POESIAS E PROSAS DO AUTOR
O TESOURO ESCONDIDO (peça de teatro infantil)
O FEITICEIRO INFELIZ (peça de teatro infantil; excerto)
ALGUMAS PALAVRAS SOBRE FERNANDO PESSOA
ALGUMAS PALAVRAS SOBRE O AUTOR
HOMENAGEM A VIANA DO CASTELO, poema de José Veiga
ALGUMAS PALAVRAS DE JOSÉ VEIGA
ALGUMAS PALAVRAS DE JOÃO BIGOTTE CHORÃO
Teresa Ferrer Passos / Teresa Bernardino:
A IMPRENSA E A POESIA INFANTIL
FERNANDO DE PAÇOS, UM POETA A ESCREVER NO FUTURO
FERNANDO DE PAÇOS
(1923-2003)
Fernando Zamith de Passos Silva assinou a maior parte das suas obras literárias sob o pseudónimo Fernando de Paços. Nasceu, em 8 de Novembro de 1923, em Viana do Castelo, cidade onde tirou o curso dos liceus. Filho de uma família numerosa, cedo foi habitar com seus pais e irmãos, numa casa serrana com uma pequena quinta, a dois quilómetros de Viana do Castelo, em S. João d'Arga, a poucos metros de uma casinha onde, por algum tempo, vivera Camilo Castelo Branco pelos anos de 1850. Autodidacta, foi poeta, cronista e dramaturgo. Em Viana do Castelo foi na sua juventude um dinamizador de revistas culturais como a revista Seiva Nova na qual colaborava com recensões, poesia, artigos sobre literatura e conto nos anos de 1942-43. Recebeu vários Prémios atribuídos por concurso na área da poesia, do conto e da recensão. Publicou, em 1944, o livro de poemas Fuga (Viana do Castelo, Poesia Nova edições). Veio viver para Lisboa no ano de 1953, a instâncias do poeta António Manuel Couto Viana. Nesse mesmo ano deu à estampa o conjunto de poemas O Fértil Jardim (Lisboa, Ed. Távola Redonda). Foi Secretário dos fascículos de Poesia Távola Redonda e, com Maria de Lourdes Belchior, David Mourão-Ferreira, Goulart Nogueira e Luís de Macedo, pertenceu ao corpo de redacção da revista Graal. Foi em Lisboa que começou por exercer actividades culturais para a infância no Diário de Notícias, como redactor da revista «Cavaleiro Andante» e editor da revista «João Ratão». Foi ainda director da revista infantil Camarada (1958-65), onde publicou, em especial, peças de teatro para a infância e poesia. Participou com a sua dramaturgia infantil no Teatro do Gerifalto (subsidiado pelo Fundo de Teatro) dirigido por A. M. Couto Viana. Anos mais tarde, passou a exercer, em exclusivo, o cargo de Director Editorial da Verbo. Em 1963, publicará o livro de poesia religiosa O Segundo Dilúvio e, em 1995, A Jangada Aérea. A sua produção poética é mais rara do que os seus trabalhos dentro da dramaturgia infantil. Escreveu numerosas peças infantis, designadamente pequenas peças para teatro de Fantoches. Ele próprio representou as suas peças de teatro de Fantoches, nas secções de teatro infantil da Mocidade Portuguesa e da Companhia Nacional de Educação de Adultos. Entre outras, destacamos as peças infantis escritas no ano de 1950, ainda em Viana do Castelo, como o «O Feiticeiro Infeliz» e «A Cigarra e a Formiga». Neste ensejo, lembramos ainda «A Viola Mágica», «Dependurado da Lua», «O Natal do João», «O Príncipe Sapo», «O Valente Gondalim», «O Relógio Mágico», etc. Deixou, entre outros inéditos, poemas e peças de teatro infantil. Faleceu, numa modesta casa, em Queluz, no dia 18 de Junho de 2003. A Imprensa Nacional - Casa da Moeda publicou a sua Obra Poética (poesia publicada) em 2005.
POESIAS E PROSAS DO AUTOR
Rio Lima, junto de Viana do Castelo
DRAMATURGIA:
O TESOURO ESCONDIDO (peça de teatro infantil publicada na revista infantil Camarada, nº2, 27/1/1962)
A cena passa-se junto a um poço. A pouca distância está uma árvore, com uma escada encostada.
PERSONAGENS:
Afonso − (lendo um mapa que diz «Plano de um tesouro escondido»)
− Acácia...
Alberto – Acácia.
Afonso – Cinco passos à direita...
Alberto – Cinco passos à direita... (executa)
Afonso – Dois passos à esquerda...
Alberto – Dois passos à esquerda... (idem)
Afonso – Um em frente...
Alberto – Um em frente... (idem)
Afonso – Poço onde está o tesouro escondido...
Alberto – Poço onde está o tesouro escondido (espreita). E estará mesmo? Neste poço? Mas onde descobriste tu esse plano, Afonso?
Afonso – Encontrei esse mapa dentro de um livro muito antigo, que ontem me emprestou o Anastácio.
Alberto – É boa! Um tesouro escondido! E escondido neste poço! Custa-me a acreditar. Mas, como o poço não tem água, é fácil ir ver. Só quero uma escada, e ela aqui está! (dirige-se à árvore onde está encostada uma escada de mão e mete-a no poço, descendo por ela). Cá vou eu, Afonso! Se descobrir o tesouro é para mim, ou para ti?
Afonso – Ah! Ah! Ah! Um tesouro escondido! É metade para mim e metade para ti... E não há dúvida nenhuma: é neste poço que está o tesouro. Acácia... Cinco passos para a esquerda... Dois passos para a direita... Um em frente... Poço... É aqui que está o tesouro e o Alberto não tarda a descobri-lo. (gritando para o poço): – Alberto... (o eco repete-se) Então, já descobriste? (eco) Queres uma luz?(eco) Responde! Já descobriste o tesouro? (eco).
Alberto – (aparecendo) : Sim, já descobri que não há tesouro nenhum. Apesar de ver mal, vi bem que não há nada no poço.
Afonso – Nada? Alberto, deixa-me descer agora. Deve estar lá o tesouro. É o que diz o mapa.
Alberto – É o que diz o mapa! Ah! Ah! Ah! Pois desce lá, desce lá e já vais ver que o mapa não passa de um mapa falso...
Afonso – Nunca ouvir dizer que houvesse mapas falsos. Também quero ver.
Alberto – Pois vai ver que eu espero. (Afonso desde) O plano de um tesouro escondido... Olha, quem se vai esconder sou eu, que vem ali o Anastácio e, se me vê, quer logo saber para que é o mapa, para que é a escada e para que é o poço... Escondo-me aqui até que ele passe... (esconde-se atrás do poço)
Anastácio – (cantarolando):
Água leva o regadinho, água leva o regador... Inventei uma partida! Ai, sou um grande inventor! Esta, é muito boa! Mas onde é que se meteu o Afonso? Emprestei-lhe um livro muito antigo e dentro desse livro... Ah! Ah!... dentro desse livro meti um mapa de um tesouro escondido, que desenhei com toda a minha habilidade. Ora... o mapa já não está dentro do livro... e o Afonso já não está dentro de casa. Deve ter vindo procurar o tesouro inventado por mim...! Mas aqui também não o vejo... Olha...olha... Está mesmo neste momento dentro do poço... Eu logo vi que ele caía dentro da peta... Ah! Ah! Com que cara vai ficar, quando vir que o poço não tem nada e quando souber que a história do mapa foi uma partida minha! Vou para detrás daquela árvore! Oh! que surriada! Quero ver a cara com que ele aparece! (esconde-se)
Alberto – (que ouviu o monólogo): – Ora esta! Nem tal me passou pela cabeça... Mais uma partida do Anastácio... Ora ainda bem que ouvi o que ele esteve aqui a dizer para os seus botões... E o Afonso, muito convencido, continua a procurar... (para o poço) Afonso (eco) vem depressa, que tenho uma coisa para te dizer... (eco)
Afonso – E eu tenho uma coisa para te mostrar... (aparece, com uma caixa parecida com um cofre).
Alberto – O tesouro?!...
Afonso – É verdade! Encontrei-o...
Alberto – Mas... não pode ser... O Anastácio esteve agora mesmo aqui e ouviu-o dizer que o plano do tesouro escondido foi desenhado por ele, só para se rir de ti. Como é que tu agora descobres um tesouro? Não pode ser.
Afonso – Pois não. Esta caixa não tem tesouro nenhum. Esta caixa é minha. Tinha-me caído ao poço uma vez que aqui passei... E agora, aproveitei para a trazer... Que bom! A minha caixinha de surpresas!
Alberto – É uma caixa de segredo?
Afonso – É! (vai abrir, mas suspende)
Alberto – Schiu! Tenho uma ideia! Vou chamar o Anastácio! Ele está detrás daquela árvore, mas fingimos que não sabemos... (grita para longe): – Anastácio!... Anastácio!...
Anastácio – (espreita e depois aparece): – Aqui estou! Então que há?
Alberto – Vem cá. Descobrimos um tesouro! Um verdadeiro tesouro!
Anastácio – Um tesouro?
Afonso – Sim, rapaz! Estava no poço um tesouro escondido. Olha! Não vês?
Anastácio – Estava no poço?
Alberto – Estava.
Anastácio – E de quem é?
Alberto – De quem o encontrou. Do Afonso!
Anastácio – Não pode ser. Eu também tenho direito a ele. E, já agora, digo-vos tudo: Fui eu que fiz o plano do tesouro escondido, que o Afonso deve ter encontrado no livro que lhe emprestei. Não encontraste?
Afonso – Encontrei.
Anastácio – Não foi com esse mapa que vieste até ao poço onde descobriste esse cofre?
Afonso – Foi.
Anastácio – Então o cofre também me pertence, pois se eu não tivesse feito o mapa, nunca o tinhas descoberto...
Alberto – Mas tu não sabias que o poço tinha um tesouro... Para que fizeste o mapa?
Anastácio – Para ver a cara com que o Afonso ficava quando saísse do poço sem ter encontrado nada. Mas como encontrou, também tenho direito ao que foi encontrado. Se eu não tivesse desenhado o mapa, não descobria ele o tesouro...
Alberto – Lá isso é verdade. Afonso, o Anastácio que abra o cofre e que tire a parte que lhe pertence. Quanto queres, Anastácio? Metade?
Anastácio – Quero tudo!
Afonso – Pois seja. Acho que é a ti que o cofre deve pertencer. De facto, sem o teu mapa, eu não o descobria. Fica com ele.
Alberto – Estás satisfeito, Anastácio? Abre!
Anastácio – E vocês... não querem nada?
Os dois – Nada!
Anastácio – Depois não se arrependam. O que tem dentro é só para mim?
Os dois – Só para ti.
Anastácio – Então, muito obrigado. Ah! Ah! Convenci-os e deram-me o tesouro todo. Agora já não podem voltar com a palavra atrás. Aqui só toco eu! (abre o cofre; salta um gato de mola).
Os dois – Ah! Ah! Ah!
F. de P.
(Excerto da peça de TEATRO INFANTIL, levada à cena no ano de 1950)
(...)
CENÁRIO
Laboratório de feiticeiro. Grande janela ogival e praticável, à esquerda. Uma porta, à direita. Estantes e mesa coberta de livros, frascos, vasos, pipetas, retortas. Cadeiras. Iluminação fantástica.
FEITICEIRO INTERESSEIRO – (entrando de rompante, com cintilar de luzes e trovões.)
Mas que desordem é esta?
Quem é que manda aqui dentro?
Sopra, vento! Sopra, vento!!!
(Silvos, lufadas.)
Tracazum, berizázá!
Berizázá, berubi!
Aos demónios eu te entrego,
aos infernos eu te entrego
para que fiques morcego!
Berubi, berizázá!
Tracazum, tracazumzum!...
(Apagam-se as luzes e quando voltam D. Galaon está encantado em morcego.)
FEITICEIRO INFELIZ – Oh! Meu pai! Ele era bom...
FEITICEIRO INTERESSEIRO – Era bom? Pior por isso!
Metes-me aqui boa gente?!
Diabos p'ró teu feitiço!
Que rapaz inteligente!
És demente?
Nunca aprendeste a lição...
Que fizeste? Que tens feito?
É deste jeito
Que velas as minas coisas,
grande ladrão?
Já davas este dinheiro?
(Arrebata-lhe das mãos a bolsa do dinheiro, debruçando-se sobre Galaau.)
Que desgraça! Que loucura!
Hoje, por certo, juraste
dar cabo da minha arte
e pôr-me na dependura!
Berizá! Acorda já!
Berizá! Tracazumzum!
(Galaau reanima-se, erguendo-se lentamente; tem um nariz compridíssimo.)
D. GALAAU – Em que mês 'stamos? Que dia?
Onde estou?
Quem sou?
Que queria?...
A coroa está perdida?
FEITICEIRO INTERESSEIRO – (Melífluo.)
A c'roa está garantida!
Mas não é fácil empresa
e a despesa...
D. GALAAU – (Entregando outra bolsa com dinheiro.)
Ficarei sem um real.
Aqui tens minha riqueza.
FEITICEIRO INTERESSEIRO – (Recebendo a bolsa com uma mão e apontando com a outra.)
Ei-lo, o vosso rival!
(Pancada de bateria.)
D. GALAAU – O meu irmão?!
FEITICEIRO INTERESSEIRO – Encantado!
D. GALAAU – Pois se o tivesses matado
terias feito melhor:
assim não vou sossegado.
FEITICEIRO INTERESSEIRO – Podeis seguir descansado,
Alto Senhor.
Só pode desencantá-lo
quem, como ele, tiver
o caminho do dever
encontrado!
D. GALAAU – Em face disso...
FEITICEIRO INTERESSEIRO – Confiai no meu feitiço...
(...)
Fonte: Fernando de Paços, O Feiticeiro Infeliz, in Dez Peças de Teatro Infantil, Serviço de Publicações M. P., pp. 182-184.
ALGUNS POEMAS INÉDITOS (a partir de manuscritos):
O LIMA
Quem te não conhece,
Lima prateado?
Se tudo carece
De tua beleza...
Todo o povoado
Parece beijar-te;
A bela "Princesa",
Só em ti se mina;
Com toda a sua arte,
Ao som duma lira
Que solta seu canto
Dum eterno pranto,
Débeis, na ramagem,
Por entre a folhagem
De choupos chorosos,
Em dias 'morosos,
Cantam rouxinóis.
Além, se ouve só,
O ruído da mó
Quanto milho móis
Lima abençoado?!
Todo coroado
De bons salgueirais,
De choupos, de mós,
De campos que regas,
De canaviais...
Deslizando a sós,
Água não negas:
Tudo banhas, tudo
regas. Alimentas
O trabalho rudo.
Tuas águas lentas
Correm livremente
Para que o que banhas
Sempre te aumente
Belezas tamanhas.
29/VIII-939
Fersil Verdeval (pseudónimo)
ORAÇÃO
Senhor,
Nós estamos num campo de batalha,
Já cheio de despojos,
Já cheios de vencidos,
Onde uns se entregaram,
Onde outros lutam agora.
Quando eu buscar a luz dos dias sem Sol
E fugir à Tua lei
Buscando revelações precoces,
Senhor, não me largues da mão.
Toda a inquietação é falsa, Senhor.
A essência de todos e de tudo
És Tu.
Em Ti somos plenos e libertos.
Quando eu buscar a luz dos dias sem Sol
E fugir à Tua lei
Buscando revelações precoces,
Senhor, não me largues a mão,
Porque nós estamos num campo de batalha,
Já cheio de despojos,
Já cheio de vencidos,
Onde uns se entregaram,
Onde outros lutam agora,
E eu, quero, Senhor,
Quando soar a Hora,
Ter levantado o Teu pendão.
s/d (1941, data calculada pela cor da tinta e ordenação dos manuscritos)
TÁVOLA REDONDA
Tua pureza basta, Galaaz.
Tua memória pura.
Para longe, o corcel das lutas vãs.
Tua pureza. E o silêncio da procura.
Caminheiros da paz
e da aventura,
deixemos as palavras para traz:
Para beber o silêncio das manhãs,
a já presente dádiva futura.
s/d (fins de 1949 ou princípios de 1950)
CADÁVER DE BRONZE
Fernando Pessoa,
cadáver de bronze em frente à Brasileira,
quem te fez cruzar a perna assim, dessa maneira,
a ti, o dos pés juntos e mãos sobre os joelhos,
como quem se furta a todos os espelhos?
Não invejas, ao lado, o teu colega Chiado?
Que impressões com ele tens trocado?
Que dizeis, do presente e do passado?
Que o escultor traiu as tuas esperanças
e que o melhor no Mundo são as crianças?
Ou até disso estás desenganado?
Na verdade, há dias, um menino,
em excursão de escola,
todo ele kispo e água na pistola,
resolveu alvejar a tua testa.
O jacto de água deu mais festa à festa.
Todos riram com gosto
e o professor elogiou a pontaria.
Mas as lágrimas correram no teu rosto
até ao fim do dia.
Agosto de 1992
ORAÇÃO AO MENINO JESUS*
Menino Jesus
Nas palhas deitado
Por nossos pecados
Menino Jesus
Que vens pra sofrer
e por nós morrer
Menino Jesus
Se assim vens por nós
Ouve a nossa voz
Menino Jesus
dá-nos a alegria
de ser também filhos
da Virgem Maria
Natal 2002
CRÍTICA DE LIVROS:
«Fernando Pessoa − Antologia de autores portugueses e estrangeiros»
[Introdução de Adolfo Casais Monteiro]
«Na série de Antologias de autores portugueses e estrangeiros, organizada pela Confluência (editora), podemos, no primeiro volume dessa série, palpar o arcaboiço forte de um poeta que ombra com os melhores da nossa literatura, desdobrado por si em vários heterónimos que nasceram e viveram durante a sua existência.
Fernando Pessoa é um homem excepcional na literatura portuguesa. Sabemos que é um intelectual e sabemos que é um poeta. Mas não é um intelectual poeta, senão que um poeta intelectual.
A inteligência que pôs nas suas poesias, torná-las-ía áridas e prosaicas, se ela não fosse filtrada por uma imaginação assustadoramente "monstruosa" e por uma emoção de verdadeiro sentimento poético.
Eis o grande sintoma que desvenda o seu segredo. é que ele "transformou em emoções os seus pensamentos, sensibilizou o cerebral, deu raízes de existência ao absoluto".
Se assim não fosse, que poderia senti-lo?
Talvez a falta desta emoção seja o que torna muitos poetas modernos não compreendidos, naquele misto de compreensão e sentimento que é viver a poesia que o próprio poeta escreveu, mesmo que ele a não vivesse.
E que importa que ele a não sentisse, se a faz sentir?
"O poeta é um fingidor" e Pessoa considerou sempre que o poeta "artisticamente", não sabe "senão mentir".(...)»
Fernando de Paços
Fonte: Fernando de Paços, «Fernando Pessoa», Suplemento Seiva Nova [jornal] Notícias de Viana, Ano I, nº 21, 8/5/1943, p.4.
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«Elemento essencial a toda a arte para a criança, a poesia infantil é de criação recente e seria curioso determinar até que ponto o seu atraso no nosso século (e particularmente no nosso meio) se deve ao facto de ter encontrado em pleno desenvolvimento um certo obstáculo: a escola realista.
Posteriormente à criação da poesia sobre a criança e anterior à da criança, a poesia para a criança nasceu sob o signo do Romantismo. Se "não deu ainda os seus melhores frutos" foi certamente pelo facto de o realismo imediato não poder ser para esses frutos luz e calor. Só à medida que esta escola fica para trás se retoma o fio vital do sortilégio e do sagrado, possível com o Romantismo. E cativante é desde já assistir ao que começa a ser a poesia infantil, informada por escolas que vão até ao extremo do irracionalismo.
Se o Homem só é verdadeiramente sábio quando se faz compreender pela criança como afirmou A. Carrel e também Einstein, o mundo infantil não é ponto de partida, mas ponto de chegada − por difícil que seja compreender um espaço que já não lhe pertence. Os olhos que se abriram do sono para a realidade, só naquele reentram pela graça da poesia da qual os afastam, no seu desenvolvimento, as operações do conhecimento discursivo. (...)»
Fernando de Paços
Fonte: Fernando de Paços, «Uma Arte para a Criança (Introdução)», Gazeta de Poesia do Mundo de Língua Portuguesa, nº 1/2 (duplo) , Primavera/Verão 1994, p.61.
ALGUMAS PALAVRAS SOBRE O AUTOR
Serra d'Arga, Viana do Castelo
- Que idade tens, ó minha velha terra ?
Setecentos anos ? - Não ! ainda mais cinquenta !
- Apertada entre o mar e a serra,
como cresceste, pequena, sempre bela e atenta
ao maralhal do mundo, às desventuras
de tantas vidas passadas e futuras
de ti nascidas, como em ninho de ternura ?
- Quem te deu essa força, que perdura ?
- Sob a vigia do céu, lá bem acima,
me deu força o namorado, o Lima !
- Que secretas melodias te trazia
tão manso companheiro fugidio ?
- Histórias, muitas, contadas dia a dia,
sobre quem vinha, quem ía, como um rio
de seiva humana, fluindo sem parar,
navegando perto, longe, em qualquer mar;
histórias de gente muito nobre, muito modesta,
que é de gente que se faz uma cidade,
com sonhos, muitos sonhos, muita festa !
- De mais, talvez, para a verdade
dos teus poetas, o Pedro Mello*, o Feijó, o António Manuel couto*,
o do teu nome, Viana, e o Paços*, Fernando místico e douto,
poetas, o melhor da tua alma urbana,
agora, como nunca, garbosa e nova, minha velha Viana !
Coimbra, 29 de Julho de 2008
José Veiga
*Pedro Homem de Mello, António Manuel Couto Viana, Fernando de Paços.
Fonte: Suplemento «Poesia», A Aurora do Lima (jornal editado em Viana do Castelo), 20/8/2008.
«Fernando de Paços (1923-2003)...»
«Se não houvera falecido em data recente, a oito de Novembro do presente ano completaria oitenta anos um grande poeta vianense de tão elevada subtileza e sublimidade quanto de singular discrição e recato, Fernando de Paços, nome literário de Fernando Zamith de Passos Silva.
É bem conhecida dos vianenses a fulgurância poética de António Manuel Couto Viana. Estranha-se, paralelamente, o injusto esquecimento ou desconhecimento do seu permanente e fraternal companheiro de aventuras literárias e poéticas, que foi Fernando de Paços, cuja perenidade nos pertence, por uma obra e uma atitude que é, agora, uma herança colectiva a preservar e capitalizar. A atitude poética de Fernando de Paços, mau grado a escassez da sua obra publicada, representa um alento de espírito que não podemos dispensar no nosso quotidiano peso de futilidades vãs e perecedouras. (...)»
José Veiga
Fonte: José Veiga, «Fernando de Paços (1923-2003) para a perenização de um grande poeta vianense», A Aurora do Lima Viana do Castelo), Ano 148, nº 73, 7 de Novembro de 2003, p.16.
NÓTULA:
«(...) Data de 1953 O Fertil Jardim. O seu primeiro livro, Fuga, é de 1944 e aparece incluido numa colecção de "Poesia Nova", movimento que arvorava como lema "a arte pelo todo". Contra uma visão particular, e até partidária, da arte e da vida, propugnava esse movimento uma poesia sem constrangimentos estéticos ou políticos. Era, pois, uma visão total, católica, universal, contraposta à concepção ideológica do neo-realismo do Novo Cancioneiro. Fuga ao realismo ou evasão do mundo? Não, o mundo olhado na sua dupla dimensão real e espiritual ou transtemporal. Não uma fuga à vida, mas uma vida mais interiorizada. Os três poemas finais de Fuga − "Salmo", "Cântico", "Resgate" − apontam para essa direcção transcendente, que as duas colectâneas seguintes vão aprofundar. (...) N' O Segundo Dilúvio acentua-se o pendor religioso, místico até, do autor, que não cede a um exterior folclorismo devoto. Aqui, embora a palavra "dilúvio" evoque a ameaça apocalíptica do Génesis, há todo um clima puramente angélico e a esperança que antevê a "cidade tranquila", a "cidade nova" que prefigura a Jerusalém celeste. É a nova Terra, é o novo Céu, depois da "grande tribulação", na linguagem bíblica(...)»
Fonte: João Bigotte Chorão, Annualia, Verbo, 2006, pp.140 e 141.
«A IMPRENSA E A POESIA INFANTIL»
«Algumas considerações sobre a revista infantil CAMARADA»
«Em busca da genuína alma da criança foram dados à estampa na revista infantil Camarada (1958-1965), rubricas especialmente dedicadas à poesia.
Esta revista fora, em anos anteriores(1947-1951), dirigido pelo poeta António Manuel Couto Viana. Desde 1957, assumiram a direcção Álvaro Parreira e o poeta e escritor de teatro infantil Fernando de Paços (Viana do Castelo, 8/11/1923 - Lisboa, 18/6/2003).
Como Homenagem póstuma a Fernando de Paços, aqui vamos deixar alguns traços do jornal, o qual dinamizou com o seu vivo entusiasmo por tudo o que dissesse respeito ao mundo da criança. Nesta nova série do Camarada, Fernando de Paços continua os intuitos que marcaram os primeiros anos do jornalinho, abrindo-o sempre «a quem, com um mínimo de qualidade, quisesse tentar a sorte nas bandas desenhadas e nos pequenos contos apropriados à idade e gosto dos leitores» (A. M. Couto Viana, João de Deus e um Século de Literatura Infantil em Portugal, p.35). Aqui foram-se publicando peças de teatro, pequenos contos, histórias de quadradinhos, biografias históricas, jogos, passatempos e utilidades práticas para entretenimento da criançada. O autor do impecável poema Fuga (publicado em 1944, quando andava pelo vinte e um anos), dedicava-se, incansável, ao Camarada em que a cor das múltiplas ilustrações e o apurado grafismo, em que a beleza das fantasistas narrativas e os seus ensinamentos, criaram grande número de pequenos leitores.
(...)
De Fernando de Paços, o incentivador da publicação desta 2ª série da revista, lembremos as poesias que escreveu especialmente para os pequenos leitores. Inspirando-se em animais como o gato, publica a «Fábula do Gato e da Campainha», um poema com carácter educativo, em que não falta o espírito de educar para a democracia:
«Proponho
Que ao rabo do gato da vizinha
Seja atada uma grande campainha
Que permanentemente o localize,
Uma vez que não há quem nos avise
Da sua sempre inesperada aparição».
A terminar, um verso eivado de ironia:
«Melhor fora não propor coisa nenhuma».
(Camarada, nº Especial, 1965)
No poema «Domingo» de novo imprime aos versos um tom de ironia, essa ironia que, não raro, aparece nas personalidades de uma natural timidez:
«(…) – Já vais para a missa?
– Já cantam os galos! –
Tombei a preguiça
Com um par de estalos. (…)».
(Camarada, nº5, 1958)
Inspirando-se no tempo das chuvas, o poeta de Fértil Jardim (1963), escreve a «Canção à Chuva» caracterizada pelo simples jogo das palavras «chove», «chuva», e «choveu»:
«Chove, chove, chove,
Chove, já choveu!
Três gotinhas de água
Dentro do chapéu (…)».
(Camarada, nº2, 1963)
De carácter narrativo descobrimos um único poema «A lenda de S. Cristóvão». Neste, Fernando de Paços desenvolve os versos como se fosse uma história do tipo dos contos de fadas:
«Junto à margem da ribeira
Quedava-se, a meditar,
Deitado na sua barca
Que era a melhor do lugar (…)».
(Camarada, nº6, 1963)
E depois de caracterizar o barqueiro, sempre usando a rima intercalada, surge o maravilhoso:
«Um dia chega um menino
Da altura de um polegar:
– Cristóvão, por Deus te peço,
Quero o rio atravessar – .
– Saltai para a minha barca:
Bem vos pode carregar – .»
Os três últimos versos do poema dão a tonalidade sobrenatural à lenda e o sentido cristão da lenda construída em torno do santo:
« – Ó milagre de pasmar! –
Uma barca toda nova
Encontra no seu lugar!».
Finalmente, lembremos ainda o poema «O Cavalo de Pasta» imbuído de um espírito folgazão, recorrendo sempre à repetição rítmica e melódica tão do gosto infantil. Eis um excerto:
«(…)Catrapis!
Catrapis!
É um bom cavalinho,
Toda a gente o diz!
Catrapós!
Catrapós!
Quanto mais o puxam
Mais ele é veloz!(…)»
(Camarada, Dez.1958 e Gazeta de Poesia, nº 3/4, 1994)
Estes são apenas alguns exemplos da poesia infantil que se publicou em Portugal, nas décadas de 50 e 60. Com entusiasmo, Fernando de Paços insere na revista não só textos em prosa, mas também toda uma poesia, sempre na tentativa de dar uma orientação sadia ao público infantil, orientação virada para os valores literários, científicos e da vida prática, integrando-se estes em contextos de ordem moral e cívica de fundo cristão.
Aqui encontrámos a seiva que alimentou gerações de crianças. Das crianças sempre ansiosas por encontrar e desbravar caminhos, sempre ávidas por descobrir sentidos no mundo que as rodeia. Das crianças ávidas das histórias de aventuras em que cada minuto é um acto de coragem, uma ousadia, um desafio. Das crianças naturalmente desconhecendo o medo de errar ou o medo de perder.
A leitura vocacionada para um público infantil não pode destruir a pureza, a sinceridade, a criatividade que habita cada criança. E estas vivem a par do sonho, dessa espantosa capacidade de construir a verdade. Sem se separar de um dos mais sólidos princípios da vida adulta, a autenticidade mantém-se firme perante o sonho. Estes os princípios que nortearam o Camarada ao qual o poeta de Segundo Dilúvio(1963) se dedicou durante vários anos.
Entre as «Fábulas» de Campo de Flores (1893) de João de Deus, o Camarada do tempo de Fernando de Paços e a literatura infantil hoje divulgada nas livrarias dos grandes centros comerciais, vai um abismo tão radical, que nos parece urgente repensarmos a literatura para as crianças, nestes primeiros anos do século XXI. Ou suspeitamos que, se tal não se fizer, a manhã fresca da imaginação humana sossobrará, porque a criança deixou de o ser demasiado cedo. E demasiado tarde nos daremos conta de que a abandonamos aos vendedores de sonhos infantis, esses a quem destruíram os sonhos na infância.
Teresa Ferrer Passos
Fonte: Teresa Ferrer Passos, «A Imprensa e a Poesia Infantil - Algumas Considerações sobre o jornal O Camarada», Suplemento «das Artes das Letras», O Primeiro de Janeiro, , 29 de Março de 2004; Cadernos Vianenses, nº36, Julho de 2005; Internet, www.harmoniadomundo.net
UM POETA A ESCREVER NO FUTURO*
«Ao fundo, o Lima corria / E, lira de água a tremer,
/ Os seus versos repetia»
Teófilo Carneiro
«Vede-as [às suas Rimas] com mágoa, vede-as com piedade /
Que elas buscam piedade e não louvores»
Bernardim Ribeiro
Publicado em 1944, o livro de poemas Fuga surge como a rampa de lançamento de Fernando de Paços1 (23/11/1923-18/6/2003). Com pouco mais de vinte anos, o autor reunia, subordinado àquele título, doze poemas. Era o terceiro livro da colecção Poesia Nova. Assim se chamava porque pretendia apagar qualquer possível elo de ligação com alguma da poesia que se publicava na época.
O lema da Colecção era, significativamente, a «Arte pelo Todo». Esta expressão procurava sublinhar que a poesia não se confinava à estética, mas era movida pelo sentimento, pela emoção. O exercício da poesia exigia toda uma estética formal, sem descurar, em simultâneo, a expressão das ideias.
Por esse tempo, vivia Fernando de Paços em S. João d’ Arga em Viana do Castelo. Um belo lugar serrano a elevar-se frente à cidade. Aqui viveu a infância, a adolescência e a juventude até aos vinte e tal anos, na casa de seus pais. Com uma pequena quintinha, que se cobria, então, de vinhedos e frondosas árvores de copas fustigadas, tantas vezes, pela chuva miudinha e abraçadas pelas brumas e pelo nevoeiro, até no Verão. Ao lado, havia (e ainda hoje lá está) uma austera capela em pedra granítica e, um pouco adiante, a casinha onde Camilo Castelo Branco (não excluiríamos sombras de Camilo em Fernando de Paços…) viveu no ano de 1857.
Arga, um pequeno lugar no caminho que conduz ao templo neo-bizantino consagrado ao Sagrado Coração de Jesus no alto do Monte de Santa Luzia, sobranceiro a Viana do Castelo. Arga, cuja fundação remonta à construção do mosteiro de S. João d’ Arga por S. Frutuoso, no século VII. Para este lugar paradisíaco e de silêncios secretos, espreitava o rio Lima, ao fundo, a espraiar-se depois frente às ondas brancas de espuma dos longos areais. E os perfumes de maresia e de pinheiral entrelaçavam-se nos trilhos sinuosos da serra.
Nesta beleza nostálgica, suave e também agreste, cresceu a sensibilidade poético-mística de Fernando de Paços. Fecundou-a uma espiritualidade profunda, semelhante à de um certo Fernando Pessoa. Mas, a ela não foram também estranhas as manifestações religiosas da obra de um José Régio, nascido nessa tão próxima Vila do Conde, ou as raízes telúricas de obras como Marânus de Teixeira de Pascoaes, a escrever nos não muito distantes vergéis de Amarante. Não sendo um ortodoxo partidário do presencismo regiano, nem um discípulo da forma artística de Pascoaes, escutou-os com atenção, seguindo, contudo, numa linha de rumo bem distinta e própria da sua personalidade. E se Fernando de Paços foi fiel à frase de José Régio, «literatura viva é aquela em que o artista insuflou a sua própria vida e que por isso mesmo passa a viver de vida própria»2, afastou-se em absoluto, de acordo com o lema da Colecção em que se inseriu Fuga, da poesia social dos neo-realistas, seus contemporâneos.
Dinamizador do Centro Cultural da Juventude de Viana do Castelo, Fernando de Paços (também conhecido por Fernando Zamith), colaborou com entusiasmo no seu órgão Seiva Nova, suplemento literário do jornal Notícias de Viana. Aí veio a publicar um conto, um ou outro artigo sobre a moderna poesia portuguesa e alguns poemas. Incentivador entusiástico deste projecto literário, escreveria o poeta de S. João d’Arga, em Outubro de 1942 (Seiva Nova, nº6):
«Rasgaram o véu negro que tinham sobre a fronte,
E viram um ideal erguer-se no horizonte!
Correram, para ele, de braços abertos,
E o novo Sol, juntando-os contra si, volveu:
– Meus filhos, sois libertos!…
(…)
Ó Juventude heróica, o teu vigor
É como a Seiva Nova dum arbusto em flôr!…»
Dois anos depois da publicação deste poema exortativo, Fernando de Paços dava à estampa Fuga. Pequeno livro, em função do número de poemas publicados. Mas, não pequeno livro, em função da arte com que transmitiu a emoção em que se envolviam os seus versos. Desde o primeiro poema, que titulou «Momento», o poeta revela uma inesperada originalidade. As suas tonalidades artísticas apresentam-se eivadas de pureza de sentimentos. Fiel às cadências, aos ritmos, à musicalidade das rimas, encontra o ponto certo da melodia. A harmonia verbal é uma das características de todos os seus poemas. De um rigor acentuado na imagética, enriquece-a com o seu pensamento rebuscado. Como se assemelham os seus versos àquelas brumas entre os pomares e esses bosques solitários, onde, cedo, meditou sobre a vida e o mundo. E começava a escrever toda uma poética de interrogação. Questionava-se a si próprio, quase a cada momento. Num espanto e numa comunhão, escrevia os seus versos envolvendo-os de trocadilhos, antíteses e metáforas.
Usava as palavras como um mago que quer trazer ao de cima das sílabas, os pensamentos mais recônditos, sem lhes retirar o secretismo. Em simultâneo, avançou com frases libertadoras das amarras da linguagem, tantas vezes, enganadora.
É o caso do primeiro verso de «Momento»: