HARMONIA DO MUNDO

 

 

MARIA CÂNDIDA ZAMITH

 

 

 

 

 

VIRGINIA WOOLF:

A vocação de escrever, por entre as vicissitudes da vida

 

 

 

Adeline Virginia Stephen, a futura Virginia Woolf, nasceu a 25 de Janeiro de 1882 em Hyde Park Gate, Londres, no bairro distinto de Kensington, um dos preferidos da alta classe média onde a sua família se inseria. Depois da morte do pai em 1904, Virginia e os seus irmãos Vanessa, Thoby e Adrian mudaram-se para Bloomsbury, bairro da boémia literária,  socialmente desclassificado.

Thoby estudara em Cambridge, onde fizera muitos amigos. Na nova casa, o nº46 de Gordon Square, resolveu convidar esses amigos para aparecerem às quintas-feiras à noite para um serão literário informal. A 16 de Março de 1905 realizou-se a primeira dessas reuniões, reverso dos “at home” tradicionais vitorianos, durante os quais as meninas da casa, “the daughters of educated men” a que se refere Virginia Woolf, serviam o chá mas não podiam participar das conversas. Na primeira noite apenas apareceram dois visitantes: Saxon Sydney-Turner e Gerald Duckworth, meio-irmão dos Stephen e futuro fundador da conhecida editora. A estes, rapidamente se foram juntando outros, intelectuais ou artistas, como Lytton Strachey, Clive Bell, Duncan Grant, Maynard Keynes, Rogert Fry e muitos outros, mais ou menos assíduos. O grupo nunca constituiu um clube nem teve formalidades ou restrições de admissão. A presença das duas irmãs era um atractivo inovador, embora muitos dos frequentadores fossem declarados ou incipientes homossexuais.

O grupo atravessou vários períodos de características diferentes. Thoby morreu de febre tifóide em 1906, com 26 anos apenas; Vanessa, pintora, que iniciara entretanto o hábito das reuniões  artísticas das sextas-feiras, casou-se pouco depois com Clive Bell, crítico de arte. O casal fixou-se na casa de Gordon Square, enquanto Virginia e Adrian se transferiram para Fitzroy Square, onde mantiveram reuniões quinzenais. O epíteto “Grupo de Bloomsbury” foi inventado do exterior, e significou muitas vezes um sinal de menosprezo. No entanto, este grupo de jovens libertários e irreverentes, com ideias novas sobre arte e literatura, muito influenciados pela filosofia hedonística de G.E. Moore, exerceu fascínio e influência sobre uma parte considerável dos intelectuais e artistas da época. E.M. Forster era um visitante ocasional, embora não muito empenhado. Leonard Woolf, que viria a desposar Virginia Stephen em 1912, passou sete anos em Ceilão, como funcionário administrativo, pelo que não pertenceu ao grupo inicial mais tarde apelidado por Virginia de “Old Bloomsbury”. Desmond e Molly MacCarthy foram assíduos e influentes nos anos vinte. Outros frequentadores foram Ralph Partridge, a pintora Dora Carrington, a bailarina Lídia Lopokova que casara com Maynard Keynes, David Garnett e  Roy Campbell, entre  muitos.

Assim como Vanessa quisera sempre ser pintora, Virginia teve desde muito cedo a aspiração de ser escritora. Ainda criança, começou por escrever quase sozinha o pequeno jornal familiar Hyde Park Gate News e passou a registar em Diário, embora de forma ainda esporádica, as ocorrências mais marcantes da sua vida. Estes registos eram já intercalados de pequenas peças descritivas, ensaios ou contos. No entanto, nunca publicou nada até à morte do pai. Virginia sempre foi emocionalmente frágil e de temperamento sensível, sofrendo de depressões e perturbações mentais mais ou menos sérias nos períodos mais cruciais da sua vida, incluindo a publicação de cada novo livro. As crises mais graves deram-se após a morte da mãe, quando tinha apenas treze anos; a seguir ao falecimento do pai; e depois do casamento, coincidente com a parte final da escrita do primeiro romance, The Voyage Out, que viria a ser publicado em 1915 pela editora Duckworth. Em 1917 o casal Woolf adquiriu uma pequena imprensa manual e passou a publicar as próprias criações (Leonard interessava-se sobretudo por política internacional), juntamente com obras de alguns escritores seleccionados, como T.S. Eliot, Katherine Mansfield ou Vita Sackville-West, a inspiradora de Orlando.   

Virginia Woolf é uma figura proeminente do Modernismo inglês. Nos seus romances explorou novas formas de escrita, usando frequentemente o monólogo interior e o fluxo de consciência como forma de demarcar o tempo real do tempo psicológico. O segundo romance, Night and Day, de 1919, é ainda realista, mas a partir de Jacob’s Room, de 1922, a autora desenvolve técnicas literárias inovadoras, notando-se a preocupação de encontrar um discurso alternativo à perspectiva exclusivamente masculina da realidade. Com  Mrs. Dalloway (1925), To the Lighthouse (1927) e The Waves (1931) solidifica-se esta faceta da escritora. Orlando (1928), apelidado de biografia pela autora, é uma fantasia que contém mais sentidos e mensagens do que aparenta à primeira vista; The Years é uma saga familiar atravessando várias gerações; Between the Acts fecha o ciclo e já é publicado postumamente. Virginia Woolf é também uma contista exímia,. ensaísta com preocupações feministas, crítica literária e biógrafa. Parte importante do seu espólio são as numerosas cartas coligidas por Nigel Nicolson e Joanne Trautmann, e também o Diário iniciado em 1915 e mantido até à sua morte, organizado em seis volumes e anotado por Anne Olivier Bell.

Aos 59 anos, tendo terminado um novo romance onde só via imperfeições, abalada, além disso, pelos terrores da guerra e a instabilidade geral, Virginia Woolf receou novo acesso de perturbação mental e desistiu de viver: colocou pedras nos bolsos e afogou-se no rio Ouse, perto da sua casa em Rodmell.

 

 

 

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