HARMONIA DO MUNDO

 

 

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ENSAIO

 

JOSÉ AUGUSTO MOURÃO

(1947-2011)

 

Frei José Augusto Mourão nasceu em Lordelo, Vila Real, em 12 de Junho de 1947 e faleceu em Lisboa, em 5 de Maio de 2011. É autor de uma vasta obra nos domínios da  filosofia (em especial na sua vertente semiótica), da teologia e da literatura. Tendo professado na Ordem dos Pregadores (Dominicanos), é Professor Agregado no Departamento de Comunicação Social desde 20 de Outubro de 1999, na Universidade Nova de Lisboa. Presidente do Instituto S. Tomás de Aquino (nome de um Dominicano que foi um dos maiores filósofos da Idade Média), tem organizado e participado em numerosos colóquios. As suas conferências são de uma altíssima envergadura intelectual pela originalidade e riqueza da sua expressão linguística, ao mesmo tempo filosófica e poética. Com uma sabedoria de nível invulgar, são notáveis os artigos sobre poetas, romancistas, teólogos e filósofos/semióticos. Pela profundidade que os seus textos têm alcançado, não podemos deixar de o equiparar, no domínio da língua e da oratória, ao Padre António Vieira (1608-1697) e, no domínio da filosofia e teologia ao próprio S. Tomás de Aquino (1224-1274), de quem se revela discípulo. E nos seus escritos está, parece-nos, o próprio pensamento de S. Tomás de Aquino, para quem "o homem é simultaneamente uma singularidade e uma totalidade, uma parte num todo, mas uma parte que totaliza intencionalmente o conjunto da realidade" (Manuel da Costa Freitas in Logos - Enciclopédia). Professor de Semiótica e Ciberescritas, é autor de um vasto número de artigos publicados em livros, revistas e na Internet. É autor de numerosas conferências, prefácios e introduções a livros de poesia, a romances e a ensaios. Todos se caracterizam por abordagens de grande profundidade filosófica, literária e teológica. Entre os seus livros destacamos: Vazio Verde, 1985; A Visão de Túndalo: em Torno da Semiótica das Visões, INIC, Lisboa, 1988; Dizer Deus - Ao Des(abrigo) do Nome, 1991; Paixão, Discurso e Sujeito, 1996; A Sedução do Real. Literatura e Semiótica, Vega, 1998; O Regresso do Sagrado (et alii), 1998; Ética, Ciclo de Conferências (et alii), Banco de Portugal, Departamento de Serviços Jurídicos, 1999; A Palavra e o Espelho (S. Domingos: Pobreza e Humildade) , Paulinas, 2000;  Ficção Interactiva. Para uma Poética do Hipertexto, Edições Universitárias Lusófonas, 2001;O Nome e a Forma, 2004 (2ª edição em 2009); A Influência de Joaquim de Flora na Cultura Portuguesa e na Europa (et alii), Roma Editora, 2005; O Mundo e os Modos de Comunicação, Minerva Coimbra, 2005; Semiótica. Genealogias e Cartografias, Minerva, 2007; A Literatura Electrónica, Vega, 2009. Recebe, em 7 de Junho de 2010, uma merecida Homenagem da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa: Homenagem ao Homem e à Obra, em que se inclui o lançamento de Os Dominicanos em Portugal.

 

 

POESIAS E PROSAS DO AUTOR:

EXCERTOS DE «A GUERRA DOS PARADIGMAS»

DE O SENHOR VENTURA DE TORGA AO «O CÉU E A TERRA» DE KARL BARTH

NATAL 2008 (poema)

TODOS OS SANTOS

RECORTES DE REFLEXÃO (selecção de Teresa Ferrer Passos)

ONDE VAIS, DRAMA-POESIA?

PREFÁCIO SOBRE PLANETA JOYCE 8

CURA-NOS (poema)

O CAOS CULTURAL DA MUNDIALIZAÇÃO

META-GLOSA SOBRE A ANUNCIAÇÃO

DEUS NAS FRONTEIRAS DESTE MUNDO (poema)

BREVES PALAVRAS SOBRE A SUA OBRA:

 

José Tolentino de Mendonça:

JOSÉ AUGUSTO MOURÃO: O COMBATE E A DANÇA

 

Teresa Ferrer Passos:

REVELAÇÃO DE DEUS E POESIA RELIGIOSA

NO CIBERESPAÇO, QUE CIBERCULTURA?

PARA UMA «NOVA IDADE DO MUNDO»

 

 

HOMENAGEM PÓSTUMA

A FREI JOSÉ AUGUSTO MOURÃO

PROFESSOR DA UNIVERSIDADE NOVA DE LISBOA,

ESCRITOR E TEÓLOGO.

APÓS PROLONGADA DOENÇA, O TAMBÉM FILÓSOFO

E SEMIÓTICO DA ORDEM DOMINICANA

FALECEU ONTEM, DIA 5 DE MAIO,

 EM LISBOA, NO HOSPITAL ONDE SE ENCONTRAVA INTERNADO.

De acordo com a vontade do ilustre dominicano,

o seu corpo será oferecido para estudo científico e cremado.

À FAMÍLIA DOMINICANA APRESENTAMOS SENTIDAS CONDOLÊNCIAS

 

presépio*

que um arcanjo ilumine o nosso caminho

ao menos uma vez!

que o arcanjo que velava à cabeceira da Criança

nos ensine a força da fraqueza,

a doçura irresistível dos não violentos,

a lei do perdão

 

que a Criança nos ensine

que o amor de adoração é sempre partilhado,

comunicativo

 

que o arcanjo ilumine o que nos faz

sempre partir: um rosto, a sede de justiça, o choro

ou a fome, a cegueira dos olhos

ou do coração,

Deus que nos moves para a adoração

e o louvor neste fim de tarde

e que alumias o mundo.

 

                                           José Augusto Mourão

 

*José Augusto Mourão, O Nome e a Forma, Lisboa, Pedra Angular, 2009, p. 97.

 

 

 

NO CIBERESPAÇO, QUE CIBERCULTURA? *

  

«A cultura moderna, definida pelo predomínio da tecnologia, dos interesses económicos e militares, não pode sobreviver sem uma sempre desperta imaginação crítica e utópica»

E. Subirats, Metamorfisis de la Cultura Moderna

 

 

A cultura tecnológica tem limites que negam algumas das mais importantes qualidades do ser humano, esse ser humano que a História testemunha, guarda e identifica. Trata-se de uma cultura que acorrenta, que manipula, sobretudo porque oferece estímulos cada vez mais sofisticados e, ao mesmo tempo, que seduzem os mais vulneráveis pela solidão em que a sociedade tecno-consumista os lançou desde há pelo menos duas ou três décadas (...)

 

O Mundo e os Modos de Comunicação é um livro sapiencial, que prende a atenção e nos dá uma visão muito rigorosa da problemática do universo tecnológico a que, desde a infância, somos progressivamente obrigados a obedecer, sob pena de nos isolarmos do mundo humano, esse humano em busca de uma máquina para sobreviver por já não saber viver com os outros, ou porque as cidades são, cada vez mais, monstros sem alma, sem encontro, sem descoberta da felicidade. «Um obscuro ambiente de fim de mundo envenena o ar. Neste ambiente o corpo tornou-se um obstáculo à comunicação» escreve José Augusto Mourão (p.10). (...)

 

A ambiguidade, as ambivalências, o anonimato, as tutelas do poder de lobbies poderosos, a cultura encapotada por interesses obscuros, os proteccionismos financeiros de redes incontroláveis dentro da rede internética do ciberespaço, conduziram filósofos como, Baudrillard, E. Subirats, Fiorese, P.Virilio, G. Simmel ou Serres, entre outros, a colocar-se numa posição de desconfiança e crítica das novas tecnologias da informação. Citando-os ao longo de O Mundo e os Meios de Comunicação, J. A. Mourão trata esta temática com o rigor que exigem os estranhos rumos das vastíssimas auto-estradas cibernéticas em construção há poucos anos e já com tão inesperado êxito junto das sociedades ávidas de um «admirável mundo novo». A urgência de encontrar uma saída para a angústia em que a informação e o consumismo as tem mergulhado, vulnerabiliza-as e fá-las presa fácil da avidez incontida e prepotente. A sociedade, após duas violentas guerras mundiais, ficou fragilizada. (...)

 

Em O Mundo e os Meios de Comunicação, José Augusto Mourão oferece-nos uma visão que não deve ser omitida, esquecida ou desprezada pelos meios de comunicação. Aqui se encontram afirmações a alimentar a polémica que a nova cibercultura deveria escutar para não ser alvo de tantas limitações quando diz ter como fio condutor os grandes espaços da liberdade.

Como escreve o autor deste valioso ensaio semiótico, «com o colapso da realidade vs ficção, também a dualidade cartesiana espírito/corpo é eclipsada pelo conceito de «cyborg» que mina o conceito de «humano».(…). Se as fronteiras entre humano e artificial colapsam, todas as outras realidades se dissolvem também e as suas partes tornam-se ininteligíveis, como prevê Donna Haraday no seu “Manifest for Cyborg”» (p.15). E mais adiante: «Nunca fomos tão frequentados por monstros. Estão aí a “nova carne”, o cyborg, o pós-humano» (p.18).

Ler esta obra é receber um sinal de alerta sobre o ciberespaço. Não o deixemos passar ao nosso lado.

 

* Este artigo encontra-se publicado na íntegra na página deste "site" dedicada a Frei José Augusto Mourão. (aqui)

 

S. Brás de Alportel, 18 de Janeiro de 2006

 

Teresa Ferrer Passos

 

 

 

 

 

 

JOSÉ AUGUSTO MOURÃO O VAZIO VERDE

 

«(…) Os ouvidos crentes só a custo se abriam, porque ele operava com uma gramática inusual e exigente, buscava metáforas vivas, que é como quem diz, novas metáforas. Do mesmo modo, ele nunca obteve a visibilidade que certamente merece da parte da cultura. A sua poesia é, por exemplo, litúrgica, coisa que, em Portugal, é imediatamente catalogada de género menor. E alguns dos seus textos mais fundamentais são homilias: ora, as últimas homilias que a cultura portuguesa ouviu foram as do Padre António Vieira! Talvez um dia se reconheça a originalidade e a marca deste homem e se possa então valorizar o que ele hoje nos deixa em herança. Para já sentimos o grande vazio que a sua morte representa, que, como aponta o título do seu primeiro livro de poemas, somos desafiados a viver como um “Vazio Verde”.»

 

José Tolentino Mendonça

 

Fonte: Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura

 

 

 

In Memoriam de frei José Augusto Mourão 

A ressaca vem no dia seguinte,
a dor da partida e da ausência.
Ainda parece que não partiu,
ainda ecoam em nós as suas palavras,
os gestos e as revoltas.
E contudo, partiu.
Como dizer a presença ausente,
e esta ausência tão presente?
Neste ábaco da vida,
que contas fazer?

Uma corda de alaúde se rompeu,
deste alaúde que encantava,
que nos dizia o perto do longe
o incompreensível do compreensível,
a cerca que nos juntava e dispersava.
E em cada manhã,
esse Deus que amavas e te amava.
Vais à nossa frente
consolado nesse desejo que ainda nos seduz
e atormenta.
Deixando-nos um trilho,
onde a luta se faz presente,
necessária,
para que em cada manhã,
esteja Deus à nossa espera. 

                                            Frei José Carlos Lopes Almeida, OP 

Fonte: Blog Vitae Fratrum Ordinis Praedicatorum

 

 

POESIAS E PROSAS DO AUTOR

 

DE O SENHOR VENTURA DE TORGA

AO «O CÉU E A TERRA» DE KARL BARTH

 

 

«Siamo di fronte a un nuovo paradigma della biologia, che no se limita a conoscere o a sfruttare la natura, ma che passa alla logica della manipolazione totale per essere padrona di una vida costruita dall'uomo in modo artificiale»

(Roberto Colombo, Avvenire, 22.05.02)

 

«À l'inverse de l'homogénéité qui règne dans l'espace conceptuel de la géométrie, chaque lieu et chaque direction est affecté dans l'espace intuitif du mythe d'un accent particulier, qui renvoie lui-même à l'accentuation fondamentale propre au mythe, à la distinction du sacré et du profane»

(E. Cassirer)

 

«Lo cielo es de los celestes. Los mortales sólo habitamos la tierra, y algunos mortales, como los saduceos, prescindieron del cielo para vivir com más ahínco en su tierra; no sabemos si el cielo prescindió de ellos»

(Félix de Azúa)

 

 

A relação entre a natureza (ingens sylva, dizia Vico) e a cultura não é de ordem ontológica. Natureza e cultura são duas pontas de uma categoria semântica, constantemente redefinidas pelo poder de artifício da actividade humana. De que «natureza» é o céu azul monocromártico de Gioto da capela Scrovegni ou o céu das exceperiências visuais de James Turrel? Durante muito tempo a natureza foi considerada como um reino objectivo governado por leis imutáveis, enquanto a cultura era tida como uma república em que reinava o simbólico, o político e o social de forma mais ou menos arbitrária. Como se a história da natureza não tivesse sido sempre a história das suas metamorfoses. Pensava-se igualmente que a natureza, a que o homem pertence, era um «dado», o conjunto dos dados em que consiste o problema da existência, e que todas as «respostas» vêm depois, quando o homem começa a interpretar a natureza como o dado de um problema. «Porém», escreve Emanuele Severino, «già il linguaggio intende il ‘dato’ come l’effeto di un ‘dare’. Cioè si può credere che la natura – la situazione originaria in cui l’uomo si trova gettato – sia già essa stessa una ‘risposta’ a un evento più originario che segna il destino dell’uomo»[1]. Não há Natureza mas naturezas: o homem é criador de naturezas artificiais – a mais recente é a recriação da vida em laboratório: «Abbiamo progettato, sintetizzato e assemblato cellule capaci di auto-replicarse» (Craig Venter e Hamilton Smith). Derrida, em Donner le Temps, escreve que a natureza não existe, existem apenas os efeitos da natureza: a des-naturação ou a confirmação da natura. Pode defender-se uma outra opinião: «Não é verdade que a natureza não exista. A natureza é aquilo que se pensa, não só aquilo que se vê ou se toca»[2]. Nesta perspectiva, o mundo não é apenas aquilo que estaria «fora» de nós, supõe que se tenha uma ideia do «mundo interior» - o «mundo escrito», como diria Calvino. Para Whitehead, a Natureza define-se pela sua integral exterioridade, a sua transcendência, a sua inacessibilidade; por outro lado, a Natureza está infinitamente próxima de nós; ou, se quisermos retomar a expressão de Merleau-Ponty»: «Ela está toda inteira em cada uma das suas aparições, e não se esgota em nenhuma delas»[3]. Cada percepção nos dá os elementos de uma Natureza sempre nova pela simples razão que a Natureza é actividade, não é constituida por instantes. Nos textos de Whitehead, o período em que o seu  trabalho incide sobre a filosofia da natureza, a ligação entre a crítica da ciência e a crítica da bifurcação da natureza está já presente. Esta teoria da bifurcação consiste em subdividir a natureza em duas realidades muito distintas: a natureza, tal como é apreendida pela consciência, e a natureza tal como é construída como modelo científico: a primeira «contém em si mesma o verde das árvores, o canto dos pássaros, o calor do sol, a sensação do veludo»[4], enquanto a segunda, de natureza causal, «é o sistema conjectural das moléculas e dos electrões que afectam o espírito de modo a produzir a consciência da natureza aparente»[5]. Whitehead e Merleau-Ponty compreenderam ambos o erro da ciência que foi exactamente de separar, através da sua concepção implícita da realidade, a Natureza e a Vida. O diagnóstico de Merleau-Ponty e Whitehead coincidem: a «cegueira da ciência». Ao conceber a natureza como natureza causal, a ciência instaura uma distância com a Vida; como consequência:«A santificação do claro e distinto levou assim à evacuação do sentido e do valor»[6]. O erro da ciência foi o seu esquecimento da experiência que é o seu fundamento, isto é a sua ignorância do vivido incarnado que precede o pensamento.

 

Para a semiótica que se pratica hoje, e na esteira de Husserl e Merleau-Ponty, a instância de base, o corpo, o «elemento central da ‘Natureza’» (phusis) é a instância constitutiva da instância de origem. Semioticamente falando, o que é basilar não são as diferenças fundadas na natureza mas as diferenciações entre os modos de apreensão do mundo, os pontos de vista. O interpretante é sempre um outro significante, uma metáfora, um código, um horizonte cultural em que estamos imersos. O que não existe é a harmonia universal – a paz é apenas uma trégua em tempo de guerra. A demanda da harmonia universal é um projecto da escrita poética (Vide Baudelaire) graças à sinestesia e à metáfora, graças à procura das equivalências figurativas e perceptivas. Estamos, portanto, com uma questão estética. A particularidade da experiência estética, para a qual Kant não hesita em falar de «sensações» (Pl 1, 1042) é a da mais radical pertença a um aqui e agora, defendidas de qualquer traço da abstracção que a produção conceptual opera sobre o dado sensível. Nem o juízo estético nem o sentimento que ele produz podem deixar o solo da experiência sensível. É a propósito do sublime que Kant diz: «o céu sublime não é o dos astrónomos, mas aquele de que, por minha conta, eu capto as cintilações».

 

O Senhor Ventura

Partamos de dois autores, dois pontos de vista sobre as duas extremidades que ligam o humano – de humus – que nunca deixou de se projectar numa ou outra destas extremidades: o céu e a terra: Miguel Torga e Karl Barth. Um ponto de vista literário, a que podemos chamar «animista», o de Torga, e um ponto de vista teológico, o de Barth. Torga é o nosso mais «terreno» escritor, o mais enraizado à torga e à rocha. Como o cura de Vilarinho ele é «um bloco de pedra». Poucos como ele olham a perdição a que chegámos: a perda da integridade e daí a dispersão. A «lei» e a «lição da terra», a «força telúrica» levarão a melhor sobre o desequilíbrio que reina à face da terra. Para Teresa Rita Lopes toda a obra de Torga se pode resumir nesta frase, com variantes: «no começo era a terra» ou «no começo era o corpo», ou ainda «no começo era o homem».[7] Tudo na sua obra é dicotómico, exclusivo. Ora, os valores exclusivos são valores que tendem a ser «absolutos»: «ao termo de uma série de filtros e de selecções eles são, de certo modo, «purificados»: o seu brilho é então função da estreiteza do seu campo de aplicação»[8]. Este tipo de discurso, quando focaliza e valoriza uma temática, uma figura, facilmente veste a toga do censor, e aí temos o discurso do moralista. O discurso militante, o romance de tese, o género polémico são outras tantas versões deste tipo de discurso. No universo dicotómico de Torga, cada um destes três termos exclui o seu contrário: o céu, a alma, Deus. A terra, o corpo, o homem, eis a triologia que preside à obra de Torga. De resto, a Torga repugna tudo o que renega a raíz – a água, por exemplo, ou a «terra alheia». O deus de Torga é o «deus das vindimas», das forças elementares do mundo, com as suas festas e os seus ritos, sem transcendência, sem eternidade à vista. Se há um culto, é à Grande Mãe que tal culto é dedicado. O oficiante da «vida» celebra o seu culto no espaço exterior ao Templo: a sua missa é «campal». Como Heidegger, que não refuta o princípio da razão, nem Deus, nem a técnica, na prática, o seu princípio de regulação é a «Terra», não o «Céu».

 

O romance Senhor Ventura (1943)[9] traz já in nuce os tropismos que Torga amplificará ao longo da sua obra. É a história de um homem que desobedeceu às leis da terra, sobretudo àquela que impõe o respeito do exemplo da raíz. Quem parte da terra que o viu nascer é um “proscrito” - termo que emprega para Pedro, o filho de Maria Lionça do conto do mesmo nome (Contos da Montanha, 1969, pp. 21-22). Vida e Terra estão sempre de mãos dadas. No conto Vicente o Senhor, o Criador é um Deus cioso: a água que afoga a Vida, o fogo que o quer matar. Deus é o Antagonista. Que baste a Terra para dar sentido à vida e à morte. Deixemos Deus no seu golfo (Mar ou Céu). Maria Lionça é a incarnação da Mãe-Terra. O movediço introduz a desordem. O Senhor Ventura, o «traga – mundos», o «proscrito», não apenas deixa a terra que o viu nascer como ainda por cima casa com uma mulher estrangeira. Só quando regressa a casa é que verdadeiramente acorda. «A terra-mãe dizia-lhe agora toda a verdade do seu drama e da sua grandeza. Nascer e morrer fiel aos safões, ao leito e ao húmus quente da charneca, era, afinal, um grande destino»[10]. A Terra punirá o Senhor Ventura: morrerá em terra estranha. Trará o filho para o enraizar na sua terra natal e partirá de novo. O ciclo fechar-se-á, o destino cumprir-se-á: o filho redimi-lo-á. Após a morte do pai o filho regressa à aldeia, tornando-se pastor, como o pai quando tinha a mesma idade.

 

O Sagrado

O espaço mítico é dominado pelo «fenómeno de expressão». As definições tensivas (aberto vs fechado) da esfera do sagrado e da esfera do profano são conformes à exigência hjelmsleviana que concebe as grandezas como «pontos de intersecção de feixes de relações». O mundo antigo, sensível à concentração tinha o cuidado de preservar o valor colocando-o num «templum»: «A sacralização começa quando separa, da totalidade do espaço, uma região particular, distinta das outras, que é envolta e por assim dizer enclausurada pelo sentimento religioso. Esta noção de sacralização religiosa, que se apresenta também como uma divisão do espaço concretiza-se linguisticamente na expressão templum. Templum (téménos) remonta à raiz tem-, cortar, significando aquilo que é delimitado. Um templum define-se como um espaço circunscrito no ar pelo áugure antigo para delimitar o campo da sua observação, o campo do visível em que o visual fará sintoma, iminência e ilimitação»[11]. Em A Ideia do Sagrado, Rudolph Otto identifica e explora o mistério não-racional que está para lá da religião e da experiência religiosa («não-racional» não deve ser confundido com «irracional»); diz ele que este mistério é o elemento básico de todas as religiões, e a isso chamou o numinoso, utilizando o termo «numen» para se referir à deidade ou a Deus. O «mysterium tremendum et fascinosum» de Rudolph Otto é o sentido do absolutamente outro, «causa de tudo» que governa o mundo, e que o sujeito experimenta como uma presença misteriosa e terrível. O numinoso tem um outro aspecto que co-existe com o mysterium tremendum, o poder de fascinação. O numinoso fascina ou aterra-nos com uma força irresistível. Otto chama a esta qualidade do numinoso o mysterium fascinosum. No seu ponto mais intenso, este fascínio torna-se «exuberante» e transforma-se no «momento» místico ou directo, completo contacto com o numen, um estado que pouca gente experimenta. Não há grupo humano que não produza a sua sacralidade. Esse ponto de fuga que assegura simultaneamente a coesão e a perenidade é o que se chama o sagrado. Lugares «emblemáticos» como monumentos, um muro, um mausoléu, uma cripta são pontos de reunião e espaços circunscritos, à parte. Porém, o sagrado não se refere à natureza, mas ao caos. O Grego pensou os seus deuses, imortais-mortais, a partir da Beleza da natureza: «O mundo está cheio de deuses», dizia Tales. Mas o pensamento filosófico do divino construiu-se contra os deuses antropomórficos, providenciais, que os mortais invocam para suplicar e diante dos quais se ajoelham. Ora o caos é o sagrado, é o atributo dos ventos, dos cavalos, dos homens e das cidades, mas também das coisas tomadas no seu acmé, no instante culminante da sua potência. O peixe que se debate fora de água na extremidade da linha é sagrado (Ilíada XVI, 407). O raio é sagrado. O numinoso aterroriza. O sagrado separa. No âmbito da cultura semita, Isaías fala do Santo, e diante do Santo, o terror e o temor que paralisam.  Para Kierkegaard o religioso nasce numa aproximação demoníaca. Tanto o religioso como o demoníaco nos situam face a face com o tremendo. Este autor põe em paralelo a figura de Abraão, o cavaleiro da fé e Tritão, uma figura que surge dos fundos abissais, e isto porque a tentação demoníaca é encenada na tradição ocidental por relatos perigosos de exploração marítima e por vezes de expedição na montanha. É de resto no cenário do mar, que a Bíblia tem por perigoso e tenebroso, que Jesus aparece como aquele a quem até o mar obedece.

 

K. Barth

Passemos a um texto contrastivo com o de Torga: «O Céu e a terra» de K. Barth[12]. Este texto é um comentário do primeiro artigo do símbolo dos Apóstolos: «Creio em Deus Pai todo poderoso, Criador do céu e da terra». São os dois últimos lexemas que Barth comenta. Se é um discurso de comentário, transforma saber, é um texto didáctico: é um curso que Barth dá na Universidade de Bonn no semestre de varão 1946. No discurso de Barth são as operações persuasivas que ocupam mais espaço: «pensais que… mas eu digo-vos que» que pressupõe um contrato fiduciário entre o enunciador e os seus auditores-leitores. E uma injunção final: que os leitores se deixem transformar num «todo» pelo saber produzido.

 

A criação tem apenas uma finalidade: servir de teatro para a glória de Deus e «nós constituimos pela nossa simples existência de criaturas, um sinal, uma demonstração e uma promessa do destino final de toda a criação».

 

Segmentemos o texto:

 

na sequência inicial: o enunciador opõe dois programas cognitivos ou saberes: a doutrina cristã da criação vs uma cosmologia ou imagem fundada na Escritura e o Símbolo vs do mundo que resulta da reflexão humana.

 

Começo da explicação do programa cognitivo positivo que inclui o céu, a terra e o homem.

 

A aliança: finalidade e fundamento de criação Sequência conclusiva: resumo do saber produzido e comunicação graças a este saber de um objecto-valor: a unidade-comunhão da criatura e do Criador. Vê-se nesta primeira sequência um sujeito virtual (a Igreja, os cristãos) chamada a não se deixar desviar pelas operações sedutoras do falso saber. É fora da esfera da reflexão humana, das «concepções do mundo» que o sujeito cognitivo é convidado a adquirir este saber. O discurso referencial (a Escritura, a fé) não serve para validar o enunciado de estado: «o céu e a terra são o objecto da doutrina cristã da criação», mas a garantir a aquisição do verdadeiro saber. A Weltanschauug pertence ao modo de produção do falso saber. «A Bíblia não nos diz em parte alguma que devamos adoptar esta ou aquela concepção do mundo».

 

Assinalemos um primeiro percurso figurativo de tipo cosmológico: «céu», «terra», «criação», «universo», «mundo». Um percurso de actividades noéticas que cobrem os lexemas: «doutrina», «sistema», «pensamento», etc. Uma primeira citação de Génesis 1,1 lembra que o saber contido no Credo pressupõe conhecido o relato da criação como querer e fazer de Deus. Uma segunda citação do catecismo de Lutero lembra que o homem é no relato bíblico a figura central. Uma pergunta: a descrição da criação que nos dá o Credo é uma descrição adequada na medida em que o homem é aí omitido? O homem parece omisso no símbolo, mas o céu e a terra são o seu quadro natural.

 

Barth retoma as explicações do falso saber: o céu e a terra são apresentados como autónomos enquanto a Escritura fala sempre do céu e da terra, logo do homem também, no quadro duma relação com Deus. «O genitivo mostra que não acreditamos, mas no Deus Criador». O Credo fala do homem conforme à Escritura. Uma primeira referência ao símbolo de Niceia-Constantinopla permite a Barth separar o céu e a terra (céu = invisível vs terra = visível). Uma segunda referência à Escritura desdobrada por uma referência à «cosmologia antiga» permite introduzir uma nova disjunção: céu físico, ainda visível – o firmamento ou a abóbada – e o «verdadeiro céu», que forma o trono de Deus, que escapa completamente à compreensão do homem. Uma terceira disjunção: entre o céu invisívele e incompreensível e a presença de Deus. O céu não é Deus. É um puro mistério.

 

Em semiótica, o mistério é a conjunção do ser e do não-parecer, não ao nível do dizer como secreto, mas no plano do conhecer. Não se trata de uma operação de veridicção, mas de estatuir sobre um objecto do saber (Deus) que como o céu é incompreensível. A terra é descrita como mundo do compreensível enquanto o céu era designado como mundo do mistério, o céu em relação com Deus (alto) e a terra em relação com o homem (baixo). O homem está situado no limite do céu e da terra. O poder do homem baseia-se num saber: é capaz de compreender o seu meio natural. A aliança (que precede a criação no tempo) de Deus com o homem é como um querer de Deus que faz do homem o sujeito potencial (virtual) do louvor. A criação é o sinal de um desígnio eterno de Deus – um querer e poder-fazer de Deus. A criação remete-nos assim para aquilo a que o enunciador chamou a aliança. Mas mais do que a criação, é a criatura humana que é sinal da aliança realizada de maneira perfeita em J. Cristo. A polaridade céu-terra remete para uma polaridade mais fundamental que é Deus e o homem. O céu e a terra são apenas o quadro em que o homem é investido por um poder-ser e um poder-fazer: dar glória a Deus, viver em comunhão-unidade com Ele.

 

Coda

Que distingue a filosofia da teologia? Para Hugo de S. Victor a teologia é determinada por uma «voluntaria certitudo», donde o que é importante é a voluntariedade da certeza, a um nível superior à opinião, mas inferior à «ciência». Em suma, o objecto da teologia são os «objecta fidei». Os teólogos não são intelectuais, mas «magistrati della verità» (Emanuelle Coccia). A filosofia é surda à presença das coisas (Serres, Statues) – à pedra a que Sísifo constantemente sobe. James Lovelock[13] diz-nos de que modo a metáfora de Gaia permite inverter a solução kantiana e pode permitir escutar o apelo dos seres a que o moralismo nos ensinou a não ser sensível. Se a teologia reivindica o domínio do homem sobre a criação e a sua subordinação a um Criador, a ciência, varre da cena qualquer transcendência, erguendo um pedestal ao cientista. A língua latina chamava res, a coisa, donde nós retiramos a realidade, o objecto do processo judicial ou a própria causa, de modo que, para os Antigos, o acusado tinha o nome de reus porque os magistrados o citavam. Como se a única realidade humana viesse dos tribunais. Como se a natureza fosse apenas um palco e não um actor. A lei positiva proibe ou esconde a lei natural. A pedra cai porque o preso caíu (Sísifo). Continuamos a comportar-nos como «reis da criação», rodeados de rituais de sagração que hoje todo o poder exibe. O Reino e a Glóiria, de Giorgio Agamben, sobre a genealogia do poder ajuda-nos a colocar uma questão de peso: se o poder é, antes de mais, todo o governo, porque tem ele necessidade da glória isto é desse aparelho do cerimonial e litúrgico que o acompanha desde o começo? Afinal, o poder moderno não é apenas «governo» mas também «glória»: as cerimónias, as liturgias e as aclamações que consideramos como um resíduo do passado não deixam de constituir a base do poder ocidental. A análise das aclamações litúrgicas e dos símbolos cerimoniais do poder, do trono à coroa, da púrpura aos fachos romanos, permite construir uma genealogia inédita que esclarece a função do consenso e dos médias nas democracias modernas.

 

Aquilo que é hoje conhecido como «sciences studies» modificaram seriamente a separação entre o estritamente científico e factual e a moral, os factos e os valores.  Que distingue a ecologia da moral? Para nos tornarmos morais à maneira dos modernos, temos de nos abrigar do mundo e olhar as coisas como um espectáculo. Dizia-o Kant e repete-o Blumenberg. Não, a natureza não é um espectáculo a ver de longe. É a surdez que se torna o sinal da imoralidade. Lovelock ensina-nos uma outra perspectiva: ele não imagina Gaia dotada de sensações nem a entende como um animal ou uma bactéria. Gaia é uma metáfora: onde nos transporta ela? À questão política e moral das relações mútuas de tamanho, de dependência e de responsabilidades entre os humanos e o que os faz viver. Gaia não é um simples objecto nem um simples organismo. Não podemos sair da metáfora: para não cair no «objectivismo» ou no antropomorfismo. É preciso juntar políticos, cientistas, ecologistas e moralistas para discutir a articulação dos nossos diferentes apegos. Latour tem razão: «Nous ne voyons jamais que nous mêmes, la parole des hommes débat indéfiniment du crime et du châtiment»[14]. Não temos de divinizar os astros para experimentar em nós essa constrição essencal à nossa station terrestre, aos nossos desastres, ao nosso sentimento do espaço em geral que é a abóbada celeste. O céu abarca tudo: vê-nos nascer e morrer. Em último caso, vivemos todos sob o olhar do céu. «Não há nem lugar, nem vazio, nem tempo fora dele», escrevia Aristóteles[15]. Bem conclui Félix de Azúa quando escreve: «La imposibilidad de vivir en la tierra amputrada de su cielo y de su infierno aparece con cegadora claridad; el espectáculo de estas hormigas ebrias de petulancia. Cinismo y desolación es estimulante. Hoy hay luna llena»[16]. Porque não falar então do céu e da terra como se de um ambo se fala? Porque não começar a falar de um novo iluminismo e do conhecimento científico como valor cultural e  civil?

 

José Augusto Mourão

 

Bibliografia

Aristote, Du ciel I, 9, 279a, trad. P. Moreaux, Paris, Les Belles Lettres 1965.

A. N. Whitehead, Le Concept de Nature, Paris, Vrin, 2006.

D. Rel, II 1763-1993 – J. Ries (dir.) Traité d’ anthropologie du sacré, Paris, 1992.

 Émile Hache et Bruno Latour, «Morale ou moralisme? Un exercice de sensibilisation», in Raisons Politiques, nº 34, mai 2009.

Félix de Azúa, «Lo que queda del cielo», in Salidas de tono. Cinquenta reflexiones de un ciudadano, Anagrama, 1996, p. 45.

 Félix Duque, Filosofía para el fin de los tiempos, Akal, Nuestro Tiempo, 2000, p. 119.

 Guido Ceronetti, «Thérèse d’Avila entre ciel et terre» in  Le lorgnon mélancolique, Albin Michel, 1990, p. 92.

Jacques Fontanille, Sémiotique et littérature, Paris, PUF, 1999.

Maurice Merleau-Ponty, La Nature, Notes, Cours du Collège de France, Paris, Seuil, 1994

Michel Weber, «La vie de la Nature selon le dernier Whitehead», in Études philosophiques, Juillet 2006-3, Paris, PUF.

Miguel Torga, O Senhor Ventura, Lisboa, Dom Quixote, 2007.

M. Régis Debray, Le Monde des Religions, mars-avril 2009.

 


[1] Emanuele Severino, Pensieri sul Cristianesimo, BUR rizzoli Saggi, 2010, p. 104.

[2] Alessandro Carrera, La consistenza della luce. Il pensiero della natura da Goethe a Calvino, Feltrinelli, Milano, 2010, p. 156.

[3] M. Merleau-Ponty, La Nature, Notes, Cours du Collège de France, Paris, Seuil, 1994, p. 160.

[4] A. N. Whitehead, Le Concept de Nature, Paris, Vrin, 2006, p. 68.

[5] Ibidem.

[6] Michel Weber, «La vie de la Nature selon le dernier Whitehead» in Études philosophiques, Juillet 2006-3, Paris, PUF, p. 397.

[7] «Miguel Torga: l'office pour ‘un dieu de terre’», Fondation Caloust Gulbenkian, Centre Culturel Portugais, Paris, 1984.

[8] Jacques Fontanille, Sémiotique et littérature, Paris, PUF, 1999, p. 166.

[9].Miguel Torga, O Senhor Ventura, Lisboa, Dom Quixote, 2007.

[10] O Senhor Ventura, p. 124.

[11] G. Didi.Huberman, L’homme qui marchait dans la couleur, Paris, Minuit, 2001,  p. 33.

[12] Karl Barth «Esquisse d'une dogmatique: le Ciel et la terre», Delachaux et Niestlé, 1950, p. 56-61.

[13] James Lovelock, La revanche de Gaïa: Pourquoi la Terre riposte-t-elle et comment pouvons-nous encore sauver l'humanité?, Paris, Flammarion, 2007.

[14] Émile Hache et Bruno Latour, «Morale ou moralisme? Un exercice de sensibilisation», in Raisons Politiques, nº 34, mai 2009, pp. 143-166.

[15] Aristote, Du ciel I, 9, 279a, trad. P. Moreaux, Paris, Les Belles Lettres 1965, p. 37.

[16] Félix de Azúa, Salidas de tono. Cinquenta reflexiones de uno ciudadano, Anagrama, 1996, p. 458.

 

Fonte: Conferência proferida no dia 30 de Maio no Centro Cultural de Benedita (Alcobaça) integrada no IX Colóquio Internacional de Discursos e Práticas Alquímicas; Internet, www.harmoniadomundo.net (1/6/2010)

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Natal 2008

 

 

esperamos todos

o dealbar de um rosto

a aparição de outra coisa

entre o chão de limos e o rumor dos freixos

 

 

esperamos

às portas fechadas do mar

a onda favorável que nos leve ao outro lado

o sopro redentor

o expansivo meio em que a alegria nasce

 

à espera do fulgor estamos

colados ainda às sebes do negrume

às lívidas camas dos hospitais

que as bocas de sombra entredevoram

 

esperamos o impossível voo

a matéria dos anjos que não desertaram

e dão ao corpo o transporte

para além do peso e da cinzentez das horas

 

esperamos

o fim das prescrições sem nome

a cal em que o desenho dos seus pés se inscreva

e o seu calor nos toque

 

solte-se a garganta enfim

das foices de silêncio que a cercavam

e o teu Nome nos cubra da luz

que se faz carne

e traz  no seu bojo nascimentos

do mais fundo da noite do mundo desejadosJ

 

                                          José Augusto Mourão

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TODOS OS SANTOS

 

A santidade é o mais forte de todos os sentimentos verdadeiros por ser uma alegria que rejubila com a alegria que se aprofunda, para além de qualquer contrariedade ou perturbação. Quem deseja ainda ardentemente vestir-se de sanctitas? Quem acredita na sensualidade do invisível?

 

Falo de um afecto, não de uma peanha, falo da “alegria que nasce em nós da alegria que o outro sente” (Llansol). Falo da festa misturada de luto e de alegria, de dor e de felicidade como tudo o que é eterno. Falo da alegria da linguagem que os textos de hoje nos doam, por mais enigmáticos e paradoxais nos pareçam. "Felizes os que sofrem": a co-pertença do sofrimento à alegria é paradoxal. A famosa distinção entre tristeza e alegria é bem mais poderosa do que a que vingou: opressão ou liberdade. A alegria torna-nos sempre livres, enquanto a liberdade nos pode tornar tristes ou não.

 

Esta é a festa de todos os santos e de todos os fiéis defuntos que morreram no amor eterno de Deus. Esta é a festa de todos os santos anónimos que continuam a erguer o mundo: quem não encontrou na vida o amor, a humildade, a bondade e a fidelidade que os santos irradiam? Nem sequer na mãe a quem chamamos “santa”, sempre calada e abnegada, ou no pai, sempre tão firme e doce?

 

A santidade é o impensado do nosso tempo, como a morte ou a graça. Apesar dos inúmeros processos de canonizações a correr. "A santidade é uma diferença. Emerge algures, na espessura das vidas. Será perceptível ou não. Exemplificável ou não. Depende da organização e do seu pólo agregador. É este que mede, avalia, aprecia e tipifica a diferença" (Augusto Joaquim). Esta vida partiu para as extremas do humano. Vai Ter de produzir uma diferença real. Os antigos diziam que havia um cheiro inconfundível. A santidade difundia um odor forte, sem ser inebriante, nítido sem ser cortante, persistente sem ser enjoativo. Era o seu modo de estabelecer a diferença real. Não seremos capazes de estabelecer uma diferença real entre a intrujice e a bondade, a hipocrisia e o sentimento verdadeiro?

 

A "santidade" secularizou-se, como tudo o resto. Conserva a virtude de agir por substituição: os heróis do nosso tempo são estrelas do cinema na intimidade, desportos radicais, modelos anoréxicos e lisos, o ouro e o brilho de ser conhecido, visto, publicitado. Essa é a santidade do ídolo, do atleta ou da estrela a que sacrificam as multidões. A graça que discernimos no rosto do santo é a graça do ícone litúrgico, eclesial, de uma realização do mundo – o que chamamos o Reino de Deus. Porque a beleza do santo não lhe pertence. A luz que o ícone lhe reconhece vem-lhe de um outro. Pulchritudo boni ou pulchritudo Dei in homines diffusa splendor sanctitatis.

 

Que diz o Cordeiro, de pé, investido de poder, cercado de uma corte de eleitos? Que diz este herói marcado pelo combate de várias cruzes? Diz ele que a testemunha vem marcada pela paixão de um combate, que arriscou a vida em função do horizonte das Bem-aventuranças, que resistiu ao amolecimento de que padecem todas as formas de vida. Que mais diz o Cordeiro? Que as nossas verdades, circunstanciais, são apenas as verdades dos nossos interesses, da nossa cegueira, das nossas expectativas e tendências. Que o Livro não é o nosso espelho, mas a nossa confrontação e desmascaramento. Que a marca da imolação subsiste como aparência, como traço de passagem da vida à morte.

 

Que mais diz o Cordeiro? Que a pátria da criação vem do futuro, que o futuro é uma visão; aprender a ver obriga a saber sonhar. Que a incerteza provoca também a excitação feliz da multiplicidade dos possíveis. Que o sonho figura o tempo da liberdade. Que mais diz o Cordeiro? Que o Deus do AT. e do N.T. introduziu na História a dinâmica do "Novum", a impaciência dos limites e o combate sempre recomeçado contra a paralisia das ordens estáveis do eterno retorno do mesmo. Que o mundo das Bem-aventuranças não é o mundo maravilhoso e liso do irreal que consola. Que a utopia cristã se chama esperança, urgência de conversão e não futurologia. Que mais diz o Cordeiro? Que o nosso estatuto é o de filhos e que só Deus é santo.

 

Do monte dos macarismos soam palavras que só os loucos dizem entre si, irrisórias, duras para quem leva uma vida dilacerada: "Bem-aventurados os pobres, os que choram, os que têm fome e sede". Quem estranhará a acusação antiga de que o cristianismo conduz à efabulação do além, ao Céu vazio que é o céu dos pardais? Porque há a realidade crua. Há a morte à porta contra a qual nada se pode. Há uma revolução informática em curso que vai acelerar e rever conceitos como o do emprego e trabalho. São as pequenas e médias empresas que geram empregos. "Quanto aos excluídos, vou ser muito directo: estão destinados a morrer" (José Tribolet).

 

A Vida é invisível, invisível no sentido em que de facto - a dor, o inebriamento - inevitavelmente se frui, fora do mundo, independentemente de qualquer ver (M. Henry). Não se trata, pois, de uma oposição entre o visível e o invisível ou entre duas formas de realidade. Para o santo de Deus, Jesus, o Samaritano não estava imerso nos sonhos diáfanos da "bela alma" quando se debruçou sobre o homem coberto de sangue para ao socorrer e cuidar levando-o para um albergue. Como podem as sete obras de misericórdia corporais afastar-nos do mundo? Como não construir hospitais em tempos de barbárie? Como não cuidar dos feridos em tempo de guerra? Tanta mão invisível que dá comer a essa multidão de mendigos que dorme ao relento sem que o comum do cidadão se incomode. Não são esses os santos dos nossos dias, invisíveis, como o amor é invisível?

 

As Bem-aventuranças não instituem a crítica sábia das nossas certezas ou felicidades. Elas circunscrevem o outro lugar que o nosso coração habita. A bem-aventurança se não é deste mundo, deve necessariamente habitar neste mundo. É em nós que a Cruz faz a sua morada. Os que choram, continuarão a chorar: Deus é alguém que se faz próximo daquele que chora. Deus presente, quer dizer retirado, não na "figura da morte", mas no rosto dos mortos - dos exterminados. Deus não tem medo do pobre porque é pobre. Deus não se esconde.

 

Os santos lembram-nos, não o que somos, mas, drasticamente, o que deveríamos ser. Eles propõem uma imagem familiar do sagrado. A sua presença na cidade ou nas extremas é poder de contestação e de contradição: política, social e onto-antropológica: uma "outra" forma, específica, de ser homem e mulher. O santo e o pecador são homens e o primeiro índice de uma humanidade em caminho para a sua realização é a certeza aguda duma solidariedade com o pecado de todo o homem. O santo e eu somos homens; ele dá testemunho da humanitas communis e da humanitas perfecta. Imitadores de Deus, que eles nos transmitam aquilo que os tornou tão próximos dele e de nós que nos reconhecemos neles, nossos irmãos comuns. A luz tabórica que brilha no rosto do santo vem do seu futuro e do nosso. Eles são exemplo da melhor humanidade do passado e projecção da melhor humanidade futura. Que a sua luz ilumine também o nosso rosto, agora do Monte das Bem-aventuranças.

 

LISBOA, 1.11.2003

 

José Augusto Mourão

 

Fonte: www.triplov.com/ista/editorial/santos.html

 

 

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RECORTES DE REFLEXÃO

 

Passagens recolhidas em ensaios da autoria de José Augusto Mourão

 

                                                                                                  Selecção de Teresa Ferrer Passos

 

 

"A hiperficção é hoje um dos meus mais intensos labores, mas os textos para música litúrgica, a homilética, a investigação na área da cultura ocupam boa parte dos meus dias. O meu maior prazer vem daquilo que partilho com quem se preocupa com as coisas deste mundo e do outro que não vemos. Não perder o anel, esse é o desígnio. O resto é literatura."

 

 

"Não há apenas um mundo, nem apenas um modo de comunicar: o múltiplo está sempre a reproduzir-se. O demótico da comunicação é uma multiplicidade não hierarquizável: releva do puro movimento da palavra, do ethos enunciativo. A palavra é, de raiz messiânica."

 

 

"O futuro é fruto do Vem que a voz incarna. O ethos discursivo não denuncia apenas de um acto ou de um agir, seja ele da ordem da linguagem ou da comunicação. Releva sobretudo de uma disposição, que é um modo de ser ou um estado de alma em que nos mergulha a nossa atitude em relação àqueles de quem se fala ou a quem se fala quando tomamos a palavra."

 

 

"Deus vem de Deus. Mas Deus vem a nós. O nosso desejo é desejo de Deus na fé. Se o Outro é inacessível, não se revela nem se deduz a partir do conhecimento dos outros; mas se Deus é próximo, revela-se como aquilo sem o quê o conhecimento que tenho dos outros e eles têm de mim nunca me abriria à Verdade que fala em nós. Deus revela-se na proximidade da origem, que é a da comunhão, que me permite que me reconheça nos outros e os outros se reconheçam em mim.»

 

 

"Dê-nos o Sopro de Deus a graça de adivinhar, de pressentir a sua presença naquilo que passa e na promessa. O deserto é só passagem se sabes escutar, descobrir o que és de facto e o que Deus é para ti: advento. Deus te tomará pela mão e fortalecerá as tuas mãos fatigadas. Pede-lhe como Moisés que ele venha caminhar a teu lado, ou à tua frente, e o teu deserto florescerá porque a esperança é fértil e florida."

 

 

"Tudo está a mudar. uma nova ecologia política está a nascer. A Internet, o genoma, a clonagem, a globalização, contradizem hoje, mais do que nunca, a sabedoria do Eclesiastes."

 

 

"Interroguemos o silêncio desta hora: que experimenta Cristo na Cruz senão o silêncio, a ausência daquele a quem chama Pai, antes de ir ao seu encontro na manhã da ressurreição? Que experimentam os discípulos no caminho de Emaús senão a ausência daquele que antes os guiava? Cristo salva-nos «quebrando o seu ceptro solar». Retira-se na hora em que podia dominar. Também nós temos de experimentar este perigo da ausência de Deus, experiência moderna por excelência. Imitar Cristo é recusar impor-se como modelo, fazer tudo para não ser imitado."

 

 

"Entrámos em plena ciberantropologia da Desincarnação, na procura de uma realidade pós-humana através dos recursos da tecnociência. (...) Nesta revolução cultural, o ciberespaço é a extensão técnica do mito da liberdade, da democracia, da individualidade (e do tribalismo). Afinal os mitos não morrem, apenas se transformam. Aquilo que julgávamos extinto reaparece, reposiciona-se em configurações de co-presença nunca antes vistas."

 

 

 

"Um mundo desencantado é uma natureza que deixou a Natureza, um simples espaço que se explora e se conhece através do cálculo. É uma sociedade que não remete já para um mundo transcendental, mas para uma compreensão laicizada da vida social e política."

 

 

"A comunicação alçou o que era considerado crime, ao estatuto de «crime perfeito», espelho e aparelho ideológico que serve para anestesiar a inteligência e a vontade, através da inoculação de falsas necessidades e para esconder a miséria do mundo sob os véus da estética."

 

 

"O que não vejo de mim mesmo expõe-se ao outro. Aquilo que não vejo de mim mesmo expõe-se a priori ao outro. Se há algo que não somos é folhas ou ecrãs. «Écran» designa na língua francesa, no século XIII, um pano que servia para proteger do calor do fogo. No século XIX designa uma tela branca onde se projecta a imagem dum objecto. Hoje, a nossa pele é um ecrã que regula a realidade que somos e aquela que a tecnologia sugere."

 

 

"Muito mudou e muito nos mudou, na passagem da comunicação à logosfera, depois à semiosfera e agora à videoesfera. O paradigma comunicacional infligiu de facto uma quarta ferida à humanidade, depois de ter descoberto que não está no centro da terra, que se inscreve na linha animal ou que o inconsciente a move."

 

 

"Jesus chama a atenção para uma componente de origem, um mapa dado à partida e outro que diz o termo. O papel dado aos discípulos situa-se entre estes dois pólos. O sal é precioso, nada o poderá substituir, enquanto a luz é uma possibilidade que se tem para chegar à glorificação do pai. A teologia é uma fotologia: a fonte da luz vem do coração, do dentro, do espírito, não do mundo. Depois de «vós sois o sal da terra», é dito, no mesmo movimento «vós sois a luz do mundo». Não nos é dito: «vós sois a paralisia do sentido», «os abortadores de tudo o que nasce», mas antes: «vós sois o sal», a reorientação do mundo para deus, o juízo crítico, a iluminação interpretativa."

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ONDE VAIS, DRAMA-POESIA ?

 

O Fulgor é Imóvel

(capa do livro de J. A. Mourão

 em torno da obra de Maria Gabriela Llansol,

Ed. Roma, 2004)

 

 

1. A lógica que rege o discurso académico é linear, hierárquica, separável, carceral. À semelhança do pensamento de Platão, que era comandado pela hierarquia do logos e pelo temor dos transvio ou do derrame. "Os formadores e os construtores não querem uma comunidade humana em simbiose com o sexo da paisagem. Excluem a voz do vagabundo. Desprezam os poetas", escreve Maria Gabriela Llansol (p. 47), que não quer ser vista como escritora do fantástico, do romance histórico ou de ficção científica. Platão anatematiza a escrita pelo prazer que provoca, pela leviandade que acarreta, pela disseminação que comporta. Como praticar então uma escrita menos preocupada com o sentido e mais centrada no movimento? (...)

 

4. "A literatura está a morrer", escreve Maria Gabriela Llansol (p. 264). A que luz se escreve este enunciado? As relações semânticas entre textos são provavelmente infinitas. Em último caso, todos os textos estão ligados uns aos outros. Se o texto constitui o produto textual da prática generativa, o intertexto constitui de certo modo o produto textual da prática interpretativa. O enunciado da guardiã do texto, como a si mesma Llansol se chama pode ser lido à luz do intertexto que concerne a anagnose na sua unidade e as suas interacções, no interior de uma entidade ainda mais global, que cobre teoricamente toda a produção interpretativa duma época. Se uma palavra se tem de sitiar num texto antes de podermos determinar o seu sentido, também um texto tem de ser colocado no contexto da análise de um leitor, uma entidade (inter)textual, a sua anagnose, antes de poder ser plenamente analisado. (...)

 

11. Gabriela Llansol diz que não inventa a escrita: "Eu re-nasço dela, e, escrevendo, re-sisto, re-existo, na minha forma singular de existência" (p. 211). A autora fala do que a escrita vê. E que vê esta escrita? Renascimentos, fulgurações. A escrita, como a comunidade dos legentes são seres por vir. A escrita, avançando, tateante e meio cega, imprevista, tão pronta para a rasura como para a jubilação do definitivo, serve pelo menos para fazer perder ao inerte o seu hábito de vida conformada com que o que está. A leitura segue um caminho já traçado, que pode retomar, que frequentemente antecipa. Trabalha sobre o que já lá está - “é uma criação dirigida”, diz Sartre.

 

12. Nas palavras de Gabriela Llansol: "as palavras são vivos e não instrumentos, movimentos de poder e de vibração que transformam as coisas em formas, rodeadas de pontos mortos" (p. 82). O texto está sempre ameaçado de des-texto, como a criação de des-criação. Nascer significa vir numa carne. Todo o vivo é carne. O dualismo alma vs corpo não concerne o homem originalmente compreendido como um vivo. O homem ignora o dualismo. João compreende Deus como a Vida: "E o verbo fez-se carne". Impressional e afectiva. Carnal e invisível. O Deus cristão não é o deus grego, "impassível", longínquo, inabitado, vazio. A "Transcendência designa a imanência da Vida em cada vivo" (M. Henry, 2000: 176). (...)

 

17. Aí está de novo convocada a comunidade mística que a pratica desta escrita "cria". O texto que Maria Gabriela Llansol pratica "cria" seres futuros, que não são projecções imaginárias, mas algo a que chama "reais não-existentes": "inesquecíveis seres que estão aqui e estão por vir" (p. 198). Para fugir ao drama da egologia. Para exorcizar a escrita sobre a monocultura do humano. Para se conjugar com o corpo místico a que refluem Rimbaud, Dickinson, Musil, Holderlin .Para não romper nem com Dionísio nem com o Crucificado que fulguram ambos o encanto do mundo e a misericórdia - "a única palavra que a morte é realmente incapaz de corromper" (p. 233). Para dar ao texto as asas que outrora pertenceram ao anjo, matéria leve, metamórfica, ubíqua. (...)

 

José Augusto Mourão

Fonte: Internet, www.TriploV.com

 

 

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PREFÁCIO de Frei José Augusto Mourão ao romance Planeta Joyce 8,

1ª edição, Harmonia do Mundo, 2007

 

 

 

     "In many local literary communities, or in communities constituted through a common literary language, the question of globalisation is all too often seen by some writers as the battleground of important national  discursive identities, national traits, values, traditions and cultural borders against an invading ready-made, consumerist and integrative culture. Within this framework, globalisation frequently becomes synonymous with a commoditized technological and ideologically unifying civilisation conveyed through English language (A. Pennycok, 1994)."

 

 

  Parece que há ainda um conhecimento em busca de si próprio e sinais minúsculos encadeiam-se,  de modo labiríntico, para o descobrir"                    

(Teresa Ferrer Passos, Planeta Joyce 8, pág.21).

I

Todas as utopias dizem isto: o futuro já começou...neste mundo. Se não na realidade, pelo menos na ficção, quer se lhe chame científica, fantástica, de aventuras ou de viagens. Os entendidos falam de “soft fiction” ou “hard fiction”, “anti-realist metafiction” para caracterizar as diversas formas da arte da simulação na literatura, a distinguir, por exemplo, dos jogos de computador: os labirintos podem ser ficcionais mas os jogos de labirinto são reais. Ray Bradbury, J. G. Ballard, Arthur C. Clarke, Ursula le Guin, Philip K. Dick, William Gibson são alguns dos nomes que emergem do confronto com a técnica e que propõem novos mundos ao mundo já cartografado do nosso horizonte cognitivo. As premissas do evolucionismo técnico dominam os jornais e os documentários de TV. O ciberutopismo, a web-art, a bio-arte, a arte transgénica são formas de agenciamento do simbolismo que anunciam tanto a desmaterização das obras como o nascimento do artista como “know-worker”, ou como programador. A tese de B. Stiegler ganha, neste contexto, uma real pertinência: “A nossa época caracteriza-se como tomada de controlo do simbólico pela tecnologia industrial em que a estética se tornou a arma e o teatro da guerra económica. Daí a miséria em que o condicionamento se substitui à experiência”. Donde a obrigação da luta que se trava em várias frentes. A ficção científica é uma dessas frentes.

 

Deixámos há muito o mundo da Renascença, as utopias perfeitas, geométricas e antropocêntricas. Calvino, esse “Ariosto dos utopistas”, sabe que desde a revolução industrial, a filosofia, a literatura e a arte sofreram um trauma de que ainda não recuperou. As máquinas estão mais adiantadas do que os homens. A era “pan-mecânica”, ou procura a salvação no esteticismo (Baudelaire), ou aceita a realidade resgatando-a da desumanização. Robbe-Grillet e o seu Labirinto apontam nesta segunda direcção, objectual, não antropocêntrica. Calvino faz um diagnóstico certeiro da situação: “O que domina é a forma do labirinto: o labirinto do conhecimento fenomenológico do mundo de Buttor, o labirinto da concreção e estratificação linguística de Gadda, o labirinto das imagens culturais duma cosmogonia mais labiríntica ainda em Borges”[1]. A problemática da geração de texto faz eco a uma outra questão, antiga, da intrusão do “maquínico” – no sentido de tratamento não-humano – tanto em literatura como no conjunto dos instrumentos e sistemas de informação.

 

Dizia Mattelart que todo o objecto é um recorte particular de uma determinada configuração comunicativa[2] - alusão clara ao Design, que opera mais com a tecnologia do que com a técnica, e que é percebido como “alegoria da transformação possível”. “No quadro do biopoder, o protagonismo no interior da cultura do projecto é desempenhado pelo Design, por um Design Total que projecta objectos, sistemas de objectos e interfaces, progressivamente auto-referenciais, sem exterior, e que vão continuamente regimentando a vida” (José M. Bártolo). O protagonismo das infraestruturas informáticas em detrimento das infraestruturas materiais anuncia uma redefinição do espaço da comunicação. O conexionismo levou a ultrapassar as operações o espírito a puro cálculo. Toda a imagem numérica é interactiva. Para certos autores o pós-humano representa, no centro da articulação entre evolução biológica e evolução técnica, a tendência onde a actividade levada a cabo pelo homem deixa antever não só uma transmutação ontológica da sua condição, mas também o desenvolvimento de novas formas de vida que rompem a tradicional fronteira entre o natural e o artificial. E. Couchot fala de “segunda interactividade”, por analogia com a “segunda cibernética”, para caracterizar comportamentos maquínicos mais próximos dos comportamentos humanos[3]. “Enquanto a primeira interactividade se interessava pelas interacções entre o computador e o homem, num modelo estímulo-resposta ou acção-reacção, a segunda interessa-se mais pela acção enquanto guiada pela percepção, pela corporeidade e pelos processos sensório-motores, pela autonomia”[4].

 

João Barrento tem falado de uma nova categoria em que teria encontrado a ficção portuguesa: o Realismo Urbano Total - um tipo de literatura que tem por missão contar uma história "com pessoas iguais às pessoas que a gente conhece", segundo os "modelos da vida tal como ela é", e com uma forma de escrita que se limitaria a transpor a expressão quotidiana e que se caracterizaria acima de tudo pela total falta de estilo. Estaríamos assim no lado contrário daquilo que Mallarmé considerava ser a literatura - "a universal reportagem". Há formas de localismo que se aproximam de formas de "Terceiro-Mundismo". A insistência na 'pureza local', de acordo com o argumento convincente de Arif Dirlik, "pode bem servir como desculpa para um revivalismo reacionário com as mais antigas formas de opressão (A. Dirlik, 1996: 36). Porque a melhor literatura foi sempre aquela que tem como casa o mundo, e que melhor articulou a memória local e global, permitindo que o local se torne global na sua capacidade para representar as múltiplas dimensões da existência humana.

 

II

Teresa Ferrer Passos escreve para lá desse Realismo Urbano Total, consciente de que uma nova ecologia cognitiva está às portas. O seu gesto poético realiza como que um novo Convivium em que comparecem a ciência, a literatura e a filosofia. Intervêm neste Planeta Joyce 8 tanto um planeta de formação recente (Planeta Joyce 8, p. 47) como o matemático de fractais em dispersão H30, como o físico de partículas do micro-tempo R4, numa mistura de vozes verdadeiramente impressionante. A associação entre novas tecnologias e progresso unifica vozes muito diversas: negócios e escritores da imprensa diária; governo e a arena do espaço público, manifesto pós-modernistas e ciberfeminista, televisão e documentários científicos; e o mais espectacular entretenimento oferecido pela ciência ficção. É preciso dar fala ao tempo, ao malmequer, à estrela, à carta C2. Devolver à experiência o seu ritmo, o seu peso, o seu espírito crítico.

 

Teresa Ferrer Passos propõe um cenário em que várias figuras encarnam essa luta contra a globalidade e contra a vigilância superior (Planeta Joyce 8, p. 33). Daí a revolta anunciada de cada um dos Estados da Revolta Unitária (Planeta Joyce 8, p. 81) contra a prepotência do poder mega-tecnológico (Planeta Joyce 8, p.152) por parte das vítimas da globalidade. Como é sabido em narratologia, não há programa, estratégia ou acção senão como colmatagem de uma falta, como reparação de uma falta. “As populações do Império Global” perderam as antigas qualidades neuro-mentais (Planeta Joyce 8, p.153). O amesquinhamento da “humanidade”, a abulia, é por demais visível. O Planeta Joyce 8 alerta para algo que se está processando: as tecnologias de ponta estão a alargar o abismo entre os info-ricos e os info-pobres. Um dos efeitos mais nefastos das novas tecnologias é a desmodalização dos sujeitos. Agir é decidir. De onde vem essa decisão? Do Planeta Joyce 8. É ele o portador de uma intenção revolucionária contra o núcleo mais importante da rede ZN4. Vejamos as personagens: a Estrela 4000 b é a personagem que dialoga com a ZN4, o ecrã mágico da rede computacional, o Tempo 01, e a Carta C2, a que se junta o Cometa kk Down, o biólogo N7. Nisto, a autora compreendeu perfeitamente que a arte em geral é aquilo que tenta temporalizar de outra forma, que faz com que o tempo da consciência do eu seja sempre diacrónico e que liberte o imprevisível da sua singularidade num nós através da mediação da linguagem como potência.  

 

As tecnologias electrónicas são responsáveis pela “implementação das “sociedades de controlo” e pela criação do conceito de life time value forjado pelo marketing para concretizar ao máximo a exploração industrial e sistemática da experiência individual, transformando-a num condicionamento integralmente controlado”[5]. Trata-se de uma guerra. Os cidadãos cibernéticos, a população que vive sob o controlo do Império da globalidade e que está a provocar é convocada para combater a uniformização mental a que está a ser submetida: “Mas o que me atormenta mais é a insensibilização generalizada... que ninguém se apercebe de que o ser humano se transformou numa tecné-anti-mentalis” (Planeta Joyce 8, p. 139). O perigo é a uniformização mental dos seres. A Estrela Pólux 52 coloca assim esta questão: “as sociedades do Império só consomem aquilo que não tem interrogações, porque só entendem o excessivo da visibilidade” (Planeta Joyce 8, p. 160). A questão é a do habitar, ligada a uma outra: a do controlo e da domesticação. No Império da globalidade despreza-se o valor da liberdade e “Cada vez há menos espírito crítico” (Planeta Joyce 8, p. 136).

 

Escrever é singularizar-se. Teresa Ferrer Passos escreve em nome da criatividade, contra a imitação, a literaturazinha de bairro que se lê. Não faltaria quem a acusasse de utilizar a metáfora ao serviço da ciência, a física neste caso: “E nas palavras todas direcções são espaços vazios em que buracos negros se acumulam e, afinal, até estes só podem ser matéria viva, movimento...” (Planeta Joyce 8, p. 25). Mistura-se a alquimia das palavras com a química e a física: o silêncio como uma luz de cinzas ou uma intocável esfera da vida. Contra o silencio, o ecrã. A atracção já não vem da memória do fogo, mas do ecrã. O resto é efeito de diálogos de sons, de vozes, de imagens. É interessante que a autora compare o ecrã a um templo, como se a multidão esperasse a epifania de um deus. Aqui o silêncio é absurdo.

 

Embora persista a noção de “verdadeiro eu”, ainda nimbada da carne que a reveste, a nova tecnologia abriu as portas para novas subjectividades radicalmente desencarnadas. É certo que os romances de Gibson nos chegam carregados por influências tão diversas como os romances clássicos: Frankenstein, The Big Sleep, a literatura vanguardista representada por William Burroughs, Thomas Pynchon e Kathy Acker, a ficção científica de Philip K. Dick, Michael Moorcock e J.G. Ballard, as análises culturais de M. MacLuhan, Baudrillard, Deleuze e Gauttari, a filmologia de Cronemberg, a música de Velvet Underground, etc. Nos escritos de Gibson (1984: 12) percebe-se um certo desprezo descontraído da carne que é vista como “the meat” (“de talho”) por aqueles que estão dependentes da “vida” na “matriz”. O discurso de desencarnação tem um lugar central quer nos escritos do romancista “cyberpunk” William Gibson ou de Marge Piercy, quer da feminista Donna Haraway.

 

Ora, é contra a desencarnação que Teresa Ferrer Passos escreve. Contra o roubo da palavra e em nome da vigilância, contra aquilo a que chama o “espírito” ou o “mistério”. B. Stiegler, que escreve de um horizonte materialista, não reivindica, paradoxalmente, outra coisa. Não declarava Foucault, na lição inaugural do Colégio de França que era urgente “fazer uma análise materialista do imaterial”? O escopo da nossa autora parece ter sido atingido: a sua análise materialista do imaterial revela a miséria simbólica em que o Império nos afunda. O intelectual deve habitar o sítio duma arte exigente, resistente, intransigente, domínio em que não podemos nem retirar-nos nem propor soluções. Fatalmente ideólogos porque "todos embarcados"?

 

José Augusto Mourão

 


[1] Italo Calvino, Punto y Aparte, TusQuets, Barcelona, 1995, 113.

[2] La communication-monde. Histoire des idées et des stratégies, La découverte, Paris, 1991.

[3] E. Couchot, M.H. Tramus, M. Bret, « A segunda interactividade. Em direcção a novas práticas artísticas”, in  Arte e vida no século XXI, (org.) Diana Domingues, UNESP, 2003, p. 27.

[4] Op. cit, p. 32.

[5] Bernard Stiegler, De la misère symbolique I, Paris, galilée, 2004, p. 166.

 

 

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CURA-NOS

 

Cura-nos, Senhor

do temor e da incredulidade

da cegueira e da desesperação

da tristeza sem causa e do assombramento

do amor e das saudades

 

livra-nos pino do dia

em que te não esperamos

e pesada e inepta vai a alma

 

e que a asa da tua madrugada

nos acorde para o trabalho da fé

e a hora da compaixão que não tem hora

 

 

                                            José Augusto Mourão

 

 

Fonte: «Declinações», Internet, http://dominus.no.sapo.pt

 

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«O CAOS CULTURAL DA MUNDIALIZAÇÃO»

 

«A Nova Atitude»

 

(…)

 

"Originalmente, uma única Igreja concentrou em si mesma a totalidade e a particularidade: a Igreja mãe de Jerusalém, ou Igreja do Pentecostes. Dela nasceram as Igrejas particulares e nela se funda o carácter apostólico de todas. Para a Lumen Gentium as Igrejas particulares e locais, no plural, apresentam as mesmas características teológicas da Igreja universal que é communio ecclesiarum. Cada Igreja particular é chamada a ser católica, ou seja, sacramento de unidade de todos os seres humanos. A vocação católica de cada Igreja particular é um convite permanente a transcender o particularismo e a transcender-se a si mesma".

 

As expansões europeias inauguram a era da globalização. 1492 é a data-chave da queda do princípio genealógico. Não há melhor imagem do "globalismo" do que esta: S. Francisco (Salvador da Baía) olha para o Cristo, o pé em cima do globo. Como se sabe, o globo remonta à Idade Média árabe e mesmo à Antiguidade. Era o media através do qual aqueles que exerciam o poder se representavam a forma do cosmos e da terra. Aquele que tem poder deve saber a que se parece aquilo sobre que quer reinar. O primeiro mundialista foi sempre o papa. Hoje ainda, na Páscoa, o papa utiliza, para saudar a multidão, o duplo dativo urbi et orbi. Para ele o mundo é aquilo que se vê a partir de Roma - segundo uma óptica orbital.

 

A hegemonia monolítica do Ocidente começa a desintegrar-se. A Igreja sente-se hoje chamada a ser mundial, plural e culturalmente diversificada. Afastando-se de um estilo missionário do tipo "expansionista" e muitas vezes colonial ou colonizador, vai renunciando à "cultura do adversário" para dar lugar à "cultura do outro". Pelo seu carácter católico, sente-se capaz de convocar, estabelecer ligações entre o pluralismo dos povos. A Comissão Teológica USG tem uma percepção muito aguda dos desafios de uma época em mudança. Escreve essa Comissão: "Vivemos a nossa identidade cristã: a) na "diáspora" de uma sociedade em movimento e inovação; b) no "exílio" de uma sociedade em rede e profundamente interligada, na qual nos integramos como peregrinos a caminho de uma nova cidade; c) na tensão produzida quando nos sentimos sociedade civil, que se opõe às hegemonias económicas, políticas, ideológicas ou criminais".

 

O sentimento de perda do mundo é também o sentimento de uma perda de si. Donde a entropia romana: o mundo contraiu-se por influência do panoptismo católico. A ultrapassagem do mundo à grega produziu primeiro um regresso ao deserto; à romana, produziu a volta ao mundo. Roberto Blatt deduz do desastre do Segundo Templo dois sistemas de comunicação que caracterizam o cristianismo e o judaísmo. Diz ele: “enquanto que a versão cristã da tradição bíblica sobreviveu adoptando uma ideia nova, a de uma comunidade universal, ou humanidade; a judia, por sua vez procurou assegurar a persistência de uma única comunidade particular no interior do mundo global, extra-territorial. O resto. Quer dizer, o cristianismo e o judaísmo, ambos herdeiros da tradição bíblica, estabeleceram um modelo de controlo/descontrolo da comunicação no Ocidente, convivendo como centro e periferia. Para os judeus o livro torna-se o centro do mundo extra-territorial, evocando a realidade pedida. Para os cristãos, a ecclesia erige-se em instituição única, depositária exclusiva da mensagem bíblica e da doutrina definida. Congela-se o livro, reduz-se o plural da interpretação de que o livro é feito.

 

Herdámos restos, figuras de pobres, perdemos uma batalha. Ficou-nos o vazio, a virtualidade, o real a nomear. Ao racionalismo crítico reage desesperadamente o fundamentalismo, que coexiste com formas desarticuladas de questões e de respostas religiosas, não indemnes das recomposições das crenças que encontramos no hibridismo das seitas. Inquietude sobre a identidade, procura febril de certezas, crispação sobre um grupo "eleito" que se define por hostilidade com o meio, em torno dum guru.

 

Adoptaremos antes o ponto de vista de Maurice Blanchot: o homem é o indestrutível que pode ser infinitamente destruido? Daniel Sibony detecta um mal profundo no nosso mundo, distinto mas isomorfo daquele que fazem os que matam. Esse mal tem um nome: niilismo. Os criminosos  aniquilam aqueles que os incomodam; e os responsáveis, que deixam fazer, não mexem uma palha para assuntos que não podem "tratar". "No fundo, o niilista é aquele que nega quem não é ele, o que escapa ao seu quadro de funcionamento e aquilo que ameaça esta negação" (Sibony). O mal estar actual está em que os laços que serviam de referência simbólica desaparecem e são substituídos por laços totalitários, cuja forma mais frequente é o laço narcísico - estar ligado apenas a si, tribal - ou o seu substituto, o saber técnico. Ou o seu "mundo", a sua tribo e a sua religião.

 

 

                                                                                                                           José Augusto Mourão

 

Fonte: Internet, www.triplov.com/semas/jose_augusto/warjam.htm

 

 

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META-GLOSA SOBRE A ANUNCIAÇÃO[1]

 

 

"Wall Dreams"

pintura de Josephine Wall

 

 

 

 

“Ecrire, c'est écrire contre, comme ‘écrire tout contre'
et comme ‘écrire autre chose'”
(Paul Beauchamp)

 

«Un palimpseste, gratté et regratté, où Beatus ne reste pas l'objet
d'une rigoureuse philologie textuelle, mais devient un accélérateur
de questions et un prétexte pour passer du texte
à ceux qui ont été influencés par lui, même sans l'avoir jamais lu».
(Umberto Eco)

 

 

 

 

Podemos considerar os textos como objectos-valor, semióforos (Pomian), trate-se de valores práticos, estéticos, religiosos. A cultura é uma exteriorização da memória, uma forma de retenção. E os textos são a forma mais evidente da cultura ocidental, pelo menos. Os "textos sagrados" são textos que deixaram de funcionar como "discursos", mas que são antes figuras de um valor absoluto, figuras da Referência (P. Legendre), figuras do Destinador dum sujeito individual ou colectivo. O texto liga porque representa a Referência do laço social. Pode partir-se de uma teoria do laço para definir o "sagrado" (os textos sagrados): poder-se-ia definir como sagrado o que é para um sujeito um traço de definição, ou o laço que define um conjunto de sujeitos não apenas pela sua relação com um sistema de valores, mas pelo tecido da rede em que se enlaça.

Como é que os textos ligam sujeitos, como constituem eles sujeitos colectivos? A questão posta nestes termos retira ao sujeito a pretensão de estar diante dele como consumidor: o texto como figura manifesta o dever-ser do sujeito. A leitura é claramente um processo de individuação: cada vez que produzimos uma leitura modificamo-nos. Transformamo-nos. E a individuação psíquica é inseparável das formas psico-sociais de individuação. Somos animais de advento, processos inacabados. Só a morte é um processo de individuação acabado. O texto a acreditar confunde-se aqui com o "real" e a instituição que detém o texto fala no lugar do real, havendo como que uma "colagem" entre o enunciado do texto e a instância (transcendente) da enunciação. O respeito (vs profanação) do texto não é nem adesão à mensagem nem escuta de uma palavra, mas representação da instauração do sujeito.[2]

 

Outra proposta (pragmática): os textos são "sagrados" em função do conteúdo que transmitem e da adesão de um sujeito a este conteúdo. O crer solda aqui o "reconhecimento" duma adequação entre a mensagem proposta e o universo do saber/crer do sujeito receptor. Uma terceira proposta enfim, a partir de uma teoria da enunciação. O discurso faz laço, mas aquém das estratégias da persuasão. Se um discurso faz laço é porque um sujeito nele se torna simultaneamente "esvaziado" de um "demasiado cheio" de sentido e articulado à cadeia de um agenciamento de "figuras".

 

O laço não se confunde aqui nem com a análise dos objectos-valor, nem com a análise narrativa da persuasão (querer fazer crer). Quer dizer, há discursos ("literários", "sagrados") que pela sua capacidade figurativa constituem sujeitos enunciatários aquém ou para além das mensagens decodificáveis que veiculam e que fazem laço entre si. Não pelo seu valor intrínseco ("textos ditos sagrados"), não pelo seu enquadramento estratégico, mas pelo efeito da semiosis em que consiste a enunciação.

 

 

O tempo da leitura

 

O leitor descobre-se a partir da leitura: como sujeito, é um efeito da leitura [3]. A rigidificação dos modelos explicativo-interpretativos levou quase sempre ao imobilismo. Ora, o texto, embora escrito, não é completamente imóvel. As noções de dependência, estabilidade e interferência "mexem" com qualquer texto. A influência da física moderna sobre a crítica contemporânea é de algum peso para a não subestimarmos. A noção de "influência literária", mecanicamente entendida até há bem pouco tempo é "naturalmente" dependente de uma concepção expressiva e causalista da física clássica e do humanismo tradicional. A passagem ao paradigma formalista, relacional, ou ao conceito de causa à distância, marca a caducidade da noção ainda dominante na historiografia ou nos estudos literários. Longe vai o tempo em que se pensava o acontecimento literário como um processo exclusivamente produtivo e não um objecto de consumo, um efeito de paixão ou de modificação do sujeito leitor. Os conceitos físicos de massa/energia foram, indubitavelmente, de grande alcance para a compreensão do conceito de influência em termos modernos.

 

Quando se define o fenómeno literário como uma "dialéctica entre o texto e o leitor", como o faz Riffaterre [4], o texto e o leitor vivem em simbiose, como concentrações densas de massa-energia num campo intertextual. Não há "primeira leitura" absoluta, como não há "primeira noite" absoluta: cada leitura é, de cada vez, primeira. Quer dizer, o acontecimento literário não é um objecto fixo, mas um sistema em curso de produção, uma produtividade. A distinção clérigos vs leigos, produtores vs consumidores entrou em colapso. O ponto de vista do clérigo e/ou do crítico, figuras que no nosso imaginário estão associadas ao crivo na mão e à caça aos hereges, será sempre entrópico, doxológico. A vontade de objectividade traz escondida uma outra vontade: a doe poder. Entre receber passivamente o sentido ou deformá-lo subjectivamente, uma terceira via se nos oferece: a da interferência mútua dos respectivos campos. Texto-leitor-intertexto aparentam-se, portanto ao conceito de massa-energia da relatividade geral. O texto que há na sala é o texto da nossa representação, não há um texto no ar.

 

Que contrapor à imobilidade da letra e às volutas da crítica: a "restância" do poema, do vivo: o primado do espírito sobre a letra, a leitura infinita, a alegorese? Não será necessário distinguir performances de leitura (em número indefinido), das classes de performance que correspondem àquilo que Geninasca chama "práticas discursivas"? Que texto fala, sem o incêndio do leitor? Ou não é o texto apenas traço, esquecido na memória do tempo, exangue vaso que não soa? Como resolver a relação assimétrica que o diálogo hermenêutico, entre o texto e o leitor, instaura? Como interpretar, sem cair nem na "falácia da intencionalidade, nem na falácia da "objectividade"? O texto não fala, mas o leitor não pode fazer-lhe dizer o que quiser - o texto não é uma criatura do leitor, mesmo se depende dele para ser reconhecido como coisa textual, isto é, um sentido virtual.

 

Que haverá de comum a Nicolau de Lira e a S. Fish, quando o primeiro se refere à leitura "incorrecta" e o segundo a uma interpretação "inaceitável"? Que é que torna uma interpretação aceitável e uma outra incorrecta? Donde vem a dificuldade de ler? Da doxa, da do que ela tem um papel de legitimação da canonicidade discursiva e porque a canonicidade duma série textual supõe a existência duma instituição discursiva (Sarfati, 2002, p. 182)? Da bifacialidade do Livro (Ap.5,1), que tem um interior (sentido místico, espiritual) e um exterior (literalidade)?

 

A multiplicidade dos sentidos obscurece a inteligência. Mas os textos têm vários sentidos, de facto. Que fazer destes textos? Reduzir o sentido espiritual ao sentido literal, que é dado como fundante, norma normans? Privilegiar o sentido natural, desqualificando a leitura alegórica e a sua pertença ao canon, como fez T. de Mopsuéstia? Mas donde vem a necessidade do sentido único? Do sensus fidei? Mas não resultará daí uma anexação do sentido? Como partilhar então o dito de Gregório Magno, segundo o qual: Divina eloquia cum legente crescunt? [5]

 

 

Que é escrever?

 

P. Beauchamp tem uma resposta admirável: “celui qui écrit soulève une dalle. Le débat est celui de l'homme avec tout commencement et d'abord le sien propre : passer la barre de l'oubli ou la déplacer…Écrire ajoute aux paroles le noir de l'encre, ce noir qui fait tache avant de faire signe [6]. Escrever, como falar é expor-se, é arriscar-se. “Ècris un mot si tu l'oses”, escreve Apollinaire. E diante do escrito, a pergunta imediata é esta: quem escreveu tal coisa?, entenda-se, quem se atreveu a escrever isto? E diante do escrito, como diante de um grafito, ninguém pode esquivar-se a dizer: “fui eu”. Será um crime escrever? Afinal, no fim do Fedro, Sócrates trata da escrita para lhe mover um processo.

 

Escrever é retomar, como o estudante que revê os trabalhos de casa; como quem preenche algo que faltou dizer, escrever. Teresa Ferrer Passos arrisca, em Anunciação, uma palavra nova sobre as versões quadripartidas dos Evangelhos. A autora, podíamos dizer, a artista, escrevendo, desarruma uma ordem, um cânon, já existente, acrescentando ao já escrito uma outra forma, segundo a lógica do trabalho que modifica o mundo, alargando-o. Nós fabricamos signos e os signos fazem-nos. Este não é um livro sagrado, é um romance que conta a humanidade de Deus a partir do olhar de uma mulher, a escritora, primeiro, e intra-diegeticamente, a partir de Maria. Esse é o desafio maior desta obra. Não se responde a um romance com a teologia ou com a exegese.

 

O Natal, num romance, tanto pode ter sido numa gruta do Mar Morto como em Nazaré ou em Belém. Importa é o gesto que traz o sensível que a narrativa oculta. Arriscar é o que recomenda Fr. Agustín Salucio (1523) que escreve, no seu Avisos para los predicadores del Santo Evangelio, “bien que mirados los evangelios del año, de santos y de tiempo, se haga como un quinto Evangelio, de todos cuatro tomado, sin que le falte cosa notable de todos ellos y sin repetir notablemente lo ya dicho, son es cuando la misma lección se refiere en diversos días por alguna justa causa” [7].

 

 

Um quinto evangelho?

 

Uma religião que não aparecesse no horizonte do mundo sem o anúncio de libertação, não seria uma religião. O capital simbólico de uma religião vem-lhe do Messias que propõe. Por mais que a nossa sociedade técnico-industrial proponha um mediador neutro universal, plataformas abertas, protocolos; por mais que o desencantamento cresça. Até os mais lúcidos pós-modernos se deram conta disso e procuraram dissimular a sua descoberta por trás dos ecrãs de abstracção, como por exemplo, a “messianidade abstracta” inerente à linguagem, de que fala Derrida [8]. “Ele veio para libertar” (253) resume este livro. A figura do Messias está em todos os sonhos e visões que povoam Anunciação. A palavra é de si aberta à transcendência, é messiânica, como escrevi algures. A maior singularidade deste livro está, a meu ver, na reintrodução da carne como “gonzo da salvação” (Caro salutis cardo, dizia Tertuliano). Contra a desincarnação crescente, contra a retenção quaternária. Contra o gnosticismo crescente que até a IA promove.

 

 

O tempo da glosa

 

A Bíblia é uma escrita a ler. Que pode a narrativa evangélica, nas suas múltiplas versões, contra o fim das narrativas? O fenómeno da elasticidade do discurso põe em jogo a relação conhecida em linguística: expansão vs condensação. Releva desta elasticidade a construção dos resumos que supostamente nos dão, de modo abreviado, o equivalente de um longo discurso. O Beatus de Liébana, publicado em Milão em 1973, depois em França em 1982, na Franco Maria Ricci, em “Les signes de l'homme”, a partir do manuscrito do fim do século XI, é um manuscrito medieval espanhol do fim do século VIII, ilustrado com miniaturas e que comenta o apocalipse de S. João. A propósito, Eco publicou “Palimpseste sur Beatus”. Esse é um livro feito de glosas ou ilustrações, proliferações de outros textos gerados por um texto primeiro, paráfrases, adaptações ou interpretantes, para utilizarmos o termo de Peirce, de que o seu é o último.

 

Em que estado de espírito se deve colocar o leitor: visionário, filológico, ou ainda exegético, como se o sentido do texto fosse fixado pela autoridade da tradição? Teresa Passos glosa sobre uma glosa. O texto de Mateus é do género midrash, que tenta traduzir as palavras do Antigo no Novo Testamento, ligando assim, por meio da interpretação, a vida de Jesus ao corpo de textos em que o seu corpo lê e interpreta Deus, o mundo, o homem. Anunciação é um romance. Entenda-se um modo de dizer “como se”, sem que o fantasma do referente venha pedir contas pela veracidade do relato. E o “ser como” pressupõe um “ser com”, uma co-presença. “Se o cum designa o “semelhança” na imagem (o traço comum), que traduz a palavra como, denota também a “partilha” dum lugar (seja um espaço comum), que visa o prefixo co – ou a advérbio com [9]. A escrita não é apenas uma "arte demonstrativa": é uma arte de laboratório e de alquimia. Uma arte de ligações.

 

Este é um livro de ligações, de sobreposições de lugares e de personagens, que desrealiza (ou realiza de outro modo) a narrativa que nos habituámos a ouvir. A autora sabe, como nós, que não se lê nem se escreve para reter o que quer que seja da realidade – como se diz dum filho – mas para a perder na linguagem, que a recobre para lá das filiações, no acto de semear o fruto do que o sopro em cada um diz de escrever. O Evangelho não é de ninguém, melhor, é de quem o apropria e lhe dá carne.

 

A Rosa de Ninguém de Paul Celan é a melhor forma de devolver à Boa Nova a sua ressonância, o seu efeito de individuação. É preciso dizê-lo. Teresa Passos lê os Evangelhos sem querer explicar tudo, como nem Mateus nem Lucas o quiseram, sem qualquer preocupação de exaustividade hermenêutica. Ela sabe que a hermenêutica é uma opção interpretativa. E a sua opção é nitidamente “cordial”, “maternal” ou lírica. A sua leitura não é unívoca nem canónica. Este não é um livro à semelhança de A Paixão de Jesus Cristo, de Catarina Emmerich (1774).

 

A Paixão nunca é descrita. O género a que este livro se liga é, evidentemente, apocalíptico. Ora, num livro apocalíptico é difícil separar a escrita da visão. Este livro é um livro de visões. De interiores. Um palimpsesto. De dentro irrompe o mistério do nascimento, do amor que liga Maria a José, aqui uma personagem afectiva, tímida, que o medo e a inquietude e o não saber marcaram. À figura do “herói”, Jesus, opõe-se a figura do adversário, Herodes, que ocupa um lugar central no livro. Também as figuras do poder sacerdotal têm papel de destaque. E será do meio da figura emblemática do Templo que o mais prodigioso sinal de Jesus terá lugar: a ressurreição de Hazael (210). A atracção pelos Essénios, por essa facção de “puros” que cortaram com o fariseísmo mais oficial, é neste livro, um índice dessa fuga do lugar do poder que particulariza, impedindo a singularização. O poder não suporta os “misterismos”, nem os sonhos nem as visões. Porque esses são mundos que não conseguem gramaticar, controlar.

 

 

Coda

 

A nossa carne é a linguagem, e o Messias é a palavra, escreve V. Novarina [10]. A salvação do ser humano está no facto de ele falar, de ele ser um ser de linguagem, um ser político inscrito numa rede de palavras em que circula como numa praça pública. A figura emblemática de um tal lugar é a árvore de palavras que se encontra nos países de África. Navarina escolheu a amendoeira como a árvore por excelência: a Amygdalus, que nos lembra que as nossas amígalas tiram o seu nome da sua forma em “amêndoa” (em grego amugdale, em hebreu, shaqad, do verbo shoqéd que quer dizer “vigiar”). Os seus frutos têm a forma de olhos: vejo um ramo de “vigia”. Escrever é criar uma comunidade de sentimento, um espaço de pura memória. A inscrição numa tradição singulariza. Nós somos homens e mulheres de advento. Cumpre-nos vigiar, como a amendoeira.

 

O Messias é a palavra em movimento. A vir. Este livro lembra que os afectos são o chão da comum humanidade nossa e do Verbo que se fez aquilo que nós somos: carne habitada pela palavra. Maria é uma rapariga a quem a presença de José perturbava, fascinava. A cena do casamento em Caná reporta-nos ao Cântico dos Cânticos. O verbo latino testari, na origem da palavra testamento designa como cada um sabe o próprio facto de “testemunhar”: o “testemunho” que dá testemunho da comunicação entre os corredores passando de mão em mão como as palavras passam de boca em boca nessa cadeia de transmissão que é a palavra humana.

 

Há um fundo de retenção (secundária) essencial à leitura. Depois de lido um livro, fica a questão: que diz este livro? A síntese, a unidade é trabalho de cada leitor. O combate hoje é contra o domínio da retenção terciária que visa controlar os processos de individuação. Aproxima-se uma nova era de gramatização que visa o controlo do vivo e a clonagem do espírito. O maior perigo é a clonagem mental, espiritual, que coincide com o controlo da actividade simbólica. Ora, o que é preciso é produzir de novo do simbólico.

 

E a literatura pode ajudar nesse combate. Podíamos reagir ao romance de Teresa Passos deste modo: “Evangelhos já temos que cheguem e bem díspares são”. Veja-se o que deu a posteridade do Apocalipse de onde nasceram mais variações heréticas que qualquer texto bíblico. Eu diria: a tradição não é tudo. O nosso processo de individuação é imparável, imprevisível. A escrita faz parte desse processo. O caminho está na expressão permanente daquilo que move tudo o desejo. E não é verdade que Divina eloquia cum legente crescunt?

 

                                                                                                                                        José Augusto Mourão


 


[1] Teresa Ferrer Passos, Anunciação (romance), Universitária Editora, Lisboa, 2004.

[2] Luis Panier, "Le lien du discours", in Nouveaux Actes Sémiotiques, 28, 1993, p. 2-3.

[3] L. Panier, “Une pratique sémiotique de lecture et d´interprétation”, in Exégése et Herméneutique , Paris, Cerf, 1994, p. 125.

[4] Ver Michael Riffaterre, Sémiotique de la poésie , Paris, Seuil, 1983: 12

[5] Ver Pier Cesare Bori, L'Interprétation Infinie, Paris, Cerf, 1991.

[6] Paul Beauchamp, L'un et l'autre Testament 2., Paris, Seuil, 1990, p. 76.

[7] Fr. Agustín Salucio (1523) escreve, no seu Avisos para los predicadores del Santo Evangelio, Juan Flors, Editor, Barcelona, 1959, p. 137.

[8] Esta abstracção recebe nomes diversos segundo os sistemas, mas até os mais cépticos devem decidir-se a este respeito. Derrida pensa poder responder a esta questão por vezes dolorosa sobre a significação inventando um “messianismo abstracto” – uma espécie de “apelo à fé” que habitaria “qualquer acto de linguagem e qualquer apelo ao outro”: J. Derrida, “Foi e savoir” in La Reliuion , Seuil, 1996, p. 28. G. Steiner dirá: “O signo semântico, quando tomado como plenitude do sentido, e a divindade” têm o mesmo lugar e o mesmo tempo de nascença” (Derrida) (..). A época do signo, diz Derrida, é essencialmenmte teológica” Présences Réelles , Faber and Faber, 1989.

[9] Pierre Ouellet, Le sens de l'autre. Éthique et esthétique , Liber, Montréal, l2003, p. 166.

[10] (3) V. Novarina, La chair de l'homme, Paris, POL, 1995, p. 470.

 

 * Este texto trata-se da Apresentação do Prof. Doutor Frei José Augusto Mourão do romance Anunciação de Teresa Ferrer Passos no Anfiteatro da Livraria Escolar Editora, no Centro Comercial Caleidoscópio, em Lisboa, 27 de Novembro de 2004.

Publicações: Internet, www.triploV.com www.harmoniadomundo.net .

 

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BREVES PALAVRAS SOBRE A SUA OBRA

 

                             

 

 

 

«O Combate e a Dança»

 

 

«(...) José Augusto Mourão, presbítero da Ordem dos Pregadores, ou de S. Domingos, tem construído um notável percurso reflexivo no campo da Literatura e da Semiótica, tanto na vertente do ensino, como naquela ensaística, privilegiando tópicos e autores de fronteira, cada vez mais determinantes (da Ciberliteratura a Maria Gabriela Llansol) (...)»

 

Fonte:J. Tolentino de Mendonça «José Augusto Mourão: O Combate e a Dança» (Apresentação) in José Augusto Mourão, O Nome e a Forma, Pedra Angular, 2009, p.10; Internet, www.harmoniadomundo.net (4/6/2010).

 

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REVELAÇÃO DE DEUS E POESIA RELIGIOSA

 

 

«O Desejo nasce a partir do seu “objecto”, é revelação»

 

«A necessidade é um vazio de Alma, parte   do sujeito»

 

«A religião é Desejo. (…) É o excedente possível numa sociedade de iguais, o da gloriosa humildade, da responsabilidade e do sacrifício, condição da própria igualdade»

 

«A sociedade com Deus não é uma adição a Deus»

 

                                  Emmanuel Levinas, Totalidade e Infinito, pp. 49 e 51.

 

 

«Que venha o teu tempo, Deus, / o teu dia, / não amanhã, / mas hoje»1. Nestes versos recentemente publicados em O Nome e a Forma escapa das palavras o desejo de Deus. Nesta obra, José Augusto Mourão,  poeta, religioso, semiólogo, toca e irradia a força do ser-criatura no confronto e na comunhão com o ser-Criador. A invocação que é usada  nos poemas aqui vindos a lume, repete-se sem cansaço. O tema é o diálogo com Deus, numa procura incessante e obstinada da verdade que é o Desejo da alma, no sentido positivo do termo Desejo. Confrontando o conteúdo destes poemas com o livro Totalidade e Infinito de Emmanuel Levinas, encontramos uma das possíveis chaves de O Nome e a Forma.

 

Nesta obra de poesia religiosa, vive o tempo de Deus a mergulhar na sua criatura, a chamá-la, a procurá-la, a escutá-la. Há uma epifania repetindo-se e, ao mesmo tempo, em constante tempo regenerado ou resgatado pelo próprio Deus. O tempo de Deus é aqui um Desejo inocente, cheio de pureza, da sua criatura, que sem necessidade, porque Deus não lhe faz falta, parece procurar o que, afinal, não é mais do que ser a procurada. O Desejo da criatura, não uma necessidade da criatura, porque se o fosse, o Desejo em vez de construir num sentido benfazejo, destruía; em vez de oferecer, afastava, em vez de se transcender, descendia, ou seja, degradava-se. Seria uma necessidade. E a necessidade é insaciável de uma felicidade que pertence à esfera do egoísmo, do servir-se e não do servir. Na necessidade não reside a generosidade. Nela está presente o exclusivo interesse do sujeito e não o apelo do objecto exterior ao sujeito.

 

Como pensa o filósofo Emmanuel Levinas, o Desejo de Deus é algo de bem diferente da necessidade de Deus. O necessário não é mais do que «um vazio de Alma» e pertence ao sujeito que exige sempre algo porque lhe falta, porque não possui o que está no Outro. Mas o Desejo, pertencendo à esfera do objecto, neste caso Deus, é Bom porque, nada lhe faltando, o procura. O Desejo de Deus está presente em O Nome e a Forma. Há aqui como que um excedente. Ora, um excedente, não sendo algo que faz falta, é algo que se acrescenta por revelação, como elucida Emmanuel Levinas. Quando José Augusto Mourão invoca Deus faz sempre uma chamada do fora para o interior e não o contrário.

 

É neste contexto metafísico, no contexto da relação da criatura com o Criador que podemos inserir a obra de José Augusto Mourão O Nome e a Forma, recentemente publicado na editora Pedra Angular. Lembrem-se estes versos, a título de exemplo, pois muitos outros poderiam ser respigados: «quando voltamos os olhos para Deus / que não está no céu, / mas no mistério da vida infinita, / inimaginável, / donde Ele vem e se faz próximo»2; ou, «onde devemos esperar-Te, Deus da surpresa / (...) / Deus dos que não têm voz nem barcos / (...) / Deus gratuito onde estás? / (...) / onde apareces, Deus amigo dos pobres, / onde te acharemos, Deus libertador?» do poema «Deus absconditus»3.

 

A procura de Deus envolve em O Nome e a Forma o desvendar do seu Nome oculto, desde os começos do mundo, e, mesmo assim, à beira das palavras que deformam e que nas suas simulações ou desvendamentos intrínsecos, ainda assim transmitem sentidos: «descemos cada dia do monte da Ascensão / encobertos pela Nuvem e pelo Nome»4; «dá-nos (...) / a graça de continuar mesmo ás escuras / (…) à procura do teu Nome»5; «toma-nos pela mão, Deus, / e que a nossa vida se ponha de pé / a caminho do teu Nome, / Deus do nosso consentimento / e do nosso louvor»6.

 

Mas o Nome não está isento de um Rosto: «dá-nos a graça da revelação do Rosto»7; ou: «seja o teu rosto / o brasão da casa, / a alegria, o mosto / na aflição, a asa»8. Entre o Nome e o Rosto, José Augusto Mourão traça  as linhas de um sagrado que, imerso no profano, não abdica de todo um ritualismo litúrgico circunstancial e sem tempo. As expressões linguísticas dos poemas denunciam um jogo entre transcendência e imanência. Apenas alguns exemplos: páscoa, ofertório, o pão, o vinho, o anjo, epifania, salmo, tempo de adventos, momento penitencial, quinta-feira santa, comunhão, oblação, entre outras, fazem transparecer o valor dos ritos a confluir entre si, como se fossem vários rios que tentassem chegar a um imenso oceano, que neste ensejo nos serve de metáfora para designar o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Como escreve Emmanuel Levinas, «A sociedade com Deus não é uma adição a Deus»9. A sociedade com Deus parte mais do objecto do que do sujeito, surge mais do fora provocador, ou seja, que fala, do que do dentro pobre e pequeno demais.

 

Das invocações ao exortativo, do penitencial ao louvor, os poemas aqui reunidos desvelam o autor, quer na sua específica univocacidade eclesial, quer no seu convívio inevitável com um mundo enganoso e vão. Um mundo que vive para contradizer a dimensão humana do espírito e que vê em Jesus uma pesada pedra de tropeço de que é necessário libertar-se.

 

14 de Janeiro de 2010 

Teresa Ferrer Passos

 

1 José Augusto Mourão, O Nome e a Forma, Pedra Angular, Lisboa,  2009, p.177.

2 Ibidem, p.240.

3 Ibidem, p.24.

4 Ibidem, p.221.

5 Ibidem, p.236.

6 Ibidem, p.72.

7 Ibidem, p.239.

8 Ibidem, p.152.

9 Emmanuel Levinas, Totalidade e Infinito, Edições 70 (Edição original, 1980), Lisboa, 1988, p.51.

 

Publicações: Internet, www.harmoniadomundo.net; Poetas & Trovadores, Janeiro/Março 2010.

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NO CIBERESPAÇO, QUE CIBERCULTURA?

  

 

 

«A cultura moderna, definida pelo predomínio da tecnologia, dos interesses económicos e militares, não pode sobreviver sem uma sempre desperta imaginação crítica e utópica»

E. Subirats, Metamorfisis de la Cultura Moderna, 1991

 

 

 

 

A cultura tecnológica tem limites que negam algumas das mais importantes qualidades do ser humano, esse ser humano que a História testemunha, guarda e identifica. Trata-se de uma cultura que acorrenta, que manipula, sobretudo porque oferece estímulos cada vez mais sofisticados e, ao mesmo tempo, que seduzem os mais vulneráveis pela solidão em que a sociedade tecno-consumista os lançou desde há pelo menos duas ou três décadas.

 

O olhar deixou de ser analítico, com um sentido crítico e observador. A desconfiança não parece ser uma característica da sociedade pós-moderna. Levantou-se uma atitude acrítica e crédula, demasiado crédula quanto a tudo que se recebe sem desejar, que é imposto parecendo dar liberdade de escolha. A publicidade invadiu todos os meios de comunicação social, mais dominados por máquinas electrónicas ligadas ao humano do que por pessoas identificadas com normas eticamente aprováveis. O predomínio da mentalidade relativista e minimalista criou as condições ideais para que o humano fosse cada vez menos humano e o electrónico cada vez mais humanizado.

 

Toda a novidade encerra uma carga benéfica, mas nada nos garante que também não venha imbuída de erros, deformantes ou minimizadores daquilo que já foi concebido. A novidade não possui nem conduz sempre a um avanço, a um progresso garantido. Mas possui sempre algo que diverge daquilo que existia antes.

O novo é o diferente. O novo pode não ser o melhor, mas pelo menos é, irrefutavelmente, a única coisa que pode ou pôde ser. Porque se assim não fosse, o novo nunca teria lugar. O novo seria impossível. A coisa nova não é imune à falha, porque ela própria antes de surgir resultou da imaginação que constrói, que cresce, que prolifera numa minoria que contesta, que rejeita o caminho seguido até então. Essa minoria opõe-se, de modo crítico primeiro, de modo utópico depois, ao status quo vigente, à afasia generalizada, à indolência geral.

 

Tudo o que nasce de novo resulta de uma insatisfação e de uma descrença no mundo cultural em que se vive. Assim começou de modo tímido, em 1953, com Wiener, Shannon e Turing o edifício que levaria, nos nossos dias, ao ciberespaço e à cibercultura. 

Esta revolução sem armas de guerra evoluiu para a grande Rede Internética que globaliza e torna cada vez mais vastos os universos individuais, quer no sentido do melhor, quer no sentido do pior, como o identifica o filósofo Virilio em Cibermundo, a Política do Pior.  Pessimista em relação à cultura electrónica é também Simmel ao falar de «tragédia da cultura» e ao associar a economia monetária ao poder científico-tecnológico.

Como escreveu Baudrillard, em 1997, «a Internet apenas simula um espaço mental livre, um espaço de liberdade e de descoberta (…) É-se o interrogador automático ao mesmo tempo que o respondedor automático da máquina (…) É isso o êxtase da comunicação. Não há mais o outro, em face, nem destinação final. O sistema gira assim, sem fim e sem finalidade (…)», recorda José Augusto Mourão em O Mundo e os Modos de Comunicação (pp. 207-208, Coimbra, Minerva, 2005). As vastíssimas auto-estradas da informação percorridas no mundializado espaço electrónico que está, cada vez mais ao alcance de todos, é o tema geral em que se divide esta sua curiosa intervenção ensaística no cibermundo internético.

 

O Mundo e os Modos de Comunicação é um livro sapiencial, que prende a atenção e nos dá uma visão muito rigorosa da problemática do universo tecnológico a que, desde a infância, somos progressivamente obrigados a obedecer, sob pena de nos isolarmos do mundo humano, esse humano em busca de uma máquina para sobreviver por já não saber viver com os outros, ou porque as cidades são, cada vez mais, monstros sem alma, sem encontro, sem descoberta da felicidade. «Um obscuro ambiente de fim de mundo envenena o ar. Neste ambiente o corpo tornou-se um obstáculo à comunicação» escreve José Augusto Mourão (p.10).

No corpo visível é preciso construir pontes que iludam a sua visibilidade. A visibilidade tornou-se um domínio do preciosismo ilusório e trágico. A carne desencarna-se como se fosse necessária a morte do vivo, com toda a sua dinâmica adulterada e fria. Crescem virtuais linhas de escândalo na cidade frenética do virtual e de um fantasmagórico em que a maravilha se transforma num ecrã de luz intensa e com  um som penetrante a escapar-se volátil e esquelético, sem poesia, sem discurso de verdade onde se esconde todo o conteúdo. Por isso, o autor de O Mundo e os Modos de Comunicação insiste na ideia de que «a imagem do corpo entrou em crise» (p.12).

 

Estamos frente ao «homem electrónico [que] não tem essência carnal. O corpo pós-humano é uma tecnologia, um ecrã, uma imagem projectada» (p.15). O humano adquire uma dimensão que o ultrapassa através dos meios de comunicação em que a tecnologia não disfarça a sua caricatura do mundo. A máscara afivela-se sem que o tempo se aperceba que tudo está ao serviço da mudança impenitente e ainda cheia de enigmas, a adensarem-se e fulminando tudo quanto pertencia a um real contemporizador com as horas de um tempo ainda não muito distante, as horas longas e férteis para aqueles espíritos habituados a serem essencialmente livres, plenos de autonomia e a arbitrar as decisões em que a democracia desempenhava uma função desinibidora e actuante.

 

Estamos perante um livro que nos provoca, nos faz pensar. E, nos arrepia quando o autor diz que «as redes dos computadores põem simplesmente entre parêntesis a presença física dos participantes» (p.15). O Mundo e os Modos de Comunicação é, afinal, e apesar de o autor não se enquadrar nos adeptos das grandes auto-estradas electrónicas, uma grande auto-estrada da angústia humana ante a perda previsível e irremediável de caminhos mais à medida humana, mais à escala das emoções e dos comportamentos de risco, aventura e sonho.

Questões em aberto são postas de modo incisivo e pragmático.  É preciso alertar aqueles que ainda lêem para questões discutíveis e de labirínticas teias de pensamentos tanto recentes com antigos, tanto do mundo do romance como do mundo da poesia ou do ensaísmo. Áreas tão estranhas como a teologia, a ciência ou a tecnologia parecem imbricar-se, como se fossem temáticas familiares umas às outras, mas também surgem como se fossem campos fechados, que não se pudessem transpor, como se fossem compartimentos estranhos e alienados da realidade.

 

Tudo se encaixa num já vastíssimo ciberespaço a estender os seus tentáculos que avançam a uma velocidade impensável e a tender para o infinito, o incorporal, o fim das coisas e o império das imagens que ninguém conhece e que se volatilizam como se fossem um fumo rápido ou como se fossem um vento que não deixa rasto.

Quando José Augusto Mourão escreve que «o ciberespaço significa a morte dos objectos reais» (p.208) ou que «a idolatria moderna está aí: na sobreavaliação de Imagens que substituem as coisas» (p.212) ou ainda que «o sujeito da vivência virtual é desprovido de corpo» (p.212), tudo se torna mais claro e evidente. A realidade natural é posta em causa pelo ciberespaço. O sujeito humano perde a sua estrutura e integridade ética. O virtual transforma a frescura e a transparência de cada coisa num simulacro que respeita à imagem, sem vida natural, sem autenticidade.

 

No mundo virtual há uma aparência dominante. O real deixa de ter a virtude de o ser. Num real de novas dimensões espaciais tudo cresce como num esquema labiríntico e, ao mesmo tempo lógico, mas em que a emoção é um estado deformado, «light», exclusivista e com os contornos do deprimente ou com a atitude do consentimento, mesmo do aberrante. Como acentua José Augusto Mourão, «a técnica está a mudar a nossa percepção do mundo. O nosso verdadeiro lugar é o possível. A realidade é apenas uma das variações do possível» (p.81).

Numa abrangência quase a atingir o quadro de paredes virtuais que nunca cortam o caminho, o ciberespaço é um baluarte das novas correntes materialistas/minimalistas. É ele que dá expansão às suas teses, que eleva a ideia de que tudo vale sem diferenças e tudo começa a ser avaliado como se cada valor tivesse o mesmo grau de legitimidade no contexto humano. O mundo dos valores cristãos ocidentais está a ruir perante a onda avassaladora do princípio do prazer como o valor máximo e o único indiscutível nesta sociedade do consumo e da informação sem freios.

 

Ao admitir-se e ao aceitar-se a legitimidade de todos os valores individualmente considerados, deixa de haver espaço para valores universais, para a distinção entre bem e mal, entre justo e injusto, entre válido e inválido. A civilização ocidental, ao condescender com os novos valores de uma moda implacável, confrangedora e redundante deixa sossobrar os valores intemporais da realidade humana. De facto, diz Mourão, «o processo de multiplicação infinita de informação, o desaparecimento dos centros, o apagamento progressivo das figuras de poder, dá lugar a uma ilusão de liberdade e de autonomia (…). O ciberespaço não é a abolição das fronteiras nem das muralhas da cidade, mas sim a invisibilidade de fronteiras e muralhas, de valores e de poderes» (p.210).

 

A ambiguidade, as ambivalências, o anonimato, as tutelas do poder de lobbies poderosos, a cultura encapotada por interesses obscuros, os proteccionismos financeiros de redes incontroláveis dentro da rede internética do ciberespaço, conduziram filósofos como, Baudrillard, E. Subirats, Fiorese, P.Virilio, G. Simmel ou Serres, entre outros, a colocar-se numa posição de desconfiança e crítica das novas tecnologias da informação. Citando-os ao longo de O Mundo e os Meios de Comunicação, J. A. Mourão trata esta temática com o rigor que exigem os estranhos rumos das vastíssimas auto-estradas cibernéticas em construção há poucos anos e já com tão inesperado êxito junto das sociedades ávidas de um «admirável mundo novo». A urgência de encontrar uma saída para a angústia em que a informação e o consumismo as tem mergulhado, vulnerabiliza-as e fá-las presa fácil da avidez incontida e prepotente. A sociedade, após duas violentas guerras mundiais, ficou fragilizada.

 

À mercê dos «deuses» de uma tecnologia desencarnada que a levou à veneração, como um verdadeiro mito, do lazer, deixou-se conduzir a um lazer fictício, repleto de imagens sedutoras como a velocidade, as fantasias imagéticas, os robotizados planos de repouso, a idolatria do corpo que não salvaguarda o lugar da carne física, separada do corpo se torna absurda.

No mundo dos cyborgs, dos bits, dos freaks, dos híbridos, dos blogs, dos links, dos hipertextos, há pouco lugar para um corpo em movimento, pronto à aventura, ao sonho, à palavra que permanece, à amizade que não se reduz a um e-mail, ao amor que não se compadece com sexo à margem da comunhão e da fidelidade. Crescimento, globalização, abolição das diferenças na real desigualdade, são chavões que deturpam todos os sentidos úteis da informatização social. Às massas, incapazes de se aperceberem das assustadoras mudanças económicas e políticas das comunidades globalizantes, só resta obedecer cegamente, submeter-se ao todo e deixar-se iludir conforme os padrões dos novos tempos. 

 

Em O Mundo e os Meios de Comunicação, José Augusto Mourão oferece-nos uma visão que não deve ser omitida, esquecida ou desprezada pelos meios de comunicação. Aqui se encontram afirmações a alimentar a polémica que a nova cibercultura deveria escutar para não ser alvo de tantas limitações quando diz ter como fio condutor os grandes espaços da liberdade.

Como escreve o autor deste valioso ensaio semiótico, «com o colapso da realidade vs ficção, também a dualidade cartesiana espírito/corpo é eclipsada pelo conceito de «cyborg» que mina o conceito de «humano».(…). Se as fronteiras entre humano e artificial colapsam, todas as outras realidades se dissolvem também e as suas partes tornam-se ininteligíveis, como prevê Donna Haraday no seu “Manifest for Cyborg”» (p.15). E mais adiante: «Nunca fomos tão frequentados por monstros. Estão aí a “nova carne”, o cyborg, o pós-humano» (p.18).

Ler esta obra é receber um sinal de alerta sobre o ciberespaço. Não o deixemos passar ao nosso lado.

 

 

S. Brás de Alportel, 18 de Janeiro de 2006

 

Teresa Ferrer Passos

 

 

 

 

Publicações: Internet, www.triploV.com (17/1/2006); Suplemento «das Artes das Letras» in O Primeiro de Janeiro, 13/3/2006; Internet, www.harmoniadomundo.net (1/9/2007); Teresa Ferrer Passos, Escritos Voando no Espaço, Escrituras Editora, S. Paulo, 2009, p.215.

 

 

 

 

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PARA UMA «NOVA IDADE NO MUNDO»*

 

 

 

    A Influência de Joaquim de Flora em Portugal e na Europa, obra recentemente publicada (2005, Roma Editora) por José Eduardo Franco e Frei José Augusto Mourão (professores na Universidade Nova de Lisboa) é um dos mais importantes contributos para o estudo do pensamento teológico e político na Idade Média. De facto, Joaquim de Flora (1130/35-1202), teólogo contemplativo da Ordem de Cluny, foi um dos mais influentes espíritos do século que marcou o nascimento da figura do intelectual e das universidades.

     A originalidade dos seus escritos deve-se sobretudo à preeminência que dá no livro Concordia Nova ao Espírito Santo, relativamente ao Pai (Idade dos Anciãos) e a Jesus Cristo (Idade dos Jovens). As duas primeiras idades correspondiam aos tempos primordiais da humanidade e à era de Cristo. Este ponto de vista transgredia a concepção comummente aceite de que o Génesis bíblico correspondia a um Paraíso terrestre em que o homem e a mulher (Adão e Eva) tinham sido perfeitos e, por isso, felizes, até à queda pecaminosa que os fizera perder a pureza que era própria da sua grande espiritualidade.

     Ao longo dos tempos, o Homem teria decaído cada vez mais, tornar-se-ía mais rebelde à obediência ao Pai e acabaria por terminar o seu caminho na Terra com um terrível apocalipse que castigaria implacavelmente os pecadores e daria a recompensa aos eleitos ou puros de coração (Bem-aventurados os puros de coração porque verão a Deus, Mat.5, 8). Este final de caminho em descida em vez de ascensão, perturbava demais a sensibilidade de Joaquim de Flora. Como conciliar a história da salvação cristã com esta evolução progressiva rumo ao pecado em vez de ser uma via da perfeição, ou seja, da virtude? Na verdade, a espiritualidade constitui para Joaquim de Flora o cerne da perfeição humana, o ponto em que o ser humano toca mais de perto a perfeição do Pai («Sede perfeitos como meu Pai é perfeito», disse Jesus), e o único que garante a toda a humanidade um caminho de salvação e não de perdição.

     Segundo o abade do mosteiro de S. João de Fiore, a evolução da humanidade processa-se, com um lento, mas progressivo aperfeiçoamento da conduta humana. A Idade do Pai, o Deus judaico (Antigo testamento), respeitava ainda a uma época de trevas, de ignorância e de barbarismo, de grandes pecados da carne, cuja punição era, desde logo, exercida pelo Pai. Essa precedência do mal leva-o a colocar a Idade do Espírito Santo como a última idade da evolução humana e, precisamente, a coincidir com a vitória dos puros ou espirituais (Idade das Crianças).

     Autor de uma obra que se antecipou a algumas teorias filosóficas futuras, rejeitou, designadamente, a cruzada armada contra o Infiel, o desprezo pelo espírito de pobreza e as concepções de índole apocalíptica e milenarista com que a Bíblia era interpretada pela Igreja.

     As perspectivas filosóficas milenaristas, segundo as quais o mundo teria de acabar no fim de um milénio, constituiram o principal motivo de o abade de Flora procurar fazer uma reforma da leitura do Livro sacro. Uma das mais influentes teorias monásticas sobre a evolução da humanidade formulada sobre a tríade das Idades do mundo, surgia, assim, para contrariar as análises da Bíblia propagadas pelo Papa e, em consequência pelos teólogos da Igreja.

     A Influência de Joaquim de Flora em Portugal e na Europa, obra conjunta de José Augusto Mourão e José Eduardo Franco é um valioso contributo para o conhecimento mais aprofundado da importância do pensamento deste monge contemplativo e das suas repercussões na Europa dos séculos subsequentes.

    Até aos nossos dias a teoria da Idade (final) do Espírito Santo tem tido adeptos entre teólogos, filósofos e poetas. Na Itália do século XIV, Dante compôs a Divina Comédia «tirando consequências escatológicas bem concretas do edifício profético assente na doutrina das Três Idades» (p.77). Na verdade, há um esquema Joaquimita, quando Dante faz a narrativa processando-se desde o Inferno (1º Livro) até ao Paraíso (3º Livro), com o estado intermédio do Purgatório (2º Livro).

     No século XIX, o filósofo Fichte haveria de dizer que vivendo nós na “era da perversidade total, tudo leva a pensar que esta antecederá o tempo da regeneração” (p.89). Os autores referem-se igualmente à sua influência em Lessing, porque «concebe a Terceira Idade como o futuro reino da razão, da realização humana perfeita e da consumação dos ideais do Cristianismo» (p.88). Além disso, neste filósofo alemão abundam as «referências a S. João e ao Eterno Evangelho do Apocalipse» (p.91). A palavra escrita de Joaquim de Flora também não passou despercebida a Augusto Conte, quando dividiu a evolução histórica da humanidade em três estádios: estádio teológico, estádio metafísico e estádio positivo ou científico. Este último estádio corresponde à Idade do Espírito Santo numa «manifesta extrapolação do numinoso para o âmbito do domínio terrestre» (p.88).

     A prevalência do espírito de Joaquim de Flora no nosso tempo é salientado, de igual modo, ao referir-se a estrutura da obra romanesca O Nome da Rosa do italiano Umberto Eco e o ensaio filosófico de Giorgio Agamben, destacando uma passagem de Le temps qui reste (Paris, Rivages, 2000): “Toda a modernidade está empenhada num corpo-a-corpo hermenêutico com o messiânico”. E conclui-se: «A linguagem messiânica tem de ser pensada hoje como a tradução (...) de uma atmosfera psicopolítica e psicoreligiosa» (p.90).

     Muitos outros autores sobre quem incidiu a luz espiritual de Joaquim de Flora são referidos neste interessante ensaio de José Eduardo Franco e José Augusto Mourão. Referimo-nos, designadamente, às importantes repercussões do pensamento joaquimita em Fernando Pessoa, Agostinho da Silva e Natália Correia.

     Também o movimento «New Age» e a expansão da cibercultura não podem desinserir-se da espiritualidade da Concordia Nova. Esta «concórdia» preconiza «a vinda de tempos novos»; por outro lado, como se sublinha, a «questão de fundo é a reforma e a conversão permanente» (p.84).

     O mundo pode converter-se à perfeição. Esta está ao alcance do Homem. Não é uma utopia. Uma impossibilidade. É uma conquista. Uma vitória sobre as forças diabólicas que arruinam a esperança e desencadeiam a revolta. Aqueles que amam a paz não abdicarão de seguir por aí. Os puros de coração não despertarão só quando forem espezinhados pelos que nada têm de comum com eles.

     O mundo do abade Joaquim de Flora é portador de uma mensagem que não pode ser esquecida, muito especialmente, nos nossos dias. Uma abertura absoluta a todas as correntes é benéfica, mas há que salvaguardar as inspiradas no Espírito Santo da Revelação, sob pena de infidelidade aos princípios em que se acredita. Se os tempos antigos cometeram erros, não se deve pensar que a cultura de massas  contemporânea está imune a outros erros não menos graves. A intolerância para com as correntes espiritualistas, especificamente no universo cultural português, não abona em favor das correntes materialistas, antes as reduz a um comportamento intransigente e dogmático, idêntico àquele que elas condenam com tanta veemência!

     A Idade da Perfeição ou do Espírito Santo não está num paraíso distante, mas num paraíso que está à mão da humanidade construir e que é, acima de tudo, uma escada ascendente que é preciso subir degrau a degrau até atingir o ponto mais alto. Para o alcançar, há que vencer o desalento e conquistar a esperança, alicerce de todas as vitórias: «a originalidade de Joaquim de Flora assenta na ideia da história como progresso, na compreensão da revelação e no conhecimento de Deus, na existência de uma terceira idade, idade da esperança e o anúncio de um reparator que prepara a vinda dos novos tempos» (p. 137).

     Neste contexto, quem nos garante que o ciberespaço não virá a ser ainda um instrumento provocador, uma impressão digital incisiva ou um veículo dinamizador do caminho para a progressiva reconversão espiritual da sociedade humana? Uma nova ordem foi fundada por Joaquim de Flora no século XII (em 1196 uma Bula papal autoriza-o a fundação de um mosteiro sob a invocação de S. João Evangelista e do Espírito Santo). Também no século XXI uma nova ordem terá de ser lançada na conquista do aperfeiçoamento humano até ao triunfo do ideal formulado pelo Cristo que o teólogo de Flora não desfigura. Antes, é a pedra angular sobre a qual se erguerá a mística Idade do Espírito Santo. No aperfeiçoamento moral da sociedade humana assentará a “Lei Nova” (p.138). Na Conclusão de A Influência de Joaquim de Flora em Portugal e na Europa escreve-se: «um abade de província transformou-se em profeta das “novas equipas” em meio urbano e um exegeta ortodoxo, submisso aos Papas, tornou-se o pai espiritual de inúmeras “rebeliões selvagens”, suspeito de heresia (...) Joaquim alimentou todos os “apocalipses de facções”, servindo os movimentos mais contrários: desde Espirituais franciscanos, seguidores de David Joris, seitas iluministas, rosacrucianos, maçónicos, aos templários» (p.139). Um espírito iluminado, Joaquim de Flora caminhou na via sacra da perfeição rumo à almejada Idade do Espírito Santo.

 

17/8/2005

Teresa Ferrer Passos

 

Publicações:  Internet, www.triploV.com (8/9/2005); O Primeiro de Janeiro, Suplemento «das artes das letras», 12/9/2005; Notícias de S. Braz, (S. Brás de Alportel), Setembro/2005; A Avezinha (Albufeira), 20/10/2005;Internet, www.harmoniadomundo.net (2007); Teresa Ferrer Passos, Escritos Voando no Tempo, Escrituras Editora, Colecção Fonte Velha, S. Paulo, 2009, p.210.

 

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DEUS NAS FRONTEIRAS DESTE MUNDO

 

Deus nas fronteiras deste mundo,
Deus que cruzamos como as sombras,
dá-nos um corpo de desejo
e um ouvido de começo,
fica connosco Deus que passas
e nossas mãos te larguem,
Deus confundido com a sede,
e as palavras que dizemos,
vem alterar o nossos corpo,
vem confundir a nossa fome,
Deus da palavra,
flor do vento,
manhã que vem em Jesus Cristo.

 

Dê-te prazer o nosso canto,
Deus das manhãs azuis e rosa,
que o nosso corpo te anuncie qual fonte,
rio ou chaga aberta,
que nossas mãos persigam o teu passar escondido.

 

Deus invisível para os olhos,
palavra solta, luz que passa,
é neste tempo que dizemos o claro escuro do teu nome,
onde é secreta a tua face e o teu passar adivinhado.

 

                                                                     José Augusto Mourão

 

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O obstinado é aquele que continua a fazer o que faz mesmo quando tudo parece demonstrar que não o pode fazer.

 

No plano cognitivo esta atitude exprime-se deste modo: "Não podemos mais fazer isso", mas continuamos a fazê-lo, contra ventos e marés.

 

A obstinação traduz-se modalmente assim: "não posso, mas faço-o". Como se vê, a modalidade dominante é aqui a do querer.

 

O obstinado sabe que, no plano cognitivo tal é impossível, sabe que no plano do desejo quer o impossível.

 

Catarina de Siena não tinha outro verbo a que se arrimar: "Eu quero".

 

Fonte: José Augusto Mourão in «A Guerra dos Paradigmas», texto lido pelo autor na Abertura do IX Colóquio Internacional «Discursos e Práticas Alquímicas»