ANTÓNIO CÂNDIDO FRANCO
António Cândido Franco nasceu, em Lisboa, a 13 de Julho de 1956. Com uma Licenciatura em Literatura Românica, apresentou uma tese de Mestrado intitulada Exercícios sobre o Imaginário Cabo-Verdeano (simbologia telúrico-marítima em Manuel Lopes) publicada pela editora Pendor, em 1996. A sua tese de Doutoramento, apresentada em 1997 na Universidade de Évora (onde exercia funções docentes), foi publicada pela Imprensa Nacional em 2000 com o título A Literatura de Teixeira de Pascoaes. Conferencista, prefaciador e apresentador de livros, publicou numerosos ensaios, dispersos por jornais e revistas, designadamente a revista Colóquio/Letras. Tem cultivado também a poesia, o romance e a dramaturgia. Entre outros, destacamos: Arte Régia (poesia), 1987; O Mar e o Marão (ensaio), 1989; Surrealismo e Anarquismo na obra de António Maria Lisboa, 1989; Memória de Inês de Castro (romance), 1990; Eleanor na Serra de Pascoaes (ensaio), 1992; Teoria da Literatura em Álvaro Ribeiro, 1993; A Epopeia Pós-camoniana em Guerra Junqueiro, 1996; A Primeira Morte de Florbela Espanca (dramaturgia), 1999, etc. Em 1999, recebeu o Prémio Revelação Ensaio, atribuído pela Associação Portuguesa de Escritores/Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, com a obra Eleanor na Serra de Pascoaes (ed. Átrio). Grande estudioso da obra de Teixeira de Pascoaes, é um dos maiores ensaístas portugueses contemporâneos. Actualmente, é Professor na Universidade de Évora.
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PROSA E POESIA DO AUTOR SOBRE PASCOAES E O SURREALISMO EM PORTUGAL O ESSENCIAL SOBRE BERNARDIM RIBEIRO A LITERATURA EM TEIXEIRA DE PASCOAES |
ALGUMAS PALAVRAS SOBRE A SUA OBRA Teresa Ferrer Passos / Teresa Bernardino: Fernando Guimarães:
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PROSA E POESIA DO AUTOR
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«Parti da temática da santidade, incontornável nesta figura. Com a investigação histórica, apercebi-me, surpreendentemente, de que a Rainha Santa Isabel era marcada por uma heterodoxia face à Igreja institucional da época, que já vinha dos seus antecedentes. O pai, D. Pedro III de Aragão, foi excomungado pelo papa Martinho IV, o avô, Manfredo, morreu numa batalha campal contra a hoste do papa da época, e o bisavô, Frederico II, foi considerado como uma espécie de 'besta do apocalipse' pela Igreja de Roma. Tudo isto concede a Isabel de Aragão uma tonalidade totalmente inesperada, porque pouco conhecida, e que é um dos seus ingredientes mais atrativos.»*
António Cândido Franco
* Entrevista à Visão (11/1/2011), a propósito do seu romance histórico Os Pecados da Rainha Santa Isabel, Ésquilo.
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«Aquilo que porventura alguns surrealistas portugueses, em primeiríssimo lugar Mário Cesariny, compreenderam melhor que outros ou que todos foi que Teixeira de Pascoaes sobreviveu física e espiritualmente a Fernando Pessoa perto de vinte anos e que parte da obra pascoaesiana criada nesse período de nudez e isolamento, que abriu com o São Paulo (1934) e fechou com Últimos Versos (1953) e Minha Cartilha (1954), foi pós-pessoana, no sentido em que supera tudo o que o poeta dos heterónimos conheceu e deu a conhecer. (...)
Cruzeiro Seixas (2006)
O que aqui fica é um subsídio, ainda assim por acabar, ao desenho geral, subsídio centrado quase em exclusivo nas relações de Mário Cesariny e próximos (Cruzeiro Seixas, António Maria Lisboa, Ernesto Sampaio, António Barahona, Herberto Helder) com Teixeira de Pascoaes. É o bastante para se ver o lineamento a fogo duns, o seu rugido de força, e a grandeza, e grandeza suplementar, do outro.»
António Cândido Franco, Teixeira de Pascoaes nas Palavras do Surrealismo em Português, Editora Licorne, MMX [2010], pp. 24-25, 45 (ilustração de Cruzeiro Seixas) e 72.
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No meio do corpo estão os poços de luz
e as janelas abertas sobre os campos
No meio do corpo o sangue ergue-se
no céu
e coroa de claridade o dia
enquanto uma mesa intacta coberta de ouro
e de linho
fica posta na sala mais deserta da terra
Fonte: António Cândido Franco, Matéria Prima, 1986, p. 35.
A manhã é feita com a luz da terra.
A terra não é só uma vasta planície
onde os corpos celestes se objectivam.
A Terra é luz visível.
A luz do dia nasce das esmagadas
margens de uma semente.
Acordam sublimadas dos lábios da terra
as raízes brancas de todo o Firmamento.
ANDRÓMEDA
Quando olho estas estrelas
aquilo que vejo não são as coisas
são rastilhos que accionam as memórias.
Não vejo, visiono. Ver é só receber imagens.
Visionar é já criá-las.
Sei que nesse instante a minha vida arde
liquefeita de ponta à ponta.
Vou a esse bosque buscar larvas candentes
que me servem
para atiçar o que dorme.
A minha fronte emite as próprias formas.
Fonte: António Cândido Franco, Corpos Celestes, Ed. Limiar, 1990, pp. 10 e 34.
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«POESIA, LIBERDADE E AVENTURA»
«(...) Esta transformação das coisas no seu contrário, num processo muito conhecido de todo o pensamento alquímico, é ainda aquele que funda todo o anarquismo. Por isso parece-me cada vez mais oportuna e produtiva a leitura hermética do anarquismo ou, se quisermos, a leitura comparada do anarquismo e das ciências ditas herméticas. Neste sentido, as palavras de Herberto Helder encerram uma contradição que convém esclarecer: só interessa ao artista assumir-se politicamente como anarquista porque essa é a posição não política de todas as conhecidas posições políticas e, por isso, a única que lhe permite responder a essa posição preservando a sua qualidade pessoal de artista. (...)
Quando António José Forte disse recentemente que cada geração saberá a seu modo encontrar a expressão da loucura, da morte, da noite e do silêncio, enunciou aquilo que me parece distinguir a marca decisiva de qualquer actividade poética e artística com interesse, separando-a dos valores mais circunstanciais e ligando-a estreitamente aos limites verdadeiramente livres, porque em tudo possíveis, do indivíduo (...)»
António Cândido Franco
Fonte: António Cândido Franco, «Poesia, Liberdade e Aventura» Separata da revista A Ideia (nº 41/42), Sementeira, 1986, pp.14-15.
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O ESSENCIAL SOBRE BERNARDIM RIBEIRO *
«(...) As dramatizações de Bernardim, quer nas éclogas, quer nas histórias que compõem a História de Menina e Moça, são assim para nós a primeiras composições em língua portuguesa que dramatizam em exclusivo a saudade, muitas vezes ainda com o nome de soidade, dando dela tipos e perfis definidos. Jano e Amador, Pérsio e Ribeiro são os arquétipos primitivos da saudade como a Medeia de Apolónio de Rodes ou a Dido de Virgílio o são do ciúme ou Lançarote e Tristão o são do adultério.
O que é novo em Bernardim são sobretudo as personagens que vivem dramaticamente as acções da saudade. É essa efabulação bernardiniana da saudade que é nova. A novidade é acompanhada nele por uma inovadora acomodação gráfica da palavra, que vem de resto de uma das cantigas publicadas no Cancioneiro Geral de 1516, e por um robustecimento dos seus sentidos.
(...) O estilo elegíaco e dorido, em que a ideia de exílio se manifesta, aproxima Bernardim e Samuel Usque. Em Usque isso acontece de forma explícita, apesar do estilo pastoril, enquanto em Bernardim quase nada de explícito se encontra, acentuando-se muito a dramatização das roupagens poéticas de estilo pastoril.
(...) A obra é uma síntese da espiritualidade judaica, da filosofia grega neoplatónica tal como ela corria no palco da cultura italiana dos finais do século XV, que é o tavolado de Gemistos Pléton, Marsílio Ficino e Pico della Mirandola, e de elementos característicos da cultura peninsular, que vão do averroísmo aristotelizante à mitografia árabe do amor e ao cabalismo da escola de Gerona; ela faz parte do mesmo mesclado cultural que viu nascer alguns anos mais tarde o livro de Samuel Usque e talvez o de Bernardim.
(...) Que o caso de Bernardim possa ter uma tradução esotérica como afirmou Helder Macedo não é para espantar. Basta pensarmos no contexto cultural da época e nas implicações judaicas da edição princeps das obras de Bernardim. O primeiro prosador pós-duartino a ocupar-se da saudade foi Samuel Usque, um cristão-novo que nunca deixou de ser judeu e que alargou e enriqueceu muito o sentido da palavra, levando-a para um degrau divino, a saudade de Deus, a que talvez não tivesse chegado fora dessa síntese com o judaísmo. (...)»
António Cândido Franco
Fonte: António Cândido Franco, O Essencial sobre Bernardim Ribeiro, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, Lisboa, 2007, pp. 40-41, 84, 88, 89, 102-103.
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«A LITERATURA EM TEIXEIRA DE PASCOAES»
«(...) Na biografia dedicada a Camilo temos um processo de distracção semelhante, mesmo que o enunciado seja quase o do presente. À imagem do que acontece na biografia dedicada ao autor da Vulgata, os primeiros parágrafos do livro de Camilo, no Prólogo, são claramente autobiográficos: dizem mais respeito ao narrador que à personagem, ao tempo da enunciação que ao do enunciado (1985:19). Em vez de começar a falar directamente de Camilo, o narrador começa, nesse Prólogo, a falar de si mesmo. O presente usado não é um presente histórico, um falso presente, com valor de passado, mas antes um verdadeiro presente da enunciação. O livro termina rigorosamente do mesmo modo, quer dizer, falando mais do narrador que da personagem. A última frase do Epílogo do livro (1985:145) continua a remeter para um presente real da enunciação, explorado até às suas últimas consequências num belo efeito de sincronicidade entre a história e o discurso (...)»
António Cândido Franco
Fonte: António Cândido Franco, «O Espaço da Biografia», A Literatura de Teixeira de Pascoaes, Imprensa Nacional, Lisboa, 2000, p.217.
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«PARADOXO E SAUDADE EM JOSÉ GOMES FERREIRA»
«(...) em José Gomes Ferreira não há evidentemente saudades do céu, à maneira de Agostinho da Cruz ou até saudade transcendente à maneira de Leonardo Coimbra. Em José Gomes Ferreira o que há, e de forma pensada, são saudades da terra. Não se trata de uma perversão do sentido da saudade, que é como vimos ambivalente, mas antes duma incidência particular da saudade neste poeta. Tanto o céu como a terra apelam á saudade. A saudade do céu é ainda uma saudade de Deus e a saudade da terra é ainda em José Gomes Ferreira a saudade do Homem. Num certo sentido, o das analogias, a saudade da terra é a saudade do futuro, e a saudade do céu é a saudade do passado. Preste-se atenção a estes versos que abrem o livro Cinzas (II, p.93)n: "A poesia tem pés de terra // Quando a atiramos para o céu / fica só e transida / no meio das estrelas / − a chorar com saudades dos homens / e da morte". A dicotomia entre estas direcções tem duas curiosas imagens: a montanha e o abismo. Os poetas que perpetuam o passado socorrem-se geralmente dum poderoso eixo ascensional (a Arrábida ou o Marão). Os poetas que têm o désir criativo do futuro socorrem-se dum eixo vertical descendente. Aqui o que verdadeiramente nos interessa é a necessidade da existência dum eixo (seja ele ascendente ou descendente). O abismo, que é a forma mais concreta dum eixo vertical descendente, nada mais é afinal do que uma montanha invertida. Tal como a terra, na sua pureza saudosa e redimida, que é ainda o seu desejo, nada mais parece ser do que um céu do avesso»
António Cândido Franco
Fonte: António Cândido Franco, «Paradoxo e Saudade em José Gomes Ferreira» Gazeta de Poesia do Mundo de Língua Portuguesa, nº 1/2, Primavera /Verão, 1994, pp. 24-25.
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Há casas no céu em que o sol aproveita
para mostrar os seus colares de fogo
e as suas coroas
de diamantes e ouro
Há casas no céu em que o sol se deita
ao pé dos seus tesouros
e os olhos dos homens secam
Há casas no céu que cegam o peito dos campos
enquanto o sol reina
entre arcas cheias de diamante
AURORA
A rainha surge deslumbrante a oriente
com os seus braços nus cheios de serpentes
e a frente marcada pelos pórticos frios
do nascente
onde brilha o azul das esferas
Vejo-a na imensa abóboda dos céus
erguer ao alto uma espada e desafiar as
trevas
Vejo-a avançar de braços abertos
com a fronte trespassada por uma fina lança
e com os cabelos ruivos de tanto sangue
Ela incendeia os céus e grita toda nua
com os braços de mármore
paralisados
um som que é a primeira raiz do dia
António Cândido Franco
Fonte: António Cândido Franco, Matéria Prima, Lisboa, 1986, pp. 43 e 53.
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ALGUMAS PALAVRAS SOBRE A SUA OBRA
Recriação do mito através da palavra poética – transfiguradora e expoentizante – eis o que o livro Estrela Subterrânea (Editora Limiar, Porto, 1993 ) encerra no mais fundo do seu âmago originário. Neste conjunto breve de poemas, o poeta elegeu quatro vocábulos condutores: sangue, terra, corpo e alma. Tendo-os quase sempre presentes em cada verso, António Cândido Franco joga com cada um deles, tendo como referente a figura mitificada de Inês de Castro, aquela em quem o amor foi o motivo da sua imortalidade. Ao ser coroada rainha após a morte sacrificial, a Castro tornou-se «a carne do céu ou a terra da alma» (p.33). os poemas «Carne do Céu», «Canção» e «Alvorada de Sombra», reflecte na temática eleita por A. C. Franco para o livro cujo título não deixa de ser, igualmente, uma alusão a Inês de Castro. Num jogo entre tu e eu, o poeta define a rainha que, por tanto amar, venceu a morte:
«Tu és a luz, o sangue
e a carne que se desfaz em sol»
«Tu és o céu»
«Tu és a alma, a forma imortal
o sol da noite» (p.32)
Ou ainda:
«Tu és a luz, o corpo
e a carne que se desfaz em névoa» (p.34)
À volta destes léxicos giram todos os poemas, mesmo quando se afastam dessa imagem-arquétipo que, parece estar desde a origem do mundo, noutra figura feminina: Eva, essa «carne vermelha dum sol esquecido» (p.20). Se a alma é o «céu da terra» (p.25) ou «a terra da minha alma» (p.35); por sua vez, a terra é «o corpo do céu» (p.25) e o céu é a «alma da terra» (p.35) e assim numa contínua sucessão de analogias.
Neste livro, A. C. Franco define as figuras mitológicas, em função dessa voz que «é a carne a ganhar calor e luz / sangue de corpo» (p.18). Contudo, se estivesse a caracterizar uma Inês, um Adão, uma Eva, um corpo ou o firmamento, surge a própria identificação do que é o poema: «Céu, vale, luz, ilha, terra»; «memória eterna»; «esperança sem fim»; «luz em vale de terra»; «alma em carne»; formas imaginadas que não morrem» (p.22).
Afinal, tudo é uno e idêntico: o princípio está próximo do fim; a recriação imita a criação; a existência inclui a essência; a essência é a própria razão da existência; o mundo é belo e a beleza é o sentido do mundo. Este o significado mais amplo de Estrela Subterrânea. Como isto lembra Pascoaes, designadamente os seus livros Verbo Escuro, Regresso ao Paraíso, ou Marânus (...).
Teresa Bernardino*
* Ortónimo de Teresa Ferrer Passos.
Fonte: Teresa Bernardino, »Estrela Subterrânea», Letras e Letras, nº97, 16 de Junho de 1993.
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«Ao lermos este livro de poemas de António Cândido Franco somos levados a entrever nele um certo sentido que parece ser, intencionalmente, o regresso a uma linguagem que se diria cifrada, quer pelo modo como nela se manifesta um simbolismo ocultista, quer pelo que nela possa representar um reencontro com experiências literárias que se aproximariam, por exemplo, da dos poetas simbolistas ou dos nossos saudosistas.
Há em tais poemas uma viva consciência de uma possível correspondência ou, melhor, de uma analogia que se anuncia ou enuncia entre o mundo físico – uma Natureza que se revela, muitas vezes, através do que seriam os seus elementos fundamentais ou os seus arquétipos – e o mundo humano.»
Fernando Guimarães
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