de forma pertinaz e rápida ao exigir a sua aprovação régia. Mas os radicais brasileiros não se satisfaziam com essa evolução da monarquia portuguesa. É que o seu objectivo verdadeiro tinha em vista a implantação da República. Assim, a instabilidade política estendia-se ao imparável território da América do Sul.

A gravidade da situação implicou o uso da força. E foi o príncipe D. Pedro que utilizou as tropas que lhe eram fiéis para abater os focos de insubmissão à nova ordem vigente. A sufocação dos amotinados garantiu a continuidade da realeza, em 22 de Abril de 1821. Quatro dias depois, D. João VI embarcava para Lisboa. D. Pedro ficava encarregado de o representar naquele importante potentado português da América do Sul.

Passados alguns meses, o príncipe escrevia a seu pai acentuando-lhe o erro de ter feito do Brasil a sede da monarquia, pois se até à sua presença no território tudo era fácil, agora vinham determinações das Cortes de Lisboa que prejudicavam a população brasileira já habituada a não viver submetida. Com efeito as Cortes com uma importante representação burguesa procuravam, insistentemente, fazer regressar o Brasil à situação de colónia, facto inadmissível para o povo de terras de Santa Cruz.

A emancipação atingida no tempo de D. João VI era irreversível. Em carta a seu pai, o príncipe D. Pedro consciencializava-o da situação concreta a que conduzira o abandono da Metrópole em 1807: «Senhor, esta província foi treze anos considerada, e de facto serviu, sede da monarquia… para cujo fim se estabeleceram todas aquelas repartições necessárias a esse fim; … (agora) de parte nenhuma nada vem»5.

Contra  a vontade das Cortes, D. João VI considerou que D. Pedro devia continuar no Brasil, pois tinha-o nomeado para a governação daquele território com o título de Regente e seu Lugar-Tenente. Por outro lado, a população brasileira temia o regresso de D. Pedro à Europa: para evitar isso, endereçou-lhe um manifesto popular, exigindo a sua permanência. Os membros do Senado reforçaram esta posição pedindo ao príncipe D. Pedro para não os abandonar, visto a anarquia estar eminente entre radicais republicanos e moderados monárquicos se tal se verificasse.

 3) Protector e Defensor Perpétuo

Em 1822 rebentou uma revolta contra o domínio português, que D. Pedro conseguiu dominar, e, no mês de Abril, o jornal Revérbero propôs ao Regente que fosse «o fundador do novo Império»6. Pouco depois, a Maçonaria com o apoio do Senado e do Conselho de Procuradores-Gerais das Províncias ofereceu a D. Pedro o título de Protector e Defensor Perpétuo do Brasil, que ele aceitou a 13 de Maio, dia do seu aniversário.

A agitação nas províncias era incrementada pelo confronto entre os partidários da autonomia (personificada por D. Pedro) e aqueles que desejavam obedecer ás determinações das Cortes Constituintes da metrópole. O Brasil estava dividido entre as duas facções, sendo a mais popular contrária à Assembleia Legislativa de Lisboa, que só humilhava a tão venerada emancipação. Eram recebidas como ordens afrontosas a continuação de D. Pedro como «Regente até à publicação da Constituição , mas sujeito ao rei e às Cortes» e a  instauração de um processo ao governador de S. Paulo por ter pedido a permanência do príncipe no Brasil.

As instruções das Cortes de Lisboa foram interpretadas como uma interferência abusiva no poder do regente por vários conselheiros, que o consideraram mesmo «prisioneiro das Cortes», instituição que mostrava tentar «escravizar o Brasil»7.

Era o dia 7 de Setembro de 1822 e D. Pedro encontrava-se nas proximidades do pequeno rio Ipiranga quando alguns emissários lhe deram conhecimento destas últimas decisões oriundas de Lisboa. Resolvido a não continuar sob a tutela da revolucionário Assembleia liberal portuguesa, D. Pedro proclamou a ansiada «Independência ou morte», que o iria ascender a primeiro Imperador do Brasil. Aclamado e Coroado Imperador na Capela Imperial do Rio de Janeiro no dia 12 de Outubro de 1822 (o príncipe dera o mais lato sentido à decisão tomada a 9 de Janeiro de 1821, pela qual desobedecia ás Cortes, ao ficar em terras do Brasil).

Em carta justificativa desse acto, afirmava que se saísse do Brasil, logo este se tornaria independente, enquanto se ele aí permanecesse, o território não se separaria de Portugal. A sua convicção maior era a de que a força das armas não podia impedir a independência, mas sim «o comércio e o brio da reciprocidade», porque ambos «são as duas molas reais sobre que deve trabalhar a monarquia luso-brasílica»8.

A ideia de conservar a ligação entre as duas Cortes é incontestável em numerosas cartas dirigidas pelo Imperador D. Pedro I a D. João VI, mas as fortes pressões internas por parte de instâncias políticas e sociais, a prepotência das Cortes constitucionais, que procuravam retirar ao território a autonomia alcançada ao longo da permanência de D. João VI na colónia, as honras e os títulos que os brasileiros lhe outorgaram, como o cognome de Defensor Perpétuo do Brasil, foram os principais factores da mudança. Esta está patente nas cartas posteriores ao mês de Maio de 1821. Era, de facto, inegável o seu exultante entusiasmo ao escrever que tratava os brasileiros não só como filhos «como V. M. me recomendou, mas também como amigos».

Noutra passagem nota a necessidade de não inverter a evolução que os tempos e as conjunturas provocaram: «Sem igualdade de direito em tudo e por tudo, não há união». Nessa disposição de espírito, propunha-se defender os direitos dos brasileiros, se necessário com o seu sangue «que não corre senão pela honra, pela Nação e por V. M.»9. Para fundamentar a insubmissão perante as Cortes, escreverá ainda sobre a sua adesão à causa da “colónia”: «Não sou rebelde, como hão-de dizer a Vossa Majestade os inimigos V. M., são as circunstâncias»10.

O grito do Ipiranga culminara um longo processo não iniciado em 1820, como muitos afirmam, mas remontando à chegada de D. João VI e toda a Corte portuguesa ao Atlântico Sul. A revolução de Agosto de 1820, se trouxe a vantagem de fazer regressar o rei à Metrópole, teve na sua essência e como objectivo maior, recuperar os mercados brasileiros, tão preciosos à burguesia portuguesa (importação-exportação). Este móbil tornou a Cortes constituintes gravosamente hostis à comunidade brasileira, que já não podia aceitar a perda da larga autonomia política ou a fuga dos valores económicos que estavam a fazer prosperar aquele extenso e rico domínio português.

A exigência do regresso do príncipe-Regente, escolhido pelo rei de Portugal, numa difícil conjuntura interna do Brasil, em parte aderente ás revoluções autonomistas e republicanas da América do Sul, foi o detonador de uma situação insustentável, quer para Portugal, quer para o Brasil.

Sem poder lutar contra as circunstâncias, como escrevia o Imperador D. Pedro I a seu pai, conseguiu, no entanto, não provocar o ódio ou até levantamentos de armas contra a Pátria lusa, que no ano de 1500 começou a desbravar e a engrandecer a futura grande nação da América Latina.

Longos anos de permanência naquela terra promissora, deram a D. Pedro I a noção exacta do seu glorioso porvir que ele quis ajudar a edificar.

 4) A Renúncia ao Trono Imperial do Brasil

As contestações de que começou a ser vítima na terra que fizera independente e o problema da sucessão dinástica, em Portugal, obrigaram-mo a inverter o papel que julgara ter de desempenhar no contexto luso-brasileiro. Após a morte de D. João VI, em 1826, renunciou ao trono de Portugal − sucedeu a seu pai com o cognome de D. Pedro IV de Portugal, o qual só usou por 7 dias − a favor de sua filha, D. Maria da Glória, que deveria casar com seu tio, D. Miguel. Este seria o regente do Reino de Portugal durante a menoridade de D. Maria da Glória.

Para além deste compromisso, D. Miguel devia ainda jurar a Carta Constitucional de 1828 (mais moderada em relação ao poder atribuído às Cortes pela Constituição de 1822). Tendo acedido a tal Juramento e ao casamento com a sobrinha, assim como à regência temporária, D. Miguel ao receber fortes apoios populares rejeitou manter os compromissos assumidos e começou a governar como rei Absolutista. Vendo os direitos da filha em vias de serem lesados, D. Pedro I abdicou do título de Imperador do Brasil a 7 de Abril de 1831. Como simples Duque de Bragança iniciava agora uma vigorosa acção contra seu irmão.

Estabelecendo uma regência em Angra do Heroísmo (Açores), aí se forma o centro da resistência ao regime usurpador. Com vasto apoio na Europa, D. Pedro, tem o apoio de figuras como o marquês de Palmela, o marquês de Saldanha, Vila Flor e o futuro marquês de Sá da Bandeira. Depois do cerco do Porto e do desembarque no Algarve, o marquês de Saldanha com as tropas fiéis a D. Pedro conquista Lisboa que se encontrava desprovida de tropas.

D. Miguel, com muitos apoios populares, mas fraca capacidade militar, saiu com as suas forças do Porto para recuperar Lisboa, mas D. Pedro, vindo-lhe ao encontro, desbarata as suas forças em Almoster e em Asseiceira.

No mês de Maio de 1834, terminava a devastadora guerra civil, com o exílio de D. Miguel (Convenção de Évora-Monte), a quem D. Pedro concedeu uma avultada pensão. Conciliador e moderado, D. Pedro amnistia os partidários de seu irmão e recusa pronunciar-lhe castigo mais duro. Muitos defendiam para D. Miguel a pena de morte (crime de traição à pátria). Insatisfeitos com a sua conduta, acusam D. Pedro – o paladino da Legitimidade  – de autoritarismo e de pouca ousadia política.

Mas os direitos legítimos de sua filha, D. Maria da Glória, ficaram, finalmente, assegurados. Ela seria Aclamada Rainha de Portugal, precisamente nesse dia. O dia 24 de Setembro de 1834 que marca a derrota definitiva do Absolutismo monárquico e também o dia que marca o afastamento definitivo da geração de D. Miguel da sucessão ao Trono de Portugal (conforme a Convenção de Évora-Monte assinada por D. Miguel, ao reconhecer a derrota).

Entretanto, D. Pedro, acometido de doença incurável, e desamparado pelos liberais, que tanto lhe deviam, vivia a dor de uma desilusão que só a sua juventude ainda fogosa (36 anos de idade), deixava sentir de modo menos doloroso. Morria pouco depois da Convenção de Évora-Monte, no dia 24 de Setembro de 1834.

E com ele, morria a esperança do reencontro da identidade pátria, agora submersa nas disputas partidárias e envolta em lutas pela ascensão ao Poder, com vista mais à glória do que ao serviço da nação, já tão duramente dilacerada pelos corruptos e homens sem merecimento.

D. Pedro I, o primeiro Imperador do Brasil, jaz, desde a celebração do 150º Aniversário da Independência do Brasil − no ano de 1972 − no Monumento do Ipiranga, em S. Paulo.

 

Teresa Bernardino


 

1 Luis Norton, A Corte de Portugal no Brasil, Lisboa, E.N.P., 2 ª edição, p. 193.

2 Idem, Ibidem, p. 193.

3 Idem, Ibidem, p. 112.

4 Rocha Pombo, História do Brasil, S. Paulo, Edições Melhoramentos, p. 304.

5 Luís Norton, Ob. Cit., p. 199.

6 Hélio Viana, História do Brasil, S. Paulo, Edições Melhoramentos, 1970, p.57.

7 Idem, Ibidem, p.59.

8 Ibidem, p. 63.

9 Ibidem, p. 64.

10 Ibidem, p. 66.

Fonte: Diário de Notícias, 22/Janeiro/1989; Internet, www.harmoniadomundo.net (5/11/2008).

 

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