HARMONIA DO MUNDO

 

 

William SHAKESPEARE

 

Excertos de Sonho de Uma Noite de Verão

in Obra Dramática Completa em publicação pela editora Campo das Letras, 1ª edição, 2002

 (com Introdução, tradução e notas de Maria Cândida Zamith)

 

 

William Shakespeare

 

 

Arranjo e adaptação teatral destes excertos por Maria Cândida Zamith:

 

 

Nesta peça há três mundos distintos que interferem uns nos outros: Teseu, Duque de Atenas, vai casar com Hipólita, rainha das Amazonas. Embora com figuras retiradas da Mitologia, pode considerar-se este o mundo da realidade. A este mundo pertence também, mas movendo-se numa esfera muito inferior, o grupo de artesãos que decidem ensaiar uma peça teatral para abrilhantar o enlace.

Paralelamente a este mundo, e interferindo com ele, movem-se os espíritos do mundo das fadas, sobre o qual reina Oberon e a sua rainha Titânia. Estes dois estão em querela pela posse de uma criança indiana que Titânia adoptou, e Oberon não hesita em valer-se de uma poção mágica que lhe é trazida por Robin, espírito travesso mas dedicado.

Entre estes dois mundos há um quadrado amoroso: Hérmia ama Lisandro mas está prometida a Demétrio; Helena ama Demétrio mas não é correspondida.

Quando as fadas interferem para auxiliar os amantes há enganos que se tornam tragicómicos pelas paixões alteradas, até que tudo termina em bem num triplo casamento.

 

No início da peça Egeu, o pai de Hérmia, pede a intervenção do Duque para obter a obediência da filha.

 

 

 

Acto I – Cena I (Atenas; o palácio de Teseu)

 

 

EGEU

 

Em grão tormento venho, com pleito

Contra esta filha, a minha filha Hérmia.

Demétrio, avança. Meu nobre Senhor,

Para a desposar, tem este o meu acordo.

Lisandro, avança; e, meu gracioso duque,

Este enfeitiçou de todo a minha filha:

Tu, Lisandro, tu, fizeste-lhe versos,

Trocaste provas de amor com minha filha:

Tu, à luz da lua, cantaste-lhe à janela

Com falsa voz versos de falso amor,

E arrebataste-lhe a imaginação

Com caracóis do cabelo, anéis, bugigangas,

Manhas e truques, flores e doces (tudo

Quanto convence a incauta juventude):

Com artes lhe roubaste o coração de filha,

Mudaste a obediência (que ela me deve)

Em pertinaz aspereza. E, gracioso Duque,

Se ela aqui, perante a Vossa Graça,

Não consentir em desposar Demétrio,

Eu peço o antigo privilégio de Atenas:

Como ela é minha, eu posso dispor dela;

E assim será, ou para este cavalheiro,

Ou para a morte, conforme a nossa lei

A ser cumprida logo, neste caso.

 

 

 

O Duque tem de dar razão a Egeu, segundo a lei de Atenas, e interpela Hérmia:

 

 

 

TESEU

 

Que dizes, Hérmia? Prudência, gentil donzela:

Teu pai qual Deus para ti devia ser

Ele, que formou tua beleza, sim, ele

De quem tu não és senão um molde em cera

Por ele cunhado, ele que tem poder

De deixar-te a figura ou desfigurá-la.

Demétrio é um digno cavalheiro.

 

HÉRMIA

 

Também o é Lisandro.

 

TESEU

 

Em si o é de facto;

Mas aqui, sem o acordo do teu pai,

O outro deve ser tido por mais digno.

 

HÉRMIA

 

Quem dera que meu pai visse com meus olhos.

 

TESEU

 

Ou antes, devem teus olhos ver pelos dele.

 

HÉRMIA

 

Suplico a Vossa Graça me perdoe.

Não sei por que poder me fiz ousada,

Nem como afectará minha modéstia

Em tal presença, aqui, terçar minhas ideias,

Mas peço a Vossa Graça me faça saber

Tudo que de pior me pode acontecer

Se eu recusar casar-me com Demétrio.

 

TESEU

 

Ou sofrer a morte ou renunciar

Para sempre à sociedade dos homens.

 

  

Ficando sós, Lisandro e Hérmia lamentam-se e tomam uma decisão:

 

  

LISANDRO

 

Então, meu amor! Porquê faces tão pálidas?

Como podem rosas murchar tão rápido?

 

HÉRMIA

 

Certo por falta de chuva, que eu bem poderia

Doar-lhes da tempestade dos meus olhos.

 

LISANDRO

 

Ai de mim! Por tudo quanto tenho lido,

Quanto tenho ouvido em contos ou história,

Nunca foi suave o curso do vero amor;

Mas antes, ou era diferente em linhagem ...

 

HÉRMIA

 

Ó cruz! alto de mais para cativar-se em baixo.

 

LISANDRO

 

Ou então mal ajustado quanto à idade ...

 

HÉRMIA

 

Ó raiva! velho de mais para noivar com jovem.

 

LISANDRO

 

Ou então saído só da voz de amigos ...

 

HÉRMIA

 

Ó inferno! Escolher amar pelos olhos de outros.

 

LISANDRO

 

Ou, se houvesse concordância na escolha,

Guerra, doença ou morte lhe poriam cerco -

Tornando-o instantâneo como um som,

Rápido como a sombra, curto como os sonhos,

Breve qual relâmpago em noite escurecida

Que, em assomo de raiva, abarca céus e terra;

E, antes de um homem poder dizer ‘Olha!’,

Já o devoram as garras da escuridão.

Tão prestes vem do belo a confusão.

 

HÉRMIA

 

Se os amantes sofrem desilusão,

Sabem que é qual decreto do destino:

Assim, a paciência exercitemos

Já que ela é costumeira provação,

Certa no amor como ânsias, sonhos, suspiros,

Desejos e choros, que a fantasia seguem.

 

LISANDRO

 

Boa decisão. Portanto, ouve-me, Hérmia.

Tenho uma tia viúva, senhora digna,

De grandes bens, a quem faltam filhos:

Sete léguas dista de Atenas a sua casa;

E ela me quer como seu filho único.

Lá, gentil Hérmia, posso casar contigo;

E até esse lugar a dura lei de Atenas

Não pode perseguir-nos. Se me amas, então,

Deixa furtiva o lar paterno amanhã à noite;

E no bosque, a uma légua da cidade

(Onde te encontrei um dia, com Helena,

A cumprir o rito de manhã de Maio),

Lá esperarei por ti.

 

HÉRMIA

 

Meu bom Lisandro!

Juro, pelo mais forte arco de Cupido,

Pela sua melhor flecha de ponta de ouro,

Pela simplicidade das pombas de Vénus,

Por tudo que une as almas e reforça o amor,

E pelo fogo que inflamava Dido

Vendo o falso Troiano partir no barco,

Por todos os votos de homem, sempre quebrados

(Mais do que alguma vez mulher contou),

Nesse mesmo lugar que me indicaste,

Amanhã, certo, me encontrarei contigo.

 

 

 

O 2º Acto começa no bosque, no país das fadas. Robin, o espírito folgazão, interpela uma fada:

 

 

 

Acto II –Cena I (Um bosque perto de Atenas)

 

 

ROBIN

 

Então, espírito! Para onde vais tu?

 

FADA

 

Sobre vale e sobre outeiro,

Entre arbustos e silvado,

Em campo aberto ou cerrado,

Pela enxurrada ou fogo andeiro,

Vou indo por todo o lado

Mais veloz que a lua esférica;

E sirvo a rainha feérica,

Deito orvalho nos seus prados.

Montam guarda primaveras,

De membranas pintalgadas.

São rubis, favores de fadas,

Seus sabores estão lá deveras.

 

Tenho de ir-me a apanhar orvalho da manhã

E a largar uma pérola em cada corola.

Adeus, bobo dos espíritos; vou-me embora:

Nossa rainha e seus elfos não tardam já.

 

ROBIN

 

O rei vai esta noite aqui festejar:

Toma conta, não vá a rainha lobrigar;

Pois Oberon está em fúria e raiva constante

Porque ela tem como belo acompanhante

Um menino, a um rei indiano roubado;

Ela nunca tão doce teve outro a seu lado;

E o zeloso Oberon quer-lhe o moço tirar

Para em sua comitiva cavalgar;

Mas ela à força retém o tão amado,

Dele faz sua alegria, de flores toucado;

E eles não mais se encontraram em bosque ou prado,

Junto a fonte clara ou sob céu estrelado,

Sem discutir; e os seus elfos, a tremer,

Vão-se nas conchas das bolotas esconder.

 

 

FADA

 

Ou em teu aspecto e forma me engano

Ou és o duende esperto e magano

Chamado Robin Bom-Rapaz; és ou não

O que assusta as donzelas do mundo aldeão;

Desnata o leite; ou põe o moinho numa fona;

Descalço, atormenta a esbaforida matrona

E às vezes não deixa a bebida fermentar;

Despista os caminheiros e ri do seu penar?

A quem te chama Duende e doce Robin,

Tu fazes-lhe o trabalho e terá sorte assim.

És ele não és?

 

 

ROBIN

 

Podes dizê-lo afoita;

Sou esse alegre vagabundo da noite.

Faço rir Oberon, a gracejar

Quando um nédio cavalo posso enganar

Relinchando para uma poldra parecer:

Ou vou-me em  taça de comadre esconder,

De boa maçã assada me disfarçando,

E quando ela bebe vou-lhe aos lábios, boiando,

E derramo-lhe a cerveja na murcha papeira.

A dama mais séria, de dramas contadeira,

Confunde-me às vezes com um banco de três pés;

Deslizo debaixo dela, e, então, é o revés:

Grita “ai Jesus!” e cai a tossir;

E todo o coro sacode a barriga a rir.

Rebentam de riso, espirram e jurarão

Que nunca como nessa hora folgarão.

Mas afasta-te, fada! Aí vem Oberon.

 

FADA

 

E aqui a minha ama. Quem o dera longe!

 

 

 

 O encontro entre Oberon e Titânia não é pacífico, pois ambos insistem na posse da criança – o changelling roubado aos humanos. Os dois discutem pela posse do cobiçado pajem e comentam como a zanga entre eles tem trazido perturbações ao mundo dos mortais: colheitas perdidas, clima alterado, etc. Titânia sai zangada com a sua comitiva e Oberon arquitecta um plano para levar a melhor: Chama Robin e manda-o procurar uma flor de suco milagroso, a poção do amor: deitada nos olhos de alguém enquanto dorme, fará com que se enamore do primeiro ser vivo que aviste ao acordar. E Oberon planeia:

 

 

 

Acto II – Cena I

 

 

OBERON

Mal tenha o suco

Buscarei a Titânia adormecida

Para lhe deitar o licor nos olhos,

E o que ela vir primeiro ao acordar,

Quer seja leão, urso, ou lobo ou touro,

Macaco metediço ou mono a andar,

Há-de ela persegui-lo com amor;

E antes que eu lhe tire o encanto da vista

(O que posso fazer com outra planta),

Hei-de obrigá-la a entregar-me o seu pajem.

Mas quem vem aí? Eu sou invisível;

E vou pôr-me à escuta do que disserem.

 

 

 

Robin parte e entra Demétrio perseguido por Helena com os seus protestos de amor e os seus lamentos pelo abandono dele:

 

  

DEMÉTRIO

 

Eu não te amo. Então, não me persigas.

Onde está Lisandro? E a bela Hérmia?

A ele vou matá-lo, a mim me mata ela.

Disseste que fugiram para este bosque

E aqui estou eu, louco bobo neste bosque,

Porque não posso encontrar a minha Hérmia.

Por isso vai-te e não me sigas mais.

 

HELENA

 

Como íman tu me atrais, coração duro;

Mas não é ferro, não, meu coração;

É firme como aço: deixa a tua atracção

E eu não terei poder de te seguir.

 

 

DEMÉTRIO

 

Seduzo-te, acaso? Com doce falar?

Ou não te digo, com pura verdade,

Que não te amo nem te posso amar?

 

HELENA

 

E mesmo por isso eu te amo mais.

Sou teu servil sabujo; e assim, Demétrio,

Quanto mais me bates mais te quero;

Faz de mim teu cão; fere-me e despreza-me,

Ignora-me, abandona-me, mas deixa

Que, indigna que sou, possa seguir-te.

Que lugar pior no teu amor pedir-te

(E contudo estimável para mim)

Que ser usada como teu mastim?

 

DEMÉTRIO

 

Não tentes de mais o ódio da minha alma

Pois fico doente só de te olhar.

 

HELENA

 

E eu fico doente quando não te olho.

 

 

 Condoído com o desgosto de Helena, Oberon decide ajudá-la. Quando Robin chega com o suco mágico dá-lhe uma parte e manda-o procurar o jovem ateniense e deitar-lho nos olhos, de forma que a jovem que ele desprezou seja a primeira pessoa que ele veja ao acordar. Ele próprio vai procurar Titânia, que descansa rodeada das suas fadas, e lança-lhe a poção nos olhos desejando que seja algo ruim o que vir ao acordar.

 

Pelo bosque vagueiam também Lisandro e Hérmia, fugindo de Atenas como planeado. Cansados, deitam-se a dormir, afastados um do outro. Entretanto Robin procura cumprir as ordens de Oberon e quando vê Lisandro, também com roupas de Atenas, julga que é esse o indicado e lança-lhe a poção nos olhos:

 

  

ROBIN

 

Todo o bosque percorri,

E Ateniense não vi

Em cujos olhos testar

Se esta flor faz mesmo amar.

Noite calma. Quem está lá?

Roupas de Atenas terá,

Como meu mestre contou,

O que a jovem desprezou

E ei-la aqui, adormecida,

Nesta terra dura e fria.

Não deve ficar tal flor

Junto ao rude sem-amor.

Deito em teus olhos, vilão,

Todo o poder da poção.

(lança o suco)

Abre os olhos e amarás,

E depois não dormirás.

Vou-me embora, acorda então,

Que eu tenho de ir-me a Oberon.

 

 

 

 

Por pouca sorte, Demétrio ainda andava a fugir de Helena e esta, ao vaguear abandonada, encontra Lisandro por terra e acorda-o, pensando que pode estar ferido. O suco faz efeito e Lisandro já só adora Helena, aborrecendo Hérmia. Esta, ao acordar, não vê Lisandro e fica desesperada.

 

Mas a sorte de Titânia ainda foi pior: perto do seu retiro, o grupo de rudes artesãos de Atenas veio ensaiar a sua peça para ser representada em honra do Duque e das suas bodas. Escolheram A Muito Lamentável Comédia e Muito Cruel Morte de Píramo e Tisbe. Quando Robin os vê a ensaiar – sem ser visto por eles, por ser um espírito – fica indignado pela ousadia, comentando:

 

 

 

 

Acto III – Cena I

 

ROBIN [aparte]

 

Que rústicos labregos se exibem por aqui

Tão perto do leito da Rainha das Fadas?

O quê? A ensaiar uma peça? Vou assistir

Ou talvez ser também actor, se vir que tal.

 

 

 

E decide pregar-lhes uma partida. Escolhe Fundos, o tecelão, por ser o mais grosseiro e terra-a-terra, e põe-lhe uma cabeça de burro. Os outros fogem dele assustados e Robin, o brincalhão, delira de alegria:

 

 

 

ROBIN

 

Vou contigo e à roda te guiarei,

Pela turfa, pela moita, pelo bosque, pelo silvado,

Cavalo às vezes, às vezes cão serei,

Um porco, um lume, um urso degolado,

E relincho e ladro e grunho e queimo e urro, vês?

Cavalo e cão e porco e lume e urso, à vez.

 

 

 

Por ironia da sorte, quem Titânia vê ao acordar é o asinino tecelão, e por ele nutre de imediato uma paixão sem limites. Adora-o, literalmente, chamando-lhe nomes ternos, e manda todos os espíritos e fadas servi-lo:

 

  

TITÂNIA

 

Deste bosque não te queiras afastar.

Vou ficar aqui, quer queiras quer não.

Eu não sou um espírito vulgar:

E de mim cuida bem o verão;

E eu amo-te. Por isso vem comigo.

Dou-te espíritos para estarem contigo:

Trazem-te jóias e fazem favores,

E cantam-te para dormires entre as flores;

E tanto, rude mortal, vou fazer,

Que um espírito etéreo hás-de parecer.

Flor-de-Ervilha, Teia-de-Aranha,

Grão de Poeira e Semente-de-Mostarda!

 

..........

 

Sede gentis e amáveis c’o fidalgo.

Segui-o dançando, alegrai seu olhar,

Dai-lhe pêssegos e amoras a provar,

Purpúreos cachos, verdes figos, bagas;

Ide aos favos de abelhas mel roubar,

E dos céreos corpos pavios fazei,

E à luz dos pirilampos os acendei

Para meu amor deitar e levantar.

Asas das belas borboletas colhei

Para aos dormentes olhos a luz ocultar.

Saudai-o, elfos, e vénia fazei.

 

 

 

Oberon diverte-se com o êxito do seu plano. Quase tem pena de Titânia mas vai aproveitando para obter o jovem mortal para a sua escolta.

 

Entretanto Hérmia desola-se por se ver abandonada pelo seu amor, sem nada compreender, enquanto Helena se julga vítima de troças congregadas. Quando Oberon descobre o erro de Robin, interpela-o:

 

 

 

Acto III – Cena II

 

OBERON

 

O que fizeste? Está tudo trocado:

O suco a outro amante foi parar

E o teu engano veio a resultar

Que o bom estragaste e o falso não mudou.

 

ROBIN

 

Foi o destino que o determinou:

Para um homem verdadeiro, um milhão mente.

 

OBERON

 

Vai pelo bosque mais célere que o vento,

E Helena de Atenas procura achar,

Pálida e triste, doente de amar,

Com suspiros que ao rosto tiram cor.

Faz por trazê-la, seja como for,

Vou já nos olhos dele o filtro pôr.

 

ROBIN

 

Já vou, já vou. Vê que estou de abalada,

Mais rápido que seta disparada.

Sai

 

OBERON

 

Flor de purpúreo luzir,

Qual Cupido hás-de ferir

O olhar onde vás cair.

 

 

 

Oberon lança o suco nos olhos de Demétrio porque Helena está ali muito perto, mas o resultado também não é o ideal: Helena vê-se perseguida por dois amantes que entram em luta por causa dela, e Hérmia desola-se da sua incompreensível má fortuna pois o seu amor passou a insultá-la. Sempre julgando-se vítima de uma cruel troça conjugada em que entra também Hérmia, Helena pergunta a esta:

 

  

HELENA

 

Não mandaste Lisandro, por troça,

Seguir-me e louvar-me os olhos e a face?

E fizeste teu outro amor, Demétrio –

Que ainda há pouco me afastava com os pés –

Chamar-me deusa, ninfa, divina e rara,

Preciosa, celestial? Porque fala assim

Àquela que odeia? E porquê Lisandro

Negar o teu amor, tão rico em seu peito,

E propor a mim, deveras, afecto,

Se não por teu plano e consentimento?

E embora eu não tenha o encanto que tens –

Tão cumulada de amores, afortunada –

Mas, pobre de mim, amando desamada,

Devias-me piedade e não desprezo.

 

HÉRMIA

 

Não compreendo o que me queres dizer.

 

HELENA

 

Ai, sim Constantes falsos olhares tristes,

Escarnecem de mim mal viro as costas,

Fazem sinais entre si, dizem gracejos.

Um tal desfrute é digno de registo.

Se podes ter piedade, graça, modos,

Não devias tratar-me deste jeito.

Mas fica em paz. Em parte é culpa minha,

Que em breve acabará em ausência ou morte.

 

 

 

Entretanto Oberon, ao compreender o novo engano, toma medidas para evitar que os dois jovens se matem e para desfazer a confusão. Dá ordens a Robin:

 

 

 

OBERON

 

Estes amantes procuram lutar.

Vai, pois, Robin, a noite escurentar;

Cobre com nevoeiro o céu estrelado;

Mais que o Aqueronte fique negro e cerrado;

E extravia de tal forma os rivais

Que um ao outro nunca se encontrem mais.

De Lisandro às vezes imita o falar,

Para Demétrio com injúrias irritar;

E outras, como Demétrio, fala a ofender;

E a cada um hás-de assim fazer

Até que o sono nos seus olhos pese

Com asas de morcego e de chumbo os pés.

Então nos olhos de Lisandro deita

O licor da planta, para este fim perfeita:

Tirar da sua vista todo o engano

E devolver-lhe a habitual visão.

Quando acordarem, toda a confusão

Parecerá um sonho que não fez dano,

E os amantes a Atenas voltarão

E amigos até à morte serão.

Enquanto te emprego neste plano,

Vou pedir à rainha o seu indiano;

E então seus caros olhos livrarei

Do amor do monstro, e a paz devolverei.

 

ROBIN

 

Temos de apressar-nos, senhor das fadas,

Pois que os dragões da noite vêm sem demora

E já se notam prenúncios da aurora.

Quando ela chega, os fantasmas, expeditos,

Para os cemitérios correm, e os espíritos

Danados das cheias e encruzilhadas,

Já retomaram seus leitos bichosos

Para que o dia os não veja vergonhosos.

De moto próprio vão da luz exilar-se

E assim à negra noite associar-se.

 

OBERON

 

Nós somos espíritos de outro jaez.

Com o amor da manhã brinquei muita vez,

E posso andar pelo bosque livremente

Até à porta rubra do nascente

Que se abre a Neptuno, cujas águas salgadas

Com seus bentos olhos torna douradas.

Mas apressa-te, vai sem demora,

Podemos tratar disto antes da aurora.

 

ROBIN

 

Acima e abaixo, acima e abaixo,

Vou guiá-los acima e abaixo.

Sou temido, onde quer que me acho.

Lava-os, duende, acima e abaixo.

 

 

 

Com estas disposições foram todos os enganos corrigidos. Os quatro amantes, adormecidos em tristeza e confusão, acordam para se verem convertidos em dois pares harmoniosos.

 

Entretanto, junto a Titânia e servido pelos espíritos e fadas, Fundos está encantado mas confinado à sua nova condição de burro, para além do seu habitual emprego de palavras “caras” que usa fora de propósito. Nas suas risíveis manifestações de amor, Titânia pergunta-lhe:

 

 

Acto IV - Cena I

 

TITÂNIA

 

Oh! Diz, doce amor, o que desejas comer.

 

FUNDOS

 

Na verdade, uma medida de forragem. Podia mastigar uma boa aveia seca. Parece-me que tenho grande desejo de um bom molho de feno. O bom feno, doce feno, não tem parceiro.

 

TITÂNIA

 

Tenho uma fada arrojada que irá procurar

A toca do esquilo e trazer-te nozes frescas.

 

FUNDOS

 

Antes queria ter uma mão-cheia ou duas de ervilha seca. Mas peço-vos, por favor, não deixeis nenhum dos vossos perturbar-me. Sinto que está a chegar-me uma exposição para dormir.

 

TITÂNIA

 

Dorme, então, e eu embalo-te em meus braços.

Fadas, ide embora e ficai por longe.

Assim a videira e a madressilva

Se enlaçam; assim a feminina hera

Envolve os rugosos dedos do elmo.

Oh! Como te amo, como te estremeço!

 

 

 

Depois de ter conseguido o pajem que pretendia, Oberon quer que tudo volte ao normal, e comenta com Robin:

  

 

OBERON

 

Bem-vindo, Robin. Vês que linda vista?

Esta louca paixão já me faz pena,

Pois encontrando-a há pouco aí no bosque

Buscando flores para tão odioso asno,

Eu censurei-a e zanguei-me com ela,

Porque lhe ornava as cabeludas fontes

Com coroas de flores frescas e odorantes,

E como o orvalho às vezes nos botões

Costuma arredondar-se como pérolas,

Ficava agora nos olhos das flores

Quais lágrimas chorando o seu revés.

Depois de a escarnecer a bel-prazer

E ela em tom brando me pedir paciência,

Pedi-lhe esse petiz seu protegido,

Que logo me deu e fez conduzir

Ao meu caramanchão no país das fadas.

E agora, que o tenho, vou desfazer

A odiosa imperfeição dos seus olhos.

E, gentil duende, tira o falso escalpo

A esse campónio ateniense,

Para que, ao acordar, ele e mais os outros,

Possam em bem a Atenas regressar

E não mais pensar no que houve esta noite