POESIAS E PROSAS DO AUTOR

A LÁGRIMA, DEPOIS DO TESTEMUNHO

QUINTAL DO SONHO

COMO SE RECOMEÇÁSSEMOS JÁ

O SEGREDO DAS RAÍZES (Conto)

 

ALGUMAS PALAVRAS SOBRE A SUA OBRA

Teresa Ferrer Passos / Teresa Bernardino:

POLÉMICAS EM TORNO DE GUERRA JUNQUEIRO E DO SEU ANTI-CLERICALISMO

GUERRA JUNQUEIRO, POLÉMICO ONTEM E HOJE

NOVOS SENTIDOS DE UM OLHAR

 

HARMONIA DO MUNDO

 

 

HENRIQUE MANUEL PEREIRA

 

 

 

 

 

 

 

Henrique Manuel S. Pereira nasceu em Angola, ainda que as suas raízes familiares sejam portuguesas da região de Bragança (Vinhais). Licenciado em Teologia pela Universidade Católica (Porto), concluiu o Mestrado em Teologia Sistemática, dois anos depois. Doutorando em Cultura Portuguesa na Universidade de Aveiro, é professor da Universidade Católica no Porto no Departamento de Audio-Visual - Escola das Artes. Ensaísta e autor de vários livros de prosa poética, tem desenvolvido actividades ligadas ao jornalismo e à investigação literária e histórica. Ao longo de catorze anos realizou e apresentou (diga-se, em abono da verdade, com brilhantes intervenções) na RR e RFM vários programas e rubricas, tendo sido o responsável de "Conversas com Princípio, Meio e Fim". É autor, entre outras, das seguintes obras: Guerra Junqueiro, Percursos e Actividades; Mas Há Sinais; Ausência Que Nos Une; Os Paraísos São Interiores; e De Pé Como As Árvores. É co-autor, entre outras, de Nem Quero Crer, Pensar a Vida e Pensar a Morte (2007).

 

 

 

 

 

 

 

                    POESIAS E PROSAS DO AUTOR:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

«A LÁGRIMA, DEPOIS DO TESTEMUNHO»

 

                                                   

«Corria o ano de 1888. Em Março, Junqueiro encontrava-se em Viana do Castelo, afastado das lides parlamentares e dos seus trabalhos literários por motivos de saúde. Na noite do dia 20 daquele mês, um incêndio lavra sobre o Teatro Baquet do Porto. E sabe-se, pela imprensa do dia subsequente, que “nunca o Porto assistiu a uma catástrofe tão pavorosa”, “fornalha crepitante onde centenas de corpos foram reduzidos a cinzas. Quatro dias volvidos, por provável indicação do autor, a Empresa Literária e Tipográfica põe 100 exemplares da sua edição da Velhice do Padre Eterno à disposição da comissão da imprensa, incumbida do auxílio à vítimas. E, a 29, O Primeiro de Janeiro avança que o eminente poeta Guerra Junqueiro enviara a um dos membros da comissão de imprensa, Bernardo Pindela, um dos convivas do célebre grupo dos Vencidos da Vida nesse ano constituído, “uma carta em que lhe diz ter composto uma poesia inspirada pela horrível tragédia e que ele de boamente oferece à comissão para ser publicada e vendida nas livrarias e teatros, a favor das vítimas. Trata-se de «A Lágrima» (…)

Como onda, A Lágrima popularizou-se por todo o país…»

 

«A Lágrima»

 

 «Manhã de Junho ardente. Uma encosta escalvada,

Seca, deserta e nua, à beira duma estrada.

 

Terra ingrata, onde a urze a custo desabrocha,

Bebendo o sol, comendo pó, mordendo a rocha.

 

Sobre uma folha hostil duma figueira brava,

Mendiga que se nutre a pedregulho e lava,

 

A aurora desprendeu, compassiva e divina,

Uma lágrima etérea, enorme e cristalina.

 

Lágrima tão ideal, tão límpida que, ao vê-la,

De perto era um diamante e de longe uma estrela (….)»*

    

 

 * Henrique Manuel Pereira, «A Lágrima, depois do testemunho» in Separata da revista Brigantia , nº1-4, 2006, págs. 646-647 e 651.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Quintal do Sonho*

 

                   À Teresa e ao Fernando

 

O Nada…

 

A Palavra.

E na Palavra os cabelos da luz, a terra e os braços da água.

 

A Palavra.

E na Palavra abrem-se os punhos do Sol e os cofres da Lua.

 

A Palavra.

E na Palavra o voo branco das aves e as peugadas da vida.

Na Palavra o orvalho dos céus e o verde tapete do barro.

O Gesto.

E no Gesto o Homem

com a nudez da alegria

no quintal do sonho

de peito vazio a soletrar a solidão.

 

O Gesto.

E no Gesto a Mulher.

Bebi os dias com sede de ti.

                                   — disseram.

 

 

No quintal um arbusto.

Um Fruto.

 

O Fruto tem a cor dos olhos, o sabor do coração, nunca o da boca!

                                                                                                  — ouviram.

Mas a Palavra caiu.

O Fruto foi vermelho nos lábios.

Uma ave de cinza engoliu as sementes.

 

Dói a dor. Chovem os olhos

                                     — disseram.

 

Os Homens ficaram grandes. Erguidos como lanças.

Os pés lavraram caminhos e os braços troncos de esforço.

Ergueram ao alto os filhos como memória da Palavra.

 

Aos milhares fecharam as muralhas do silêncio. Calaram-se as cítaras.

 

E um Menino.

Uma estrela tão grande nos seus olhos que encheu os caminhos de reis e pastores.

Levantou a Palavra e nos seus gestos repartiu as formas visíveis do Eterno.

O gelo desceu as montanhas e regou lírios de liberdade.

Nos caracóis do vento, o sumo das manhãs e os grãos dum trigo fecundo.

 

Mas aos milhares tombaram a Palavra e ao trigo desceu a noite.

 

— O quintal!…

                            — recordam aqueles que foram meninos.

E segredam a Palavra. Dizem-na a dizer-se.

Que o querem, teimam, que o merecem.

Que há apenas uma cortina.

Que o Sol nasce ao Sol-pôr.

Que há dedos no tear da noite…

 

Não resignes os braços, homem das certezas de água.

Conserva a memória. Acende a Palavra.

Abre de novo os punhos do Sol no quintal do sonho.

 

                                               Henrique Manuel S. Pereira

 

 

 

* in Gazeta de Poesia do Mundo de Língua Portuguesa, nº 1/2, Primavera/Verão, 1994, pp. 15-16.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

COMO SE RECOMEÇÁSSEMOS JÁ*

 

 Caímos sobre os espinhos da vida e magoamo-nos, sangramos...

 

Recomeçar, recomeçar em cada fracasso, em cada adeus.

Recomeçar com toda a força dos nervos, da vontade e dos músculos.

Recomeçar com uma prece nos lábios.

Recomeçar!

Viver solto de amarras, de hábitos e de utopias.

Recomeçar livre!

Recomeçar abraçando a noite, abraçando a dor e as nuvens.

Recomeçar com fé, com certeza.

Recomeçar, por respeito connosco próprios!

Subir ao terraço da alma e recomeçar olhando o infinito como promessa.

 

A experiência diz-nos que às vezes é preciso beber a noite para tocar a aurora.

Noites longas, tantas!... Mas recomeçar. E arrancar manhãs às noites.

É preciso.

É preciso recomeçar.

De múltiplas mortes as flores constroem também a existência e se abrem a quem as visita.

 

Esperar como quem recomeça já.

Se preciso for, de joelhos no íntimo; mas sempre de pé, na praça pública.

Esperar.

Esperar até ao último tutano do esperar.

Esperar.

Purificarmo-nos na espera.

Merecermos a a conquista da alegria e da paz, na espera.

Sem fugas nem alienações.

Esperar com a soliudão e  o fracasso aos ombros. Mas esperar.

Esperar como se recomeçássemos já.

 

Recomeçar cingidos de coragem e de sonho.

 

  Henrique Manuel S. Pereira

 

 

 * in Gazeta do Mundo de Língua Portuguesa, nº7, 1996, p.5.

 

 

 

 

 

 

UM CONTO INÉDITO:

 O Segredo das Raízes*

 

«Talvez a mão, em sonhos,

do semeador de estrelas,

tenha tangido a música esquecida

com uma nota só da lira imensa,

e a onda humilde chegou a nossos lábios

de umas poucas palavras verdadeiras».

(António Machado)

 

 

A manhã ainda não acabara de nascer.

Logo cedo o sono negara-lhe os braços. Contrariando a habitual teimosia de ficar na cama, levantou-se mal acordou.

Tinha tempo. Meteu por caminhos diferentes para o emprego.

As luzes dos candeeiros da avenida ainda estavam acesas e um varredor de fato laranja empurrava o seu carro de braços pelo asfalto lavado de nevoeiro.

Um ou outro carro a ferir o silêncio. O sol a espreguiçar-se entre os prédios da companhia de seguros e do banco.

Cheirava-lhe a violetas. Sempre detestara violetas. O odor vinha de um canteiro, à entrada de um túnel que fazia a passagem subterrânea, na confluência de várias ruas.

Desceu as escadas. Num canto, do lado direito, um velho sentado atrás de uma mesa pequena, com calendários a preto e branco, esbatidos e amarelos. Fumava um cigarro sem filtro.

Olhou-lhe primeiro as pernas embrulhadas em jornais amarrados por fios de cizal. Depois as mãos prenderam-lhe o olhar com a força dum mistério. Estremeceu. Um arrepio. A arritmia em galope.

Comprou alguns calendários sem interesse, na tentativa de ver as palmas daquelas mãos.

De repente tornou-se uma necessidade vê-las. Depois o velho todo era já uma necessidade, uma obsessão.

Foste tu, não foste?

– A memória é como um sonho visto ao contrário, rapaz.

Arierep, sentado no bordo da cama de madeira desconjuntada, de pinho velho e com falhas de verniz, procurava em si e desarrumava-se como um viajante nervoso que revolvesse as malas e os bolsos à procura do bilhete que, porventura, trouxesse na agenda ou mesmo na mão.

Arierep Caçula assemelhava-se aos ciganos em perpétuo nomadismo. Assim levedara. Com eles aprendera a arte das mãos.

As mãos exerciam nele a influência de uma tentação ou mesmo um vício adquirido. Não gostava das suas. Os montes de mercúrio, o de vénus e a linha-do-sol[1] erguiam-se na superfície branca da sua mão, como montanhas grávidas de segredos que preferia não saber. Gostava de todas as outras que não as suas. Li-as com avidez. Explorava-as até ao osso sem pudor nem limites. Não dizia tudo o que lia e preferia as obscuras e cortadas com viagens interrompidas, quais esconderijos com a senha de acesso a qualquer lado.

O velho estava deitado na cama desfeita, só com cobertores manchados e queimados de cigarro. Estava enrolado. Em posição fetal. As pernas tais como Arierep lhas vira na manhã do primeiro encontro, revestidas a jornal.

 

Silêncio.

 

Naquele silêncio cabia o mundo. Cabia a vida e os gritos em ecos sucessivos.

Não sabiam como começar aquilo para que os dois sabiam estar ali.

Um sótão sem luz directa. Uma cama. Uma mala descascada, com a armação de madeira à vista. Aí guardava os calendários. Uma cadeira com um espelho partido. Em cima, ao lado, um pente imundo e uma gilete há muito sem uso. A um canto, desordenados, dois pares de sapatos sem graxa. Uns abertos à frente, outros de tacão gasto, quase rasos. Livros maltratados, espalhados, à mistura com priscas pelo soalho podre de bolor das águas que nesse sítio riscavam a parede. Muitos cheiros. Um maço aberto de cigarros pequenos. Embalagens de medicamentos, pelo aspecto há muito sem validade. A pequena mesa do negócio, encartada junto à cadeira.

– Imagino todos os suspiros de prazer que embrulhaste em desencanto. Todas as nádegas e massas flácidas das mulheres que possuiste, a gritarem-te fraqueza. Todos os dedos, todas as pernas, todas as púbis, todas as unções de esperma. Tudo aquilo que não era teu e pensas que ignoro.

Tudo. Tudo peso. Tudo fuga apertada, sem espaço para o encontro. Tudo ausência.

– O corpo, como as palavras, é um risco. Tu o saberás. – disse sem se mexer.

– Não te esforces por rir. Tu só consegues sorrir. Não faças das justificações apelos de resgate. Não precisas, velho.

Arierep tinha sido novo, como todos, mas não igual. Sonhara sonhos grandiosos, exigira muito de si e da vida. Como os carecidos e teimosos.

– Nunca ninguém voa demasiado alto se o faz em céu próprio, com as suas próprias asas.

– Dorme, velho. Já é tarde, dorme.

– Sabes que a vida é pequena demais para um homem mostrar a sua beleza? Serão as noites maiores que os dias?

Sentes o diluir das horas como dutante o sono?

Parecem um grande funil...

Depois de um silêncio onde coube também o silvo de um comboio ao longe, o velho voltou:

– Recordas?... Hãn?... Fala!

– Sim. Foi no tempo em que bebíamos o vento na brancura e na dança do algodão. E o vento era puro, infantil e fresco, e os meus calçõs tinham suspensórios vermelhos. A tua barba não era branca nem grande, arranhava-me a cara e fazia-me cócegas. Eu vivia orgulhoso da força dos teus tiros às rolas e das dignidades com que te tratavam.

Olhava o nosso império e julgava-o fruto das tuas mãos.

Creio que vem daí este desejo de queimar as pálpebras na lucidez das mãos.

Lembro também que depois do almoço te deitavas a descansar. Isto quando o não fazias antes e o teu lugar à mesa ficava vazio.

Lembro ainda as vezes que acordavas contigo mesmo a ressonar nas homilias.

– Raios! Esta noite é branca? An? Diz-me.

Não te vás embora.

Porque tens os olhos prateados e reluzentes? Parecem dois peixes em esforço para se libertarem de uma rede de linhas vermelhas... Diz-me... Fala! Não estejas calado.

– Como sabes dos meus olhos, se não olhas para mim?

O velho, imóvel, tinha o rosto tapado pelas mãos, tão magras que incapazes de o cobrir.

– Não sei.

A massa é a mesma, rapaz. O que todos procuram – usem eles gravata ou andem de sandálias, gastem perfume de frascos pequenos ou grandes – é o calor que faz fervura.

Apaga a luz, por favor. Ah! Tens que desatarrachar a lâmpada. O interruptor está partido.

Sabes, o início nasceu de uma funda lágrima em efervescência com a doçura do trigo e arrefeceu com as gotículas das nossas demissões. São elas que em dias de nevoeiro enchem rios e neles nos levam para além das cortinas da luz, onde tudo é cinza.

Talvez, sei lá, a viagem fosse mais rápida se descobríssemos um Rochedo onde essas lágrimas se pudessem despir e entregar à intimidade do sol para que este as bebesse devagar. Teríamos então a vida nas mãos do calor, mesmo no nevoeiro. Silenciosos e mudos.

Arierep não lhe via o rosto mas sabia que o velho estava a chorar e que se mexia pesada e desordenadamente. A cama chiava com gemidos. Devia também amordaçar os soluços com os cobertores. Sentia-os esticar debaixo de si na direcção do velho, até ao silêncio outra vez.

A pergunta continuava interrogante no silêncio.

– Somos muito mais homens do que aquilo que pensamos. E Deus sabe-o.

Falar é o caminho mais seguro para despir e tornar tudo seco e árido. Como dizer, por exemplo, as vezes que passamos por nós perseguindo um ideal, um dever, um sonho indefenidos?

O mundo está em ordem. Não interessa muito sabê-lo mas é importante. E como nem sempre conseguimos um uníssono com ele, procuramos excitação e estonteamento.

Não suporto bêbedos. Mas conheço pior...

No fundo, cada pedra jaz plena de significado junto da sua sombra.

Já apagaste a luz?

Não te vás embora...

Agora estou nu no espaço frente ao sol e à lua.

Sabes, nunca como hoje me custou despir assim. Comecei logo que entraste no meu túnel e olhaste as minhas mãos.

Nunca estive tão só e tão directamente abandonado aos sentimentos. Nunca tão estranho nesta espelunca. Tão exposto aos raios verticais doutros sois. Nunca tão vulnerável aos olhares cáusticos e aos acenos leves da amizade que também agora, aos poucos, e como um suspiro que ninguém ouve, abandonam as terras onde cresceu a memória. Vejo-os a todos.

Porque queres que desenterre aquilo que agora tem repouso? Porquê?!...

Mas tens razão. Fui eu que te chamei. Fui eu. Fui eu.

– Há quarenta e sete anos que não sabias de mim...

– Era eu que te chamava quando um livro ou um filme te afogavam os olhos e crispavam as mãos com poder de conquistares o mundo.

Chamei-te ao cair daquela tarde na figura dum velho gordo, sentado no parapeito da janela, em contra-luz.

As silhuetas são todas iguais.

Chamei-te nas derrotas que te esmagaram. Na indiferença. Nas humilhações, mas também na força do desejo que punhas em cada meta. Na ternura das crias dos animais e nos berços que espreitavas. Na beleza das rosas. Na alegria dos outros. Na claridade dos rostos. Nos que desfilam pela vida com roupa de outras modas. Nos demitidos que vias a dormir nos vãos das portas de comércio ou a vasculhar no lixo, quando passavas de carro...

Era eu nos gestos incompletos, na pressa inútil de quem foge da sombra dos seus passos. Era eu na avidez da leitura que fazias às mãos que te procuravam.

Sei que querias as minhas. Mas não. Não tas dou. Até porque agora já não precisas delas nem servem para ler. Estão puídas e as linhas fundidas com a carne.

Tu não sabes, mas há demasiadas vozes dentro de um homem para que ele se entenda sozinho consigo mesmo. As minhas ressoam em círculos, teimosamente, neste ovo de solidão.

Tens a certeza que desatarrachaste a lâmpada?

Eu sou o teu húmus. É para mim que tens apontadas as raízes.

É verdade. Cresceste sozinho, com seiva própria e ramos teus. Venceste o espaço com troncos de esforço e vais poder estendê-los e acolher as aves...

Se o teu húmus te foi estéril, foram-te afortunados os enxertos que te rasgaram a pele e sulcaram o peito.

Mas sabes porque os acolheste?

Sentias a esterilidade do teu húmus.

Sabes, eu passei-te um bloco de facturas. Tu tinhas que vir. Tu precisavas de ter a certeza de que fui eu que a matei. Precisavas sim, contudo...

Não te esqueças: para cada um a sua pianha. Se sonhares com uma maior que o teu peso, desintegra-te a vertigem.

– Eu sei, velho. Sei que nos gastamos no impossível; nos sonhamos comensais dos Olimpos com os anéis do cabelos coroados e os dias cheios de palmas.

Sei também que sonhaste alinhar a passada com os melhores. Mas como haverias de fazer se os teus dedos são diferentes, se os teus pés talvez até sejam chatos, se do hálux ao calcanhar os mapas se fazem distintos.

– Eu ganhei a minha pianha à entrada de um túnel...

Ouve, a paz é a verdade. Mentem-te, como me mentiram a mim, aqueles que dizem ser o apetite o critério da verdade.

Estou farto. Cansei-me de ouvir aquela porta a ranger e a fecharem-na com a pressa de alguém que teme um cão com peste... As bruxas que vivem aí em frente pensam saciar a consciência com um prato de batatas mal cozidas, ou de arroz molhado que atiram aqui para dentro. Mentira! Mentira! Ao fecharem a porta despojam o gesto.

Conheci uma velha que amava um esqueleto. Um esqueleto de homem. Era o Jorge. Tinha-o comprado quando era estudante de ciências. O Jorge fora um soldado morto em combate, no Ultramar. Ninguém lhe reclamou o corpo...

Vês? É este o drama. Há sempre alguém que nos ama e é o subtil pedido de correspondência que nos gasta e nos gera.

 

Silêncio.

 

– Sim fui eu que o fiz.

Não fui capaz dessa troca, dessa fusão. Não fui capaz de suster o peso e o dom.

Uh!... Dizias que tudo é ausência... Mas não. Tudo foi excesso...

Estava à tua espera para partir.

Obrigado.

Apanha os destroços que puderes e vai-te.

 

Silêncio.

 

– Ouve, estás a ouvir? – perguntou ainda o velho.

– O que importa isso? Tu não és real.

– Sou a realidade das raízes que não vês, rapaz.

E olha, se algum dia me deitar a um charco, acredita, não é para me matar, é para apanhar as estrelas. Elas continuam à espera. Ah, meu bom Platero!


 


* Gazeta do Mundo de Língua Portuguesa, nº 7, Primavera/Verão 96, pp.62-66.

[1]Vocabulário usado na quirognomonia, arte divinatória que engloba a quiromancia.

 

 

 

 

 

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ALGUMAS PALAVRAS SOBRE AS SUAS OBRAS:

 

 

 

 

POLÉMICAS EM TORNO DE GUERRA JUNQUEIRO

E DO SEU ANTI-CLERICALISMO

 

 

 

«Um clero português, desmoralizado e materialista, liberal e ateu, cujo vaticano é o ministério do reino, e cujos bispos e abades não são mais que a tradução em eclesiástico do fura-vidas que governa o distrito ou do fura-urnas que administra o conselho»

Guerra Junqueiro, “Anotações” a Pátria, p.191.

 

  

 

 

Guerra Junqueiro

 

 

 

«Em 1878 publicou-se contra mim uma poesia imunda e injuriosa», escrevia o padre Sena Freitas na 3ª edição (1900) à Autópsia de «Velhice do Padre Eterno», resposta a este poema satírico anti-clerical de Guerra Junqueiro. E, afinal, esta poesia fora publicada, em 1881, no jornal A Folha Nova do Porto sem autorização do seu autor. Este artigo de Henrique Manuel Pereira defende que, de facto, a poesia “Littré e o Padre Sena Freitas” foi publicada em 1881 e não naquela data. Por isso, o que o autor desta artigo vai procurar é deslindar o intrincado caso: «Nunca foi fácil desfazer novelos, sobretudo quando sobre eles passou a humidade de muitos invernos».1

 

Trata-se de um artigo de Henrique Manuel Pereira intitulado Polémica entre Sena Freitas e Guerra Junqueiro: Notas para um “Correctivo”.2 O autor escalpeliza, de modo sistemático, os trâmites pelos quais passaram as posições antagónicas dos defensores do padre e/ou do poeta que não poupava as instituições clericais, que não temia a ira de Deus. De facto, houve verdadeiras “horas de combate” entre os defensores do padre Sena (representava a autoridade da Igreja, cuja preponderância era bem evidente, mesmo numa sociedade a tender, desde meados do século XIX, para a corrente racionalista e positivista que chegava de França, em livros e jornais) e os adeptos das irreverências de Junqueiro.

 

Para muitos cronistas das folhas dos jornais, o grande poeta de Os Simples era um herege que só tinha intuitos pouco honestos, que procurava chamar a atenção dos intelectuais e, de um modo mais vasto, a burguesia ascendente, que, com o pedestal da palavra poética, usava todos os meios, legítimos ou não, para denegrir a Eclesia e, com a sua perícia versejatória, conseguia atingir a fama e a glória ambicionadas.

 

Ninguém, até então, tinha, como Junqueiro, denegrido a Santa Madre Igreja com tanta acutilância, com tanta virulência, enfim, com tão grande audácia. Daí que os jornais que, de dia para dia, produziam novos títulos, apareçam a liderar uma certa campanha, talvez “alegre”, talvez acrisolada, contra o verve indecoroso, mas indiferente às reacções da crítica inclemente, com que os portugueses sempre gostaram de se apodar uns aos outros.

 

Assim, Henrique Manuel S. Pereira em «Polémica entre Sena Freitas de Freitas − Notas para um “Correctivo”», artigo de que se faz aqui uma breve recensão, penetra nos escamoteamentos dos autores que se infiltraram nas linhas da tramóia, uma tramóia sobretudo perpetrada contra Junqueiro. Dissemos tramóia precisamente porque todos se uniram, por meios jornalísticos ou por meios livrescos, para o acusarem de se ter querido vingar de Autópsia à Velhice…

 

Uma “autópsia” feita por Sena Freitas à sua sátira dirigida à instituição eclesial e que titulada A Velhice do Padre Eterno (1885). De facto, tudo parece ter partido de um volume intitulado Obras de Guerra Junqueiro (Poesia) em que figurava o poema «Littré e o Padre Sena Freitas». Em Junqueiro, Falso Poeta, Artur Botelho transcrevera este poema de Junqueiro (datado de 1876) dizendo que o padre Freitas foi insultado «vergonhosamente»3. Por sua vez, Antero de Figueiredo em conferência, três anos depois, mostra-se seguro ao dizer que o padre foi vítima do «poeta [que] respondeu com as quatro pedras na mão de uma sátira virulenta, improvisada sobre o mármore de um café de má-língua»4.

 

Os jornais não perdiam tempo a incendiar as controversas críticas de Junqueiro: em A Palavra publicava-se (1876, 25 de Julho) um artigo de Sena Freitas cuja linguagem não era de paz, antes de desafio: «Das fezes da imprensa  acaba de aparecer o livro Caricaturas em Prosa de Luís de Andrade», obra que Junqueiro prefaciara e que, para mais, era bem anti-clerical. A ira contra Junqueiro vem à tona da água. E em outro periódico A Luta, afirmava-se, num texto de Júlio Verim (pseudónimo de Luís Andrade) que o artigo do padre Sena é um «artigo rancoroso» em que «as calúnias [contra Junqueiro] são tão flagrantes, a má fé tão evidente, as insinuações tão miseráveis (…)». Por sua vez, o jornal A Palavra agourava ao livro de Andrade, com o defeito maior de ter um prefácio de Junqueiro, «um êxito ainda mais deplorável» e ia ao ponto de aconselhar os chefes de família a «afastarem-se dessa sentina donde saem miasmas pútridos». A obra Caricaturas em Prosa de L. Andrade era para aqueles periódicos pouco honestos, como realça Henrique Manuel Pereira, um «foco de devassidão que espadana corrupção por toda a parte»5. E se o padre Sena Freitas  considerara Caricaturas de Prosa um «livro péssimo» (artigo do jornal A Palavra datado de 1876)6, estranhamente, acrescentava que «em breve estarei longe do Porto para lhe poder responder»7. Ora o que tinha Freitas em vista senão atingir Junqueiro? Dizia ele que partiria para o Brasil. Estava insatisfeito com a realidade pátria? Ou temia não ter tanta razão como julgava? Por que razão saía para o Brasil e só de lá responderia? Estaria a querer equiparar-se ao Padre António Vieira, ao apresentar-se como perseguido no seu país?!

 

Estávamos, então, no ano de 1876 e, de novo, a questão religiosa em Portugal se reacendia. Uma faúlha era o suficiente para atear o incêndio das divergências ideológicas, no domínio do poder eclesiástico. E tudo, rapidamente, se ia transformando em conflitos, em difamações, em explosões de raiva, em atritos exacerbados, em desavenças insultuosas. Mas, o grande escândalo em 1876, era, sem dúvida, o jovem Junqueiro ter prefaciado a obra Caricaturas em Prosa. E, nesse mesmo ano, Junqueiro tinha ido mesmo mais longe. Ele escrevera um poema satírico «talvez à mesa dum café do Porto, talvez no Suíço, talvez no Camacho numa das noites dos dias 29 ou 30 de Julho». Aí podia ter estado um dos redactores de A Folha Nova, mas não pensava Junqueiro publicá-lo. Era tosco, pouco cuidado no estilo, escrevera-o num momento de incontida emoção… Talvez mais tarde, entre muitos outros, de acordo com a sua cuidada revisão estética, o viesse a dar à estampa...

 

 Só que, sem que Junqueiro tivesse conhecimento, o poema apareceria publicado, em 1881, no jornal A Folha Nova, com o título «Littré e o padre Sena Freitas». Logo nos primeiros versos, podia ler-se: «Ó malandro sagrado, ó padre Sena Freitas, / As tonsuras que tens deviam ser-te feitas / Não sobre a nuca, mas, ó padre, n’essa crina, / Levita de aldrabão, jumento de batina (…)»8. Isto acontece (o que não deixa de espantar) logo a seguir a um sermão feito, em 1881, pelo mesmo padre Sena (o do “livro péssimo”) precisamente na missa em que celebrara a morte de Littré, um positivista que se tornara um paladino da Igreja Católica Romana. As palavras de Sena Freitas acirravam os ânimos. Urgia contestação, mas o rebelde Junqueiro estava silencioso…

 

Então, que melhor ocasião que esta, para ser publicado o poema satírico? E o jornal O Século não quer perder também a oportunidade de o publicar, pois o alvo é o padre Sena! Não fariam tais publicações eclodir mais uma guerrinha, tendo por campo de batalha a imprensa do país, tão ávida de sensacionalismo? E os artigos começam a sair em catadupa. A polémica reacende-se mais viva: no jornal A Folha Nova aparece um artigo a dar um “correctivo” ao padre Sena (6/7/1881): «Missas políticas devem ter remuneração arbitrária; cada qual paga-as conforme o préstimo que lhe atribui…»9.

 

Em O Comércio do Minho (Braga), há também insinuações, agora aos defensores de Junqueiro: «Todos os poetas invocam a musa como causa celeste, mas a do Sr. Junqueiro, emerge das regiões das trevas e das sentinas mais nojentas». A propósito, Henrique Manuel Pereira, lembra ainda que, como se escreve no jornal, «um padre exemplaríssimo foi insultado por Junqueiro, “o autor dum poema que se roja no mais imundo ceno e por isso não admira que descesse a linguagem tão infame, tão indecente e tão supinamente pulha”»10.

 

Reinstala-se, ainda mais condimentada, a polémica entre A Folha Nova do Porto e o Comércio do Minho de Braga. Poucos dias depois deste “diz tu, direi eu” jornalístico, surgem, finalmente, as palavras serenas de Junqueiro impressas numa carta (18 de Julho de 1881) ao director do A Folha Nova. Escrevia Junqueiro: «publicou-se há dias, sem a minha autorização, uma poesia firmada com o meu nome e intitulada Littré e o padre Sena de Freitas (…) Os versos eram uma simples rapaziada literária dum jacobinismo de mau gosto e de que eu nunca mais me houvera recordado, se não os visse neste momento impressos»11.  Mas à carta não foi dada publicidade… Guerra Junqueiro que era colaborador de A Folha Nova, durante muito tempo deixou de lhes mandar trabalhos com a sua assinatura, diz-nos Henrique Manuel Pereira, o analista dos “correctivos” polémicos em torno da pena de A Velhice do Padre Eterno. Como acentua, a carta de Junqueiro só teria sido publicitada, após a sua impressão em Junqueiriana, uma obra de pouca divulgação e que só saiu do prelo no ano de 1921…

 

Finalmente, em 1885, Junqueiro dava à estampa a intempestiva sátira às instituições e aos membros da Igreja Católica, sem poupar os maus exemplos que dela provinham: A Velhice do Padre Eterno foi editada, em 1ª edição, no Porto. Vivia então o padre Sena Freitas no Brasil, mais precisamente na cidade de S. Paulo. Isso não obstou que lhe desferisse um inclemente “correctivo”, logo no ano seguinte, em 1886. Chamou-lhe Autópsia à Velhice do Padre Eterno. Como escreve Henrique Manuel Pereira nesta reflexão histórico-literária, o autor de Os Simples, «não deu resposta à Autópsia de Sena Freitas»12. Coisa estranha para os cronistas dos jornais... Como podia ser isto?

 

Na verdade, Junqueiro não lhe deu a pesada vergastada que seria natural. E, o próprio Camilo Castelo Branco o previu, como sabemos pela carta com que respondeu ao seu amigo padre Sena: «V. Ex.ª deve contar com a resposta»13. Por sua vez, o autor de A Velhice do Padre Eterno também enviara um exemplar da obra a Camilo e, como nota Henrique Manuel Pereira, também juntara uma carta em que lhe confidenciava: «quer me fumeguem com incenso de noticiário, quer me caustiquem com vitríolo de mau humor e de calúnias, eu fico e ficarei sempre numa placidez de indiferença, num encolher de ombros desdenhoso»14. É bem natural que Junqueiro não esperasse da parte de Camilo (apesar da relação amistosa entre o padre e Camilo) qualquer “correctivo”, qualquer admoestação. E isto porque Camilo também fora um irreverente, um homem indiferente às moralizações católicas, um escritor sarcástico com a sociedade a viver de artificialismos. Pouco propenso a cumprir com os rigores da Santa Madre Igreja − a sua vida amorosa tão instável que culminou com o adultério com Ana Plácido, a rejeição do casamento católico durante 35 anos de vida em comunhão com Ana Plácido (tudo talvez consequência do arranjo familiar que o conduziu a um casamento católico aos 15 anos), as suas sarcásticas intervenções jornalísticas, os seus romances caústicos com os costumes da classe endinheirada, o seu arreigado desprezo pelos costumes burgueses, não tornam estranha a sua complacência com Junqueiro e as suas irónicas vergastadas eclesiais.

 

De estranhar é que o facto do acima citado poema satírico Littré e o Padre Sena Freitas (escrito por Junqueiro em 1876) vir a ser publicado em Poesias Colligidas por Cruz Coutinho no ano de 1886, logo após a publicação de Autópsia à Velhice do Padre Eterno, escrito pelo padre Sena, em reacção à Velhice… Essas poesias coligidas eram, segundo Henrique Manuel Pereira, fraudulentas, por terem sido dadas a lume sem conhecimento do próprio Guerra Junqueiro. E porque razão irem-lhe publicar este acervo com o polémico poema satírico de 1876 incluído? Por que razão o seu autor o havia de desconhecer? Qual o objectivo do “recolector” Cruz Coutinho, ao fazê-lo logo após o aparecimento da Autópsia do padre Sena?

 

Tudo leva a pensar, diz-nos Henrique Manuel Pereira, neste seu opúsculo, que, como o Poeta de Oração ao Pão não contestou a mordaz Autópsia do padre Sena, era urgente para os jornais trazer algum poema de sua autoria, “a agredir Freitas violentamente”. E que melhor poema do que aquele escrito em 1876, a propósito do artigo em que Sena atacava, sem meias medidas, o livro Caricaturas em Prosa com o Prefácio favorável de Junqueiro? A “vingança” de Junqueiro aí estava, sem se fazer esperar, apressada e, como seria natural, inclemente. Era o que se pretendia que o leitor pensasse. Afinal, quem se lembraria ainda daquele poema de 1876, em que o jovem Junqueiro se confrontara com a leitura do artigo do padre Freitas no jornal A Palavra, escrito nesse mesmo ano de 1876, a atacá-lo veementemente por ter prefaciado Caricaturas em Prosa, esse livro «de um tal Luis de Andrade, que sai à rua pela mão de Guerra Junqueiro»15?

 

 Como sugere Henrique Manuel Pereira, estamos perante uma inequívoca feira de conflitos que começam sem se vislumbrar como acabam, de diatribes que ofendem sem chegar a um entendimento cordial, de confrontos,  ora reais ora forjados, conforme convém à “tribo” daqueles que ontem, como hoje, vivem dos frutos da desavença efémera, mas caústica, como um ferro em brasa.

 

Nesta «Polémica entre Sena de Freitas e Guerra Junqueiro − “Notas para um Correctivo”», Henrique Manuel Pereira conseguiu abrir um caminho para o desbravar da floresta em que se embrenham as linhas da controvérsia e da polémica ideológico-religiosa em Portugal. Nesta senda, ainda poderá avançar para os meandros enigmáticos que esta polémica, está à vista, encerra, se for explorada até à exaustão.   

 

 Em jeito de conclusão, não serão despiciendas estas palavras provindas do epílogo da obra Pátria, em que Junqueiro vê o estado de decadência da sua geração. Eis o sábio Junqueiro, a ver e a prever já o profético Finis Patriae (publicada, a 1ª edição, em 1890)… Este título augurava os rumos a que seria conduzida a Pátria portuguesa. Aqui estão as palavras de Junqueiro: «Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonha, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas»16.

 

   17 de Junho de 2008

 

Teresa Bernardino

 


 

1 Separata da revista BrigantiaRevista de Cultura, Vol. 27, nº 1/2/3/4, Bragança, 2007, p. 691.

2 Ibidem.

3 Ibidem, p. 693.

4 Ibidem, p.694.

5 Ibidem, p.697.

6 Ibidem, p.717.

7 Ibidem, p. 700.

8 Ibidem, p.701.

9 Ibidem, p. 707.

10 Ibidem, p.707.

11 Ibidem, p. 709.

12 Ibidem, p. 713.

13 in Sena Freitas, Perfil de Camilo Castelo Branco, Caixotim, Porto, 2005, p.128.

14 Ob.Cit., p. 714.

15 Ibidem, p.717.

16 «Anotações» in Guerra Junqueiro, Pátria, 3ª edição, Porto, 1915, p. 191 (1ª edição, 1896).

 

 

Fonte: Internet, www.harmoniadomundo.net (17/6/2008); Poetas & Trovadores (jornal editado em Guimarães), Julho/Setembro, 2008, 3ª série, nº 46; Notícias de S. Braz (jornal de S. Brás de Alportel), publicado  nos números de Agosto, Setembro e Outubro de 2008 (dividido em três partes).
 

 

 

 

 

GUERRA JUNQUEIRO, POLÉMICO ONTEM E HOJE

 

 

“Para isso combina os vários elementos

Que compõem esta droga: o nome de Maria,

Anjos e querubins, infernos e tormentos,

Bastante estupidez e imensa hipocrisia.”

(G. Junqueiro, A Velhice do Padre Eterno)

 

 

 

 

No seu périplo pela figura de Guerra Junqueiro, especialmente pelos locais que o seduziram, pela epistolário daqueles com que travou o diálogo da escrita, pela poesia com que arrasou os alicerces da Igreja Católica ou que o redimiu desses excessos difamatórios, Henrique Manuel S. Pereira, oferece-nos agora Guerra Junqueiro - Percursos e Afinidades (Lisboa, Roma Editora, 2005).

Esta obra é formada por um conjunto de textos escritos entre 1996 e 2005. Abordando a topografia literária do autor de Horas de Combate, lembra a questão do semitismo, as relações do autor de A Velhice do Padre Eterno com o Brasil, e a temática espírita das Rimas do Além-Túmulo.

Neste acervo de textos, Henrique Manuel Pereira faz-nos um curioso «Mapa» da estranha amizade com Teixeira de Pascoaes e anotações eloquentes a propósito dos Contos para a Infância e da Tragédia Infantil (publicados em 1877) (p.141).

Finalmente, surge ainda uma referência detalhada ao Fundo Bibliográfico, designado por Junqueiriana, ao inventariar o espólio que divide do seguinte modo: «Obras de Junqueiro» (100 obras entre primeiras e mais edições), «Restantes Obras sobre o Poeta» (293 obras) e «Índice Onomástico».

Olhar dos vários ângulos possíveis e no confronto com os inúmeros pontos de vista, tanto contemporâneos, como posteriores à morte do Poeta, célebre sobretudo pela sua veia sarcástica em relação a Deus e à Igreja Católica, não pôde deixar de ser uma tarefa difícil e controversa.

Mas, como Henrique Manuel Pereira escreve nesta sua publicação, «muitos dos trabalhos sobre o poeta são deformação do homem, outros fotografia desfocada e sem profundidade de campo que nos dê o seu contexto mais próximo, real e cru, sem eufemismos ou enfeudamentos» (p.47). Um exemplo é precisamente «a questão do semitismo de Guerra Junqueiro, (…) objecto de acesas discussões e irónicas caricaturas» (p.48).

Entre o radical António Sardinha para quem «as taras de que enferma a mentalidade israelita, pululam à farta na obra de Guerra Junqueiro» (p.50) e o abade de Baçal que afirma serem «os descendentes de António Madeira e Ana Afonso, ambos de Freixo, (e terem) sangue judaico do lado desta» (p.54), outra pergunta se coloca ao autor de Guerra Junqueiro - Percursos e Afinidades: seria ele «Cigano»? E Henrique Manuel Pereira argumenta com uma passagem de Francisco Fernandes Lopes, datada do ano do Primeiro Centenário do Nascimento do Poeta: «O motivo por que Guerra Junqueiro não era ‘judeu’: – pela simples razão de que era “cigano”» (pp.54-55).

Numa tentativa de ajuizar sobre o imbróglio, o autor recorre ainda ao testemunho do «capitão Barros Bastos, homem que empreendeu o resgate dos judeus em Portugal» e que «afirmava sem reticências a ascendência semita de Junqueiro» (p.57). Segundo Henrique Manuel Pereira, o abade de Baçal, o conceituado historiador de Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança, deixou a questão em aberto provavelmente por duas equiparáveis razões: «uma questão de rigor ou mais por prudência» (p.58).

Em Guerra Junqueiro - Percursos e Afinidades, é curiosa a pesquisa às sátiras feitas a Junqueiro, em particular, à obra A Velhice do Padre Eterno, publicada em 1885. Henrique Manuel Pereira começa por relacioná-las com as paródias feitas por autores que nos são hoje pouco ou nada familiares. A maioria dos casos são folhetos de 10 a 15 páginas.

De facto, A Velhice foi a «obra que, mais do que nenhuma outra, contribuiu para fortalecer entre nós a corrente anti-clerical, provocando grande impacto mesmo antes de ser publicada» (p.207). E Junqueiro, bem lúcido da gravidade do conteúdo dos seus versos, não tendo dúvidas sobre a contestação que se lhe seguiria, escreveu numa carta ao amigo Luís de Magalhães: «(…) a Velhice só pode ser posta à venda no dia 20. A razão é simples. No dia 19 vou a Braga e daí para o Porto. Ora, se o livro aparecesse no dia 18, arriscava-me a ir a Braga para a Eternidade com a cabeça partida por algum hissope» (p.207).

     Neste ambiente inconformado com as diatribes rancorosas e inclementes com Deus, com Cristo e a Sua Igreja, a Velhice do Padre Eterno, é parodiada pela Folha Nova com a paródia A Velhice da Madre Eterna  subscrita por Marraschino & C.ª. A identificação deste «controverso pseudónimo» será feita logo a seguir com mais alguns documentos, terminando Henrique Manuel Pereira com a passagem em que Marraschino & C.ª acaba por fazer uma respeitosa vénia ao Poeta dos Simples: «Marraschino & C.ª, sociedade trocista de gargalhada permanente depõe as pennas galhofeiras aos pés de Junqueiro (…) – o poeta colossal cuja lyra é um Hymalaia de tropos luminosíssimos e aos pés de Bordallo Pinheiro – o implacavel demolidor d’esta sociedade apodrecida e balofa. Ambos elles são uma força e foi à sombra d’esta honrada e gloriosa força que marraschino teve a petulância de flanar um pouco pelos domínios do escândalo alegre e da cebola» (p.213).

     Na verdade, a ambiguidade do documento acima citado por Henrique Manuel Pereira, mostra bem como o prestígio literário de Guerra Junqueiro se acabou por sobrepor (e continua a sobrepor) à fé e à discordância de muitos a quem ele feriu os mais fundos sentimentos religiosos.

     É sempre difícil não ver alguma desculpabilização para aqueles que, idolatrados pela política ou pela cultura do seu tempo, investem desmedidamente sobre temáticas que, sabem à partida, quanta popularidade lhes vai granjear. E a temática anti-religiosa é mesmo uma das mais promissoras formas de alcançar louvores e glória entre as hostes dos inimigos da Fé.

 

Teresa Ferrer Passos


 

 

 

Fonte: Voz Portucalense (Porto), 14/6/2006; Suplemento das Artes das Letras in O Primeiro de Janeiro), 10/4/2006; A Avezinha (Albufeira), 18/5/2005;Internet, www.TriploV.com, 18/4/2005; www.harmoniadomundo.net (17/6/2008).

 

 

 

 

                                                                                 

 

NOVOS SENTIDOS DE UM OLHAR

 

 

 

 

     Com a marca dos dias efémeros surgiu, pouco antes do Natal de 2002, o livro Mas Há Sinais… (ed.Paulinas) da autoria de Henrique Manuel (também assina por Henrique Manuel Pereira). Trata-se de um desses livros tão clarificadores, tão transparentes, tão abertos que o consideramos semelhante a uma quadrícula de caderno escolar, e, ao mesmo tempo, ao lê-lo, com atenção, descobrimos, em cada uma das suas páginas, as profundezas da razão, os enigmas do espírito, as diatribes das palavras todas feitas de carne a sangrar e a atingir, mesmo assim, as montanhas das coisas sagradas.

     Em Mas há Sinais…, Henrique Manuel escavou, no silêncio e na meditação, toda a riqueza presente nas pequeninas coisas que passam, às vezes, tão despercebidas e em que nos movemos ao longo de cada um dos nossos dias. Em comportamentos desse dia a dia, a que poucos dão importância, desvenda o autor sentidos de solidariedade ou de desprezo, de comunhão ou de egoísmo, de procura ou de desencontro. Ante esses sentimentos antagónicos, vagos, a aniquilar a beleza interior de cada pessoa, Henrique Manuel propõe uma nova emoção, que se deverá traduzir em novas maneiras de responder aos desafios. Uma nova emoção a conduzir, em última instância, aqui e agora, ao erguer de uma outra morada. A morada da felicidade de si para o outro e do outro para si. Como se fossem o «outro» e o «eu» vasos comunicantes, que misturam conteúdos, sem perderem as suas propriedades e valor próprio. E esta felicidade edifica-se com «o ritmo da natureza – um diálogo entre a paciência e a persistência – tão diferente da resignação!» (p.43). E, mais adiante, questiona: «Quantas vezes não fazemos nada só com medo de fazermos pouco?» (p.66) E, em outra passagem: «Não nos arriscamos a seguir pura e simplesmente a voz do amor e perdemos dia após dia o paraíso» (p.101). Tudo isto para escalar a montanha de ser feliz, porque essa é a meta a atingir por cada um de nós, se não queremos perder o tempo que Deus nos oferece desde o princípio do mundo: «Seja hoje outro o teu riso; a tua alegria tão real / que as próprias aves te confundam com a primavera. //(…) Aí tens este dia como um sulco por semear. / Sê hoje feliz. É-me absolutamente necessário que o sejas» (p.129).

    Sim, há aqui, na verdade, sinais. E, um deles,  bem a transparecer, é o próprio autor desta obra, tão imbuída de simplicidade. Sinais de que um jovem de trinta e poucos anos pode ser hoje, ao mesmo tempo, um contemplativo da acção, um pensador dos mistérios que a vida humana provoca, um poeta da emoção, um cultor da escrita diarística ou auto-biográfica a perpassar em cada momento inesperado.

     Estamos com um livro bem singular, em que poemas e textos de prosa se entrelaçam, todos eles eivados de um bem estruturado pensamento ético-normativo, exemplar da corrente de pensamento cristã-personalista. Encontramos, igualmente, nesta recolha de escritos aparentemente fragmentários, mas na realidade com uma univocidade constante, o género sentencioso das pequenas histórias do tipo fábula sempre com sábios exemplos para a vida. Está aqui, a percorrer estas páginas, o poeta que tece os seus poemas com arte e como se fossem outros tantos cânticos de sabedoria desfiados em fios de luz. São também eles motivados pelos sentidos maiores da acção humana.

     Henrique Manuel faz neste seu livro transparecer a sua alma inquieta, mas traduz essa inquietação com a lucidez própria de um espírito forte, que escreve as palavras de si para os outros como se não saindo de si, todo tomando pleno sentido nos outros.

    Estamos perante uma obra que já foi transmitida oralmente através da Rádio Renascença. As suas páginas foram escritas como se cada hora desenhasse, antes de tudo, um novo passo para aprender a viver: «Se aceitamos a dureza de um momento, o enfrentamos e aprendemos com ele, então crescemos. A crise passa» (p.146). E o autor atinge o voo largo dos instantes: «Mesmo com olhos cansados e o coração cinzelado por cicatrizes, não olhar para trás e fitar o futuro, sempre atentos à plenitude de cada momento» (p.152).

    Nestes escritos para o diálogo, o autor expõe e expõe-se como se não quisesse deixar de ser um desses a quem se pretende dirigir. O autor também sofre, tem medo, sonha, não aceita, confia ou duvida. Ele próprio é um dos seus ouvintes ou leitores. Esta uma das suas mais relevantes características.