HARMONIA DO MUNDO

 

 

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O site Harmonia do Mundo irá acabar em breve.

Será substituído pelo blogue Harmonia do Mundo,

já em fase experimental.

 

 

ROMANCE

 

 

TERESA BERNARDINO / TERESA FERRER PASSOS

 

 

 

 

«Aprisionar o som. Controlar a luz. O domínio do movimento.

 

A força das palavras cria-se num diálogo infinito.

 

Seres inanimados vivem na sua identidade de projecto.

 

Os habitantes do universo crescem na acção.

 

Há um futuro imparável a controlá-los.

 

Há um futuro na palavra que os faz vibrar de realidade.

 

Uma agitação mental circula e dá sentido à sua existência.

 

Num caos oculto toda a matéria se expande.

 

Em cada palavra há um renascimento mágico.

 

Em cada pensamento acende-se uma proclamação de vida.

 

 

 Estrela 4000 b - Ah! Sabes que vislumbro algo como um ecrã… há palavras a vaguearem lentamente e a inscreverem-se em imagens velozes e, ao mesmo tempo, sem movimento.

Carta C2 - Eu sou tão pequenina e a conseguir ouvir a uma tal distância…falas em imagens sem qualquer movimento?

Estrela 4000 b - Não sei… pressinto um som inaudível.

Carta C2 - A mim atravessam-me vários sons. Parece que há ainda um conhecimento em busca de si próprio e sinais minúsculos encadeiam-se, de modo labiríntico, para o descobrir.

Estrela 4000 b- Há uma linguagem significante à procura de respostas.

Carta C2 - E uma incerteza audaz dilata-se a todos os que procuram a diferença, o inesperado ou o idêntico...

Estrela 4000 b - Antes de tudo o idêntico, mas também a diversidade daquilo que possui uma integridade de ser.

Tempo 01 - Dentro de mim só há palavras… palavras que existem, sem tocar nem mesmo ao de leve, o sentido ou os sentidos de tantas ideias encobertas de simbolismo… cada palavra sem se aperceber que existe, como uma identidade única para ser oferecida a quem a recebe.

Estrela 4000 b - O que fazem as palavras, afinal?

Carta C2 – As palavras, ah, as palavras… como são fugazes nos sons encobertos em imagem…as palavras anunciam…

Estrela 4000 b – Anunciar… que palavra!

Carta C2 – E não imaginas quantas palavras estão inscritas em cada palavra…

Tempo 01 - …e todas a darem-lhes um sentido para a vida… quantas palavras estão inscritas em cada palavra?!

Carta C2 - As palavras nascem de múltiplos renascimentos e tornam-se uma nova imagem de sons delirantes ao criarem outras palavras semelhantes a seres vivos plenos de imagem e de som…

Tempo 01 - Dizes bem. Que estranha torrente de palavras consigo escutar dentro de mim, a cada instante que passa em mim (ou por mim?)…

Carta C2 - E eu… como estou cheia de vozes e de palavras ou de sons...

Tempo 01 - Com a palavra, cada sonoridade obscura desenha uma alma nova que ninguém imaginou fora de si e que me é tão exteriorizável, tão para fora de mim e que só fora de mim, afinal, tem significado.

Estrela 4000 b - Cada palavra vive da sua alma!

Carta C2 - E é uma alma feita de interioridade que extravasa e é transviada do seu rumo prévio…

Tempo 01 - Depois, começa, em delírio, a dispersar-se ou a avançar com hesitações ou com ousadia, julgo eu.

Carta C2 - Não acham que há um qualquer enigma na construção de cada palavra que pronuncio?

Estrela 4000 b - O enigma está na origem desta transformação tão rápida, em nós…

Carta C2 - Eu sinto que toda a palavra que cai em mim é um enigma que seduz ou nos causa um sentimento de dádiva!

Estrela 4000 b - Eu penso da mesma maneira, mas, agora, temo deixar-me levar pela sua sedução e… hesito em pronunciá-las porque podem provocar rejeição ou repúdio ou violência e eu gosto de revelar-me nas palavras e transmitir paz!

Carta C2 - Revelar é bom, revelar mesmo razões breves, como um golpe de vento, ou uma ideia do tamanho do universo!

Tempo 01 - Ou ainda dizer palavras que provoquem um pensamento poético mesmo em nuvens frágeis ou em fúteis vontades e mesmo que eu lhes seja estranho.

Carta C2 - A hesitação é toda uma certeza imóvel que só a palavra sabe comunicar!

Estrela 4000 b - E nas palavras todas as direcções são espaços vazios em que buracos negros se acumulam e, afinal, até estes só podem ser matéria viva, movimento…

Tempo 01 - Mas não te esqueças de que as essências (porque cada palavra tem a sua essência e olha que acredito nelas), só na aparência se dissipam como poeira cósmica a evadir-se para a luminosidade… as essências são atraídas pela memória do fogo.

Carta C2 - E não são as palavras uma alquimia de mago e mesmo o pensamento de um deus?!

Estrela 4000 b - Acho que só o silêncio é uma alquimia.

Carta C2 - Deixem-me dizer-lhes que, para mim, o silêncio não é mesmo sonoroso porque é uma transfiguração em que não há luz nem escuridão, nem água, nem estrelas, nem frutos maduros, nem calor, nem jardins floridos…

Estrela 4000 b - Oh, o silêncio! é uma luz de cinzas a dissipar-se sem emoção! não achas?

Tempo 01 - Talvez seja assim quando a chuva é branda e cai na terra seca pela espera e não há vento no areal cósmico.

Carta C2 - Para mim, toda a palavra é uma imagem sem fugas ao concreto! mas o concreto… como é difícil entendê-lo!

Tempo 01 - Como o concreto de cada som é simples e nessa simplicidade está a sua plenitude real!

Estrela 4000 b - Visível, demasiado visível, digo eu!

Tempo 01 - Se o silêncio é a intocável esfera que contém todos os segredos da vida, o que não será a palavra?!

Estrela 4000 b - O silêncio conhece o real e atinge a visibilidade, mesmo aquela que não vemos; mas a palavra, o som…

Tempo 01 - Não, creio que o silêncio é muito menos complexo… nele apenas vive a pureza que respira desde a hora dos princípios secretos do princípio.

Carta C2 - Olhem que eu penso…, bom, começo a pensar, que o silêncio é o espírito da eloquência maior…

Estrela 4000 b - …e sem sonoridades a abafarem-lhe os sons da novidade em palavras nunca ditas, em palavras incomunicadas e a manterem-se intactas ou invioláveis!

Carta C2 - …intactas na hora da expressão do som ou da presença do tempo certo, certo, que digo eu… na verdade, todo feito de tantas incertezas!

Tempo 01 - Que multidão espera em frente do ecrã enfeitiçado, todo ele a querer significar o espanto de infinitas palavras!

Carta C2 - Essa multidão separada pelos muros do individualismo parece querer entrar num grande templo, ansiosa por orar a deuses ou a um grande deus que nunca viu, mas por quem a palavra clama, há muito tempo…

Estrela 4000 b - Quanto medo de nós próprios se acumulou… sim, de nós, porque nós é que temos medo de nós, sobretudo agora, nós a sermos palavras…

Tempo 01 - Como é difícil ver o interior do nosso ser já dissipado na nuvem das distâncias percorridas ao longo da imobilidade de um lugar qualquer.

Carta C2 - E eu consigo ver-me nas palavras como se me visse num espelho.

Tempo 01 - Repara que tu também és tempo, tempo projectado num espelho a desvendar a mensagem de um grande fonema…

Estrela 4000 b - Palavras, sílabas, vogais, a edificar o pensamento, como se pensar fosse uma eternidade, e esse fosse o segredo da palavra ainda a descobrir vida nos seres humanos…

Tempo 01 - Não, não acredito nesse poder omnipotente da palavra, até capaz de esperar uma eternidade sem tempo! penso que tudo é tempo e o tempo tem muitas escalas, digo eu que finitas, não infinitas. 

Estrela 4000 b  - As tuas ideias são discutíveis! Como és dogmático!! acho que o tempo é, antes de tudo um silêncio infinito de palavras.

Carta C2 - Outra vez a falares do silêncio… há milhões de anos que o vives… mas lembra-te que, neste ecrã onde penetraste, o silêncio é um absurdo.

Estrela 4000 b - O ecrã é a magia da imagem toda feita de palavras escritas…

Tempo 01 - É verdade, aqui tudo se desloca, tudo é uma imagem, a vibrar sons fortíssimos!

Carta C2 - Diz antes a parecerem, apenas a parecerem, palavras, porque todas são tão vazias de significado, são só um artifício… um artifício feito de imagens a deformarem as palavras, tantas palavras que não passam de sinais ou máscaras ou uma grande ilusão que deseja apenas ser uma única imagem feita de realidades virtuais como se não fossem mais do que múltiplos ilusionismos ou fragmentos de objectos…

Estrela 4000 b - Como as palavras são enigmas e que quanto mais repetidas em sonoridades sempre diferentes não são menos enganadoras do que as dadas pelas imagens, mesmo as mais sofisticadas… e assim será que se consegue deixar de ser um longo túnel sem transparência tão opaco nas paredes de cimento, tão terrivelmente opaco aos outros seres que esperam a palavra da descoberta de uma qualquer verdade incorruptível, de uma palavra de força em movimento contínuo e… imortal!

Tempo 01 - Com a palavra ou pensamento ou chama de som, libertamo-nos da tentação de ser essência de matéria e, ao mesmo tempo, vivendo a eternidade da anti-matéria… oh, não sermos mais esquecimento!

Carta C2 - Tens a certeza do que dizes?!

(Porque lhe pergunto, se tenho a certeza que não se engana? …é longa a sua experiência, toda feita de tempo, mas o tempo não será um vazio em que tudo é anulação?… devia saber que a palavra é um tempo em que antes e depois se confundem, ou serão distintos?... mas por que razão o tempo é todo um infinito sem uma palavra que seja a sua negação absoluta? ah, estas minhas interrogações que continuam hoje, como se fossem um sempre de interrogação, como se existissem em mim há tanto tempo e não tivesse sequer  uma memória a vibrar todos os princípios e todos os fins, como se fosse a minha única razão para existir tal como sou, como se não soubesse existir mesmo sem esse fardo de não saber deixar de interrogar… como gostava que num instante mágico tudo decifrasse, sem visores nem sombras de visibilidade nem sons desenhados em imagens de qualquer espécie, nem simulacros de existência efémera e a rever-se num espelho de uma visão sem uma linha de fim ou círculos de finitude? será alguma vez possível, não interrogar mesmo e até na infinidade? cada som que penetra a minha contextura parece uma incerteza, cada hora antes de ser rasgada pela palavra é já um vazio de plenitudes, cada ideia que nasce ou renasce na minha interioridade parece, às vezes, um começo, outras um limite. Como me sinto igual e com uma diferença abismal! a minha existência tomou um sentido novo não mudando, porque os actos me percorrem por dentro e por fora, sabendo com angústia que estes mesmos actos não serão resultantes da sua precariedade, mas estão sempre a nascer de todas as outras grandes incertezas… a magia de cada palavra que é um verbo a crescer e a apagar-se na distância, como a guardo na minha essência que já não é a que tive durante séculos e séculos e em que nada mudou porque tudo se passou num instante diáfano, impossível de medir com a nossa capacidade de imaginar… a palavra nasceu em mim revestida de sonoridades que são forças imanentes de vida… a voz do signo é o seu corpo e também o seu depois a só poder ser um nada a julgar-se infinito e apenas vago ou só de miragem pleno... como posso deixar de pensar, agora, precisamente agora, no instante imbuído de um mistério assombroso, o mistério de não poder decifrar todo o pensamento oculto na mais breve palavra ou no mais ínfimo som?!?).

Um silêncio um pouco longo faz-se na imagem da Carta C2 a propagar-se no ecrã mágico da rede computacional ZN4. Mas o Tempo 01, olhando a Carta C2 e a Estrela 4000 b faz do silêncio uma linha curva de espaço.

 

Tempo 01 - A voz da palavra soa neste ecrã como um deslumbramento de estranha vontade! é a certeza de uma memória em construção, como os biliões de biliões formando alguns breves instantes de dia e de noite numa sucessão ininterrupta que ainda não deixou de se expandir, de se alargar em infinitas manifestações com biliões de biliões de biliões numa sucessão de zeros absolutos ou não e que não sabemos se terminará… não sei se estou com alguma certeza de matéria visível ou mesmo invisível… mas não lhes parece que me será muito difícil imaginar o meu próprio fim?

Carta C2 - Quem saberá responder-te sem hesitar e sem uma impaciência feita de tantas dúvidas, sempre a dizer a palavra cheia de incertezas e a arriscar um som indefinido ou surdo ou de audição abaixo de um milésimo milionésimo de fracção de segundo elevada a menos vinte e um sempre aturdido com a mais segura certeza?

Estrela 4000 b - Cada palavra vibra no silêncio e é tão duvidosa, tão insegura… sinto-me trémula só de dar uma opinião falsa do meu próprio sonho (sonho, disse eu?!), de pensar uma palavra ou de dizer a palavra...»

 

 

 

 

Fonte: Teresa Ferrer Passos, Planeta Joyce 8, Harmonia do Mundo, Lisboa, 2007, pp.17-25.