DÁRIO MOREIRA DE CASTRO ALVES
(1927-2010)
O Embaixador brasileiro Dário Moreira de Castro Alves nasceu em Fortaleza, Ceará, no dia 14 de Dezembro de 1927. Concluiu o curso de Ciências Jurídicas e Sociais na Faculdade de Direito da Universidade Católica do Rio de Janeiro. Em 1949, ingressou na carreira diplomática. Exerceu postos diplomáticos em Buenos Aires, nas Nações Unidas, Moscovo e Roma. Em 1979, tornou-se embaixador do Brasil em Portugal. Entre 1983 e 1989, Dário Moreira de Castro Alves foi embaixador na Organização dos Estado Americanos, em Washington. Em Portugal, foi uma figura proeminente na divulgação da cultura brasileira. Aquando da sua estadia em Portugal, promoveu o intercâmbio com o Brasil, sobretudo no domínio da literatura luso-brasileira. O embaixador, membro do Conselho de Curadores da Fundação Luso-Brasileira para o Desenvolvimento do Mundo de Língua Portuguesa, foi Director do Centro de Estudos Brasileiros da Universidade Internacional de Lisboa. No ano de 1996, pertenceu, a convite da Directora, ao Conselho Consultivo da revista Gazeta do Mundo de Língua Portuguesa, com sede em Lisboa. Escreveu vários livros: Era Lisboa e Chovia (1984); Era Tormes e Amanhecia (1993); Dicionário Gastronómico Cultural de Eça de Queirós (1992); Luso-Brasilidades – nos 500 Anos e Dinah, Caríssima Dinah, entre outros. Foi premiado pela Fundação Casa da Cultura de Língua Portuguesa (Portugal/2001) e com a medalha Pushkin (Rússia/2003) por sua dedicação à literatura. Em Brasília, foi chefe do Gabinete do Ministro das Relações Exteriores, chefe de Administração da mesma pasta, secretário-geral e ministro interino das Relações Exteriores. Foi sócio efectivo do Instituto do Ceará desde 2004. Em 2006, concluiu, após nove anos de trabalho (para a editora Record) a tradução do romance (em verso) Eugênio Onegin de A. S. Pushkin, a partir do russo.
O embaixador Dário Castro Alves foi casado com a grande escritora brasileira Dinah Silveira de Queirós, falecida aquando da sua presença à frente da Embaixada do Brasil em Lisboa. Voltaria a casar com a empresária Rina também já falecida.
Grande amigo da intelectualidade lisboeta, adquiriu dupla nacionalidade. Sentia-se brasileiro, mas igualmente um luso-brasileiro; mais, sentiu-se sempre um cidadão do mundo.
Com uma vasta cultura literária, deixou-nos um acervo bibliográfico, na área da cultura portuguesa, de inegável qualidade.
Grande dinamizador de iniciativas respeitantes ao mundo da Lusofonia, o seu coração vivia, há muitos anos, dividido entre o Brasil e Portugal. De trato afável, mesmo carinhoso, possuía uma abertura ideológica assinalável. Era um Literato para quem não havia proscritos. Sem dúvida, um Homem na dimensão maior da palavra.
Tendo regressado há vários anos a Fortaleza, faleceu, nesta cidade, no dia 6 de Junho de 2010.
PROSA DISPERSA DO AUTOR
«(...) A primeira referência em Os Lusíadas sobre a existência da nova terra de Santa Cruz ocorre no Canto V, estrofe 14 (...) Camões na estrofe mencionada alude à "nova estrela" (o Cruzeiro do Sul), "lá no novo Hemisfério" (o Brasil, na América do Sul, de onde se avista aquela constelação, pela primeira vez registada pelos descobridores portugueses) (...) No canto X, Camões nas estrofes 139 e 140, ninfa Tetis descreve as regiões da África e da Ásia onde os portugueses se distinguiram, e depois as terras e os povos do mundo. E aí surge, na estrofe 140, alusão à terra de Santa Cruz, "co pau vermelho nota", isto é, conhecida pelo pau-brasil (a Cesalpínea echinata) que marcou a economia do Brasil no primeiro século de sua existência ligada a Portugal. (...)»
Dário Moreira de Castro Alves
Fonte: Dário Moreira de Castro Alves, «Luís de Camões e o Brasil», Gazeta de Poesia do Mundo de Língua Portuguesa, nº 3/4, Outono/Inverno, 1994, pp.83-84; Internet, www.harmoniadomundo.net (17/12/2008).
«MIGUEL TORGA – O BRASIL NO CORAÇÃO»
«Quem conhece e lê Miguel Torga sabe muito bem a verdade contida na afirmação de que desde a infância traz o Brasil no espírito e no coração, país que considera sua segunda Pátria. Em A Criação do Mundo, Miguel Torga conta como, numa segunda feira cheia de sol, uns bons vinte anos antes da adopção deste seu pseudónimo, o Brasil lhe apareceu visto da amurada de um paquete da Mala Real Inglesa, o Arlanza. (...) O menino de Trás-os-Montes despontou para a vida em Minas Gerais, conheceu mulher, apanhou doenças que procurou em vão esconder... coisas de rapaziada, nos intervalos das duras labutas, das experiências do fumo, da cachaça, das comidas da terra, da passoca, da rapadura, da carne seca. (...) Deixando na terra brasileira cinco anos de vida – "a alma magoada negava-se a cobrir de saudades prematuras esse chão já só vislumbrado, esquecida de que não guardava apenas dele imagens tristes". E à volta para a Europa... o menino já tabulado via o oceano tenebroso desvendando-se das sombras passadas, as vagas eram pregas de água feitas pelo vento, os peixes voadores e boémios distraiam os passageiros, vinham como de dentro de um sermão do Padre Vieira... (...)»
Dário Moreira de Castro Alves
Fonte: Dário Moreira de Castro Alves, «Miguel Torga — O Brasil no Coração» , Gazeta de Poesia/Especial Torga, nº5, Primavera/Verão,1995, pp. 38-39.
«UNIVERSALISMO DE MIGUEL TORGA* »
«(...) Nada mais justo e expressivo do que celebrar a memória de Torga nestes três meses e meio que já se escoaram desde o seu desaparecimento. E a beleza deste número da Gazeta que hoje se está a lançar se manifesta no carácter multifacético do que se escreve e se escreveu sobre ele. São quase 80 textos, de poesia ou de prosa (...).
Autenticidade e universalismo são seixos que rolam e se esmerilham arredondados ao longo da obra do Poeta. Falando no Centro Transmontano de São Paulo, em 1954, um quarto de século depois que, adolescente, chegara ao Brasil - ainda Adolfo Rocha - para de novo estar na terra de Santa Cruz — desta vez já Miguel Torga — disse o mestre de Orfeu Rebelde: «O Universal é o local sem paredes. É o autêntico que pode ser visto de todos os lados, e em todos os lados está certo, como a verdade». O universal, na dialéctica humana, não existe sem o tópico, o microcósmico, elevado ao plano maior da sensação de mensagem para todo o mundo. O homem universal é o homem local visto em toda sua pequenez e ao mesmo tempo grandeza. Gabriel Garcia Marques viu o mundo a partir de Macondo, em Cem Anos de Solidão. Também Jorge Amado o percebeu e interpretou a partir da Bahia. James Joyce, usando a técnica do monólogo interior, fez de Dublin o centro do mundo no período de 24 horas. Mas ouçamos, no volume V do Diário, nosso herói de hoje e de sempre, Miguel Torga: «Temos de conhecer a nossa terra. Mas conhecê-la por dentro, sem preocupações históricas, arqueológicas, políticas ou outras. Conhecê-la como se conhece a mulher que se ama, com quem se dorme e com quem se repartem as alegrias e tristezas». É esta a verdade do que é local e se faz universal, que se torna mensagem para o ontem, o hoje e o amanhã; no Ocidente como no Oriente; no Norte como no Sul. Meditemos com Júlio Correia: «Feito de carne e granito, o Poeta é infinito!»* Poucos portugueses compreenderam e explicaram como Torga, o homem português e a terra portuguesa.
Torga é poeta mesmo quando escreve como contista ou romancista e, sobretudo, nos dezasseis volumes do seu extenso Diário — obra sem paralelo na literatura portuguesa, e quem o diz é o amigo de mais de sessenta anos, Frederico de Moura — e nele «ressuma a mensagem poética quer quando se exprime em verso quer quando se exprime em prosa», com aquela fome sempre insatisfeita de ternura e beleza. E retomemos com António Arnaut:
«Miguel Torga, Torga da Montanha, / Homem de polo a polo, universal, / Rocha altiva do Marão, / Erecta, inteiriça, / Fincada no chão / De Portugal.»
Concluamos com o poeta francês: «O pássaro, mesmo quando anda, não pode esconder que tem asas».
* Palavras proferidas pelo Embaixador Dário Moreira de Castro Alves, na Embaixada do Brasil, em Lisboa, em 6 de Junho de 1995, como apresentação do número especial da Gazeta de Poesia dedicado à memória de Miguel Torga.
* Poema «Memorial» in Gazeta de Poesia - Especial Miguel Torga, nº5 (Primavera / Verão 1995), p.31.
Dário Moreira de Castro Alves
Fonte: Dário Moreira de Castro Alves, «Universalismo de Miguel Torga», Gazeta de Poesia, nº 6, Outono/Inverno 1995, p.82; Internet, www.harmoniadomundo.net (17/12/2008).
«Com este belo título veio à luz em São Paulo, há uns poucos anos, um livro de poesia de uma artista portuguesa que viveu quinze anos no Brasil do século passado e morreu no Rio de Janeiro. Chamava-se Eugénia Infante da Câmara, nascida em 1837, em Lisboa, onde foi menina-prodígio. Antes de completar quinze anos de idade, revelara forte personalidade quando se dirigiu sozinha ao Teatro do Ginásio, em Lisboa e, diante do empresário Santos Pitorra, submeteu-se a uma audaciosa prova, recitando em francês para ganhar um lugar de actriz. E a jovem passou no exame e assim iniciou a carreira teatral que mais tarde a levaria ao Brasil, onde foi e é muito mais conhecida do que em Portugal.
A menina Eugénia cresceu e desenvolveu com extrema precocidade suas qualidades de artista, tendo estreado no Teatro do Ginásio na noite de 20 de Fevereiro de 1852, dois meses antes de completar quinze anos, em récita de benefício que consistiu de duas burletas em um acto, Qual deles é o pai? e Qual delas é a mãe?, de uma comédia em três actos, Eram Elas, e de uma breve farsa musicada, A Parteira e o Dentista. Os êxitos de Eugénia em Lisboa a levaram a representar no Porto, onde estreou no Teatro São João. Lá publicou a obra Esboços Poéticos, um volume de 102 páginas, epigrafado com trechos de Camões, Vítor Hugo, Pinto Sampaio, e outros. Norlândio Meireles de Almeida, baiano, residente em São Paulo, dos maiores se não o maior conhecedor da vida e da obra do grande poeta brasileiro Castro Alves, prefaciou a recente edição de Segredos d'Alma, de autoria de Eugénia Câmara que se tornou, em Lisboa e no Porto, actriz, tradutora, declamadora, poetisa e empresária nos escassos sete anos que mediaram entre sua estreia tão precoce e a partida para o Brasil, em 1859. No país irmão veio a conquistar uma posição de extraordinário realce e visibilidade, não só por suas grandes qualidades artísticas e seus encantos pessoais mas pelas ligações amorosas com o poeta Castro Alves, de quem foi musa e inspiradora. Uma forte paixão os ligou e os fez ardorosos amantes. Aos dezassete anos, em 1863, o «poeta dos escravos», como assim foi cognominado, deixara transparecer sua admiração e enlevo amoroso por Eugénia Câmara, já amadurecida nos palcos de Lisboa, Porto e Rio de Janeiro. Cinco anos durou a paixão entre Castro Alves e Eugénia Câmara, tendo viajado juntos pela Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo, em actividades artísticas, espectáculos públicos teatrais e recitações com grande repercussão nacional. De 1859 a 1874, ano de sua morte, Eugénia Câmara foi louvada por todos os poetas, jornalistas, escritores (Machado de Assis inclusive), músicos e artistas brasileiros, excepto Tobias Barreto, rival de Castro Alves. Numa época em que o teatro e a lírica dominavam as emoções populares, Eugénia, ornada de beleza e graça, marcada por grande talento, deslumbrou os estudantes e os recifenses com o Gaiato de Lisboa, Dalila e tantas outras peças. Diz Norlândio Meireles de Almeida sobre Eugénia Câmara, citando Júlio Dantas, Leitão de Barros, Luís Gastão d'Escragnolle Dória, Jorge Amado (a quem chama o «castroalvista maior»), que nas férias de 1866/67 «em lua-de-mel, comendo no mesmo prato, bebendo no mesmo copo, falando a mesma linguagem de amor, pertenciam um ao outro, ele era dela e ela era dele. Agradecido e feliz , Castro Alves escreveu o drama Gonzaga ou a Revolução de Minas, ao lado de sua musa inspiradora que seria no palco Maria Doroteia de Seixas Brandão (Marília de Dirceu)».
Como os poetas do tempo, a tísica – ou «héctica» para usar de palavra corrente em Camilo – se apoderou de Castro Alves. Em 1868, os amantes se separaram. Sobreveio um ano depois o desastre numa caçada de que resultou para Castro Alves a amputação de um pé. Era sensível o declínio de seu estado de saúde. Em 17 de Novembro de 1869 escreveu um poema de despedida, Adeus, a que Eugénia logo responde com versos do mesmo título. Diz o poeta: «Adeus! P'ra sempre adeus! A voz dos ventos/chama por mim batendo contra as fragas/Eu vou partir.../». Eugénia também se despede mas pede que evite «esse jamais». O poeta das Espumas Flutuantes morreu na Bahia em 6 de Julho de 1871, numa tarde, junto a uma janela banhada em sol como tinha pedido. Tinha 24 anos incompletos. Poucos meses antes declamara em público num encontro de benefício em favor de crianças desvalidas em consequência da guerra franco-prussiana. A Bahia consternada enterrou-o sob flores e lágrimas. O jovem poeta, arauto da abolição da escravatura, e da República, cresceu ainda mais depois de morto, alcançando a glória. Não há brasileiro que não lhe conheça o nome e se contam aos milhões os que dele sabem recitar alguns versos. Quanto a Eugénia Câmara, seu próprio talento a exaltou para sempre no Brasil. A proximidade com o poeta ajudou a perpetuação de sua figura e de seu nome.
Em Novembro de 1873, mais de dois anos depois do falecimento do poeta, Eugénia Câmara casava com o violinista, regente e actor António de Assis Osternold. Mas já não estava longe de deixar este mundo. Seis meses depois, fazia a sua última apresentação, interpretando o papel do menino José na comédia-drama O Gaiato de Lisboa, vindo a falecer de encefalite quatro dias depois, em 28 de Maio de 1874, no Rio de Janeiro, aos 37 anos. A primeira edição de Segredos d'Alma data de 1864 e veio à estampa em Fortaleza, no Ceará.
Conclui Norlândio Meireles de Almeida sua apresentação da nova edição dos versos de Eugénia Câmara com a afirmação de que, com os meios de comunicação com que contamos hoje, a actriz portuguesa, grande amor de Castro Alves, seria símbolo popular de sucesso universal.»
Dário Moreira de Castro Alves
Fonte: Gazeta do Mundo de Língua Portuguesa, nº 7, Primavera/Verão, 1996, pp.10-11; Internet, www.harmoniadomundo.net (17/12/2008).
«No dia 17 se realizou em Lisboa a Cimeira dos sete países da língua portuguesa —Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe — para aprovar os estatutos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, já por unanimidade objecto de acordo do Ministros dos Negócios Estrangeiros e das Relações Exteriores na reunião havida em Maputo, em 18 de Abril último. Para trás, em 1994, ficaram as tentativas, por duas vezes adiadas, do acto da constituição da CPLP, agora a ser formalizada como uma realidade ainda modesta mas a assinalar um futuro que se espera brilhante em criatividade e realizações, na dependência da vontade política dos Estados envolvidos no notável projecto.
Para utilizar conceitos do Presidente Itamar Franco e do Embaixador José Aparecido de Oliveira, que pioneiramente se bateram pela iniciativa, surgiu, no novo quadro político do início desta década, a «oportunidade histórica» de construção da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, cujo antecedente próximo foi a criação do Instituto Internacional da Língua Portuguesa, em 1989, em encontro dos sete países lusófonos realizado em São Luiz do Maranhão, no Brasil. Aquela cimeira, que se deu por convite do Presidente José Sarney, foi na verdade a primeira, com a sábia flexibilidade de se ter aceito que, por motivos relevantes, o Presidente de Angola se fizesse representar por seu ministro dos negócios estrangeiros. O encontro do Manranhão foi pioneiro, como o foi o encontro dos Ministros dos Negócios Estrangeiros e das Relações Exteriores dos sete países lusófonos em Brasília, em 10 de Fevereiro de 1994, em que foram definidas em pontos concretos as bases da cooperação que se praticaria entre os sete países, bases que transcendem a área cultural e se projectam na área económica, empresarial e do desenvolvimento económico-social. A CPLP não subsistirá sem a programação e cumprimento de uma «agenda de amizade e cooperação» entre seus integrantes, em busca do aprofundamento da aproximação e do real progresso das populações mais atrasadas envolvidas. Sem esse componente económico-social na estruturação da comunidade, como aliás têm feito sentir certos dirigentes africanos, o esforço político e diplomático empregado em todo esse processo seria marcado por frustrações e desenganos.
Basta uma rápida visão dos elementos mais simples que definem o perfil geográfico, humano e macro-económico dos sete países para logo aferir as amplas diversidades que prevalecem entre os sete. Em primeiro lugar, assinale-se que não constituem eles uma unidade geo-económica, nem mesmo parcialmente, como é o caso da União Europeia, da ASEAN, da NAFTA, para ficar só em poucos exemplos. A CPLP não apresenta em sua constituição nenhum caso de contiguidade territorial. Esta condição talássica não é, porém, um impedimento que ponha travão ao processo, é um desafio a mais. Em segundo, há um país como o Brasil, com um PIB que este ano alcançará 600 mil milhões de dólares, e outro, como S. Tomé e Príncipe, com um PIB de 50 milhões de dólares. Há Portugal com uma renda per capita de perto de 9 mil dólares e há Moçambique em que a renda média do cidadão é de 120 dólares. Para não estender mais a dimensão dos contrastes, por aqui fiquemos mas para concluir que é tarefa tão importante, de um ponto de vista histórico, cultural e estratégico defender, preservar e expandir a língua portuguesa, como o é , do ponto de vista económico-sócio-humano colaborar de forma sensível e com clara vontade política para o desenvolvimento das nações mais atrasadas da comunidade. Nem precisaria acentuar que, no quadro da absoluta igualdade soberana dos Sete, responsabilidades primordiais em todo o processo incumbem ao Brasil e a Portugal.
É certo que as elites governamentais e a sociedade civil num e noutro lado do Atlântico estão conscientes da missão que lhes toca de tornar viável um projecto de cooperação — e esta é um caminho de muitas vias — que traga benefícios para todos. No Brasil estão fortemente empenhados o Presidente Fernando Henrique Cardoso, o Ministro Luís Filipe Lampreia, o qual participou do encontro de Abril último em Maputo, como em Portugal são também extremamente positivos os compromissos do novo Governo chefiado por António Guterres sobre o tema, que foi objecto de uma pregação constante por parte de Mário Soares como é agora pelo Presidente Jorge Sampaio. Portugal e Brasil devem dar-se as mãos sem restrições, em atitude de objectividade e transparência, com as cartas à mesa, pelo êxito da iniciativa que hoje é de todos. Impõe-se tudo fazer — a herança é da história — para defender a língua de Camões em África e Ásia, Timor inclusive. Ela pode ser vulnerada, não por causa do acto em si de adesão a tal ou qual outra comunidade, mas sim pela pressão da demanda de línguas exógenas em função do incremento de contactos num mapa «glotopolítico» que já de si favorece outros idiomas. A cooperação económica, comercial, empresarial, cultural entre os países lusófonos, se eficazmente bem conduzida, há-de potenciar também a demanda do idioma português, colmatar espaços que correriam o risco, no âmbito de duas ou três gerações — curto tempo na vida das nações — de passar para o domínio de outras culturas, outras línguas. Este é um dos grandes desafios da lusofonia com a criação da CPLP. Mais do que falar, é preciso agora agir. Como Jean Monnet e Maurice Schuman fizeram em 1950, quando então lançaram as bases do que viria a ser a União Europeia de hoje, é preciso ver longe, saber perscrutar o futuro, com a concha da mão à testa.
Dário Moreira de Castro Alves
Fonte: Dário Moreira de Castro Alves, «A C.P.L.P.», Gazeta do Mundo de Língua Portuguesa, nº 8, Outono/Inverno, 1996, pp.55-57; Internet, www.harmoniadomundo.net (15/12/2008).
«AS BASES PROFUNDAS DA CONSTRUÇÃO DO BRASIL»
Diz Jorge Couto em sua obra A Construção do Brasil, publicada este ano em Lisboa, que a sociedade brasileira é o resultado de um profundo processo de miscigenação biológica e cultural que remonta ao início mesmo do contacto dos portugueses com o elemento ameríndio da terra brasileira, tendo-se revestido, na primeira fase, de um carácter exclusivamente euro-americano, para depois abranger, a partir da segunda metade dos anos Quinhentos, a componente africana.
A miscigenação entre portugueses e mulheres indígenas passou a ocorrer antes mesmo do início da colonização do Brasil, que só adveio pouco mais de 30 anos após a descoberta, ou melhor, do «achamento» da terra de Vera Cruz – o primeiro nome do Brasil, pois a carta do escrivão da frota, Pêro Vaz de Caminha, é datada da «ilha de Vera Cruz», em primeiro dia de Maio de !500. Os precursores da miscigenação – que ia trazer profundas repercussões na formação dos contornos étnicos, demográficos e culturais do Brasil – foram os «lançados», os náufragos, os desertores ou os degredados, primitivos habitantes daquele Brasil alvorecente. A extensão do processo inter-racial para depois abranger também o elemento negro deu as bases da composição étnica do país, a que tão significativamente alude o excelente estudo de Jorge Couto e o próprio título do livro, A Construção do Brasil. Foi assim que o país começou a ser construído socialmente.
Exemplos primitivos dessa forma de início de «povoamento» da terra brasileira constam na própria carta do achamento do Brasil quando o escrivão diz a Sua Alteza, em duas ocasiões em sua parte final, «que ficam na terra dois degredados e com eles mais dois grumetes» que saíram da nau, num barco, fugidos para terra. São vários os relatos das primeiras décadas do século sobre a presença de degredados lusos que tiveram descendentes de uma e mais mulheres silvícolas. Foi o caso do conhecido pelo nome de Bacharel, e que viveu muitos anos no litoral paulista. Filhas dele e de várias mulheres vieram a casar com náufragos europeus. João Ramalho e António Rodrigues foram pioneiros da miscigenação no planalto de Piratininga (São Paulo). O primeiro, que em 1532 ajudou Martim Afonso de Sousa a fundar S. Vicente, a primeira vila do Brasil, casou com Bartira, filha do morubixaba (cacique) Tibiriçá. Uma outra descendente de Tibiriçá casou com o português de nome Pêro Dias, antigo irmão jesuíta que obteve dispensa dos votos de celibato. Essas ligações entre portugueses e mulheres indígenas – afirma Jorge Couto – estão na origem de alguns dos mais importantes troncos paulistas. Na São Paulo de nossos dias, em homenagem ao par luso-tupi, as ruas João Ramalho e Bartira são vizinhas e paralelas, num bairro residencial na região oeste da cidade.
Diogo Alvares, o Caramuru, náufrago português (nascido em Viana do Castelo ?) aparecido nas costas da Bahia, em 1510, foi recolhido pelos silvícolas aos quais maravilhou com um tiro de espingarda, devendo-se sua alcunha ao nome de um grande peixe do mar. Teve larga prole de sua relação com a índia Paraguaçu, que pelo baptismo veio a chamar-se Catarina Alvares. Suas filhas casaram com europeus de posição, designadamente Paulo Dias Adorno, Custódio Rodrigues Correia, João Figueiredo. Três dos seus filhos (Gaspar, Gabriel e Jorge Alvares) foram armados cavaleiros por Tomé de Sousa, o primeiro Governador Geral do Brasil (1549-1553). As primeiras famílias baianas também resultam – assinala-o Jorge Couto – da miscigenação entre lusitanos e indígenas.
Em Pernambuco um exemplo conspícuo foi dado por Jerónimo de Albuquerque, cunhado do donatário da capitania, Duarte Coelho, que se relacionou com a filha do chefe indígena Arcoverde, depois do baptismo Maria do Espírito Santo Arcoverde, bem como com outras silvícolas com as quais teve larga descendência, o que lhe valeu o epíteto de «Adão pernambucano». Uma de suas filhas, Catarina de Albuquerque, casou com o florentino Filipe Cavalcanti, tronco da família pernambucana homónima. Os descendestes de portugueses e índias eram designados por mameluco (pelo tom cobreado da pele se pareciam com os mamelucos do Egipto), sendo os filhos de índios com mamelucas (mestiços de segunda geração) conhecidos por curiboca. Com a vinda de africanos, surgiram quatro categorias étnicas: o mulato, mestiço de branco com negra; o pardo, filho de pai branco e mão mulata; o cafuso, filho de negro e índia; o cabra, filho de negro e mulata. Os descendentes de pai e mãe europeus eram cognominados de mazombos e os nascidos no Brasil de pai e mãe negros eram os crioulos.
O livro de Jorge Couto cobre o espectro amplo do conjunto dos factos que marcaram a construção do Brasil no primeiro século de seu existir português. Tudo lá está nessa obra, que já chegou à Espanha em tradução castelhana: a proto-história étnica, o achamento, o Tratado de Tordesilhas e o significado do alargamento do meridiano luso-castelhano de partilha do Atlântico, a viagem de Duarte Pacheco Pereira ao Continente Americano antes de Alvares Cabral, como descrita em 1505-7 na obra Esmeraldo de Situ Orbis, a integração da nova terra no contexto do Império, o início em 1549 do Governo Geral do Brasil, a França Antárctica, a disputa estrangeira pela terra brasileira, a fundação do primeiro núcleo colonizador no litoral paulista, a Bahia, o Rio de Janeiro, a economia e a cultura canavieira, a escravidão, a missionação religiosa, os cronistas que à época escreveram sobre o Brasil, e tantos e tantos mais temas sobre a construção do que vem a ser a maior realização dos portugueses fora de suas fronteiras: o Brasil. Obra de leitura indispensável para interessados em história e leitores em geral.
Dário Moreira de Castro Alves
Fonte: Dário Moreira de Castro Alves, «As Bases Profundas da Construção do Brasil», Gazeta do Mundo de Língua Portuguesa, nº 8, Outono/Inverno, 1996, pp.58-60; Internet, www.harmoniadomundo.net (15/12/2008).
O SEGREDO DE ANA PLÁCIDO[1]
Ao completarem-se, em 27 de Setembro de 1995, cem anos da morte de Ana Plácido, seu nome, sua criação literária e sobretudo sua vida, e não apenas a dela, mas a de Camilo Castelo Branco, foram objecto de rememorações, análises e evocações. Tão poderosa, porém, foi a figura de Camilo na vida literária e social do Portugal do século XIX e não só, que no centenário da morte da mulher fatal do torturado de Ceide, o foco das evocações se dirigiu sobretudo para a pessoa dele – sua vida, suas transposições da vida para a ficção, suas mulheres, em suma, o próprio Romance do Romancista como o disse Alberto Pimentel em livro de consulta obrigatória, é a primeira biografia que surgiu sobre a vida e a obra do grande mestre no próprio ano do seu trágico fim.
Escritores debruçaram-se, em Vila Nova de Famalicão, em colóquio promovido pela Fundação Cupertino de Miranda, sobre «A Mulher na vida e obra de Camilo». Teresa Ferrer Passos dedicou seu estudo a Ana Plácido – sua vida literária, sua relação com Camilo, suas frustrações, trabalho admirável sobre o conjunto de escritos fragmentários, dispersos em jornais, cartas e livros de memória. Deixou Ana uma obra romanesca incompleta – talvez uma bela «sinfonia incompleta». Assinala Teresa Passos que Ana Plácido, de convicções fortes e rebeldia varonil, na definição do próprio Camilo, vai perdendo, ao lado do companheiro escritor, já com mais de vinte livros publicados ao rondar os trinta anos de idade, seu impulso para as letras que tanto a seduziam. O amante esposo – «a quem amava como a um Deus ou de quem Deus teria ciúmes», assim confessa – torna-se-lhe tão obsessivamente grande que não se sentirá ela ridícula, ao tentar a carreira literária para ser uma romancista de renome?
Mas tributo maior prestado a Ana Plácido por Teresa Ferrer Passos é o romance ora lançado nesta Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, O Segredo de Ana Plácido. É a amante de Camilo na narrativa alucinada e alucinante de Jorge, o filho louco que desfruta desde a infância da «liberdade de ser louco». No seu raconto, ele e Manuel viveram o crime do nascimento, ainda em vida de Pinheiro Alves. De Nuno, o terceiro filho de Ana e Camilo, diz Jorge que não prestava atenção à lei sob a qual nascera (nasceu depois da tempestade) mas esse irmão afortunado morreria aos 19 anos. O louco Jorge confessa no romance que continuava a arrastar sua existência sem mérito, sem sequer o mérito de morrer depressa…
A história do romance é narrada na primeira pessoa por Jorge, do começo ao fim, trancado na biblioteca da casa da família em Ceide. Na manhã em que tudo vai começar a ser decifrado – o crime, o segredo – Jorge, quando os criados, Camilo e Ana ainda dormiam, chega à biblioteca e encontra a chave na fechadura como de costume. A chave é sua única defesa, a fechadura manterá todos os segredos por descobrir; a chave o salvará da dependência de obedecer, naquela busca inesperada e sem limites de tempo. Os dias serão completamente seus assim como as incontáveis páginas amontoadas naquela livraria de retalhos de sonho. Começa, então, o intenso folhear de livros, papéis, cartas – tudo em três dias de vertiginosas consultas ao passado, ao presente e insana e misteriosamente a livros de autores que estão por vir. As estantes serão as ameias de seu castelo, as cartas mostrarão o seu poder como pontes levadiças… «Os jornais erguer-se-ão como torreões rendilhados de retratos e caricaturas com incisões de poemas escritos na chuva de Outono que sinto neste verão interminável… ninguém ousará sufocar a vontade férrea que me anima a alma a apodrecer de melancolia quase destruída pelas páginas deixadas em branco pela mentira pertinaz indómita a transparecer nos interstícios das palavras por escrever, essas palavras obscuras a vibrar no silêncio das almas revestidas de ouro e prata ou simplesmente de argilosa natureza ou impregnadas de pessimismo à maneira de Shopenhauer ou de Hartman. Esses avatares da arte de viver sem a alegria de um Zola».
Diabolicamente – isto é, loucamente – Jorge sabe por-se a salvo de ser impedido de cumprir a missão a que se entregou. Ana Plácido bate á porta e ameaça arrombá-la. A resposta de Jorge é a de que o fogo consumirá toda a livraria e a ele próprio. Atrevam-se, pois, os loucos do diabo! Só terá paz quando descobrir o crime e que é ali que o vai desvendar, e provar que não é louco; são loucos, sim, os que estão fora e que os cercam. Assim como naquele conto de Machado de Assis, O Alienista, em que no hospício estão internados os sãos, e loucos os que estão fora...
Ao longo dos três dias de clausura auto-forçada na livraria, Jorge faz desfilar a vida de Camilo e Ana Plácido, romanescamente mas com admirável poder descritivo a partir de factos reais, no melhor estilo de romance histórico. Impressionante o relato do encontro de Camilo com Ana, quando a viu pela primeira vez, em 1849, àquela mulher absolutamente fatal, no baile fatídico da Assembleia Portuense. Ana Augusta Plácido, noiva, ia casar em breve, mas o destino implacável a arrebatava na hora em que parecia oferecer-lha. Num ápice – assim enxergava Jorge no seu buscar e no seu sentir o que sabia – a imagem fatídica assumia o ímpeto da lava incandescente. Escrevera Camilo: “Eu quando a vi lembrou-me a Grécia, as artes”. E acrescenta Jorge: «Eis Ana, a escultura divina, imagem mais insinuante do que as estrelas fulgurantes de luz sem fim». Jorge não sabia se estava a escrever, se dormia, se sonhava. Mas tinha uma dor que vinha do fundo dele mesmo, como um relâmpago a fulminar o choro de um passado já morto, insepulto.
Desfilam as mulheres de Camilo – amores imprevidentes, dispersos, mais ou menos marcados pela fugacidade da sua inconstância – ou da sua decepção? – Joaquina Pereira de Friume, a ilusão do casamento aos dezasseis anos; Patrícia Emília de Barros que raptou com o entusiasmo da sua volubilidade sensual; Maria do Adro, a camponesa viçosa de Vilarinho de Samardã; a freira Isabel Cândida do Convento de S. Bento da Ave Maria; Maria Brown, ou Soror Dolores no seu pseudónimo literário: “Antes de vê-lo, adorei-o, vi-o fascinada, amei-o. Com excesso de paixão”. O Porto estremeceu com os escandalosos arroubos de um e de outro, a ousadia de tais versos numa mulher casada e de meia idade, apaixonada por Camilo, vinte e cinco anos mais jovem do que ela. Idílio sacrossanto, breve devaneio, observa Jorge nas suas notas. Soror Dolores em nada se assemelhava à costureira do Candal, de quem Camilo se cansou em breve tempo. A fazer esquecê-la, surgia a figura da ingénua Fanny, que lhe absorvia a memória e a fantasia mais sedutora e ardente naquele ano de 1849, pouco antes do baile fatídico na Assembleia Portuense, sem que um simples sonho alvitrasse ou sugerisse a visão da noiva em seus dezanove anos. Depois vem o encontro em Bom Jesus do Monte, em 1857, Ana, com as faces aveludadas a empalidecer do grande medo da sedução. Naquela verdura da relva, Ana via-o depois de oito anos, mas desde cinco anos antes se escreviam. Naquele lugar de sonho e serenidade, entre fetos e hortênsias, parecia-lhe irreal ver Camilo tão sóbrio, a respirar humildade e com o olhar inflamado em sensações que ela nunca vivenciara antes.
Sobre um pouco ou um tanto de tudo de Camilo e de Ana se desenvolve a narrativa ao longo do livro de Teresa Ferrer Passos, na visão de Jorge Camilo Castelo Branco, visão de um louco na vida real e na vida ficcional deste belo, fascinante e intrigante livro. Vem em 1860 a prisão de Ana, a entrega de Camilo à justiça para também ser preso e o processo, em 1861, o julgamento na travessa da Picaria, pouco conhecida e estreita viela do Porto. A ficção envolve os pormenores da audiência penal. Mesmo no instante da vitória, a ideia do crime aflora em Ana – assim o vê Jorge – como uma incerteza ou uma claudicação «na eternidade de seu não». Ana pisa a desventura de ser a vítima do crime e o próprio crime. Jorge avidamente folheia livros e cartas na busca de vencer o segredo do crime e depara em a Herança de Lágrimas a frase de Camilo que retém na memória: “Tudo à volta de mim é misterioso e escuro, como se minha existência escondesse grandes crimes”.
A grande comunhão que liga Ana a Camilo é a literatura. Na solidão das horas isoladas da escrita enreda-se no fumo incessante dos charutos que ela acende uns atrás dos outros. Nas novelas que vai publicando em folhetim, realiza ela a catarse do sonho de amor desfeito pela desconfiança de Camilo, esse ser mais amado do que os céus. Os monólogos e citações de Camilo e Ana povoam os instantes das buscas alucinadas de Jorge, que seguem e prosseguem como num processo kafkiano. Ao final, batidas incessantes insistem para que ele, Jorge, abra a porta, ele a quem o doutor Júlio de Matos diagnosticara como insano incurável mas que se considerava «cada vez mais lúcido»! Bastava ler as obras de Camilo – e ele dizia que as havia lido – para ver e ler a palavra crime. Nada do que leu trancado naqueles três dias, nada deu a Jorge um simples indício do que era esse tal crime. A própria biblioteca estava contra ele, como os demais. O coto da vela que reacendeu, deixou-o cair sobre um livro, Amor de Perdição. Réstias de labaredas diminutas, brandas. Leva à janela as folhas com as notas que escreveu durante os três dias de seu cativeiro auto-imposto. As folhas esvoaçam pelo ar apenas abre a janela, sem que consiga apanhar uma única. O vento forte e agreste leva para longe suas folhas de impossível, que se afastam de seus olhos exaustos de choro. Inesperadamente, sobre uma lágrima sua cai a última página que escreveu. Tem uma inscrição: «Ana não revelou o segredo que resguardará sempre até ao fim. Mas – diz Jorge – eu conheço-o. Numa vertigem de força recuperada interrogo-a. Revela-mo por misericórdia! De que se trata?! A ti vou dizer-te mas na condição de nunca o revelares! Nunca o revelarei! Nem sequer à minha mãe! Eu te digo… o segredo de Ana Augusta é a imortalidade».
O livro de Teresa Ferrer Passos é um extraordinário e incrível exercício. Sobre um matriz de factos, sobrepõe um molde com os recortes adaptáveis a esses factos. Sobre a superfície lisa e inteiriça do molde, há um mundo de desenhos da imaginação – mas da imaginação e da criatividade atribuídas a um «louco lúcido» e manifestadas em linguagem pulcra, acutilante, fina e florente.
Dário Moreira de Castro Alves
[1] Apresentação do romance O Segredo de Ana Plácido de Teresa Ferrer Passos na Universidade Lusófona de Lisboa em 11 de Janeiro de 1996. Este texto foi publicado no Suplemento «Cultura» do Diário de Notícias em 25/1/1996, no Jornal do Comércio [Rio de Janeiro] em 3/2/1996 e na revista Homem Magazine em Fever./1996.