RECORTES DE ROMANCES

O ROMANCE É O GÉNERO LITERÁRIO POR EXCELÊNCIA
PARA LEVAR A TODA A HUMANIDADE QUE SABE LER,
PRINCÍPIOS DE VIDA, TAIS COMO AQUELES QUE SÃO
MARAVILHOSAMENTE EXPRESSOS POR
FRANCESCO ALBERONI
no seu livro A ESPERANÇA de que transcrevemos uma passagem (pp.70-71):
«Fico profundamente comovido com a piedade das gentes simples, que não entram em competição, que não sentem inveja, que não perguntam a favor de que parte está o outro, que têm o coração aberto e reagem à dor com a dor, à morte com o choro. A piedade de quem se sente mais sozinho quando alguém morre.
Mas a piedade não é apenas um estado de espírito, um sentimento. É também um estímulo potente para a acção moral. Kant convida-nos a realizar as acções morais movidas pelo dever puro, sem que nos deixemos influenciar pelos sentimentos, pelas paixões, pelos impulsos. Mas o puro abstracto sentido do dever nunca levou os homens a dedicarem o seu tempo, o seu dinheiro aos outros, a sacrificarem-se por eles.
A moral, para se tornar acção, isto é, verdadeira acção moral e não apenas pensamento intelectual, tem necessidade de coração. Tem, por isso, necessidade da piedade, da nossa capacidade de sentir a dor dos outros e o impulso de fazer algo por eles.
A piedade é a força espontânea que nos leva a melhorar a vida dos outros indivíduos e, por conseguinte, a melhorar o mundo para todos e não apenas para nós mesmos. Contudo, manifesta-se de uma forma irregular, estimulada pela visão de quem sofre ou pelo relato da dor.
Nós devemos utilizar este desejo de fazer bem a uma determinada pessoa para colocar a nós próprios o problema do que faríamos a todas as outras pessoas se elas se encontrassem na mesma situação.
Devemos cultivar a força que brota da piedade, devemos canalizar o desejo de eliminar a dor como uma energia que vivifica e orienta a nossa reflexão moral e que guia a nossa acção social e política, se queremos verdadeiramente melhorar a vida»
Do excelente romance de VICTOR HUGO OS MISERÁVEIS,
Editorial Minerva, Lisboa, 1962, Biblioteca Popular Minerva, nº 11, 1º
volume pp.184-185:
«..........................................................................................................................
− Estás bêbado, Tholomyés? − gritou Blachevelle.
− Eu, bêbedo? − retorquiu Tholomyés.
− Então, estás alegre! − tornou Blachevelle.
− Concedo! − respondeu Tholomyés. E levantando-se de copo cheio em punho, exclamou: − Glória ao vinho! Nunc te, Bacche, canam! Desculpem, meninas, isto é espanhol. E a prova, senhoritas, ei-la: tal povo, tal vasilha. A arroba de Castela contém dezasseis litros, o cântaro de Alicante, doze, o almude das Canárias, vinte e cinco, o quartin das Baleares vinte e seis, a bota do czar Pedro trinta. Viva o czar, que era grande, e viva a sua bota, que ainda era maior! Minhas senhoras, um conselho de amigo: se lhes não desagrada, façam que se enganam e mudem de parceiro. O erro é próprio do amor. A namorada deve servir para mais alguma coisa do que para estar acocorada e embrutecer-se como criada inglesa que tem calos nos joelhos. O doce namoro deve ser alegremente errante! Dizem que o erro é próprio do homem, eu digo que errar é próprio dos amantes. Minhas senhoras, adoro-as a todas! Ó Zefina, ó Josefina, cara mais que amarrotada, serias encantadora se não andassem de esguelha!A tua cara parece um formoso rosto em cima do qual alguém se sentou por engano! Quanto à Favorita, ó ninfas e musas! Um dia que Blanchevelle ía a saltar a enxurrada da rua de Guérin Boisseau, viu uma bonita rapariga de meias brancas muito justas, que deixavam ver as pernas. Agradou-lhe este prólogo e eis Blachevelle namorado. A escolhida do seu coração era Favorita. Ó Favorita, tens uns lábios jónios! Havia um pintor grego chamado Euforion, a quem puseram o nome de pintor de lábios. Só esse grego seria capaz de pintar a tua boca! Antes de ti, não existia criatura digna desse nome. Tu nasceste para aceitar o pomo como Vénus ou para o comer como Eva. A beleza teve princípio em ti! Falei agora em Eva: foste tu que a criaste. Mereces privilégio de invenção das formosas! Favorita, deixo de tratar-te por tu, porque passo da poesia para a prosa. Há bocado, falava do meu nome. Enterneceu-me isso; porém, a todos digo, sejam quem forem, que se não deixem levar dos nomes, porque podem achar-se engraçados. Eu chamo-mo Félix e não sou feliz. As palavras são mentirosas. Não aceitemos cegamente as indicações que elas nos dão (...)»
* Recorte do romance de Victor Hugo Os Miseráveis, Editorial Minerva, Lisboa, 1962, (Biblioteca Popular Minerva, nº 11), 1º volume pp.184-185.
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