HARMONIA DO MUNDO

 

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O MUNDO DA CRIANÇA

 

 

MATILDE ROSA ARAÚJO:

O SOL E O MENINO DOS PÉS FRIOS (conto)

DOIS POEMAS

MIGUEL TORGA:

HISTÓRIA ANTIGA

TERESA FERRER PASSOS:

DO HERÓI "PETER PAN" (reflexão)

A FUGA DO URSINHO ORELHA AZUL (conto)

O MENINO QUE GOSTAVA DE LIVROS (conto)

O BERRO (conto)

OS QUATRO AMIGOS DESAVINDOS (peça de teatro)

LUÍSA ATAÍDE:

O COMETA AZUL (conto)

REGINA GOUVEIA:

ERA UMA VEZ... O VENTO

MARIA DE LURDES AGAPITO:

O ACHADO (conto)

ANA LUCAS:

O MENINO DIFERENTE (conto)

NOTÍCIAS

 

No 150º Aniversário do Nascimento de James M. Barrie

 

DIA MUNDIAL DA CRIANÇA 2010

 

Poema de Regina Gouveia em Antologia

 

«A FLAUTA MÁGICA» de Mozart

 Ópera para crianças no

Teatro Nacional de S. Carlos

 

O Rapaz que Domou o Vento

 

Regina Gouveia lança livro

 

O «Magalhães» e a Cultura Infantil

 

RICARDO ALBERTY:

O CACHECOL DA POMBA PETRONILA (conto)

MÁRIO CONTUMÉLIAS:

O PALHAÇO e PASSEIO (poemas)

FERNANDO DE PAÇOS:

O TESOURO ESCONDIDO (peça de teatro)

A. M. COUTO VIANA:

A CIGARRA E A FORMIGA

O DINOSSÁURIO

MATILDE ROSA ARAÚJO:

APONTAMENTO

ALICE GOMES:

AQUÁRIO

MARIA CÂNDIDA DE MENDONÇA:

RELÓGIO DE CUCO

ESTER LUÍSA DIAS:

RETRATO DE ANNA

SALETI HARTMANN:

A ÁGUA E A CRIANÇA

 

 

 

 

O SOL E O MENINO DOS PÉS FRIOS

 

O MENINO DOS PÉS FRIOS

Era uma vez uma casa. Muito grande. Com um tecto altíssimo, nem sempre azul. Uma casa enorme onde habitava uma grande família: uma família tão grande que, por vezes, não julgavam os seus membros que se conheciam. E se deviam amar.

Houve um menino que entrou nesta casa estava ela toda branca. No chão tapetes de neve, cristais de água de uma brancura que estremecia. E as próprias árvores escorriam essa brancura. E frio. Iluminava-a uma estrela tão brilhante que, sobre o tecto, parecia que poisava sobre as nossas mãos.

Ora um dia, em que fazia anos em que esse menino entrara nessa casa, outro menino por ela andava com frio. Pelo chão, pelos milhões de cristais, caminhavam os seus pezitos enregelados. Tanto frio que nem podia olhar a estrela brilhante. Nem os milhões de cristais que pisava.

Uma mulher chorava a um canto dessa casa. E era triste essa mulher. Estava triste e cansada. Na casa nem tudo era belo. Ali estava aquele menino cheio de frio. E, como ele, tantos meninos.

E, já há quase dois mil anos, um menino entrara na asa, que ficou mais clara com a luz brilhante do tecto. O menino entrou só para dizer uma palavra pequenina: AMOR.

Então essa mulher perguntou ao menino dos pés frios:

– Tu não tens a tua casa?

O menino olhou a mulher triste e ficou triste. Ambos estavam tristes. E disse quase envergonhado que não.

– Tu não tens roupa? Sapatos? Um lume? Pão?

A cabeça (tão linda!) do menino ia abanando sempre a dizer não. A mulher triste começou a ter vergonha. Então ela consentia que na sua casa, na casa de todos, de tecto nem sempre azul, houvesse um menino sem roupa, sem lume, sem pão? Ela consentia uma coisa assim? E os outros também?

Escorregaram-lhe pela face já enrugada duas lágrimas transparentes. De água. Água como a que tombava do tecto, como a que se estendia nos mares.

E perguntou mais ao menino:

– E para onde vais? Eu dou-te qualquer coisa para o caminho...

O menino olhou para ela admirado. Não lhe disse para onde ia. Observou-lhe apenas:

– Tens duas gotas de água nos teus olhos que reflectem o céu azul e a lâmpada do tecto. Não sentes?

A mulher deixou cair pelo rosto enrugado as duas lágrimas. A pele, então, ficou-lhe mais lisa. E ela tornou-se menos curva. Ergueu-se. Estendeu, sorrindo, os dois braços ao menino. E disse:

– Fica. Perdoa.

E o menino ficou. Nos seus braços. Encostado ao seu peito. Com os pés aquecidos sobre o campo de neve.

E a mulher entendeu que não adiantava chorar ao canto da casa. E o seu vestido era uma bandeira. E o seu coração uma flor. Com o menino a seu lado.

 

A FITA VERMELHA

Eu tinha começado a ensinar. Era muito nova então. Quase tão nova como as meninas que eu ensinava. E tive um grande desgosto. Se recordar tudo quanto tenho vivido (já há mais de vinte anos que ensino), sei que foi o maior desgosto da minha vida de professora. Vida que muitas alegrias me tem dado. Mais alegrias que tristezas.

Se vos conto este desgosto tão grande, não é para vos entristecer. Mas para vos ajudar a compreender, como só então eu pude compreender, o valor da vida. O amor da vida. O valor de um gesto de amor. O seu «preço», que dinheiro algum consegue comprar.

Eu ensinava numa escola velha, escura. Cheia do barulho da rua, dos «eléctricos» que passavam pelas calhas metálicas. Dos carros que continuamente subiam e desciam a calçada. Até das carroças com os seus pacientes cavalos.

A escola era muito triste. Feia. Mas eu entrava nela, ou digo antas, em cada aula, e todo o sol estava lá dentro. Porque via aqueles rostos, trinta meninas, olhando para mim, esperando que as ensinasse.

O Quê? Português, francês. Hoje sei, acima de Tudo, o amor da vida.

Com toda a minha inexperiência. Com todos os meus erros. Porque um professor tem de aprender todos os dias. Tanto, quase tanto ou até muito mais que os alunos.

Mas, desde o primeiro dia, compreendi que teria nas alunas a maior ajuda. O sol, a claridade que faltava àquela escola de paredes tristes. A música estranha e bela que ia contrastar com os ruídos dos «eléctricos», dos automóveis da calçada onde ficava a escola. Até com o bater das patas dos cavalos que passavam de vez cm quando.

Porque, mais que português e francês, havia uma bela matéria a ensinar e a aprender. Foi nessa altura que comecei mesmo a aprender essa tal matéria ou disciplina – ou antes, a ter a consciência de que a aprendia.

Eu convivia com jovens (seis turmas de trinta alunas são perto de duzentas) que no princípio de Outubro me eram desconhecidas. Cada uma delas representava a folha de um longo livro que no princípio de Outubro me era desconhecido. Todas eram folhas de um longo livro por mim começado a conhecer. Não há ser humano que seja desconhecido de outro ser humano. Só é precisa a leitura.

Eu tinha agora ali perto de duzentas amigas. Todas aquelas meninas confiando em mim, esperando que as ensinasse; sorrindo, quando eu entrava, assim me ensinavam quanto lhes devia.

Mas um dia. Eu conto como aconteceu o pior. E conto-o hoje, a vós, jovens, que me podem julgar. Julgar-me sabendo este meu erro. E evitarem, assim, um erro semelhante para vós mesmos.

Já era quase Primavera. Na rua não havia árvores nem flores. Só os mesmos carros com o seu peso e a violência da sua velocidade. Gritos de vez em quando. Uma Primavera só no ar adivinhada.

Numa turma uma aluna faltava há dias. Era a Aurora.

Morena, de grandes olhos cheios de doçura. Talvez triste.

A Aurora estava doente. Num hospital da cidade, numa enfermaria. Num imenso hospital.

Olhei o retratinho dela na caderneta.

Retratinho de «passe», num sorriso de nevoeiro de uma modesta fotografia. Tão cheia de doçura a Aurora! Doente, do hospital tinha-me mandado saudades.

– Vou vê-la no próximo domingo – anunciei às companheiras.

E tencionava ir vê-la mesmo no próximo domingo.

Mas o próximo domingo foi cheio de sol. Sol do próprio astro, quente, luminoso. Igual e diferente, ao mesmo tempo, do sol-sorriso das meninas.

E eu, a professora, ainda jovem, que gostava do sol, fui passear. Ver mar? Campos verdes? Flores?

Já nem me lembro. E da Aurora me lembraria se a tivesse ido visitar.

Começava a Primavera.

Adiei a visita naquele próximo domingo, para outro dia, para outro próximo domingo.

Hoje sei que o amor dos outros se não adia.

Aurora esperou-me toda a tarde de domingo, na sua cama branca, de ferro.

Tinha posto uma fita vermelha a segurar os cabelos escuros. Esperava-me, esperava a minha visita, cuja promessa as companheiras lhe haviam transmitido.

Veio a família: mãe, pai, irmãos, amigos, as colegas.

– Estou à espera da professora...

No dia seguinte a doença foi mais poderosa que a sua juventude, a sua doçura, a sua esperança.

A cabeça escura, sem a fita vermelha, adormeceu-lhe profundamente na almofada, talvez incómoda, do hospital.

Sabemos todos já, amigos, que há vida e morte. Também isso temos de aprender.

Não fiquem tristes por isso. Vejam como as flores nascem quase transparentes da terra, como as podemos olhar à luz do Sol, e morrem, para de novo nascerem.

Lembrem-se como de um ovo de um pássaro podem sair asas que voem tão alto em dias de Primavera. Também morrem, também, e todas as primaveras nascem de novo. E, sobretudo, lembrem-se do coração de cada um de nós, desta força imensa.

E não adiem os vossos gestos. Procurar alguém que sofra, que precise de nós, nem sequer é um gesto generoso, deve ser um gesto natural que se não adia.

Às vezes até precisamos uns dos outros para dizermos que estamos felizes, contentes. Só para isso. Mesmo felizes precisamos dos outros.

Aurora ensinou-me para sempre esta verdade.

As lágrimas que por ela chorei já não lhe deram aquela visita do próximo domingo.

Nem a mim a alegria de a encontrar sorrindo, cheia de doçura, com uma fita vermelha a prender os cabelos escuros. Vermelha de sangue, como a vida. O Sol. Flores vermelhas.

Aurora era o seu nome. E a sua vida uma manhã apenas que, na minha distracção ou egoísmo, não tive tempo de olhar. Uma manhã com uma fita vermelha. Que lágrima nenhuma pode reflectir.

             Fonte: Internet, Projecto Vercial

 

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DOIS POEMAS

de

 MATILDE ROSA ARAÚJO

 

 

OS MENINOS

 

Os Meninos em si são flores

Flores doces mornas vindas de uma ilha de Sol

Suas casas no chão dobradas

Obscenas feridas na cidade meninos flores no chão

E vossas mãos tão meigas tão pequenas

Vossos olhos flores incendiadas de ternura ausente

Doce violento  perdão lhes assiste

Meninos de olhar de tocar milagrinhos de infância sofrida

Incêndios do dia em casas nocturnas

E os olhos dos meninos estão tão abertos.

 

 

 

 

GOTA SALGADA

 

 

Beijo a lágrima da tua face

Mãe

Cheia de medo

Como se tivesse só essa gota de orvalho

Salgado e pouco

Para a vida inteira

Como outrora na infância definitivo tudo julgava

E aprendesse de novo a falar

 

 

Fonte: Voz Nua, Livros Horizonte, 2001,  pp.25 e 28.

 

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No 150º Aniversário do Nascimento de James Mattew Barrie

Estátua de Peter Pan em Londres

 

 

James M. Barrie

(9 de Maio de 1860 - 19 de Junho de 1937)

 

«A popularidade da obra Peter Pan de James Matthew Barrie indica que o herói Peter Pan carrega um significado arquetípico, proporcionando uma figura de fantasia que satisfaz a sede de liberdade e aventura da criança e, ao mesmo tempo, uma imagem do século XX do mitológico "puer aeternus" ou "eterno menino".»

Ann Yeoman, Agora ou na Terra do Nunca,

Editora Cultrix, S.Paulo, p.85

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HISTÓRIA ANTIGA

 

Era uma vez, lá na Judeia, um rei.

Feio bicho, de resto:

Uma cara de burro sem cabresto

E duas grandes tranças.

A gente olhava, reparava, e via

Que naquela figura não havia

Olhos de quem gosta de crianças.

E, na verdade, assim acontecia.

Porque um dia,

O malvado,

Só por ter o poder de quem é rei

Por não ter coração,

Sem mais nem menos,

Mandou matar quantos eram pequenos

Nas cidades e aldeias da Nação.

Mas,

Por acaso ou milagre, aconteceu

Que, num burrinho pela areia fora,

Fugiu

Daquelas mãos de sangue um pequenito

Que o vivo sol da vida acarinhou;

E bastou

Esse palmo de sonho

Para encher este mundo de alegria;

Para crescer, ser Deus;

E meter no inferno o tal das tranças,

Só porque não gostava de crianças.»

 

Miguel Torga

 

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NO DIA MUNDIAL DA CRIANÇA

1 de Junho de 2010

 

AS CRIANÇAS E AS TENEBROSAS REDES DE TRÁFICO...

 

A propósito de um trabalho sobre crianças guineenses exploradas e sobre a ONG africana "SOS-Crianças Talibés" que combate as redes de tráfico de crianças entre a Guiné e o Senegal, 39 jornalistas reuniram vários contos num livro cuja receita de vendas será para essa ONG. A ONG foi criada pelo professor Malan Baio Ciro, um muçulmano que combate os mestres corânicos que levam as crianças para as madrassas. As crianças são violadas sistematicamente e, no caso das meninas, até as engravidar. Nesse momento são abandonadas, pois deixam de lhes dar o rendimento para que foram destinadas. A ONG guineense "SOS-Crianças Talibés" precisa de 12 mil euros para construir um centro em Bafatá para acolher as "crianças talibés" resgatadas aos traficantes (já conseguiram recuperar 1200 crianças) e deslocar-se às tabancas, sensibilizando os pais para os perigos que correm ao deixar que os filhos sejam levados para as madrassas. 

Histórias sem aquele era uma vez é uma edição da Porto Editora e o seu lançamento é no dia 1 de Junho de 2010, às 21 horas, no Bar Belém Café, em Lisboa, perto das docas.

 

Fonte: Blog Educar em Português.

 

 

 

 

ESPELHAM O DESESPERO,

 

TRANSMITEM A INCERTEZA,

 

 ENCERRAM A DESCONFIANÇA,

 

PROCURAM A ESPERANÇA,

 

GUARDAM A PACIÊNCIA

 

 E INVOCAM O DESTINO,

 

OLHARES INFANTIS...

 

****

 

AS CRIANÇAS EM ÁFRICA TÊM UMA BAIXA ESCOLARIDADE  DEVIDO À POBREZA E À INSEGURANÇA POLÍTICA E MILITAR.

COMO EXEMPLO, LEMBRAMOS O CASO DE ANGOLA EM QUE DE 2 MILHÕES DE CRIANÇAS INSCRITAS, 800.000 CRIANÇAS NÃO VÃO À ESCOLA.

 

Fonte: Revista Fátima Missionária, nº6, Junho de 2010, p.8.

 

 

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DO HERÓI “PETER PAN”

 

 

 

          Peter Pan, o herói da obra homónima de J. M. Barrie, o menino que não queria crescer, conduz-nos a um país imaginário em que mil e uma aventuras o tornam o mito da eterna renovação ou da recriação contínua. Esta obra para crianças resultou de uma peça de teatro, estreada em Inglaterra no ano de 1904. Foi depois publicada em 1911 com o título Peter Pan and Wendy. O tema com um sentido na linha da futura psicologia analítica de Yung, trata de uma criança que não se adaptando ao ambiente familiar e social em que vive, procura libertar-se dos esquemas em que os adultos o querem aprisionar.

 

Refazer os sentidos da vida é o objectivo de Peter Pan. Mas o que acontece é que ele só consegue fugir aos esquemas sociais e imobilizantes dos adultos se, na liberdade de ser ele próprio, for construindo um mundo pleno de fantasia.

 

Nesta obra trabalhada por J. M. Barrie durante mais de vinte anos, a criança torna-se o herói, sempre a romper com o antes e o depois porque a liberdade vive no presente. A adversidade e os obstáculos levam o pequeno Peter Pan, personagem que imortalizou o seu autor, a recusar inserir-se no mundo dos adultos que são essencialmente rotineiros e bloqueadores da inovação.

 

O pequeno Peter Pan possui em si uma imaginação que o obceca e o individualiza. A fantasia está presente no mundo novo que constrói e reconstrói sem parar. Em Peter Pan, J. M. Barrie descobre os mais belos valores da infância: a inocência que guia sem bússola e imuniza do medo; a liberdade que faz ser-se autêntico; a ignorância do tempo que eterniza e dá a dimensão de um presente sem limites.

 

Nesse mundo, o menino não se preocupa nem com a vida nem com a morte. Nem com o antes nem com o depois. Aboliu a história, as raízes que o entorpeciam. Assim, Peter Pan brinca inventando uma realidade toda sua e sem as proibições das pessoas crescidas, das pessoas que não o deixam ser quem ele é.

 

As suas fantasias construídas na inocência nada possuem que se insira em critérios de mal. Tudo o que defronta nos outros, seja bom ou mau, confronta-o com a pureza do seu coração. O adulto vive numa realidade objectiva em que tudo é preconceito, tudo é pré-determinado, mas Peter Pan, “a eterna criança”, vive no mundo da fantasia que o fascina.

 

Os adultos não entendem esse mundo misterioso que a criança constrói e, ao não entenderem, comportam-se com um autoritarismo que magoa a criança e a coloca numa situação de não-inserção e mesmo de recusa do real. Em Peter Pan e Wendy, uma obra longamente pensada pelo escritor inglês James Matthew Barrie, surgia na literatura um verdadeiro paradigma da literatura para crianças.

 

A pureza da criança confrontada com um mundo adulto que adultera, que falseia, que engana e que tem feito perigar, não raro, a sua própria identidade humana.

 

       Abril/2010                                                                                                         

Teresa Ferrer Passos

 

 

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O PALHAÇO

 

O palhaço,

palhacinho,

tem uma boca

redonda

e um nariz

redondinho.

Veste roupas

coloridas:

- azuis,

vermelhas,

que lhe ficam

a matar.

O palhaço

faz-nos rir

de cada vez

que se esquece

do homem

que nele há.

Meninos,

vamos ao circo,

o palhaço

já lá está!

 

 

 

 

PASSEIO

 

A ruiva

e a loura

foram passear

e viram

um pássaro,

contente,

a cantar...

A ruivinha disse:

- mamã,

olha lá

que lindo que é...

A loira

só disse:

- pois é!

A loira é bonita,

a ruiva também

- uma é a filha

a outra é a mãe.

 

Dois poemas de Mário Contumélias

                     (Versinhos de Brincar, Europress, 1988, pp.39 e 49).

 

 

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A FUGA DO URSINHO ORELHA AZUL

(Conto)

 

O urso-formigueiro Orelha Azul era um menino muito alegre. Os pais estranhavam aquela alegria que não costumavam ver nos filhos dos seus amigos ursos-formigueiros. Andava sempre aos saltos, a dar corridas atrás das formiguinhas atarefadas, a rir-se para os raminhos de flores que brotavam entre as ervas da floresta, a tentar brincar com todas as minhocas que saíam, de vez em quando, das suas casinhas escavadas no fundo da terra. E estas eram apenas algumas formas de mostrar a sua natureza alegre.

Até mesmo um simples graveto imóvel entre muitos outros iguais a ele, servia ao ursinho-formigueiro para ficar muito contente com o facto de o ter descoberto num chão coberto de muitas folhas ressequidas. Mas, os seus pais achavam que ele devia ir à escola como os outros filhos de ursos-formigueiros. O ursinho que se chamava Orelha Azul vivia num país que se chamava Mar-de-Flores. E, neste país, havia escolas frequentadas por quase todos os seus habitantes em idade escolar.

O Governo do Senhor Leão não gostava de que Mar-de-Flores fosse considerado menos avançado do que os outros. Os seus ministros, em especial o ministro da educação, acreditavam que a escola era fundamental para todos aqueles meninos e obrigava os seus pais a inscrevê-los nelas, desde muito cedo.

Os esquilos eram bons professores e, assim, as suas escolas eram bem vistas por toda a sociedade animal. Dia após dia, os pais do ursinho-formigueiro Orelha Azul achavam que ele já tinha idade para lá entrar e não queriam cair sob a alçada do governo do Senhor Leão. Eles sabiam que seriam gravemente penalizados se não mandassem o filho à escola para adquirir a educação que devia ser igual para toda a sociedade animal.

Numa noite em que ele contava aos seus pais a dificuldade que tivera em conseguir com que um lagarto mais novo do que ele largasse o seu permanente ar sério, os seus pais decidiram dizer-lhe que iam inscrevê-lo numa das escolas de Mar-de-Flores.

Contrariamente àquilo que esperavam, o ursinho-formigueiro Orelha Azul ficou muito contente e entusiasmado. Ria-se, lançava ao ar as folhinhas verdes que trouxera da terra fresca e dava piruetas. A mãe, que temia ser difícil convencê-lo ao convívio com ursinhos-formigueiros da mesma idade, beijou-o muitas vezes. Ela já começava a sentir saudades daquele seu menino tão diferente dos outros. O pai, orgulhoso de ter um filho a caminho da escola, abraçou-o longamente.

Na verdade, Orelha Azul não via qualquer vantagem em ir para a escola, mas  aceitou logo para não desobedecer aos pais que, sendo dos mais pobres daquele país, tanto gostariam que ele fosse um doutor como os filhos dos outros ursos-formigueiros.

Tinham uma absoluta confiança no seu filhinho, mas não tinham querido tomar uma decisão definitiva sem primeiro falar com um dos mais velhos ursos-formigueiros das vizinhanças. A verdade é que achavam Orelha Azul com uma personalidade tão alegre que tinham medo que o deixasse de ser na convivência com os outros que eram meninos sempre muito sérios.

Os pais de Orelha Azul não podiam ter televisão, ir ao cinema com o filho ou oferecer-lhe um computador. Assim, ele não tinha tido contacto com outros meninos e ursos-formigueiros crescidos. Nem tão pouco conhecia as crueldades que passavam nos video-jogos que a maioria dos meninos da sua idade via regularmente em suas casas.

Tudo isto assustava e deixava nervosos os pais de Orelha Azul. Não sabiam se ele não iria fazer má figura junto dos colegas e dos professores. Sabiam que o seu filho era diferente de todos os outros e que até os mais novos do que ele já há anos tinham sido levados para a escola onde passavam horas (que se juntavam àquelas que passavam à noite em suas casas) às voltas com os computadores, desde manhãzinha até à tardinha.

Uma velha ursa-formigueira que não gostava nada do curso superior que tinha tirado e já lhe dera muita riqueza (ainda que parte dela completamente desnecessária), aconselhou-os a matricular Orelha Azul na escola, o mais urgentemente possível.

Era perigoso e, cada vez mais, o ursinho-formigueiro em nada se parecer com os outros animais que frequentavam as escolas havia vários anos, diziam a seus pais todos os conhecidos e amigos. Eles eram muito sérios e os seus filhos ainda muito mais. A escola ensinara-lhes muito. Mas o ursinho-formigueiro Orelha Azul era diferente precisamente por não a frequentar. Levava tudo para a brincadeira, como se a vida fosse a coisa mais maravilhosa do mundo.

Mesmo ao ver todos os seus colegas com um ar sério, um ar de poucos amigos, mesmo desagradável, com uma terrível arrogância e mesmo violentos nas relações de uns com os outros, Orelha Azul não deixava de os provocar, tentando que, ao menos, sorrissem. Mas não, nem ao menos conseguia que o olhassem sem uma expressão de raiva. Achavam-no um montão de defeitos, uma coisa irrisória, senão mesmo abominável e viam-no mesmo como um inimigo.

As formiguinhas mais novas ainda lhe achavam graça, mas, já aquelas que frequentavam a escola, não tinham vontade de rir e comportavam-se como se a vida tivesse de ser um tormento, a que desde a hora da entrada na escola estavam condenadas. Tudo tinham de sofrer porque os seus pais não admitiam que elas não frequentassem a escola e chamavam-lhes mentirosas e mandrionas, se elas se queixavam dos maus tratos que recebiam sem razão, dos seus colegas mais sérios. «Tudo são pretextos para não irem à escola», diziam sempre as mães…

Na escola aprendiam muitas coisas importantes e não podiam perder todo esse saber que os pais não lhes podiam ensinar. Por outro lado, ficavam com um diploma para, quando fossem adultos, poderem ter um trabalho bem pago, recebendo um grande saco de alimentos todos os dias, apesar de ser um excesso de que não precisavam para viver e, por isso, deitavam todos os dias parte daqueles alimentos para o lixo. Mas o governo do Senhor Leão era muito previdente e não queria ficar mal visto pelos países estrangeiros. Para ele a escola era obrigatória até à idade adulta, sem se aperceber de que as coisas mais importantes que aprendiam eram nefastas e bem prejudiciais para o povo de Mar-de-Flores.

A obediência à vontade dos pais era a obediência ao próprio governo do Senhor Leão e dos seus ministros. E o ursinho-formigueiro Orelha Azul teve o seu primeiro ano na escola. Como sua mãe determinava, lá seguia na carrocinha com muitos outros meninos. Olhava para todos com gosto por se ver entre eles. Tinha a certeza de que ia aumentar a sua alegria junto deles porque eram todos da sua idade e deviam não ser menos brincalhões do que ele. Olhava para eles a rir. Depois, dava uma corrida breve. Voltava para trás. Olhava para eles outra vez, julgando que iriam fazer o mesmo e que começariam logo a ser seus amigos. Achava que iam rir todos juntos, trocar os lápis de cores mais carregadas pelos de cores mais leves e ele iria mesmo ajudar aqueles que soubessem menos do que ele ou tivessem mais dificuldade em aprender.

 

Mas nenhum deles correspondeu à sua vontade de ajudar. A alegria que expandia era vista como um insulto; achavam que ele era demasiado feio com toda aquela alegria, era um pequeno monstro para os seus gostos. No ano seguinte à sua ida para a escola, o ursinho-formigueiro Orelha Azul fez ainda mais brincadeiras para que os outros pequenos animais percebessem que ele era já muito amigo deles.

No ano seguinte, continuou a procurar brincar com eles. A resposta foi a mesma do primeiro ano. Mas Orelha Azul continuava um menino alegre, sempre na esperança de que os outros meninos se tornassem alegres como ele e quisessem brincar com tanto contentamento como ele. Contudo, tal como ele esperava todos os dias que os outros meninos correspondessem às suas simpáticas atitudes, também os outros meninos esperavam que ele se tornasse normal, normal como eles. Sério, livre da horrível amizade, com o sentido da violência nos olhos e também no coração.

Então, tendo perdido a esperança de o modificarem, os meninos sérios demais, sempre com modos dominadores e sobranceiros, começaram a agredir o ursinho-formigueiro Orelha Azul. Alguns dos seus colegas tinham achado que só se o castigassem duramente ele deixaria de ser alegre. Então combinaram uma série de terríveis castigos, muitos deles uma cópia de exemplos recolhidos nos jogos dos seus computadores, nos filmes de terror da televisão que tinham também no seu quarto e nos filmes que costumavam, desde os seis anos, ver nos cinemas.

Todos achavam que aquilo que lhes era transmitido nesses meios de comunicação social nada tinha de ilícito porque se as personagens o faziam e tinham até a honra de verem as suas histórias gravadas e filmadas, que mal havia em eles próprios usarem da mesma violência com aquele ursinho-formigueiro acabado de chegar à escola e que, por ser pobre, não tivera acesso a nada daqueles meios avançados da técnica? Chegavam a dizer que ele era um estorvo porque nada aprendia com as suas palavras de ordem nem com os seus modos agressivos.

Mas o ursinho-formigueiro Orelha Azul, apesar dos contínuos e pesados castigos que muitos deles lhe infligiam, continuava alegre, a querer brincar com eles, pensando que o que lhe faziam era só a brincar. Na sua ingenuidade, julgava que eles deviam era querer aprender o seu modo diferente de brincar e de ser alegre na amizade. Não tinham ainda percebido o que significava a sua alegria.  Os seus colegas demasiado sérios não tinham percebido o que era a amizade.Tinha a certeza que era somente isso.

Apesar da pobreza de seus pais ele era muito feliz na abundância dos carinhos que recebera deles, todos os dias. Depois de Orelha Azul começar a ir para a escola, andavam um pouco preocupados, mas viam o filhinho alegre como antes. O ursinho-formigueiro nada revelava dos maus tratos que recebia porque não conseguia pensar que tudo aquilo que lhe faziam, não fossem qualquer brincadeira que ele desconhecia. Afinal, ele ainda sabia muito pouco dos ensinamentos recebidos na escola.

Mas, num dia de inverno, muito chuvoso, o ursinho-formigueiro Orelha Azul foi muito ferido na sua dignidade. E a dignidade era o que mais valor tinha para ele. Era demais, não podia suportar aqueles insultos por mais tempo. Os males que lhe faziam tinha-os tolerado, mas, neste dia, tinha sido demais.

Então, pela primeira vez na sua vida, o seu coração ficou triste. Ao sair da escola, com uma insuportável tristeza, dirigiu-se para um denso arvoredo. Seguiu sempre em frente a correr, sem olhar para trás. Quando perdeu as forças para continuar a correr, parou. Olhou a terra e viu um pequenino buraco. Com o seu longo focinho, o ursinho Orelha Azul escavou fundo, fundo. E acabou por entrar numa escuridão plena. Ao longe, começou a ver animais bem diferentes dele, uns maiores, outros mais pequenos. Assustou-se. Mas, que espanto para Orelha Azul, quando viu correrem para ele muitos animais que logo o abraçaram, cheios de alegria. Foi assim que Orelha Azul voltou a ser alegre. Afinal, havia ali meninos tão alegres e tão capazes da amizade como ele!

A verdade é que em Mar-de-Flores nunca ninguém soube para onde teria ido o ursinho-formigueiro Orelha Azul. O governo do senhor Leão mandou procurá-lo durante muitos e muitos dias. Mas nada, nenhum vestígio da sua presença foi encontrado. E assim aquela escola ficou só com os meninos sérios, que não queriam ser amigos, porque só sabiam repetir o que lhes tinha ensinado os jogos dos seus computadores, e os filmes de terror da televisão e do cinema.

Nesse país chamado Mar-de-Flores, muitos ainda perguntam: «Onde estará o ursinho-formigueiro Orelha Azul, esse menino que queria iluminar o mundo triste da escola com toda a sua alegria?!». Mas ninguém, nem mesmo tantos anos passados, sabe responder-lhes.     

 2 de Abril de 2010

Teresa Ferrer Passos

 

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O MENINO QUE GOSTAVA DE LIVROS

(Conto)

 

 

Num domingo, à tardinha, o João entrou com o pai na grande biblioteca da cidade. Ficou assombrado quando o pai lhe disse que dentro de cada um daqueles livros, guardados nas dezenas de estantes havia muitas vidas, muitas personagens escondidas, muitas “histórias” de maravilhas sem par. Que capas lindas! Que jogos de cor nos meninos, nos animais, nas flores! Como o João se sentiu atraído por ver tantos livros ao mesmo tempo. Como gostaria de ter um deles nas suas mãos pequeninas.

 

Um sorriso de sonho soltou-se dos seus lábios. «Como podia ser», interrogou-se, sem dizer uma única palavra ao pai. Que exposição de títulos decorados com tantas imagens fantasiosas. Que vontade de ir a um dos expositores e tocar-lhes com os seus dedinhos finos.

 

A uma certa distância, via prateleiras cobertas de muitos outros livros. O que se diria lá dentro? Na verdade, na sua casa não havia estantes com livros. O pai não tinha tempo para lê-los, dizia. A mãe também não. Ambos saíam cedo de casa. Ambos chegavam do trabalho ao fim da tarde, depois de o irem buscar à escola.

 

Como o pai, a mãe almoçava na pastelaria e passava todo o dia no emprego. Antes de regressar a casa ia sempre fazer mais compras. Tinha sempre tantas coisas a comprar. Se não eram alimentos, havia que comprar novos electrodomésticos, às vezes um novo modelo que vira publicitado na televisão. O pai ia buscar o João à escola, ao fim do dia.

 

Na escola, o João aprendera a ler as lições apenas no computador. Um computador que o ministério da educação mandara distribuir a todos os alunos. As poucas horas do dia que lhe sobravam, destinavam-se a fazer desenhos com lápis de cores e bonecos de plasticina ou a aprender cantigas que podia adquirir pirateando cópias no computador.

 

Naquele domingo, a mãe precisava de fazer mais umas compras de vestuário no Centro Comercial, mas sabia que a escolha de roupa no início de estação era, muitas vezes, demorada. Não valia a pena irem com ela porque ela tinha de entrar em muitas lojas para ver o que lhe ficava melhor. Então, disse ao pai do João: “Vai com o miúdo até à biblioteca da cidade, disseram-me que havia lá uma exposição de livros infantis”.

 

Assim, o João conheceu, pela primeira vez, uma biblioteca. Era um lugar estranho, para ele. Nunca entrara num lugar assim. Um lugar cheio de livros de muitos tamanhos, com grandes letras nas capas, figuras ou não a decorar as capas, uns muito velhos, com folhas rasgadas, outros a parecerem nunca terem tido as folhas abertas por algum menino, como ele.

 

«Quantas “histórias” encantadas dentro dessas folhas», disse o pai. Ficou maravilhado. Como gostaria de os abrir e de ler todas essas histórias. «Pai, posso abri-los?». «Não», respondeu bruscamente o pai. «Isto é só para ver, não é para ler». «Eu gostava de as ler, ler as histórias encantadas, por que não posso?!», interrogou com uma grande tristeza no olhar. «Não, só viemos aqui para ver, João». «Só ver? Porquê?», insistiu ainda. “Estás a irritar-me com tantas perguntas! Cala-te! Senão vamos já embora!» «Porquê?», insistiu de novo. «Vamos embora e já!» exclamou o pai dando-lhe uma bofetada na boca.

 

As lágrimas cresceram nos olhos do João. As faces contorceram-se num choro desatinado. O João sabia que nunca leria nenhum daqueles livros cheios de histórias de encantar. O seu choro, sem que o pai se tivesse apercebido, envolveu-se no livrinho que estava em frente do João, nesse momento. Agarrado ao choro o livro abriu as suas páginas e o João começou a ler a história de encantar que as suas folhas lhe mostravam.

 

O João deixou de chorar e começou a sorrir com as peripécias daquele pequeno urso que gostava de livros, pelo menos tanto como o João gostava. Chegaram a casa. A mãe ainda não chegara. O João foi a correr para o seu quarto. Não ligou o computador.

 

Tinha um livro nas suas mãos. Ia lê-lo tantas vezes quantas quisesse. O pai e a mãe nunca teriam conhecimento desse segredo que guardaria para sempre, o segredo nascido na biblioteca da cidade em que ele entrara pela primeira vez na sua vida.

 

 

19/6/2009

 

Teresa Ferrer Passos

 

 

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O COMETA AZUL

 

 

Esta é a história do nascimento do menino-Deus. 

Contada por Amorosa Violeta Margarida dos Jardins - A Vaca. 

Bumba Alegria - O Boi, 

Chico Cansado - o Burro 

e Breennda, a Ovelha.

 

 

Dizem que tudo aconteceu em Belém. Outros juram que foi lá para as bandas de Nazaré. O certo é que um tal de Anjo Gabriel recebeu por missão encontrar uma casa para a chegada do menino-Deus. O anjo acordou bem cedinho e subiu de mala e cuia na "cauda de um cometa". O anjo viajou dias e noites sob tempestades e ventos, sob o calor do sol e o brilho das estrelas. A casa que ele procurava não poderia ser uma casa qualquer. A casa deveria ter quatro marcos: o Amor, a Alegria, o Trabalho e a Esperança. Depois de muito viajar, ali estava sob o maior de todos os clarões da lua ;com poucas paredes de madeira, um rasgo grande no telhado - A casa. Na verdade, o anjo olhando assim do alto, nem achou que era realmente uma casa, mas Gabriel pousou ali suas asas.

Na casa moravam: Amorosa Violeta Margarida dos Jardins, a Vaca. Farta, tanto de leite como de amor no coração. Bumba – Alegria, o boi. Boi caprichoso, bonito e namorador. Vivia ainda Chico Cansado, o Burro. Burro sim, mas trabalhador como nenhum outro. Morava ali ainda: Breennda a Ovelha. Bem, na verdade, ela não era assim uma ovelha como costumam ser as ovelhas: enquanto tricotava, lia runas, consultava Tarot e fazia Mapa Astral.

Naquela noite, Alegria, o Boi chegava de mais um baile, cantando e rodopiando pelo estábulo, elegante e perfumado como sempre. Parou contudo perturbado com o brilho imenso, do que parecia ser uma estrela entrando pelo buraco do telhado. E foi assim, pescoço torto e rabo espetado que Amorosa Violeta Margarida dos Jardins, a Vaca o encontrou.

 

– Alegria, o que foi?

– Essa estrela, minha flor, olhe!. Não estava aí quando eu saí. Que brilho intenso, chego a ficar arrepiado.

 

A vaca olhou para o céu e ficou também admirada.

 

– Na última noite, disse o boi. Eu tive um sonho estranho. Sonhei que ali na entrada da porta havia uma cestinha e dentro dela uma criança. O menino era nosso, nós devíamos cuidar dele.

 

Foi quando naquele momento chegou o Burro.

– O que vocês admiram tanto aí no céu? É uma estrela? E sacou do bolso uma luneta.

 

– Que estrela admirável! continuou o Burro. Nunca vi uma estrela assim. Sabe eu também tive um sonho. Sonhei que eu estava lá no campo arando a terra. Era de tarde, eu estava já , cansado... cansado... quando puxei o arado , ali estava entre o feno espalhado: um menino.

 

– Hum não sei não, esses sonhos com criança, só pode significar que teremos mesmo um menino. Mas que cheiro esquisito é esse?, falou a Vaca.

 

– Eu sempre falei para vocês no alinhamento dos planetas que nos traria uma estrela anunciando a Era de Peixes. ... Disse Breennda a Ovelha enquanto espalhava incenso pelo estábulo.

 

– Todos esses sinais, continuou a ovelha, significam que um novo tempo está chegando. Um tempo que nos ensinará o amor entre os homens.

 

– Bem, disse o burro. Eu sempre achei essa ovelha esquisita mas devo dizer que alguma coisa está para acontecer. Essa luz intensa, todos nós sonhando com um menino... acho que teremos visita.

 

– Visita? disse a Vaca. Estejam certos que esta casa não está muito em condição de receber a visita de um menino. Então, VAMOS À FAXINA!!!

 

E a Vaca distribui vassoura, rodos, sabão e todos iniciaram a limpeza da casa. Trabalharam toda a noite e tão cansados ficaram que adormeceram e não notaram a chegada dos visitantes. Quando acordaram no dia seguinte, ali estava entre eles: O Menino.

 

O Menino passou naquela casa, que nem era realmente uma casa, apenas uma semana. Alimentado pelo leite da vaca, adormeceu no lombo do burro. Riu com as piruetas do boi, aqueceu-se com a lã da ovelha. Faz parte da estória dele as primeiras lições de Amor, Alegria, Trabalho e Esperança.

 

Que neste natal, você receba o menino, alimente-o, carregue-o entre os braços, brinque com ele, aqueça-o e o presenteie a alguém.

 

Luísa Ataíde

 

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ERA UMA VEZ... O VENTO

 

A história do vento

perde-se no tempo.

Começou há muito, muito tempo

quando começou a história do ar

de que precisamos para respirar.

Embora não o possamos ver

- é transparente -

sabemos que à nossa volta

está presente.

 

Do mesmo modo

não vemos a vidraça da janela,

se limpinha,

e por isso há dias bateu nela

a Joaninha

e ficou com um galo na cabeça.

Também o ar, embora não pareça,

não se consegue ver,

mas está lá.

A história do vento

perde-se no tempo.

Começou há muito, muito tempo

quando começou a história do ar

pois o vento não é mais

do que o ar em movimento,

ora lento, ora agitado,

ora brisa ou ventania,

vendaval ou furacão,

quer de noite, quer de dia,

seja Inverno, seja Verão,

a soprar qual melodia,

a rugir como leão.

Se vem dos lados do mar

pode ter um gosto a sal,

talvez saiba a especiaria

se é um vento oriental.

É assim o vento cuja história

começou há muito tempo,

o vento que não é mais

do que o ar em movimento

que, lento, faz os veleiros

deslizar sobre o mar,

faz as velas dos moinhos

lentamente girar;

os moinhos onde a farinha

se transforma o grão

com que mais tarde

se irá fazer o pão.» (...)

 

                                                                  Regina Gouveia

 

Fonte: Regina Gouveia, Era Uma Vez... Ciência e Fantasia no Reino da Fantasia, Campo das Letras, Porto, 2006, pp.16-17 (Ilustrações de Nuno Gouveia).

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O BERRO

 

 

 

 

 

 

O menino crescia devagar.

 

 

A mãe levava-o às compras quando não estava a saborear a

 

doce treva do seu quarto habitado por gritos, urros,

 

gargalhadas estrondosas.

 

 

Mas temendo que o filho quisesse dar uma curta corrida, metia-

 

o no carrinho amolgado.

 

 

Amolgara-o num dia em que a sua fúria decidira destruí-lo a ele,

 

não ao carrinho.

 

 

Mas era o carrinho, e não o filho, que estava junto aos seus

 

joelhos pesados de banhas.

 

 

Fora o carrinho a tombar sob o peso das suas mãos envolvidas

 

em gritos.

 

 

O pequenino chamava-se Mani. E logo que ele começava a

 

chorar de saudade, ela berrava o seu nome.

 

 

«Pára, Maniii!, pára, pára!!!». Berrava, não gritava.

 

 

Ela já nem sabia gritar. Tudo nela entrava e saia da sua boca

 

como um berro a ecoar na distância.

 

 

Então, Mani tinha saudade de um tempo pré-natal, desse

 

tempo em que nunca se encontrava acordado, em que sua mãe

 

parecia não lhe dizer uma única palavra e em que o pai raras

 

vezes se sentava à mesa.

 

 

Tinha saudade da noite sempre acesa em que sua mãe mais

 

parecia estar sempre a dormir com ele.

 

 

Agora, como gostava de gatinhar no lajedo e de se estender

 

todo como se a própria pedra fosse relva enfeitada com o

 

orvalho da noite silenciosa.

 

 

Sua mãe, sempre com uma irritação na voz finíssima, berrava

 

dezenas de vezes o seu nome.

 

 

«Não mexas nisso! Maniiii! Não ouves?!».

 

 

Os seus ouvidos gostavam de ouvir ela dizer «Maniiiiii!».

 

 

Ele gostava tanto de a ouvir dizer o seu nome! O berro

 

sonoroso enchia-o de um contentamento!

 

 

«Maniiiii», berrou.

 

 

«Não te reboles nos troncos da videira que teu pai acabou de

 

 podar!», berrou de novo.

 

 

Os ouvidos de Mani ouviram o berro como um leve murmúrio.

 

 

A voz escaldante de som da mãe perdia-se agora nas ruas

 

estreitas da vila.

 

 

A voz da mãe de Mani transformara-se, de súbito. E Mani

 

ouvia a voz estridente de berros, como se fosse um sussurro.

 

 

No dia seguinte, a mãe movia os lábios com as faces rubras

 

como era costume quando berrava.

 

 

Mas Mani não voltou a ouvir ela pronunciar, sequer, o seu nome…

 

 

E Mani começou a chorar de saudade.

 

 

 

8 de Novembro de 2007

 

Teresa Ferrer Passos

 

 

 

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O ACHADO

 

 

 

 

«À torrente do Sol vive um tigre com uma fêmea e os filhotes.

Os pântanos estão secos.

Não chove há muito tempo.

O calor é muito.

A água falta. Ninguém pode viver sem água.

Aflitos com a situação, combinaram todos em mudar de lugar.

Assim podia ser que pelo caminho encontrassem a desejada água.

No momento era o sonho mais ambicionado.

Desde a manhã, que caminhavam sem sucesso e já estavam desesperados, principalmente os velhotes

que davam sinais de cansaço e mortos de sede, quando de repente, aparece uma mancha verde, redonda.

Rondaram em volta afastando a verdura, e, disfarçado aparece um pequeno lago com água.

Saciaram a sede e molharam as patas.

Os tigres mostraram-se contentes e muito felizes com o achado!

Por vezes é necessário mudar o rumo da vida.

Parar ou ficar parado é morrer!»

 

                                                                                                                         Maria de Lourdes Agapito

 

Fonte: Maria de Lourdes Agapito, «O Achado» (conto infantil), Gazeta de Poesia - Revista de Literatura, Ciência e Artes, Nº 6, Outono/Inverno, 1995, pp. 76-77.

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O MENINO DIFERENTE

 

 

 

O Rui crescera com o seu avô, rodeado pelos seus retratos do passado, com os seus cozinhados sem sal por causa da hipertensão, e lindas histórias de adormecer.

 

 

Mas o seu avô não percebia muito de crianças. Ficara com o Rui depois da morte dos pais. Já não se lembrava como cuidar de uma criança.

 

 

Todos os dias o Rui ia para escola com roupas das cores mais esquisitas: calções azuis, camisola amarela e colete vermelho... O avô não percebia nada de moda, não distinguia as cores por ser muito velhinho. E o Rui não conseguia dizer ao avô, pois gostava muito dele − ele era a sua única família − que não era assim que um menino se devia vestir.

 

 

Os outros meninos não conheciam nada do Rui, porque mudara de escola quando fora viver com o avô. Quando o viram entrar assim vestido, fartaram-se de gozar com ele.

 

 

Nos intervalos das aulas, ninguém brincava com ele. Ninguém queria sentar-se ao seu lado na secretária, ou que o Rui ficasse na sua equipa de futebol. Com o passar do tempo, o Rui começou a ficar cada vez mais sozinho. Apesar de tentar ser simpático e prestável para com os colegas, nenhum queria ser seu amigo, porque o achava esquisito por causa da sua maneira de vestir.

 

 

Um dia, a sua colega Beatriz viu o avô do Rui à saída da escola. Também ele vinha vestido com uma camisola verde, umas calças roxas e um boné castanho. Vinha buscar o Rui à escola para o levar ao dentista.

 

 

No dia seguinte, a Beatriz, curiosa, foi ter com o Rui, para saber quem era o senhor velhinho que o tinha ido buscar no dia anterior. O garoto ficou tão feliz por uma colega vir falar com ele.

 

 

Explicou-lhe quem era o seu avô, que era quem tomava conta dele desde que os seus pais morreram. Por isso ele vestia daquela maneira estranha. O seu avô já não distinguia muito bem as cores e não havia maneira de lhe explicar.

 

 

A Beatriz gostou tanto do Rui que rapidamente se tornaram amigos.

Nesse dia brincaram no recreio, e almoçaram na mesma mesa. Como a Beatriz se tornou amiga do Rui, os outros colegas começaram a gozar também com ela.

 

 

 

Mas a Beatriz não se importou, eles não tinham nenhuma razão. Afinal, o Rui não era esquisito, apenas se vestia assim para agradar ao avô. No dia seguinte, a Beatriz apareceu vestida com um vestido cor-de-laranja, umas meias cor-de-rosa e um casaco azul. Contou aos colegas que o Rui era um menino muito simpático, com muito talento para jogar à bola e ao berlinde, e para fazer contas.

 

 

Passado uma semana todos os coleguinhas se vestiam originalmente, para não haver distinção entre eles. A partir desse dia se tornaram amigos.

 

Ana Lucas

 

 

 

Fonte: Ana Lucas «O Menino Diferente» (conto infantil), revista Fátima Missionária, Ano IV, nº 6, Junho de 2008, pp. 28-29.

 

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O CACHECOL DA POMBA PETRONILA

 

«A  Pomba Petronila acordou estremunhada.

 

Há um tempo para cá dormia pouco e mal, porque era muito sensível e os vizinhos começavam a arrulhar logo de manhã, naquele pombal novo, de ninhos todos iguais, mandado construir pela Columbófila.

 

Ainda não se habituara àquele novo modo de vida, porque só há um ano casara com o pombo Aristides e viera para ali morar.

 

Mas não era só por isso que a pomba Petronila andava nervosa.

 

Andava nervosa, porque tinha um sonho e ainda não conseguira realizá-lo.

 

O sonho da pomba Petronila era ter um cachecol, mas um cachecol moderno, de cor clara e de bom pêlo, para sair à rua no Inverno, quando ia de manhã à praça ou passeava à tarde pelo Chiado com as amigas pombas da sua criação.

 

O dinheiro não chega para nada, mas a pomba Petronila tinha jurado que não passava do Natal sem comprar o seu cachecol.

 

Por isso saltou logo do ninho, espreguiçou-se, estendeu a pata e começou a vestir-se sem fazer barulho, para não acordar a ninhada de borrachinhos. Tinha quatro. Calçou as meias, atou as fivelas dos sapatos, vestiu um vestido prático, e foi pôr o chapéu ao espelho. Agarrou na gabardina, viu se levava na mala o lenço, o dinheiro e a caixa de pó de arroz, e preparava-se para levantar voo.

 

− Onde vais Petronila? − perguntou o pombo Aristides, que estava ainda no quente, dando voltas no ninho, um olho fechado, o outro aberto.

 

− Vou comprar o meu cachecol. Já não é sem tempo, e não passa de hoje. Quero estreá-lo pelo Natal.

 

− Não pode ser! Bem sabes que temos muita despesa: as prendas para os garotos, a renda da casa, a Festa do Ano Bom. Isto para não falar nas gorgetas ao guarda-nocturno, aos varredores da Câmara e ao pombo-correio.

 

− Não pode ser? − perguntou muito nervosa a pomba Petronila. − Era o que faltava! Há quanto tempo te ando a falar nisso? Depois de um ano inteiro de trabalho, não havia de ter o meu luxo? Eu, que não gasto um bago de milho mal gasto!

 

O pombo Aristides não gostava que o contrariassem, e gritou: − Não, não, e não, já disse!

 

Saltou do ninho em pijama, e dirigiu-se à casa de banho.

 

A pomba Petronila foi atrás dele e gemeu: − Não foi para isto que eu casei contigo!... É bem certo o ditado: casa de pombos, casa de tombos… E desatou a chorar: − Sou uma escrava, uma pomba sem fel, e agora, enquanto as outras estreiam vestidos e casacos novos, eu hei-de andar para aqui como uma pobre de Cristo? Vai ao Largo do Camões, ao Jardim da Estrela, e pergunta aos outros pombos se tratam assim as pombas deles.

 

O pombo Aristides, que já estava a fazer a barba, porque tinha de ir para o Ministério, no Terreiro do Paço, voltou-se de repente, fez um lenho no bico, e gritou-lhe fora de si: − Não me irrites!

 

− Irritar? E a pomba Petronila começou a insultá-lo entre lágrimas: − Pombo mariola! Borracho! Não o tratava assim porque o pombo Aristides pertencesse à raça de pombos mariolas ou porque fosse ainda borracho na idade, mas porque ele, às vezes, voltava ao pombal fora de horas e com um grãozinho na asa.

 

O pombo Aristides, que tinha um coração de pomba, e não podia ver chorar ninguém, começou a arrulhar em volta da pomba Petronila, fazendo-lhe muitas festas.

 

− E como era o cachecol que tu querias para estrear pelo Natal? − perguntou.

 

− Como é que havia de ser? − respondeu a pomba Petronila, limpando uma lágrima à ponta da asa. − De cor clara e de bom pêlo, que é o que está na moda.

 

− Mas foi justamente assim que eu comprei um anteontem nos Armazéns do Chiado, para te oferecer no dia de Natal, minha pombinha!

 

− Isso é verdade? − perguntou a pomba Petronila, muito contente.

 

− Tão verdade como eu chamar-me Aristides.

 

− Meu pombinho! − exclamou − a pomba Petronila. E, abraçando-se, começaram os dois a arrulhar de satisfação.

 

Arrulharam, arrulharam, tanto, tanto, que acabaram por acordar os quatro borrachinhos, que de bico aberto, exigiram logo o pequeno-almoço.  

 

E é que se a pomba Petronila não acode, nunca mais se calavam!...» 

 

                                                                                                                                  Ricardo Alberty

 

 

 

Fonte: Ricardo Alberty, Este Livro tão Bonito, Sociedade de Expansão Cultural, Lisboa, 1968, pp.59-61 (Ilustrações de Marcello de Morais).

 

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OS QUATRO AMIGOS DESAVINDOS

(Peça Infantil inédita)

 

 

 

Quatro amigos resolveram juntar-se para tirar uma fotografia para a Internet.

 Chamavam-se Asinha Amarela, Chapelinho Azul Turquesa, Chinela Vermelha e Folhinha Verde.

 Começam a discutir antes de posar para o retrato.

 

Asinha Amarela

Quero ser o melhor da fotografia! Vejam as minha asas em leque!

 

Chapelinho Azul Turquesa

 Eu também tenho um lindo chapéu com borlas verdes...

 

Chinela Vermelha

Acho que sou eu aquele que vai ficar melhor! Vejam as minhas chinelas!

 

Folhinha Verde

 Isso é o que tu julgas... A minha folhinha verde é bem mais vistosa...

 

Asinha Amarela

 Vocês são uns vaidosos! Quem fica mesmo bonito sou eu! Com estas asas!

 

Chapelinho Azul Turquesa

Olha quem fala...Ah! Ah! Ah! Só o meu chapéu vale mais que tudo...

 

Folhinha Verde

 Ainda não reparaste foi em mim! Vê como é bela a minha folha...

 ela vai fazer de mim o melhor da fotografia...

 

Chinela Vermelha (cabisbaixo)

 Como é possível que não vejam que as minhas chinelas vermelhas valem mais do que tudo!

O que vocês tanto elogiam como o melhor...

 

Chapelinho Azul Turquesa

Não sabem o que é o belo, é o que é... Só a cor do meu chapéu...

 

Folhinha Verde

O belo, o belo, o que é o belo? Se olhasses para a minha folha...

Como é bem recortada, como é elegante...

 

Asinha Amarela

As minhas asas em leque ninguém as vence... Todos os que me virem na fotografia

 vão estar de acordo. Eu sou o mais bonito!

 

Chapelinho Azul Turquesa

Ah! As tuas asas são uns abanos sem graça! Pelo menos, sei que

a cor do meu chapéu é mais bonita!

 

 Chinela Vermelha

Porque dizem todos o mesmo? Todos vocês são os melhores para vocês!

A fotografia vai ser vista por outros...

 

Folhinha Verde

Tens razão! Assim nunca mais nos tiram a fotografia e ninguém nos vê...

 

Chapelinho Azul Turquesa

Se continuamos a discutir, para quando ficar quietos para a fotografia?

 

Chinela Vermelha

É verdade o que dizem... Para quê querermos ser melhores uns do que os outros?

 Só devemos querer ser o que somos capazes de ser...

 

Folhinha Verde

 E o juízo do que nos virem na fotografia, não nos deve ralar muito...

 

Chapelinho Azul Turquesa

Acho que tiveste uma óptima ideia!

 

Asinha Amarela

Que importa o que é mais belo, as chinelas, a folha verde ou as minhas asas amarelas...

 

Chinela Vermelha

É isso mesmo! Não terão todas elas uma beleza diferente,

mas beleza, para ficarmos bem na fotografia?

.......

Foi nesse momento em que a discussão terminou que o fotógrafo

fez o flash e ficaram assim, todos muito belos na fotografia!

 

Teresa Ferrer Passos

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O TESOURO ESCONDIDO

 

 

 

A cena passa-se junto a um poço. A pouca distância está uma árvore, com uma escada encostada.

 


PERSONAGENS:

 

Afonso − (lendo um mapa que diz «Plano de um tesouro escondido»)

Acácia...

 

 

Alberto – Acácia.

 

 

Afonso – Cinco passos à direita...

 

 

Alberto – Cinco passos à direita... (executa)

 

 

Afonso – Dois passos à esquerda...

 

 

Alberto – Dois passos à esquerda... (idem)

 

 

Afonso – Um em frente...

 

 

Alberto – Um em frente... (idem)

 

 

Afonso – Poço onde está o tesouro escondido...

 

 

Alberto – Poço onde está o tesouro escondido (espreita). E estará mesmo? Neste poço? Mas onde descobriste tu

esse plano, Afonso?

 

 

Afonso – Encontrei esse mapa dentro de um livro muito antigo, que ontem me emprestou o Anastácio.

 

 

Alberto – É boa! Um tesouro escondido! E escondido neste poço! Custa-me a acreditar. Mas, como o poço não tem água, é fácil ir ver. Só quero uma escada, e ela aqui está! (dirige-se à árvore onde está encostada uma escada de mão e mete-a no poço, descendo por ela). Cá vou eu, Afonso! Se descobrir o tesouro é para mim, ou para ti?

 

 

Afonso – Ah! Ah! Ah! Um tesouro escondido! É metade para mim e metade para ti... E não há dúvida nenhuma: é neste poço que está o tesouro. Acácia... Cinco passos para a esquerda... Dois passos para a direita... Um em frente... Poço... É aqui que está o tesouro e o Alberto não tarda a descobri-lo. (gritando para o poço): – Alberto... (o eco repete-se) Então, já descobriste? (eco) Queres uma luz?(eco) Responde! Já descobriste o tesouro? (eco).

 

 

Alberto(aparecendo) : Sim, já descobri que não há tesouro nenhum. Apesar de ver mal, vi bem que não há nada no poço.

 

 

Afonso – Nada? Alberto, deixa-me descer agora. Deve estar lá o tesouro. É o que diz o mapa.

 

 

Alberto – É o que diz o mapa! Ah! Ah! Ah! Pois desce lá, desce lá e já vais ver que o mapa não passa de um mapa falso...

 

 

Afonso – Nunca ouvir dizer que houvesse mapas falsos. Também quero ver.

 

 

Alberto – Pois vai ver que eu espero. (Afonso desde) O plano de um tesouro escondido... Olha, quem se vai esconder sou eu, que vem ali o Anastácio e, se me vê, quer logo saber para que é o mapa, para que é a escada e para que é o poço... Escondo-me aqui até que ele passe... (esconde-se atrás do poço)

 

 

Anastácio – (cantarolando):

Água leva o regadinho, água leva o regador... Inventei uma partida! Ai, sou um grande inventor! Esta, é muito boa! Mas onde é que se meteu o Afonso? Emprestei-lhe um livro muito antigo e dentro desse livro... Ah! Ah!... dentro desse livro meti um mapa de um tesouro escondido, que desenhei com toda a minha habilidade. Ora... o mapa já não está dentro do livro... e o Afonso já não está dentro de casa. Deve ter vindo procurar o tesouro inventado por mim...! Mas aqui também não o vejo... Olha...olha... Está mesmo neste momento dentro do poço... Eu logo vi que ele caía dentro da peta... Ah! Ah! Com que cara vai ficar, quando vir que o poço não tem nada e quando souber que a história do mapa foi uma partida minha! Vou para detrás daquela árvore! Oh! que surriada! Quero ver a cara com que ele aparece! (esconde-se)

 

 

Alberto – (que ouviu o monólogo): – Ora esta! Nem tal me passou pela cabeça... Mais uma partida do Anastácio... Ora ainda bem que ouvi o que ele esteve aqui a dizer para os seus botões... E o Afonso, muito convencido, continua a procurar... (para o poço) Afonso (eco) vem depressa, que tenho uma coisa para te dizer... (eco)

 

 

Afonso – E eu tenho uma coisa para te mostrar... (aparece, com uma caixa parecida com um cofre).

 

 

Alberto – O tesouro?!...

 

 

Afonso – É verdade! Encontrei-o...            

 

 

Alberto –  Mas... não pode ser... O Anastácio esteve agora mesmo aqui e ouviu-o dizer que o plano do tesouro escondido foi desenhado por ele, só para se rir de ti. Como é que tu agora descobres um tesouro? Não pode ser.

 

 

Afonso – Pois não. Esta caixa não tem tesouro nenhum. Esta caixa é minha. Tinha-me caído ao poço uma vez que aqui passei... E agora, aproveitei para a trazer... Que bom! A minha caixinha de surpresas!

 

 

Alberto –  É uma caixa de segredo?

 

 

Afonso –  É! (vai abrir, mas suspende)

 

 

Alberto –  Schiu! Tenho uma ideia! Vou chamar o Anastácio! Ele está detrás daquela árvore, mas fingimos que não sabemos... (grita para longe): – Anastácio!... Anastácio!...

 

 

Anastácio (espreita e depois aparece): – Aqui estou! Então que há?

 

 

Alberto –  Vem cá. Descobrimos um tesouro! Um verdadeiro tesouro!

 

 

Anastácio – Um tesouro?

 

 

Afonso –  Sim, rapaz! Estava no poço um tesouro escondido. Olha! Não vês?

 

 

Anastácio – Estava no poço?

 

 

Alberto –  Estava.

 

 

Anastácio – E de quem é?

 

 

Alberto –  De quem o encontrou. Do Afonso!

 

 

Anastácio – Não pode ser. Eu também tenho direito a ele. E, já agora, digo-vos tudo: Fui eu que fiz o plano do

tesouro escondido, que o Afonso deve ter encontrado no livro que lhe emprestei. Não encontraste?

 

 

Afonso –  Encontrei.

 

 

Anastácio – Não foi com esse mapa que vieste até ao poço onde descobriste esse cofre?

 

 

Afonso –  Foi.

 

 

Anastácio – Então o cofre também me pertence, pois se eu não tivesse feito o mapa, nunca o tinhas descoberto...

 

 

Alberto –  Mas tu não sabias que o poço tinha um tesouro... Para que fizeste o mapa?

 

 

Anastácio – Para ver a cara com que o Afonso ficava quando saísse do poço sem ter encontrado nada. Mas como

encontrou, também tenho direito ao que foi encontrado. Se eu não tivesse desenhado o mapa, não descobria ele o tesouro...

 

 

 

Alberto –  Lá isso é verdade. Afonso, o Anastácio que abra o cofre e que tire a parte que lhe pertence. Quanto queres, Anastácio? Metade?

 

 

Anastácio – Quero tudo!

 

 

Afonso –  Pois seja. Acho que é a ti que o cofre deve pertencer. De facto, sem o teu mapa, eu não o descobria. Fica com ele.

 

 

Alberto –  Estás satisfeito, Anastácio? Abre!

 

 

Anastácio – E vocês... não querem nada?

 

 

Os dois – Nada!

 

 

Anastácio – Depois não se arrependam. O que tem dentro é só para mim?

 

 

Os dois – Só para ti.

 

 

Anastácio – Então, muito obrigado. Ah! Ah! Convenci-os e deram-me o tesouro todo. Agora já não podem voltar com a palavra atrás. Aqui só toco eu! (abre o cofre; salta um gato de mola).

 

 

Os dois – Ah! Ah! Ah!

 

 

Fernando de Paços

(1923-2003)

 

 

Fonte: Fernando de Paços, «O Tesouro escondido» (peça de teatro) in Camarada (revista infantil), nº2, 27/1/1962.

 

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DOIS POEMAS INFANTIS DE A. M. COUTO VIANA:

 

A CIGARRA E A FORMIGA

 

 

A Cigarra e a Formiga

andam sempre em briga:

uma afina a garganta

e só canta.

A outra quer trabalhar

sem descansar.

 

Diz-lhes a coruja atenta:

«Nem oito nem oitenta,

que canta, trabalha

melhor.

E a alegria

espalha

energia

ao redor»

Que sabedoria!

Que bela lição!

Também a cantar

se deve ganhar

o pão.

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O DINOSSÁURIO

Milhões de anos atrás

havia certas criaturas más,

chamadas dinossáurios, sobre a terra.

Só lembrá-las me aterra;

 

Sabemos, pelos ossos,

que eram autênticos colossos.

 

Bichos estranhos;

deixaram-nos pegadas

fossilizadas,

ovos de imensos tamanhos.

 

Viviam em rebanhos

ou isolados, mas em lutas

brutas

e mortais,

que horríveis animais!

 

Eu

prefiro ver-lhes o esqueleto

chegar até ao tecto

nas salas dos Museu, livre de perigo.

 

− Não concordas comigo?» (...)

 

                                                                      António Manuel Couto Viana

 

Fonte: A. M. Couto Viana, Bichos Diversos em Versos, Texto (editora), Lisboa, 2008, pp. 23 e 24.

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APONTAMENTO

 

 

 

Ó rapaz calado e pobre

 

Varrendo as folhas do chão:

 

A tua face descobre

 

O espelho da solidão.

 

 

Com teu carrinho de folhas,

 

Descendo pela avenida,

 

Se por acaso me olhas

 

Tenho vergonha da vida.

 

 

Diz que perdoas meu fato

 

Junto do teu abandono,

 

Moço de fato-macaco,

 

Que varres folhas de Outono...

 

 

                                    Matilde Rosa Araújo*

 

 

*Este poema foi retirado do livro da autora O Cantar da Tila e transcrito por José António Gomes, A Poesia na Literatura para a Infância, pág.51. A obra para a infância de Matilde Rosa Araújo foi objecto da 2ª parte deste livro (pp.83 -114).

 

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AQUÁRIO

 

 

Vivia no mar largo

e era feliz

feliz.

 

Sabia os sítios seguros

onde os maiores e mais duros

não podiam atacar

não o podiam caçar

não o podiam comer.

E continuava a viver.

 

Quando nadar o cansava

uma alga procurava

e dormia um bocadinho

e a onda que o embalava

era amiga do peixinho.

 

A onda amiga ondulava

enquanto o acalentava

aquecia

arrefecia

e para longe o levava.

 

Tão longe

tão vasto o mundo...

 

o seu mundo!

Tão largo, alto, profundo!...

 

Que alegria de nadar!

Mas um dia aconteceu

que um fenómeno se deu:

Foi pescado

foi levado

para fora do seu mar

para longe do seu lar

transportado

bem fechado

numa prisão de cristal.

 

E

se não lhe fizeram mal

se o não comeram com sal

está muito descontente

nessa prisão transparente

à vista de toda a gente.

 

                                          Alice Gomes

 

 

Fonte: Poema extraído do livro da autora Bichinho Poeta, pp. 24-27. Foi transcrito por José António Gomes, A Poesia na Literatura para a Infância, Edições Asa, Lisboa,1993, pág. 49-50.

 

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RELÓGIO DE CUCO

 

 

É a menina que não quer comer

que diz que é cedo e que não gosta

mesmo sem saber

se gosta ou não gosta...

 

É a menina que bate o pé

e diz que não usa

nem chapéu nem boné

nem vestido nem blusa.

 

É a menina que quer dormir

quando são horas de levantar.

 

É a menina que quer ficar

quando são horas de deitar.

 

É a menina que gira ao contrário

como um relógio maluco

arrumado no armário.

 

Ou como um relógio de cuco

que diz sempre a mesma coisa

a horas certas e sem pensar

 

e só para contrariar...

 

 

                      Maria Cândida Mendonça

 

 

 

Fonte: No início do livro de sua autoria O Livro do Faz-de-Conta, a autora diz: "Gente crescida / parece tonta não entende nada / do “faz-de-conta”. Este poema pertence a esse livrinho publicado pela editora Plátano, pág.10 (citado por José António Gomes, A Poesia na Literatura para a Infância, pp.55-56)

 

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RETRATO DE ANNA

 

Tu já viste um passarinho nascer?

É como Anna a acordar.

 

Tu já viste um passarinho voar?

É como Anna a crescer.

 

Tu já viste um passarinho beber?

É como Anna a mamar.

 

Tu já ouviste um passarinho piar?

É como Anna a chorar.

 

Tu já viste um passarinho saltar?

É como Anna a mexer.

 

Tu já viste um passarinho cantar?

É como Anna a viver.

 

Tu já viste o mais belo passarinho?

É como Anna!

 

                                                          Ester Luísa Dias

 

 

Fonte: Poema publicado na antologia Viola Delta, Volume XXII,

Edições Mic, Lisboa, 1996, pág.19.

 

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A ÁGUA E A CRIANÇA

 

Plim, plim, plim
- cai uma gotinha
de água
entre as folhas
amarelecidas no chão.

Logo mais,
Vai se transformando
em fio d'água, Fazendo valeta
Pelo meio do mato.

Plim, plim, plim,

- é a nascente
de um rio,
cantando, murmurando
e insinuando sua forma líquida
no chão da Terra.

Plim, plim, plim,
- os olhos de uma criança
acompanham com encantamento,
a Vida, que se faz
feito Ternura ao seu redor.

Lá dentro,
- no espelho d'água,
Ela vê o seu rostinho
Devolvendo-lhe
o olhar extasiado.

Lá dentro,
- naquele fio d'água,
sacia a sede,
bebendo o líquido
na concha das mãos.

Nesta água querida,
Banha o seu corpo,
Que sente o abraço
Amoroso da vida,
Num batismo de energia
e de vitalidade.

A criança sorri,
A água murmura,
Corre e canta...
A criança é Luz
Brinca,
e se encanta.

Água - criança -
Luz - sorriso -
Vida - alegria -

É o Milagre da Mãe-Terra,
Envolvendo
duas Criaturas amadas
Num abraço de Ternura
E de eterno Agradecimento.

27/6/2007
                                               Saleti Hartmann

 

Fonte: Internet, www.usinadeletras.com.br, «Infantil»

 

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NOTÍCIAS

 

 

POEMA DE REGINA GOUVEIA EM ANTOLOGIA

Temos o prazer de anunciar que um poema de Regina Gouveia foi seleccionado para o  6º volume do Cancioneiro Infanto-Juvenil para a Língua Portuguesa, do Instituto Piaget.

 

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«A FLAUTA MÁGICA» DE MOZART

 

ÓPERA PARA CRIANÇAS

 

NO TEATRO NACIONAL DE S. CARLOS

 

 

 

 

 

FICHA TÉCNICA

 

Versão adaptada para crianças por Eike Ecker.

Cantada em português.

 

Direcção Musical Moritz Gnann

Encenação Eike Ecker

Cenografia e Figurinos Kerstin Faber

Desenho de Luz Wolfgang Schünemann

 

Orquestra Sinfónica Portuguesa

 

Produção

Ópera de Colónia

 

 

INTÉRPRETES

 

Pamina Ana Franco

Rainha da Noite Raquel Alão

Tamino Marco Alves dos Santos

Papageno João Merino

Papagena | Primeira Dama | 1º menino Sónia Grané

Sarastro Nuno Dias

Segunda Dama | 2.º Menino Carla Simões

Terceira Dama | 3.º Menino Luisa Francesconi

Monostatos Sérgio Martins

 

 

SINOPSE

 

A genial Flauta Mágica, obra-prima de Wolfgang Amadeus Mozart, nesta versão em setenta minutos e especialmente concebida para um público mais jovem, volta a ser apresentada desta vez sob a direcção de Moritz Gnann, em récitas para as famílias e para as escolas.

 

A Flauta Mágica: uma história de príncipes e princesas, rainhas, repleta de aventuras e magia

 

A história começa com o príncipe Tamino perdido numa terra distante a tentar fugir de uma enorme serpente. Tamino desmaia de cansaço mas é salvo por Três Damas que, com as suas lanças, matam a serpente. Quando acorda, encontra Papageno, um apanhador de pássaros “com uma aparência pouco vulgar” e que lhe mente ao dizer que foi ele que matou o “terrível monstro” com as suas próprias mãos.

 

As três damas aparecem e castigam Papageno por ter mentido. Contam a Tamino que Pamina, a filha da Rainha da Noite foi raptada pelo poderoso sacerdote, Sarastro. Ao vê-la no retrato, Tamino apaixona-se pela bela Pamina e jura salvá-la. A Rainha da Noite promete-lhe a mão da sua filha se ele a libertar de Sarastro.

 

Na sua missão, Papageno e Tamino terão como guias Três Crianças e, para os proteger dos perigos que certamente irão enfrentar, as Três Damas dão a Tamino uma Flauta Mágica e a Papageno Sininhos Mágicos.

 

Antes de encontrarem Pamina, ambos terão de passar por várias e difíceis provas (uma delas o difícil teste do silêncio…)

 

Também Papageno está desesperado por não encontrar uma companheira, a sua Papagena. Uma das Três Crianças dá-lhe um precioso conselho: e se ele tocasse os Sininhos Mágicos?

 

No final, tal como acontece em toda as histórias, uns são recompensados e outros não…

 

O amor e a coragem triunfam ao medo e à escuridão e, sob a claridade radiante do Sol, Tamino, que superou todas as provas, junta-se a Pamina e, em coro, todos cantam “benditos sejam aqueles que encontraram o Sol”!

 

 

DATAS

 

ESPECTÁCULOS PARA ESCOLAS

MAIO

Dias 5 e 20 às 15:00h

 

TARDE FAMÍLIAS

MAIO

Dias 9 e 22 às 16:00h

 

Classificação Etária

M/3

 

 

BILHETES

 

ADULTOS

Plateia, Frisas, Camarotes 1ª e 2ª Ordem 15€

Balcões, Camarotes 3ª, 4ª Ordem 10€

 

JOVENS < 18 anos

Plateia, Frisas, Camarotes 1ª e 2ª Ordem 7,5€

Balcões, Camarotes 3ª, 4ª Ordem 5€

 

ESCOLAS

Preço único 5€

 

Bilhetes online

 

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No dia 1 de Dezembro haverá uma apresentação do livro de Regina Gouveia, Ciência para Meninos em Poemas Pequeninos, no Clube Literário do Porto, a cargo de Manuel Rangel.

30% DOS DIREITOS DE AUTOR DESTE LIVRO SÃO DESTINADOS ÀS CRIANÇAS DA GUINÉ-BISSAU ATRAVÉS DA «AJUDA AMIGA».

O livro, dado à estampa pela Editora Gatafunho, pertence à colecção «Ciência e Poesia de Mãos Dadas» e conta com ilustrações de Nuno Gouveia.

A título de exemplo, reproduzimos abaixo um dos poemas nele inseridos.

 

 

Chuva

 

Uma gotinha de chuva tem muito para contar. Passa a vida a viajar

Vem lá da nuvem à terra para esta vir regar, pois sem chuva não há vida.

Talvez por ser distraída, ou direi mesmo imprudente,

pode dar inundações e outras complicações.

Em boa conta e medida, nunca é aborrecida nem sequer impertinente

pois não queremos, por certo, que a terra seja um deserto.

Mas voltemos à viagem. Cai na terra, cai no mar

e depois de evaporar à nuvem vai regressar para mais tarde voltar.

Parece não ter paragem.

 

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«O RAPAZ QUE DOMOU O VENTO»

 

 

Tem 22 anos, nasceu numa aldeia recôndita do Malawi e, aos 14 anos, construiu um moinho de vento a partir de um diagrama que observara num livro e com a ajuda de materiais que recolheu do lixo.

A história de William Kamkwamba é o perfeito exemplo de como o poder de uma só pessoa consegue transformar toda uma comunidade e de como é possível lutar contra todas as adversidades. [Um livro de leitura obrigatória para pais e filhos].

 

Era uma vez um rapaz que vivia na pequena aldeia Wimbe, no Malawi, um local que, como tantos outros em África, acredita mais na magia dos deuses, do que na ciência dos homens.

Os habitantes do Malawi, tal como tantos outros em África, deitam-se quando o Sol se põe, seja por não terem electricidade – apenas 2% da população tem acesso a este milagre científico – seja porque, enquanto se dorme, a fome não exerce, de forma tão intensa, a sua actividade.

As crianças do Malawi, tal como tantas outras em África, só vão à escola quando as colheitas são boas e os seus pais, neste caso em particular, conseguem juntar cerca de 80 dólares por ano, o valor das propinas do ensino secundário.

Era uma vez um rapaz chamado William Kamkwamba, que vivia numa pequena aldeia do Malawi com os seus pais e quatro irmãs. William é um jovem de sorriso fácil, tal como o de aqueles que espelham muitos outros jovens de África e que emanam um espírito próprio de resistência e de desenvoltura. E, tal como muitos outros, vê na educação um caminho para aliviar a pobreza, a seca, as doenças e a fome que se misturam com a poeira do continente onde nasceu.

William sempre frequentou a escola e sempre demonstrou curiosidade pelos mais simples fenómenos da física. Contudo, em 2002, a sua possibilidade de aprender foi abruptamente interrompida: depois de os pais terem perdido toda a colheita de milho e de folhas de tabaco, o seu único meio de subsistência, devido a uma seca prolongada que originou a maior fome no país em décadas, William foi obrigado a deixar a escola.

 

 

Mas como é da natureza de William não aceitar derrotas, não perdeu a vontade ou a curiosidade e, nas horas que conseguia retirar ao seu trabalho na plantação da família, teve a sorte de poder deslocar-se a uma pequena biblioteca comunitária e, pelo menos, olhar para livros, visto que a maior parte dos mesmos estava escrito em inglês, língua que William não dominava.

E foi um livro com o simples título “Using Energy” que, de forma quase providencial, foi parar às mãos de William. Numa das páginas, viu uma fotografia (acompanhada de um diagrama) de um moinho de vento, que explicava que a sua utilização poderia gerar electricidade e bombear água. E foi a partir de então que uma aragem de esperança começou a correr na sua vida.

E todo o vento capturou.
Em conjunto com o seu melhor amigo, William começou a recolher os mais estranhos materiais que ia encontrando. Na aldeia, todos o conheciam pela sua faceta de “coleccionador de lixo” e as piadas sobre tal loucura eram habituais.

Em breve, o rapaz tinha na sua colecção uma ventoinha de um velho tractor, um amortecedor, rodas, canos em PVC, restos de uma bicicleta e um conjunto de outros estranhos materiais. Em quatro meses, munido de uma refeição diária de milho, de uma pequena pilha de velhos livros de ciências esquecidos e de uma inesgotável dose de curiosidade e determinação, conseguiu construir um moinho de vento para a aldeia, que gerava electricidade.

Depois de o apelidar de louco durante tanto tempo, a aldeia vibrava agora de alegria: ter luz e poder ouvir rádio foi o mais perto dos luxos – necessidades no mundo ocidental – a que tinham conseguido chegar. William tinha 14 anos na altura.

Para William, contudo, a história ainda não estava terminada. Apesar de muito feliz por conseguir fazer poupar aos seus pais o dinheiro que habitualmente gastavam em querosene, o rapaz não estava ainda satisfeito. A próxima aventura seria a de conseguir retirar água dos campos secos da aldeia. E se bem o pensou, melhor o fez. E, nos anos que se seguiram, o poderoso moinho de vento foi continuamente aperfeiçoado, dando luz e água a todos os habitantes de Wimbe.

E um dia, o Dr. Hartford Mchazime, o director da MTTA, uma organização não governamental do Malawi e responsável pelas livrarias comunitárias, deparou-se com um moinho de vento extraordinário, de tão tosco e engenhoso que era, e posicionado no meio de uma pequena aldeia de África.

Mchazime chamou a imprensa local, um engenheiro e um blogger do Baoabab Health Project e Emeka Okafor, director do TEDGlobal, o conhecido encontro de pensadores e inovadores que se reúnem em vários cantos do mundo. Com as maravilhas da modernidade, a notícia rapidamente correu mundo e chamou a atenção não só dos blogues, mas de distintos meios de comunicação social. Os ventos tinham realmente mudado para William. (…) No Verão de 2008, fez um curso intensivo de inglês no Reino Unido e, em Setembro de 2008, transformou-se em um dos 97 primeiros alunos da African Leadership Academy, uma escola pan-africana situada perto de Joanesburgo, na África de Sul, na qual se está a preparar para os exames de admissão à faculdade.
Entretanto, já visitou, nos Estados Unidos, vários complexos de energias alternativas e foi um dos convidados do famoso Daily Show, de Jon Stewart Em Julho deste ano, voltou a ser convidado para o TED, desta feita em Chicago.

E, em conjunto com Brian Mealer, um correspondente da Associated Press e grande conhecedor de África, escreveu o livro The Boy Who Harnessed The Wind, recentemente publicado e que conta a sua história. O protótipo da sua invenção pode ser visto no Museu da Ciência e da Indústria, em Chicago e em curso está um documentário sobre a sua ainda curta vida, mas já com longos feitos.

Com 22 anos, William Kamkwamba, é já um modelo de inspiração para milhões de pessoas que vivem bem longe da sua pequena aldeia.

 

E vale a pena visitar o seu blog.

 

Fontes: Jornal Económico (edição do dia 4 de Novembro de 2009); Revista Cais (Janeiro de 2010).

 

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O "MAGALHÃES" E A CULTURA INFANTIL

Os alunos de uma escola do 1º ciclo do ensino básico, em Setembro de 2008, começaram a utilizar o computador portátil "Magalhães", de concepção portuguesa, após a distribuição deste, pelo Primeiro-Ministro, Eng. José Sócrates. A Venezuela adquiriu, na ocasião, um milhão de exemplares −  visita oficial a Portugal do Presidente Hugo Chávez − destes mágicos auxiliares de estudo, para crianças. A 3 de Outubro, o Primeiro-Ministro assinou um contrato com o Presidente Executivo da Microsoft, Steve Ballmer, com vista ao fornecimento de software e conteúdos, etc, para aplicação no "Magalhães". Trata-se de um computador portátil feito em Portugal pela empresa J. P. Sá Couto, só a pensar nas CRIANÇAS, entre os seis e os dez anos. A modernização da sociedade portuguesa não pode deixar de começar pelo sector industrial, o principal motor do enriquecimento das nações. Uma lufada de ar fresco entra, desde já, nas escolas portuguesas. O projecto científico-tecnológico do Governo do Eng.º José Sócrates poderá começar, sem dúvida, a ganhar visibilidade internacional, muito em breve, se houver uma eficaz divulgação no estrangeiro, deste instrumento tecnológico para as crianças. Uma verdadeira transformação na política de produtividade, em Portugal, está em curso. Que seja bem sucedida.  Que o nosso país volte a ter os benefícios que conquistou com a industrialização levada a cabo pelo Marquês de Pombal, Primeiro-Ministro do rei D. José I.

3 de Outubro de 2008

Teresa Ferrer Passos

 

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