NOTAS DE LEITURA

 

 

TERESA FERRER PASSOS:

EMOÇÕES À LUZ DA PAISAGEM POÉTICA

ATRAVÉS DE UMA POÉTICA DA VIAGEM EM CRISTINO CORTES

A POESIA EM A CHUVA NOS ESPELHOS

A FICÇÃO CIENTÍFICA E O PRÉMIO NOBEL DA LITERATURA

O ROMANCE E A EMOÇÃO DA MEMÓRIA

NO ANIVERSÁRIO DO NASCIMENTO DE WILLIAM FAULKNER

 

PREÂMBULO A PLANETA JOYCE 8, por Jorge Dias de Deus

PREFÁCIO A PLANETA JOYCE 8, por José Augusto Mourão

 

 

 

 

 

 

 

 

EMOÇÕES À LUZ DA PAISAGEM POÉTICA*

 

 

 

«Ao princípio era o martírio

e a bênção daquele que trabalha

o seu corpo e o seu pão de sol a sol»

                                                Fiama Hasse Pais Brandão, Cantos do Canto,

                                                                                                1995, p.15

                                     

 

 

 

Com o título O Tempo e o Corpo**, Rosa Maria Oliveira reuniu alguma da sua poesia já editada, a que acrescentou um acervo de poemas inéditos subordinados ao título «O Voo da Enxada». A propósito de O Tempo e o Corpo teceremos algumas reflexões, ainda que breves, sobre o percurso poético desta poetisa, radicada há muito anos na região de Aveiro. E começaremos estas linhas com um verso do seu livro «Sol da Casa» (publicado em 1998): «O poema é a ilha de onde te escrevo».

Na verdade, Rosa Maria Oliveira vê o poema como se fosse um lugar real, ainda que sujeito ao isolacionismo próprio de uma ilha; vê-o, como se fosse o corpo a penetrá-lo e a agitá-lo em instantes de vida, sem se distinguirem senão na aparência. Já em «Magma e Aguarela», publicado dez anos antes (primeiro livro de poesia), escrevia: «sou corpo inteiro no começo do poema»; e confessa mesmo que vai «em cada verso colher um fio / de verdade».

Em «Verbo Liberto» (1989), outros dois versos insistem neste binómio corpo/poesia: «nas vagas perder-me-ei / se não navegar no teu corpo». E no livro «Da Vida e do Acaso» publicado no ano seguinte, dizia-nos: «Os nossos corpos são paisagens de Março / florindo nas entranhas fluídas do poema». Aqui está uma interpenetração de corpo e poema de tal maneira funda que se torna inconcebível um sem o outro. Assim, a poesia de Rosa Maria Oliveira apresenta-se como um sustentáculo de emoções, como um farol que guia as horas e ilumina os dias, e, sobretudo, revela-se com uma coloração mais vibrante ao unir-se a um terceiro tema, a diversidade da natureza.

O poema dimensiona e dimensiona-se nos espaços naturais. E o corpo floresce na poesia que desponta entre as flores silvestres e o voo das aves marinhas, nos limos verdes dos charcos ou nos barcos com as redes ao longo dos areais. O binómio poesia/corpo é alicerçado plenamente por toda a natureza circundante que constrói e renova, de uma maneira infindável, os sons das ovelhas no redil e das vagas do mar, as litanias do vento e o sussurro dos rios.

Nos poemas inéditos, reunidos sob o título de «O Voo da Enxada» (2003), são ainda os corpos que «sobem aos ombros / em diálogo com as árvores». A árvore, símbolo do eterno. Essa árvore que se renova nas folhas, numa esperança imorredoira. É precisamente com a árvore em busca de horizontes de liberdade, no espaço claro ou na terra obscura, que Rosa Maria Oliveira se identifica: «Porque são pobres / os meus livros junto à boca   / nada dizem sobre a árvore / que dentro de mim avança».

O poema é o invólucro, não exterior ao corpo, mas a nascer e a renascer dele e com ele, como uma árvore imóvel e, em simultâneo, a enlaçar-se activamente com o mundo em contínuo movimento. No corpo crescem os poemas que fazem vibrar a vida, como a poetisa evidenciava no próprio título de «Em Setembro a Vida» (publicado em 1993): mesmo em Setembro, o mês em que as folhas tombam ressequidas de calor e vento, a vida eclodia na poesia a soltar-se da vindima, das uvas e do mosto. E até as fragilidades da natureza se transfiguram num fulgor de poesia: é o sol «que não aquece», é a leveza da libélula e da chuva, é o deus cujo poder parece não ultrapassar um rumor de asas. A escutar até ao limite a ambivalência corpo/poesia, surge em toda a sua fulgurância a natureza: desde o mar às gaivotas, às algas e ao sargaço, desde os búzios e conchas ao vento, às rosas, às seivas e aos frutos.

A natureza ecoa como um grito de vida e de esperança nas teias do eu poético de Rosa Maria Oliveira: «No meio dos pinhais ergo um sonho»; «A chuva cai. A hora tarda. E tudo tão perto» (em «Magma e Aguarelas»);  «Hoje ao fim da tarde / quando a praia for o Verbo de um poema» (em «Verbo Liberto»); «Escutar-te-ei ainda que seja tarde / no desfolhar de poemas» (em «Da Vida e do Acaso»); «O poema flui nos rios, / lentos»( em «Em Setembro a Vida»); «Basta uma ave a menos / para que o céu escureça / e a falta / imensa desça sobre a alma» (em «Sol da Casa»).

Ao reunir estes títulos sob o título genérico de O Corpo e o Tempo, Rosa Maria Oliveira oferece-nos uma maior unidade imagética e conceptual da sua poesia. Contudo, pensamos que o último conjunto de poemas aqui inserido como inédito, «O Voo da Enxada»***, constitui um desvio em relação aos anteriormente publicados. Sentimos aqui a poetisa a valorizar mais o seu mundo interior em relação ao mundo exterior da natureza. Lembremos expressões pouco comuns na anterior poética de Rosa Maria Oliveira: «desespero absoluto», «fértil é a dor», «sono da tarde», «há horas em que se morre». Mesmo assim, nos últimos poemas descobrimos o retorno ao mesmo cântico da natureza a envolver os corpos. Significativo é o facto que a autora tenha escolhido para nomear este conjunto poético o título O Tempo e o Corpo.

Em toda a sua poesia há, de facto, uma frequente recorrência ao tempo, na alusão às horas, aos dias, às manhãs e também aos corpos que, «é preciso escutar». Nesta última parte de O Corpo e o Tempo ainda assoma a natureza, embora já a diluir-se e a transfigurar-se no interior do eu poético da autora, dando azo a que deixe «inscrever na pele» os ciclos dos dias, das sombras e do fogo, tudo isto envolvido num «mistério do voo incendiário». E se interroga «onde é a geografia do corpo», logo a seguir responde com o verso «pergunto para queimar / o tempo na garganta».

Com a liberdade menos contida do «tempo na garganta», com a perplexidade da «geografia do corpo», Rosa Maria Oliveira edifica, neste acervo de poemas intitulado O Tempo e o Corpo (a publicar), o universo de alguns dos seus mais belos poemas. Entre o passado vivo e  o hoje a germinar, nasce mais um dos seus livros, quem sabe se a marcar a novidade de voos ainda mais largos.

 

28 de Março de 2008

Teresa Bernardino****

 

 

*   Publicado em Diário de Aveiro, 30 de Maio de 2003.

** Título que ainda não foi publicado.

***O Voo da Enxada, Edição Junta de Freguesia da Vera-Cruz, Aveiro, 2004 (Prefácio de Ana Secca Ruivo).

**** Também assina por Teresa Ferrer Passos

 

 

topo

 

 

 

 

ATRAVÉS DE UMA POÉTICA DA VIAGEM

EM CRISTINO CORTES

 

Ilha do Faial, Açores

 

Acabado de publicar o livro de poemas Música de Viagem da autoria de Cristino Cortes, foi a sessão de lançamento nos "Encontros de Escritas", a decorrer, então, na Póvoa de Varzim. Editado, em Fevereiro de 2008, pela Papiro Editora, tem, na contracapa, uma Nota de Leitura do poeta António Salvado.

 

É significativo que o autor tenha dividido Música de Viagem em seis Partes: «Canções e outros poemas musicais», «Coisas de família», «Intermezzo», «Paisagem e povoamento», «Outros poemas» e «Para uma arte poética, aproximações». O autor talvez tenha pretendido criar uma ordenação temática que tornasse mais claro e rigoroso o objectivo de mais esta sua publicação.

 

Na 1ª parte, a música constitui uma privilegiada forma de inspiração em que Cristino Cortes escreve em torno de uma natureza que fala, que canta, que sussurra e que penetra na sua interioridade, como se toda uma longa sonata ou uma larga sinfonia se desenhasse em cada palavra, em cada verso, em cada poema.

 

Lembro, do poema «Movimento aquático», estes versos perfumados de uma sonoridade bem viva: «Corre corre veloz / E não deixes de correr / – Parar é ficares só / Tombares, a morte quer dizer...» (pág.13).  E, também, do poema «A Origem das coisas», estas palavras com a emoção a vibrar de acordes de música transcendente: «Não têm as gaivotas palavras  / E são belas! / Não sabem ler, voam com alegria / E têm toda a poesia / Quando há sol e é de dia!» (pág. 14).  Poderia ainda dar outros exemplos desta poesia a transparecer «Ritmos trocados» (pág. 18).

 

Em «Coisas de família», 2ª parte deste acervo, o poeta faz como que uma homenagem aos poetas da sua predilecção, como Garrett, António Nobre, Junqueiro, Pascoaes, Florbela Espanca ou Pessoa. E, a este último, dedica um extenso poema dialogado, envolto numa pouco usual coloquialidade poética em torno dos diversos heterónimos com que o Poeta de Mensagem identificou os seus escritos poéticos, sempre com a sua usual ironia e, também a sua adulta ingenuidade (pureza interior).

 

Como Fernando Pessoa criou, quase a brincar, personalidades tão cheias de identidade própria, com uma integridade de comportamento unívoca e "inteira", que só os vindouros haviam de conhecer, pois nenhuma dessas obras seria publicada durante os seus quarenta e sete anos de vida.

 

O poema «Um café com Pessoa, exactamente noventa anos depois», de verso longo, a extravasar sentidos a divergir e, também, a confluir, tem noventa versos, como a comemorar o dia 8 de Março de 2004, dia que perfez os 90 anos sobre a assinatura do primeiro heterónimo, Alberto Caeiro (com este heterónimo assinou o acervo de poemas, O Guardador de Rebanhos, escritos, como disse Pessoa, de «uma assentada», datado de 8 de Março de 1914).

 

Nesta poema-homenagem aos heterónimos do Poeta, escreve Cristino Cortes, em tom jocoso, no citado poema «Um café com Pessoa...»: «Com que então, meu Caro Fernando, hein!, como é?, quem diria / Da Silva o bom do Alberto Caeiro?! (...) / (...) para suposto pastor pareceu-me que conviria / Um vocábulo assim ligado à terra, à natureza de que ele é parte... (...)» (p.48).

 

«Paisagem e povoamento» é a parte dedicada à poesia inserida nas viagens que se inscrevem em países, em cidades, em bairros, em monumentos. Aqui podemos ver, com o encantamento ou com a decepção, com a alegria ou com a tristeza, os lugares que acalentam ou que ferem o olhar do poeta. Veja-se o poema «Coisas da cidade»: «Aqui estou à sombra de Cesário, por um dia sabendo / Que o Constantino mora próximo e apenas lamentando / Tão poucos haver nesta cidade por onde vamos andando / Oh Lisboa, cidade tão bela, acorda por favor!» (p.66).

 

E, mais adiante, no mesmo poema, Cristino Cortes revela a sua sensibilidade aos recantos de encanto da capital: «(...) o aroma das flores / O canto das aves, saber o que é um ninho, sentir as dores / Do tempo que muda, da cidade que cresce e se espanta» (p.67). Um dos poemas que melhor alcança o sentido do viver na grande e vetusta cidade chama-se «A caminho da Graça». Com um enlevo que só seria natural numa pessoa nascida e criada na casa de seus pais, em Lisboa, Cristino Cortes oferece um retrato muito expressivo do belíssimo bairro da Graça, bem na "gema" da capital: «A caminho da Graça, duas ou três vezes por semana / De S. Vicente descendo ao Limoeiro e pelo Aljube / Terminando na Sé e em Santo António, ou pelo Caldas / Alcançando a Baixa onde por fim terminam as subidas / E descidas, périplos tantos oh maravilhosa Odisseia!» (pág.68).  O gosto da viagem breve ou prolongada, já surge nos livros anteriores de Cristino Cortes, designadamente, Relances de Maré e Vida (1998), Novos Relances de Maré e Vida (2003) e Viagens, Marés e Memórias (2007).

 

De salientar, sem dúvida, a última parte «Para uma arte poética, aproximações», desta "música de viagem", em boa hora dada à estampa: trata-se de um conjunto de dez poemas em que se procura fazer de cada um deles uma síntese da teoria da arte que suporta e dá grandiosidade à poesia. Nestes poemas finais, Cristino Cortes revela o seu fascínio por esta forma de expressão do pensamento, alfobre de altas emoções e criadora de tesouros para dar ânimo às gentes que não vislumbram um horizonte de sonhos ainda realizáveis.

 

É o caso do poema «Para uma arte poética, aproximações ( VII )», de que transcrevemos os quatro primeiros versos: «Ah! Com que saudades não olho para o local / Da poesia, e sem a ver sinto a falta da música / Desse enleio que vem não sei de onde, entra e fica / Qual matutino e tónico eflúvio, sopro vital!» (pág.110). 

 

Com o mesmo sentimento indagador de uma razão para não emudecer, para não claudicar ante os obstáculos da vida, inicia o poema «Para uma arte poética, aproximações ( X )»: «Para que servirá a poesia, se não para a todos / Fazer melhores, dar uma diferente e real paz; / Não será o belo o caminho do bem, onde vás / Se altera o mundo, persistência e bons modos?!» (pág. 113).

 

O cultivo desta arte torna-se para Cristino Cortes uma forma de, todos os dias, nascer e renascer sem cansaço e com a paz do silêncio das palavras escritas. Então, imprime sempre aos seus poemas uma música nova e uma força mais intensa, uma impetuosidade mais clara e um tom de quem procura e, assim, encontra o mundo para além dos banais mundos.

 

30 de Março de 2008

 

Teresa Bernardino*

* Também assina por Teresa Ferrer Passos

 

 

topo

 

 

 

 

A  POESIA  EM  A  CHUVA  NOS  ESPELHOS  *

 

 

 

 

Li duas vezes o conjunto de poemas sob o título genérico de A Chuva nos Espelhos, da poetisa Maria Azenha. Todos eles poemas susceptíveis de se lerem hoje, amanhã, depois de amanhã…

 

Poemas cheios de encantamento, poemas nascidos da voz sonorosa de Maria Azenha, que sempre tem conseguido oferecer-nos uma poesia novíssima pela transparência da água pura que se transfigura em alma iluminada com uma luz tão ténue e, ao mesmo tempo, uma luz tão profunda na sua abertura ao mundo.

 

A leveza com que utiliza as palavras, os encadeamentos metafóricos, a expressividade de cada verso a viver de uma plenitude muito interior, fazem-nos sentir que os seus poemas atingiram em A Chuva nos Espelhos uma magia tão penetrante que lê-los não cansa, antes nos repousa, como se inspirássemos o perfume da flor do jasmim ou da tília.

 

 Os «Mistérios» dos Órficos e dos Pitagóricos estão um pouco por cada poema. Aqui, também encontro o reflexo do mito platónico das sombras e da luz, do real e do aparente, a entrelaçarem-se em espelhos, a prolongarem imagens, a deformá-las, a torná-las bizarras, a desvanecê-las.

 

 Mas, os poemas do acervo A Chuva nos Espelhos são, como os textos da Antiguidade, rios de murmúrios suaves e cheios de uma impetuosidade tão visível, que só o som da palavra, mesmo que seja só o «som» da palavra lida, lhes confere toda a sua real dimensão.

 

 Hoje, os poemas feitos com a emoção de um sussurro de água, de rosas brancas ou de biombos de açucenas (poema «um biombo de açucenas para os espelhos»,), deveriam destinar-se a ser escutados com a finura da voz humana, ou seja,  para serem lidos em voz alta: «(...) o espelho da lua partiu-se. / / os teus olhos / são ainda / mil / espelhos / floridos em pleno verão / / (...) ouves os repuxos, falando sozinhos? / / (...) como é difícil / fazer chegar aos teus ouvidos, / búzios!» (pp. 21-22).

 

 O poema «sonho» , como alguns outros, esboça uma «pequena história» jogando, neste caso, com quatro símbolos: «pedras negras», «romãs», «túnicas brancas» e «um cubo». E, as paredes do mito enleiam as metáforas de cada frase, de cada verso : «estamos na sala as três / encontro três pedras negras / três romãs / três túnicas brancas pousadas num cubo (...) » (pág. 32).

 

 Isto, em vez de a tornar oculta, omissa ou secreta, faz transparecer toda a beleza da poética de Maria Azenha.  A poesia do conjunto de poemas A Chuva nos Espelhos oferece-nos «uma escada construída por relâmpagos / uma escada feita de folhas e de cântaros para / matar a sede» (pág. 43).

 

A «sede» que não pode deixar de crescer no deserto sem beleza em que nos atola o esquecimento da arte do poema. Aqui, neste acervo poético, há, sem dúvida, «uma pomba dentro do poema» (pág.43).

Eu gostaria de dizer que há uma pomba dentro de cada poema…

 

9 de Novembro de 2007

 

     Teresa Bernardino**

** Também assina Teresa Ferrer Passos

* Este título foi publicado por Alma Azul, em Fevereiro de 2008, com capa de Ralph Gibson (foto) e Prefácio de Henrique Dória.

 

topo

 

 

 

 

 

 

 

A FICÇÃO CIENTÍFICA E O PRÉMIO NOBEL DA LITERATURA

 

 

 

 

Em comunicado do júri da Academia sueca, a escritora de ficção científica Doris Lessing recebeu o Prémio Nobel da Literatura. Anunciada como "uma narradora épica da experiência feminina", a Academia considerou o seu livro  The Golden Notebook, "uma obra pioneira e (que) pertence àquela mão cheia de livros que moldaram a visão do século XX sobre as relações homem-mulher".

 

O silêncio envolveu até agora o nome de Doris Lessing, em Portugal. Os seus últimos vinte anos de escrita, em que abandonou a ficção clássica para se dedicar à ficção científica ou (como alguns lhe chamaram) à ficção espacial, foram tempos de apagamento nos suplementos de jornais e de revistas literárias, mesmo as de maior divulgação nacional.

 

O caso de Canopus em Argos: Arquivos, em cinco volumes (1978-1983), em que o Império de Canopus se confronta com outros impérios galácticos, faria Doris Lessing dizer, um dia, que criara um "mundo novo para si mesma".

 

Agora, com o galardão maior da Literatura mundial, o Prémio Nobel, esse mundo novo deverá alargar-se ao planeta Terra. E, em Portugal, talvez esta escritora que tem sido remetida ao esquecimento, tal como acontece com os autores de ficção científica em geral, comece a ser lida.

 

Apesar de a editora Publicações Europa-América ter publicado onze dos seus romances na colecção Nébula, especialmente destinada à ficção científica, Doris Lessing permaneceu nas prateleiras. Tratava-se de um género que muitos críticos da Comunicação Social e, também escritores de nomeada, consideram um género menor ou de 2ª linha.

 

11 de Outubro de 2007

                                                     

Teresa Ferrer Passos*

* Ortónimo de Teresa Bernardino

 

 

topo

 

 

 

 

O ROMANCE E A EMOÇÃO DA MEMÓRIA*

 

 

O tema do tempo, nas suas correlações com a vida e com a morte, é o grande inspirador do romance fantástico Regresso das Cinzas da autoria de Ray Bradbury, traduzido por Maria José Freire de Andrade (Publicações Europa-América, Colecção Nébula, 2004). Trata-se de uma obra escrita e retomada pelo autor, ao longo de cinquenta anos. Como Bradbury nos informa no Epílogo, desde a infância viveu com emoção as histórias que lhe eram contadas sobre os seus antepassados.

 

A narração de episódios da vida daqueles que já tinham morrido, terão imbuído as perguntas da criança curiosa ao longo dos dias ou dos serões da família vividos na velha Casa, onde passava férias. O mistério da ausência confundia-se com o concretismo do modo como os mortos da família eram, com frequência chamados ao convívio dos vivos. Quem diria que tinham morrido?

 

Ray Bradbury nunca esqueceu a lição que esses tempos, a afastarem-se cada vez mais da sua vida de adulto, lhe ofereceram. E talvez o que mais ficou gravado nele foi a ideia de que só morre quem é esquecido. Expressões como «memórias», «recordações», «tempo», aparecem com ênfase ao longo deste romance. Vejamos alguns exemplos: «as memórias, asas transparentes dobradas» (p.88); «o seu corpo jazia nas areias egípcias, mas a sua mente circulava, tocava» (p.88); «iluminado pelo sol e pelo luar da mente da Bisavó»(p.96); «Sem asas. Ela envia a sua mente»(p.184).  

 

A função dos mortos é, nesta obra de Ray Bradbury, fundamental pela dinâmica que aqueles oferecem às sociedades. Porque eles não estão imóveis, as suas mentes deambulam no meio dos vivos. Não são um fardo, nem uma ideia a rejeitar, mas são uma forma de os vivos obterem, pelo poder do pensamento memorialístico, uma verdadeira libertação.

 

Essas personagens deixam de ser estranhos. Passam mesmo a ter uma realidade tão próxima dos vivos que quase já não se distinguem deles. E Bradbury define a sua importância quando uma das suas personagens afirma: «Nós somos os guardiães do Tempo (…)» (p.187). Ou: «Nós somos o celeiro da recordação obscura (…)» (p.187). E ainda: «apenas a morte pode libertar o mundo para que ele volte a viver» p.188).

 

Mesmo assim, a personagem Timothy, tendo cohabitado com eles devido ao estratagema imaginado pela paixão de Cecy, recusa o seu mundo. Quer continuar a viver, apesar de saber que um dia morrerá, responde Timothy à Bisavó. Então, o conselho da Bisavó, com os seus quatro mil e quatrocentos anos, é cheio dessa sabedoria que o tempo longo foi construindo: «A melhor coisa a fazer, Timothy, na tua nova sabedoria (porque Timothy conhecera a sabedoria dos antigos) é viveres a tua vida ao máximo, gozares cada momento, e deixares-te, daqui a muitos anos, com a feliz consciência de que preencheste cada momento, cada hora, cada ano da tua vida, e sabendo que és muito amado pela Família» (p.192).

 

A experiência de Timothy, conduzido ao «tempo muito antes de existir alguém para escutar», tempo «vindo de nuvens vagabundas que iam para lugar nenhum, para algum lugar, para qualquer lugar, e fazia com que o sótão falasse sozinho, enquanto lançava sobre o seu soalho um jardim japonês de areia e pó» (p.24).

 

Tempos imemoriais que o tempo apagara, através da alma ou poder mental. É com esse poder espantoso que o amor de Cecy vence todas as limitações. Cecy jazia morta, mas a força do seu desejo amoroso vence a morte. A sua alma introduz-se na jovem Ann que não amava Timothy, precisamente ele que por Ann se tinha apaixonado. Então, Cecy tudo tenta para ser ela a corresponder à sua paixão. Ora responde por Ann, como se a voz daquela que vivia fosse mais fraca do que a sua, ora há um desencontro de vozes e torna-se impossível Cecy ser escutada por Timothy. O possível e o impossível lado a lado, procurando interpenetrarem-se, a tentarem contradizer-se e a aproximarem-se.

 

Este romance nasceu na infância do seu autor. A fase da vida humana em que o real e o irreal convivem com o encontro daquilo que é tão estranho e, ao mesmo tempo, tão evidente. Assim acontece em Regresso das Cinzas quando Ray Bradbury nos relata um diálogo entre a enfermeira e as crianças que corriam ruidosamente dentro do «barco»: «- Meninos está na hora de ouvir uma história!». E logo as crianças perguntam: « - Uma história de fantasmas?». Ao que a enfermeira responde, concludente: « - Vocês acreditam em fantasmas, certo?». Em uníssono, respondem todas: «- Oh, sim!».

 

Ao entrar num mundo de descoberta, num mundo que vai explorar pela primeira vez, a criança tende a encarar a realidade como uma única. Não há escalas para o real. O sonho, o irreal, a ficção, funcionam como fazendo de tal maneira parte da realidade, que dela não se separa. É por isso que a criança, ao ouvir falar dos mortos, pergunta onde estão, porque não estão ali, porque desapareceram…

 

À criança é acessível falar de mortos ou fantasmas ou figuras míticas. Nada lhe parece ser estranho. Tem uma visão tão concreta do mundo que a cerca, que tudo nele insere, sem recusar aquilo que perturba os adultos, aquilo que estes rejeitam, porque é uma memória negra, espectral, só possível em momentos-limite, momentos de rápida duração. No nosso tempo está na moda os psicólogos aconselharem o domínio total da emoção para se evitar sofrer, porque não se deve sofrer nem sequer, parece, por aqueles que nos amaram e que nós amamos. Afinal, não estarão a querer fazer-nos acreditar que não se deve sentir uma das mais importantes facetas da vida humana?…

 

Regresso das Cinzas oferece uma outra perspectiva do sentido da vida. É talvez uma chamada de atenção para valores em vias de serem esquecidos na sociedade tecnológica em que nos inserimos. Estamos, de facto, numa época em que se cultivam os mitos da longevidade, da juventude e da saúde até ao exagero. Assim, as pessoas tendem, por exemplo, a excluir os velhos, esquecendo que eles apenas atravessam uma fase da sua vida, tal como atravessaram a fase da juventude.

 

Refiramos, a propósito, o exemplo recente, em Portugal, da classificação de «regiões de morte social» no que toca a regiões há muitas décadas em estado de  despovoamento por parte dos jovens que nelas não encontram as mesmas condições das cidades do litoral ou do estrangeiro. Agora, regiões onde predomina a velhice são de imediato denominadas «regiões de morte social». Como se o predomínio da velhice fosse motivo para tão drástico apelativo. Parece que os velhos se identificam já com mortos, mortos indesejáveis, quem sabe se a deambularem como fantasmas enfadonhos para o enojamento dos humanos.

 

O culto do hedonismo e do consumismo aterrorizam facilmente aqueles que vêem nas faces enrugadas e nas pernas esqueléticas a possibilidade das suas próprias representações futuras. Em Regresso das Cinzas, Ray Bradbury dá um grito de alerta a esta sociedade global em que os velhos são desprezados, olhados como um pesadelo e não como um factor de ressurgimento junto dos jovens.

 

É urgente reabilitar os conceitos de vida em que a dignidade humana seja prioritária. A qualidade de vida tem de abranger novos e velhos. Uns e outros são desejáveis nas regiões onde os obstáculos são enormes.

 

Como escreve Ray Bradbury, a «vida é uma visita rodeada de sonhos»(p.161). O nascimento e a morte usufruem de um espantoso paralelismo. A saúde e a doença vivem confrontando-se. A velhice e a juventude  completam-se, como se fossem partes de um único todo.

 

E se a vida tem um sentido, a velhice e a morte também o têm. Escreve Ray Bradbury: «Os fins de tarde são amados porque desaparecem. As flores são amadas porque se vão (…) no coração dos bons-dias matinais e das gargalhadas da tarde, encontra-se a promessa do adeus. No focinho cinzento de um cão velho, vemos um adeus. No rosto cansado de um velho amigo lemos longas viagens sem regresso» (p.159). Esta uma das passagens mais significantes deste romance em que a ficção fantástica assume um dos seus pontos mais altos. Trata-se de uma escrita plena de beleza poética e metafórica, em que o autor contribui para a elevação e fortalecimento do sentido da vida, colocando-a sempre com o contraponto da memória dos velhos e da sua sabedoria. 

 

Aqui, as raízes da sabedoria dos antigos consolidam-se. Mas, «com a passagem do tempo, um homem jovem surgiu na estrada, como alguém emergindo de um sonho ou saindo das marés calmas de um mar silencioso, e encontrou-se numa paisagem estranha, olhando para a Casa abandonada, como se soubesse mas desconhecesse o que esta tinha, em tempos, contido.» (p.195).

 

Em Regresso das Cinzas a leveza incerta e incauta das horas e dos dias das crianças ganha o esplendor da recordação de «um milhar de tardes» (p.14). Um «milhar de tardes» repetidas sem fim por Tempos a passarem, sem que as sociedades demasiado apressadas dos nossos dias, se voltem e vejam os tesouros ocultos nelas e a descobrir.

 

Teresa Ferrer Passos**

* * Ortónimo de Teresa Bernardino

 

* Publicado em Internet, www.triplov.com (5/2/2005) (ass. Teresa Bernardino);  O Primeiro de Janeiro, suplemento "das Artes das Letras" (14/2/2005) (ass. Teresa Bernardino); Internet, www.harmoniadomundo.net (28/10/2007).

  

 

topo

 

 

 

 

 

«PREÂMBULO» de Jorge Dias de Deus

 ao livro Planeta Joyce 8

 

 

 

 

Na grande rede internética do Império do Sol Poente as coisas começaram a não correr bem. Ao mundo fechado dos sons e das imagens capturadas, veio juntar-se a participação não esperada - e não desejada - dos não humanos, ocupando temporariamente o ciberespaço. É um pouco estranho, mas é assim: temos um planeta a conversar com um malmequer, ou o tempo que passa a dialogar com um avião!

 

Na velha Terra, dominada há muito pelo Império, a degenerescência imperial e a degradação moral vão construindo as gerações futuras. Um pouco à maneira de Doris Lessing e Stanley Kubrick. A Escola já não é para todos, e o individualismo desregrado é a regra. E, quanto mais o virtual existe, mais o real se esconde. O fim da História e o fim da Ciência teriam sido decretados. Claro que o colapso civilizacional se adivinha: a queda de mais um Império...

 

Os homens, aqueles seres verticais que se ergueram para tentar chegar aos deuses, não entendem o que se passa. Os guardiões do Império reprimem, mas a revolução alastra.

Como vai acabar a luta do Bem contra o Mal? Pois no fundo, lá no fundo, é disso que se trata.  

 

A questão consiste em saber se os homens serão capazes de participar no lado certo da luta. Nada é garantido, porque a globalização, a homogeneização e a deseducação já foram muito longe. Até aquela reserva de bom senso, que é constituída pelas mulheres, está corrompida, desgastada pela luta de todos iguais, todos iguais. O apoio virá da parte da Natureza, quer daquela verdadeiramente natural, quer da construída, seja um planeta, um malmequer, o tempo que passa, ou um avião...

 

A mensagem fica clara: é preciso recuperar o real, sair do ecrã e das ondas electromagnéticas. O diálogo tem de ser ao vivo, a voz tem que se ouvir, as ondas sonoras têm que voltar!

 

Resta saber quem vai ganhar no fim, o Bem ou o Mal? Mas isso não se pode aqui contar... Esqueçamos então tudo o que acabei de escrever: talvez não tenha sido mais do que uma divagação inconsequente sobre um diálogo mágico.

 

 

Lisboa, 25 de Março de 2005

 

Jorge Dias de Deus**


 


* Este texto foi publicado no livro Planeta Joyce 8 de Teresa Ferrer Passos.

** Professor Catedrático do Departamento de Física do Instituto Superior Técnico.

 

topo

 

 

 

 

 

 

NO ANIVERSÁRIO DO NASCIMENTO DE WILLIAM FAULKNER

 

 

 

«O homem supera tudo menos o silêncio.

E, neste silêncio, ele reconhecia o medo»

W. Faulkner

 

 

 

William Faulkner nasceu, em 25 de Setembro de 1897, em New Albany no Estado de Mississipi (E.U.A.). Autor de contos, ensaios e romances, notabilizou-se pelo seu estilo rico e pouco convencional, relativamente à sua época. Muitos dos seus textos foram recusados por editores e redacções de jornais, pois não ofereciam uma expressão acessível à maior parte dos leitores.

 

Contudo, a sua persistência e espírito de luta, a sua qualidade literária, acabariam por provocar o reconhecimento do seu grande talento. Um dos romances em que melhor revela a sua escrita exigente e profundamente humana, intitula-se O Som e a Fúria.

 

Foi traduzido para português por Publicações D. Quixote com uma Nota Introdutória  do romancista António Lobo Antunes que sublinha, a finalizar: «O Som e a Fúria possui a qualidade de ser um romance que, tal como a grande poesia, se relê no maravilhamento da descoberta: a todo o passo damos com pormenores que nos haviam passado despercebidos, em cada página nos emocionamos. Já visitei este livro mais de 30 vezes, e continuarei de certo a fazê-lo com o mesmo deslumbramento e o mesmo entusiasmo». (in O Som e a Fúria, Publicações D. Quixote, Lisboa, 1994).

 

Em 1949, William Faulkner veria a sua obra reconhecida internacionalmente, ao mais alto nível, ao ser-lhe atribuído o Prémio Nobel da Literatura. Em 1954, receberia outro importante galardão literário o Prémio Pulitzer.

 

Hoje, dia 25 de Setembro, dia do seu aniversário natalício, a «pirâmide» dos seus romances-problema e a «torre de Babel» dos seus contos, continuam a despertar a atenção dos escritores mais conscientes de que a obra de arte literária, perderá sempre com a imposição de limites à dimensão maior da palavra arte.

 

25/9/2007

Teresa Ferrer Passos*

* Ortónimo de Teresa Bernardino

 

_________

 

 

Em homenagem a William Faulkner

 

 transcrevemos um pequeno excerto

 

do conto NINFOLEPSIA

 

 «(...) Tinha pensado nas árvores apenas como madeira, mas estas árvores silenciosas eram mais do que isso. A madeira tinha-lhe feito as casas que o abrigaram, a madeira tinha-lhe ateado o fogo que o aquecera, tinha-lhe dado o lume para cozinhar os alimentos; a madeira tinha-lhe feito os barcos onde cruzara as águas deste mundo. Mas não estas árvores. Estas árvores fitavam-no com indiferença, perpetrando lenta vingança. O pôr do Sol era um fogo que combustível algum tinha ateado, a água murmurava num sonho de sinistra escuridão. Barco algum singraria nestas águas. E, acima de tudo, pairava um deus meditabundo a cujos caprichos ele tinha de dar resposta muito depois de as crenças mais confortáveis terem ficado gastas como a roupa que se veste dia a dia.

E este deus nem o reconhecia nem o ignorava: este deus parecia não ter consciência da sua entidade, a não ser como invasor, alguém que não tinha o direito de existir. Pondo-se de gatas, sentiu a terra quente e dura nos joelhos e nas palmas das mãos; e, pondo-se em seguida de joelhos, aguardou o abrupto e temível aniquilamento.

Nada aconteceu e ele abriu os olhos. Por cima da cumeeira, entre os troncos das árvores, viu uma estrela solitária. Era como se tivesse visto ali um homem. Ora ali estava uma imagem familiar, algo demasiado distante para se preocupar com o que ele fizesse. Por isso, levantou-se e, com a estrela pelas costas, estugou o passo em direcção à cidade. Aqui estava o riacho − era preciso atravessá-lo. O tempo perdido a procurar um lugar para o fazer gerou-lhe outra vez o medo. Mas ele reprimiu-o com a força da vontade, pensando na comida e na mulher que tinha esperança de encontrar (...)»*

 

* Histórias Inéditas, Volume II, Publicações D. Quixote, Lisboa, 1999, pág. 20)

 

  

 

topo

 

 

   

 

 

 

 

PREFÁCIO de José Augusto Mourão

ao livro Planeta Joyce 8

 

 

     "In many local literary communities, or in communities constituted through a common literary language, the question of globalisation is all too often seen by some writers as the battleground of important national discursive identities, national traits, values, traditions and cultural borders against an invading ready-made, consumerist and integrative culture. Within this framework, globalisation frequently becomes synonymous with a commoditized technological and ideologically unifying civilisation conveyed through English language".

(A. Pennycok, 1994)

 

 

     Parece que há ainda um conhecimento em busca de si próprio e sinais minúsculos encadeiam-se, de modo labiríntico, para o descobrir”.

(Teresa Ferrer Passos, Planeta Joyce 8, pág.21).

 

 

I

 

Todas as utopias dizem isto: o futuro já começou...neste mundo. Se não na realidade, pelo menos na ficção, quer se lhe chame científica, fantástica, de aventuras ou de viagens. Os entendidos falam de “soft fiction” ou “hard fiction”, “anti-realist metafiction” para caracterizar as diversas formas da arte da simulação na literatura, a distinguir, por exemplo, dos jogos de computador: os labirintos podem ser ficcionais mas os jogos de labirinto são reais. Ray Bradbury, J. G. Ballard, Arthur C. Clarke, Ursula le Guin, Philip K. Dick, William Gibson são alguns dos nomes que emergem do confronto com a técnica e que propõem novos mundos ao mundo já cartografado do nosso horizonte cognitivo. As premissas do evolucionismo técnico dominam os jornais e os documentários de TV. O ciberutopismo, a web-art, a bio-arte, a arte transgénica são formas de agenciamento do simbolismo que anunciam tanto a desmaterização das obras como o nascimento do artista como “know-worker”, ou como programador. A tese de B. Stiegler ganha, neste contexto, uma real pertinência: “A nossa época caracteriza-se como tomada de controlo do simbólico pela tecnologia industrial em que a estética se tornou a arma e o teatro da guerra económica. Daí a miséria em que o condicionamento se substitui à experiência”. Donde a obrigação da luta que se trava em várias frentes. A ficção científica é uma dessas frentes.

Deixámos há muito o mundo da Renascença, as utopias perfeitas, geométricas e antropocêntricas. Calvino, esse “Ariosto dos utopistas”, sabe que desde a revolução industrial, a filosofia, a literatura e a arte sofreram um trauma de que ainda não recuperou. As máquinas estão mais adiantadas do que os homens. A era “pan-mecânica”, ou procura a salvação no esteticismo (Baudelaire), ou aceita a realidade resgatando-a da desumanização. Robbe-Grillet e o seu Labirinto apontam nesta segunda direcção, objectual, não antropocêntrica. Calvino faz um diagnóstico certeiro da situação: “O que domina é a forma do labirinto: o labirinto do conhecimento fenomenológico do mundo de Buttor, o labirinto da concreção e estratificação linguística de Gadda, o labirinto das imagens culturais duma cosmogonia mais labiríntica ainda em Borges”(1). A problemática da geração de texto faz eco a uma outra questão, antiga, da intrusão do “maquínico” – no sentido de tratamento não-humano – tanto em literatura como no conjunto dos instrumentos e sistemas de informação.

Dizia Mattelart que todo o objecto é um recorte particular de uma determinada configuração comunicativa (2) - alusão clara ao Design, que opera mais com a tecnologia do que com a técnica, e que é percebido como “alegoria da transformação possível”. “No quadro do biopoder, o protagonismo no interior da cultura do projecto é desempenhado pelo Design, por um Design Total que projecta objectos, sistemas de objectos e interfaces, progressivamente auto-referenciais, sem exterior, e que vão continuamente regimentando a vida” (José M. Bártolo). O protagonismo das infraestruturas informáticas em detrimento das infraestruturas materiais anuncia uma redefinição do espaço da comunicação. O conexionismo levou a ultrapassar as operações o espírito a puro cálculo. Toda a imagem numérica é interactiva. Para certos autores o pós-humano representa, no centro da articulação entre evolução biológica e evolução técnica, a tendência onde a actividade levada a cabo pelo homem deixa antever não só uma transmutação ontológica da sua condição, mas também o desenvolvimento de novas formas de vida que rompem a tradicional fronteira entre o natural e o artificial. E. Couchot fala de “segunda interactividade”, por analogia com a “segunda cibernética”, para caracterizar comportamentos maquínicos mais próximos dos comportamentos humanos (3). “Enquanto a primeira interactividade se interessava pelas interacções entre o computador e o homem, num modelo estímulo-resposta ou acção-reacção, a segunda interessa-se mais pela acção enquanto guiada pela percepção, pela corporeidade e pelos processos sensório-motores, pela autonomia" (4).

João Barrento tem falado de uma nova categoria em que teria encontrado a ficção portuguesa: o Realismo Urbano Total - um tipo de literatura que tem por missão contar uma história "com pessoas iguais às pessoas que a gente conhece", segundo os "modelos da vida tal como ela é", e com uma forma de escrita que se limitaria a transpor a expressão quotidiana e que se caracterizaria acima de tudo pela total falta de estilo. Estaríamos assim no lado contrário daquilo que Mallarmé considerava ser a literatura - "a universal reportagem". Há formas de localismo que se aproximam de formas de "Terceiro-Mundismo". A insistência na 'pureza local', de acordo com o argumento convincente de Arif Dirlik, "pode bem servir como desculpa para um revivalismo reacionário com as mais antigas formas de opressão (A. Dirlik, 1996: 36). Porque a melhor literatura foi sempre aquela que tem como casa o mundo, e que melhor articulou a memória local e global, permitindo que o local se torne global na sua capacidade para representar as múltiplas dimensões da existência humana.

 

 

II

 

Teresa Ferrer Passos escreve para lá desse Realismo Urbano Total, consciente de que uma nova ecologia cognitiva está às portas. O seu gesto poético realiza como que um novo Convivium em que comparecem a ciência, a literatura e a filosofia. Intervêm neste Planeta Joyce 8 tanto um planeta de formação recente (Planeta Joyce 8, p. 47) como o matemático de fractais em dispersão H30, como o físico de partículas do micro-tempo R4, numa mistura de vozes verdadeiramente impressionante. A associação entre novas tecnologias e progresso unifica vozes muito diversas: negócios e escritores da imprensa diária; governo e a arena do espaço público, manifesto pós-modernistas e ciberfeminista, televisão e documentários científicos; e o mais espectacular entretenimento oferecido pela ciência ficção. É preciso dar fala ao tempo, ao malmequer, à estrela, à carta C2. Devolver à experiência o seu ritmo, o seu peso, o seu espírito crítico.

Teresa Ferrer Passos propõe um cenário em que várias figuras encarnam essa luta contra a globalidade e contra a vigilância superior (Planeta Joyce 8, p. 33). Daí a revolta anunciada de cada um dos Estados da Revolta Unitária (Planeta Joyce 8, p. 81) contra a prepotência do poder mega-tecnológico (Planeta Joyce 8, p.152) por parte das vítimas da globalidade. Como é sabido em narratologia, não há programa, estratégia ou acção senão como colmatagem de uma falta, como reparação de uma falta. “As populações do Império Global” perderam as antigas qualidades neuro-mentais (Planeta Joyce 8, p.153). O amesquinhamento da “humanidade”, a abulia, é por demais visível. O Planeta Joyce 8 alerta para algo que se está processando: as tecnologias de ponta estão a alargar o abismo entre os info-ricos e os info-pobres. Um dos efeitos mais nefastos das novas tecnologias é a desmodalização dos sujeitos. Agir é decidir. De onde vem essa decisão? Do Planeta Joyce 8. É ele o portador de uma intenção revolucionária contra o núcleo mais importante da rede ZN4. Vejamos as personagens: a Estrela 4000 b é a personagem que dialoga com a ZN4, o ecrã mágico da rede computacional, o Tempo 01, e a Carta C2, a que se junta o Cometa kk Down, o biólogo N7. Nisto, a autora compreendeu perfeitamente que a arte em geral é aquilo que tenta temporalizar de outra forma, que faz com que o tempo da consciência do eu seja sempre diacrónico e que liberte o imprevisível da sua singularidade num nós através da mediação da linguagem como potência.  

As tecnologias electrónicas são responsáveis pela “implementação das “sociedades de controlo” e pela criação do conceito de life time value forjado pelo marketing para concretizar ao máximo a exploração industrial e sistemática da experiência individual, transformando-a num condicionamento integralmente controlado" (5). Trata-se de uma guerra. Os cidadãos cibernéticos, a população que vive sob o controlo do Império da globalidade e que está a provocar é convocada para combater a uniformização mental a que está a ser submetida: “Mas o que me atormenta mais é a insensibilização generalizada... que ninguém se apercebe de que o ser humano se transformou numa tecné-anti-mentalis” (Planeta Joyce 8, p. 139). O perigo é a uniformização mental dos seres. A Estrela Pólux 52 coloca assim esta questão: “as sociedades do Império só consomem aquilo que não tem interrogações, porque só entendem o excessivo da visibilidade” (Planeta Joyce 8, p. 160). A questão é a do habitar, ligada a uma outra: a do controlo e da domesticação. No Império da globalidade despreza-se o valor da liberdade e “Cada vez há menos espírito crítico”(Planeta Joyce 8, p. 136).

Escrever é singularizar-se. Teresa Ferrer Passos escreve em nome da criatividade, contra a imitação, a literaturazinha de bairro que se lê. Não faltaria quem a acusasse de utilizar a metáfora ao serviço da ciência, a física neste caso: “E nas palavras todas direcções são espaços vazios em que buracos negros se acumulam e, afinal, até estes só podem ser matéria viva, movimento...” (Planeta Joyce 8, p. 25). Mistura-se a alquimia das palavras com a química e a física: o silêncio como uma luz de cinzas ou uma intocável esfera da vida. Contra o silencio, o ecrã. A atracção já não vem da memória do fogo, mas do ecrã. O resto é efeito de diálogos de sons, de vozes, de imagens. É interessante que a autora compare o ecrã a um templo, como se a multidão esperasse a epifania de um deus. Aqui o silêncio é absurdo.

Embora persista a noção de “verdadeiro eu”, ainda nimbada da carne que a reveste, a nova tecnologia abriu as portas para novas subjectividades radicalmente desencarnadas. É certo que os romances de Gibson nos chegam carregados por influências tão diversas como os romances clássicos: Frankenstein, The Big Sleep, a literatura vanguardista representada por William Burroughs, Thomas Pynchon e Kathy Acker, a ficção científica de Philip K. Dick, Michael Moorcock e J.G. Ballard, as análises culturais de M. MacLuhan, Baudrillard, Deleuze e Gauttari, a filmologia de Cronemberg, a música de Velvet Underground, etc. Nos escritos de Gibson (1984: 12) percebe-se um certo desprezo descontraído da carne que é vista como “the meat” (“de talho”) por aqueles que estão dependentes da “vida” na “matriz”. O discurso de desencarnação tem um lugar central quer nos escritos do romancista “cyberpunk” William Gibson ou de Marge Piercy, quer da feminista Donna Haraway.

Ora, é contra a desencarnação que Teresa Ferrer Passos escreve. Contra o roubo da palavra e em nome da vigilância, contra aquilo a que chama o “espírito” ou o “mistério”. B. Stiegler, que escreve de um horizonte materialista, não reivindica, paradoxalmente, outra coisa. Não declarava Foucault, na lição inaugural do Colégio de França que era urgente “fazer uma análise materialista do imaterial”? O escopo da nossa autora parece ter sido atingido: a sua análise materialista do imaterial revela a miséria simbólica em que o Império nos afunda. O intelectual deve habitar o sítio duma arte exigente, resistente, intransigente, domínio em que não podemos nem retirar-nos nem propor soluções. Fatalmente ideólogos porque "todos embarcados"?

 

JOSÉ AUGUSTO MOURÃO**


 

 

* Este texto foi publicado no livro Planeta Joyce 8 de Teresa Ferrer Passos.

** Professor Agregado de Literatura e Semiótica na Universidade Nova de Lisboa.      

(1) Italo Calvino, Punto y Aparte, TusQuets, Barcelona, 1995, 113.

(2) La communication-monde. Histoire des idées et des stratégies, La découverte, Paris, 1991.

(3) E. Couchot, M.H. Tramus, M. Bret, « A segunda interactividade. Em direcção a novas práticas artísticas”, in  Arte e vida no século XXI, (org.) Diana Domingues, UNESP, 2003, p. 27.

(4) Op. cit, p. 32.

(5) Bernard Stiegler, De la misère symbolique I, Paris, galilée, 2004, p. 166.

 

topo

 

 

 

[ Página Principal ] Blogue em 4x4 ] Ciências ] Ensina-me a Viver ] Filosofia ] Literatura ] Mundo da Criança ] Notícias e Opinião ] Poesia ] Teologia ]