HARMONIA DO MUNDO

 

 

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DRAMATURGIA

 

ANTÓNIO MANUEL COUTO VIANA

(1923-2010)

António Manuel Couto Viana nasceu em Viana do Castelo a 24 de Janeiro de 1923 e faleceu em Lisboa a 8 de Junho de 2010. Trata-se do poeta, dramaturgo, ensaísta, memorialista, gastrólogo e autor de livros para crianças.

A sua estreia literária fez-se em 1948 com o livro de poemas O Avestruz Lírico, mas já escrevia desde 1943, pelo menos, em jornais locais de Viana, Braga, Valença e Lisboa.
Dirigiu com David Mourão-Ferreira e Luís de Macedo as folhas de poesia Távola Redonda, e em 1956-1957, a revista de cultura Graal. Para além disso fez ainda parte do conselho de redacção de uma outra revista chamada Tempo Presente, entre 1959-1961.

Publicou mais de uma centena de obras, sobretudo de poesia, tendo algumas delas obtido honrosos prémios oficiais.

O livro Cancioneiro do Rio Lima (2001), por ele compilado, juntou-o a outros 34 poetas de várias gerações.

Desde cedo se interessou pelo teatro, tendo colaborado como actor, cenógrafo, encenador e empresário em várias companhias, das quais destacamos o Teatro do Gerifalto. Uma boa parte da sua actividade teatral como actor, encenador e autor dirigiu-se às crianças, porventura reflexo da sua obra poética retratar um paraíso infantil perdido.

Para além da poesia e do teatro dedicou-se também à literatura infantil, através de ensaios, escrita e tradução de livros, e dirigiu, entre outras edições infanto-juvenis, a publicação Camarada (1949-1951).

Pertenceu ao Conselho de Leitura dos Serviços de Bibliotecas da Fundação Calouste Gulbenkian, possuia o Grande Oficialato da Ordem do Infante Dom Henrique e foi "cidadão de mérito" de Viana do Castelo. Em 2004, a Imprensa Nacional - Casa da Moeda editou-lhe a obra quase completa 60 Anos de Poesia, em dois volumes, de quase quinhentas páginas cada um deles. No mesmo ano, saía O Velho de Novo, uma edição da sua poesia (bela edição de luxo, com aguarelas de Paulo Ossião), com a chancela da editora portuense Caixotim.  Estas duas publicações de António Manuel Couto Viana foram prefaciadas, respectivamente, pelo Professor Doutor Fernando Pinto do Amaral e por Pedro Mexia, crítico de literatura e cinema do Diário de Notícias.

Recentemente, A. M. Couto Viana tinha editado o livro de poemas Digo e Repito (Averno, 2008). Pouco depois, foi dada à estampa a sua conferência O Poeta do Oriente do Oriente (Instituto Internacional de Macau, 2008).

O Poeta escrevia "de novo", mais uma vez, ainda e sempre "de novo"! António Manuel Couto Viana viveu desde a sua juventude em Lisboa. Muitos anos foram passados num andar alugado de um antigo prédio da Rua Marquês de Tomar. Há alguns anos tinha deixado essa memória e fora residir na Casa do Artista. A doença não permitia ali permanecer por mais tempo. Na Casa do Artista, apesar dos reveses da doença, continuou a escrever.

Incansável, António Manuel Couto Viana não perdia tempo a repousar. Porque o seu modo de viver se confundia com o do herói que nunca se cansa de lutar. Sem medo dos inimigos e com júbilo pelos amigos, escrevia crónica, critica literária ou poesia. Nos últimos anos, revelara uma inesperada veia de contista, publicando Meias de Seda Vermelha e Sapatos de Verniz com Fivela de Prata (2004), a que se seguiriam outros livros de contos. Com uma prodigiosa memória, a vida, que deveras sentia como a sua maior relíquia, continuava a ser o cenário dos seus belos escritos, a escorregarem de si com a emoção de cada momento.

O título do seu último livro de poesia, Ainda Não (2010), aludia ao facto de a morte, que pressentia próxima, não ter ainda chegado.

 

 

POESIAS E PROSAS DO AUTOR:

LOA AOS BISCOITOS DA BISAVÓ

CARTA A FERNANDO DE PAÇOS (poema)

FUI QUEM SOU (poema)

ESTE QUADRO (poema)

EXCERTO DE CONFERÊNCIA

QUEM, DO NATAL? (poema)

ERA UMA VEZ... UM DRAGÃO (peça de teatro infantil; excerto)

ALGUMAS PALAVRAS SOBRE A SUA OBRA:

Teresa Ferrer Passos / Teresa Bernardino:

A POESIA INFANTIL, DE NOVO

 

 

Quadro da autoria do ilustrador Afonso Cruz

 

 

 

POESIAS E PROSAS DO AUTOR:

 

 

 

 

 

 

 

 

ESTALEIROS NAVAIS

 

 

 

— Que orquestra é esta? Só de metais?

De onde lhe nasce tanta energia?

— Dos Estaleiros Navais,

Batendo chapas, dia após dia.

 

São engenheiros (os maiorais),

Os soldadores, os serralheiros,

Com instrumentos industriais

Que dão concerto nos Estaleiros.

 

E os navios zarpam dos cais

(Foguetes, palmas, sobem nos ares...)

Navio novo, aonde vais?

— Levar Viana, de novo, aos mares!

 

(15/5/2008)

 

António Manuel Couto Viana, Mais Postais de Viana, Câmara Municipal, Viana do Castelo, 2008, p. 29.

 

 

 

 

CAPELA DE S. LOURENÇO

 

 

Capela de S. Lourenço,

Da outra banda do rio,

É como acenar de lenço

À passagem do navio.

 

Tão frágil, até parece

Uma casquinha de noz

Que o Lima, lento, viesse

Encalhar junto da foz.

 

No areal do Cais Novo

Ficou só, abandonada.

Nela, já não reza o povo;

Já tem a porta fechada.

 

Tão humilde, tão pequena,

Tão construção de brincar,

Branco adeus, acena, acena,

A quem se fizer ao mar!

 

(10/5/2008)

 

António Manuel Couto Viana, Mais Postais de Viana, Câmara Municipal, Viana do Castelo, 2008, p. 39.

 

 

 

 

 

LOA AOS BISCOITOS DA BISAVÓ

 

A minha Bisavó dir-se-ia um sargento

A comandar os filhos e enteados,

Disciplinando, com voz dura, um regimento

De vinte e três soldados.

 

Vejo-a num retrato, ao lado do marido,

Com as mãos no regaço

Do gorgorão solene do vestido

Num abandono lasso.

 

E a face fechada de índia americana

(De que sangue nasceu essa impressão?)

Parece reflectir uma alma desumana

Que à doçura do sim prefere o fel do não.

 

No entanto, com súbito carinho,

Ao ver um filho seu perder o alento

Do paladar e recusar o pão e o vinho,

Sentado à mesa como um sofrimento,

 

Põe mãos ágeis e sábias no primor

De apurar as secretas porções de ingredientes,

Inventando um biscoito de sublime sabor

Que dá gula ao fastio dos doentes.

 

E na xícara de chá, com a nuvem de leite,

Ela amolece a massa que o ardor do forno coze.

E esse biscoito, assim, é pelo filho aceite,

Que começa a comer, com ávido deleite,

Vencendo o medo da tuberculose.

 

Depois, viúva já, com três filhas solteiras,

Resolve-se a lançar, na usura dos mercados,

Às bocas lambareiras,

Esses biscoitos inventados.

 

Deu-lhes um nome: o nome da cidade

Que trazia no nome:

Biscoitos de Viana! Quem não há-de,

Ao vê-los, sentir fome?

 

De trato rude, com delicadeza,

Criou estes biscoitos, por amor maternal,

Agradece-lho a mesa vianesa

E o bisneto, ao chá, no fino ritual,

Mais do que nesta loa insípida e banal.

 

¹António Manuel Couto Viana, Álbum de Família - Rimances, Viana do Castelo, Câmara Municipal, 1995, pp.19-20

 

 

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CARTA A FERNANDO DE PAÇOS

 

 

Para a Teresa e o Fernando Henrique

 

 

Fernando, meu Poeta e meu Amigo:

Hoje, à direita do Pai,

Deixa que eu lembre contigo

Aquele tempo antigo

Que ainda sou e já lá vai.

 

A nossa mocidade literária,

Aberta, sem sarar em em ferida:

A tua, mais solitária.

A minha, mais partilhada coma vida.

 

Sonhos, iniciativas,

Um futuro de esperança a percorrer.

Todas as audácias vivas,

Impulsionadas para vencer.

 

A tua Fuga foi o teu começo.

Demorei quatro anos a alcançar-te,

Quando, súbito, aconteço

Poeta na própria inspiração e arte.

 

Colheste o verso em flor no teu Fértil Jardim

Que, em Segundo Dilúvio, foi arca abençoada

E, na Jangada Aérea, soube levar-te ao fim.

Nas nuvens de alta fé que foram tua estrada.

 

A tua Poesia singular

Penetra no Espírito, conforta.

É uma ave a voar.

A minha, uma ave morta.

 

Mais de sessenta anos

De convívio fraterno!

Tu, humilde como os santos franciscanos.

Eu, sempre às audições do inferno.

 

Fernando, meu Amigo e meu Poeta,

Que saudade de nós!

Tu, a voz inquieta

Em alma múrmura e discreta.

Eu cansado de ouvir a minha inútil voz.

 

17.1.2006

 

 

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FUI QUEM SOU

 

O mundo em que me vivi

Ouve-me de de confissão

E perdoa eu estar aqui

De pés no chão.

 

É já passado a revolta,

A pedra, o insulto, a vaia,

O quanto espalhou à solta

Boca e mão de certa laia.

 

Hoje, pra lá da janela

Da solidão do meu quarto,

Que transfigurei em cela

Meu pão, meu verso, reparto.

 

Nunca nego o que me sobra

Saciando alheia fome.

Assim ergui uma obra

E dei-lhe nome.

 

13.7.2006

 

 

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ESTE QUADRO

 

 

Na parede da Casa de Pedra

 

Este quadro retrata uma cidade

Adivinhada de cima.

Exacta em cada linha que a invade

E com que rima.

 

Colorida.

De uma alegria matinal

Como o nascer do ímpeto da vida

No jogo do pincel sedoso e sensual.

 

Sobre um cartão cinzento

Realça de harmonia

E pensamento.

Expande-se de forma e poesia.

 

Foi Cargaleiro que o assinou.

Tem cinquenta anos de emoção.

A sua arte é como o alar de um voo

De pássaro ou de mão.

 

6.6.2006

 

 

António Manuel Couto Viana, Disse e Repito, Averno, Lisboa, 2008,

pp. 32-33, 22 e 43

 

 

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«Porém , o mais sentido "tufão", que desabou sobre a Leal Cidade do Nome de Deus de Macau, aconteceu a 20 de Dezembro de 1999, na dignidade de uma comovida cerimónia de despedida. Não o anunciara o farol da Guia, o primeiro das costas da China, frente ao mar revolto.

Sabiam-no já, fatalistas, resignados, esta vida, estas gentes, estas moradias, estes palácios e praças e jardins, estes templos e igrejas, amados, venerados, em cinco séculos de história portuguesa, que os tiveram como seus.

Tremeram os alicerces de tudo isto, as raízes cingidas à terra fecunda, geradoras de poetas, de santos, de heróis.

Tremeram, antes de ameaçar ruir com fragor.

O poeta não assistiu ao sismo que a natureza havia imposto. E, que, Deus louvado!, não causou danos materiais, nem feridas que não sarassem.

Findara já a sua tarefa de três anos de enamorado e pedagogo.

Mas o coração deu-lhe um grito. E escreveu,  a sangrar, poemas húmidos de lágrimas. Como este, com que remata a deambulação por um passado que respira como presente e sonha como futuro, ainda que os lábios lhe murmurem (quem sabe se para sempre!): Macau, adeus!»

 

Macau, eu conheci-a

Numa mesa redonda,

Juntando o Oriente ao ocidente

Lidavam, par a par, em cada dia;

Ambas afeitas à onda

Fecunda e activa do presente.

 

Cansou a História

De as ver entrelaçar raízes

E sem ignorar-lhe um passado de glória

Sonhou-lhes futuros mais felizes.

 

Afastaram-se os dois da mesa.

O Ocidente, a chorar, disse adeus à cidade.

Levava uma bandeira portuguesa

Junto ao peito, a escutar o pulsar da saudade.

 

 

 

Texto de uma Conferência (2007) inserida no livro O Poeta no Oriente do Oriente, Instituto Internacional de Macau, Colecção Mosaico, Vol. V, 2008, pp.41- 42.

 

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QUEM, DO NATAL ?

 

Quem esperamos ?  Quem,

No silêncio, na sombra, no deserto ?

O Menino divino de Belém,

Ou o rei Encoberto ?

Esperamos alguém:

Qualquer que tenha o coração aberto.

 

É demais esta ausência, este vazio !

Quem adorar, servir, como Deus e senhor ?

– O que estender a ponte sobre o rio

Da miséria e pavor !

O que apascente e que semeie em desafio !

O que disser : – Eu sou !  E for.

 

António Manuel Couto Viana, 60 Anos de Poesia, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, Lisboa, 2004, Vol. I,

p. 476.

 

 

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PEÇA DE TEATRO INFANTIL (excertos) DE ANTÓNIO MANUEL COUTO VIANA:

 

 

 

ERA UMA VEZ... UM DRAGÃO

(in 10 Peças de Teatro Infantil, Serviço de Publicações da M.P., pp.18-21)

 

(...)

 

Cena I

 

(Entram, pela direita, Catrapuz, Catrapaz e Catrapiz, em passo de dança. Vestem-se e movem-se como bonifrates. Catrapuz traz às costas uma trouxa feita de uma capa garrida, Catrapaz segura uma longa espada e, finalmente, Catrapiz toca numa flauta qualquer melodia burlesca)

 

Catrapuz      (apontando o grupo de arbustos)

               Oh, que lugar excelente

                   Para a gente

                   Descansar um bom bocado:

                   Confortável... sossegado!...

                   Tu não achas, Catrapaz?

     Catrapaz      (arrogante)   

                     A quem é forte e audaz

                            Qualquer pouco satisfaz.

                            Mas ouçamos o que diz

                            Catrapiz.

 

    Catrapiz         (aparentando receio)

                        Não nos devemos fiar

                          Nas aparências, amigos!

                          Quantos perigos

                          Se podem bem ocultar

                          Sob as árvores da floresta!

 

    Catrapuz        Ora esta!

                         Então não querem lá ver!?

                         Que poderemos temer?

 

   Catrapaz        (fazendo voltear a espada acima da cabeça)

                         Com a minha espada na mão,

                          Tudo levo de roldão!

 

  Catrapuz        (irónico)

                        Mesmo... um dragão?

 

Catrapaz           (com espanto)

                          Um dragão?!

 

Catrapuz           (com receio)   

                            Um dragão?!

 

Catrapiz             (misterioso, baixando a voz)

                          Lembrai-vos de eu ter contado

                          Que, à noite, no povoado

                          Onde dormimos, eu vira

                          Um vulto estranho rondar

                          O castelo do lugar?

 

Catrapaz           Ah! Julguei que era mentira!

 

Catrapuz          (em à parte, para o público)

                        E era. Posso apostar!

 

Catrapaz         Pois de novo o divisei,

                        Há pouco, quando passei

                        Aquele grupo de arbustos!

                         (apontando para fora da cena)

 

Catrapuz         (irónico)

                       Tu não ganhas para sustos!

 

Catrapaz          (medroso)

                         E o dragão é assim-assim.

                        De tamanho regular?

 

Catrapiz           Podes lá imaginar:

                       Parece que não tem fim!

 

Catrapuz         Tem 'scamas?             

 

Catrapiz           Como a pescada,

                        E a língua, muito encarnada,

                        Dez palmos fora da boca.

 

Catrapaz          Tem juba?

 

Catrapiz            Como um leão!


Catrapuz           E cauda? 

 

Catrapiz            Como um pavão!

 

Catrapaz           Bigodes?

 

Catrapiz            Como uma foca!

 

Catrapuz           Tem garras?

 

Catrapiz             Como um jaguar!

                          E os olhos, sempre a brilhar,

                          São dois sóis na escuridão!

 

Catrapaz            Tem asas?

 

Catrapiz              Como um vampiro!

 

Catrapuz             E dentes?

 

Catrapiz              De crocodilo!

 

Catrapaz             E tem voz?

 

Catrapiz              Como um trovão!

 

Catrapuz            (fingindo-se medroso)

                          Mas que medo um bicho assim

                          Deve causar! Ai, que horror!

 

Catrapaz            (readquirindo a calma)

                         Esqueceste-te de mim,

                         Da minha audácia e valor?

                          (para Catrapiz)

                         Que pena não me teres dito

                         Que o bicho andava pr'a aí!

 

Catrapiz            Podias ficar aflito...

 

Catrapaz            Só se o ficasse por ti!

                          Contra a minha valentia

                          A fera nada podia!

                          Bastava eu erguer a espada

                          E zás!, a língua encarnada

                          Cortaria, em mil bocados,

                          Bem medidos e contados,

                          Que, em fricassé ou assados,

                          Seria manjar do céu.

     

                  (...)

 

                                                      

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ALGUMAS PALAVRAS SOBRE A SUA OBRA:

 

 

 

 

 

A POESIA INFANTIL, DE NOVO

A  sabedoria de um Poeta não tem idade. Em cada poema nasce uma história a vibrar de sensibilidade e imbuída de uma cultura assimilada ao longo dos anos, anos de tempestades e anos de bonanças. Mas, em cada poema para a infância, a arte de contar ganha novos contornos e esses contornos traçam um mundo de memória, a memória da infância do próprio Poeta. É neste ponto, que surge a escrita de António Manuel Couto Viana, um dos Poetas que melhor soube falar com as crianças.

A sua obra dramatúrgica especialmente destinada a um público infantil transmite um entusiasmo, uma dinâmica, uma ousadia tal que poderíamos compará-la ao célebre “Peter Pan”, o menino que não queria crescer. A verdade é que, se crescesse, perderia a alma rica da sua infância.

Talvez por António Manuel Couto Viana, ele próprio, não ter perdido, ao longo da sua vida, a alma pura da criança que foi, continua a ser capaz de dialogar com uma naturalidade invulgar. Trata-se de uma naturalidade eivada da sua vasta cultura que, desde os seus tempos no liceu de Viana do Castelo, desenvolveu sem descanso.

A arte de comunicar é uma constante em toda a sua obra, mesmo até a vasta obra ensaística está por ela marcada. Esta capacidade de comunicar, ou seja, de se dar ao outro, ao ponto de se transferir para as suas personagens ou para as suas lembranças, é impressionante. A arte do diálogo está imbuída de tudo o que, de um modo ou de outro, o autor vivenciou e continua a vivenciar.

Em cada um dos seus ensaios, sejam sobre Cesário Verde ou Camilo Pessanha, encontramos múltiplas referências a seu pai, a sua mãe e irmãs, a seus amigos poetas, ensaístas ou pintores, sempre como se todos fizessem parte de uma magnífica peça de teatro que tem como palco privilegiado a própria vida (vejam-se livros como Colegial de Letras e Lembranças, ou Escavações de Superfície – Estudos e Memórias, Universitária Ed., 1994 e 1995, respectivamente).

A dramaturgia é a arte daqueles que gostam de conviver com o outro e não suportam o egocentrismo limitado ao solilóquio, em que os outros são indiferentes ou um peso a mais, se não mesmo uma inevitável necessidade. A dramaticidade de A. M. Couto Viana foi um das suas mais curiosas e incisivas facetas.

A sua poesia e o seu teatro infantil revelam por outros factores, sobre os quais não vamos alongar-nos, revelam  bem, dizia, o seu alto talento também numa escrita especialmente destinada à criança. Recordo os livros Versos de Cacaracá (1984) e Versos de Palmo e Meio (1994) ou as peças infantis Era uma Vez… um Dragão! (1950) e  No Palco do Faz de Conta. Toda uma literatura cultivada com esmero quer na vertente da poesia, do ensaio, ou do conto (Meias de seda Vermelha e sapatos de verniz com fivelas de prata e outros contos [ed. Prefácio, 2003], tornam A. M. Couto Viana um ícone ímpar na literatura portuguesa da 2ª metade do século XX e dos já quase a finalizar primeira década do século XXI.

A alma autêntica que reveste a sensibilidade dos mais pequeninos e que também reveste a daqueles que a sabem conservar quando adultos, está presente no livro, sobre o qual vou dar alguns breves traços: Bichos Diversos em Versos (Poesia Infantil), [Texto Editores, Lisboa, 2008] com ilustrações alusivas de Afonso Cruz.

Todos os poemas são rimados, cheio de beleza rítmica e de sempre oportuna temática, o que está de acordo com aquilo a que A. M. Couto Viana já nos habituou, desde os anos quarenta, em jornais e revistas publicados em Viana do Castelo e em Lisboa (em especial Távola Redonda).

Desde 1948, ao publicar em livro, O Avestruz Lírico, o seu primeiro conjunto de poemas, não mais deixou de dar a lume tantas e tantas obras, num fulgor produtivo de que a qualidade foi sempre um admirável apanágio. Se estes poemas não apresentavam características de poesia infantil, neles havia a beleza estética da transparência, que caracteriza a alma da criança. Aqui estava já bem evidente a alma plena de pureza intemporal do Poeta de A Oriente do Oriente (1987) e de Café de Subúrbio (1991).

O livro em referência, Bichos Diversos em Versos (Poesia Infantil), oferece-nos um conjunto de poemas em que encontramos histórias de animais que são, em simultâneo, histórias moralizantes a ensinar sobre o sentido impróprio de alguns comportamentos humanos, histórias cobertas de ironia, que chamam a atenção da criança mais desprevenida.

Entre os poemas moralizantes podemos citar o poema “Vaidades”, em que o tubarão grita a um pequenino peixe para lhe chamar Barão. Era um peixe mesmo vaidoso do seu tamanho descomunal; esquecia que a aparência exterior não era tudo; o outro, apesar de ser pequeno, chamava-se peixe-Imperador! O nome serve, neste poema, para simbolizar que nem tudo se reduz à sua forma física, era preciso lembrar-se que o interior não era menos importante. Assim, o grau de nobreza pelo qual exigia ser tratado tornava-o ridículo por ser tão pretensioso.

Por sua vez, o poema “O Tigre” refere-se ao defeito da falsidade; o poema “O Cavalo” acentua o valor daquilo que é natural perante aquilo que o imita e que é uma simulação; “A gaivota” alude à preguiça; “O Avestruz” é o símbolo do desonesto, daquele que quer enganar sem que os outros descubram a sua intenção.

No poema “O Rato, o Gato e o Cão” surge uma cadeia de poderes entre os animais que leva à supremacia do mais forte, cadeia essa a que não é estranho o ser humano, porque as suas atitudes não diferem muito da cadeia presente com os exemplos dados. Já “O Dinossáurio”, “O Gato-Sapato” ou “O Leão” têm um sentido mais fortemente satírico, em que o autor não poupa as pessoas que assim  se comportam.

O poema que se inspira na fábula de La Fontaine, “A Cigarra e a Formiga” tem a particularidade de introduzir uma nova personagem, a coruja, símbolo da sabedoria. E o que ela vem dizer é que é preciso o meio termo, o equilíbrio em tudo aquilo que fazemos. Nem uns só trabalharem e os outros só se divertirem: deve haver um tempo para o trabalho e um tempo para distrair; nunca um deverá anular totalmente o outro.

No poema “A Raposa” vemos A. M. Couto Viana lembrar a célebre novela de Bernardim Ribeiro com o título Menina e Moça. É a raposa a lembrar a expressão “menina e moça” com a qual ele inicia a sua obra. Eis o exemplo de um poema didáctico para familiarizar a criança com os autores clássicos. E, a finalizar, lembramos o poema “O Camelo” em que se realça a tradição da consoada natalícia ou “O Peru” em que se faz também apelo a essa tradição.

De chamar a atenção é o facto de cada poema evidenciar bem a veia dramatúrgica e, em sintonia o seu talento de poeta essencialmente lírico. Neste livro tão bem ilustrado por Afonso Cruz vemos renascer a poesia para a infância que, tal como a dramaturgia infantil a que A. M. Couto Viana dedicou grande parte da sua vida, é igualmente e sempre uma poesia (e também dramaturgia) para os adultos meditarem e daí tirarem ensinamentos para a sua própria vida que não deve perder os traços mais importantes da personalidade da criança.   

               7 de Setembro de 2008

Teresa Ferrer Passos

Fonte: Internet, www.harmoniadomundo.net (8/9/2008), A Aurora do Lima (Viana do Castelo), ano 153, 17/9/2008..

 

 

 

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