TERESA FERRER PASSOS
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«O melhor do mundo são as crianças»
Fernando Pessoa
Quatro histórias sobre a infância e os seus encantos. Quatro histórias para a infância e a sua pertinente sagacidade. Eis Histórias da Casa da Torre. A criança e a sua curiosidade, a sua ingénua entrega às coisas simples da natureza, o seu sentido da descoberta. Tudo isto, sempre numa atitude de espera. A espera do que pode acontecer, porque necessariamente há-de acontecer qualquer coisa. Assim se move o mundo espantosamente belo da criança no universo literário de Fátima Passos.
Os quatro pequenos contos da História da Casa da Torre (Papiro Editora) marcam o regresso da autora à narrativa curta, mas enformada de uma grande sensibilidade às flores, aos insectos e à terra que a sua própria infância em terras de Viana do Castelo retrata com todas as maravilhas de um tempo que permanece na sua memória e nos seus afectos maiores.
Este livro intitulado Histórias da Casa da Torre revela a finura da sua escrita, transmite o dom da sua expressão literária tendo como cenário o coração cheio de tesouros da infância. Na linha de um Antero de Quintal, de um Junqueiro, e mais recentemente, de uma Sophia ou de um Matilde Rosa Araújo, Fátima Passos traçou novas histórias para a infância como se escrevesse também para qualquer jovem ou aconselhasse um adulto a renovar a sua vida com a transparência de uma criança, de novo.
Ao lado da palavra de Fátima Passos, a arte da pintora Marta Neto apresenta-nos, neste livro, o palco de toda a teatralidade da cena infantil com várias ilustrações retiradas de seus trabalhos, trabalhos em que o surreal não é mais do que a visibilidade imaginativa das crianças.
Teresa Ferrer Passos
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IMAGENS DO ESTRANGEIRO NO DIÁRIO DE MIGUEL TORGA
Em torno da literatura diarística e memorialista, Dora Maria Nunes Gago percorreu, com audácia e prolongado estudo, os caminhos diversificados de Ocidente a Oriente, descritos no Diário de Miguel Torga (1907-1995), num conjunto de 16 volumes (1941-1993), como quase a totalidade da sua obra, publicados pelo Autor. Sendo um escritor com a sua envergadura artística da palavra, trata-se de um caso pouco frequente na literatura, mas não pode deixar de se justificar pela defesa incessante da sua liberdade de revelar o seu pensamento sem se sujeitar a critérios de publicação, estranhos e discutíveis.
Estamos perante uma tese de doutoramento apresentada à Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Nova de Lisboa. Este estudo, feito sob a orientação do Professor Álvaro Manuel Machado, e que se prolonga ao longo de mais de 300 páginas, foi publicado pela Fundação Calouste Gulbenkian em 2008, ano imediatamente a seguir à apresentação e respectiva arguição desta oportuna e interessante temática desenvolvida pela autora.
Subdividindo a obra em três partes distintas, Dora Gago aborda, sempre numa atitude de análise imagológica, os vários temas expostos por Miguel Torga neste originalíssimo Diário de um escritor português, que chegou a ser candidato ao Prémio Nobel da Literatura. Ao longo da sua exposição, a autora segue os passos lentos e largos do diarista, procurando sempre encontrar fios de ligação psicológico-geográficos, fundamentando-se nos pormenores de cada uma das viagens efectuadas desde a sua juventude aos últimos anos de vida: a Europa, o Próximo-Oriente, a América do Sul, o Orientalismo chinês e indiano, partindo sempre da pátria Portugal a alongar-se, indelevelmente, pela Ibéria além.
A partir de todos os percursos do autor de O Paraíso (1949), Dora Gago frisa a importância do seu desejo de «ver a realidade íntima das coisas» (p. 173), o gosto pelo auto-conhecimento ao conhecer os outros, a contínua busca telúrica do seu torrão natal mesmo na lonjura das grandes cidades do mundo, nas grandes nações, que afinal não lhe oferecem tanta riqueza como ele desejava e esperava ansiosamente.
Assim, «o Reno é apelidado num poema de “Douro feliz da Europa”» (p. 185), Sartre é acusado de «produzir uma literatura artificial, que não exprime a verdade» (p. 267). Quando visita Goa, na Índia, diz que «de Portugal só restam igrejas e baluartes» (p. 259); na cidade de Salamanca, Torga «procura essencialmente reencontrar-se com o rosto de Unamuno, com quem partilha a sede de eternidade» (p.282).
Perante «o desrespeito pelo ser humano em detrimento dos interesses económicos dos poderosos», desconfia. Desconfia da entrada de Portugal na Comunidade Económica Europeia, porque teme as prepotências a que a sua pátria pode ficar sujeita. Não haveria o perigo de «o nosso país receber diariamente ordens alheias de culturas e cultivo?» (p.296).
As Imagens do Estrangeiro no Diário de Miguel Torga (reproduzindo também o título da obra) são, sem dúvida uma fonte de auto-definição da personalidade forte do autor. Entre o mito de cada sombra do Muro de Berlim ou a imagem individual e sensível de cada indivíduo que o diarista traça, Dora Gago analisa detalhadamente os ingredientes oferecidos e indispensáveis à literatura comparada, área a que pertence este tipo de ensaio.
Como salienta a autora, o estrangeiro é uma forma de confronto do diarista com a diferença e com as diferenças. Quer sejam os países ou as cidades da Europa, quer sejam os povos de África ou da América do Sul (em particular o Brasil), tudo tem alguma coisa a ver com o Poeta, como também há sempre alguma coisa que nada tem a ver com o autor de Poemas Ibéricos.
O encontro com a natureza selvagem que aproxima e afasta, é também um encontro com o Homem uno e múltiplo que tanto divide, como seduz. O mundo poético de Miguel Torga está presente nestes 16 volumes do seu Diário com a carga crítica e mesmo devastadora da divergência. Mas não se deixa de notar a sua marca emotiva e esperançosa do encontro que fertiliza.
A autora lembra, por exemplo, o fascínio por Veneza e o repúdio por Paris, a atenção com o Brasil telúrico e sonhador ou com a China inesperada do afecto. Como acentua Dora Gago, «por vezes o espaço estrangeiro é envolvido num processus de mitificação: o espaço na imagem da cultura, não é contínuo nem homogéneo; um pensamento mítico valoriza certos lugares, isola outros, condena outros ainda.» (p. 263).
É ao português e ao cidadão do mundo que Dora Gago se dirige quando nos lembra ainda um excerto torgueano: «”Entre Oriente e Ocidente não escolho. Todo o mundo me pertence, porque eu também não escolho entre a Ursa Maior e a Ursa Menor. Como homem e como português, o que me interessa saber é quem dá à vida mais dignidade e pureza”» (p.309).
Nesta peregrinação de Dora Gago pelo mundo imagológico do Diário de Torga, sobressai, afinal, a alma espontânea, transparente e ousada do autor de Portugal, essa pátria que está sempre presente na obra ficcional ou poética do grande escritor. Ao aliar a imaginação literária ao gosto da terra que o viu nascer, a minúscula S. Martinho da Anta, Torga cantou bem alto aquela a que não faltava, precisamente pela sua pequenez física, a grandeza de um mundo de insuspeita autenticidade e superiormente belo.
Foi precisamente essa beleza que o Diário nos transmite, que Dora Gago captou com o saber e com a força anímica da sua natureza plena de valores éticos e poéticos.
21 de Março de 2011
Teresa Ferrer Passos
* As páginas entre parêntesis são respeitantes a Imagens do Estrangeiro no Diário de Miguel Torga.
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NAS PRAIAS NOVAS DE UMA ESCRITA
Na morte da escritora Matilde Rosa Araújo (1921-2010)
«O QUE ESPERA OS HOMENS DEPOIS DA MORTE NEM É
O QUE ELES PREVÊEM NEM AQUILO EM QUE ACREDITAM»
Heraclito, Fragmento 27
Entre a literatura infantil e a literatura para adultos não criou Matilde Rosa Araújo fronteiras bem definidas. Cada um dos seus contos, cada um dos seus poemas para crianças, parecem destinados a dar glória à criança que se esconde nas máscaras das pessoas adultas.
No universo desta escritora portuguesa de cristalina água, salta à vista a sua identidade de mulher, mas de mulher que conserva quase que intacto todo o esquema mental daquilo que há de mais belo numa criança. Por isso, dividimos as suas obras em aquelas que são literatura infantil e as que são literatura não infantil. E não dizemos literatura para adultos porque em qualquer delas está o estigma da própria infância da autora de O Palhaço Verde.
Nas duas classificações de literatura estão os momentos inesperados da circunstância de conhecer um menino só, ou triste, ou sem a memória de qualquer infância; mas igualmente, a realidade da mulher que sonha, ou que confia, ou que vê a realidade sem sofismas, como se fosse uma criança.
Num presente vive toda a criança. Num presente de transparência, num presente em que não se incluem feridas por sarar, num presente aberto à novidade do caminho. Mas, para Matilde, no presente deve estar imerso e visível também o adulto. Então, a síntese é possível. O adulto pode albergar a criança, não deixando de ser adulto e sendo-o, desse modo, com mais plenitude e grandeza.
Por isso, os dois mundos – o da infância e o do adulto – que parecem opor-se, devem interpenetrar-se a tal ponto que não se agridam, nem se estranhem, antes se tornem um só. Lembremos uma passagem do conto (não infantil) «Por nada», em que Matilde Rosa Araújo nos confessa: «Nunca perguntei pelo passado a ninguém. Para quê? Nunca o quis saber. O que me interessa é o presente, olhar as pessoas no seu presente, ia a dizer do indicativo. Como são capazes de amar, viver, olhar os outros. Isso é que é importante, o eixo principal. O que sempre foi e será. Passado e futuro pertencem às contingências do caminho (...) E, assim, eu conhecia-lhe o presente do indicativo, só a paisagem que tinha em frente, sinal de um caminho» (Praia Nova, Vega, 2001, pp.89-90).
A autora de O Livro da Tila (1957) acaba de nos deixar. Do mundo ausentou-se um ser humano à medida das alturas. A tenda da mulher empobreceu. O mundo da criança perdeu uma defensora dos seus tão atropelados direitos. Nesta "apagada e vil tristeza" (como dizia Camões), com que se confrontam tantos milhares de crianças na hora que passa, há pessoas que não deviam sair deste mundo vivo.
O seu combate a favor da justiça e da fraternidade é suspenso pela "lei da morte", a que ninguém escapa. Cabe-nos, a nós, enquanto aqui estamos, manter viva a sua insubstituível herança, a sua maravilhosa dádiva, o seu arsenal de amor que deve ser "cantado por toda a parte", como também dizia Camões.
No próximo mês de Outubro, um texto seu, inédito, será publicado pela editora Calendário. O nome que a autora lhe deu foi simples, infantil, como tudo o que escrevia e fazia Matilde: Florinda e O Pai Natal. Um novo livro para a infância. Matilde Rosa Araújo aqui está. No meio de nós. A fazer de conta e a ser na memória do que sentenciava no conto «Praia Nova» (p.97): «E ela que tivera sempre tanto medo, tanto medo da morte! Lembra-se de, quando era pequena, levantar-se de noite, agarrar-se aos ferros da cama (que cama tão fria e de grades teve até ser mulher) e murmurar num repetir assustado: Nunca, nunca hei-de morrer!». Na hora da despedida, aos oitenta e nove anos, dizemos a Matilde Rosa Araújo: a arte com que olhou as crianças não morre.
7 de Julho de 2010
Teresa Ferrer Passos
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A POESIA, «FIO DE ARIADNE» PARA UM ROMANCE NOVO
EM JOSÉ SARAMAGO?*
O que é a palavra? O que são as palavras? Para que servem? Porque as usamos em todo o nosso pensamento mesmo sem ser dito, mesmo sem ser escrito? Como podem maravilhar e como podem ser cruéis? Como parecem um labirinto atroz e como se ordenam tão perfeitamente? Perguntas, muitas perguntas, colocava a nostalgia no espírito do jovem José. Mesmo quando a mecânica ensinava as suas mãos a conceber ou a montar objectos de ferro forjado, interrogava-se sobre o sentido das estrelas a brilhar nos céus de Azinheira, procurava descobrir porque gostava tanto de livros - ele que só os conhecera para aprender na escola as primeiras letras -, tentava encontrar uma explicação para a morte ter colhido o avô Jerónimo, quando ele amava as próprias árvores do seu quintal, como se de pessoas amigas se tratassem.
Mais tarde, depois do trabalho, tornou-se assíduo leitor das bibliotecas públicas. Era preciso ler os poetas, os romancistas, aqueles que lhe podiam ensinar a arte da escrita, ainda que sem a orientação de professores, um pouco ao acaso, desorientado por vezes, mas sem desistir do seu intento, sempre incansavelmente. Como gostava de, um dia, começar a escrever, afinal, ser um escritor! E ser escritor era para o jovem José uma reflexão sobre a vida e os seus absurdos…
Guiado talvez pela beleza da persistência, ainda que trémula, de uma daquelas estrelas que vira no céu em casa do avô Jerónimo e da avó Josefa, decidiu ser todo uma só vontade, todo um atrevimento e lançou-se no voo alto de escrever. Aos vinte e quatro anos, enviou a um editor o romance A Viúva. Mas o editor chamou-lhe Terra do Pecado. Era o ano de 1947. O livro, ignorado pela crítica, acabaria a ser vendido numa padiola e o autor pensou que «o futuro não teria muito para lhe oferecer» («Aviso» inserido na 2ª edição, datada de 1997).
Assim, somente em 1966, ou seja, dezanove anos depois da primeira edição de Terra do Pecado, José Saramago publicou um conjunto de poemas cujo título sugere a insegurança com que aventurava, pela segunda vez, penetrar o campo das letras: Os Poemas Possíveis (Lisboa, 3ªed., Caminho, 1985). Possíveis, ou seja, que lhe pareciam capazes para os dar à estampa. Quereria fazer melhor, mas as palavras não tinham saído. Contudo, seria a rampa de lançamento para, de novo, regressar à narrativa longa, discursiva, de grande fôlego, o romance. Como em Terra do Pecado, a grande temática, ou o tema-chave é a religião. Neste seu primeiro romance, toda a narrativa gira à volta do ritual religioso ou da religiosidade das personagens; mais do que uma fé virada para a acção, ou seja, tendo em vista a prática do bem, há nas personagens uma crença mais sujeita à superstição do que à fé, mais repetitiva do que espontânea, mais fictícia do que sincera.
É um certo tipo de sentimento religioso que José Saramago rejeita e condena vivamente, sempre numa busca incessante e obcecada de racionalidade para tudo o que o cerca. Neste contexto, surgiram muitos dos versos de Poemas Possíveis: «Ouvem-me calados os deuses» e «Aos deuses sem fiéis invoco e rezo» (poema «Aos deuses sem fiéis», p.84), são duas expressões que evidenciam bem como o autor olha a religião, mas mais do que a religião, aqueles que se lhe dizem fiéis. Afinal, há deuses sem fiéis, ou seja, há «fiéis» que não são fiéis aos deuses. É a esses deuses que os fiéis desconhecem, porque não entendem o sentido da sua ética, que o poeta invoca e reza.
Esses, que não têm quem diga adorá-los e servi-los são bem diferentes daquilo que essas pessoas julgam, porque, na verdade, esses é que existem, ou melhor, só esses são benéficos. São esses que os devotos ignoram, desprezam, silenciam, impiedosamente, se, de facto, existem: Ao verso «Deus não existe ainda, nem sei quando», acrescenta o autor, mais adiante, outro em que diz «Que o sentido da vida é este só: / Fazer da Terra um Deus que nos mereça, / E dar ao universo o Deus que espera» (poema «Criação», p.82).
No poema «A um Cristo Velho» (p.86) sobressai a amargura, a revolta, a rejeição e mesmo o terror perante aquele Cristo: «De caruncho mordido, desprezado, / Coberto da poeira que envenena». Aí, aflora a crítica do poeta àqueles que fingem segui-lo, que dizem nele acreditar. Mas, no modo como nele acreditam não fazem mais do que reduzi-lo, inferiorizá-lo, humilhá-lo. E no poema «Judas» (p.87), José Saramago é ainda mais tempestuoso, mais acutilante e avança ao dizer que «Sem Judas, nem Jesus seria deus». À sua revolta junta-se a angústia. O poeta procura, sem encontrar, um significado para o sacrifício de Judas e só o encontra no próprio Cristo (cujo sacrifício também não aceita): entre os doze fora o discípulo escolhido para ser o traidor; estava condenado, sem apelo, a não ter liberdade para escolher não o entregar àqueles que o queriam matar. Ele nem sequer sabia que se o não fizesse, Cristo não podia cumprir a sua missão, a missão que Deus lhe atribuíra. O problema da liberdade humana é aqui questionado tendo quase sempre por pano de fundo a crucificação de Jesus.
A religião surge em Os Poemas Possíveis como a expressão do que tanto preocupa José Saramago: a injustiça e os aviltamentos da liberdade humana, sem esquecer a desigualdade, existentes em muitas formas de religiosidade chamada cristã. Um mundo ocidental construído sob a égide da Igreja Católica e disposto a segui-la, desde há muitos séculos, não foi capaz de edificar uma verdadeira civilização, uma civilização de amor, em que por irmãos não nos tratássemos, mas como irmãos, sem o pensarmos, nos comportássemos. Por isso, escreve: «A qual de nós engano quando irmão / Nestes versos te chamo?» (poema «Fraternidade», p.75); «Este mal estar no mundo e nesta lei: / Não fiz a lei e o mundo não aceito» (poema «Não me Peçam Razões…», p.116); ou ainda: «Foi Deus chamado aqui e não falou» (poema «Sé Velha de Coimbra», p.88); «este mundo não presta, venha outro.» (poema «Demissão», p.78); «Não há mais horizonte. O silêncio responde. / É Deus que se enganou e o confessa» (poema «Não há Mais Horizonte…», p.92).
O poeta grita, em cada um dos seus versos, a angústia do sofrimento que o percorre, concluindo que só lhe resta «Viver iradamente como um cão» (p.75). Apesar disso, tem a esperança de tudo poder denunciar, ainda que mal-humorado, indiscreto, irado. Há muito calou a sua revolta. Chegou a hora de começar de novo, dizendo tudo o que recolheu na sua memória em agonia ao longo de uma vida desencantada e, por isso mesmo, plena de razões para a saber medir, a perscrutar até ao pormenor e até ao sem limite. Os versos são a libertação depois de tanto tempo silencioso, aparentemente silencioso, por jamais aceitar a ideia de que a palavra do poeta se perderia. E, deste modo, cada verso é um longo discurso, cada verso possui dentro de si um romance longo, cada sílaba detém a letra de cada palavra à espera da hora de se alongar e dizer em mil páginas tanta coisa só esboçada no verso curto e nos curtos poemas deste livro preenchido por uns simples Poemas Possíveis.
Nesta amálgama de poemas, a religião surge enfatizada, já na linha do seu longínquo e promissor romance de juventude Terra do Pecado. Todos os seus romances, peças de teatro, novelas ou memórias, publicados, posteriormente, reflectem como a temática religiosa tem um cariz obsessivo em José Saramago. Lembremos A Segunda Vida de S. Francisco de Assis, Memorial do Convento, Evangelho Segundo Jesus Cristo ou In Nomine Dei. De facto, toda a obra romanesca de José Saramago pode encontrar-se, nas suas linhas mestras, esboçada em Poemas Possíveis. Como o próprio Saramago reflecte em Nota da 2ª edição desta obra, «nele teriam começado a definir-se nexos, temas e obsessões que viriam a ser a coluna vertebral (…) de um corpo literário em mudança».
E é precisamente na arte poética que o escritor encontra a primeira forma de se afirmar, de se definir sem ludibriar, sem se esconder sob qualquer subterfúgio menos sincero. Essa será uma das características mais fortes de toda a sua escrita. Nos seus discursos narrativos está sempre presente a espontaneidade, a transparência, como se o seu eu se revelasse a si próprio, com toda a lhanura, ao revelar-se aos outros, sem disfarçar a rudeza das palavras e dos sentimentos, sem omitir o inconveniente, sem saber sofisticar, antes revelando-se, expondo-se até ao íntimo, como se tudo lhe faltasse dizer, como se tudo ainda estivesse por declarar. Está preparado para receber o juízo mais duro, a condenação mais cáustica. Mas não abdica da irreverência num desesperado impulso de, criando, transformar o mundo que o intimida pelo ódio que respira e lhe provoca toda a agressividade da vítima da agressão, da vítima da humilhação vil e dolorosa.
Decide avançar para a batalha da acção e, sem medo, quer criar a consciência de que contentar-se é morrer, não desesperar é acomodar-se ao mal vencedor. E critica desapiedadamente. É a única arma que lhe resta: mundos novos elevem-se depressa, antes que já nada seja possível, antes que a humanidade se contente com a miséria, com a fome do corpo e do espírito. Na palavra e pela palavra se elevam os ideais que se têm de tornar realidade, que devem ultrapassar os sonhos, porque «Há que dar sem medida como o sol» (poema «Regra», p.112). Como diz já José Saramago em Poemas Possíveis, «Um novo ser me nasce em cada hora. / O que fui já esqueci. O que serei / Não guardará do ser que sou agora / Senão o cumprimento do que sei». E guardou, guardou até à hora de receber o Prémio Nobel da Literatura em 1998. Então, o narrador sem cansaço persistiu na guerra de dizer o que no mais íntimo de si guardava ainda: a memória da sua infância a que o avô Jerónimo e a avó Josefa souberam abrir os belos livros das suas almas, das suas sensibilidades, a serem lidas pelo pequeno José nas estrelas, na calma dos crepúsculos, na finura da terra, no saber das árvores e das flores e de cada erva onde encontrava os tesouros maiores da Criação.
Nesses tesouros desenhou a sua vontade férrea. Paradigmaticamente, como se trabalhar o ferro lhe fosse familiar, aprendeu a dar a forma desejada como se de simples grãos de areia se tratasse. Depois, com o ferro a transmutar-se, mais e mais, na sua alma, sem vacilar, foi caminhando e abrindo sulcos sobre as palavras como se fossem a terra arada. A partir de breves versos ensaiou meditações que podemos descobrir nos discursos narrativos dos seus futuros romances, eivados de dialéctica e labirinto e criados na mágoa e na paz de toda uma nova ordem para o mundo.
Em Poemas Possíveis, o poeta é veemente: «Não há morte. Nem esta pedra é morta, / Nem morto está o fruto que tombou» (p.135). Na imortalidade de escrever, José Saramago é o acto sem fim, e na metáfora da vida subiu ao Olimpo dos humanos que não vergam e são fiéis aos deuses porque a si próprios são fiéis. Tudo, enquanto existe, é a eternidade e nada morre só porque a lei da morte ainda persiste.
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SOBRE A ARTE DO CONTO EM LUÍSA ATAÍDE
«Na verdade, um escritor nunca está só. Na verdade, um escritor tem a divindade nos dedos ao criar pessoas, escrever estórias e decidir destinos»
Luisa Ataíde “O Entregador de livros” (Crónica)
Entre o sonho e a escrita há milhões de chaves de cofres entreabertos. Entre estas chaves gostaria de colocar a contista brasileira Luisa Ataíde.
Mas as chaves procuram a fechadura de um secreto jardim. É um jardim de magnólias. A magnólia, uma flor que pode ser também o nome de uma mulher tal como acontece no conto “O Rouxinol e a Cotovia”. Eis pertinho de nós essa mulher-personagem que se transfere da alma da escritora para a folha de papel, com todo o mistério da escritora e da personagem: “Se pudesse, eu escreveria tudo que vivo num diário e depois de findo o dia, voltaria ao passado, estendida sobre uma cama com lençóis branquinhos”. Rebuscando-se e desocultando-se, há um sentido novo e inesperado neste, como o há igualmente em muitos outros dos seus contos.
Encontramos, a cada momento, Luisa Ataíde a escrever com a singeleza e a criatividade de um princípio do mundo. Cada conto é uma história a que Luisa Ataíde transmite uma novidade, uma intensidade desconstrutora daquilo que ultrapassa a lógica. Essa mesma lógica que transborda do real. Real e aparência, lógico e irracional, verdadeiro e falso entrecruzam-se como num bailado, na escrita de Luisa Ataíde.
Na autora de «O Cemitério de Estrelas» ̶ um dos seus mais belos contos ̶ a literatura é uma reconstrução a partir de ruínas. O mundo é representação de alguma coisa que não está lá, mas que nós lhe atribuímos. E a atribuição de alguma coisa mais ao mundo é transferida para a força imagética presente nos contos de Luisa Ataíde. Escreve em «O Rouxinol e a Cotovia»: “Enquanto todos dormem espero o sono que ronda o quintal lá fora”. Em «Ponte sobre Almodóvar», destacamos a frase: “Das paredes nasciam lentamente as vibrações da música”. E do conto «O Cometa Azul», não resistimos a esta metáfora: “O Menino passou naquela casa, que nem era realmente uma casa, apenas uma semana”.
No site internético “Harmonia do mundo” têm sido publicadas muitas destas peças literárias que nós colocaríamos na linha de Clarisse Lispector ou de Fernando Pessoa. O som e a voz inaudível de Luisa Ataíde são a plenitude na escrita densa e simples desta autora nascida no Rio de Janeiro, em 1957.
Canditata a alguns prémios literários, desde o «Prémio Rachel de Queiroz (2º Concurso Literário)», a «Anjos de Prata» e ao «Delicatta – Projecto Literário», em todos ficaria classificada em primeiro lugar. Os poucos contos publicados em livro estão esparsos por Colectâneas, mas não estão reunidos em obra de sua exclusiva autoria. Esperamos ver, em breve, a reunião de todos aqueles textos que têm estado a ser publicados apenas em site ou blogues internéticos.
No caótico cenário da criação primordial a autora molda cada palavra como se fosse ainda uma palavra desconhecida, esquiva e sem um destino. Tudo nela está envolto numa poeticidade de raiz. “As lembranças estavam se tornando branquinhas como areia entre os dedos e distante como um canto de infância”, escreve Luisa Ataíde em «O Poço dos Desejos». Em «Os Girassóis Azuis», avança: “A parede da sala de jantar é de vidro e pode-se ver o vento balançando as pétalas grandes”. No conto «A Caixa», diz a certo passo: “Tentou olhar o planeta mais de perto e olhou o endereço entre os dedos”. Transcrevemos ainda uma passagem de «Quartos Crescentes»: “O relógio sobre a mesa insiste em dar voltas em torno das três horas”.
A surrealidade é uma marca do conto de Luisa Ataíde, mas essa surrealidade assume uma inegável importância porque imbuída de uma candura inexplicável a tocar aquilo que há de mais belo na natureza humana.
Podíamos multiplicar os exemplos da riqueza metafórica e do esplendor artístico do conto surrealista de Luisa Ataíde. Cada conto de Luisa Ataíde é uma obra de arte. As palavras surreais, adivinhando-se nas significações e nos sentidos, tocam o céu com o toque do realismo naturalista presente num humano a transcender-se na imaginação da construção literária.
Os jogos das palavras articulam-se com os jogos das ideias e estes emaranham-se nos jogos das significações que se enovelam, por sua vez, com os jogos dos sentimentos forjados nas tempestades da vida quotidiana, designadamente da mulher.
Em todos os contos de Luisa Ataíde há uma poética que joga incessantemente com as entrelinhas da arte da escrita. Com a ingenuidade lúdica com que cobre a literatura, Luisa Ataíde inscreve-se na mais alta ficção de Língua portuguesa.
A sua sabedoria descobre-se a cada frase. O seu domínio da palavra traça-lhe um lugar de destaque na arte de construir novos edifícios na ficção. Com um sentido da arte de escrever apurado, transmite o sonho como se fosse um devaneio que só tem verdadeiro sentido quando a conduz à escrita.
A autora de «O Cometa Azul» ou de «Deixai Vir a Mim» revela a força da palavra a transfigurar-se em artista do conto. Aqui está Luisa Ataíde a escrever pequenos contos de encantar, como se cada um deles fosse uma vida inteira. Em cada um deles vive sempre o delírio da sua enorme criatividade literária. Com a arte ao serviço da imaginação, arrisca as palavras como se pintasse uma pequena tela. Aqui a pintura que ela não tem também deixado de cultivar.
Com as palavras, Luisa Ataíde desenha enredos labirínticos e solta deles um cântico poético. As palavras entrecruzam-se num discurso diegético de claro-escuro, em que emerge uma verdadeira teia teatral, como se fosse uma irrupção vulcânica de sentidos. A propósito, relevo uma passagem do conto intitulado «No coração de Bodhisattva Guan-Yin»: “O primeiro diagnóstico que recebemos era uma palavra feminina e grande”. Aqui vemos Luisa Ataíde correndo atrás das palavras como se elas fossem os únicos sinais ou os guias exclusivos de uma vida entrecortada por estranhas formas de vida.
Em cada um dos seus belos contos somos confrontados com um mundo a tocar a simplicidade de uma chávena de café ou de um canto de ave ou, muito simplesmente, de um silêncio cortado pelo perfume do incenso.
Lisboa, 25 de Março de 2010
Teresa Ferrer Passos
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Em Homenagem a José Manuel Capêlo
(29/1/1946-25/2/2010)
este pequeno artigo, breve memória da sua bela poesia
UMA PERSPECTIVA DE ODES SUBMERSAS*
DE JOSÉ MANUEL CAPÊLO
Odes Submersas é um conjunto de poemas recolhidos pelo autor a partir de outros títulos anteriormente dados à estampa. Não sei se terá escolhido os melhores. Quem pode ser juiz da sua própria obra? Quando o autor selecciona não privilegiará sempre o que mais profundamente sentiu, o que mais longamente pensou, o que mais dramaticamente idealizou, descorando assim os mais perfeitos esteticamente? Acreditamos que isso não aconteceu. Julgar-se a si próprio é uma arte. E, de facto, José Manuel Capêlo revela, tem revelado, ao longo do seu percurso poético, uma especial habilidade para se desocultar, para se oferecer todo e inteiro aos «julgadores».
Com uma disponibilidade ímpar, a sua alma abre-se como as flores na Primavera. José Manuel Capêlo sabe olhar de fora para dentro, tão dentro de si, que o texto torna-se uma dádiva, talvez uma oferenda de poeta no altar do deus Apolo, que venera e cultiva, ainda que pareça emudecido.
Ao abrir Odes Submersas surge paradigmaticamente a «Ode do pequeno órfão». Significativamente é dedicada ao pai. Esse pai que só percepcionou brevemente e que foi para ele uma estrela a esfumar-se no horizonte imemorial da infância. No reino da memória está apenas um nome. Pai. Na terra do esquecimento aparece a imagem da sedução, de abraço, de lágrima: «Há dentro de mim, o teu sorriso, a tua boca, a tua alma. O nosso reino será, sei-o, o infinito do nosso encontro!» (p.7)
A imagem paterna é uma constante da poética imanente e a transcender-se de José Manuel Capêlo. A romper com as barreiras da cidade desenhada no grotesco, na loucura dos desatinos ou nos absurdos da normalidade, José Manuel Capêlo tece em cada poema uma «ode natural» e uma outra «infinita». A revolta dilacera-o. Tudo não passa de uma arena, de um teatro, de um circo. O poeta está neles irremediavelmente. Pensa mesmo que só lhe resta «o sangue, o sexo e as palavras». Afinal, tem ainda «o sofrimento dum cego que toca a concertina / a tristeza dum pobre que toca ao coração / o choro de um vadio que se enrosca na noite / o silêncio pesado no véu duma viúva/ a agonia lenta de dois filhos órfãos» (p.11).
A orfandade prematura do pai é o grito mais fundo do poeta, de novo. Então, pergunta: «Quem inventou a minha infância?» (p.13). Apenas uma senhora de luto, sempre de negro: «O luto na alma. Dois órfãos, menores, pequenos, muito pequenos, eternamente pequenos» (p.13). Eternamente criança é o poeta órfão da referência paternal e a deambular pela rua Pascoal de Melo «a fustigar o vento», a espreitar da pequena janela da sua rua de dois sentidos. Dois sentidos como ele próprio tem, embora só «aparentemente» (p.15).
O gosto pelas «madrugadas passageiras» revela a busca do nocturno, inefável e obscura noite da memória. Num secreto luto, que remonta à infância, o poeta olha. E «na incógnita noite (vê) os rastos do poema». Só o poema o agita até à exaustão. O sexo, o suor, o gesto desvanecem-se na sua memória tão rapidamente como se escoava o tempo em que via a tutelar imagem paterna. Tudo passa tão depressa. Sabe-o desde a infância, mas não se cansa de o repetir:
«(...) Tragam cânticos negros e odes triunfais
dispersão e mulheres de luto
o antónio-só clepsidra e as sombras e as vozes
cezanne van gogh picasso modigliani dali
almada amadeo bual lud seixas osório
um exército de não soldados que lutam pela eternidade(...)» (p.20)
E na noite revestida de poemas emerge a «Ode idêntica» que dedica às suas filhas. «Para mim, só há mulheres!» grita com o medonho grito da memória do pai. Sempre a sua ausência, a solidão desse frustrado destino sem paternidade:
«(...) Para mim, só há mulheres!
Nuas, tão nuas como os vestidos que trazem postos
como as gravatas dos homens decentes
Os beijos de infantis crianças (...)
Ah! como é bom sentir-te, noite
felina, fêmea, criatura, relógio, semi-círculo (...)» (p.23)
Gosta da noite... porque é feminina. Na sua envolvência sente-a com uma força cósmica avassaladora e total de uma infância aprisionada entre duas mulheres: a mãe e a irmã estão ao lado da ausência de si próprio na imagem paterna. Atravessa-a decepado da imagem viva, émulo, identidade.
Com poemas constrói a sua pequena casa. A casa do ser masculino. Com poemas cria o viril, a masculinidade que o próprio vocábulo possui. Procurar dizer-se, querer ser homem pelo verso através de todos os lugares que sente em si, sem ter nenhum. A saudade está viva na alma, na entrega a todos e a buscar-se em ninguém.
«(...) Há saudades nas pernas e nos braços
Há saudades no cérebro por fora
Há grandes raivas feitas de cansaços (...)» (p.29)
José Manuel Capêlo é um poeta de emoções a soltarem-se da emoção primordial a desencantar-se da origem e a vibrar no presente desconstruído em formas em que não encontra a sua forma, em vias em que não encontra a sua via, em mares em que não lobriga o seu mar. A ideia chave de toda a sua vida transfigurada em poemas de ardência e desespero, pode desvendar-se ainda em poemas como «Aos quarenta e oito anos da morte prematura» dedicado a Fernando Pessoa ou em «Eterna serenidade» em memória de Raul de Carvalho. Neste último é o poeta que renasce no nevoeiro, encoberto como uma alma a reinventar-se e a ser o nada:
«(...) E se tu não existisses? Se apenas fosses
um secreto lugar onde se escondem as montanhas? (...)» (p.35)
O que não existe terá existido ou nunca existiu? E se o pai imerso na memória não tivesse existido? Se fosse apenas «um secreto lugar onde se escondem as montanhas?». Por isso, o poeta escreve ainda: «Amanhã é nunca. Porque é sempre. E nunca saberemos se nos encontramos e se tudo foi hoje. Ou se foi verdade. Ou se nada passou de uma invenção.» (p.39). Com estas palavras carismáticas termina Odes Submersas. Ao longo delas reinventou o pai. A sua invenção tornou-se visibilidade. A luz ofereceu-a o poema. Os seus contornos dispersos em gotas de nada dormem (não estão mortos) em cada um deles. Na agonia de o desconhecer, tendo-o visto pela última vez com três anos de idade, ressurge a unidade irredutível do filho órfão e a ter ainda na sua própria identidade a parcela viril do pai. As mulheres tornam-se efémeras, ante a Imagem. Delas só ressaltam as negras vestes de sua mãe.
Teresa Ferrer Passos
*José Manuel Capêlo, Odes Submersas, Átrio, Colecção O Lugar da Pirâmide, nº 40, 1995.
Fonte: Gazeta de Poesia - Revista de Literatura, Ciência e Artes, Nº6,Out./Inv.1995, pp.10-13.
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A POESIA MUSICAL DE GUERRA JUNQUEIRO
Vivemos um tempo marcado pela procura de alternativas estéticas. Mas também um tempo de proliferação da chamada literatura de consumo. Uma literatura que as massas consomem porque estão ávidas de notícias, de informação, de desvendamentos de segredos encobertos por religiões ou por redes terroristas que tanto anunciam fins de civilizações como começos de outras. Talvez por isso estamo-nos a integrar, cada vez mais, em correntes artísticas obcecadas com a rejeição da estética e da ética, ambas assentes na busca de uma sociedade mais bela, mais fraterna e mais justa.
Vivemos num exorbitante apego ao uniforme, ao gosto do visual que escandaliza e é imediatista, às narrativas onde perpassa apenas a informação pura, sem uma centelha de criatividade. Escasseiam os escritores que vivenciam os sons e os tons dolorosamente. A contemplação é vista como uma atitude desnecessária. A arte criativa começa a confundir-se e um mundo super-abundante de fórmulas “tecno-lógicas” desorienta-a e ofusca-a. O ambiente da cultura portuguesa empobrece, sem que se veja uma tomada de posição frontal, sem um ruído mais forte, sem que aqui apareça, afinal, um homem com a envergadura mental desse Junqueiro que afrontou o rei D. Carlos como um traidor à pátria ao assinar o Ultimatum inglês sobre a região africana entre Angola e Moçambique...
Vendem-se, hoje, livros que “pesam” centenas de páginas. São textos ficcionados a que chamam romances, para serem produtos digeridos por um leitor que é apenas um consumidor, não um crítico. Premeiam-se com generosos cheques capas de quinhentas ou seiscentas páginas de informações captadas nas redacções dos jornais e das televisões, não se premeiam obras que valorizam o humano. Ora estes esquemas socio-culturais, se têm aparência livresca, não pressupõem uma reflexão com vista a construir um mundo como aquele que tinha em mente Guerra Junqueiro.
É neste contexto literário que acabamos de conhecer um ambicioso projecto a tomar forma no Departamento de Som e Imagem da Escola das Artes da Universidade Católica do Porto, tendo como seu criador e principal mentor Henrique Manuel S. Pereira. Como ponto de partida está já de pé um blog http://guerrajunqueiro.wordpress.com/ e Website exclusivamente dedicado a Guerra Junqueiro (1850-1923) e à sua obra, e que se chama Revisitar / Descobrir Guerra Junqueiro: http://artes.ucp.pt/guerrajunqueiro/
Neste Website está o fulcro do projecto que nada poderá definir melhor que o nome de Junqueiro, o Poeta português que fez da estética, da justiça e do pensar, uma arte superior. Uma arte que procurou lançar as bases modernas de um novo edifício estético e ético ao serviço do pensamento, o mesmo que é dizer do Homem. A dimensão de Junqueiro vai muito para além do seu próprio tempo. Por isso, não deixa de causar estranheza que esta dimensão ainda não tenha atingido toda a amplitude que a palavra envolta numa profética obra faria prever.
O projecto Revisitar / Descobrir Guerra Junqueiro é ciclópico. E não se afasta das ousadias futuristas do próprio Junqueiro. Sem medo ou constrangimentos oportunistas, Junqueiro disse sempre a verdade, doesse a quem doesse. Segue-o Henrique Manuel Pereira. Coordenador do projecto iniciado com este Revisitar / Descobrir Guerra Junqueiro, dá-lhe agora um novo corpo, uma nova amplitude, com uma publicação que é um notável contributo para a estética (e também a ética nunca ausente) junqueiriana.
Trata-se de A Música de Junqueiro, um livro a que se juntaram dois CD’s ilustrativos da importância da musicalidade do verso na própria composição de música erudita. Com um Prefácio e a coordenação científica de Henrique Manuel Pereira, tem ainda notas introdutórias de Joaquim Azevedo e Miguel Real, e nótulas musicais de Ana Maria Liberal, Fernando C. Lapa e Nuno Júdice. A Música de Junqueiro nasceu na Escola das Artes da Universidade Católica do Porto e conta, entre outros, com o apoio da Comissão Nacional para as Comemorações da Implantação da República.
Há vários anos que Henrique Manuel S. Pereira tem dedicado ao autor de Finis Patriae (1891), numerosos estudos em que privilegia aspectos eivados de pormenores, tantas vezes desconhecidos e/ou esquecidos pela primazia dada a generalidades de circunstância. Com A Música de Junqueiro uma luz nova foi lançada sobre a alta personalidade do Poeta de Freixo de Espada à Cinta.
Mas esta obra, abordando a vertente menos enfatizada no autor de Os Simples, é também um marco no corrente ano de 2010, pois nele se comemora o 1º centenário da Implantação da República, nesse agitado e emocionante dia 5 de Outubro de 1910. Com o regime republicano, Junqueiro teve sempre uma relação privilegiada, quer antes, quer depois da vitória alcançada com a revolução que levou o povo ao poder. Em simultâneo, completam-se 160 anos sobre o nascimento do grande vate. De facto, A Música de Junqueiro pretende comemorar um momento especial para este Poeta que cantou o povo, a justiça e a fraternidade entre os homens, em poemas eivados de uma sensibilidade estética fora do comum, mesmo nos maiores Poetas portugueses.
Como acentua Henrique Manuel Pereira no Prefácio a esta obra (acabada de editar em Dezembro de 2009), encontramos na estrutura da obra poética de Junqueiro «todo um vasto leque de matizes, de processos técnico-compositivos, retórico-estilísticos, ideo-temáticos». E, mais adiante, referindo-se a palavras escritas pelo próprio Junqueiro sobre a arte do poeta: «o poeta deverá “ser o cantador (…) porque a desarmonia é o pecado”»1.
Na contra-capa de A Música de Junqueiro são inseridos, em conformidade com os objectivos em vista, os dois CD’s com 44 composições musicais assinadas por 23 compositores, tendo por fonte temática dezoito poesias do autor de Pátria (1896). Este acervo poético originou a concepção de canções de compositores como Cláudio Carneiro, Viana da Mota, Fernando Lopes Graça, Fernando Valente, Tomás Borba ou Manuel Ferreira Patrício.
Numa época em que a poesia perdeu muita da musicalidade que a tornava uma arte próxima da música, a recuperação pública das obras de Junqueiro reveste, sem dúvida, grande relevo na cultura literária dos nossos dias. A este propósito, não podemos esquecer algumas palavras de Henrique Manuel Pereira, a finalizar o seu incisivo Prefácio: «Assim se entende que Fernando Pessoa (1888-1935) afirme que “de um canto à luz tira Junqueiro uma das maiores poesias metafísicas do mundo” (…) e que Teixeira de Pascoaes (1877-1952) reitere: “A Oração à Luz é a nossa maior obra musical”»2.
O livro inclui várias entrevistas a intérpretes das canções, como Maria de Lourdes Resende, nótulas sobre os compositores junqueirianos da autoria de Ana Maria Liberal, páginas fac-similadas com versos do autor de Pátria, fotografias, entre outras fontes recolhidas para enriquecer esta colectânea daquilo que podíamos designar por pequenos tesouros de Junqueiro. A terminar, inclui-se uma Biocronologia do Poeta seguida da capa fac-similada da 1ª edição de Oração ao Pão (1902). Neste breve ensejo, deixamos um fragmento do início do poema:
«Num grão de trigo habita
Alma infinita
Alma latente, incerta, obscura,
Mas que geme, que ri, que sonha, que murmura…
Quando a seara é ceifada, acaso o grão
Terá dor? Porque não?!
Um grão de trigo,
Mil anos morto num jazigo,
Dêem-lhe terra e luz,
E ei-lo germina e cresce e floresce e produz»3.
Com reduzido recurso aos vocábulos, com a singeleza em cada verso, a poesia (e também toda a prosa) de Guerra Junqueiro oferece uma imagem imbuída de beleza invulgar, porque cada termo é usado com a leveza de um traço pictórico. Na harmonia das estrofes deste poema se inscrevem palavras em que o ritmo e a cadência se enunciam. Cada composição musical gravada em A Música de Junqueiro, surge como se fosse apenas mais um verso, um simples verso saído da pena de um talento ímpar nesta arte, Junqueiro.
28 de Janeiro de 2010
Teresa Ferrer Passos
1 A Música de Junqueiro, Escola das Artes / Som e Imagem, U.C.P., Porto, 2009, pp. 17-18.
2 Ob.cit., pp. 28-29.
3 Ob.cit., p. 63.
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«O TEMPO DE TERESA FERRER PASSOS»
DIÁLOGO COM Floriano Martins
FM Creio que poderíamos começar esta nossa conversa pelo tema da heteronímia, buscando entender afinidades e desencontros existentes entre Teresa Bernardino e Teresa Ferrer Passos. Até que ponto se verifica uma despersonalização coerente com recursos estilísticos, por exemplo, empregados por um e outro personagem, ou, ao contrário, o assunto atende apenas a um expediente acadêmico?
TFP A heteronímia é um sofisma humano. Nada a consolida, nada a eterniza. Tudo a deforma e faz ganhar pó. É uma azeda construção. Possui, em si, cadáveres amontoados na valeta da alma quebrada e triste. O não é o heterónimo do sim. O sim, o heterónimo do não. Os meus nomes são voos rasteiros e atormentados de uma cinza fátua a digladiar-se com a minha consciência derrubada de sons denunciadores de vidas sem medo, cheias de uma audácia sem prémio algum. Os meus nomes literários - Teresa Bernardino, Teresa Bernardino Passos, Teresa Ferrer Passos, Teresa Ferrer - construíram-se a partir do meu nome a tracejado, ora um, ora outro, reescrito, desfeito ou arrasado como ruínas de casa nunca erguida. Estes heterónimos têm o ponto comum da verdadeira identidade, uma só, a identidade que é, Teresa. Como tantas outras igual a si, só igual a si própria, tenha que apelido tiver a juntar-se-lhe. Na igualdade possui o diverso: umas vezes, nas obras várias um só nome, outras, na mesma obra dois nomes - é exemplo disso o romance "O Segredo de Ana Plácido" assinado com o heterónimo Teresa Ferrer Passos na 1ª edição de 1995 e com o heterónimo Teresa Bernardino na 2ª edição de 2000 (edição revista). Um nome é uma falácia da realidade, não a realidade. Um nome envolve-se em ignorância de um eu que muitos (ou todos) podem destruir por falta de identificação ou reviver em si mesmo por sintonia. Os meus heterónimos nasceram de tempos a contradizerem-se no antes e no depois, na destruição à flor da pele crestada de Sol ou na reconstrução da vida incerta, vacilante e a olhar o ser já sem ser quem era e ainda a ser.
FM Teus estudos críticos não deixam de caracterizarem-se também por sua abordagem histórica, ao mesmo tempo em que afinados a uma fluidez estilística bastante atrativa. Recordo uma provocação de Jorge Luis Borges ao dizer que os historiadores contemporâneos haviam perdido a capacidade de prever o passado. No ambiente da crítica literária, de que maneira verificas alguma falta de sensibilidade em relação à tradição e como este ocasional comportamento traz prejuízo para a construção de um corpus crítico mais afinado com nosso tempo?
TFP A tradição está, na sociedade contemporânea, em decadência. Os valores tradicionais caíram quase num vazio, estão à beira de sucumbir, de ser aniquilados. Ou sobreviverão em minorias resistentes? Se estas não se manifestarem, não serão preservados. Os maus escritores dão origem a maus leitores, do mesmo modo que os maus moralistas dão origem a maus anti-moralistas. Poderia prosseguir com outros exemplos. A crítica literária recebe as obras literárias que rejeitam a tradição, logo essas obras são escritas não a tendo em conta. A crítica literária com a mesma ordem lógica, sendo coerente com a norma social vigente maioritária, apresenta-se também ignorando a tradição. A crítica literária e a literatura inserem-se numa sociedade materialista e tecnológica que assim rompe com a tradição. Veja-se a implantação do reino do computador e de todos os seus tentáculos, tais como os meios “tele-móveis” e “inter-néticos”. À tradição da escrita e da comunicação social só resta apagar-se ante o gigante que se ergue e estonteia a sociedade actual. Tudo começa a confluir num único sentido maioritariamente. O peso da novidade atrai e, desse modo, abate com facilidade o peso da melhor tradição.
FM Mas está evidente que continuamos a confundir meio e mensagem, pois a novidade tecnológica não define o âmbito estético, por mais que lhe permita maior perspectiva de experimentação e circulação. Não podemos esquecer que o surgimento da escrita, lá atrás, foi um grande avanço tecnológico a romper com alguma “tradição”. Observando teu raciocínio inicial, indago então a respeito do comportamento das “minorias resistentes” em Portugal, em termos de preocupação com o balanço e renovação da crítica literária.
TFP A grande mudança, diríamos mesmo, a revolucionária mudança, ocorrida desde as últimas décadas do século XX, foi a velocidade a que essa mudança se verificou. O meio, como o Floriano diz, não se confunde com a mensagem, mas é, nesta época, o propulsionador dela. E porquê? A abertura da comunicação às grandes massas faz-se de uma maneira rapidíssima e é precisamente essa rapidez que nunca se viu antes. É este factor que leva as mensagens estéticas a receberem os impulsos da tecno-sociedade/tecno-cultura e a serem alteradas, quase ao mesmo tempo. A tradição é contestada e logo abafada pelo novo. A crítica literária é abrangida por toda esta ambiência que quase cria e destrói, em simultâneo; o ambiente está, cada vez mais, a traçar o futuro, ou seja, a imprimir esquemas que se traduzem em mensagens estéticas. Assim, surge o caos estético que se torna um reino de tal modo poderoso que cresce num sentido omnipotente, avassalador da liberdade que, aparentemente, está a construir. A “minoria resistente” a este quadro globalizante da desagregação dos géneros, da edificação da intertextualidade despersonalizante e da implicação do desvanecer da originalidade, é isolada. A globalização tecno-estética provoca o império das massas acríticas, o avançar do pontificado do aparente (mundos simulados, sem espontâneo). A “minoria resistente”, só dificilmente alcança divulgação, prestígio ou credibilidade junto desta cultura ascendente e arrasadoramente sobranceira no seu materialismo totalitário. Parece-me integrar-se nesta “minoria resistente” o próprio pensamento do romancista Milan Kundera referido, recentemente, no editorial de Joseph Macé-Scaron (Le Magazine Littéraire (Maio/2009, p.3):«Há ideias que são como atentados. (…) A mania de estabelecer listas [de autores] instala-se, neste tempo, duravelmente (…). Ela dinamita o gosto, faz explodir o juízo, reduz a migalhas toda a análise. Uma elite autoproclamada fabrica opiniões; ela não as propaga por estudos críticos, discussões sábias, mas por fórmulas bombásticas, jogos de palavras, embustes brilhantes». Em Portugal, posso referir, dentro desta “minoria resistente”, os ensaístas José Augusto Mourão, João Barrento, António Cândido Franco ou José Fernando Tavares. Lembro, a propósito, algumas frases de José Augusto Mourão, que me parecem sintomáticas: «Não pensamos nem sentimos no vazio e, como na liberdade, é em face de um real, que se sente e se pensa, como é em face do que se nos opõe que se é livre»; «A experiência central da modernidade é a fragmentação, a ruína da unidade»; «A idolatria está aí: na sobrevalorização de Imagens que substituem as Coisas» (O Mundo e os seus Modos de Comunicação, 2005, pp. 33-34,187,212).
FM Tenho para mim que a máxima de Lautréamont de que “a poesia deve ser feita por todos”, mais do que o equívoco de leitura sociológica, digamos, quando se pretendeu que a poesia deveria ser feita para todos, firmou uma fatura preocupante no que diz respeito à defesa, por exemplo, que fazia Roland Barthes da morte do autor. A criatura não elimina o criador, antes o confirma. Assim como o receptor, por mais que se entenda sua condição de co-autor na trama da comunicação, jamais erradicará o emissor. Em meio a tudo isto, quando Deus permanece gozando plena saúde, como situas tua visão do tema?
TFP O escritor, refiro-me ao ficcional (e também aqui me projecto na minha vertente de ficcionista), escreve “um pouco” para si e “um muito” para quem o possa vir a ler, agora ou no futuro (o tempo do desconhecido). Talvez Deus, como criador da mais minúsculo partícula elementar, tivesse dado origem a um cosmos fantástico, fabuloso na sua dimensão, e, assim, inimaginável. Sabemos, hoje, que a maior parte do universo é desconhecida do ser humano. A dimensão de Deus tem, neste contexto, a própria dimensão da Criação (incluindo as suas criaturas), sejam estas apenas humanas ou com outras variantes de vida. Ora, a Deus não é importante que o ser humano o venere ou o admire como autor. E, por analogia, o autor ficcional não deverá ter maior ambição. A única coisa que parece importante para Deus, tendo em conta a palavra de Jesus Cristo é o grau de perfectibilidade («Sede perfeitos como meu Pai é Perfeito») que foi atingido na obra criada – Deus, o escritor, e, de modo geral, todo o ser humano.
FM Releio teu artigo sobre Jacques Prévert e recordo Aldo Pellegrini ao dizer que este poeta “constitui um fenômeno especial dentro da poesia”, e segue, vale citar: “Parece dominá-lo um espírito funambulesco em que por momentos Dada se mescla com Jarry. Porém não há poesia que tenha mais direção e sentido que a sua”. A partir daí, toca em sua condição de “poeta dos simples”, como te referes logo no título de teu artigo. Tu mencionas a ironia em Prévert e Pellegrini acentua sua condição de notável poeta do humor dentro da corrente surrealista. Como se entrechocam em nossos dias realidade e humor? E como, no caráter da escrita (que deveria ser o mesmo do sangue), tem se comportado os poetas, em Portugal, diante do tema?
TFP Os poetas portugueses tendem, como o povo português ao longo da sua história, para o concreto, o realismo (ou neo-realismo no século XX). A literatura portuguesa contemporânea continua na linha realista ou naturalista. O realismo foi uma corrente literária fortíssima em relação ao surrealismo, sempre com pouco adeptos ou cultores no seu século de ouro, o século XX. E se o humor tem feito a sua aparição na literatura portuguesa (por exemplo, «A Relíquia» de Eça de Queirós, um certo Junqueiro ou um inesperado Camilo Castelo Branco) as excepções confirmam a regra. A alma lusitana tende para o tédio/infortúnio/saudade, não para o humor. Como disse Unamuno, os portugueses são um «povo de suicidas».
FM Do surrealismo em Prévert passamos para o surrealismo em Portugal. Disse o Cruzeiro Seixas em uma recente entrevista que, em Portugal, “nós reinventamos Dada e até uma espécie de Surrealismo sem André Breton”. Qual reconhecimento a crítica portuguesa tem hoje acerca da atuação (em que se inclui naturalmente a obra, porém não somente) dos nomes ligados diretamente ao ambiente surrealista?
TFP Esta afirmação mostra como, em Portugal, houve sempre mais uma fuga aos cânones do surrealismo do que uma verdadeira adesão ou atracção por esta corrente literária. Todo o romance ou poesia que rompe com o realismo, em Portugal, tende a ser olhado com desdém pelos editores. É o caso também do romance de inspiração científica. A ficção científica não é bem aceite em Portugal. Tenho três romances nessa área não publicados por falta de editor (um deles publiquei-o a minhas expensas). Os laivos científicos ou filosofantes, os sentidos metafóricos , o humor próprio do surrealismo, parecem ser para os críticos e para a maioria dos escritores e dos editores portugueses uma preferência só tolerável nos autores já consagrados pelo prestígio estrangeiro como é o caso de um Fernando Pessoa (poeta/filósofo) ou de um António Lobo Antunes (romancista contemporâneo com características que roçam o gosto surrealista).
FM A língua, o idioma português, sempre esteve entre tuas preocupações críticas. Passamos agora mesmo por uma reformulação, um acordo ortográfico. Contudo, nossos países seguirão se desconhecendo entre si e as tantas maneiras com que enfrentamos o idioma em cada um deles, ainda que fossem uma só, jamais resolveriam um isolamento que não é de ordem lingüística. Com tudo isto, o que me parece é que se amplia o território dos dominados, tornando a cultura um adorno descartável ou, a depender do caso, um objeto prejudicial à saúde da expressão oficial do poder. Estás de acordo?
TFP A literatura portuguesa tem tido um fraco expansionismo no Brasil ao longo dos séculos XIX (pós-independência do Brasil) e XX-XXI. Também o contrário tem sido uma constante. Se os portugueses conhecem mal a literatura brasileira, assim como os outros campos da cultura de terras de Santa Cruz, os brasileiros também não têm tido acesso ao melhor da poesia, do romance ou da pintura portuguesa dos séculos XIX e XX. Se continuar a não haver diálogo entre o Portugal de Camões e de Agustina Bessa Luís (para só falar no maior poeta português e numa grande romancista do século XX) e o Brasil do grande contista Machado de Assis e da admirável romancista Clarice Lispector, o universo da Língua Portuguesa (agora alargada á África e à Oceania pela CPLP), continuará empobrecido e sem o esplendor (cultural/económico) da Francofonia e da Commonwealth. Esperemos que o Acordo Ortográfico seja um passo importante para atinguir essa tão benéfica cumplicidade do “Mundo que o Português Criou” (Gilberto Freyre, 1940).
FM Sim, um mundo criado pela língua, porém que se desconhece entre si, onde as afinidades culturais se desdobram por efeito mágico e não por programas de governo ou mesmo de associações de artistas e intelectuais empenhados no tema. Talvez estejamos dando demasiada função a este Acordo Ortográfico. Talvez um Encontro de Escritores de Língua Portuguesa pudesse render mais frutos, ou então a criação de programas de mútuo apoio de circulação de obras. Mas sequer as revistas, de cultura e literatura, que costumam representar uma vanguarda comunicativa entre países, nem mesmo deste veículo a língua portuguesa dispõe, de maneira a difundir sua cultura na extensão dos países que a conformam.
TFP A crítica de Floriano Martins é, sem dúvida, muito certeira. Ela reflecte bem a necessidade urgente de criar uma plataforma de entendimento alargado da cultura de língua portuguesa, à semelhança do que já acontece com a Francofonia, a Hispanidade ou a Commonwealth. Enquanto essa comunhão de identidades não se tornar comunicação concreta, através da partilha e da difusão de culturas, «um mundo criado pela língua», como diz Floriano Martins, soçobrará numa «apagada e vil tristeza», conforme a expressão de Camões em Os Lusíadas.
Fonte: Teresa Ferrer Passos, Escritos Voando no Tempo, Escrituras Editora, Colecção Ponte Velha, S. Paulo, 2009, pp.8-14.
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Na transgressão das escritas e das imagens, os ensaios críticos rompem como construções da palavra e da voz. Nesta ruptura inscrevo A Inocência de Pensar de Floriano Martins, recentemente publicado por Escrituras Editora, com sede em S. Paulo. A transgressão é, em Floriano Martins, um modo de ser muito especial que o intelectual deve subscrever, como se fosse uma superior necessidade, se não mesmo uma transcendência terrena.
A essência do pensar torna-se para Floriano Martins um objectivo de vida. A sua obra variegada – poesia, ensaio, ficção, pintura, etc. – marca, em quem a conhece, um percurso pleno de seriedade. Cada circunstância torna-se na escrita-imagem de Floriano Martins, uma paisagem sem nuvens nem véus mais ou menos velados. A língua apresenta-se como uma transcendência demasiado humana, como disse, algum dia, Nietzsche. E dizemos demasiado humana porque Floriano Martins ultrapassa toda a palavra escondida ou a esconder, toda a ideia suspeita ou sob suspeição; descobrimos nos seus trabalhos literários ou nas suas composições feitas de formas-imagens uma intencionalidade transparente, plena de cântico à natureza, à forma-imagem, como dissemos atrás.
Se pensar é uma inocência, Floriano Martins apontou o dedo na direcção certa. Na verdade, o paraíso está na interioridade humana ou não está em lado nenhum. O paraíso, metáfora da natureza pura do Homem, recolhe-se ao coração aberto como um mar sem fim, no autor de A Inocência de Pensar. Numa análise fecunda a um vasto número de escritores latino-americanos – desde o Brasil ao Chile e à Venezuela, desde a Espanha a El Salvador, à Colômbia, Panamá ou à Costa Rica –, o autor analisa a sua conformidade com os tempos em que se projectou a sua escrita, tomando como ponto de partida fundamental a sua personalidade, os seus desvios e as suas contingências perante os obstáculos, os contratempos e as modas da sua controversa época.
Como escreve a propósito de Sânzio de Azevedo «o pensamento crítico alimenta a compreensão histórica da nossa passagem por este mundo, razão pela qual cabe ao crítico fundar-se a partir de um diálogo perene com todas as forças que nos orientam e desorientam» (p. 228).
Não podemos deixar de fazer uma alusão ao prefaciador de A Inocência de Pensar, Jacob Klintowitz. Respigamos do seu texto elucidativas frases que nos oferecem um retrato bem definidor da identidade intelectual de Floriano Martins: nele «perpassa o mistério da amorosidade»; «ao invés da sentença, ele prefere o retrato do artista» (p.11) ou ainda «o único lugar habitável é a utopia» (p. 12).
Na leitura dos vários ensaios inseridos nesta obra, encontrámos, abundantemente, esta ligação de Floriano Martins ao fraterno diálogo, à busca da personagem oculta nas palavras e ao fantástico lugar da utopia, esse estado de espírito construtor da inventabilidade. De facto, o mundo da utopia não pode deixar Floriano Martins indiferente. Ele é um artista da palavra e da imagem. Por isso, aí se coloca. A utopia é a transcendência do humano. Nela tudo o que é humano ganha espaço e um espaço de futuro.
O caminho da humanidade é árduo, é agreste, é inseguro. Mas esse caminho pode cobrir-se de sentidos e de sentimentos que o dimensionam à escala da sagração deste «animal pensante» de que nos fala Floriano Martins. Mesmo quando o célebre marquês de Sade rompe com a sociedade sua contemporânea, procurará ele regressar àquele «paraíso perdido» a que o poeta inglês John Milton nos quis conduzir?
Na entrevista concedida a Floriano Martins (aqui publicada), Eliane Robert Moraes, a autora do livro Lições de Sade – ensaios sobre a imaginação libertina, diz: «Sade projecta sua ficção de um homem completamente livre» (p.158). E, mais adiante, nesta excelente abordagem de Sade, Martins indaga: «Até que ponto interessa distinguir perdas e ganhos de linguagem, ocasionados justamente pela obsessão de um projecto maior que extrapola os domínios da própria linguagem?» (p.161). E vai mais longe, em outra questão posta a Eliane: «Para além da incitação à liberdade total, estaria Sade empenhado em descarnar a tragédia de uma sociedade cuja hipocrisia confundia virtude e vício?» (p.163).
Ao abordar Amedeo Modigliani, diz-nos Floriano Martins que ele «definiu uma erótica, em contraponto a um brutal preconceito carnal existente» (p.116). Depois, «caminhando com o espírito de Ghérasim Luca», refere a sua conotação surrealista ao conjugar «amor, erotismo, sonho, humor negro (…) em uma orgia de imagens que se enriquecem à medida que afirmam o quanto estão vivas, atuantes, dentro do mundo, dentro de nós» (p.121).
De relevante interesse são também as polémicas biográficas à volta de Carlos Drummond de Andrade (47 páginas) ou as suas considerações sobre António Bandeira (com 45 páginas). Debruça-se sobre «os segredos da imaginação» em Marcel Schwob. Refere-se a Max Ernst como «um dos nomes cimeiros da arte neste nosso controvertido século» (p.111), uma dessas «criaturas de fogo» do tempo. E não podemos esquecer a sua entrevista a Michel Roure, «absolutamente clandestino», numa verdadeira «sequência de filmes ou de documentários» (p.167).
Nestes socalcos da literatura e da vida se envolve Floriano Martins, quer através do artigo, quer através das perspicazes entrevistas, aqui reunidas. E tudo faz com a força dos impulsos da «Inocência de Pensar», porque «na língua [a língua portuguesa] é que se encontram as raízes das nossas ambiguidades» (p.139). A língua, nota Floriano, não a cultura. E aqui chama a atenção para a criatividade, a invenção de uma língua, como sendo o seu mais importante sustentáculo. A língua é a raiz e o notável instrumento de todo o pensar e, como tal, a língua lança as bases de uma fulgurante «inocência». Uma inocência a arriscar e sempre pronta para a novidade.
11 de Novembro de 2009
Teresa Ferrer Passos
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NOVOS POEMAS DE AMOR E MELODIA
Neste tempo de Outono, um tanto quente e soalheiro, foi dado à estampa um novo livro de poemas de Cristino Cortes. Novo não inteiramente, pois o autor publicou, em 1999, Poemas de Amor e Melodia na Universitária Editora, com extra-textos a cores do Pintor Mário Silva.
Nesta edição de 2009, dada a lume pela Papiro Editora, Cristino Cortes retira as ilustrações, mas acrescenta vinte e quatro outros poemas “espalhados pelos vários conjuntos que o integravam e por um novo, «Diálogos poéticos»”, como nos informa o autor em “Nota Prévia” a esta edição.
Um pouco contrastante nas temáticas, o acervo poético acrescentado possui, no entanto, as características já bem vincadas na versão de 1999 e em outras publicações poéticas do autor.
Pensamos que os vinte e quatro poemas novos aqui acrescentados seriam suficientes para dar a Cristino Cortes ensejo a um outro título, a acrescentar às publicações anteriores.
«Estou disponível, alma aberta, desponta-me o sorrir». Eis um verso do poema “Quem dormir na minha cama” que revela bem o sentir franco e espontâneo que a sua palavra alcança nos textos que nos tem oferecido, quer em prosa, quer em verso.
Poemas de Amor e Melodia é formado por sete partes: «Amor»; «Melodia»; «Todos os dias»; «Intermezzo»; «Novas teorias»; «Diálogos poéticos» e «Cor». Todas estas partes recebem uma atenção ao quotidiano que merece ser relevada, neste breve comentário ao texto poético e ao seu inegável e oportuno contexto.
O dia a dia do poeta, os obstáculos da vida profissional, os encantos da vida familiar, o inesperado da beleza das cores e dos seus sentidos mais incógnitos, a fragrância da música instrumental como entoação inspiradora, são algumas tónicas que se acentuam em Cristino Cortes com uma ênfase veemente e cheia de transparência.
Em cada estrofe, o poeta transfere-se para a folha de papel em branco. Num «dar-se» vertiginoso, autentica-se no dizer pronto e lírico. Num fazer-se novidade a cada momento, bem mais parece ter um arado a acompanhá-lo no “amanho” da terra, que aqui significa o “amanho” do poema.
Lembrem-se os poemas (já incluídos na edição de 1999): “O Amarelo”, “O Cinzento”, “O Verde”, “O Vermelho”, entre outros alusivos às cores. Neste passeio divertido, os versos deambulam numa magia de palavras inconformadas e/ou conformadas acerca da alma, das formas e dos sentidos das várias cores presentes na natureza e, afinal, também presentes em cada um de nós.
Vejamos alguns exemplos: «Hora de expectativa e preguiça / É o cinzento a cor destes dias»; «Ao vermelho se me inclina a alma / Não sei se por essa ser a tonalidade / Do sangue e do heroísmo, rubras papoilas»; «Do verde sem saber faço a minha divisa / A cor dos meus campos e de todo o jardim»; «Mesmo uma qualquer outra palavra azul pode bem ser / Se azul for o coração do poeta que dessa forma a diz».
Os poemas sobre os dias de semana servem eles sobretudo para salientar, mais uma vez, a ansiedade do poeta perante a banalidade de tantas horas, de tantos dias, de tantas situações ridículas. Então, o poema dimensiona-se com uma força anímica capaz de vencer a agrura dos minutos perdidos, a rudeza das horas mal empregadas, a estranheza de cada dia monótono, sem razão de ser aparente.
É então que o poema adquire a feição de um divertimento. Torna-se uma bola de humor ou um berlinde de sátira. É o caso do poema «Segunda-feira» em que surgem versos deste jaez: «Custa a recuperar da vaga preguiça / Do lastro que a véspera acumulou; / Mas se a alguém tal sensação não visitou / Decerto já não sabe às quantas anda…».
No poema «No dia dos namorados» evidencia-se a sátira ao comércio: «Ao comércio não quero nenhum mal mas de mim / Não levam nada, alérgico que sou a rebanhos / Publicidade, estatística, males tamanhos».
A mesma ironia aparece em poemas como «Desejos de Ano Novo» ou «Canção de um candidato a médico». Deste último, respigamos alguns versos: «Dia após dia me fazes crescer / Essa bíblia da tensão arterial; / (…) / Cada dia que vai passando o teu estímulo / Me eleva ao perigo o nível do colesterol… (…)».
Poemas feitos ao longo dos longos dias, são um testemunho das vivências da cidade movimentada e feroz, dos citadinos apressados e incompreendidos. Tudo se mistura em fluxos e refluxos de uma poesia à procura de Amor e Melodia, como nos propõe o poema «Regra de Vida»: «Insiste. Insiste sempre. / / Mesmo que a perspectiva escasseie / As circunstâncias não te ajudem / Os deuses refinem pela ausência / / Os ecos não te respondem? Insiste. Insiste sempre. (…)».
1 de Novembro de 2009
Teresa Ferrer Passos
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RETRATO DE GUERRA JUNQUEIRO*
«Nada valem tenções, nem vale a prece:
É das obras que vem à criatura
O galardão e a pena que merece»
Junqueiro, Pátria, 1896
Viajar com… Guerra Junqueiro é um original retrato do Poeta, traçado por Henrique Manuel S. Pereira. Este é um, entre outros, dos roteiros nortenhos editado, em boa hora, pela Delegação Regional de Cultura do Norte, sob a chancela da editora Caixotim, sediada na cidade do Porto e dirigida, exemplarmente, pelo escritor Paulo Samuel.
A qualidade da apresentação gráfica de publicações desta novel editora (como a antologia poética O Velho de Novo de A. M. Couto Viana ou várias obras de Camilo Castelo Branco), é notória, se a compararmos com a da maioria das editoras portuguesas.
Ao lado da ilustração gráfica de Viajar com… Guerra Junqueiro, o texto de Henrique Manuel S. Pereira oferece-nos uma interessante viagem, revelando, a par e passo, belas passagens de obras do Poeta de Freixo de Espada à Cinta.
Após uma cronologia da vida e obra de Junqueiro, surge uma deambulação por «Espaços de Inspiração». Aqui estão os lugares por onde passou o autor de A Velhice do Padre Eterno (1885) e de Finis Patriae (1891).
Com uma leve roupagem literária, como convinha, Henrique Manuel S. Pereira descreve o roteiro geográfico de Junqueiro no Norte, seguindo os seus estudos no Porto e em Coimbra, o casamento e a estadia em Viana do Castelo, em Vila do Conde. E neste espaço não deixa de lembrar o êxito da exposição das suas teorias científicas sobre radiação, em Paris, no ano de 1904 e a sua candidatura a Presidente da República pelo Partido Republicano Evolucionista, em 1915.
À paisagem citadina, em que se impõe a defesa dos ideais republicanos, de liberdade, igualdade e justiça social, junta-se a paisagem rural, em que exalta a paz e o espírito de sacrifício do lavrador. Mas não faltam, neste roteiro literário, fotografias de faianças portuguesas coleccionadas na sua casa (Casa-Museu) do Porto ou na de Vila do Conde; e também não é esquecido o seu escritório (hoje sede da Fundação Maria Isabel Guerra Junqueiro, em Vila do Conde) onde escreveu vibrantes versos; ou ainda, uma carta manuscrita, alguns belos quadros de pintura portuguesa do século XVI que foi adquirindo, variadas caricaturas, com que identificaram alguns dos seus críticos a poética irreverente de Guerra Junqueiro.
Um destaque muito especial é atribuído à região que o viu nascer – Trás-os-Montes. Agora, trata-se da «Topografia Literária»: as terras de Barca de Alva, o Douro, os barqueiros, a enxada, a natureza com todo o seu esplendor. Com primorosas fotografias da natureza circundante, vemos a casa da quinta da Batoca que, segundo Junqueiro, foi sobretudo um pedido dos deuses: «Uma manhã, Júpiter apareceu-me em Barca de Alva…”Queres fazer um poema homérico? Vês esta terra selvagem? Rasga-a, ergue-a de socalcos, planta-a de vinha”» (Viajar com…, p.28). Assim, nasceu uma casa cercada de um esplendoroso olival e uma grande vinha. Como escreve Henrique Manuel S. Pereira neste ensejo, «ao cimo, discreta, lá está a casa do Poeta lavrador (…) Para florir a Quinta, ciclópico trabalho, foi preciso emparcelar e domesticar a paisagem escalvada e dura.»
No texto avultam também curiosas passagens de Os Simples, de A Velhice do Padre Eterno (1885) e de Pátria (1896). Sem dúvida, obras eivadas de anticlericalismo e de revolta pelas injustiças sociais cometidas sobre operários e camponeses. Qualquer destas obras respeita à ambiência mental e política vivida no Porto, na década em que eclodiu a Revolta Militar de 31 de Janeiro de 1890, bem no centro da Baixa portuense. Precisamente na cidade em que a editora Chardron, depois Lello & Irmão, lhe foi dando à estampa as obras. Precisamente na cidade em que reflectia, em salutares diálogos, sobre a política (e a sociedade portuguesa) em cafés, nas livrarias, no teatro de S. João, em casa com os amigos, e em que colaborava em jornais, designadamente em O Primeiro de Janeiro.
Fazendo parte do grupo de intelectuais favoráveis aos objectivos dos militares capitaneados por Amaral Leitão (de quem a autora destas linhas é bisneta) e pelo alferes Malheiro, Junqueiro daria a lume, em 1891, Finis Patriae, a obra mais representativa do fracasso da primeira revolução militar republicana levada a cabo nas ruas apinhadas de povo a aclamar os revoltosos.
Nesta ordem de ideias, Henrique Manuel S. Pereira dá o justo ênfase à predilecção do Poeta de Oração ao Pão pelo camponês, e também por esse povo que amassa o pão em lágrimas, e é «símbolo eterno do grande crucificado obscuro e anónimo».
Valioso e prático, este sucinto, mas elucidativo, roteiro literário-topográfico. Ao lado de fotografias do poeta de Os Simples (1892), surgem as paisagens das regiões de Barca de Alva, onde ergueu, com o entusiasmo que punha em tudo o que tocava, a sua casa rural da Batoca.
O traço arquitectónico de algumas das casas onde habitou ou do interior da livraria Lello & Irmão que frequentava; as peças de artesanato, as fotografias com familiares ou amigos, as capas das primeiras edições de Tragédia Infantil ou de Viagem à Roda da Parvónia, estão aqui presentes; as ruas onde viveu, designadamente no Porto, em Viana do Castelo e em Vila do Conde, não são esquecidas; pormenores de igrejas e capelinhas e a casa onde Junqueiro nasceu em Freixo de Espada à Cinta. Eis aqui alguns pormenores sublinhados em Viajar com… Guerra Junqueiro.
Transcrevemos, em seguida, a título de exemplo, o retrato psicológico do Poeta traçado por ele próprio: «Os meus livros imprimo-os para o público, mas escrevo-os para mim» (Viajar com…,p.15). Outro exemplo respeita aos seus sentimentos de rejeição das injustiças que sofre o trabalhador desconhecido, sacrificado e miserável: «A aldeia, ó Musa, a aldeia é o trabalho, a guerra: / Dum lado o camponês, e do outro a terra. / (…) Luta sombria, heróica! Antes da madrugada / Já ele anda por lá, nos campos, nas montanhas, / Rompendo à natureza as rígidas entranhas / Para tirar-lhe um pão(…)» (Viajar com…,p.13).
Em versos acendeu-se, muitas vezes, com largas labaredas a alma pura e generosa de Junqueiro. Revoltado com a política exercida em Portugal por um rei incapaz e rodeado de gente corrupta e desprezível, Junqueiro escreveria os poemas épicos mais belos do Portugal dos fins do século XIX e da 1ª metade do século XX. Nesta óptica, os olhou com desvelo, a enxada crítica de um Fernando Pessoa.
Viajar com… Guerra Junqueiro é a melhor homenagem ao autor de Baptismo de Amor (obra cuja 1ª edição foi prefaciada por Camilo Castelo Branco). Tomado por um simples roteiro, destacámo-lo pelo tom singelo dado, desde logo, na original apresentação, a assemelhar-se a um caderninho de apontamentos, com pequenas argolas um pouco enferrujadas.
Assim, este périplo dos lugares e da escrita de Junqueiro, oportuna e épica, não podia deixar de ser do seu pleno agrado. Guerra Junqueiro, também o Poeta de Oração à Luz (1904), que este ano comemora o 1º Centenário (ou deveria comemorar…). Talvez a editora Caixotim não deixe passar despercebida a data.
Teresa Ferrer Passos
* O Primeiro de Janeiro, «Suplemento Das Artes Das Letras», 5 de Julho de 2004.
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NO 150º ANIVERSÁRIO DO NASCIMENTO DE GUERRA JUNQUEIRO – 1850-2000
O «AluviÃo de areia» de Junqueiro
N’ A Velhice do Padre eterno*
Foi no ano de 1885 que Guerra Junqueiro - o poeta vindo, qual Miguel Torga, das fragas transmontanas - publicou o seu maior poema satírico. Intitulou-o A Velhice do Padre Eterno. Em Nota final a esta primeira edição, o autor esclarecia que a obra surgira de uma outra, ainda em elaboração, e que já titulara de «A Morte do Padre Eterno». A presente edição (1885), era formada por um conjunto de cinquenta longos poemas que, como realça, «são 50 balas, que partindo de diversos pontos, vão todas bater no mesmo alvo». Justificava Junqueiro que a falta de saúde o obrigara a adiar o poema «A Morte do Padre Eterno»; esperava, contudo, que dentro de um ano, fosse impresso, logo seguido de outra colectânea de poemas a que chamaria «Prometeu Libertado». Este, completava a trilogia que idealizara há anos. Mas, o seu plano era, já nesta oportunidade, revelado pelo Poeta. Caso um tanto ou quanto inédito e, ao mesmo tempo justificável pela relação que o autor via entre esse plano e a obra agora publicada.
Lembremos as palavras do Poeta cujo socialismo utópico é bem mais patente nos seus poemas-narrativas do que num Antero de Quental ou num Guilherme de Azevedo. As farpas de Junqueiro contra os poderosos, a religião católica, designadamente o clero e, muito especialmente o poder papal, contrasta com a delicada ternura com que escreve sobre os simples, os pobres, os desamparados, as vítimas de uma injustiça alimentada pelos propagadores do bem e das virtudes teologais. Como esclarece Junqueiro antecipadamente, a primeira parte de «Prometeu Libertado» consistia numa epopeia do Trabalho, em que a humanidade e a natureza glorificariam o herói Prometeu; na segunda parte, Cristo - símbolo do Amor universal -ressurgiria em plena luz do mundo como um verdadeiro salvador do próprio herói. A sua chegada seria a hora do «fim de todos os dogmas» e «o desaparecimento de todas as tiranias». A justiça humana e a justiça absoluta entralaçavam as mãos e a humanidade caminharia para o futuro entre esses dois únicos altares.
Com este projecto futuro, Junqueiro queria chamar a atenção, no final do livro A Velhice do Padre Eterno, para o significado mais lato dos cinquenta poemas que lhe davam corpo. As ideias formuladas na Nota do Autor (a que fizemos referência) continham o sentido último de A Velhice…, sentido esse preconizado por Junqueiro para uma humanidade atolada na cruel realidade socio-religiosa sua contemporânea. Veja-se, por exemplo, logo o primeiro poema denominado de forma bem sintomática «Os Simples»: «Cultos, religiões, bíblias, dogmas, assombros, / São como a cinza vã que sepultou Pompeia. / Exumemos a fé desse montão de escombros, / Desentulhemos Deus dêsse aluvião de areia» (Ob. Cit., Lello e Irmão, 1923, p.7). O anti-dogmatismo do Poeta torna-se crescente ao longo do poema e não tem qualquer travão para livremente se expôr às críticas mais violentas que podiam vir do statu quo vigente. Todas as expressões de obediência cega ao poder (neste caso o religioso) e o carácter vão dos rituais são para Guerra Junqueiro ruínas, apenas ruínas. E tudo se pulveriza de tal modo que estas mais se assemelham à fina areia. A «vinha» que Jesus propusera era muito diferente daquela que um clero, sem escrúpulos e sem verdadeira virtude, derramava nos púlpitos, como se a verdade nele tivesse feito morada para sempre e infalivelmente.
Publicado em 1885, A Velhice do Padre Eterno é uma sátira arrebatada e arrebatadora contra a Igreja de Roma, auto-denominada apostólica, ao afirmar-se continuadora da Igreja (Casa) chefiada pelo apóstolo Pedro, por vontade de Jesus. Os exemplos dados pela sua mensagem de fraternidade, igualdade e justiça social, não eram postos em prática pela Igreja. No poema «Parasitas», há uma alusão clara ao dinheiro que os ditos «apóstolos romanos» solicitam mesmo aos «mendigos quáse nús»: «Eu lembrei-me de vós, funâmbulos da cruz, / Que andais pelo universo, há mil e tantos anos, / Exibindo, explorando o corpo de Jesus» (p.41). As crendices milagreiras são também alvo da pena destemida de Junqueiro, por exemplo no poema «A Água de Lourdes»: «(…) Se a água faz milagre, o que eu vos não discuto, / E por isso a adorais, / Ajoelhemos então em face do bismuto» (p.123).
A diatribe infrene contra o Deus, a quem Jesus obedecia, atinge o auge no poema «Ao núncio Masela»: «Um Deus que representa a farça da paixão, / Pintado, ensanguentado a vinho e a vermelhão, / Um Deus que sóbe ao céu, acrobata farnésio, / Em aérostato, e vai no bambú dum trapézio(…)» (p.142). Outro poema muito discursivo, como acontece com quase todos, «O Melro», é uma crítica feita um pouco à maneira das fábulas de Esopo. Com subtileza e grande beleza formal, Junqueiro destaca a crueldade dos padres, evidente tantas vezes na vida quotidiana e contrastando, escandalosamente, com as suas rezas e os seus sermões.
No poema «A sesta do senhor abade» evoca a pobreza e a ingenuidade dos camponeses ante a riqueza e a astúcia dos abades: «E a aldeia invoca, implora os anjos tutelares. / Morre de fome e veste as santas nos altares / Com ouro e com brocado.(…)» (p.218). A concluir, o Poeta que, em 1907, se sentou no banco dos réus pela sua pena desfraldada contra o rei D. Carlos e neste local apelou à revolução armada para derrubar o regime, lançava já, no poema «Fantasmas», um grito largo contra a arbitrariedade eclesiástica (grande aliada do regime) e a superioridade com que o Papa se dirige ao mundo: «Eu tenho o gládio e o scetro, a excomunhão e a bula: / Sou o Deus, sou a Fé. / Miserável réptil, Humanidade, oscula / A ponta do meu pé!» (p.248).
O último poema «Circular» é apenas o epílogo de tudo o que, afinal, o Poeta de Finis Patriae representava, poucos anos depois de o Papa Pio IX ter proclamado os dogmas da Imaculada Conceição e da infalibilidade papal e de o Papa Leão XIII ter publicado a Encíclica Quod Apostolici (1878) contra os «erros modernos». Na linha de Eça de Queirós, que deu á estampa O Crime do Padre Amaro, em 1880 e de Nietzsche, proclamador da morte de Deus, em Assim Falou Zaratustra, datado de 1883, Guerra Junqueiro desencadeia uma dilacerante poética contra aqueles que ele via como exploradores de sentimentos e de bens… Do poema «Circular» transcrevemos apenas alguns versos: «Deus & Filho. Bazar de fé. Venda forçada. / Pela barca de Pedro, a Judas consignada, / Chega um rico sortido em modas da estação» (p.253). E mais adiante: «Nos nossos armazens com serras a vapor / Vendêmo-la igualmente, a cruz do Redentor, / Em ripas, em pranchões e em traves colossais, / Para marcenaria e construções navais» (p.261).
Com a sua criação aluvial aliada a um raro sentido estético, Junqueiro pode ser considerado o Poeta da mais exultante poesia satírica alguma vez escrita em Portugal, não só contra os poderes políticos, de que é exemplo o drama Pátria, publicado em 1896 (António Cândido Franco assinalou a passagem do 1º centenário desta obra em A Epopeia Pós-Camoniana de Guerra Junqueiro), como igualmente contra os da religião católica e o seu «Pontifex Maximus». Quando o actual Papa beatifica o seu antecessor Pio IX, a voz crítica de Junqueiro parece de novo necessária, mesmo urgente de ser escutada, e, mais do que tudo, seguida.
5/10/2000
Teresa Ferrer Passos
* Artes e Artes, nº31, Jan./Fev. 2001(ass. pelo ortónimo Teresa Bernardino).
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POÉTICA DA INVISIBILIDADE
«No Silêncio das Palavras de Deus». Este o título de um dos poemas incluídos no livro Vintém das Escolas (ed. Autor, 2002) de Fernando Botto Semedo. Neste poema, podemos desocultar alguns dos temas favoritos na poética do autor: Deus, as crianças, o sofrimento.
Temas que se entrelaçam, como se fossem um único. Como se não se distinguissem na teia das palavras escolhidas num absoluto de nada, esse absoluto de nada em que o poeta se revê, tantas vezes, nos seus livros. Flutuando entre as asas do sonho, há neste poema de F. Botto Semedo, o olhar opaco da impenetrabilidade do ser.
Esferas de obscuridade gravitam em cada verso; pululam neles ideias que se descobrem em cada sílaba; e a razão faz rumo a sentidos de invisibilidade que se iluminam.
Ofuscando-se em viagens sem lugar ou algum espaço, F. Botto Semedo é o poeta português que melhor faz transparecer os enigmas da construção poética. Nada se dilucida no seu discurso, tudo nele se proclama vago e, mesmo, imerso nas trevas. É por isso que o poema «No silêncio das Palavras de Deus», inserto neste livro, se nos afigura mais uma síntese da poética do autor do que uma parcela.
E o que acontece com este, acontece um pouco com todos os seus outros poemas, publicados em vários volumes. Cada um deles é sempre um todo ou/e um tudo. O poeta entrega-se ao verbum como sujeito e como objecto, é-lhe interior e é a sua exterioridade. Um e outro interpenetram-se. No poema «No Silêncio das Palavras de Deus» presentificam-se e silenciam-se as próprias palavras. O silêncio dialoga para além de si próprio e também aquém de todas as palavras ditas.
Como os livros anteriores de F. Botto Semedo, Vintém das Escolas é um livro para reler, não para ler. É um livro de um poeta cantor das palavras omissas, cantor das palavras escondidas em cada palavra.
A estética das suas construções poéticas não tem sido objecto de cuidadas análises, o que a sua já longa e também valiosa obra pressupunha. A palavra poesia ficaria mais pobre se Vintém das Escolas não tivesse sido dado à estampa numa hora, talvez, escrita «no silêncio das palavras de Deus»…
Se «o silêncio é uma espiral de pureza e luz», a alma do poeta é um confrangimento de dor em que se confrontam a beleza de Deus, a plenitude das crianças e as lágrimas de um mundo ofuscado pela ganância do dinheiro, pelo desprezo dos fracos, pela dessacralização do amor. Entre a pureza da criança e a fragilidade daquele que sofre, está a poesia lírica de F. Botto Semedo.
Lembremos os seus dois penúltimos livros Canto Descalço (2002) e Poemas da Mágoa (2003). Quer um, quer outro, apresentam-se na continuidade dos anteriores livros publicados pelo poeta. Todos, afinal, irmanados por algo de comum: a cruzada pelos injustiçados e pelos que choram, pelos que sonham ainda e pelos que já só lhes resta a triste realidade dos dias solitários, apagados e cheios de um silêncio de sons desconhecidos.
Em Canto Descalço, surge uma poesia que é um grito de liberdade e/ou de libertação, usando Botto Semedo um vocabulário restringido ao mínimo, e, em simultâneo, um vocabulário que alicerça toda uma linguagem de cântico ou de salmo, conforme se preferir designá-la. Porque há aqui sempre uma tonalidade espiritual que oscila entre o vazio e o absoluto, entre o infinito e a angústia. Imagens e metáforas dão forma a poemas epigramáticos, lapidares, entoando aquilo a que em música chamaríamos um «canto chão», monocórdico.
Sons e imagens sucedem-se e oferecem-nos uma musicalidade que não se insere em qualquer moda ou acorrentamento às linhas de rumo dos poetas contemporâneos. Seguem-se apenas alguns dos muitos exemplos que poderíamos apresentar, neste ensejo:
«O silêncio é uma casa alvíssima
Onde encontro o essencial e a Luz»
(Canto Descalço, p.22)
«A minha alma é uma criança que corre, maravilhada,
Por lugares e sentimentos impossíveis»
(Ibidem, p.23)
«Sinto brilhar a minha alma eterna
No seio da noite e dos seus astros»
(Ibidem, p.28)
«As estrelas infinitas do eterno
São palhaços tristes que caíram
Das galáxias interiores para uma
Folha alva cheia da dor de um
Sangue santo»
(Poemas da Mágoa, p.16)
«Negativos de todos os poemas
Arruinaram-se na revelação
Da minha alma à entrada
Do amor alienado do Deus
Que é cinza infinita pela
Revolução branca»
(Ibidem, p.54)
Na «casa» dos poetas de voz silenciada pelos clamores da omnipotente comunicação de massas, segue o seu caminho a obra da «mágoa» e «descalça» do autor destes opúsculos da poética palavra.
No seu último título, Harmonia Branca (Ed. Autor, 2004), diz Botto Semedo no primeiro verso do livro: «O papel branco é uma casa do silêncio». Esta é uma interessante metáfora do que tem representado para ele a poesia que, ao longo destes mais de vinte anos tem levado até aos seus leitores. Sem o apoio da maioria dos críticos dos nossos jornais de cultura, o papel onde inscreve os seus versos é bem uma casa onde reina o silêncio. Mas esse silêncio é quebrado pela palavra que é, afinal, uma surpresa para o próprio Botto Semedo. E, logo a seguir, oferece-nos uma razão para que no silêncio e, precisamente, por causa do silêncio, a poesia continue a nascer no seu mundo fechado.
Vamos transcrever, quase na íntegra, o poema inicial de Harmonia Branca, no qual encontramos, em síntese, a maneira muito pessoal de o autor definir a arte poética.
«As palavras do poema existem em si,
São entidades dispersas que se enlaçam (…)
(…). Surge o poema nos desenhos
Das palavras, em que o poeta apenas segura a folha
Numa grande abertura de alma, por onde o nada e
O tudo dizem e não dizem, ordenando-se por sua
Real vontade independente. Os poemas escrevem-se
A si-próprios. Apenas desejam uma frágil sensibilidade,
Para instaurarem a sua primavera branca, cheia
De uma alegria plena de Espírito eterno e suavíssimo»
(Ob. Cit., p.11)
Estamos perante um poeta que não se verga em troca de panegíricos, esses panegíricos mais ou menos efémeros, mais ou menos fugazes. E como tais comportamentos são tão banais na nossa praça de poetas, em busca de endeusamentos.
Vejam-se, os grandes destaques das páginas de Cultura da maioria dos órgãos de Comunicação do nosso país. Eis aí, todos os dias, aqueles que se situam dentro dos cânones das modas triunfantes, das modas que fazem ganhar fama e louvores e prémios, mesmo que elas sejam sinónimo de decadentes manifestações artísticas, designadamente literárias…
Teresa Ferrer Passos
Fonte: Teresa Ferrer Passos, «Poética da Invisibilidade», Suplemento «das Artes das Letras» in O Primeiro de Janeiro (14/Junho/2004).
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UM NOVO LEGADO SEMPRE A REDEFINI-LO
Na «mala de ferro», Eça de Queirós (1845-1900), o grande escultor da língua portuguesa, guardava os originais que escrevia e reescrevia, numa correcção constante, num incessante aperfeiçoamento da frase, numa humilde substituição de uma palavra por outra mais adequada, mais clara ou incisiva, daquilo que ia escrevendo, ao sabor dos momentos, das horas e dos dias da sua atribulada vida.
Não tendo tido uma remansosa vida de burguês sedentário e com ofício pacato sem oscilações de gentes e lugares, nem de publicista a viver in economicis extremis dedicado em exclusivo à arte de escrever, como acontecia com Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós, colocava em cada trabalho que dava à estampa, um sentido de responsabilidade que lhe conferiu um estatuto de perfeccionista, hoje cada vez mais aviltado por aqueles que vão publicando resmas de crónicas a que chamam romances, contos ou poemas com vista a, rapidamente, muito rapidamente, ganharem o ambicionado palmarés de escritores vendáveis, ou seja, escritores que se inscrevem nos topos de vendas das livrarias. Ora, o objectivo do autor de A Ilustre Casa de Ramires era, na verdade, bem contrário ao de «vendedores de banha de cobra literária».
O que era prioridade para este escritor maior de língua portuguesa, o que era prioridade entre as suas prioridades ficcionais, era o estilo. O estilo é a marca de toda a obra de arte literária. Se um autor decide expressar-se num género literário específico como o conto, o romance ou o drama não o deve fazer apenas porque esses géneros estão prestigiados (e se vendem bem nos tempos actuais), mas porque é a forma que se adequa mais ao que se pretende escrever e porque é essa forma literária que se tem gosto em tornar mais bela ou mesmo mais rica. O estilo que dava uma forma sui generis à expressão escrita e que assentava nos alicerces estruturais de uma técnica profundamente discutida num extenso e intenso monólogo com a escrita ao longo de horas silenciosas passadas no escritório do autor de A Cidade e as Serras (1ªedição póstuma, 1901).
A «mala de ferro», com todo o rico espólio disperso em numerosas publicações periódicas ou em obras livrescas, foi entregue pelos descendentes de Eça de Queirós, à Biblioteca Nacional, no ano de 1975, como nos informa Jorge de Couto, num texto incluído na colectânea, que nos serve de guia, titulada Aquisições Queirosianas (numa 1ª edição da Biblioteca Nacional de Portugal datada de 2007).
Trata-se de um conjunto de contribuições ensaísticas escritas a propósito dos vários momentos de oferta de manuscritos à Biblioteca Nacional, verdadeira «Casa Forte» de diversificados espólios de autores portugueses do século XX (deixados por iniciativa dos próprios ou oferecidos à medida que foram reunidos nas mãos de amigos com quem se correspondiam, a quem gostava de ouvir as opiniões, antes de os publicar, ou de coleccionadores de raridades literárias).
Em boa hora, a B.N.P. através de António Braz de Oliveira, o Coordenador dos textos publicados nestas Aquisições Queirosianas, deu a lume os posicionamentos de especialistas queirosianos como Carlos Reis, Isabel Pires de Lima e A. Campos Matos. De salientar, a esclarecedora síntese de Jorge Couto, Director da Biblioteca. Seguem-se as contribuições dos supracitados investigadores que vão, sabiamente, iluminando os passos dados por obras manuscritas/inéditas ou éditas de Eça de Queirós.
Neste ensejo, abordaram as que foram motivo da Exposição Bibliográfica (Biblioteca Nacional de Portugal) das aquisições queirosianas de espólios desconhecidos, até 2007. Se a Exposição tornou visíveis os livros e folhas da colectânea, a reunião (no livro que estou a abordar) das novas aquisições queirosianas, permitiu uma dissecação mais criteriosa. Reportámo-nos à 1ª Parte de Aquisições Queirosianas. Na 2ª parte destas Aquisições vemos algumas resenhas de obras inspiradoras de romances de Eça, como O Primo João de Brito, embrião de O Primo Basílio; aqui está também referenciado o ensaio intitulado Novos Factores da Política Portuguesa, obra inédita.
Surgem ainda contributos para conhecer a génese de romances como A Ilustre Casa de Ramires, A Cidade e as Serras, e também as célebres Cartas a Fradique Mendes. A concluir este acervo de Aquisições Queirosianas, destaca-se um texto de Manuel Vieira da Cruz intitulado «Notas sobre alguns manuscritos de Eça de Queirós. A doação Millenium BCP».
Estas «Notas» finais são o seu contributo (nas últimas páginas desta obra colectiva) respeitante à sua descoberta nos cofres do Banco Comercial Português de «versões incompletas dos romances A Cidade e as Serras e A Ilustre Casa de Ramires, o original (completo) do ensaio «Novos Factores da Política Portuguesa» e ainda um fragmento de outro texto» (Aquisições Queirosianas, p.101), como nos informa o autor deste interessante achado.
Os informes aqui reunidos, partiram de uma consulta de Manuel Vieira da Cruz à biblioteca da Fundação Millenium BCP. De notar, o facto de «Novos Factores da Política Portuguesa» ter ficado sob pseudónimo e, levianamente, ter sido atribuído a Oliveira Martins e não a Eça de Queirós.
O manuscrito aqui publicado por Vieira da Cruz apresenta diferenças com o texto publicado na Revista de Portugal e também com notas escritas à margem com a letra de Eça de Queirós (A. Q. p,103). Depois de se debruçar sobre as dúvidas e reticências que o levaram à comparação dos manuscritos com as edições críticas já publicadas por vários especialistas como Carlos Reis ou E. Guerra da Cal, Manuel Vieira da Cruz convidou A. Brás Teixeira a observar detalhadamente os manuscritos da colecção do Banco Comercial Português.
O espólio era constituído por três caixas cada uma com o rótulo Eça de Queirós e o nome dos respectivos manuscritos. Seguiu-se a oferta-outorga das três caixas do espólio de Eça ao Dr. Jorge Couto, Director da Biblioteca Nacional. Este achado de Manuel Vieira da Cruz é, sem dúvida, o último grande contributo para enriquecer o espólio queirosiano da Biblioteca Nacional de Portugal, sita em Lisboa. Em momento inesperado, Vieira da Cruz desocultou a presença de manuscritos queirosianos nos cofres do Millenium BCP.
Depois de diversas vicissitudes pelas quais passaram desde «a sua anterior proprietária, Maria Angélica Teixeira de Magalhães Vaz Pinto, herdeira destes manuscritos de seu pai, Eurico Lima de Magalhães» (A. Q., p.110), esta é uma importante contribuição de Manuel Vieira da Cruz para o esclarecimento da obra do romancista-diplomata cujo vasto espólio se encontra há muitos anos depositado na maior Biblioteca de Portugal. O autor de O Mistério da Estrada de Sintra e de Os Maias precisa, cada vez mais, de uma abordagem-síntese de toda a documentação que deixou um pouco dispersa, muito provavelmente pelos lugares do seu país ou do mundo. A sua correspondência epistolar que ainda possa continuar dispersa será sempre uma fonte para conhecer melhor o espírito imaginativo, irónico e inconformista do genial escritor Eça de Queirós.
7 de Março de 2009
Teresa Ferrer Passos
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O DISCURSO DA LOUCURA A ECOAR NUMA «IGNOTA FAUNA»
Acabo de ler, com a atenção que o autor me merece, o livro de Paulo Brito e Abreu intitulado Ignota Fauna. Já acostumada à sua alta poesia, foi com entusiasmo que o comecei a folhear. Prosa agora, mas prosa inoculada de toda uma notável sensibilidade de Poeta. Poeta que não deixa de escrever com o delírio dos sábios e, também, com a marca do destino que, esperamos, lhe augure, como merece, um estudo académico profundo sobre toda a sua tão desprezada poética, a começar pelo belíssimo livro Agricultura Celeste.
Entre o «mythos» e o lógico discurso geram-se afrontamentos e conexões, inesperadas umas, previsíveis outras. A propósito do livro de Ken Kesey (transposto para o cinema por Milos Forman) «Voando Sobre um Ninho de Cucos», Paulo Brito e Abreu tece importantes considerações que são um justíssimo libelo contra o Sistema globalizante em que a sociedade vai vivendo, cada vez mais, como se estivesse a planar «sobre um ninho de cucos», ou como se fosse apenas um robô que, convencendo demais as mentes atulhadas de provisórias soluções, nada constrói de duradouro, mas apenas cria «buracos», donde é difícil, muito difícil sair, se não se possuir a força da resistência.
Se para o autor, a criança pouco difere do louco pela sua estratégia de verdade e sonho conjugados, o Poeta também não diverge muito dele, pelo criacionismo da sua linguagem desviante da banalidade e a actuar para além dos tempos. Paulo Brito e Abreu que sabe, como poucos, pôr o seu pensamento ao serviço da cultura, dá-nos o exemplo de S. Paulo que destacou a questão do escândalo da cruz. Se este escândalo é uma loucura para o mundo, de acordo com aquilo que o mundo define como loucura, tal visão não tem de ser, necessariamente, uma loucura, na perspectiva de Deus.
É neste livro que Paulo Brito e Abreu expõe a sua tese sobre o sistema vigente. Na verdade, este não se distingue claramente de um sociedade fechada em que um manicómio ou uma prisão ou um sistema social concentracionário não se contrapõem, mas são quase uma única realidade, e até se chegam a tocar nos seus vários ângulos. E lembra: «Se assassinares no Vietname, és laureado e premiado, mas matando, inadvertidamente, numa briga de bêbedos, espera-te, punitiva, a prisão e o hospício… Com essa cultura mandante, e dominante, não nos espanta nem aturde o facto de ter surgido, nos Estados Unidos, a contracultura ou a cultura de encontros.» (1)
Entre as aterrorizadoras forças vencedoras num mundo de capitalismo selvagem, em que grassa o medo desencadeado pela insustentabilidade do diverso e em que a tecnocracia tomou conta da imaginação humana, transmutando-a num robô acéfalo, a liberdade de pensamento tornou-se um conceito tirânico e despótico. E, ao analisar as consequências da presença avassaladora das máquinas, Paulo Brito e Abreu abre o caminho para a aparição de uma rede de mando sem escrúpulos. O tempo está pronto para implantar a cultura do homem concebido como «produto feito em série» e «quem pensa, altivo, pela sua cabeça, quem discorre e quem julga sem pedir licença a tutores», acaba como membro de um «reino em que impera o falaz e medíocre.» (2)
Logo a seguir, o autor acentua: «Os homens do poder, eles hipnotizam as pessoas com a rádio e a televisão».(3) Entre a lógica dionisíaca e a apolínea, entre o êxtase do poeta ou do santo e a ordem que desconhece o caos, Paulo Brito e Abreu chama a atenção para a possibilidade desta engrenagem provocar um poder confuso por mal definição, e estático por paralisia mental. E, conclui que se «o Sistema, anestesiar, com computadores, balelas e telenovelas, é para nos roubar, primeiramente, a capacidade de estese; o arroubamento e a estese são contra o funcionário unidimensional…» (4)
Se, como escreve o autor, «a língua é o que permite a ligação» (5), esta obra Ignota Fauna traça algumas linhas de oportuníssima crítica ao mundo contemporâneo em que fomos introduzidos como se fossemos loucos num manicómio. Esse mundo que se torna uma clausura monstruosa que talvez não seja mais do que uma «festa do sonho e da Utopia», como diz Paulo Brito e Abreu. E, citando João Belo, conclui o Poeta, com esta frase paradigmática: «Não é por acaso que nada é por acaso».(6) Frase que, digo eu própria, não podia ser mais certeira, mais clarividente.
Numa Segunda Parte (Epílogo), surgem os chamados «Paralipómenos» em que a autor se debruça sobre alguns aspectos da psicanálise Freudiana e Yunguiana, sem deixar de detectar as suas ligações com a poesia, os primitivos, a beleza, e, até sem esquecer o pensamento de Platão, de Malebranche ou de Fernando Pessoa. Nesta Segunda Parte da obra em análise, Paulo Brito e Abreu lembra, com a sua mestria psicológica e a sua experiência de vida, sobre a obra de arte, as psicoterapias e as suas relações com o metafórico «ser ou não ser» de «Hamlet».
A terminar, o autor entrega a Fernando Guilherme Azevedo a autoria de uma Nótula com o título «Paulo Brito e Abreu, o Comunitarismo e o “Cântico Imortal”». Como muito bem afirma F. G. Azevedo, neste ensejo, esta sua obra é hoje «uma obra maior e fundamental da Poesia contemporânea portuguesa».(7)
Se Ignota Fauna é, como Paulo Brito e Abreu escreve em «Paralipómenos», «manobra e manifesto duma certa alteridade, do eubiótico e crítico direito à diferença», e «essa diferença é o sonho, ou discurso do Outro» (8), é, sem dúvida, também ̶ e ao modo muito pessoal do autor ̶ uma contribuição evidente para a abordagem científico-poética dos discursos ideológicos acerca do Homem. Contudo, um Homem em diálogo vivo com a sua liberdade, num amplexo universal a que não falte, ou em que não escasseie o respeito pela sua identidade.
27 de Fevereiro de 2009
Teresa Ferrer Passos
(1) Ignota Fauna, Lavra Editorial, 2005, p.12.
(2) Ibidem, p. 15.
(3) Ibidem, p. 15.
(4) Ibidem, p. 21.
(5) Ibidem, p. 22.
(6) Ibidem, p. 31.
(7) Ibidem, p. 49.
(8) Ibidem, p. 44.
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OS ESTRANHOS PERCURSOS DO POETA
«Tudo era límpido como uma estrela eterna e eles pairavam tão quietos que podiam sentir o tempo futuro rolando lúcido dentro de seus corpos com a espessura do longo passado que instante por instante acabavam de viver»
Clarisse Lispector, Perto do Coração Selvagem
Poeta fascinado pela vida urbana, Claudio Willer publicou na editora Lamparina (Rio de Janeiro, 2004), Estranhas Experiências e Outros Poemas. Na expressão Outros Poemas são publicados textos dos livro anteriores Jardim da Provocação (1981), Dias Circulares (1976) e Anotações para um Apocalipse (1976). Trata-se de um curioso conjunto de poemas intercalados por pequenos textos em prosa, criteriosamente seleccionados pelo autor. A primeira parte do título, Estranhas Experiências, constitui o corpus dos poemas inéditos.
Poesia enraizada no quotidiano da cidade, procura nela os momentos propícios à fantasia, ao sonho, à magia: «Meus pés se afundavam na pedra e no cimento dos caminhos e descobriam o hálito morno de cidade-fantasma e a pulsação mais íntima da alma que busca libertar-se» (p.135). Os sentidos atentos do Poeta aí estão para os transpor para a palavra. Como escreve num dos seus poemas, há «um eco rascante das sandálias sobre o chão de mármore» ou, em contraste, «o vazio (...) penetra até a medula dos ossos» porque, afinal, «o vazio que chega a nós com a simetria de um poema clássico» (p.33).
Escrever é a asa liberta do poeta, a asa à solta planando sobre os jardins ou a chuva, os livros ou o calor das noites de verão: «escrevo sobre o que está aqui: / as fotos em preto e branco / brilham loucamente / - são janelas» (p.33). Os pormenores fazem parte das noites de amor: «a colcha era verde e a lâmpada azulada» (p.29). Envolto em ritual, o amor ganha a força do sobrenatural, a que não podiam deixar de se juntar os livros, esses magos cobertos com uma capa sempre a velar pelos seus secretos caminhos.
No poema «Verdade», Claudio Willer lembra que «as fachadas dos edifícios são rostos». E, como esses rostos se cruzam com «todos os que agora vagam pelas ruas, os personagens fantásticos, os videntes, os marginais» (p.36). Para Willer, tudo parece fazer parte de um mesmo quadro, errante, fugidio, cheio de reflexos, de espelhos e de sortilégios: «a realidade é uma geometria de corpos» (p.53).
Enredando-se nos labirintos do quotidiano em que se move um tanto perdido, o poeta descobre nos versos o encanto e a fonte viva que desvenda os sinais do mar: «o mar e suas gavetas de cristal / seus andaimes de prata (...) / seu recheio de quadros abstractos / (...) suas mãos de dedos transparentes a perder de vista» (p.59).
No poema «A chegada do tempo», Claudio Willer canta a chegada da primavera como se fosse «modulações da claridade /sensagens de chuva e vento / música silenciosa vibrando no corpo / luz acariciante aos domingos pela manhã» Depois, conclui: «escrever é matar-se aos poucos / deixar de ser / alegremente» (p.42). Todo o maravilhamento das sensações transparece e a própria morte só tem algum consentimento neste ofício de letras navegando.
Entre real e irreal, o poeta de Estranhas Experiências joga com as imagens efémeras e esgotantes, mas sente a exaltação a aflorar no poema «Escritos ontem». Aqui, Claudio Willer acredita ainda na dimensão humana, às vezes sufocada, como se não a merecessemos, às vezes impetuosa demais, como se fosse um impossível: «o Sol será nosso / o centro do universo fica aqui / resistimos / pelo sagrado direito ao sonho / e todos os seus mundos / resistimos / operações mágicas continuarão lícitas / neste dia de sombras vivas que se confundem com a alma / todos os seus desejos se realizarão / o que você pedir lhe será dado / profecias se cumprirão» (p.52).
As palavras são o arco-íris do poeta, porque as palavras criam mundo novos e rebeldes, mundos cheios de água viva e refrescante, mundos para olhar com o sorriso das sensações puras e que edificam o sentimento de que vale a pena a grande aventura do desconhecido que a vida encerra.
Teresa Ferrer Passos
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COLINA DE POESIA*
«Antes de haver mundo / já existiam as palavras». Eis dois versos do livro Falar às Aves. Como o título indicia, o poeta propõe-se falar, ou seja, estar com algo ou alguém. Diz-nos que é com as aves. Mas será, efectivamente, as aves que Carlos Lopes Pires quer encontrar ou estas são apenas um pretexto emotivo para falar (com as mais simples palavras), àqueles que entendem a palavra como fala, como encontro de um eu consigo próprio, na plenitude do outro?
Imerso na angústia da voz e do eco, o poeta faz uma recriação da palavra e das palavras. O poeta constrói o mundo novo do diálogo que é a própria comunhão da linguagem dita. Num «Abraço Fraterno» e universal traçam-se os caminhos esconsos da palavra nova, suprema e insubmissa, transparente e com toda a sua opacidade, agreste e suave, totalizante e circunstancial.
E, afinal, sempre uma palavra a entoar o cântico das origens, a provocar o nascimento da poesia… Poesia. Essa palavra que é o prolongamento no efémero ou na fluidez, no esquecimento ou na memória. Essa palavra que parece, às vezes, uma alquimia qualquer a envolver-se de misteriosos engenhos, de sigilosas artes e a transbordar num fabuloso «acto de amor». Por isso, o poeta escreve:
«Se um dia os meus poemas forem lidos,
(…) Quantos saberão que entre mim e eles
nunca houve distância,
e que essa voz, tantas vezes silêncio,
era unicamente um acto de amor?» (p.35)
Acto de amor. Fraternidade. Poesia. A tríade mágica de toda a criação. Do princípio e do fim. Da voz e do seu incontrolável eco. Das coisas serenas e dos seres inquietos. A serem um só corpo, pela palavra poética. Uma maravilha única no universo imenso do eu e do tu.
A serem a humanidade reduzida à frágil barca da poesia, com a limpidez das vetustas aves. Com as pedras e os rios e todo o vento.
A serem, no poeta veemente, a ousadia do Falar às Aves docemente…
Teresa Bernardino*
* Ortónimo de Teresa Ferrer Passos.
* Apresentação do livro Falar às Aves de Carlos Lopes Pires, no Atheneu Comercial em Leiria, em 4 de Dezembro de 1993. Não me foi possível fazer uma análise mais detalhada sobre o livro, pois a solicitação do autor foi feita com pouco mais de vinte e quatro horas de antecedência (devido a impossibilidade do Apresentador convidado).
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A POLÍTICA E O MITO EM FERNANDO PESSOA
A ausência de grandes teóricos do pensamento político é uma das maiores falhas da história do povo português. Este facto foi lesivo da construção de uma política bem alicerçada e não em deriva, conforme os ventos e as marés de interesses e oportunismos imediatos. Portugal só brilhou quando surgiu um D. Jerónimo Osório no século XVI, um D. Rodrigo da Cunha no século XVIII ou um Almeida Garrett no século XIX.
Nos princípios do século XX, será Teixeira de Pascoaes a escrever a Arte de Ser Português (1915) e Fernando Pessoa a tentar fazer uma teoria sobre Portugal, conforme os seus papéis dactilografados ou os opúsculos dados a lume nos constantes momentos críticos da política portuguesa.
Fernando Pessoa sentiu esses problemas talvez mais especialmente, porque tendo vivido e estudado numa África do Sul de cultura inglesa até aos dezassete anos de idade, olhou Portugal como um estrangeiro que, ao desembarcar em Lisboa, observa os costumes e os comportamentos sociais com uma visão mais larga e mais funda.
Estas considerações vêm a propósito da leitura de um ensaio bastante curioso da autoria de Brunello de Cusatis recentemente publicado por Caixotim Edições, intitulado Esoterismo, Mitoginia e Realismo Político em Fernando Pessoa.
Este estudioso da literatura e da língua portuguesa, é professor de Literatura Portuguesa e Brasileira na Universidade dos Estudos de Perugia, em Itália. Tendo publicado ensaios sobre as obras de Antero de Quental e Fernando Pessoa nas suas vertentes literária e política editados no seu país, acaba agora de ver uma das suas deambulações sobre Fernando Pessoa publicada pela Caixotim, conceituada editora portuguesa, com sede na cidade do Porto.
Brunello de Cusatis faz uma análise objectiva de problemas levantados pelo pensamento político do autor da Mensagem. Para ser mais concreto, divide o seu ensaio em duas partes: «Contemplação», em que aborda os aspectos míticos assim como os de natureza esotérica de muitos dos escritos do Poeta, e «Actuação», em que mostra a sua intervenção através de opúsculos ou artigos de revista.
Releva, desde logo, a importância dada por Fernando Pessoa ao mito na história do Povo português, o contínuo recurso ao sebastianismo, a intuição de um Quinto Império para realizar Portugal (e a própria Europa), a ausência de fidelidade aos valores nacionais, designadamente com o internacionalismo da Maçonaria.
Neste contexto, Brunello de Cusatis acentua o papel das ciências ocultas no desenvolvimento do pensamento político do Poeta, referindo-se, especificamente, à sua nota biográfica escrita em 30 de Março de 1935: «Fiel à tradição secreta do cristianismo» e «iniciado nos três graus menores da (aparentemente extinta) Ordem Templária em Portugal(...)». E conclui: «Aqui, a atitude “Contemplativa” de Pessoa (...) que se definirá em carta a Adolfo Casais Monteiro, como um “nacionalista místico, um sebastianista racional”» (p.30)
Captar, pelos pontos abordados, o(s) sentido(s) do pensamento político de Fernando Pessoa, eis a meta a atingir neste trabalho levado a cabo por Brunello de Cusatis: o Poeta dos heterónimos era essencialmente um espírito atormentado com a decadência da Pátria. Decadência endémica que ia vendo nos dois regimes que a sua vida de juventude viveu e a de adulto atravessou.
Os erros do Constitucionalismo monárquico repetiam-se com o regime republicano. Outros erros foram cometidos pelos autores da revolução de 28 de Maio de 1926. Esta evolução política teria marcado, segundo Brunello de Cusatis, todas as mudanças de pensamento político de Pessoa. Nos escritos dispersos, publicados ou inéditos, dos quarenta e sete anos da sua vida, há um denominador comum: o sentimento patriótico.
Portanto, não se trata de uma personalidade fragmentada e incoerente, mas antes de uma personalidade que punha os interesses da nação acima da partidocracia do Constitucionalismo Monárquico e do parlamentarismo republicano. O sentido de Pátria era, na verdade, muito vincado no Poeta que colaborou, com tanto entusiasmo, no movimento (e revista) da «Renascença Portuguesa» (1912).
É precisamente a Ordem dos Templários que se lhe afigura ainda um bastião da força da tradição e dos valores portugueses. E, como efectiva «fundadora de Portugal», devia ser também a «condutora de Portugal, não somente do passado mas também, e sobretudo, do futuro» (p.30).
Segundo Brunello de Cusatis, há que realçar um Fernando Pessoa em busca de uma mística e de um mito, um grande mito que daria consistência à nação, sem a desnacionalizar, como acontecera com as revoluções liberal ou republicana.
Na segunda parte, que intitulou «Actuação», Brunello de Cusatis nota, acertadamente, que «a vida social e política de Portugal entre 1910, ano da implantação da República e 1935, ano da morte do Poeta, foi caracterizada por contínuas e intrincadas mudanças de regime e de governo, golpes de estado, agitações e revoluções» (p.68).
Esta fragmentação da coesão nacional, a desnacionalização provocada pela cedência a valores de outras nações, que não seriam prejudiciais se fossem universais, esvaziava o Povo português dos seus fundamentos mentais edificados com a cruzada cristã (papel relevante dos Templários) e a consequente criação da nacionalidade no século XII e a atingirem o ponto mais alto no século XV, com os Descobrimentos, que lançariam a Europa numa verdadeira Idade de Ouro.
As «desaprovações» de Pessoa, como escreve Brunello de Cusatis, reflectem, sobretudo, o seu ardor patriótico e, ao mesmo tempo, os seus intuitos universalistas: «Era o seu amor patriótico, o julgar o seu país desnacionalizado e retrógrado que o levariam, nos planos político e económico, a encontrar e propor soluções, apenas na aparência entre si contraditórias» (p.56). Assim, o autor deste incisivo ensaio considera as polémicas nascidas do pensamento político de Fernando Pessoa, entre as quais destaca a travada entre Jacinto do Prado Coelho e Alfredo Margarido, como desnecessárias.
«O acesso ao poder dos homens mais competentes para exercê-lo» (p.38) devia pautar a vida política de um país. Por isso, «o liberalismo de Fernando Pessoa reflectia fundamentalmente (...) o seu aristocratismo (no seu sentido etimológico de governo dos melhores) antidemocrático, o seu extremismo individualista, a sua recusa do socialismo e, portanto, de todos os centralismos estatistas» (p.57).
Como muito claramente afirma Brunello de Cusatis, Fernando Pessoa, «da Raça dos Descobridores», «despreza o que seja menos que descobrir um Novo Mundo!»
Para o fazer de novo, seria preciso «um grande mito nacional» e, a Portugal, não faltavam antecedentes históricos. «A mitogenia portuguesa era demasiado rica» (p.14) para não ser possível fazer um «renascimento» de Portugal. Como diria Pessoa, «é a hora», ou estaremos ainda longe desse tempo de recriação da Pátria?
Teresa Ferrer Passos
Fonte: «A Política e o Mito em Fernando Pessoa», Suplemento «das Artes das Letras» in O Primeiro de Janeiro, 13/6/2005; Internet, www.harmoniadomundo.net .
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(NO 1º CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE FERNANDO PESSOA)
«Dispersando o seu pensamento por folhas de papel por imprimir, Fernando Pessoa deu forma à sua tão excelente construção poética, mas, igualmente, a acutilantes e inesperadas páginas de prosa densa e de forte fervor político. Fazendo uma pausa no que toca à primeira expressão, exaltada ou ignorada conforme o tempo e as razões, tracemos alguns dos pontos de vista presentes no seus escritos prosaicos sobre a problemática do regime republicano.
As suas ideias acerca do conturbado período que sucedeu à implantação da República diversificam-se ao longo dos anos. Isto significa que o pensamento de Pessoa sobre o novo regime foi um pensamento em mutação ou cíclico: inicialmente, alimentou-o a esperança, mas esta não durou muito; passou, em seguida, à situação de decepcionado, para mais uma vez nele ressurgir a esperança que viria, depois, a morrer.
Cada momento determina a Fernando Pessoa uma reacção ardente, um juízo mais agressivo ou mais benevolente, uma asserção que está na continuidade ou que contesta a crença anteriormente expressa. É uma amálgama onde o contraste e a concordância interpenetram o poeta dos heterónimos, que é vários e um só. Na dispersão dos seus escritos, acentuada pelo carácter fragmentário que possuem, existe a unidade do pensamento insubmisso e não comprometido com a labiríntica teia da política nacional.
Envolvendo-se nas malhas tecidas pelos acontecimentos, procura freneticamente as motivações que os impuseram; analisa comparativamente os tempos da Monarquia com a época pós-revolucionária; busca os erros em que ambos os regimes caíram; tenta descobrir para a nação a salvação libertadora dos vícios que a República não remediou, ao substituir o rei pelo presidente, mas mantendo a mentalidade dos tempos anteriores.
Numa primeira fase, F. Pessoa coloca a República como o regime da esperança, destacando, com veemência, os condicionalismos que a tornaram possível: a identificação da Monarquia com o catolicismo; a sua forma não portuguesa; a ausência de partidos separados por ideologias diferentes, mas de grupos formados por politiqueiros sem inteligência. Estes aspectos da Monarquia não abrangiam o novo regime, o que lhe ia garantir a construção de um Portugal outro, com uma identidade renascida, pronto para constituir uma vanguarda no mundo, como acontecera na época dos Descobrimentos quatrocentistas.
Os factos, contudo, tornaram breve o optimismo de Pessoa. O primeiro governo provisório da República revelou uma prática pouco consentânea com o clima de renovação e regeneração nacional que Fernando Pessoa tanto ambicionava para a Pátria incaracterística, de que a Monarquia constitucional era o paradigma. Ao observar as deficiências da nova ordem política, o poeta de Mensagem interroga-se sobre a solução-República. Estaria a República adaptada aos interesses nacionais? Responderia às inadiáveis questões que atormentavam o país? Quanto ao primeiro problema, Fernando Pessoa conclui que o partido republicano não era suficientemente português. Quanto ao segundo, era impossível responder, com eficácia, pois a República enfermava de três males congénitos: «demasiado socializante, demasiado não nacional e demasiado política»[1]. O primeiro governo provisório era o exemplo vivo da incapacidade «para disciplinar o país, para tornar firme a situação internacional e para seguir uma política patriótica, suprapessoal»[2].
A oportunidade para levar a cabo essa obra surgira, mas a República não a realizou devido, como justifica o poeta, «à desorientação radicalista, à incompetência intelectual e à desunião interna»[3]. Males que vinham do passado recente e que eram a razão de ser maior para o seu desejo de mudar o regime. A esperança da redenção da Pátria começou a esmorecer logo com a constituição do primeiro governo. Foi este que definiu as grandes linhas em que se atolou a República, ao longo de dezasseis anos de história e das quais não logrou sair senão temporariamente, quando emergiu no nebuloso horizonte português a figura carismática de Sidónio Pais, a dar expressão a uma Nova República.
Com o seu prestígio, com a sua autoridade, com o seu carácter generoso, Sidónio Pais aparecia como a decisiva panaceia para assegurar a vitória sobre as «forças dissolventes da nossa sociedade», que apenas substituíram o rei pelo presidente e os partidos por outros partidos semelhantes. Ora, considera F. Pessoa, não era essa a grande missão da República, não era esse o objectivo do derrube da Monarquia. Segundo pensa, ou a mudança se verificava nas estruturas mentais da nação ou então a mudança não valia a pena.
O movimento sidonista, apoiado pelas forças contrárias à demagogia crescente, criou uma nova esperança para a Pátria avassalada pelas ambiciosas facções políticas. Se a Monarquia «havia abusado das ditaduras, os republicanos passaram a legislar em ditadura, fazendo em ditadura as suas leis mais importantes»; se a Monarquia «havia desperdiçado os dinheiros públicos, a república que veio multiplicou por qualquer coisa os escândalos financeiros da monarquia»; se a Monarquia «havia desperdiçado os dinheiros públicos a república que veio multiplicou por qualquer coisa os escândalos financeiros da monarquia»; se a Monarquia «criara um estado revolucionário, a república veio e criou dois ou três estados revolucionários»; se a Monarquia «não conseguira resolver o problema da ordem, a república instituiu a desordem múltipla»[4]. E o poeta, adepto da República, termina o seu raciocínio evidenciando o seu mal-estar com o regime, onde pusera a esperança de regenerar Portugal: «Não melhoramos em administração financeira, não melhoramos em administração geral, não temos mais paz, não temos sequer mais liberdade. Na monarquia era possível insultar por escrito impresso o Rei; na república não era possível, porque era perigoso, insultar até verbalmente o sr. Afonso Costa»[5].
Neste depoimento pessimista podemos encontrar as razões que terão conduzido Fernando Pessoa a apoiar tenazmente o Presidente-Rei, como ele o designa com profunda veneração. É que, para o poeta e pensador inconformado com a realidade nacional que a República não transformara, o sidonismo, contrariamente a ela, inseria-se na tradição política portuguesa, ou seja, na monarquia absolutista ou representativa, onde «se equilibravam o despotismo central com a descentralização municipalista».
A Nova República instaurada pela acção do partido Unionista e a disponibilidade de Sidónio Pais, não prosseguia o constitucionalismo monárquico, como acontecera com a República estabelecida em 5 de Outubro de 1910. Nos escritos que elaborou a propósito da República de Sidónio, Fernando Pessoa aproveita para tecer várias críticas ao Constitucionalismo: o seu carácter não popular, o seu anti-catolicismo, a sua essência internacionalista. Como não servia, por estar fora do tempo, uma monarquia absoluta que extinguira a sua feição municipalista, também fora largamente prejudicial ao país a Monarquia Constitucional, onde as classes médias, como classes, não governavam, mas as classes médias políticas, isto é, as que defendiam interesses individuais.
A revolução Constitucional, escreve Pessoa, efectuou-se «em favor da burguesia europeia e não da portuguesa, (...) o liberalismo foi um anticatolicismo e foi também um antinacionalismo». Por isso, a República, por enfermar de defeitos idênticos, não foi mais do que o epílogo da Monarquia Constitucional.
O assassinato de Sidónio Pais representou para Fernando Pessoa, de novo, o ruir da esperança: o redentor que salvaria Portugal da incompetência, das ambições desenfreadas, da falta de sentido nacional, da desordem partidária, dos excessos incontrolados dos governantes vendidos a interesses alheios, da ausência de desenvolvimento económico e social, morrera às mãos dos que pretendiam continuar a viver na instabilidade e na caducidade cultural, por lhes convir não uma mudança da mentalidade provinciana numa mentalidade universalista, enraizada na nação, mas a simples mudança das pessoas que exerciam o mando. Era uma mudança puramente artificial, desprestigiante das recém-criadas instituições republicanas e reduzida à sobreposição dos benefícios individuais aos do Bem Geral.
Identificado inicialmente com o espírito da República, Fernando Pessoa, bem cedo, se apercebeu dos equívocos que lhe davam forma. Depois de lhe atribuir erros mais graves do que à Monarquia, não vacila em apoiar um homem secundado por muitos monárquicos patriotas. A aventura, no entanto, não foi longe. A esperança fugia novamente para um Pessoa cada vez mais desalentado com o triste panorama político português e que, em 1920, ainda recordava no poema À memória do Presidente-Rei Sidónio Pais, o «Herói que a morte sagrou Rei». A morte é, para o poeta, inaceitável ao não vislumbrar quem o siga com a mesma audácia. Afinal, é insubstituível. Logo não morreu, não pode morrer. Esta a ideia difusa no belo poema que referimos: «No oculto para o nosso olhar, / No visível à nossa alma, / Inda sorri com o antigo ar / De força calma (...) // Não sai da nossa alma a fé / De que, alhures que o mundo e o fado, / Ele inda pensa em nós e é / O bem-amado // (...) Flor alta do paul da grei, / Antemanhã da Redenção, / Nele uma hora encarnou el-rei / Dom Sebastião // (...) E no ar de bruma que estremece / (Clarim longínquo matinal!) / O DESEJADO enfim regresse / A Portugal!»[6].»
Teresa Bernardino*
* Ortónimo de Teresa Ferrer Passos.
[1] Fernando Pessoa, Da República (1910-1935), Ed. Ática, 1979, p.130.
[2] Ibidem, p.139.
[3] Ib., p.140.
[4] Ib., pp.149-150.
[5] Ib., p.150.
[6] Ib., p.231 e seg.
Fonte: Diário de Notícias, 26/6/1988; Teresa Bernardino, Ensaios Literários e Críticos, Universitária Editora, Lisboa, 2001, pp. 201-206; Internet, www.harmoniadomundo.net
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«SOBRE PORTUGAL – INTRODUÇÃO AO PROBLEMA NACIONAL»
«Ninguém sabe que coisa quer,
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal, nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?).
Tudo é incerto e derradeiro,
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...
É a Hora!»
Fernando Pessoa
A publicação de numerosos escritos de Fernando Pessoa sobre temas políticos* constitui um importante contributo para o enriquecimento da cultura nacional, para a sua reformulação em termos mais seguros e para a revitalização de uma nacionalidade que, perdurando há mais de oito séculos, continua à procura de um rumo, uma razão de ser, uma justificação para prosseguir, apesar dos circunstancialismos dos tempos. Se a nossa época revela que uma crise prolongada pôs em dúvida a nossa prossecução como nação livre e independente, se a política que temos vivido não conseguiu ainda encontrar uma ideologia uniforme, firme e audaz no sentido da eficácia e da durabilidade, se os portugueses continuam na divisão, à procura de uma unidade, que dê coesão e fundamento estável às formulações sociopolíticas e económicas, isso deve-se, sobretudo, à ausência de linhas de rumo verdadeiramente nacionais e, simultaneamente, fiéis à civilização europeia e à dimensão atlântica que nos identifica. Como afirma Fernando Pessoa «foi pelo Atlântico que fomos à procura da glória criando a Civilização Maior. É pelo Atlântico que devemos ir em demanda da civilização Máxima» (p.224).
De facto, se estes escritos fragmentários de Pessoa revelam, não raro, a ausência de monografias de base sobre o problema nacional e a ausência de uma linha ideológica suficientemente explícita, constituem, no entanto, um notável apoio documental para qualquer meditação sobre Portugal. Ao entrever as grandes linhas de construção mental de Portugal, propõe que a sua existência e continuidade secular se alicerce nas raízes ancestrais de natureza espiritual ou cultural que se começaram a evidenciar com a poesia dos Cancioneiros e com os romances de cavalaria. Depois de tecer diversas considerações sobre o carácter do povo português, salientando os seus aspectos negativos, vai abordar o fenómeno da decadência em que Portugal continuava mergulhado na segunda década do século XX. Ao tentar analisá-lo, equaciona nele o próprio problema nacional – desde Alcácer-Quibir, Portugal jamais se levantara da prostração em que imergiram os seus mais altos valores. Isolado dos outros povos, sobrevivia ainda, mas já não vivia – a servil imitação das ideologias ou das revoluções estrangeiras tinha-se tornado vulgar. Como remédio para essa frustrante decadência propôs a industrialização sistemática. Ontem como hoje, uma revolução industrial urge em Portugal, sob pena de, tardando demais, já não ser viável a recuperação que o coloque ao nível de qualquer país europeu médio.
Outro factor de peso na decadência fora, segundo o poeta, a lenta desnacionalização do país, que faz recuar à revolução de 1820. Nesta perspectiva, nota igualmente que a incultura, a deficiente propaganda de Portugal no estrangeiro e a ausência de consciência superior de nacionalidade foram as principais causas da desvalorização internacional de Portugal (p.121).
Mas, neste contexto, vê uma saída para a realidade portuguesa – o mito do Quinto Império. Seria, para Fernando Pessoa, apenas necessário reavivá-lo e renová-lo. A crença popular no regresso do tão desejado D. Sebastião seria uma realidade, apesar de todas as desventuras e da desesperança que, tantas vezes, recaíram sobre o povo. A hora da grandeza prometida, mas ainda não cumprida, soaria finalmente. É então que considera, entre os imperialismos possíveis, aquele em que o país melhor se realizaria – o imperialismo cultural que os descobrimentos tinham assumido pela sua feição científica. Retomando o seu carácter criador, a nação portuguesa daria forma á civilização espiritual que as profecias do Bandarra previam.
Acentuando a importância do inequívoco portuguesismo do mito sebastianista, entrevê-o como o sustentáculo ideal da realização suprema por Portugal do imprevisível, mas certo, Quinto Império. O seu instrumento máximo seria a própria língua portuguesa, ao encerrar em si todos os valores culturais que nos definiam. Na verdade, podemos hoje comparar esta asserção com o Portugal sem colónias, mas ainda senhor do mundo pelos milhões de portugueses que espalhados por todas as partes do globo difundem os seus costumes e os seus valores culturais. Igualmente os países de expressão portuguesa recentemente descolonizados poderão garantir a permanência da língua no continente africano, do mesmo modo que o Brasil, independente desde 1822, não só a conservou como a enriqueceu.
Revertendo ao sonhado D. Sebastião – salvador do destino de Portugal – destacamos o facto de o autor da «Introdução» associar a data de 1888, que Pessoa indica como o ano da «vinda» de D. Sebastião, com a data do nascimento do próprio poeta. Assim, ele seria esse D. Sebastião – super-Camões, como o define o autor de O Guardador de Rebanhos – que abriria esses tão ansiosamente esperados Tempos Novos de Portugal. Se essa hipótese aventada por Joel Serrão, é plausível pelo carácter tantas vezes enigmático dos escritos daquele, parece-nos pouco provável que F. Pessoa se classificasse como um super-Camões (real). Apesar de afirmar em certo passo que o génio nunca é compreendido pelos seus contemporâneos, isso não justifica que se quisesse identificar com o desejado D. Sebastião. Além disso, sentimos que falta aos seus escritos a largueza da sistematização teórica clarificadora e aprofundada para que ele pudesse representar esse doutrinador e homem de acção que orientaria o futuro Portugal do Quinto Império. Embora aborde as questões, fica pela sua enunciação, não chegando a atingir o cerne do problema nacional – falta-lhe o fundamento em estudos anteriores para construir uma consistente teoria da nação portuguesa.
Na sua desesperada procura de um sentido para Portugal, como é afirmado na «Introdução», Fernando Pessoa reflecte não só o seu próprio tempo como também o controverso passado e o desconhecido futuro que, mesmo assim, projectava para os portugueses. Também actualmente se afigura urgente a redefinição de Portugal por Portugal, para que o seu autêntico sentido e significado sejam delineados com base em factores que, na essência, lhe dêem a dimensão que merece. Acusando os governantes da República de não se apoiarem «nas realidades psíquicas que são o fundamento da vida da nação», mas de «viverem mentalmente do estrangeiro» (p.123), pensa que «às influências estrangeiras» se deve responder pela «capacidade de criação de novos elementos civilizacionais» (p.117). Contudo, esta tendência nacionalista de F. Pessoa só pode ser considerada num sentido restrito, pois as realidades peninsular, europeia e além-atlântica não podem ser secundarizadas, na medida em que o alheamento das ideias e das acções dos outros povos conduz fatalmente à estagnação das nações, cujos problemas são, cada vez com mais acutilância, problemas de carácter universal.
Teresa Bernardino*
* Ortónimo de Teresa Ferrer Passos.
* Sobre Portugal. Introdução ao Problema Nacional, Ática, Lisboa, 1979.
Fonte: Diário de Notícias, 8 /1/1980; Teresa Bernardino, O Sentimento Patriótico em Portugal, Lisboa, ed. Autor, 1983, pp. 49-51; Teresa Bernardino, Ensaios Literários e Críticos, Universitária Editora, Lisboa, 2001, pp.89-93; Internet, www.harmoniadomundo.net
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O PULSAR DA FILOSOFIA EM FERNANDO PESSOA
«Eu não tenho filosofia: tenho sentidos». Deste asserção, pode-se dizer, parte todas as formulações filosóficas de Fernando Pessoa. A sensação, a sensibilidade, a emoção serão, sem dúvida, o princípio dos princípios de qualquer das suas reflexões, dos seus poemas, da sua dramaturgia. Quer o Poeta expressar a ideia de que a filosofia deriva precisamente da percepção alcançada pelos sentidos. Tudo tem neles a sua origem. O próprio mistério, a sua simples captação ou cogitação, não é mais do que uma manifestação dos sentidos perante a racionalidade.
São os sentidos que provocam a razão pensante. Por isso, Pessoa escreve: «O único mistério é haver quem pense no mistério». Se os sentidos pertencem ao visível, ao racional como podem conceber o invisível ou o irracional? Este questionamento pode relacionar-se, explicitando-o, com outra frase do Poeta: «Há metafísica bastante em não pensar em nada».
Precisamente no «não pensar em nada» está o ponto culminante do mistério. Ao «não pensar em nada» pensa-se, obviamente, em alguma coisa, e, essa coisa, é o «nada». Esta expressão, correspondendo à negação do ser, seria naturalmente a afirmação do absurdo para quem só crê no conhecimento atingido pela sensação. Sintomática desta filosofia da sensibilidade, tão claramente presente nos poemas de O Guardador de Rebanhos, não pode deixar de ser a expressão: «Não acredito em Deus porque nunca o vi». E logo a seguir, contrapõe:
« Pensar em Deus é desobedecer a Deus
Porque Deus quis que não o conhecêssemos
Por isso se nos não mostrou»1
Faz, assim, depender o conhecimento humano dos sentidos. Mas quando diz que Deus não se quis mostrar, aceita a existência de Deus. Esse Deus está, pois, para Pessoa, além dos sentidos. É o transcendente, ou seja, aquele que não passa, não pode passar pela razão humana. Ao fazer depender todos os pensamentos da sensibilidade, sublinha:
«Penso com os olhos e os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido(…)
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade»2
Mais adiante, ajuíza:
«A Natureza não tem dentro(…)
Senão não era natureza»
Para concluir:
«As coisas não têm significação: têm existência.
As coisas são o único sentido oculto das coisas»3
De tal maneira a sensibilidade é, no poeta dos heterónimos, condutora de toda a existência humana que não põe em dúvida que o próprio mundo «foi criado pela Emoção»4. A emoção que é sobretudo rejeição ou comunhão, criaria o existencial, pela recusa ou revolta dos anjos «em busca da verdade para verem acima de Deus que os criara (…) por isso, ao primeiro anjo rebelde se chamou Lúcifer – o Portador da Luz»5. E a «Luz» fez-se através da sensibilidade, da emoção. Assim, todo o universo se moveu e se move pela «emoção» que busca, provoca, desafia, dinamiza, move. E tudo é movimento porque tudo é «emoção» – esperança ou desespero, amor ou ódio, miséria ou abundância. Emoção, sentidos, sensação – expressões de verdade, e, em simultâneo, motivos de erro, de ignorância, do próprio mistério…
Assim confrontado entre as correntes espiritualista e materialista, Fernando Pessoa irá inclinar-se para uma filosofia em que a sensibilidade é a premissa de um transcendentalismo inerente à própria imanência existencial. O esoterismo constituiu a saída para uma filosofia fundada na crença numa verdade imanente e imbuída de transcendência.
Em carta escrita, em 1915, a Mário de Sá-Carneiro confessa que a tradução de livros teosóficos o abalou profundamente, acreditando estar nessas obras a «verdade real»6. «Verdade real» que procurou atingir, primeiro pelos sentidos, pela emoção, depois através de uma iniciação oculta, mística, que, na essência, acaba por não se desligar nunca da sua filosofia primeira: a filosofia da sensibilidade. Já, em 1912, escrevia em «Prece»: «Senhor, que és o céu e a terra, que és a vida e a morte! O sol és tu e a lua és tu e o vento és tu! Tu és nossos corpos e as nossas almas e o nosso amor és tu também. onde nada está tu habitas e onde tudo está – o teu templo) – eis o teu corpo»7
A iniciação nas ciências ocultas – desde a astrologia à magia negra e à cabala – significou em Pessoa o epílogo das suas deambulações filosóficas. De facto, não formulou (ou não pretendeu sequer formular) uma filosofia de sentido universalista; limitou-se a questionar o ser, a natureza, o transcendente. A sua busca filosófica assumia um sentido essencialmente individual, isto é, tinha em vista uma satisfação de natureza pessoal. Entre o misticismo e a magia, desejava ansiosamente pela gnose.
Entre, então, no mundo do ocultismo caótico, que o levará do estádio filosófico ao estádio neo-pagão. No trilho da verdade escondida, interroga-se fundamentalmente sobre a primeira causa. A causa das causas ou o absoluto manifesto. O transcendente tornava-se cada vez mais a razão dos seus questionamentos profundos. A imanência que lhe sugeriam os sentidos, acaba por não lhe dar a resposta à angústia existencial que o domina e flagela.
É a imanência que lhe propõe o caminho para o infinito, o eterno, o espaço do divino. Daí a sua ilação: «A Causa Infinita é criadora da Realidade, que é infinita, e a Causa Finita é criadora do Universo». E logo a seguir, sublinha que «o universo não pode ser infinito, porque infinito é só a infinidade. O universo não pode ser eterno, porque eterna é só a eternidade»8
Na linha de Sampaio Bruno, identifica Deus com o «infinito puro». E, não esquecendo as suas afirmações em A Ideia de Deus, considera que a criação é «uma limitação, uma negação de Deus por si mesmo»9. Esta limitação de Deus não será a matéria, o espaço heterogénio, ou melhor, a expressão da «queda de Deus, defendida pelo filósofo portuense? O Deus falho de omnipotência, segundo Sampaio Bruno, está presente nas paginas fragmentárias, nas notas que nos deixou Fernando Pessoa.
Mas igualmente o Deus da Nova Jerusalém, o Deus do retorno ao «tempo puro e homogénio» não está ausente. O Cristo seria, para o autor de Mensagem, a mediação pela Liberdade e pelo Amor para a sociedade nova, bem simbolizada pela «Rosa Cruz». E como consegui-la? Sampaio Bruno respondera: «Pela Liberdade. Pela Igualdade. Pela Fraternidade». Não responderia Pessoa de modo semelhante ao ter colocado na República a esperança do Movimento «Renascença Portuguesa»?
Este seria o veículo para a realização de um verdadeiro Império da Cultura, do Espírito, da Reconciliação, onde o universalismo português traçaria o rumo que a Humanidade acabaria por percorrer. Aqui se insere o espírito de «um só pastor, um só rebanho» expresso em A Ideia de Deus de Sampaio Bruno. Tendo esta última obra sido publicada no ano de 1902, ela exerceu, sem dúvida, o seu fascínio em Fernando Pessoa. Estes foram bem reveladores da sua inquietação existencial, das suas dúvidas perante um espaço circundante pleno de contradições, de indecifrável, de obscuras incógnitas.
Se os fragmentos, as notas, os esquemas de obras que não chegou a realizar, revelam um Poeta de largo pendor filosofante, elas revelam também que se confrontou com circunstancialismos presentes e do passado, limitadores de teorizações exclusivamente filosóficas. Na verdade, também a atmosfera religiosa que envolveu sempre os nossos pensadores – vocacionados, mas sem concretização plena – impediu a formulação de consistentes especulações filosóficas. Foram sintomáticos os casos de um Amorim Viana, na 2ª metade do século XIX, de um Sampaio Bruno, na 1ª década do século XX. de um Teixeira de Pascoaes ou de um Leonardo Coimbra, os três últimos, integrados na esfera intelectual contemporânea de Fernando Pessoa.
Ao mesmo tempo, o espaço poético do autor do Livro do Desassossego, por ser demasiado intenso e profundo, impediu-o de escapar ao seu predomínio na produção intelectual. Esse espaço é de tal modo envolvente que, mesmo quando procura no esoterismo a resposta para a sua alma de interrogações meta-naturais, compara as fases da iniciação oculta às fases do próprio poeta: «O grau de Adepto será por analogia: 1º – escrever poesia lírica simples, como na lírica vulgar; 2º – escrever poesia lírica complexa; 3º – escrever poesia lírica ordenada ou filosófica como na ode»10.
À filosofia portuguesa põe-se (e continua a pôr-se) a grande questão: escapar ou não escapar à dominante tradição intelectual em que o teólogo e o comentador têm estado sempre actuantes. O ensino ministrado em Portugal, inicialmente pelas escolas monásticas ou catedrais, depois pelas escolas da Companhia de Jesus, mais tarde pela Congregação do Oratório (período do Marquês de Pombal), não tornou fácil o caminho da filosofia em Portugal. O génio português marcado pelo gosto da acção, da aventura, do concreto, cedeu à corrente filosófica positivista (na 2ª metade do século XIX), precisamente pelo que ela recorria ao espaço antagónico das grandes polémicas do ser, da consciência, do absoluto.
O próprio Sampaio Bruno, racionalista incondicional, anti-dogmático por natureza, anti-clerical por princípio, viu na adesão à filosofia comteana precisamente essa aversão do espírito português às grandes especulações da filosofia pura. Por isso, não poupou críticas aos seus adeptos. A posição de Sampaio Bruno será prosseguida por Fernando pessoa.
O Poeta das sensações e, sem paradoxo, o poeta do sagrado. O Poeta cuja filosofia latente se encaminha para o espaço do religioso e nele se deixa mergulhar, apesar de tudo ser para ele emoção. E talvez por isso mesmo, escreveria: «Apagar tudo do quadro de um dia para o outro, ser novo com cada madrugada, numa revirgindade perpétua de emoção, – isto, e só isto, vale a pena ser ou ter, para ser ou ter o que imperfeitamente somos»11.
Teresa Bernardino*
* Ortónimo de Teresa Ferrer Passos.
1 Ob. Cit., ed. Ática, 1963, p.28.
2 Ibidem, pp.37-38.
3 Ibidem, pp.52 e 61.
4 Rosea Cruz, ed. M. Lencastre, 1989, p.46.
5 Ibidem, pp.45-46.
6 Textos Filosóficos e Esotéricos, Publ. Europa-América, nº 471, p.19.
7 Ibidem, p.139.
8 Ibidem, p.197.
9 Ibidem, p.198.
10 Ibidem, p.181.
11 Livro do Desassossego, 1ª Parte, Publ. Europa-América, nº468, p.87.
Fonte: Revista Independência, Dezembro/1992, Ed. Sociedade Histórica da Independência de Portugal; Internet, www.harmoniadomundo.net
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OS ESPELHOS DE LXXXI (POEMA-TEOREMA)
Na noite dos espelhos do número três cresceu a palavra transmutada em sílabas, vogais e consoantes. A palavra delineada em unívocos sons a crescerem como uma melodia de polifónica construção. E aí, o poeta em vozes várias inscreve a ciência que conhecemos com a palavra tão significante que é a palavra matemática. Inspirando-se nas antigas teorias de números de órficos, pitagóricos e dos seus continuadores Platão e Aristóteles, para só falar dos mais distantes.
Fascinado pela ciência que enalteceu os números e os envolveu em equações, teoremas, postulados e toda uma série de fórmulas fugitivas, a vaguearem no espaço todo número, todo geometria, todo equilíbrio e harmónica esfera, Paulo Teixeira Pinto pinta, com as cores da incerteza e do ser, um espaço novo embrulhado em poemas limitados pelo ilimitado dos desejos e erguidos com as sombras negras e brancas de um destino insubmisso. Veja-se o poema «Pax»: «serena / na inquietude / sublime / na simplicidade / contempla-se a revelação // sombra cintilante // no mistério / nada reflecte // tudo promete // parece / o que se vê // mas nada se desvenda // jamais» (p.173).
Conforme a Poética de Aristóteles o “poeta deve ser mais fabulador que versificador”. Esse mandamento do primeiro grande teorizador das artes literárias não foi esquecido neste conjunto de noventa e nove poemas em que a matemática, através do seu mais vulgarizado símbolo, o número, assume, ainda e cada vez mais nos nossos dias, um papel dinamizador da ciência e da tecnologia. A matemática vive, na sociedade contemporânea, através das técnicas digitais computacionais e robóticas em geral, uma nova Idade de Ouro, a renascer com os seus enigmas, os seus jogos obscuros, a sua identidade inconfundível.
Neste livro de poemas de Paulo Teixeira Pinto desvendamos o seu ser inconfundível, a sua interioridade a desbravar-se do campo magnético de místicos números exaltados por Platão. Eis estes versos de Paulo Teixeira Pinto: «declinado / que foi o nome // logo / perfeita / se revelou a forma // e infinito / o seu alcance // em órbita / daquele único ponto // jamais concebido / em todo o firmamento» (poema «Punctum», p.30).
Os “Diálogos” de Platão são uma busca do invisível no visível. O número cinco: “Este número é o número do círculo total do ser e o do caminho da alma que imita o número do Todo”. E Aristóteles, seu discípulo, continuou estas ideias e transmitiu-as a todo o pensamento futuro. O número não mais deixou de ser o instrumento das técnicas científicas nos seus cada vez mais variados ramos. Como escreveu na sua obra Metafísica “os seres existem por imitação dos números”. Ou ainda: “são os deuses que constroem a totalidade do céu a partir dos números”. Mas no seu notável Tratado do Céu, diria Aristóteles: “O Todo e a totalidade das coisas são determinadas pelo número três: fim, meio e começo formam o número característico do Todo, e o seu número chama-se Tríade”.
Nesta linha inspiradora da poesia, Paulo Teixeira Pinto conduz o seu cultivo desta arte que tem vasos bem comunicantes com a arte da pintura em que também gosta de navegar. E escreve no poema «Sphaera»: «oculta / da distância limiar / reside a medida / sem limite algum // em tudo livre / da vida fluente // forma perfeita // criatura / ou / criadora?» (p.131).
O livro LXXXI (Poema Teorema) foi lançado no Laboratório de Chimica do Museu da Ciência em Lisboa, a 9 de Outubro de 2008, pela editora Caderno. Em momento especialmente oportuno, nestes dias em que o saber parece, para muitos, ser tido por uma velharia, por um conceito que é preciso substituir pelas superficiais necessidades de consumos especulativos, de prazeres displicentes. Na verdade, LXXXI (Poema Teorema) é um livro em que a poesia fala mascarando-se de matemática, como no teatro da Antiguidade Grega.
A teoria do número pode transmitir o ser invisível que tem apenas como visibilidade o próprio visível do número, mas que o ultrapassa no seu carácter íntimo. E estes versos escrevem, sem iludir, o invisível de Paulo Teixeira Pinto: «o breve / em eterno / se doou // quando cindido / foi o tempo // e o nunca / em sempre / se tornou» (poema «Redemptio», p.187).
No poeta agora desvelado a pessoa de Paulo Teixeira Pinto encontra na harmonia e no sentimento de um conteúdo, às vezes, insuspeito, imprevisível, mas audaz, um novo sentido. Lembremos o poema «Canon»: "surgia / a estesia / em pleno / fulgor / quando / fulminou / a fantasia // qual laço / atado em nó / à angústia / de não conhecer / a razão de haver / quem não aceite / o que maravilha" (p.109).
Como epílogo desta breve análise da alma de um poeta, transcrevemos os versos em que a poeticidade do eu de Paulo Teixeira Pinto, se transforma na emoção maior, a de uma única lágrima: "quisera tanto / ser a lágrima / afagante da face // e não // a face afagada / pela lágrima" (poema «Lacrima», p.195).
Lisboa, 10 de Outubro de 2008
Teresa Ferrer Passos
Fonte: Internet, www.harmoniadomundo.net (10/10/2008); Poetas & Trovadores, nº 48, Jan./Mar 2009.
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VIDAS PARALELAS EM ACTO, A SUL DA ESCRITA
Escreveu, Herberto Helder, há alguns anos, no seu livro de poemas Poemacto: «Sei que os campos imaginam as suas / próprias rosas. / As pessoas imaginam seus próprios campos / de rosas. E às vezes estou na frente de campos / como se morresse; outras, como se agora somente / eu pudesse acordar» (1). Versos escritos entre o visível e o invisível de cada ser humano, versos a provocar-nos a interligação, a comunhão, senão mesmo a respiração monocórdica das pessoas com a natureza circundante.
Lembrámos estes versos a propósito do livro A Sul da Escrita (2) que recebeu da Câmara Municipal de Santiago do Cacém, em 2007, o Prémio Nacional de Conto Manuel da Fonseca. As palavras metafóricas de Herberto Helder, nestes versos a falar um pouco à maneira de «Fernando Pessoa», está a imbuir a escrita de A Sul da Escrita de Dora Nunes Gago.
Neste conjunto de nove textos biográficos de autores do Alentejo e do Algarve, Dora Nunes Gago conduz-nos através das vidas dessas nove personalidades que se distinguiram na poesia, na literatura ou na política, mas conduz-nos como se a natureza e as pessoas se entrelaçassem de tal modo que parecessem viver uma única realidade. A natureza e a existência humana confrontam-se e completam-se, dissolvem-se e regressam à vida, morrem e tornam-se imortais.
Cada uma das personalidades retratadas por Dora Nunes Gago cobre-se, em cada momento da sua vida instável, submissa ou revoltada, de enigmáticas máscaras. E, em diálogo com os outros ou consigo próprias, surgem as figuras de poetas como Ibn Amar ou João de Deus, de Garcia de Resende, o Homem da corte renascentista, e do romanceiro Bernardim Ribeiro, sempre um pouco imerso em delirante e não menos inefável literatura. Todos os biografados pela autora de A Sul da Escrita se impõem, apesar de repletos de diabólicos obstáculos, por vezes, incontornáveis; todos eles estão circunscritos entre paredes negras que só a escrita consegue superar, dando-lhes as cores do paraíso.
As circunstâncias inesperadas atravessam os percursos das personagens a crescer entre véus de descrença e de desalento. A vida está em todos os biografados, mas em especial em Florbela Espanca, António Aleixo ou Fialho de Almeida, a contracenar com o recurso à indiferença, à beleza de um verso ou ao gume da espada da saudade, da seiva das árvores ou ao perfume breve de uma flor. Entre a recordação do passado e o futuro distante está a figura de Teixeira Gomes. A beber com o espírito a luz e a cor está o poeta Emiliano da Costa. Destacada, entre as nove biografias, situa-se a cálida e extenuada poetiza das planícies alentejanas, Florbela Espanca.
Em busca de uma nova esperança, o desespero da poetiza de Charneca em Flor, ascende à flor maior que é o olhar para um passado que a amesquinha pela sua vulgaridade e um presente que não a sacia, não a contenta, não a faz ser viva. Em dezassete páginas se faz o conto do último dia de Florbela Espanca, o que contrasta com os restantes que nunca ultrapassam as sete.
É, sem dúvida, a Mulher dos sentimentos contraditórios e de emoções intensas, a Mulher a quem nenhuma sensação é estranha, mas também a Mulher que querendo ser feliz, o conseguiu ser, não com o amor daqueles em quem ela confiou, mas com a palavra que a poesia elevou até aos limites da beleza com que se exalta toda a criação humana.
A Sul da Escrita, um livro escrito por Dora Nunes Gago que continua aqui com a sua força cósmica, já patente no seu livro de poesia Planície de Memória. Ela aqui está bem presente com uma escrita A Sul da Escrita de transparente poética.
10 de Outubro de 2008
Teresa Bernardino*
* Ortónimo de Teresa Ferrer Passos.
(1) Ou o Poema Contínuo, Súmula, Assírio & Alvim, Lisboa, 2001, pp.14-15.
(2) Campo das Letras, Porto, 2007.
Fonte: Internet, www.harmoniadomundo.net (10/10/2008).
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A sabedoria de um Poeta não tem idade. Em cada poema nasce uma história a vibrar de sensibilidade e imbuída de uma cultura assimilada ao longo dos anos, anos de tempestades e anos de bonanças. Mas, em cada poema para a infância, a arte de contar ganha novos contornos e esses contornos traçam um mundo de memória, a memória da infância do próprio Poeta. É neste ponto, que surge a escrita de António Manuel Couto Viana, um dos Poetas que melhor soube falar com as crianças.
A sua obra dramatúrgica especialmente destinada a um público infantil transmite um entusiasmo, uma dinâmica, uma ousadia tal que poderíamos compará-la ao célebre “Peter Pan”, o menino que não queria crescer. A verdade é que, se crescesse, perderia a alma rica da sua infância.
Talvez por António Manuel Couto Viana, ele próprio, não ter perdido, ao longo da sua vida, a alma pura da criança que foi, continua a ser capaz de dialogar com uma naturalidade invulgar. Trata-se de uma naturalidade eivada da sua vasta cultura que, desde os seus tempos no liceu de Viana do Castelo, desenvolveu sem descanso.
A arte de comunicar é uma constante em toda a sua obra, mesmo até a vasta obra ensaística está por ela marcada. Esta capacidade de comunicar, ou seja, de se dar ao outro, ao ponto de se transferir para as suas personagens ou para as suas lembranças, é impressionante. A arte do diálogo está imbuída de tudo o que, de um modo ou de outro, o autor vivenciou e continua a vivenciar.
Em cada um dos seus ensaios, sejam sobre Cesário Verde ou Camilo Pessanha, encontramos múltiplas referências a seu pai, a sua mãe e irmãs, a seus amigos poetas, ensaístas ou pintores, sempre como se todos fizessem parte de uma magnífica peça de teatro que tem como palco privilegiado a própria vida (vejam-se livros como Colegial de Letras e Lembranças, ou Escavações de Superfície – Estudos e Memórias, Universitária Ed., 1994 e 1995, respectivamente).
A dramaturgia é a arte daqueles que gostam de conviver com o outro e não suportam o egocentrismo limitado ao solilóquio, em que os outros são indiferentes ou um peso a mais, se não mesmo uma inevitável necessidade. A dramaticidade de A. M. Couto Viana foi um das suas mais curiosas e incisivas facetas.
A sua poesia e o seu teatro infantil revelam por outros factores, sobre os quais não vamos alongar-nos, revelam bem, dizia, o seu alto talento também numa escrita especialmente destinada à criança. Recordo os livros Versos de Cacaracá (1984) e Versos de Palmo e Meio (1994) ou as peças infantis Era uma Vez… um Dragão! (1950) e No Palco do Faz de Conta. Toda uma literatura cultivada com esmero quer na vertente da poesia, do ensaio, ou do conto (Meias de seda Vermelha e sapatos de verniz com fivelas de prata e outros contos [ed. Prefácio, 2003], tornam A. M. Couto Viana um ícone ímpar na literatura portuguesa da 2ª metade do século XX e dos já quase a finalizar primeira década do século XXI.
A alma autêntica que reveste a sensibilidade dos mais pequeninos e que também reveste a daqueles que a sabem conservar quando adultos, está presente no livro, sobre o qual vou dar alguns breves traços: Bichos Diversos em Versos (Poesia Infantil), [Texto Editores, Lisboa, 2008] com ilustrações alusivas de Afonso Cruz.
Todos os poemas são rimados, cheio de beleza rítmica e de sempre oportuna temática, o que está de acordo com aquilo a que A. M. Couto Viana já nos habituou, desde os anos quarenta, em jornais e revistas publicados em Viana do Castelo e em Lisboa (em especial Távola Redonda).
Desde 1948, ao publicar em livro, O Avestruz Lírico, o seu primeiro conjunto de poemas, não mais deixou de dar a lume tantas e tantas obras, num fulgor produtivo de que a qualidade foi sempre um admirável apanágio. Se estes poemas não apresentavam características de poesia infantil, neles havia a beleza estética da transparência, que caracteriza a alma da criança. Aqui estava já bem evidente a alma plena de pureza intemporal do Poeta de A Oriente do Oriente (1987) e de Café de Subúrbio (1991).
O livro em referência, Bichos Diversos em Versos (Poesia Infantil), oferece-nos um conjunto de poemas em que encontramos histórias de animais que são, em simultâneo, histórias moralizantes a ensinar sobre o sentido impróprio de alguns comportamentos humanos, histórias cobertas de ironia, que chamam a atenção da criança mais desprevenida.
Entre os poemas moralizantes podemos citar o poema “Vaidades”, em que o tubarão grita a um pequenino peixe para lhe chamar Barão. Era um peixe mesmo vaidoso do seu tamanho descomunal; esquecia que a aparência exterior não era tudo; o outro, apesar de ser pequeno, chamava-se peixe-Imperador! O nome serve, neste poema, para simbolizar que nem tudo se reduz à sua forma física, era preciso lembrar-se que o interior não era menos importante. Assim, o grau de nobreza pelo qual exigia ser tratado tornava-o ridículo por ser tão pretensioso.
Por sua vez, o poema “O Tigre” refere-se ao defeito da falsidade; o poema “O Cavalo” acentua o valor daquilo que é natural perante aquilo que o imita e que é uma simulação; “A gaivota” alude à preguiça; “O Avestruz” é o símbolo do desonesto, daquele que quer enganar sem que os outros descubram a sua intenção.
No poema “O Rato, o Gato e o Cão” surge uma cadeia de poderes entre os animais que leva à supremacia do mais forte, cadeia essa a que não é estranho o ser humano, porque as suas atitudes não diferem muito da cadeia presente com os exemplos dados. Já “O Dinossáurio”, “O Gato-Sapato” ou “O Leão” têm um sentido mais fortemente satírico, em que o autor não poupa as pessoas que assim se comportam.
O poema que se inspira na fábula de La Fontaine, “A Cigarra e a Formiga” tem a particularidade de introduzir uma nova personagem, a coruja, símbolo da sabedoria. E o que ela vem dizer é que é preciso o meio termo, o equilíbrio em tudo aquilo que fazemos. Nem uns só trabalharem e os outros só se divertirem: deve haver um tempo para o trabalho e um tempo para distrair; nunca um deverá anular totalmente o outro.
No poema “A Raposa” vemos A. M. Couto Viana lembrar a célebre novela de Bernardim Ribeiro com o título Menina e Moça. É a raposa a lembrar a expressão “menina e moça” com a qual ele inicia a sua obra. Eis o exemplo de um poema didáctico para familiarizar a criança com os autores clássicos. E, a finalizar, lembramos o poema “O Camelo” em que se realça a tradição da consoada natalícia ou “O Peru” em que se faz também apelo a essa tradição.
De chamar a atenção é o facto de cada poema evidenciar bem a veia dramatúrgica e, em sintonia o seu talento de poeta essencialmente lírico. Neste livro tão bem ilustrado por Afonso Cruz vemos renascer a poesia para a infância que, tal como a dramaturgia infantil a que A. M. Couto Viana dedicou grande parte da sua vida, é igualmente e sempre uma poesia (e também dramaturgia) para os adultos meditarem e daí tirarem ensinamentos para a sua própria vida que não deve perder os traços mais importantes da personalidade da criança.
7 de Setembro de 2008
Teresa Ferrer Passos
Fonte: Internet, www.harmoniadomundo.net (8/9/2008), jornal A Aurora do Lima (Viana do Castelo), ano 153, 17/9/2008.
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REFLEXÕES SOBRE «SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO»
«Quatro velozes dias cedo serão noite / E as noites, sonhando, escoarão o tempo»[1], diz-nos a personagem Hipólita, noiva de Teseu, rei de Atenas, em resposta ás suas palavras sobre a festa nupcial dos seus faustosos esponsais. Nestas palavras se encerra todo o mistério do tempo. Ao longo destas páginas, escritas provavelmente entre os anos de 1594 e 1596, William Shakespeare inscreve toda uma acção dramática que se processa como se o tempo, esse maravilhoso invólucro da vida dos humanos, tivesse nele teias sempre bem urdidas para alterar o rumo das vontades e, mais do que isso, tivesse, a cada instante, novas identidades escondidas criadoras de novos enredos para cada uma das personagens da existência humana.
É nessa conjuntura temporal de inesperados sentidos e de imprevisíveis desvios, que se vão forjando os acontecimentos, que se viram contra si próprios e que se interpõem às decisões e aos mais firmes sentimentos que se instalam no coração de mulheres e de homens que vêem os seus desígnios torpedeados, como se forças de inexplicável poder se interpusessem entre eles.
O mistério da condição humana está bem patente neste trepidante drama concebido com uma argúcia psicológica que é transmitida a cada uma das personagens, quer sejam de certo saber, quer sejam rudes artesãos ou pertençam ao mundo secreto do maravilhoso imaginário do pensamento mais original e de divina descendência. Aqui se integram os heróis, as ninfas, as fadas, e tantas outras construções da fábula de tempos idos. Juntam-se a estes, essas fragilíssimas figuras dos pequeninos elfos, os gnomos mágicos, as musas da inspiração, os centauros do poder ou as sereias de beleza ímpar. O mistério que torna estranha a realidade, cria mil e uma faces ao mundo da consciência humana e do tempo.
Como diz Hipólita (talvez ela seja uma réplica da mitológica Antíope, a amada de Teseu), os dias são breves, ante a noite que os cobre com os seus enigmas, as suas ciladas, as suas artimanhas inesperadas. É nessas noites da existência que os sonhos se expandem e atravessam, quase sem se fazerem pressentir, os dias. Os dias, que passam, sem parar, por cada ser, são armadilhados nos seus tentáculos súbitos. As melhores e as mais reflectidas decisões são contornadas e envolvidas em obstáculos de aparência intransponível. Essas forças, representadas pelas estranhas figuras das fadas ou dos elfos ou dos gnomos, inspiradas no imaginário da Antiguidade Clássica, Medieval ou de povos com religiões animistas, afogam os dias dos humanos em gigantescas marés de vazio ou em grotescas cavernas de infortúnio.
São os dias devastados pelos sonhos nefastos que esfacelam os amantes, atormentados pelo espanto de situações abruptas, palavras incongruentes e amargas que lhes dilaceram os sentimentos mais puros e audazes. Assim acontece, em Sonho de uma Noite de Verão, com Helena que ama Demétrio que, por sua vez, ama Hérmia e esta que, amando Lisandro, tenta fugir com ele para não serem separados. Mas, devido a uma “poção mágica”, são afastados por Robin, a mando do rei das fadas que, por ciúmes, quer vingar-se da rainha, que recusava dar-lhe para seu pajem a bela criança que ela amava, após tê-la mandado raptar a um rei indiano.
Todos os desencontros dos amantes têm por trás algo de pérfido, de improvável, de mal-intencionado. Cada nova situação resulta de um destino que alguém manipula, mas desconhece-se quem o faz. Serão fadas maléficas ou Elfos minúsculos e vingativos? Serão os invisíveis e poderosos habitantes dos lagos, dos bosques ou das montanhas? Serão os que mandam e, com o seu grande poder, esmagam os mais débeis e incautos? E tudo aparece inserido num acaso obscuro, num destino cruel e ao qual nem a paixão mais impetuosa pode escapar. Como diz Helena “o amor pode com a alma, não com os olhos, ver. / Daí o Cupido alado a cego aparecer (…) Por isso se diz do Amor que é uma criança, / pois na escolha é tantas vezes enganado”[2].
E a ingénua Helena, ao escutar a voz amorosa, enfim, de Lisandro agora já apaixonado por ela ao ter ingerido a alquímica bebida, sente-se insultada pelas suas palavras de amor inesperado. Por sua vez, Titânia recebe semelhante feitiço que a faz amar um artesão, Fundos, transformado em burro. O ridículo cai sobre Titânia, a rainha das fadas. E outro dos amantes, Demétrio, que rejeitava Helena e amava Hérmia, agora, por idêntica magia, transmuta o sentimento de amor por Hérmia numa recusa em a amar. Por seu lado, Hérmia não entende a razão de Lisandro ter deixado de a amar, após tantas provas de fidelidade.
Em suma, todos se sentem enganados, ludibriados, vítimas de súbitas mudanças sentimentais. Ninguém está seguro. Ninguém pode já confiar. A realidade parece, por vezes, deixar de o ser. Parece-se mais com os sonhos de noites de verão, noites em que “nevoeiros” cálidos se abatem sobre as pobres criaturas que repousam na confiança e na lealdade com aqueles que amam. Tudo parece tão estranho, tão absurdo mesmo. A realidade mostra-se irreal, impossível mesmo.
Neste Sonho de uma Noite de Verão, Shakespeare oferece-nos as simbólicas e mágicas “poções” que imbuíram uma humanidade, enchendo-a de sofismas, de imprevidência, de loucura. O autor utiliza a personagem Oberon, o rei das fadas, e o seu serviçal Robin, para todas as maquinações que criam o ridículo, que constroem a ilusão do amor nos seres sem sombra de malícia e que fazem da vida um contínuo alcatruz, ora a vazar o bem, ora a encher-se de mal. Por isso, Hérmia diz: “Tudo parece duplo”[3]. E Demétrio: “A mim parece-me / Que ao dormirmos sonhamos(…). / E entretanto contemos nossos sonhos”[4]. Também Fundos, o artesão que dirige a pequena peça, de intenção popular, para divertir os convivas, após o jantar do casamento de Teseu, não deixar de pronunciar: “Tive um sonho para além do que se pode dizer que sonho era”[5].
No Acto 5 (Cena 1) desta belíssima peça teatral, Shakespeare explicita toda esta engrenagem mental ao afirmar através da personagem Teseu: “Os olhos do poeta, em alvo postos, / Vão do céu à terra e da terra ao céu; / E como a imaginação arquitecta / O desconhecido, a pena do poeta / Dá-lhe formas, e confere ao que é nada / Uma existência própria e dá-lhe um nome. (...) / Ou à noite, se o medo imaginar, / Fará dum arbusto um urso a espreitar”[6]. Nesta intervenção está inscrita a própria identidade do autor de Sonho de uma Noite de Verão, uma das mais bem concebidas comédias de todos os tempos.
Como diz a Professora Maria Cândida Zamith, a excelente tradutora desta pérola da literatura dramática inglesa, “trata-se de uma trindade de mundos fantásticos”[7]. E, mais adiante, Maria Cândida Zamith sublinha, bem oportunamente, que se trata de “ um mundo sobrenatural povoado de toda a espécie de seres inspirados — e grandemente alterados — a partir de todos os imaginários de todos os tempos e de toda a Europa”[8].
Sonho de uma Noite de Verão é uma obra em que cómico e trágico se entrelaçam. Criando um mundo cheio de novidade, Shakespeare consegue erguer, numa caótica harmonia literária, um mundo de sonho e/ou de sonhos, de portas entreabertas para sedutoras máscaras. E, esse mundo, sem mostrar o fim do caminho, abre-se, como um feitiço entre muitos outros feitiços, à beleza de imprevistos e emocionantes caminhos.
25 de Julho de 2008
Teresa Ferrer Passos
[1] William Shakespeare, Sonho de uma Noite de Verão (Obra Dramática Completa), Campo das Letras, 1ª edição, 2002, p. 45.
[2] Ob.Cit., p.53.
[3] Ob. Cit., p.115.
[4] Ob. Cit., p.115.
[5] Ob.Cit., p.116.
[6] Ob. Cit., p. 119.
[7] Ob.Cit., p.31.
[8] Ob.Cit., p.33.
Fonte: Internet, www.harmoniadomundo.net (25/Julho/2008); Jornal Poetas & Trovadores, nº 47, 3ª série, Outubro / Dezembro de 2008.
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NA MORTE DA ESCRITORA MARIA GABRIELA LLANSOL
(24/11/1931-3/3/2008)
De ascendência espanhola, nasceu em Lisboa em 1931. Com uma Licenciatura em Direito, viveu vários anos na Bélgica, acabando por regressar a Portugal e fixar residência em Sintra, onde faleceu no passado dia 3 de Março. Com uma escrita hermética, cheia de reminiscências surrealistas, preenchia páginas de grande beleza literária e eivadas de múltiplos sentidos sobre a natureza humana, debruçando-se mais profundamente sobre a natureza do escritor e os avatares da escrita.
Recebeu, em 2006, pela segunda vez, o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores. A obra apresentada ao júri, Amigo e Amiga: Curso de silêncio de 2004, ofereceu-lhe este alto Galardão das Letras Portuguesas. As duas últimas obras publicadas ainda em vida seriam Os Cantores de leitura e Desenhos a lápis com fala: Amar um cão, no ano de 2007.
Escrita tempestuosa em que a alma se abria como um botão de flor, possuía a riqueza de uma imaginação fulgurante em contínua busca da metáfora e da novidade linguística. Sem se deixar contaminar por modas literárias empobrecedoras da língua portuguesa que amava, escrevia para si e/ou para todos aqueles que fossem ao seu encontro nas páginas dos seus livros, ou seja, que experimentassem o prazer de decifrar ou de apenas se encantar com os seus romances poéticos e plenos de dramaticidade. Mesmo quando o silêncio envolvia as suas palavras escondidas em diálogos imperceptíveis ou a espreitar o diálogo com o texto ficcional, a intrometer-se e a comprometer-se com as vagas e dispersas personagens, Maria Gabriela Llansol desnudava os interstícios mais subtis da Língua Portuguesa .
Lisboa, 9 de Março de 2008
Teresa Ferrer Passos
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UMA ESTRANHA HISTÓRIA DE ALMA TRÁGICO-MARÍTIMA ?
Autora de uma bibliografia que privilegiou a análise do pensamento místico, esotérico e religioso dos poetas e pensadores portugueses, sobretudo dos séculos XVI e XX, Dalila Pereira da Costa acaba de completar noventa anos. Com uma vida dedicada ao estudo da "alma portuguesa" podemos considerá-la uma pensadora do «enigma português», como diria Francisco da Cunha Leão.
Os aspectos do mito, as maravilhas do símbolo, o oculto do inconsciente colectivo portugueses, foram motivo da maior parte das suas obras. Poetas da envergadura de um Teixeira de Pascoaes ou de um Fernando Pessoa, dramaturgos como Gil Vicente, transfiguram em poemas e em diálogos de sacral virtuosismo, os grandes cultos matriciais da Pátria portuguesa.
O espírito de Mircea Eliade ou de Erich Neumann renasce nas páginas emocionadas pelas imagens da "saudade", da "viagem", da "alma". Elas regressam ao nosso convívio nas páginas da autora de A Força do Mundo (1972) ou de Da Serpente à Imaculada (1984) ou ainda de Mensagens do Anjo da Aurora (2000), páginas escritas por esta escritora a viver na cidade onde nasceu em 1918, a cidade do Porto, mas em que, um dia, atravessou o Atlântico, rumo à cidade de S. Paulo, no Brasil.
Sem o cansaço próprio da sua idade, Dalila Pereira da Costa publicou há apenas dois anos um livro notável que titulou As Margens Sacralizadas do Douro através dos Vários Cultos (Lello Editores, Porto, 2006), uma obra em que aborda a importância do grande rio, que entre os penhascos montanhosos chega ao mar com a ousadia e a força cósmica de um gigante.
Nesse rio percorrido pelos navegantes de Quatrocentos que, nas suas margens encontravam as matérias-primas para construir as naus e as caravelas e que, na sua robustez, descobriam a coragem para afrontarem os mares e chegarem a novos e tão diferentes povos. Nesse rio magnífico que, nas suas margens viu crescer uma cultura gentílico-tribal, em que o "arquétipo da Grande Mãe" criou as raízes para a formação de uma Mátria do tamanho do Mundo.
O Universalismo e o tribalismo estão impressas nas margens do Douro. Estão também nas centenas de gravuras do rio Côa. Santuários de uma Origem inesquecível, aí estão. Uma Origem primordial inscreve-se nas gerações que no seu mais fundo subconsciente transmitem os genes do tempos e dos ancestrais costumes dos povos.
Nas margens do Douro e do Côa, Dalila Pereira da Costa bordeja as matrizes espirituais deste povo português, a construir uma Saudade única na hora da partida e nos instantes do regresso. E tudo isto, a viver nas profundezas psíquicas de uma religiosidade que misturou as práticas dos xamãs com a fé dos cristãos.
A sacra missão foi-se tecendo nos sons da Língua Portuguesa. E edificou-se desde os ermitérios às aventurosas viagens, viagens de procura e de encontro, de rituais e de fé a envolverem o ser daqueles que partiam. Todo este mundo arquétipo, ideal e límpido, é criticamente narrado e interpretado por Dalila Pereira da Costa.
O culto de uma religião de asceses ergue-se, soberbo e soberano, nas mágoas daqueles que ficavam, velando uns, orando outros, pelo ideal distante, mas nunca esquecidos das edénicas moradas da cidade a perder-se de vista e do mar dos navegantes, a ganhar-se, palmo a palmo. E todos saíam da barra do rio sem olhar para trás, com medo de ficar.
Lisboa, 7 de Maio de 2008
Teresa Ferrer Passos
Fonte: Internet, www.harmoniadomundo.net (7/5/2008).
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POLÉMICAS EM TORNO DE GUERRA JUNQUEIRO
E DO SEU ANTI-CLERICALISMO
«Um clero português, desmoralizado e materialista, liberal e ateu, cujo vaticano é o ministério do reino, e cujos bispos e abades não são mais que a tradução em eclesiástico do fura-vidas que governa o distrito ou do fura-urnas que administra o conselho»
Guerra Junqueiro, “Anotações” a Pátria, p.191.
«Em 1878 publicou-se contra mim uma poesia imunda e injuriosa», escrevia o padre Sena Freitas na 3ª edição (1900) à Autópsia de «Velhice do Padre Eterno», resposta a este poema satírico anti-clerical de Guerra Junqueiro. E, afinal, esta poesia fora publicada, em 1881, no jornal A Folha Nova do Porto sem autorização do seu autor. Este artigo de Henrique Manuel Pereira defende que, de facto, a poesia “Littré e o Padre Sena Freitas” foi publicada em 1881 e não naquela data. Por isso, o que o autor desta artigo vai procurar é deslindar o intrincado caso: «Nunca foi fácil desfazer novelos, sobretudo quando sobre eles passou a humidade de muitos invernos».1
Trata-se de um artigo de Henrique Manuel Pereira intitulado Polémica entre Sena Freitas e Guerra Junqueiro: Notas para um “Correctivo”.2 O autor escalpeliza, de modo sistemático, os trâmites pelos quais passaram as posições antagónicas dos defensores do padre e/ou do poeta que não poupava as instituições clericais, que não temia a ira de Deus. De facto, houve verdadeiras “horas de combate” entre os defensores do padre Sena (representava a autoridade da Igreja, cuja preponderância era bem evidente, mesmo numa sociedade a tender, desde meados do século XIX, para a corrente racionalista e positivista que chegava de França, em livros e jornais) e os adeptos das irreverências de Junqueiro.
Para muitos cronistas das folhas dos jornais, o grande poeta de Os Simples era um herege que só tinha intuitos pouco honestos, que procurava chamar a atenção dos intelectuais e, de um modo mais vasto, a burguesia ascendente, que, com o pedestal da palavra poética, usava todos os meios, legítimos ou não, para denegrir a Eclesia e, com a sua perícia versejatória, conseguia atingir a fama e a glória ambicionadas.
Ninguém, até então, tinha, como Junqueiro, denegrido a Santa Madre Igreja com tanta acutilância, com tanta virulência, enfim, com tão grande audácia. Daí que os jornais que, de dia para dia, produziam novos títulos, apareçam a liderar uma certa campanha, talvez “alegre”, talvez acrisolada, contra o verve indecoroso, mas indiferente às reacções da crítica inclemente, com que os portugueses sempre gostaram de se apodar uns aos outros.
Assim, Henrique Manuel S. Pereira em «Polémica entre Sena Freitas de Freitas − Notas para um “Correctivo”», artigo de que se faz aqui uma breve recensão, penetra nos escamoteamentos dos autores que se infiltraram nas linhas da tramóia, uma tramóia sobretudo perpetrada contra Junqueiro. Dissemos tramóia precisamente porque todos se uniram, por meios jornalísticos ou por meios livrescos, para o acusarem de se ter querido vingar de Autópsia à Velhice…
Uma “autópsia” feita por Sena Freitas à sua sátira dirigida à instituição eclesial e que titulada A Velhice do Padre Eterno (1885). De facto, tudo parece ter partido de um volume intitulado Obras de Guerra Junqueiro (Poesia) em que figurava o poema «Littré e o Padre Sena Freitas». Em Junqueiro, Falso Poeta, Artur Botelho transcrevera este poema de Junqueiro (datado de 1876) dizendo que o padre Freitas foi insultado «vergonhosamente»3. Por sua vez, Antero de Figueiredo em conferência, três anos depois, mostra-se seguro ao dizer que o padre foi vítima do «poeta [que] respondeu com as quatro pedras na mão de uma sátira virulenta, improvisada sobre o mármore de um café de má-língua»4.
Os jornais não perdiam tempo a incendiar as controversas críticas de Junqueiro: em A Palavra publicava-se (1876, 25 de Julho) um artigo de Sena Freitas cuja linguagem não era de paz, antes de desafio: «Das fezes da imprensa acaba de aparecer o livro Caricaturas em Prosa de Luís de Andrade», obra que Junqueiro prefaciara e que, para mais, era bem anti-clerical. A ira contra Junqueiro vem à tona da água. E em outro periódico A Luta, afirmava-se, num texto de Júlio Verim (pseudónimo de Luís Andrade) que o artigo do padre Sena é um «artigo rancoroso» em que «as calúnias [contra Junqueiro] são tão flagrantes, a má fé tão evidente, as insinuações tão miseráveis (…)». Por sua vez, o jornal A Palavra agourava ao livro de Andrade, com o defeito maior de ter um prefácio de Junqueiro, «um êxito ainda mais deplorável» e ia ao ponto de aconselhar os chefes de família a «afastarem-se dessa sentina donde saem miasmas pútridos». A obra Caricaturas em Prosa de L. Andrade era para aqueles periódicos pouco honestos, como realça Henrique Manuel Pereira, um «foco de devassidão que espadana corrupção por toda a parte»5. E se o padre Sena Freitas considerara Caricaturas de Prosa um «livro péssimo» (artigo do jornal A Palavra datado de 1876)6, estranhamente, acrescentava que «em breve estarei longe do Porto para lhe poder responder»7. Ora o que tinha Freitas em vista senão atingir Junqueiro? Dizia ele que partiria para o Brasil. Estava insatisfeito com a realidade pátria? Ou temia não ter tanta razão como julgava? Por que razão saía para o Brasil e só de lá responderia? Estaria a querer equiparar-se ao Padre António Vieira, ao apresentar-se como perseguido no seu país?!
Estávamos, então, no ano de 1876 e, de novo, a questão religiosa em Portugal se reacendia. Uma faúlha era o suficiente para atear o incêndio das divergências ideológicas, no domínio do poder eclesiástico. E tudo, rapidamente, se ia transformando em conflitos, em difamações, em explosões de raiva, em atritos exacerbados, em desavenças insultuosas. Mas, o grande escândalo em 1876, era, sem dúvida, o jovem Junqueiro ter prefaciado a obra Caricaturas em Prosa. E, nesse mesmo ano, Junqueiro tinha ido mesmo mais longe. Ele escrevera um poema satírico «talvez à mesa dum café do Porto, talvez no Suíço, talvez no Camacho numa das noites dos dias 29 ou 30 de Julho». Aí podia ter estado um dos redactores de A Folha Nova, mas não pensava Junqueiro publicá-lo. Era tosco, pouco cuidado no estilo, escrevera-o num momento de incontida emoção… Talvez mais tarde, entre muitos outros, de acordo com a sua cuidada revisão estética, o viesse a dar à estampa...
Só que, sem que Junqueiro tivesse conhecimento, o poema apareceria publicado, em 1881, no jornal A Folha Nova, com o título «Littré e o padre Sena Freitas». Logo nos primeiros versos, podia ler-se: «Ó malandro sagrado, ó padre Sena Freitas, / As tonsuras que tens deviam ser-te feitas / Não sobre a nuca, mas, ó padre, n’essa crina, / Levita de aldrabão, jumento de batina (…)»8. Isto acontece (o que não deixa de espantar) logo a seguir a um sermão feito, em 1881, pelo mesmo padre Sena (o do “livro péssimo”) precisamente na missa em que celebrara a morte de Littré, um positivista que se tornara um paladino da Igreja Católica Romana. As palavras de Sena Freitas acirravam os ânimos. Urgia contestação, mas o rebelde Junqueiro estava silencioso…
Então, que melhor ocasião que esta, para ser publicado o poema satírico? E o jornal O Século não quer perder também a oportunidade de o publicar, pois o alvo é o padre Sena! Não fariam tais publicações eclodir mais uma guerrinha, tendo por campo de batalha a imprensa do país, tão ávida de sensacionalismo? E os artigos começam a sair em catadupa. A polémica reacende-se mais viva: no jornal A Folha Nova aparece um artigo a dar um “correctivo” ao padre Sena (6/7/1881): «Missas políticas devem ter remuneração arbitrária; cada qual paga-as conforme o préstimo que lhe atribui…»9.
Em O Comércio do Minho (Braga), há também insinuações, agora aos defensores de Junqueiro: «Todos os poetas invocam a musa como causa celeste, mas a do Sr. Junqueiro, emerge das regiões das trevas e das sentinas mais nojentas». A propósito, Henrique Manuel Pereira, lembra ainda que, como se escreve no jornal, «um padre exemplaríssimo foi insultado por Junqueiro, “o autor dum poema que se roja no mais imundo ceno e por isso não admira que descesse a linguagem tão infame, tão indecente e tão supinamente pulha”»10.
Reinstala-se, ainda mais condimentada, a polémica entre A Folha Nova do Porto e o Comércio do Minho de Braga. Poucos dias depois deste “diz tu, direi eu” jornalístico, surgem, finalmente, as palavras serenas de Junqueiro impressas numa carta (18 de Julho de 1881) ao director do A Folha Nova. Escrevia Junqueiro: «publicou-se há dias, sem a minha autorização, uma poesia firmada com o meu nome e intitulada Littré e o padre Sena de Freitas (…) Os versos eram uma simples rapaziada literária dum jacobinismo de mau gosto e de que eu nunca mais me houvera recordado, se não os visse neste momento impressos»11. Mas à carta não foi dada publicidade… Guerra Junqueiro que era colaborador de A Folha Nova, durante muito tempo deixou de lhes mandar trabalhos com a sua assinatura, diz-nos Henrique Manuel Pereira, o analista dos “correctivos” polémicos em torno da pena de A Velhice do Padre Eterno. Como acentua, a carta de Junqueiro só teria sido publicitada, após a sua impressão em Junqueiriana, uma obra de pouca divulgação e que só saiu do prelo no ano de 1921…
Finalmente, em 1885, Junqueiro dava à estampa a intempestiva sátira às instituições e aos membros da Igreja Católica, sem poupar os maus exemplos que dela provinham: A Velhice do Padre Eterno foi editada, em 1ª edição, no Porto. Vivia então o padre Sena Freitas no Brasil, mais precisamente na cidade de S. Paulo. Isso não obstou que lhe desferisse um inclemente “correctivo”, logo no ano seguinte, em 1886. Chamou-lhe Autópsia à Velhice do Padre Eterno. Como escreve Henrique Manuel Pereira nesta reflexão histórico-literária, o autor de Os Simples, «não deu resposta à Autópsia de Sena Freitas»12. Coisa estranha para os cronistas dos jornais... Como podia ser isto?
Na verdade, Junqueiro não lhe deu a pesada vergastada que seria natural. E, o próprio Camilo Castelo Branco o previu, como sabemos pela carta com que respondeu ao seu amigo padre Sena: «V. Ex.ª deve contar com a resposta»13. Por sua vez, o autor de A Velhice do Padre Eterno também enviara um exemplar da obra a Camilo e, como nota Henrique Manuel Pereira, também juntara uma carta em que lhe confidenciava: «quer me fumeguem com incenso de noticiário, quer me caustiquem com vitríolo de mau humor e de calúnias, eu fico e ficarei sempre numa placidez de indiferença, num encolher de ombros desdenhoso»14. É bem natural que Junqueiro não esperasse da parte de Camilo (apesar da relação amistosa entre o padre e Camilo) qualquer “correctivo”, qualquer admoestação. E isto porque Camilo também fora um irreverente, um homem indiferente às moralizações católicas, um escritor sarcástico com a sociedade a viver de artificialismos. Pouco propenso a cumprir com os rigores da Santa Madre Igreja − a sua vida amorosa tão instável que culminou com o adultério com Ana Plácido, a rejeição do casamento católico durante 35 anos de vida em comunhão com Ana Plácido (tudo talvez consequência do arranjo familiar que o conduziu a um casamento católico aos 15 anos), as suas sarcásticas intervenções jornalísticas, os seus romances caústicos com os costumes da classe endinheirada, o seu arreigado desprezo pelos costumes burgueses, não tornam estranha a sua complacência com Junqueiro e as suas irónicas vergastadas eclesiais.
De estranhar é que o facto do acima citado poema satírico Littré e o Padre Sena Freitas (escrito por Junqueiro em 1876) vir a ser publicado em Poesias Colligidas por Cruz Coutinho no ano de 1886, logo após a publicação de Autópsia à Velhice do Padre Eterno, escrito pelo padre Sena, em reacção à Velhice… Essas poesias coligidas eram, segundo Henrique Manuel Pereira, fraudulentas, por terem sido dadas a lume sem conhecimento do próprio Guerra Junqueiro. E porque razão irem-lhe publicar este acervo com o polémico poema satírico de 1876 incluído? Por que razão o seu autor o havia de desconhecer? Qual o objectivo do “recolector” Cruz Coutinho, ao fazê-lo logo após o aparecimento da Autópsia do padre Sena?
Tudo leva a pensar, diz-nos Henrique Manuel Pereira, neste seu opúsculo, que, como o Poeta de Oração ao Pão não contestou a mordaz Autópsia do padre Sena, era urgente para os jornais trazer algum poema de sua autoria, “a agredir Freitas violentamente”. E que melhor poema do que aquele escrito em 1876, a propósito do artigo em que Sena atacava, sem meias medidas, o livro Caricaturas em Prosa com o Prefácio favorável de Junqueiro? A “vingança” de Junqueiro aí estava, sem se fazer esperar, apressada e, como seria natural, inclemente. Era o que se pretendia que o leitor pensasse. Afinal, quem se lembraria ainda daquele poema de 1876, em que o jovem Junqueiro se confrontara com a leitura do artigo do padre Freitas no jornal A Palavra, escrito nesse mesmo ano de 1876, a atacá-lo veementemente por ter prefaciado Caricaturas em Prosa, esse livro «de um tal Luis de Andrade, que sai à rua pela mão de Guerra Junqueiro»15?
Como sugere Henrique Manuel Pereira, estamos perante uma inequívoca feira de conflitos que começam sem se vislumbrar como acabam, de diatribes que ofendem sem chegar a um entendimento cordial, de confrontos, ora reais ora forjados, conforme convém à “tribo” daqueles que ontem, como hoje, vivem dos frutos da desavença efémera, mas caústica, como um ferro em brasa.
Nesta «Polémica entre Sena de Freitas e Guerra Junqueiro − “Notas para um Correctivo”», Henrique Manuel Pereira conseguiu abrir um caminho para o desbravar da floresta em que se embrenham as linhas da controvérsia e da polémica ideológico-religiosa em Portugal. Nesta senda, ainda poderá avançar para os meandros enigmáticos que esta polémica, está à vista, encerra, se for explorada até à exaustão.
Em jeito de conclusão, não serão despiciendas estas palavras provindas do epílogo da obra Pátria, em que Junqueiro vê o estado de decadência da sua geração. Eis o sábio Junqueiro, a ver e a prever já o profético Finis Patriae (publicada, a 1ª edição, em 1890)… Este título augurava os rumos a que seria conduzida a Pátria portuguesa. Aqui estão as palavras de Junqueiro: «Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonha, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas»16.
17 de Junho de 2008
Teresa Bernardino*
* Ortónimo de Teresa Ferrer Passos.
1 Separata da revista Brigantia – Revista de Cultura, Vol. 27, nº 1/2/3/4, Bragança, 2007, p. 691.
2 Ibidem.
3 Ibidem, p. 693.
4 Ibidem, p.694.
5 Ibidem, p.697.
6 Ibidem, p.717.
7 Ibidem, p. 700.
8 Ibidem, p.701.
9 Ibidem, p. 707.
10 Ibidem, p.707.
11 Ibidem, p. 709.
12 Ibidem, p. 713.
13 in Sena Freitas, Perfil de Camilo Castelo Branco, Caixotim, Porto, 2005, p.128.
14 Ob.Cit., p. 714.
15 Ibidem, p.717.
16 «Anotações» in Guerra Junqueiro, Pátria, 3ª edição, Porto, 1915, p. 191 (1ª edição, 1896).
Fonte: Internet, www.harmoniadomundo.net (17/6/2008); Poetas & Trovadores (jornal editado em Guimarães), Julho/Setembro, 2008, 3ª série, nº 46; Notícias de S. Braz (jornal de S. Brás de Alportel), publicado nos números de Agosto, Setembro e Outubro de 2008 (dividido em três partes).
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GUERRA JUNQUEIRO, POLÉMICO ONTEM E HOJE
“Para isso combina os vários elementos
Que compõem esta droga: o nome de Maria,
Anjos e querubins, infernos e tormentos,
Bastante estupidez e imensa hipocrisia.”
(G. Junqueiro, A Velhice do Padre Eterno)
No seu périplo pela figura de Guerra Junqueiro, especialmente pelos locais que o seduziram, pela epistolário daqueles com que travou o diálogo da escrita, pela poesia com que arrasou os alicerces da Igreja Católica ou que o redimiu desses excessos difamatórios, Henrique Manuel S. Pereira, oferece-nos agora Guerra Junqueiro - Percursos e Afinidades (Lisboa, Roma Editora, 2005).
Esta obra é formada por um conjunto de textos escritos entre 1996 e 2005. Abordando a topografia literária do autor de Horas de Combate, lembra a questão do semitismo, as relações do autor de A Velhice do Padre Eterno com o Brasil, e a temática espírita das Rimas do Além-Túmulo.
Neste acervo de textos, Henrique Manuel Pereira faz-nos um curioso «Mapa» da estranha amizade com Teixeira de Pascoaes e anotações eloquentes a propósito dos Contos para a Infância e da Tragédia Infantil (publicados em 1877) (p.141).
Finalmente, surge ainda uma referência detalhada ao Fundo Bibliográfico, designado por Junqueiriana, ao inventariar o espólio que divide do seguinte modo: «Obras de Junqueiro» (100 obras entre primeiras e mais edições), «Restantes Obras sobre o Poeta» (293 obras) e «Índice Onomástico».
Olhar dos vários ângulos possíveis e no confronto com os inúmeros pontos de vista, tanto contemporâneos, como posteriores à morte do Poeta, célebre sobretudo pela sua veia sarcástica em relação a Deus e à Igreja Católica, não pôde deixar de ser uma tarefa difícil e controversa.
Mas, como Henrique Manuel Pereira escreve nesta sua publicação, «muitos dos trabalhos sobre o poeta são deformação do homem, outros fotografia desfocada e sem profundidade de campo que nos dê o seu contexto mais próximo, real e cru, sem eufemismos ou enfeudamentos» (p.47). Um exemplo é precisamente «a questão do semitismo de Guerra Junqueiro, (…) objecto de acesas discussões e irónicas caricaturas» (p.48).
Entre o radical António Sardinha para quem «as taras de que enferma a mentalidade israelita, pululam à farta na obra de Guerra Junqueiro» (p.50) e o abade de Baçal que afirma serem «os descendentes de António Madeira e Ana Afonso, ambos de Freixo, (e terem) sangue judaico do lado desta» (p.54), outra pergunta se coloca ao autor de Guerra Junqueiro - Percursos e Afinidades: seria ele «Cigano»? E Henrique Manuel Pereira argumenta com uma passagem de Francisco Fernandes Lopes, datada do ano do Primeiro Centenário do Nascimento do Poeta: «O motivo por que Guerra Junqueiro não era ‘judeu’: – pela simples razão de que era “cigano”» (pp.54-55).
Numa tentativa de ajuizar sobre o imbróglio, o autor recorre ainda ao testemunho do «capitão Barros Bastos, homem que empreendeu o resgate dos judeus em Portugal» e que «afirmava sem reticências a ascendência semita de Junqueiro» (p.57). Segundo Henrique Manuel Pereira, o abade de Baçal, o conceituado historiador de Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança, deixou a questão em aberto provavelmente por duas equiparáveis razões: «uma questão de rigor ou mais por prudência» (p.58).
Em Guerra Junqueiro - Percursos e Afinidades, é curiosa a pesquisa às sátiras feitas a Junqueiro, em particular, à obra A Velhice do Padre Eterno, publicada em 1885. Henrique Manuel Pereira começa por relacioná-las com as paródias feitas por autores que nos são hoje pouco ou nada familiares. A maioria dos casos são folhetos de 10 a 15 páginas.
De facto, A Velhice foi a «obra que, mais do que nenhuma outra, contribuiu para fortalecer entre nós a corrente anti-clerical, provocando grande impacto mesmo antes de ser publicada» (p.207). E Junqueiro, bem lúcido da gravidade do conteúdo dos seus versos, não tendo dúvidas sobre a contestação que se lhe seguiria, escreveu numa carta ao amigo Luís de Magalhães: «(…) a Velhice só pode ser posta à venda no dia 20. A razão é simples. No dia 19 vou a Braga e daí para o Porto. Ora, se o livro aparecesse no dia 18, arriscava-me a ir a Braga para a Eternidade com a cabeça partida por algum hissope» (p.207).
Neste ambiente inconformado com as diatribes rancorosas e inclementes com Deus, com Cristo e a Sua Igreja, a Velhice do Padre Eterno, é parodiada pela Folha Nova com a paródia A Velhice da Madre Eterna subscrita por Marraschino & C.ª. A identificação deste «controverso pseudónimo» será feita logo a seguir com mais alguns documentos, terminando Henrique Manuel Pereira com a passagem em que Marraschino & C.ª acaba por fazer uma respeitosa vénia ao Poeta dos Simples: «Marraschino & C.ª, sociedade trocista de gargalhada permanente depõe as pennas galhofeiras aos pés de Junqueiro (…) – o poeta colossal cuja lyra é um Hymalaia de tropos luminosíssimos e aos pés de Bordallo Pinheiro – o implacavel demolidor d’esta sociedade apodrecida e balofa. Ambos elles são uma força e foi à sombra d’esta honrada e gloriosa força que marraschino teve a petulância de flanar um pouco pelos domínios do escândalo alegre e da cebola» (p.213).
Na verdade, a ambiguidade do documento acima citado por Henrique Manuel Pereira, mostra bem como o prestígio literário de Guerra Junqueiro se acabou por sobrepor (e continua a sobrepor) à fé e à discordância de muitos a quem ele feriu os mais fundos sentimentos religiosos.
É sempre difícil não ver alguma desculpabilização para aqueles que, idolatrados pela política ou pela cultura do seu tempo, investem desmedidamente sobre temáticas que, sabem à partida, quanta popularidade lhes vai granjear. E a temática anti-religiosa é mesmo uma das mais promissoras formas de alcançar louvores e glória entre as hostes dos inimigos da Fé.
Teresa Ferrer Passos
Fonte: Voz Portucalense (Porto), 14/6/2006; Suplemento das Artes das Letras in O Primeiro de Janeiro), 10/4/2006; A Avezinha (Albufeira), 18/5/2005;Internet, www.TriploV.com, 18/4/2005; www.harmoniadomundo.net (17/6/2008).
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UM POETA A ESCREVER NO FUTURO*
«Ao fundo, o Lima corria / E, lira de água a tremer,
/ Os seus versos repetia»
Teófilo Carneiro
«Vede-as [às suas Rimas] com mágoa, vede-as com piedade /
Que elas buscam piedade e não louvores»
Bernardim Ribeiro
Publicado em 1944, o livro de poemas Fuga surge como a rampa de lançamento de Fernando de Paços1 (23/11/1923-18/6/2003). Com pouco mais de vinte anos, o autor reunia, subordinado àquele título, doze poemas. Era o terceiro livro da colecção Poesia Nova. Assim se chamava porque pretendia apagar qualquer possível elo de ligação com alguma da poesia que se publicava na época.
O lema da Colecção era, significativamente, a «Arte pelo Todo». Esta expressão procurava sublinhar que a poesia não se confinava à estética, mas era movida pelo sentimento, pela emoção. O exercício da poesia exigia toda uma estética formal, sem descurar, em simultâneo, a expressão das ideias.
Por esse tempo, vivia Fernando de Paços em S. João d’ Arga em Viana do Castelo. Um belo lugar serrano a elevar-se frente à cidade. Aqui viveu a infância, a adolescência e a juventude até aos vinte e tal anos, na casa de seus pais. Com uma pequena quintinha, que se cobria, então, de vinhedos e frondosas árvores de copas fustigadas, tantas vezes, pela chuva miudinha e abraçadas pelas brumas e pelo nevoeiro, até no Verão. Ao lado, havia (e ainda hoje lá está) uma austera capela em pedra granítica e, um pouco adiante, a casinha onde Camilo Castelo Branco (não excluiríamos sombras de Camilo em Fernando de Paços…) viveu no ano de 1857.
Arga, um pequeno lugar no caminho que conduz ao templo neo-bizantino consagrado ao Sagrado Coração de Jesus no alto do Monte de Santa Luzia, sobranceiro a Viana do Castelo. Arga, cuja fundação remonta à construção do mosteiro de S. João d’ Arga por S. Frutuoso, no século VII. Para este lugar paradisíaco e de silêncios secretos, espreitava o rio Lima, ao fundo, a espraiar-se depois frente às ondas brancas de espuma dos longos areais. E os perfumes de maresia e de pinheiral entrelaçavam-se nos trilhos sinuosos da serra.
Nesta beleza nostálgica, suave e também agreste, cresceu a sensibilidade poético-mística de Fernando de Paços. Fecundou-a uma espiritualidade profunda, semelhante à de um certo Fernando Pessoa. Mas, a ela não foram também estranhas as manifestações religiosas da obra de um José Régio, nascido nessa tão próxima Vila do Conde, ou as raízes telúricas de obras como Marânus de Teixeira de Pascoaes, a escrever nos não muito distantes vergéis de Amarante. Não sendo um ortodoxo partidário do presencismo regiano, nem um discípulo da forma artística de Pascoaes, escutou-os com atenção, seguindo, contudo, numa linha de rumo bem distinta e própria da sua personalidade. E se Fernando de Paços foi fiel à frase de José Régio, «literatura viva é aquela em que o artista insuflou a sua própria vida e que por isso mesmo passa a viver de vida própria»2, afastou-se em absoluto, de acordo com o lema da Colecção em que se inseriu Fuga, da poesia social dos neo-realistas, seus contemporâneos.
Dinamizador do Centro Cultural da Juventude de Viana do Castelo, Fernando de Paços (também conhecido por Fernando Zamith), colaborou com entusiasmo no seu órgão Seiva Nova, suplemento literário do jornal Notícias de Viana. Aí veio a publicar um conto, um ou outro artigo sobre a moderna poesia portuguesa e alguns poemas. Incentivador entusiástico deste projecto literário, escreveria o poeta de S. João d’Arga, em Outubro de 1942 (Seiva Nova, nº6):
«Rasgaram o véu negro que tinham sobre a fronte,
E viram um ideal erguer-se no horizonte!
Correram, para ele, de braços abertos,
E o novo Sol, juntando-os contra si, volveu:
– Meus filhos, sois libertos!…
(…)
Ó Juventude heróica, o teu vigor
É como a Seiva Nova dum arbusto em flôr!…»
Dois anos depois da publicação deste poema exortativo, Fernando de Paços dava à estampa Fuga. Pequeno livro, em função do número de poemas publicados. Mas, não pequeno livro, em função da arte com que transmitiu a emoção em que se envolviam os seus versos. Desde o primeiro poema, que titulou «Momento», o poeta revela uma inesperada originalidade. As suas tonalidades artísticas apresentam-se eivadas de pureza de sentimentos. Fiel às cadências, aos ritmos, à musicalidade das rimas, encontra o ponto certo da melodia. A harmonia verbal é uma das características de todos os seus poemas. De um rigor acentuado na imagética, enriquece-a com o seu pensamento rebuscado. Como se assemelham os seus versos àquelas brumas entre os pomares e esses bosques solitários, onde, cedo, meditou sobre a vida e o mundo. E começava a escrever toda uma poética de interrogação. Questionava-se a si próprio, quase a cada momento. Num espanto e numa comunhão, escrevia os seus versos envolvendo-os de trocadilhos, antíteses e metáforas.
Usava as palavras como um mago que quer trazer ao de cima das sílabas, os pensamentos mais recônditos, sem lhes retirar o secretismo. Em simultâneo, avançou com frases libertadoras das amarras da linguagem, tantas vezes, enganadora.
É o caso do primeiro verso de «Momento»:
«Portas fechadas a desejos incompletos».
Fernando de Paços começava o poema, vendo-se já com as portas fechadas e, os seus próprios desejos sentia-os como se fossem, continuassem a ser, incompletos. Incompletos, palavra estranha referindo-se a um sentimento (o desejo), porque parece querer dizer que nem sequer ele próprio imaginava os seus desejos de modo concreto. Não os conhecia plenamente e, afinal, sabia que estavam algures dentro de si. Ou temia formular mesmo um desejo incompleto? Não poderia ferir alguém, se esses desejos fossem completos? E reforçava-se esse tom introspectivo nos dois versos que a seguir se transcrevem:
«Os corações inquietos
Como se fossem um livro proibido de se ler (…)»
Usando o plural, Fernando de Paços mais uma vez tentava tornar vaga a expressão do sentimento. A inquietação que habita o coração surgia ao poeta como que indefinida, quase apagada. E nele eclodia só à custa de uma linguagem quase proibida de ser entendida, semelhante à de livros proibidos. Em suma, o que é proibido de se ler é o seu coração. Proibido de se ler mesmo por ele próprio. Logo, a metáfora e a analogia a jogarem lado a lado. Isto mesmo vemos no poema «Elegia Vaga», quando o poeta dizia que
«O que me anda ausente
Desfaz-se em fantasia…
Enquanto um roxo poente
De mim, longínquo, principia».
E acentuou, no mesmo poema:
«Tenho uma alma anónima de alma
No som do campo eu sinto
A lida e a calma
Do que não descubro»
E nos poemas «Crepúsculo» e «Variante», os versos acentuam esta vertente enigmática que tende à omissão das imagens e não à sua explicitação plena, o que define bem o poeta de Fuga:
«Montes quietos como vultos
Apagados na penumbra de outros montes
Que fito
E temo como se fossem
Os meus desejos ocultos (…)»
Outro exemplo:
«E qualquer dos meus dias mais
Indefinidos,
E do mesmo anseio vago,
Se perde nos sentidos
Das calmarias naturais
Que trago»
Ou ainda:
«O silêncio da paisagem verde
Emudeceu a voz que tinha
E eu penso se será assim que sou»
Versos paradigmáticos do estilo presente em todo este livro. É a ausência de si que se transforma em fantasia poética; é aquilo que não está no mundo da consciência do poeta que se diz, que se expõe. Afinal, o que permanece escondido na esfera do inconsciente, ou seja, aquilo que não está sujeito à vontade premeditada, é que toma, aqui, a forma poética.
Fugindo aos intuitos conscientes da maioria dos seus contemporâneos, Fernando de Paços cria um espaço semelhante ao de uma poesia do não, e com esta expressão pretende-se significar o espaço de uma poesia que se alimenta não essencialmente do visível, mas do invisível ao próprio ser interrogante de si, interrogante da vida.
No poema «Mensagem», o poeta interrogou-se:
«(…)E assim cresci, lírico e vago…
(Porque destruí inglórias atitudes
E dei mensagem tão vã?)»
Mais adiante, no poema «Fuga» (que deu o título a esta recolha), sublinhava, num acento mais fundo:
«Há sustos
Dentro do meu céu fechado»
E no poema «Resgate» confessará, numa dupla constatação:
«Quanto infinito vago
Em vão tentei olhar…»
Este denominador comum revela que o poeta questionava antes de tudo o seu próprio eu, sem chegar a encontrá-lo. Estamos perante uma poesia psicológica vinda do eu do poeta, vinda de intuições que, afinal, teme, pois são todas elas «desejos ocultos de infinito». Mas que, não obstante, procura decifrar. Nunca o alcança porque tudo nele era oculto, a começar pelos seus desejos («ocultos» e «incompletos»). E estranhava-se a si próprio. Não se via à altura desse infinito, que buscava em imagens a fecharem-se à dilucidação daquilo que, afinal, só poderia ser o impenetrável sagrado. Ou essa interioridade obscura, que se lhe afigurava intransponível, distante demais...
Dois anos antes, no suplemento literário «Seiva Nova» (nº 8 datado de 7/11/1942) do Notícias de Viana, Fernando de Paços considerou como um erro da poesia sua contemporânea, a «ideia sair como ideia e não como poesia». E, precisamente, porque «na poesia há necessidade de ritmo e de musicalidade» (nº12 de 9/1/1943). Mas, mais adiante, volta a revelar o seu pendor «sfumato», ao definir a poesia como uma «vibração de sons vagos e de símbolos posteriores».
Neste seu livro de estreia esta definição tornava-se uma evidência. Assim, em Fuga, o poeta transmitiu-nos o seu ser nebuloso, melhor dizendo, todo feito de bruma. Fernando de Paços entregava-se à palavra com a autenticidade das profundezas inóspitas da alma que não consegue encontrar dentro de si, a não ser como algo que parece excessivamente longínquo por se possuir tão próximo (ou dentro de um nós indefinido e penumbroso).
Poemas bem ao estilo de Fuga, viriam a ser publicados por Fernando de Paços na revista Távola Redonda (1950), onde pontificavam, em sintonia com ele, já a viver em Lisboa, António Manuel Couto Viana e David Mourão-Ferreira e Luis de Macedo.
Jacinto do Prado Coelho escreveria no nº19/20 da revista que «o movimento da Távola Redonda (…) foi uma bela manifestação de auto-análise e de consciência estética, ao serviço – como queria Baudelaire – da “imaginação”, isto é, do lirismo». Estas palavras bem se poderiam aplicar ao poeta de Fuga. A propósito, lembremos uma passagem do poema «Entanto» publicado por Fernando de Paços em Távola Redonda (Fasc.2, 1950):
«Vivemos sós nesta longínqua esfera,
enigmáticamente,
nesta esfera fria
Não saberemos nunca da esperança
a irrealizada promessa
apetecida…
Na bruma se desfez sua voz mansa…(…)»
Recordemos também o poema «Regeneração» que acaba por rejeitar o próprio título (Ibidem, Fasc.5, 1950):
«Viver, ainda viver! Vão-me fugindo,
Sinto que vão fugindo, os meus brinquedos
Os meus sonhos, até os meus segredos,
O calor dos meus dedos…Tudo findo».
O poeta, dominado pela angústia da perda ou do abandono, dividido entre a ânsia de viver e a saudade do vivido, atormentado pela incógnita da sua identidade e pelo sentimento daquilo a que chamou «peitos vazios de certezas», afinal, esse poeta esteve sempre presente no Fernando de Paços autor de Fértil Jardim (1953), Segundo Dilúvio (1963) e Jangada Aérea (1995). Este último, com um quase inexplicável hiato cronológico em relação ao seu terceiro livro… Tal facto, pouco consentâneo com a envergadura do poeta, justificou-o ele, ao dizer que já tinha dito tudo. E que havia mais a dizer, se ele era o mesmo, sentia a mesma angústia perante esses que «nas encruzilhadas do Mundo, vivos… ou mortos giram» (poema «Momento» de Fuga), as mesmas interrogações e as mesmas incertezas «porque entre as ondas e a bruma sempre, sempre, fugirei…» (poema «Longe» do mesmo livro), cinquenta anos depois de publicar esse livro talentoso a que chamou Fuga?
Num salto para o abismo, o poeta brumoso, estudante do liceu de Viana do Castelo desses já distantes anos 40, o poeta que deixou de escrever poesia porque «já tinha dito tudo», é o poeta do ano 2003, com setenta e nove anos, agora a silenciar o sofrimento que se afirma no corpo doente. Espera na ausência do som, desse som a falar. O silêncio. Nada a dizer. Está tudo dito. E sofre num silêncio de cumplicidade com o seu próprio sofrimento. O sofrimento é uma negação de si. Doente, e negando confirmá-lo. Sabe, como aos vinte anos, que
«Estará na praia, vazia, a minha galera,
Num dia de bruma, num dia de bruma,
À espera, à espera…»
Como «viver, ainda viver!». Que deve esperar? Ainda esperar? E para quê? E como? E pensa, talvez, como há cinquenta anos, no poema «Fomos cânticos serenos» (Távola Redonda, Fasc.2):
«(…) Fomos cânticos serenos,
tantas flores de tantos ramos.
Infantis, simples, pequenos…
Porque o fomos? Que seremos?
Que somos? Para onde vamos?»
Panóplias de interrogações e de fugas, como outrora, nos tempos de Viana? Numa interioridade de susto, num terror de ser mais uma culpa do que uma fatalidade, silencia o sofrimento e a dor silencia. Ninguém quer assustar. A ninguém quer perturbar o sossego, a quietude dos tempos. Tempos difíceis.
E, assim, no fim da vida, ainda a identificar-se com esse jovem de vinte anos, esse jovem em busca de uma nova poesia e a erguê-la como uma «seiva» revigorante e aniquiladora, a entoar os versos do seu poema «Intervalo» inserido em Fuga:
«Parando, esquecido e longínquo,
Enquanto os movimentos enfraquecem…
Tardios movimentos (…)
Ide, sob o ocaso das sombras
Do meu vazio
E vagaroso
Terminar…»
Nesta memória do poeta Fernando de Paços, de talento ofuscado por uma humildade rara, lembremos o poema-vaticínio.
Com mágoa e saudade, a memória destes versos de Fuga:
«(…) Senhor! Senhor! É a hora!
Ei-lo, o meu corpo nu.
E agora
Crucifica-o,
Como se foras Tu»
A hora soou. Nove da manhã. Dia 18 de Junho.
Rosas aveludadas e com espinhos, tombam na campa do poeta.
Dias depois, qual cruz inesperada no pequeno jardim de sua casa… Dois altos pinheiros envoltos em viçosa hera, que tanto gostava de olhar, talvez na lembrança da sua S. João d’Arga… Um tronco do pinheiro envelhecido de súbito, tomba. Soara a hora... A hora da morte do poeta…
Mas a Fuga ressuscita-o, a testemunhar ainda o autor dos seus versos…
Teresa Ferrer Passos
1 Pseudónimo de Fernando Zamith de Passos Silva.
2 Artigo de José Régio «Literatura Viva», Presença, nº1, 1927.
Fonte: Teresa Ferrer Passos, «Fernando de Paços, um Poeta a Escrever no Futuro», Cadernos Vianenses, Câmara Municipal de Viana do Castelo, nº35, 2004; Internet, www.harmoniadomundo.net ; A Aurora do Lima (Viana do Castelo), ano 153, 22/10/2008.
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A IMPRENSA E A POESIA INFANTIL
Algumas considerações sobre a revista infantil CAMARADA
«Em busca da genuína alma da criança foram dados à estampa na revista infantil Camarada (1958-1965), rubricas especialmente dedicadas à poesia.
Esta revista fora, em anos anteriores(1947-1951), dirigido pelo poeta António Manuel Couto Viana. Desde 1957, assumiram a direcção Álvaro Parreira e o poeta e escritor de teatro infantil Fernando de Paços (Viana do Castelo, 8/11/1923 - Lisboa, 18/6/2003).
Como Homenagem póstuma a Fernando de Paços, aqui vamos deixar alguns traços do jornal, o qual dinamizou com o seu vivo entusiasmo por tudo o que dissesse respeito ao mundo da criança. Nesta nova série do Camarada, Fernando de Paços continua os intuitos que marcaram os primeiros anos do jornalinho, abrindo-o sempre «a quem, com um mínimo de qualidade, quisesse tentar a sorte nas bandas desenhadas e nos pequenos contos apropriados à idade e gosto dos leitores» (A. M. Couto Viana, João de Deus e um Século de Literatura Infantil em Portugal, p.35). Aqui foram-se publicando peças de teatro, pequenos contos, histórias de quadradinhos, biografias históricas, jogos, passatempos e utilidades práticas para entretenimento da criançada. O autor do impecável poema Fuga (publicado em 1944, quando andava pelo vinte e um anos), dedicava-se, incansável, ao Camarada em que a cor das múltiplas ilustrações e o apurado grafismo, em que a beleza das fantasistas narrativas e os seus ensinamentos, criaram grande número de pequenos leitores.
(...)
De Fernando de Paços, o incentivador da publicação desta 2ª série da revista, lembremos as poesias que escreveu especialmente para os pequenos leitores. Inspirando-se em animais como o gato, publica a «Fábula do Gato e da Campainha», um poema com carácter educativo, em que não falta o espírito de educar para a democracia:
«Proponho
Que ao rabo do gato da vizinha
Seja atada uma grande campainha
Que permanentemente o localize,
Uma vez que não há quem nos avise
Da sua sempre inesperada aparição».
A terminar, um verso eivado de ironia:
«Melhor fora não propor coisa nenhuma».
(Camarada, nº Especial, 1965)
No poema «Domingo» de novo imprime aos versos um tom de ironia, essa ironia que, não raro, aparece nas personalidades de uma natural timidez:
«(…) – Já vais para a missa?
– Já cantam os galos! –
Tombei a preguiça
Com um par de estalos. (…)».
(Camarada, nº5, 1958)
Inspirando-se no tempo das chuvas, o poeta de Fértil Jardim (1963), escreve a «Canção à Chuva» caracterizada pelo simples jogo das palavras «chove», «chuva», e «choveu»:
«Chove, chove, chove,
Chove, já choveu!
Três gotinhas de água
Dentro do chapéu (…)».
(Camarada, nº2, 1963)
De carácter narrativo descobrimos um único poema «A lenda de S. Cristóvão». Neste, Fernando de Paços desenvolve os versos como se fosse uma história do tipo dos contos de fadas:
«Junto à margem da ribeira
Quedava-se, a meditar,
Deitado na sua barca
Que era a melhor do lugar (…)».
(Camarada, nº6, 1963)
E depois de caracterizar o barqueiro, sempre usando a rima intercalada, surge o maravilhoso:
«Um dia chega um menino
Da altura de um polegar:
– Cristóvão, por Deus te peço,
Quero o rio atravessar – .
– Saltai para a minha barca:
Bem vos pode carregar – .»