HARMONIA DO MUNDO

 

TERESA FERRER PASSOS / TERESA BERNARDINO

 

 

 

 

 

 

OS ESPELHOS DE LXXXI (POEMA TEOREMA)

VIDAS PARALELAS EM ACTO, A SUL DA ESCRITA

A PROPÓSITO DO LIVRO ALVARENGA E O MOTIM DE 1942

A POESIA INFANTIL, DE NOVO

REFLEXÕES SOBRE «SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO»

O ACORDO ORTOGRÁFICO

NA MORTE DA ESCRITORA MARIA GABRIELA LLANSOL

A FICÇÃO CIENTÍFICA E O PRÉMIO NOBEL DA LITERATURA

O ROMANCE E A EMOÇÃO DA MEMÓRIA

NO ANIVERSÁRIO DO NASCIMENTO DE WILLIAM FAULKNER

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

OS ESPELHOS DE  LXXXI (POEMA TEOREMA)

 

 

Paulo Teixeira Pinto

 

 

Na noite dos espelhos do número três cresceu a palavra transmutada em sílabas, vogais e consoantes. A palavra delineada em unívocos sons a crescerem como uma melodia de polifónica construção. E aí, o poeta em vozes várias inscreve a ciência que conhecemos com a palavra tão significante que é a palavra matemática. Inspirando-se nas antigas teorias de números de órficos, pitagóricos e dos seus continuadores Platão e Aristóteles, para só falar dos mais distantes.

 

Fascinado pela ciência que enalteceu os números e os envolveu em equações, teoremas, postulados e toda uma série de fórmulas fugitivas, a vaguearem no espaço todo número, todo geometria, todo equilíbrio e harmónica esfera, Paulo Teixeira Pinto pinta, com as cores da incerteza e do ser, um espaço novo embrulhado em poemas limitados pelo ilimitado dos desejos e erguidos com as sombras negras e brancas de um destino insubmisso. Veja-se o poema «Pax»: «serena / na inquietude / sublime / na simplicidade / contempla-se a revelação // sombra cintilante // no mistério / nada reflecte // tudo promete // parece / o que se vê // mas nada se desvenda  // jamais» (p.173).

 

 

Paulo Teixeira Pinto

proferindo algumas palavras sobre o seu livro

 

 

Conforme a Poética de Aristóteles o “poeta deve ser mais fabulador que versificador”. Esse mandamento do primeiro grande teorizador das artes literárias não foi esquecido neste conjunto de noventa e nove poemas em que a matemática, através do seu mais vulgarizado símbolo, o número, assume, ainda e cada vez mais nos nossos dias, um papel dinamizador da ciência e da tecnologia. A matemática vive, na sociedade contemporânea, através das técnicas digitais computacionais e robóticas em geral, uma nova Idade de Ouro, a renascer com os seus enigmas, os seus jogos obscuros, a sua identidade inconfundível.

 

Neste livro de poemas de Paulo Teixeira Pinto desvendamos o seu ser inconfundível, a sua interioridade a desbravar-se do campo magnético de místicos números exaltados por Platão. Eis estes versos de Paulo Teixeira Pinto: «declinado / que foi o nome // logo / perfeita / se revelou a forma // e infinito / o seu alcance // em órbita / daquele único ponto // jamais concebido / em todo o firmamento» (poema «Punctum», p.30).

 

Os “Diálogos” de Platão são uma busca do invisível no visível. O número cinco: “Este número é o número do círculo total do ser e o do caminho da alma que imita o número do Todo”.  E Aristóteles, seu discípulo, continuou estas ideias e transmitiu-as a todo o pensamento futuro. O número não mais deixou de ser o instrumento das técnicas científicas nos seus cada vez mais variados ramos. Como escreveu na sua obra Metafísica “os seres existem por imitação dos números”. Ou ainda: “são os deuses que constroem a totalidade do céu a partir dos números”. Mas no seu notável Tratado do Céu, diria Aristóteles: “O Todo e a totalidade das coisas são determinadas pelo número três: fim, meio e começo formam o número característico do Todo, e o seu número chama-se Tríade”.

 

Nesta linha inspiradora da poesia, Paulo Teixeira Pinto conduz o seu cultivo desta arte que tem vasos bem comunicantes com a arte da pintura em que também gosta de navegar. E escreve no poema «Sphaera»: «oculta / da distância limiar / reside a medida / sem limite algum // em tudo livre / da vida fluente // forma perfeita // criatura / ou / criadora?» (p.131).

 

O livro LXXXI (Poema Teorema) foi lançado no Laboratório de Chimica do Museu da Ciência em Lisboa, a 9 de Outubro de 2008, pela editora Caderno. Em momento especialmente oportuno, nestes dias em que o saber parece, para muitos, ser tido por uma velharia, por um conceito que é preciso substituir pelas superficiais necessidades de consumos especulativos, de prazeres displicentes. Na verdade, LXXXI (Poema Teorema) é um livro em que a poesia fala mascarando-se de matemática, como no teatro da Antiguidade Grega.

 

A teoria do número pode transmitir o ser invisível que tem apenas como visibilidade o próprio visível do número, mas que o ultrapassa  no seu carácter íntimo. E estes versos escrevem, sem iludir, o invisível de Paulo Teixeira Pinto: «o breve / em eterno / se doou // quando cindido / foi o tempo // e o nunca / em sempre / se tornou» (poema «Redemptio», p.187).

 

No poeta agora desvelado a pessoa de Paulo Teixeira Pinto encontra na harmonia e no sentimento de um conteúdo, às vezes, insuspeito, imprevisível, mas audaz, um novo sentido. Lembremos o poema «Canon»: "surgia / a estesia / em pleno / fulgor / quando / fulminou / a fantasia // qual laço / atado em nó / à angústia / de não conhecer / a razão de haver / quem não aceite / o que maravilha" (p.109).

 

Como epílogo desta breve análise da alma de um poeta, transcrevemos os versos em que a poeticidade do eu de Paulo Teixeira Pinto, se transforma na emoção maior, a de uma única lágrima: "quisera tanto / ser a lágrima / afagante da face // e não // a face afagada / pela lágrima" (poema «Lacrima», p.195).

  

Lisboa, 10 de Outubro de 2008

  

Teresa Ferrer Passos

 

 

 

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VIDAS PARALELAS EM ACTO, A SUL DA ESCRITA

 

Escreveu, Herberto Helder,  há alguns anos, no seu livro de poemas Poemacto: «Sei que os campos imaginam as suas / próprias rosas. / As pessoas imaginam seus próprios campos / de rosas. E às vezes estou na frente de campos / como se morresse; outras, como se agora somente / eu pudesse acordar»*. Versos escritos entre o visível e o invisível de cada ser humano, versos a provocar-nos a interligação, a comunhão, senão mesmo a respiração monocórdica das pessoas com a natureza circundante.

Lembrámos estes versos a propósito do livro A Sul da Escrita** que recebeu da Câmara Municipal de Santiago do Cacém, em 2007, o Prémio Nacional de Conto Manuel da Fonseca. As palavras metafóricas de Herberto Helder, nestes versos a falar um pouco à maneira de «Fernando Pessoa», está a imbuir a escrita de A Sul da Escrita de Dora Nunes Gago.

Neste conjunto de nove textos biográficos de autores do Alentejo e do Algarve, Dora Nunes Gago conduz-nos através das vidas dessas nove personalidades que se distinguiram na poesia, na literatura ou na política, mas conduz-nos como se a natureza e as pessoas se entrelaçassem de tal modo que parecessem viver uma única realidade. A natureza e a existência humana confrontam-se e completam-se, dissolvem-se e regressam à vida, morrem e tornam-se imortais. 

Cada uma das personalidades retratadas por Dora Nunes Gago cobre-se, em cada momento da sua vida instável, submissa ou revoltada, de enigmáticas máscaras. E, em diálogo com os outros ou consigo próprias, surgem as figuras de poetas como Ibn Amar ou João de Deus, de Garcia de Resende, o Homem da corte renascentista, e do romanceiro Bernardim Ribeiro, sempre um pouco imerso em delirante e não menos inefável literatura. Todos os biografados pela autora de A Sul da Escrita se impõem, apesar de repletos de diabólicos obstáculos, por vezes, incontornáveis; todos eles estão circunscritos entre paredes negras que só a escrita consegue superar, dando-lhes as cores do paraíso.

As circunstâncias inesperadas atravessam os percursos das personagens a crescer entre véus de descrença e de desalento. A  vida está em todos os biografados, mas em especial em Florbela Espanca, António Aleixo ou Fialho de Almeida, a contracenar com o recurso à indiferença, à beleza de um verso ou ao gume da espada da saudade, da seiva das árvores ou ao perfume breve de uma flor. Entre a recordação do passado e o futuro distante está a figura de Teixeira Gomes. A beber com o espírito a luz e a cor está o poeta Emiliano da Costa. Destacada, entre as nove biografias, situa-se a cálida e extenuada poetiza das planícies alentejanas, Florbela Espanca.

Em busca de uma nova esperança, o desespero da poetiza de Charneca em Flor, ascende à flor maior que é o olhar para um passado que a amesquinha pela sua vulgaridade e um presente que não a sacia, não a contenta, não a faz ser viva. Em dezassete páginas se faz o conto do último dia de Florbela Espanca, o que contrasta com os restantes que nunca ultrapassam as sete.

É, sem dúvida, a Mulher  dos sentimentos contraditórios e de emoções intensas, a Mulher a quem nenhuma sensação é estranha, mas também a Mulher que querendo ser feliz, o conseguiu ser, não com o amor daqueles em quem ela confiou, mas  com a palavra que a poesia elevou até aos limites da beleza com que se exalta toda a criação humana.

A Sul da Escrita, um livro escrito por Dora Nunes Gago que continua aqui com a sua força cósmica, já patente no seu livro de poesia Planície de Memória. Ela aqui está bem presente com uma escrita A Sul da Escrita de transparente poética.

10 de Outubro de 2008

Teresa Ferrer Passos

 

* Ou o Poema Contínuo, Súmula, Assírio & Alvim, Lisboa, 2001, pp.14-15.

** Campo das Letras, Porto, 2007.

 

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A PROPÓSITO DO LIVRO ALVARENGA E O MOTIM DE 1942

 

 

 

 

 

«Religiosos, Militares, Paisanos, Nobres, Magistrados, todos foram taxados de Denunciantes, Testemunhas falsas, Caceteiros, Burros, etc., e todos foram ou mortos, perseguidos ou roubados, ou suas Casas saqueadas»

Francisco P. F. Costa,  Memórias de um Miguelista 1833-1834, p.23.

 

«Não se descreve, nem se calcula, o que foi nesse momento a rua de Santo António. Os populares (…) retrocederam precipitadamente, caindo, atropelando-se, esmagando-se uns aos outros, invadindo as escadas dos prédios, as portas abertas, rolando pelas escadarias (…)»

João Chagas & ex-tenente Coelho, História da Revolta do Porto de 31 de Janeiro de 1891, p.365

 

 

 

 

 

Na pequena vila de Alvarenga (terras de Arouca) o mês de Maio de 1942 trouxe aos seus habitantes situações anómalas, em que o susto, o medo e o pânico se misturaram, com frequência. O motivo principal foi o problema do contrabando do volfrâmio, um minério abundante nas minas desta região do Minho. A proibição pelo Governo da sua venda clandestina provocou uma instabilidade social de consequências inesperadas.

 

A venda do minério fora do enquadramento legal, conforme o Decreto-lei de Fevereiro daquele ano, era proibida. Este documento governamental teve o objectivo de fixar o preço de compra e venda do volfrâmio. Pouco depois, formaram-se redes de angariação de grandes quantidades. Então, as polícias começaram a actuar violentamente. Todas aquelas pessoas que se lhe afiguravam responsáveis pela comercialização ilícita do minério, eram motivo de buscas domiciliárias e mesmo de prisões.

 

Numa época em que o povo conhecia, pelos meios de comunicação social (jornais e rádio), as características dos regimes que recebiam influência do nazismo e do fascismo, como acontecia com o nosso, havia a tentação de os desafiar para ver até onde se podia ir, e, neste caso, até onde era legítimo transaccionar. As ordens do Governo português em que era Primeiro-Ministro António de Oliveira Salazar, eram inclementes para quem se atrevesse a prevaricar. Como escreve J. N. Pereira Pinto, «junta-se o povo, cada vez em maior número, conseguem que alguns dispersem e retirem o que não acontece com outros, “dos quais alguns estão presos, que procuravam por meio de pressão e teimosia era para obrigar a que nós fizéssemos retirar, a bem ou a mal, o que foi conseguido a bem, pois um insignificante encontrão (…) era o bastante para se estabelecer a confusão (…) o ensejo para dizerem que nós os provocámos primeiro»1.

 

Havia que combater até às últimas consequências quem não acatasse a lei especial do volfrâmio, um minério de grande utilidade no fabrico de armas, nestes tempos conturbados e cruéis da 2ª Guerra Mundial. A polícia que mais incumbências tinha do Governo era a PVDE, pois devia salvaguardar os superiores interesses da nação («Tudo pela nação» era a frase-chave de Oliveira Salazar, que gostava de subordinar o conceito de povo ao conceito de nação).

 

Assim, as apreensões de volfrâmio eram constantes. Com o auxílio da PSP e da GNR, a PVDE defrontava as populações revoltadas e recorria mesmo ao uso de armas de fogo. A revolta deu origem a um motim que se prolongou por vários dias.

 

Minas de volfrâmio, Regoufe, Alvarenga

 

Ora, é este motim que leva José Nuno Pereira Pinto, o autor deste conjunto de documentos escritos e recolhidos em testemunhos orais, a escrever um romance de fundamento histórico, Da Outra Margem, publicado em 2004 e, agora, a obra historiográfico-antológica Alvarenga e o Motim de Maio de 1942, que estamos a abordar.

 

Neste trabalho, fecundo para alargar o conhecimento dos meandros locais (e regionais) do regime opressivo que o povo português vivia em 1942, J. N. Pereira Pinto, mostra como as várias polícias se complementavam nos métodos e nas tácticas de combate àqueles que desobedecessem às leis postas em execução pelo Governo. Com a agravante de, não raro, serem atingidos cidadãos inocentes. Com preponderância da PVDE, as informações circulavam entre as polícias que não poupavam ninguém para bem cumprirem as ordens recebidas dos seus superiores. Vejamos esta passagem: «Os últimos actos da polícia em Alvarenga foram, precisamente a busca domiciliária à residência do Professor Pereira Pinto, nas circunstâncias já descritas e a prisão deste, por ordem do chefe Almeida, ordem transmitida dentro da camioneta seis, da Soares & Oliveira, a um agente que se desconhece. Quando introduz o detido no veículo, que já tinha o motor a trabalhar, de imediato a caravana avança lentamente em direcção ao Porto. Era o epílogo, inglório e tenebroso, do motim»2.

 

Sendo Alvarenga rica em volfrâmio, nem sempre havia espaço para o armazenar, o que provocava a sua dispersão pelos campos, conduzindo a frequentes pilhagens para a sua venda clandestina. É, precisamente, à volta desta melindrosa questão, que o trabalho aqui exposto por J. N. Pereira Pinto, se torna um oportuno libelo contra os excessos cometidos, durante o regime do Estado Novo, especialmente pela PVDE: «(…) Após a amostragem tinha sido exigido o pagamento do preço. Os compradores recusaram-no. Exigem a exibição das guias. Não existiam. De imediato, estes sacam das pistolas, apontam-nas aos circundantes, proclamando a apreensão do minério e identificando-se como agentes da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado»3.

 

Este acervo de depoimentos testemunhais de ambas as partes (acusados e acusadores) reunidos pelo autor - personalidade de formação jurídica de relevante perfil - , é uma importante achega para o estudo da repressão policial no nosso país. É também um exemplo do seu grau de violência e do seu carácter mais ou menos esporádico ou frequente.

 

A propósito, lembremos outras revoltas populares, sobretudo de camponeses, durante a ocupação espanhola entre 1580 e 1640 e a ocupação francesa entre 1807 e 1811. Sob as ordens supremas de Filipe II de Espanha ou do Imperador francês Napoleão Bonaparte, a soldadesca foi recebida com uma iniludível hostilidade pelas populações campesinas dos lugarejos, das aldeias, das vilas e de cidades (revolta do Manuelinho de Évora em 1637) de Norte a Sul de Portugal. Não podemos esquecer, igualmente, a revolta popular a favor do Mestre de Avis, em Lisboa, no ano de 1383 e a célebre revolta da camponesa Maria da Fonte no Minho, em 1846.

 

De facto, as revoltas ou os motins populares, em Portugal, tiveram um carácter quase sempre esporádico e só se verificaram em situações limite, numa história de quase nove séculos. Se herdámos o sentido da insubmissão dos lusitanos, também nos deixámos influenciar pelo carácter submisso dos povos de origem moçárabe.

 

Revertendo à obra que estamos a abordar, lembramos que José Nuno Pereira Pinto nos ofereceu já o interessante romance que acima referimos (Na Outra Margem) todo ele inspirado nos acontecimentos de Maio de 1942 em Alvarenga e que são aqui, pormenorizadamente, referenciados. Apesar de casos idênticos aos de Alvarenga poderem ter-se multiplicado um pouco por todo o país, ao longo da nossa História, não abundam os historiadores para os estudar. Na verdade, há claras falhas na abordagem histórica e documental das manifestações populares contra o poder político. A história das camadas populares em Portugal está ainda por fazer. Quem sabe se, Alvarenga e o Motim de Maio de1942 de José Nuno Pereira Pinto, não será um passo decisivo para colmatar uma lacuna imperdoável na historiografia portuguesa?

 

A concluir, o autor deste memória tão enriquecedora da história local, neste caso de Alvarenga, acentua que «a despeito de todas as buscas no Tribunal Militar do Porto e Tribunal Judicial de Arouca, não encontrou o processo relativo aos catorze Réus, ou seja, o processo principal»4. Muitas outras provas se apresentam, muitos outros argumentos se põem em contraste, mas para o autor desta exaustiva investigação, para que a justiça não deixe de se fazer, mesmo muitos anos depois, o mais importante é que «esta história é feita, pelos que amam, na adversidade e no sofrimento. Ou amar, na prosperidade, no fulgor dos vigores físicos e mentais, não será uma futilidade?»5.

 

17 de Abril de 2007*

 Teresa Bernardino**

 

 

* Este artigo foi escrito, originariamente, por solicitação de José Nuno Pereira Pinto à autora, com vista a prefaciar o livro Alvarenga e o Motim de 1942 (a publicar).

 

* * Ortónimo Teresa Ferrer Passos.

  


 

1 José Nuno Pereira Pinto Alvarenga e o Motim de Maio de 1942, p.34.

2 Ibidem, p.60.

3 Ibidem, p.13.

4 Ibidem, p.124.

5 Ibidem, p.161.

 

Fonte: José Nuno Pereira Pinto,  Alvarenga e o Motim de 1942, Associação de Defesa do Património Arouquense, Arouca, 2008; Internet, www.harmoniadomundo.net  (25/9/2008).

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A POESIA INFANTIL, DE NOVO

 

 

A  sabedoria de um Poeta não tem idade. Em cada poema nasce uma história a vibrar de sensibilidade e imbuída de uma cultura assimilada ao longo dos anos, anos de tempestades e anos de bonanças. Mas, em cada poema para a infância, a arte de contar ganha novos contornos e esses contornos traçam um mundo de memória, a memória da infância do próprio Poeta. É neste ponto, que surge a escrita de António Manuel Couto Viana, um dos Poetas que melhor soube falar com as crianças.

A sua obra dramatúrgica especialmente destinada a um público infantil transmite um entusiasmo, uma dinâmica, uma ousadia tal que poderíamos compará-la ao célebre “Peter Pan”, o menino que não queria crescer. A verdade é que, se crescesse, perderia a alma rica da sua infância.

Talvez por António Manuel Couto Viana, ele próprio, não ter perdido, ao longo da sua vida, a alma pura da criança que foi, continua a ser capaz de dialogar com uma naturalidade invulgar. Trata-se de uma naturalidade eivada da sua vasta cultura que, desde os seus tempos no liceu de Viana do Castelo, desenvolveu sem descanso.

A arte de comunicar é uma constante em toda a sua obra, mesmo até a vasta obra ensaística está por ela marcada. Esta capacidade de comunicar, ou seja, de se dar ao outro, ao ponto de se transferir para as suas personagens ou para as suas lembranças, é impressionante. A arte do diálogo está imbuída de tudo o que, de um modo ou de outro, o autor vivenciou e continua a vivenciar.

Em cada um dos seus ensaios, sejam sobre Cesário Verde ou Camilo Pessanha, encontramos múltiplas referências a seu pai, a sua mãe e irmãs, a seus amigos poetas, ensaístas ou pintores, sempre como se todos fizessem parte de uma magnífica peça de teatro que tem como palco privilegiado a própria vida (vejam-se livros como Colegial de Letras e Lembranças, ou Escavações de Superfície – Estudos e Memórias, Universitária Ed., 1994 e 1995, respectivamente).

A dramaturgia é a arte daqueles que gostam de conviver com o outro e não suportam o egocentrismo limitado ao solilóquio, em que os outros são indiferentes ou um peso a mais, se não mesmo uma inevitável necessidade. A dramaticidade de A. M. Couto Viana foi um das suas mais curiosas e incisivas facetas.

A sua poesia e o seu teatro infantil revelam por outros factores, sobre os quais não vamos alongar-nos, revelam  bem, dizia, o seu alto talento também numa escrita especialmente destinada à criança. Recordo os livros Versos de Cacaracá (1984) e Versos de Palmo e Meio (1994) ou as peças infantis Era uma Vez… um Dragão! (1950) e  No Palco do Faz de Conta. Toda uma literatura cultivada com esmero quer na vertente da poesia, do ensaio, ou do conto (Meias de seda Vermelha e sapatos de verniz com fivelas de prata e outros contos [ed. Prefácio, 2003], tornam A. M. Couto Viana um ícone ímpar na literatura portuguesa da 2ª metade do século XX e dos já quase a finalizar primeira década do século XXI.

A alma autêntica que reveste a sensibilidade dos mais pequeninos e que também reveste a daqueles que a sabem conservar quando adultos, está presente no livro, sobre o qual vou dar alguns breves traços: Bichos Diversos em Versos (Poesia Infantil), [Texto Editores, Lisboa, 2008] com ilustrações alusivas de Afonso Cruz.

Todos os poemas são rimados, cheio de beleza rítmica e de sempre oportuna temática, o que está de acordo com aquilo a que A. M. Couto Viana já nos habituou, desde os anos quarenta, em jornais e revistas publicados em Viana do Castelo e em Lisboa (em especial Távola Redonda).

Desde 1948, ao publicar em livro, O Avestruz Lírico, o seu primeiro conjunto de poemas, não mais deixou de dar a lume tantas e tantas obras, num fulgor produtivo de que a qualidade foi sempre um admirável apanágio. Se estes poemas não apresentavam características de poesia infantil, neles havia a beleza estética da transparência, que caracteriza a alma da criança. Aqui estava já bem evidente a alma plena de pureza intemporal do Poeta de A Oriente do Oriente (1987) e de Café de Subúrbio (1991).

O livro em referência, Bichos Diversos em Versos (Poesia Infantil), oferece-nos um conjunto de poemas em que encontramos histórias de animais que são, em simultâneo, histórias moralizantes a ensinar sobre o sentido impróprio de alguns comportamentos humanos, histórias cobertas de ironia, que chamam a atenção da criança mais desprevenida.

Entre os poemas moralizantes podemos citar o poema “Vaidades”, em que o tubarão grita a um pequenino peixe para lhe chamar Barão. Era um peixe mesmo vaidoso do seu tamanho descomunal; esquecia que a aparência exterior não era tudo; o outro, apesar de ser pequeno, chamava-se peixe-Imperador! O nome serve, neste poema, para simbolizar que nem tudo se reduz à sua forma física, era preciso lembrar-se que o interior não era menos importante. Assim, o grau de nobreza pelo qual exigia ser tratado tornava-o ridículo por ser tão pretensioso.

Por sua vez, o poema “O Tigre” refere-se ao defeito da falsidade; o poema “O Cavalo” acentua o valor daquilo que é natural perante aquilo que o imita e que é uma simulação; “A gaivota” alude à preguiça; “O Avestruz” é o símbolo do desonesto, daquele que quer enganar sem que os outros descubram a sua intenção.

No poema “O Rato, o Gato e o Cão” surge uma cadeia de poderes entre os animais que leva à supremacia do mais forte, cadeia essa a que não é estranho o ser humano, porque as suas atitudes não diferem muito da cadeia presente com os exemplos dados. Já “O Dinossáurio”, “O Gato-Sapato” ou “O Leão” têm um sentido mais fortemente satírico, em que o autor não poupa as pessoas que assim  se comportam.

O poema que se inspira na fábula de La Fontaine, “A Cigarra e a Formiga” tem a particularidade de introduzir uma nova personagem, a coruja, símbolo da sabedoria. E o que ela vem dizer é que é preciso o meio termo, o equilíbrio em tudo aquilo que fazemos. Nem uns só trabalharem e os outros só se divertirem: deve haver um tempo para o trabalho e um tempo para distrair; nunca um deverá anular totalmente o outro.

No poema “A Raposa” vemos A. M. Couto Viana lembrar a célebre novela de Bernardim Ribeiro com o título Menina e Moça. É a raposa a lembrar a expressão “menina e moça” com a qual ele inicia a sua obra. Eis o exemplo de um poema didáctico para familiarizar a criança com os autores clássicos. E, a finalizar, lembramos o poema “O Camelo” em que se realça a tradição da consoada natalícia ou “O Peru” em que se faz também apelo a essa tradição.

De chamar a atenção é o facto de cada poema evidenciar bem a veia dramatúrgica e, em sintonia o seu talento de poeta essencialmente lírico. Neste livro tão bem ilustrado por Afonso Cruz vemos renascer a poesia para a infância que, tal como a dramaturgia infantil a que A. M. Couto Viana dedicou grande parte da sua vida, é igualmente e sempre uma poesia (e também dramaturgia) para os adultos meditarem e daí tirarem ensinamentos para a sua própria vida que não deve perder os traços mais importantes da personalidade da criança.   

               7 de Setembro de 2008

Teresa Bernardino*

 

* Ortónimo de Teresa Ferrer Passos.

 

 

Fonte: Internet, www.harmoniadomundo.net (8/9/2008), A Aurora do Lima (Viana do Castelo), ano 153, 17/9/2008.

 

 

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REFLEXÕES SOBRE «SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO»

 

 

 

 

 

 

«Quatro velozes dias cedo serão noite / E as noites, sonhando, escoarão o tempo»[1], diz-nos a personagem Hipólita, noiva de Teseu, rei de Atenas, em resposta ás suas palavras sobre a festa nupcial dos seus faustosos esponsais. Nestas palavras se encerra todo o mistério do tempo. Ao longo destas páginas, escritas provavelmente entre os anos de 1594 e 1596, William Shakespeare inscreve toda uma acção dramática que se processa como se o tempo, esse maravilhoso invólucro da vida dos humanos, tivesse nele teias sempre bem urdidas para alterar o rumo das vontades e, mais do que isso, tivesse, a cada instante, novas identidades escondidas criadoras de novos enredos para cada uma das personagens da existência humana.

 

É nessa conjuntura temporal de inesperados sentidos e de imprevisíveis desvios, que se vão forjando os acontecimentos, que se viram contra si próprios e que se interpõem às decisões e aos mais firmes sentimentos que se instalam no coração de mulheres e de homens que vêem os seus desígnios torpedeados, como se forças de inexplicável poder se interpusessem entre eles.

 

O mistério da condição humana está bem patente neste trepidante drama concebido com uma argúcia psicológica que é transmitida a cada uma das personagens, quer sejam de certo saber, quer sejam rudes artesãos ou pertençam ao mundo secreto do maravilhoso imaginário do pensamento mais original e de divina descendência. Aqui se integram os heróis, as ninfas, as fadas, e tantas outras construções da fábula de tempos idos. Juntam-se a estes, essas fragilíssimas figuras dos pequeninos elfos, os gnomos mágicos, as musas da inspiração, os centauros do poder ou as sereias de beleza ímpar. O mistério que torna estranha a realidade, cria mil e uma faces ao mundo da consciência humana e do tempo.

 

Como diz Hipólita (talvez ela seja uma réplica da mitológica Antíope, a amada de Teseu), os dias são breves, ante a noite que os cobre com os seus enigmas, as suas ciladas, as suas artimanhas inesperadas. É nessas noites da existência que os sonhos se expandem e atravessam, quase sem se fazerem pressentir, os dias. Os dias, que passam, sem parar, por cada ser, são armadilhados nos seus tentáculos súbitos. As melhores e as mais reflectidas decisões são contornadas e envolvidas em obstáculos de aparência intransponível. Essas forças, representadas pelas estranhas figuras das fadas ou dos elfos ou dos gnomos, inspiradas no imaginário da Antiguidade Clássica, Medieval ou de povos com religiões animistas, afogam os dias dos humanos em gigantescas marés de vazio ou em grotescas cavernas de infortúnio.

 

São os dias devastados pelos sonhos nefastos que esfacelam os amantes, atormentados pelo espanto de situações abruptas, palavras incongruentes e amargas que lhes dilaceram os sentimentos mais puros e audazes. Assim acontece, em Sonho de uma Noite de Verão, com Helena que ama Demétrio que, por sua vez, ama Hérmia e esta que, amando Lisandro, tenta fugir com ele para não serem separados. Mas, devido a uma “poção mágica”, são afastados por Robin, a mando do rei das fadas que, por ciúmes, quer vingar-se da rainha, que recusava dar-lhe para seu pajem a bela criança que ela amava, após tê-la mandado raptar a um rei indiano.

 

Todos os desencontros dos amantes têm por trás algo de pérfido, de improvável, de mal-intencionado. Cada nova situação resulta de um destino que alguém manipula, mas desconhece-se quem o faz. Serão fadas maléficas ou Elfos minúsculos e vingativos? Serão os invisíveis e poderosos habitantes dos lagos, dos bosques ou das montanhas? Serão os que mandam e, com o seu grande poder, esmagam os mais débeis e incautos? E tudo aparece inserido num acaso obscuro, num destino cruel e ao qual nem a paixão mais impetuosa pode escapar. Como diz Helena “o amor pode com a alma, não com os olhos, ver. / Daí o Cupido alado a cego aparecer (…) Por isso se diz do Amor que é uma criança, / pois na escolha é tantas vezes enganado”[2].

 

E a ingénua Helena, ao escutar a voz amorosa, enfim, de Lisandro agora já apaixonado por ela ao ter ingerido a alquímica bebida, sente-se insultada pelas suas palavras de amor inesperado. Por sua vez, Titânia recebe semelhante feitiço que a faz amar um artesão, Fundos, transformado em burro. O ridículo cai sobre Titânia, a rainha das fadas. E outro dos amantes, Demétrio, que rejeitava Helena e amava Hérmia, agora, por idêntica magia, transmuta o sentimento de amor por Hérmia numa recusa em a amar. Por seu lado, Hérmia não entende a razão de Lisandro ter deixado de a amar, após tantas provas de fidelidade.

 

Em suma, todos se sentem enganados, ludibriados, vítimas de súbitas mudanças sentimentais. Ninguém está seguro. Ninguém pode já confiar. A realidade parece, por vezes, deixar de o ser. Parece-se mais com os sonhos de noites de verão, noites em que “nevoeiros” cálidos se abatem sobre as pobres criaturas que repousam na confiança e na lealdade com aqueles que amam. Tudo parece tão estranho, tão absurdo mesmo. A realidade mostra-se irreal, impossível mesmo.

 

Neste Sonho de uma Noite de Verão, Shakespeare oferece-nos as simbólicas e mágicas “poções” que imbuíram uma humanidade, enchendo-a de sofismas, de imprevidência, de loucura. O autor utiliza a personagem Oberon, o rei das fadas, e o seu serviçal Robin, para todas as maquinações que criam o ridículo, que constroem a ilusão do amor nos seres sem sombra de malícia e que fazem da vida um contínuo alcatruz, ora a vazar o bem, ora a encher-se de mal. Por isso, Hérmia diz: “Tudo parece duplo”[3]. E Demétrio: “A mim parece-me / Que ao dormirmos sonhamos(…). / E entretanto contemos nossos sonhos”[4]. Também Fundos, o artesão que dirige a pequena peça, de intenção popular, para divertir os convivas, após o jantar do casamento de Teseu, não deixar de pronunciar: “Tive um sonho para além do que se pode dizer que sonho era”[5].       

 

No Acto 5 (Cena 1) desta belíssima peça teatral, Shakespeare explicita toda esta engrenagem mental ao afirmar através da personagem Teseu: “Os olhos do poeta, em alvo postos, / Vão do céu à terra e da terra ao céu; / E como a imaginação arquitecta / O desconhecido, a pena do poeta / Dá-lhe formas, e confere ao que é nada / Uma existência própria e dá-lhe um nome. (...) / Ou à noite, se o medo imaginar, / Fará dum arbusto um urso a espreitar”[6]. Nesta intervenção está inscrita a própria identidade do autor de Sonho de uma Noite de Verão, uma das mais bem concebidas comédias de todos os tempos.

 

Como diz a Professora Maria Cândida Zamith, a excelente tradutora desta pérola da literatura dramática inglesa, “trata-se de uma trindade de mundos fantásticos”[7]. E, mais adiante, Maria Cândida Zamith sublinha, bem oportunamente, que se trata de “ um mundo sobrenatural povoado de toda a espécie de seres inspirados — e grandemente alterados — a partir de todos os imaginários de todos os tempos e de toda a Europa”[8].

 

Sonho de uma Noite de Verão é uma obra em que cómico e trágico se entrelaçam. Criando um mundo cheio de novidade, Shakespeare consegue erguer, numa caótica harmonia literária, um mundo de sonho e/ou de sonhos, de portas entreabertas para sedutoras máscaras. E, esse mundo, sem mostrar o fim do caminho, abre-se, como um feitiço entre muitos outros feitiços, à beleza de imprevistos e emocionantes caminhos.   

 

25 de Julho de 2008

 

 

Teresa Bernardino*

 

* Ortónimo de Teresa Ferrer Passos.

 


[1] William Shakespeare, Sonho de uma Noite de Verão (Obra Dramática Completa), Campo das Letras, 1ª edição, 2002, p. 45.

[2] Ob.Cit., p.53.

[3] Ob. Cit., p.115.

[4] Ob. Cit., p.115.

[5] Ob.Cit., p.116.

[6] Ob. Cit., p. 119.

[7] Ob.Cit., p.31.

[8] Ob.Cit., p.33.

 

 

 

Fonte: Internet, www.harmoniadomundo.net (25/Julho/2008).

 

 

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O ACORDO ORTOGRÁFICO

 

 

 

 

O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (assinado pelos 7 países lusófonos - Portugal, Brasil, Angola, S. Tomé e Príncipe, Guiné, Moçambique e Cabo Verde) em 12 de Outubro de 1990, a que se juntou Timor em 2004, oferece a Portugal a memória do descobrimento do Brasil em 1500, após as descobertas ao longo da costa ocidental e oriental africana e da parte Oriental da ilha de Timor, hoje independente.

Oferece à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) uma nova solidariedade, uma nova unidade. Só nas terras de Santa Cruz (Brasil) são 190 milhões, a falar a nossa língua, há mais de cinco séculos.

Na XII reunião do Conselho de Ministros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, realizada em Lisboa no dia 2 de Novembro de 2007, o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Luis Amado, considerou que o protocolo modificativo do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, iria ser aprovado até fins de 2007. Contudo, este prazo foi, mais uma vez adiado. O Estado português espera agora, que o Acordo,  já modificado várias vezes (Segundo Protocolo Modificativo), seja aprovado pelo Presidente da República Cavaco Silva ainda no ano de 2008, para entrar efectivamente em vigor no ano de 2014.

Com vista a reflectirmos um pouco sobre o significado desta unificação da ortografia dos países de Língua portuguesa, vou referir alguns dos maiores cultores da lusa linguagem, nas suas versões diversificadas, conforme a geografia em que se inseriram.

 

 

Carlos Drummond de Andrade, Brasil

 

E aqui está Carlos Drummond de Andrade com a sua emoção e musicalidade no poema «Além da Terra, Além do Céu»: «Além da terra, além do céu / no trampolim do sem-fim das estrelas, / no rastro dos astros, / na magnólia das nebulosas. / Além, muito além do sistema solar / até onde alcançam o pensamento e o coração, / vamos! / vamos conjugar / o verbo fundamental essencial  / o verbo transcendente, acima das gramáticas / e do medo e da moeda e da política, / o verbo sempreamar / o verbo pluriamar, / razão de ser e viver»

 A história da língua portuguesa iria alterar o rumo da, então, ainda colónia, quando D. João VI escolheu o Brasil para se refugiar do conquistador da Europa, Napoleão, representado pelas invasoras tropas do comandante Junot.

 D. João VI elevou o Brasil de colónia a reino em 1815. Ao subir ao trono, na cidade do Rio de Janeiro, vago pela morte de sua mãe, a rainha louca, em 1816, criava as condições políticas para que o Brasil  fosse, em 1822, independente da metrópole.

No célebre grito junto do rio Ipiranga, ao lado dos adeptos da independência, o príncipe D. Pedro, filho primogénito de D. João VI, gritou com eles: «Liberdade ou morte!». Em 1822, o futuro maior Império da língua portuguesa, tornava-se, pelas suas dimensões – hoje, é noventa vezes maior do que o Portugal europeu – o baluarte da língua portuguesa. Nascia sob a égide de D. Pedro, príncipe de Portugal, elevado pelos brasileiros a 1º Imperador do Brasil.

 

 

Luis Vaz de Camões, Portugal

 

O novo Acordo Ortográfico dignifica e dimensiona a «pequena casa lusitana» à qual se referiu Camões em Os Lusíadas:

«As armas e os barões assinalados, / Que da ocidental praia Lusitana, / Por mares nunca de antes navegados,  / Passaram ainda além da Taprobana,  / Em perigos e guerras esforçados,  / Mais do que prometia a força humana,  / E entre gente remota edificaram  / Novo Reino, que tanto sublimaram (...)».

Este novo diploma da língua lusa oferece também aos portugueses um culto novo da língua de Torga, traz uma simplicidade gráfica que o povo brasileiro foi construindo com criatividade e espírito de tolerância. A língua de Sophia de Mello Breyner Andresen adquire, agora, a plenitude, ao ligar a ortografia sem barroquismos à pureza do pensamento. 

Neste Acordo Ortográfico, a assinar, brevemente, pela Comunidade Lusófona, vemos o quanto pode ainda enriquecer-se o mundo da língua portuguesa, ao qual se referia Fernando Pessoa, quando dizia: «minha pátria é a língua portuguesa». A sua frase ganhou a grandeza que merecia. A língua portuguesa é uma expressão unívoca, a sua forma quase não diverge do som.

 Hoje, estamos todos unidos por uma língua comum, com uma escrita sem "antiguidades gráficas", no Brasil como em Portugal.

 

 

Pepetela, Angola

 

Em Angola, toda virada para o ocidental Atlântico, lemos os patrióticos romances de Pepetela: «e indo chocar em baixo da Fortaleza contra a antiga ponte que os portugueses encheram de entulho e pedras e cimento, fazendo a Ilha deixar de ser ilha para ficar península (...) e se misturando as águas que vinham da lagoa com as águas do mar e as cores vivas se espalhando a caminho da Corimba, agora que a Ilha de Luanda voltava a ser ilha e Kianda ganhava o alto mar, finalmente livre.» (in O Desejo de Kianda).

 

 

Domi Chirongo, Moçambique

 

Nas terras de Moçambique, a vislumbrar o oriental Índico lemos o «Fogo da noite», um dos muitos inspirados poemas de Domi Chirongo: «Ia dormir / desconsegui / tentei sonhar / acordei / com rajadas / borbulhentas / fortemente / localizadas, / era o fim / das ideias brilhantes... / para trás / ficavam planos / de uma vida / inacabada / ficava a planta / de uma casa idealizada / para trás / ficava o jardim / que um dia / quis construir...»

 

 

Julião Soares Sousa, Guiné

 

Na Guiné, envolta nas ilhotas perdidas e nos rios desenhados entre palmeiras e alto capim, ouvimos a música da palavra com que o poeta Julião Soares Sousa nos sensibiliza em «Cantos do meu país»: «Canto as mãos que foram escravas /  nas galés / corpos acorrentados a chicote / nas américas // Canto cantos tristes/ do meu País / cansado de esperar / a chuva que tarda a chegar  //  Canto a Pátria moribunda / que abandonou a luta /  calou seus gritos / mas não domou suas esperanças // Canto as horas amargas / de silêncio profundo / cantos que vêm da raiz / de outro mundo / estes grilhões que ainda detêm / a marcha do meu País».

 

 

José Luís Tavares, Cabo Verde

 

Nas paradisíacas ilhas de Cabo Verde, a parecerem perdidas no grande mar, escutamos José Luís Tavares para quem «nenhum destino está contido nas estrelas» como disse ao receber o Prémio de Poesia atribuído, em 2004, pela Fundação Calouste Gulbenkian: «Nenhum destino está escrito nas estrelas. O meu, construí-o por caminhos de cabras e de pedras, ouvindo perto o rugido do mar e os gemidos dos ventos da serra, entre gente de humilde condição, porém, de uma altivez tal apenas comparável aos impassíveis penhascos que outrora me vigiaram a infância. (...)».

 

 

  José de Almada Negreiros, S. Tomé e Príncipe

 

Em S. Tomé e Príncipe, o canto belo da língua portuguesa ecoa nas margens a soltarem-se em Portugal, desse Atlântico das epopeias trágico-marítimas, com o encanto e o rigor do pensamento poético e romanesco do grande pintor José de Almada Negreiros. Veja-se este brevíssimo texto. Como à maneira de Esopo, é uma palavra cheia de sabedoria e que intitulou «A Flor»: «Pede-se a uma criança: Desenhe uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. (...) Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: Uma flor! Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas, são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!»

 

 

Adeodato Barreto, Goa (Índia)

 

Em Goa e Macau, tão distantes, nascem canções de amor a um Deus que Cristo revelou e foi a Sua Imagem, a um Deus cansado de esperar e com a alegria de elevar S. João de Brito aos altares da Fé e do Império.

Em  Goa, lembramos a poesia de Adeodato Barreto «Canção do Bhául »: «Teus caminhos, Senhor, / teus caminhos de amor, / perdidos, / oculta-os a Mesquita, / a cobiça infinita / da Igreja, / do Pagode... / Aos meus ouvidos / vibrou, há muito já, o Teu apelo, / e a minha alma deseja,/ mas não pode, / recolhê-lo (...)

 

 

Luís Gonzaga Gomes, Macau

 

Na Cidade do Santo Nome de Deus, Macau, em que a cultura e a língua portuguesa sobrevivem sobretudo através do Instituto de Macau e da Revista Oriente Ocidente, não esquecemos o macaense Luís Gonzaga Gomes e as suas narrativas das lendas  e superstições de Macau, de fundo chinês, a que não faltou nunca o mítico dragão: «há quem assevere  que não obstante esse dragão encontrar-se moribundo, as suas pulsações são ainda sensíveis, sendo ainda capazes de, no seu estertor, soltar alguns arrancos, daqueles capazes de transformar a colónia em novo El Dorado».

 

 

Xanana Gusmão e Fernando Sylvan , Timor

 

E em Timor Lorosae, há ainda o poema «Gerações» de Xanana Gusmão, a respirar a tragédia de um tempo que parece ainda não querer passar: «(...) uma mãe que gemia / sem forças seu corpo desenhava / marcas da angústia / esgotada // Os farrapos que a cobriam / rasgados / no ruído da sua própria carne / sob o selvático escárnio / dos soldados indonésios / em cima dela, um por um (...)». Não quero perder ainda uma referência à memória de um Fernando Sylvan, a voz fagueira de Oan Timor. Aí se erguem os versos de um povo-infância a olhar a língua dos descobridores e a tentar cultivar a língua do verdadeiro Descobridor: «as crianças brincam na praia dos seus pensamentos / e banham-se no mar dos seus longos sonhos // a praia e o mar das crianças não têm fronteiras // e por isso todas as praias são iluminadas / e todos os mares têm manchas verdes //mas muitas vezes as crianças crescem / sem voltar à praia e sem voltar ao mar»

 

 

Herberto Helder, Madeira

 

Já mais perto das praias da «ocidental casa lusitana», as ilhas do arquipélago da Madeira, têm Herberto Helder, um dos poetas da língua portuguesa, nas suas vertentes fantástica e surrealista. E transcrevo excertos de um dos seus poemas: «De repente, as letras. O rosto sufocado como / se fosse abril num campo da noite. / O rosto no meio das letras, sufocado a um canto, / de repente. / Mulheres correndo, de porta em porta, com lenços / sufocados, lembrando letras, levando / lenços, letras ­ nas patas / negras, grandiosamente abertas. / Como se fosse abril, sufocadas no meio. / Era o som delas, como se fosse abril a um canto / da noite, lembrando.» (in Ou o Poema Contínuo - Súmula, p.15).

 

 

Vitorino Nemésio, Açores

 

 Agora, no mais vasto arquipélago dos Açores, aqui ao nosso lado, ao nosso ocidental lado, em ilhas isoladas pelos vulcões tenebrosos e afáveis, num incêndio a flamejar ou escavados nas solitárias cinzas fumegantes, pontifica Vitorino Nemésio, sempre oportuno e a não errar em tempos sem «limite de idade». Evoquemos estas palavras: «Como sempre, a norma linguística infringida irrita inutilmente [...] os guardiões do purismo, que os há aqui em nome de Machado de Assis como entre nós de Camilo. Nem esqueçamos que o "caldo de Vieira" é tão português de Portugal como português do Brasil. [...] A verdade é que a língua só lucra com os desaforos dos utentes. Quanto mais desmanchada, mais rica ao voltar à ordem. A sede de sentido acompanha e persegue o caos aparente do grafómano, e até o erro de sintaxe e de ortografia é fecundo: o primeiro porque dá uma ordem nova às palavras; o segundo porque regista a livre realidade dos fonemas.» (Jornal Observador, 22/9/1972).

Aqui estamos a escrever com a língua de partes tão distantes. A língua aproximou-as; a língua poderá afastá-las. Mas se a lusografia for uma única, tanto mais difícil será esta última consequência. Esperemos que o Acordo Ortográfico, que deverá ser assinado em breve, nos traga a certeza de que em tão diversos continentes e entre culturas tão dispersas a beleza da Língua Portuguesa, em que escrevem, hoje, António Lobo Antunes (Portugal), José Eduardo Agualusa (Angola), Baltasar Lopes da Silva (Cabo Verde) ou Paulo Urban (Brasil) será o sustentáculo de uma autêntica comunidade lusófona de cariz, maioritariamente, afro-luso-brasileira.

 

10 de Abril de 2008

Teresa Ferrer Passos

 

 

 

Fonte: Internet, www.harmoniadomundo.net(10/4/2008);www.triploV.com (10/4/2008); www.revista.agulha.nom.br (Nov./Dez.2008).

 

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NA MORTE DA ESCRITORA MARIA GABRIELA LLANSOL

(24/11/1931-3/3/2008)

 

 

 

 

 

A PROPÓSITO DE MARIA GABRIELA LLANSOL

 

 

 

De ascendência espanhola, nasceu em Lisboa em 1931. Com uma Licenciatura em Direito, viveu vários anos na Bélgica, acabando por regressar a Portugal e fixar residência em Sintra, onde faleceu no passado dia 3 de Março. Com uma escrita hermética, cheia de reminiscências surrealistas, preenchia páginas de grande beleza literária e eivadas de múltiplos sentidos sobre a natureza humana, debruçando-se mais profundamente sobre a natureza do escritor e os avatares da escrita.

Recebeu, em 2006, pela segunda vez, o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores. A obra apresentada ao júri, Amigo e Amiga: Curso de silêncio de 2004, ofereceu-lhe este alto Galardão das Letras Portuguesas. As duas últimas obras publicadas ainda em vida seriam Os Cantores de leitura e Desenhos a lápis com fala: Amar um cão, no ano de 2007.

Escrita tempestuosa em que a alma se abria como um botão de flor, possuía a riqueza de uma imaginação fulgurante em contínua busca da metáfora e da novidade linguística. Sem se deixar contaminar por modas literárias empobrecedoras da língua portuguesa que amava, escrevia para si e/ou para todos aqueles que fossem ao seu encontro nas páginas dos seus livros, ou seja, que experimentassem o prazer de decifrar ou de apenas se encantar com os seus romances poéticos e plenos de dramaticidade. Mesmo quando o silêncio envolvia as suas palavras escondidas em diálogos imperceptíveis ou a espreitar o diálogo com o texto ficcional, a intrometer-se e a comprometer-se com as vagas e dispersas personagens, Maria Gabriela Llansol desnudava os interstícios mais subtis da Língua Portuguesa .

 

Lisboa, 9 de Março de 2008

Teresa Ferrer Passos

 

 

 

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A FICÇÃO CIENTÍFICA E O PRÉMIO NOBEL DA LITERATURA

 

 

 

 

Em comunicado do júri da Academia sueca, a escritora de ficção científica Doris Lessing recebeu o Prémio Nobel da Literatura. Anunciada como "uma narradora épica da experiência feminina", a Academia considerou o seu livro  The Golden Notebook, "uma obra pioneira e (que) pertence àquela mão cheia de livros que moldaram a visão do século XX sobre as relações homem-mulher".

 

O silêncio envolveu até agora o nome de Doris Lessing, em Portugal. Os seus últimos vinte anos de escrita, em que abandonou a ficção clássica para se dedicar à ficção científica ou (como alguns lhe chamaram) à ficção espacial, foram tempos de apagamento nos suplementos de jornais e de revistas literárias, mesmo as de maior divulgação nacional.

 

O caso de Canopus em Argos: Arquivos, em cinco volumes (1978-1983), em que o Império de Canopus se confronta com outros impérios galácticos, faria Doris Lessing dizer, um dia, que criara um "mundo novo para si mesma".

 

Agora, com o galardão maior da Literatura mundial, o Prémio Nobel, esse mundo novo deverá alargar-se ao planeta Terra. E, em Portugal, talvez esta escritora que tem sido remetida ao esquecimento, tal como acontece com os autores de ficção científica em geral, comece a ser lida.

 

Apesar de a editora Publicações Europa-América ter publicado onze dos seus romances na colecção Nébula, especialmente destinada à ficção científica, Doris Lessing permaneceu nas prateleiras. Tratava-se de um género que muitos críticos da Comunicação Social e, também escritores de nomeada, consideram um género menor ou de 2ª linha.

 

11 de Outubro de 2007

                                                     

Teresa Ferrer Passos

 

 

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O ROMANCE E A EMOÇÃO DA MEMÓRIA

 

 

O tema do tempo, nas suas correlações com a vida e com a morte, é o grande inspirador do romance fantástico Regresso das Cinzas da autoria de Ray Bradbury, traduzido por Maria José Freire de Andrade (Publicações Europa-América, Colecção Nébula, 2004). Trata-se de uma obra escrita e retomada pelo autor, ao longo de cinquenta anos. Como Bradbury nos informa no Epílogo, desde a infância viveu com emoção as histórias que lhe eram contadas sobre os seus antepassados.

 

A narração de episódios da vida daqueles que já tinham morrido, terão imbuído as perguntas da criança curiosa ao longo dos dias ou dos serões da família vividos na velha Casa, onde passava férias. O mistério da ausência confundia-se com o concretismo do modo como os mortos da família eram, com frequência chamados ao convívio dos vivos. Quem diria que tinham morrido?

 

Ray Bradbury nunca esqueceu a lição que esses tempos, a afastarem-se cada vez mais da sua vida de adulto, lhe ofereceram. E talvez o que mais ficou gravado nele foi a ideia de que só morre quem é esquecido. Expressões como «memórias», «recordações», «tempo», aparecem com ênfase ao longo deste romance. Vejamos alguns exemplos: «as memórias, asas transparentes dobradas» (p.88); «o seu corpo jazia nas areias egípcias, mas a sua mente circulava, tocava» (p.88); «iluminado pelo sol e pelo luar da mente da Bisavó»(p.96); «Sem asas. Ela envia a sua mente»(p.184).  

 

A função dos mortos é, nesta obra de Ray Bradbury, fundamental pela dinâmica que aqueles oferecem às sociedades. Porque eles não estão imóveis, as suas mentes deambulam no meio dos vivos. Não são um fardo, nem uma ideia a rejeitar, mas são uma forma de os vivos obterem, pelo poder do pensamento memorialístico, uma verdadeira libertação.