HARMONIA DO MUNDO

 

 

ANTÓNIO CÂNDIDO FRANCO

 

 

 

O ESSENCIAL SOBRE BERNARDIM RIBEIRO *

 

ANTÓNIO CÂNDIDO FRANCO

 

 

 

 

«(...) As dramatizações de Bernardim, quer nas éclogas, quer nas histórias que compõem a História de Menina e Moça, são assim para nós a primeiras composições em língua portuguesa que dramatizam em exclusivo a saudade, muitas vezes ainda com o nome de soidade, dando dela tipos e perfis definidos. Jano e Amador, Pérsio e Ribeiro são os arquétipos primitivos da saudade como a Medeia de Apolónio de Rodes ou a Dido de Virgílio o são do ciúme ou Lançarote e Tristão o são do adultério.

O que é novo em Bernardim são sobretudo as personagens que vivem dramaticamente as acções da saudade. É essa efabulação bernardiniana da saudade que é nova. A novidade é acompanhada nele por uma inovadora acomodação gráfica da palavra, que vem de resto de uma das cantigas publicadas no Cancioneiro Geral de 1516, e por um robustecimento dos seus sentidos.

 

 

 

 

(...) O estilo elegíaco e dorido, em que a ideia de exílio se manifesta, aproxima Bernardim e Samuel Usque. Em Usque isso acontece de forma explícita, apesar do estilo pastoril, enquanto em Bernardim quase nada de explícito se encontra, acentuando-se muito a dramatização das roupagens poéticas de estilo pastoril.

(...) Leão Hebreu por sua vez dedicou ao amor os Diálogos, tentando perceber a sua natureza, origem e finalidade.

A obra é uma síntese da espiritualidade judaica, da filosofia grega neoplatónica tal como ela corria no palco da cultura italiana dos finais do século XV, que é o tavolado de Gemistos Pléton, Marsílio Ficino e Pico della Mirandola, e de elementos característicos da cultura peninsular, que vão do averroísmo aristotelizante à mitografia árabe do amor e ao cabalismo da escola de Gerona; ela faz parte do mesmo mesclado cultural que viu nascer alguns anos mais tarde o livro de Samuel Usque e talvez o de Bernardim.

(...) A obra leonina [Leão Hebreu] compõe-se de três diálogos entre Sofia e Fílon, que tipificam com as suas intervenções a sabedoria racional e a ardência do saber apaixonado ou, de outro modo, o Amante que procura comedidamente conhecer e o Amado que tudo ardentemente conhece. (...) A obra pela forma lembra o drama, o drama de personagens, mas o drama didáctico, sem acções, ao modo de Platão, que é também a ossatura pontiaguda dos diálogos de Usque. Pelo sentido, o trabalho aproxima-se da literatura que desde os Gregos e os seus comentadores árabes e judeus tematizava o amor, com uma relação de vizinhança muito estreita, até em termos de citação ou explícito comentário, com os diálogos de Platão em torno de Eros e com as esclarecidas reflexões sobre a Beleza de Plotino nas Enéadas. Os diálogos de Leão Hebreu apresentam-se como uma síntese extraordinária de toda a literatura anterior sobre o amor.

(...) Que o caso de Bernardim possa ter uma tradução esotérica como afirmou Helder Macedo não é para espantar. Basta pensarmos no contexto cultural da época e nas implicações judaicas da edição princeps das obras de Bernardim. O primeiro prosador pós-duartino a ocupar-se da saudade foi Samuel Usque, um cristão-novo que nunca deixou de ser judeu e que alargou e enriqueceu muito o sentido da palavra, levando-a para um degrau divino, a saudade de Deus, a que talvez não tivesse chegado fora dessa síntese com o judaísmo. Sem Usque, o dito neoplatonismo do Camões das redondilhas de "Babel e Sião" talvez não se entendesse como se entende, sobretudo no que diz respeito à noção de uma saudade de Deus que não existia antes de Usque e que Camões tanto e tão bem usou nesses versos, que são de resto uma paráfrase de um dos salmos bíblicos mais característicos do imaginário político e religioso do judaísmo histórico.

É em Bernardim que todo este mundo desencontrado de significações se dramatiza pela primeira vez (...)»

 

 

* Obra publicada por Imprensa Nacional - Casa da Moeda, Lisboa, 2007, pp. 40-41, 84, 88, 89, 102-103.

 

 

 

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