TERESA FERRER PASSOS
«Manuel, vem brincar, está aqui o João!» gritava a mãe quando ao domingo o João, com apenas seis anos, mais novo do que Manuel quatro, batia à porta. Mas Manuel não respondia e escondia-se debaixo da mesa da cozinha. A mãe gritava de novo, mas ele não respondia. Encoberto com a camilha castanha com riscas brancas, esperava ouvir fechar a porta. A mãe voltava a chamá-lo, mas ele continuava sem responder. Só depois de João se ter ido embora, saía paulatinamente do seu esconderijo. A verdade, é que cada vez mais recusava brincar, mesmo com meninos que não eram da turma da sua escola. Porque seria? A verdade é que três colegas de uma turma com fama de atrevimento e rebeldia, todos os dias castigavam Manuel com sovas. Ao mesmo tempo, ouvia ditos infames que o arrasavam. Nas aulas já não conseguia estar com atenção. Nem mesmo era possível estudar, quando chegava a casa. Que lugar sem sonho, que aulas envoltas em desespero as daquela escola! E que mal fizera, pensava, para suportar aqueles incolores frenesins de meninos sem terem tido alguma vez uma estrela nas suas mãos?!
Como se tornava difícil sequer pensar que, todos os dias eram iguais, a véspera idêntica ao dia seguinte. Por vontade dos pais, era a sua obrigação sofrer a humilhação do grupo. Olhar os professores já o fazia sentir-se um incapaz de estudar como devia. Achavam que ele era uma migalha ao pé deles. Defrontar a escola todas as manhãs, enchia-o de susto.
Chegava a imaginar que era melhor esconder-se em qualquer risco de lápis. Até viver numa marmita de sopa azeda seria melhor. Correntes de tristeza desenhavam nos seus olhos círculos de desânimo. Cada vez mais sentia um cenário de ruínas. E, não sabia como fugir do seu coração assustado. Às vezes, via-se como uma máscara de papel rasgado, outras como um fantasma tenebroso a que não conseguia destruir.
A certa altura, começou a pensar em fugir. Só a fuga se lhe apresentava como uma saída daquela realidade que não ultrapassava. O seu drama maior era a sua idade. Já tinha dez anos como os outros e não crescia? Como podia ser isso? Os outros impunham-se, tinham a força do mando, conduziam a realidade a seu belo prazer. E ele, porque levava tanto tempo a crescer, a não se submeter? Cada dia essa constatação o magoava mais e, ao mesmo tempo, o fazia descrer de si, da possibilidade de uma mudança que revelasse ao grupo que crescera e já não se submetia mais às suas diatribes. Porém, o tempo tinha parado nele. A verdade, sentia Manuel, é que não crescia.
Cada manhã, ao entrar na escola, sentia náuseas e um vómito sacudia o seu coração atormentado. Alguns professores ralhavam-lhe: “Porque não fizeste os trabalhos de casa?”. “Não sei”, dizia com o olhar pregado na mesa. Os outros meninos logo começavam a rir e quanto mais os professores o repreendiam, pior. Nos intervalos, batiam-lhe na cabeça e na cara, Um dia, arrastavam-no para um lugar esconso do recreio e colocavam-lhe em cima cadeiras e pastas para o magoarem. O riso explodia naqueles que tomavam as iniciativas e também naqueles que se limitavam a observar a cena. Dirigiam-lhe insultos que ele não entendia, mas que lhe magoavam a alma.
Como o ofendiam tanto e porquê? Seria ele ridículo? Seria feio demais? Seria estúpido ao ponto de não dever estar ali para estudar? Começava a juntar estas e outras ideias para justificar o comportamento maldoso daqueles colegas de turma, mas depois voltava a acreditar que o problema estava nele. Era ele que não crescia, era ele que, com dez anos, continuava com um comportamento de criança. Por isso, se escangalhavam a rir, logo que o viam no recreio. As gargalhadas avermelhavam-lhe o rosto. Só as lágrimas que nele deslizavam, ninguém as via, porque secavam com o calor que irradiava. Como fugir daquele lugar, daquela obrigação de se confrontar com a sua pequenez? Sentia-se, de dia para dia, um palhaço que tivesse desejado tudo na vida menos ser um palhaço de profissão.
Cada vez mais, ao sair da escola, era invadido pela ideia de que, no dia seguinte, teria de aceitar a mesma forma de ser encarado pelos outros meninos com quem ele era obrigado a conviver todas aquelas horas, horas que pareciam sempre intermináveis. Os tempos do recreio atordoavam-no. Quantas vezes, Manuel se afligia com a ideia esmagadora de que os companheiros o desprezavam e se riam dele porque ele tinha, precisamente, uma sensibilidade infantil. A sua timidez, própria de menino que não crescera, era ridícula e motivo da mofa, como Manuel o sabia…
Contudo, não se atrevia a dizer fosse o que fosse da sua desdita à mãe. Ela, mal-humorada, logo lhe diria que ele era preguiçoso e ia acusá-lo de querer faltar à escola por não querer fazer os trabalhos de casa. “És mandrião, mas ai de ti se faltares à escola!” gritava-lhe, com frequência, a mãe. E avisava-o: “Se perderes o ano, não terás férias. Nós vamos para a praia e tu ficas cá com os teus avós”. A escola seria o mundo que o esperaria sempre, perguntava Manuel a si próprio. E se ele continuasse sem crescer? Se a escola não fosse mais do que um simulacro da vida que o esperava? Valeria a pena viver, continuar a viver assim? Estas perguntas cada vez sacudiam mais a sua sombria interioridade.
Um dia chuvoso e mais frio do que o costume, disse para si próprio: “Vou morrer! Hoje, sairei da escola e não vou para casa, mas para o rio onde entrarei e dele, das suas águas, não vou sair vivo! Ninguém me apanhará, senão morto! Não, nunca mais ninguém vai rir de mim! Ninguém mais me vai torturar! Não voltarei à escola!”.
Fora difícil pensar em abandonar a mãe, apesar das suas ameaças; as palavras envolvidas em castigos como prometia o pai, sempre colérico, também não as iria voltar a ouvir. Que alívio o esperava!
Naquele dia, a mãe esperou o seu regresso da escola, mas Manuel não chegou. “Temos de lhe dar uma tareia” disse o pai, à noite, quando a mãe lhe disse que Manuel ainda não tinha aparecido. “Está cada vez pior” disse a mãe, com um ar indiferente. “Deve chegar de noite, para não levar uma coça!” respondeu o pai.
A noite veio, mas Manuel não veio para casa. O céu não tinha estrelas. As nuvens fechavam qualquer luzinha a escapulir-se delas. Um silêncio ecoava no espaço. O luar apagara-se, como envergonhado. Trovões ribombavam à distância. Os cães que uivavam, apenas um relâmpago iluminava o céu, dormiam a sono solto. No dia seguinte, o galo dos vizinhos não cantou senão já a manhã ia alta. E ninguém via Manuel, nem em casa, nem na escola. Professores e colegas estranhavam. De facto, ninguém o vira sair da escola, na véspera. Ninguém o vira chegar, no dia seguinte. Era uma manhã ainda carregada com a cinza das nuvens baixas. No ar espalhava-se uma irrealidade de sombra.
Nas noites e nos dias seguintes, Manuel continuava a não regressar a casa. Então, o pai resolveu avisar a polícia. Por seu lado, a mãe, sempre a julgar que Manuel, recusando voltar à escola, se tinha escondido nalgum pinhal ou campo de girassóis, foi apresentar queixa aos professores de Manuel. “Então, quando começa a escola a procurá-lo? A escola é responsável e, por isso, deve dar uma satisfação aos pais!”, dizia-lhes, com ar azedo e o olhar baixo.
Dois dias depois, um polícia batia à porta: “Encontrámos um cadáver de criança na margem do rio, que aparentava a idade do seu filho. Quer vir reconhecê-lo?”. A mãe começou a chorar. Depois, disse: ”Sim, vou antes telefonar ao meu marido”.
“É o meu filho”, disseram, em uníssono. O funeral foi marcado. Os pais, os avós, alguns professores e os meninos da turma do Manuel assistiram às cerimónias fúnebres, tendo oferecido lindos ramos de rosas e cravos e gladíolos. Todos choraram a sua morte.
***
No átrio de uma escola, onde não se lembrava de alguma vez ter entrado, Manuel viu um letreiro que dizia: «Nuvem pequenina de céu». Ficou pasmado. Nem queria acreditar. Como podia estar a ver ali um recreio de uma escola?! Correra tão depressa e chegara, sem dar por nada, àquele lugar?! Só tinha a certeza de não querer encontrar outra escola. Afinal, ali havia também uma escola?! Como entrara em outra escola? Ele, que fugira de uma escola por não gostar de lá estar, entrara no mundo da morte e logo entrava numa escola? ”Só pode ser igual à outra!”, gritou desesperado. As escolas não eram todas iguais? Se todas eram escolas, todas deviam ser iguais, pensava com uma grande desilusão a percorrer todo o seu corpo encharcado pela água gelada do rio.
A sua cabecinha, estonteada por uma fuga tão vertiginosamente rápida, sentia-se demasiado confusa e estranha. Tantos meninos e meninas correndo, jogando, rindo. Mas como fora ali parar? Quem o empurrara para aquele lugar que só lhe trazia terríveis lembranças de um passado horrível e tão próximo? Precisamente, o lugar que ele tanto desejara esquecer para sempre, aparecia-lhe, inesperadamente?
De súbito, Manuel pensou que talvez se tivesse enganado na direcção que tomara. Tal a sua precipitação na fuga, tal o desejo de lá não voltar, teria seguido por um caminho errado… Mas, como se enganara? Haveria mais do que um caminho? Teria de escolher só um deles? Teria seguido por aquele que o conduzira a um lugar como o que abominava e do qual só queria fugir, sem retorno?!
Agora restava-lhe fugir de novo, sair dali. Mas como fazê-lo? Não via uma porta, nem um portão, não via uma rua nem uma estrada. Estava dentro de um recinto aberto e, na verdade, completamente fechado. Naquele lugar, onde todos pareciam brincar divertidamente, também não descobria uma janela, sequer uma estreita fresta. Onde chegara, afinal? O ambiente tão natural numa escola parecia-lhe idêntico ao da escola tenebrosa. Encontrava-se numa escola. Era iniludível. Ora, isto só poderia ser o começo de um novo suplício?
Agora que escolhera a liberdade de ser outra pessoa, a liberdade de ter o seu próprio destino, entrava ainda, outra vez, numa escola?! Por quanto tempo desejara ver-se livre daquele recreio onde os meninos da sua turma lhe batiam todos os dias, como se ele estivesse ali a mais, estivesse ali sem dever, como se ele fosse um empecilho, um estorvo ou um bocadinho de lixo abominável. E, depois da fuga salvadora, caíra numa armadilha com certeza: entrara de novo numa escola!
***
Sem ele ter tido tempo de procurar uma eventual saída, três meninos saíram do grupo que brincava e, olhando-o, disseram em uníssono: “Anda Manuel, vem brincar connosco”. Estupefacto, Manuel respondeu todo a tremer: “Brincar? Como os outros?!”. “Vem, não tenhas medo. Somos teus amigos”. “Meus amigos, como?”, interrogou Manuel, sem acreditar na sinceridade das suas palavras. “Aqui, numa pequenina nuvem de céu, todos são amigos e, por isso, ninguém fica de fora”, disseram a sorrir. “Mas eu devo ficar! Sempre fui visto na escola como um verme, um verme repelente…”, insistiu Manuel, sem acreditar no que lhe diziam. Seria um embuste para o apanharem? Iria cair numa falácia? Ou, pelo contrário, estavam a dizer-lhe a verdade?! Mas como podia Manuel acreditar? Ao verem-no sem responder e com as faces incendiadas de medo, já nem conseguiam sorrir. Como o tinham magoado, sem dúvida! Depois, viram-no a esconder-se por traz de um fiozinho de água de uma das fontes daquela escola cheia de fios de água, plantas com frutos e relvados largos com pequenos esquilos e coelhos a saltitar. Todos os animais que saiam das suas tocas tinham um pelo muito ralo, olhos dóceis e patinhas felpudas.
Enquanto Manuel se começou a divertir com aqueles bichinhos inesperados, os três meninos saídos do grupo, não resistiram a dizer-lhe, em uníssono: “Tu abandonaste o tempo da inimizade, rejeitaste o tempo da cólera, tu tiveste a coragem de escolher o tempo da harmonia e o tempo da paz. Aqui encontras esse tempo em que nunca chegaste a viver. Nesta escola serás tratado por irmão”. “Escolhi o único tempo em que eu podia viver, o tempo da amizade”, respondeu Manuel, já confiante e com um sorriso nos lábios. Naqueles momentos, Manuel começou a sentir que podia haver escolas com turmas de meninos bem diferentes daqueles que estavam na escola donde fugira. Afinal, havia também escolas com meninos amigos uns dos outros, sem serem marginalizados, sem os “fora do grupo”, sem martirizados só porque eram cheios de mansidão. Naquela escola, que estava numa pequenina nuvem do céu, não havia que ter medo de ficar. Por isso, Manuel não pensava já em escapar dali. Naquela escola, a amizade apagava a mais pequena sombra de brutalidade. Lá, não havia meninos a provocarem sofrimento aos que tinham o afecto no coração. Neste lugar, em que tudo era movido pelo sentimento da fraternidade, Manuel queria ficar, sem relutância, sem qualquer susto. Agora, olhava esta nova imagem da escola de um modo muito diferente. Ali, até poderia ter encontrado um lugar para sempre, mesmo sendo ainda uma escola…
16 de Dezembro de 2011
Teresa Ferrer Passos
* Este conto é um alerta contra o bullying. A autora partiu das notícias sobre casos de suicídio em crianças sujeitas a bullying em todo o mundo, incluindo Portugal.
A viagem de Nazaré a Jerusalém era longa. Um cansaço estranho perturbou Maria. A jovem chegara a Jerusalém com o ventre tombado de peso. O tempo de o Menino nascer, parecia-lhe ter chegado naquela noite em que descobriu o Sol a rasar o horizonte até mais tarde do que era costume.
Pensou um pouco assustada que o Filho de Deus estava prestes a entrar no mundo, a circular entre trevas e luz. Ela recebera a dignidade de ser sua mãe. Ela sabia quanta responsabilidade recaia sobre os seus ombros. Naqueles momentos, sentiu que precisava de um lugar para oferecer à terra dos homens aquele corpinho lindo e de tanta fragilidade. As águas do rio que nela corria transbordavam das margens e manchavam-se de sangue rutilante. “O Menino não tardará”, pensou com um perfume a nardo, um perfume muito intenso, nas narinas. O anúncio da sua maternidade sacra envolta numa angélica asa estava ali, mais visível do que nunca. Inscrita no seu ventre grávido, desde há nove meses. Agora, com o corpo disforme, enrolado e sem espaço, era urgente um lugar para se deitar e, assim, deixá-lo nascer.
Como ela já sentia o Menino pronto para romper a estreita faixa coberta de véus a soltarem-se entre os lábios do vento do deserto. Como uma imensa dor a vergava e abatia... “José, não é precisa uma hospedaria”, disse com a voz apagada.
“Não? Não é Ele o Filho de Deus?” interrogou José, abismado. “Pode ser um simples estábulo” respondeu Maria com a garganta rasgada de emoção. De súbito, José, gritou. “Ali está um estábulo! Não foi o que pediste?” “Sim, serve um estábulo, mesmo só com o calor de animais se aquece o Bom Menino!” respondeu Maria com a voz suave como um cântico a descer do céu.
Para a jovem Maria, a pequenez do espaço, os montinhos de palha, o respirar quente dos cordeiros aconchegavam mais do que a comodidade das ricas hospedarias. Ela sabia como o Pai do Menino, o Rei de todos os reis, gostaria de, com o exemplo do seu Filho, mostrar aos soberbos, quanto valia mais a simplicidade dos pobres do que as riquezas da terra. O Filho de Deus entrava no mundo como um pobre, mas um pobre imensamente amado, essa a única verdadeira riqueza do mundo.
Natal de 2011
Teresa Ferrer Passos
O urso-formigueiro Orelha Azul era um menino muito alegre. Os pais estranhavam aquela alegria que não costumavam ver nos filhos dos seus amigos ursos-formigueiros. Andava sempre aos saltos, a dar corridas atrás das formiguinhas atarefadas, a rir-se para os raminhos de flores que brotavam entre as ervas da floresta, a tentar brincar com todas as minhocas que saíam, de vez em quando, das suas casinhas escavadas no fundo da terra. E estas eram apenas algumas formas de mostrar a sua natureza alegre.
Até mesmo um simples graveto imóvel entre muitos outros iguais a ele, servia ao ursinho-formigueiro para ficar muito contente com o facto de o ter descoberto num chão coberto de muitas folhas ressequidas. Mas, os seus pais achavam que ele devia ir à escola como os outros filhos de ursos-formigueiros. O ursinho que se chamava Orelha Azul vivia num país que se chamava Mar-de-Flores. E, neste país, havia escolas frequentadas por quase todos os seus habitantes em idade escolar.
O Governo do Senhor Leão não gostava de que Mar-de-Flores fosse considerado menos avançado do que os outros. Os seus ministros, em especial o ministro da educação, acreditavam que a escola era fundamental para todos aqueles meninos e obrigava os seus pais a inscrevê-los nelas, desde muito cedo.
Os esquilos eram bons professores e, assim, as suas escolas eram bem vistas por toda a sociedade animal. Dia após dia, os pais do ursinho-formigueiro Orelha Azul achavam que ele já tinha idade para lá entrar e não queriam cair sob a alçada do governo do Senhor Leão. Eles sabiam que seriam gravemente penalizados se não mandassem o filho à escola para adquirir a educação que devia ser igual para toda a sociedade animal.
Numa noite em que ele contava aos seus pais a dificuldade que tivera em conseguir com que um lagarto mais novo do que ele largasse o seu permanente ar sério, os seus pais decidiram dizer-lhe que iam inscrevê-lo numa das escolas de Mar-de-Flores.
Contrariamente àquilo que esperavam, o ursinho-formigueiro Orelha Azul ficou muito contente e entusiasmado. Ria-se, lançava ao ar as folhinhas verdes que trouxera da terra fresca e dava piruetas. A mãe, que temia ser difícil convencê-lo ao convívio com ursinhos-formigueiros da mesma idade, beijou-o muitas vezes. Ela já começava a sentir saudades daquele seu menino tão diferente dos outros. O pai, orgulhoso de ter um filho a caminho da escola, abraçou-o longamente.
Na verdade, Orelha Azul não via qualquer vantagem em ir para a escola, mas aceitou logo para não desobedecer aos pais que, sendo dos mais pobres daquele país, tanto gostariam que ele fosse um doutor como os filhos dos outros ursos-formigueiros.
Tinham uma absoluta confiança no seu filhinho, mas não tinham querido tomar uma decisão definitiva sem primeiro falar com um dos mais velhos ursos-formigueiros das vizinhanças. A verdade é que achavam Orelha Azul com uma personalidade tão alegre que tinham medo que o deixasse de ser na convivência com os outros que eram meninos sempre muito sérios.
Os pais de Orelha Azul não podiam ter televisão, ir ao cinema com o filho ou oferecer-lhe um computador. Assim, ele não tinha tido contacto com outros meninos e ursos-formigueiros crescidos. Nem tão pouco conhecia as crueldades que passavam nos video-jogos que a maioria dos meninos da sua idade via regularmente em suas casas.
Tudo isto assustava e deixava nervosos os pais de Orelha Azul. Não sabiam se ele não iria fazer má figura junto dos colegas e dos professores. Sabiam que o seu filho era diferente de todos os outros e que até os mais novos do que ele já há anos tinham sido levados para a escola onde passavam horas (que se juntavam àquelas que passavam à noite em suas casas) às voltas com os computadores, desde manhãzinha até à tardinha.
Uma velha ursa-formigueira que não gostava nada do curso superior que tinha tirado e já lhe dera muita riqueza (ainda que parte dela completamente desnecessária), aconselhou-os a matricular Orelha Azul na escola, o mais urgentemente possível.
Era perigoso e, cada vez mais, o ursinho-formigueiro em nada se parecer com os outros animais que frequentavam as escolas havia vários anos, diziam a seus pais todos os conhecidos e amigos. Eles eram muito sérios e os seus filhos ainda muito mais. A escola ensinara-lhes muito. Mas o ursinho-formigueiro Orelha Azul era diferente precisamente por não a frequentar. Levava tudo para a brincadeira, como se a vida fosse a coisa mais maravilhosa do mundo.
Mesmo ao ver todos os seus colegas com um ar sério, um ar de poucos amigos, mesmo desagradável, com uma terrível arrogância e mesmo violentos nas relações de uns com os outros, Orelha Azul não deixava de os provocar, tentando que, ao menos, sorrissem. Mas não, nem ao menos conseguia que o olhassem sem uma expressão de raiva. Achavam-no um montão de defeitos, uma coisa irrisória, senão mesmo abominável e viam-no mesmo como um inimigo.
As formiguinhas mais novas ainda lhe achavam graça, mas, já aquelas que frequentavam a escola, não tinham vontade de rir e comportavam-se como se a vida tivesse de ser um tormento, a que desde a hora da entrada na escola estavam condenadas. Tudo tinham de sofrer porque os seus pais não admitiam que elas não frequentassem a escola e chamavam-lhes mentirosas e mandrionas, se elas se queixavam dos maus tratos que recebiam sem razão, dos seus colegas mais sérios. «Tudo são pretextos para não irem à escola», diziam sempre as mães…
Na escola aprendiam muitas coisas importantes e não podiam perder todo esse saber que os pais não lhes podiam ensinar. Por outro lado, ficavam com um diploma para, quando fossem adultos, poderem ter um trabalho bem pago, recebendo um grande saco de alimentos todos os dias, apesar de ser um excesso de que não precisavam para viver e, por isso, deitavam todos os dias parte daqueles alimentos para o lixo. Mas o governo do Senhor Leão era muito previdente e não queria ficar mal visto pelos países estrangeiros. Para ele a escola era obrigatória até à idade adulta, sem se aperceber de que as coisas mais importantes que aprendiam eram nefastas e bem prejudiciais para o povo de Mar-de-Flores.
A obediência à vontade dos pais era a obediência ao próprio governo do Senhor Leão e dos seus ministros. E o ursinho-formigueiro Orelha Azul teve o seu primeiro ano na escola. Como sua mãe determinava, lá seguia na carrocinha com muitos outros meninos. Olhava para todos com gosto por se ver entre eles. Tinha a certeza de que ia aumentar a sua alegria junto deles porque eram todos da sua idade e deviam não ser menos brincalhões do que ele. Olhava para eles a rir. Depois, dava uma corrida breve. Voltava para trás. Olhava para eles outra vez, julgando que iriam fazer o mesmo e que começariam logo a ser seus amigos. Achava que iam rir todos juntos, trocar os lápis de cores mais carregadas pelos de cores mais leves e ele iria mesmo ajudar aqueles que soubessem menos do que ele ou tivessem mais dificuldade em aprender.
Mas nenhum deles correspondeu à sua vontade de ajudar. A alegria que expandia era vista como um insulto; achavam que ele era demasiado feio com toda aquela alegria, era um pequeno monstro para os seus gostos. No ano seguinte à sua ida para a escola, o ursinho-formigueiro Orelha Azul fez ainda mais brincadeiras para que os outros pequenos animais percebessem que ele era já muito amigo deles.
No ano seguinte, continuou a procurar brincar com eles. A resposta foi a mesma do primeiro ano. Mas Orelha Azul continuava um menino alegre, sempre na esperança de que os outros meninos se tornassem alegres como ele e quisessem brincar com tanto contentamento como ele. Contudo, tal como ele esperava todos os dias que os outros meninos correspondessem às suas simpáticas atitudes, também os outros meninos esperavam que ele se tornasse normal, normal como eles. Sério, livre da horrível amizade, com o sentido da violência nos olhos e também no coração.
Então, tendo perdido a esperança de o modificarem, os meninos sérios demais, sempre com modos dominadores e sobranceiros, começaram a agredir o ursinho-formigueiro Orelha Azul. Alguns dos seus colegas tinham achado que só se o castigassem duramente ele deixaria de ser alegre. Então combinaram uma série de terríveis castigos, muitos deles uma cópia de exemplos recolhidos nos jogos dos seus computadores, nos filmes de terror da televisão que tinham também no seu quarto e nos filmes que costumavam, desde os seis anos, ver nos cinemas.
Todos achavam que aquilo que lhes era transmitido nesses meios de comunicação social nada tinha de ilícito porque se as personagens o faziam e tinham até a honra de verem as suas histórias gravadas e filmadas, que mal havia em eles próprios usarem da mesma violência com aquele ursinho-formigueiro acabado de chegar à escola e que, por ser pobre, não tivera acesso a nada daqueles meios avançados da técnica? Chegavam a dizer que ele era um estorvo porque nada aprendia com as suas palavras de ordem nem com os seus modos agressivos.
Mas o ursinho-formigueiro Orelha Azul, apesar dos contínuos e pesados castigos que muitos deles lhe infligiam, continuava alegre, a querer brincar com eles, pensando que o que lhe faziam era só a brincar. Na sua ingenuidade, julgava que eles deviam era querer aprender o seu modo diferente de brincar e de ser alegre na amizade. Não tinham ainda percebido o que significava a sua alegria. Os seus colegas demasiado sérios não tinham percebido o que era a amizade.Tinha a certeza que era somente isso.
Apesar da pobreza de seus pais ele era muito feliz na abundância dos carinhos que recebera deles, todos os dias. Depois de Orelha Azul começar a ir para a escola, andavam um pouco preocupados, mas viam o filhinho alegre como antes. O ursinho-formigueiro nada revelava dos maus tratos que recebia porque não conseguia pensar que tudo aquilo que lhe faziam, não fossem qualquer brincadeira que ele desconhecia. Afinal, ele ainda sabia muito pouco dos ensinamentos recebidos na escola.
Mas, num dia de inverno, muito chuvoso, o ursinho-formigueiro Orelha Azul foi muito ferido na sua dignidade. E a dignidade era o que mais valor tinha para ele. Era demais, não podia suportar aqueles insultos por mais tempo. Os males que lhe faziam tinha-os tolerado, mas, neste dia, tinha sido demais.
Então, pela primeira vez na sua vida, o seu coração ficou triste. Ao sair da escola, com uma insuportável tristeza, dirigiu-se para um denso arvoredo. Seguiu sempre em frente a correr, sem olhar para trás. Quando perdeu as forças para continuar a correr, parou. Olhou a terra e viu um pequenino buraco. Com o seu longo focinho, o ursinho Orelha Azul escavou fundo, fundo. E acabou por entrar numa escuridão plena. Ao longe, começou a ver animais bem diferentes dele, uns maiores, outros mais pequenos. Assustou-se. Mas, que espanto para Orelha Azul, quando viu correrem para ele muitos animais que logo o abraçaram, cheios de alegria. Foi assim que Orelha Azul voltou a ser alegre. Afinal, havia ali meninos tão alegres e tão capazes da amizade como ele!
A verdade é que em Mar-de-Flores nunca ninguém soube para onde teria ido o ursinho-formigueiro Orelha Azul. O governo do senhor Leão mandou procurá-lo durante muitos e muitos dias. Mas nada, nenhum vestígio da sua presença foi encontrado. E assim aquela escola ficou só com os meninos sérios, que não queriam ser amigos, porque só sabiam repetir o que lhes tinha ensinado os jogos dos seus computadores, e os filmes de terror da televisão e do cinema.
Nesse país chamado Mar-de-Flores, muitos ainda perguntam: «Onde estará o ursinho-formigueiro Orelha Azul, esse menino que queria iluminar o mundo triste da escola com toda a sua alegria?!». Mas ninguém, nem mesmo tantos anos passados, sabe responder-lhes.
2 de Abril de 2010
Teresa Ferrer Passos
A noite encerra as estrelas. Ninguém delas se aproxima. Os homens têm medo das estrelas. Recusam aproximar-se delas. Gostam de as olhar quando estão distantes, no céu.
Ontem, uma mulher procurava a Lua, pela janela do quarto. Aí, onde o ar era coado pela dor, costumava haver luar. A luz do luar, uma estranha e acolhedora luz. Era essa luz branda que ela costumava ter por companhia todas as noites. Precisamente, ontem, a Lua onde estava? Porque deixara de ser visível? Quem a fizera desaparecer? Alguém, na noite, a roubara? Quem destruíra a única luz suave que lhe restava?
A mulher, com a solidão dentro do coração, olhava o céu e via as estrelas, mas era a Lua que ela amava. Que acontecera naquela noite? A Lua ficara ausente. Por quanto tempo se retirara, por quanto tempo a suave luminosidade fora afastada sem dar um ai, sem dizer um adeus ou dar um último sinal?
Lá estavam, no céu de breu, os débeis cintilares das pequeninas estrelas longínquas demais. Só o encantamento do luar não pousava no coração da mulher que nada mais tinha de seu, nada mais a conseguia ainda seduzir.
Inconformada, aquela mulher a viver só do gesto doce do luar, correu para as outras janelas da casa, em desatino, num desvario de interrogações. Olhava. A Lua ali, no céu, nem sequer dava de si uma amostra simples, uma sombra breve. O astro a transparecer ternura não lhe aparecia.
Então, decidiu correr a abrir a telefonia; talvez umas notícias a informassem do que se passava. Mudou de posto até começar a ouvir a música de Eric Satie. Sentiu-se embalada, mas o seu coração não queria ouvir Satie, não era essa melodia funda e cheia de paz que, naquele momento, desejava.
Um desespero sentiu no corpo todo. Apertou-lhe a garganta a emoção. Lembrou-se das miríades de poemas em que a Lua passava como um barco a guiar cada palavra. Lembrou-se dos contos da sua infância em que a Lua era a defensora dos bons. Escutou, na amargura do seu coração, Francisco de Assis a louvar a irmã Lua. Um silêncio emudecido no céu, ouviu assustada.
Depois voltou a sentir em si aquela doce melodia de Satie, insistiu, mas nem mesmo os sublimes sons lhe faziam esquecer a maravilha da imagem a recortar o escuro. Nada lhe trazia tanto essa concórdia que a serenava, depois de um dia de trabalho duro e talvez sem paga.
Ligou a televisão. Era a hora de mais um telejornal. Tantas desgraças neste planeta envolvido no azul do céu, tão belo visto do espaço como disseram os astronautas. Tornados que levaram casas, pessoas sob milhares de quilos de cimento armado, armadilhas de terroristas que matam as pessoas que passeiam pelas praias e pelos bosques sem nada suspeitar, trombas de água que derrubam edifícios matando as famílias e os amigos que festejam um casamento que venceu todos os obstáculos e sobe ao altar do amor.
Ela, uma dessas mulheres de coração partido pelo desprezo do homem que não a amara, só na Lua conseguira encontrar uma água fresca que a não deixava tornar cadáver. Começou de novo a ouvir o telejornal. Perdera já algumas notícias. Teriam falado de alguma desgraça na Lua? Mas a Lua, quem dela iria falar entre tantas tragédias aqui, na Terra?
A mulher amesquinhada pelo cruel destino, sentia o coração palpitante, inseguro, em expectativa. Ia escutar mais uma notícia, quem sabe se não lhe daria alguma palavra a indiciar uma qualquer tragédia, acontecida precisamente à Lua?
Sabia da pouca probabilidade de uma tragédia lunar. Aí tudo era sereno. Não havia ar, nem água, nem atmosfera, nem qualquer ruído. Nem tão pouco homens para agredir a sua paz. A Lua era um pequeno planeta que o homem visitara, sem ter tido a honra de alguém o receber. Ali tudo era vazio, só crateras, declives, poeira imensa. Mas à distância da Terra que perturbação de amor ela alcançava! Sem homens para nela fazer qualquer transformação, à Lua nada a podia perturbar. Vivia eterna, em saudosos reflexos de luz. Disso tinha a certeza. Não podia ter dúvidas.
O sonho desvanecia-se na mulher abandonada, de coração cheio de emoção. Estava já para desistir de ouvir mais uma só notícia sobre a Lua desaparecida, quando ouviu o locutor dizer: «Um foguetão da NASA foi direccionado à Lua; este objecto provocou um impacto com a força de um furação e provocou uma funda cratera no solo lunar».
Tudo estava explicado. A mulher soube assim que a Lua fora abalroada por uma avançada tecnologia de cientistas empenhados em descobrir água no subsolo pacato dessa Lua onde não havia mortes, porque não havia também tempestades nem violência humana.
De súbito, a mulher começou a ouvir um choro. Fechou a televisão. Abriu a janela do quarto. Viu, com espanto, a Lua. Mas a Lua estava a chorar. E ao vê-la chorar, a mulher chorou também. O luar derramava lágrimas, mas estava ali, voltara para ser um companheiro dos seus olhos. Uma Lua amolgada, com uma luz menos intensa, ferida no coração como aquela mulher, mas mesmo assim, com esperança. Como aquela mulher via na Lua a ternura que lhe faltava, a Lua via nela uma certa humanidade. E essa não era representada pelos cientistas inventores do foguetão disparado pela NASA.
10 de Outubro de 2009
Teresa Ferrer Passos
O MENINO QUE GOSTAVA DE LIVROS
Num domingo, à tardinha, o João entrou com o pai na grande biblioteca da cidade. Ficou assombrado quando o pai lhe disse que dentro de cada um daqueles livros, guardados nas dezenas de estantes havia muitas vidas, muitas personagens escondidas, muitas “histórias” de maravilhas sem par. Que capas lindas! Que jogos de cor nos meninos, nos animais, nas flores! Como o João se sentiu atraído por ver tantos livros ao mesmo tempo. Como gostaria de ter um deles nas suas mãos pequeninas.
Um sorriso de sonho soltou-se dos seus lábios. «Como podia ser», interrogou-se, sem dizer uma única palavra ao pai. Que exposição de títulos decorados com tantas imagens fantasiosas. Que vontade de ir a um dos expositores e tocar-lhes com os seus dedinhos finos.
A uma certa distância, via prateleiras cobertas de muitos outros livros. O que se diria lá dentro? Na verdade, na sua casa não havia estantes com livros. O pai não tinha tempo para lê-los, dizia. A mãe também não. Ambos saíam cedo de casa. Ambos chegavam do trabalho ao fim da tarde, depois de o irem buscar à escola.
Como o pai, a mãe almoçava na pastelaria e passava todo o dia no emprego. Antes de regressar a casa ia sempre fazer mais compras. Tinha sempre tantas coisas a comprar. Se não eram alimentos, havia que comprar novos electrodomésticos, às vezes um novo modelo que vira publicitado na televisão. O pai ia buscar o João à escola, ao fim do dia.
Na escola, o João aprendera a ler as lições apenas no computador. Um computador que o ministério da educação mandara distribuir a todos os alunos. As poucas horas do dia que lhe sobravam, destinavam-se a fazer desenhos com lápis de cores e bonecos de plasticina ou a aprender cantigas que podia adquirir pirateando cópias no computador.
Naquele domingo, a mãe precisava de fazer mais umas compras de vestuário no Centro Comercial, mas sabia que a escolha de roupa no início de estação era, muitas vezes, demorada. Não valia a pena irem com ela porque ela tinha de entrar em muitas lojas para ver o que lhe ficava melhor. Então, disse ao pai do João: “Vai com o miúdo até à biblioteca da cidade, disseram-me que havia lá uma exposição de livros infantis”.
Assim, o João conheceu, pela primeira vez, uma biblioteca. Era um lugar estranho, para ele. Nunca entrara num lugar assim. Um lugar cheio de livros de muitos tamanhos, com grandes letras nas capas, figuras ou não a decorar as capas, uns muito velhos, com folhas rasgadas, outros a parecerem nunca terem tido as folhas abertas por algum menino, como ele.
«Quantas “histórias” encantadas dentro dessas folhas», disse o pai. Ficou maravilhado. Como gostaria de os abrir e de ler todas essas histórias. «Pai, posso abri-los?». «Não», respondeu bruscamente o pai. «Isto é só para ver, não é para ler». «Eu gostava de as ler, ler as histórias encantadas, por que não posso?!», interrogou com uma grande tristeza no olhar. «Não, só viemos aqui para ver, João». «Só ver? Porquê?», insistiu ainda. “Estás a irritar-me com tantas perguntas! Cala-te! Senão vamos já embora!» «Porquê?», insistiu de novo. «Vamos embora e já!» exclamou o pai dando-lhe uma bofetada na boca.
As lágrimas cresceram nos olhos do João. As faces contorceram-se num choro desatinado. O João sabia que nunca leria nenhum daqueles livros cheios de histórias de encantar. O seu choro, sem que o pai se tivesse apercebido, envolveu-se no livrinho que estava em frente do João, nesse momento. Agarrado ao choro o livro abriu as suas páginas e o João começou a ler a história de encantar que as suas folhas lhe mostravam.
O João deixou de chorar e começou a sorrir com as peripécias daquele pequeno urso que gostava de livros, pelo menos tanto como o João gostava. Chegaram a casa. A mãe ainda não chegara. O João foi a correr para o seu quarto. Não ligou o computador.
Tinha um livro nas suas mãos. Ia lê-lo tantas vezes quantas quisesse. O pai e a mãe nunca teriam conhecimento desse segredo que guardaria para sempre, o segredo nascido na biblioteca da cidade em que ele entrara pela primeira vez na sua vida.
19/6/2009
Teresa Ferrer Passos
O menino crescia devagar.
A mãe levava-o às compras quando não estava a saborear a doce treva do seu quarto habitado por gritos, urros, gargalhadas estrondosas.
Mas temendo que o filho quisesse dar uma curta corrida, metia-o no carrinho amolgado.
Amolgara-o num dia em que a sua fúria decidira destruí-lo a ele, não ao carrinho.
Mas era o carrinho, e não o filho, que estava junto aos seus joelhos pesados de banhas.
Fora o carrinho a tombar sob o peso das suas mãos envolvidas em gritos.
O pequenino chamava-se Mani. E logo que ele começava a chorar de saudade, ela berrava o seu nome.
«Pára, Maniii!, pára, pára!!!». Berrava, não gritava.
Ela já nem sabia gritar. Tudo nela entrava e saia da sua boca como um berro a ecoar na distância.
Então, Mani tinha saudade de um tempo pré-natal, desse tempo em que nunca se encontrava acordado, em que sua mãe parecia não lhe dizer uma única palavra e em que o pai raras vezes se sentava à mesa.
Tinha saudade da noite sempre acesa em que sua mãe mais parecia estar sempre a dormir com ele.
Agora, como gostava de gatinhar no lajedo e de se estender todo como se a própria pedra fosse relva enfeitada com o orvalho da noite silenciosa.
Sua mãe, sempre com uma irritação na voz finíssima, berrava dezenas de vezes o seu nome.
«Não mexas nisso! Maniiii! Não ouves?!».
Os seus ouvidos gostavam de ouvir ela dizer «Maniiiiii!».
Ele gostava tanto de a ouvir dizer o seu nome! O berro sonoroso enchia-o de um contentamento!
«Maniiiii», berrou.
«Não te reboles nos troncos da videira que teu pai acabou de podar!», berrou de novo.
Os ouvidos de Mani ouviram o berro como um leve murmúrio.
A voz escaldante de som da mãe perdia-se agora nas ruas estreitas da vila.
A voz da mãe de Mani transformara-se, de súbito. E Mani ouvia a voz estridente de berros, como se fosse um sussurro.
No dia seguinte, a mãe movia os lábios com as faces rubras como era costume quando berrava.
Mas Mani não voltou a ouvir ela pronunciar, sequer, o seu nome…
E Mani começou a chorar de saudade.
8 de Novembro de 2007
Teresa Ferrer Passos
«Como sou minúsculo, perdido no areal que me abriga, sustenta, dá vida... entre tantos grãos de areia, semelhantes a mim, sinto-me diferente deles. Umas vezes, vejo-me mais dourado, outras um pouco arredondado ou com arestas finas e cortantes...» − pensava o grão de areia, enroscado noutro mais grosso e esbranquiçado. Estava indolente; fora uma noite à beira das vagas esparsas, a espreguiçarem-se com violência no areal frio, inclemente, inalterável.
Quase imperceptível, o mar cobria, com uma ternura de gigante, o grão de areia pensativo, cada vez mais envolto em pensamento. Depois de tanto tempo a jazer sem ruído, sob a espuma refrescante e doce, procurava um sentido para a sua vida. Uma vida de que ele não conhecia o princípio e desconhecia o fim. «Quem me trouxe para aqui? O vento, o mar, o pinhal sobranceiro à falésia? A verdade é que tenho um sentimento de perda. Há muito tempo... mas quanto?... quanto?» − repetia, angustiado, na madrugada que todos os dias lhe parecia uma eterna novidade.
A angústia sempre o habitara quando a solidão era mais funda. Ao ressurgir do dia, sentia-se sempre mais solitário; como se desconhecesse a solidão ou a vivesse pela primeira vez... primeira vez − expressão mágica para a sua alma, uma alma bem mais pequenina do que ele. Albergava-a com carinho, como se fosse um grão de areia ainda mais minúsculo do que ele e que temia perder, como ele se perdera de um outro?...
«Quem és tu que me habitas sem eu sequer conhecer?» − interrogava o pequeno grão à espera de um dia, um dia maravilhoso, conseguir escutar a resposta. E, quando a obtivesse, como achava que se ia tornar grande... Um grão de areia enorme, talvez do tamanho do mar, esse companheiro dos instantes; esse colosso magnífico que invejava e ao mesmo tempo, tantas vezes, venerava, como se fosse um deus mais potente que todas as divindades dos areais infinitos, onde se erguia, apesar de tudo, a sua existência magoada e sem grandeza. O sol elevava-se no horizonte; lento, muito lento, como se lhe fosse difícil arrastar a massa enorme do seu corpo flamejante.
− Oh sol, apesar da lentidão com que te moves, como és pontual a nascer e a adormecer no horizonte lívido! Se és muito velho, mesmo assim iluminas a minha opacidade com rapidez. Sem a tua luz magnífica nunca eu brilharia quase tanto como as estrelas do longínquo espaço. Vejo-te desde que existo e, chego à conclusão de que te desconheço. Quem és? De onde vens? Como abranges apenas com um dos teus simples raios, as águas transparentes, os soberbos areais, os rochedos rugosos que lhe quebram a monotonia e as aves sempre alegres e a esvoaçar na busca eterna do alimento?... − interrogava o grão de areia.
Perscrutando o astro maravilhoso, esperava escutar a sua voz, desvendar algum sinal daquele que era o único sentido para os seres existentes. Esperava, sem obter resposta. Mostrava-se impenetrável como antes, na madrugada a findar. Após as interrogantes palavras, o seu fulgor parecia menor, a sua luz embaciada... sombria.
De súbito, uns olhos muito grandes, de um tamanho que não sabia medir, fixaram-no com uma brandura envolvente; sentiu-se contente e, em simultâneo, amedrontado.
− Para que queres desvendar os meus segredos? − questionou o sol, com uma expressão distante e revoltada.
− Nem eu próprio sei... − respondeu o pequeno grão, hesitante. − Ou talvez o saiba: será para conhecer os meus próprios segredos? A verdade é que se não te conheço a ti, não conheço melhor as minhas entranhas.
Escorregando um pouco, podia agora observar bem esses grandes olhos de fogo e de beleza incomparável. Mesmo mais belos do que os das sereias que tinham espreitado a magnífica odisseia de Ulisses. Nervoso, acrescentou, em seguida: − Tens beleza, demasiada beleza; mas a tua maior beleza não está no teu aspecto exterior; está na tua interioridade! Ela é toda dádiva, entrega incondicional.
Tremendo um pouco, aventurou dizer com humildade:
− O segredo do teu poder não será precisamente essa tua beleza interior, tão funda e perfeita, e, a que eu não posso sequer aspirar?
O sol incendiou o seu olhar com imensidões faiscantes; depois, inesperadamente, retomou a forma que a madrugada lhe costumava desenhar. Então, o desânimo apoderou-se da minúscula criatura toda feita de areia: sentia-se debilitada pelo esforço de se fazer ouvir por aquele que tanto distava dela e que, inexplicavelmente, tão próximo se fizera. Por um instante breve duvidou do sol, do seu poder. A dor penetrou-a. A dor do desencanto. A dor da audácia derrotada. Entre a pequenez e a grandiosidade, a distância ressurgiu. Cruel e impiedosa.
Uma nova provação se perspectivava no coração do ínfimo grão de areia. Duraria quanto tempo?! Não iria ser maior do que a dos tempos anteriores? Naqueles breves momentos de diálogo com o astro dourado soubera não ser possível descobrir o seu segredo e, assim, também não ser possível alcançar o segredo da sua própria existência. Entoando um som agudo, o grão de areia, como a gemer, começava a dar os primeiros passos na senda da incredulidade. O sol não fora capaz de lhe desvendar a sua origem! Fechara-se, egocêntrico, na sua luz de plenitude, a obscurecer uma timidez congénita, sufocante da voz da lonjura.
Numa insistência quase arrogante, interrogava-se: «Porque não me hão-de responder o mar de ondulantes contornos, a fresca brisa do crepúsculo, a intrépida chuva ou a trovoada ruidosa? por que não me hão-de responder o búzio penetrante, a concha abandonada ou o peixinho moribundo entregue às areias minúsculas, minhas irmãs, a suplicar às águas uma gota de oxigénio? Na sensação da morte certa, não descobrirá ele o mistério da sua existência? E a alga marinha de longos braços acariciantes? E o rochedo a querer fugir ao sepulcro marítimo, quando se encontra a dois passos da catedral arenosa de que sou um dos suportes?».
Envolvia-se em perguntas e mais perguntas, sem se cansar...
«Não tenho mesmo remissão de pecado!», cogitava, sorrindo com as suas ingenuidades. A cada momento, pressentia que a cada uma das suas perguntas correspondia uma resposta impossível. De novo, a angústia flagelava-o.
De súbito, o pequeno grão sentiu um peso que significava para ele uma grande escuridão. Sobre os seus ombros arredondados algo o sufocava de susto; e se não voltasse a poder contemplar o sol, a quem tivera a coragem de dirigir a palavra, apesar da sua pequenez? Tremia de medo. Lembrava-se, contudo, que podia ser uma dessas criaturas bizarras que povoavam a praia logo que o céu se cobria de azul, sacudindo a cinza das suas nuvens. «Na verdade deve ser uma dessas pessoas», reflectia, satisfeito.
Sabia que as águas não pisavam assim, o sol ardente não o abafava daquele modo e as conchas moribundas não amolgavam as suas arestas contra o areal que, como ele, era um mundo sem vibração, mas isento de crueldade. Devia ter chegado, finalmente, o tempo dos veraneantes! Era um tempo de sufocação. Um tempo para esquecer com o regresso do sol brando, no Outono, com a queda da chuva soluçante, no Inverno, e das ondas cavadas do mar, a imporem-se depois de um sono intenso de Verão.
Era este um tempo de liberdade. Sem as vozes esganiçadas a dizerem aos filhos para não se exporem ao sol, sem o creme protector e filtrante. Sem os gritos das crianças a pedirem sanduíches de fiambre e bolachas. Sem as conversas intermináveis e vazias de conteúdo. Por mais que escutasse aqueles intrusos com atenção, na esperança de captar uma palavra que lhe desse a chave secreta da sua existência, jamais o conseguira. Afinal, que importância podia dar àquela gente indiferente ao seu mistério existencial? Apesar de ostentarem um corpo tão volumoso, nada sabiam da vida. Contudo, essa diferença de configuração física, não impedia que notasse entre ele e os visitantes algumas afinidades: viviam na mesma realidade vital, passavam longas horas em lugar idêntico, gostavam de olhar o mar e absorver o ar perfumado pelos suores marinhos.
Entretinha-se o grão de areia nestas meditações, quando a sua respiração afundada se sentiu liberta: quem o mergulhara na escuridão, agora oferecia-lhe a luz. E com tanta leveza, que nem sequer se apercebera com exactidão do instante em que o fizera. A escuridão! Depois, quando voltava a ver a luz, sentia sempre uma maior necessidade de se mover, de se espreguiçar na espuma que o refrescava. Escolhia um declive abrigado das investidas das ondas que se agarravam aos limos quando a maré estava alta. Num impulso, suspirava prolongadamente. Parecia até o seu primeiro suspiro dado há tanto tempo e a senti-lo cada vez mais próximo.
Sem aquele peso que o esmagara, o grão de areia intuiu uma diferença interior e inexplicável: não sabia se estava emocionado, se tranquilo, se demasiado excitado... Percebia apenas que aquele peso fora o mais breve dos que suportara no Verão anterior; esse Verão que lhe parecera infindável ao avançar pelo solitário Inverno... Parecia-lhe até tornar-se cada vez mais difícil distingui-los.
Livre da pesada escuridão a que a desconhecida criatura o condenara por momentos, estava de novo senhor de si! Sem que percebesse a razão, começou a acreditar na possibilidade de vir a descobrir o segredo que a sua existência denunciava.
Pela primeira vez, sentia uma simpatia pelo responsável da sua imersão no mundo das trevas arenosas. Sentia-se surpreendido! É que tal nunca lhe acontecera nos dias em que gentes das mais diversas regiões e idades, o «visitavam» nos tempos de canícula.
Quem seria aquela sombra macia como veludo de seda e tão leve como o canto flautado das gaivotas? De repente, uma toalha de turco muito espesso, deslizou sobre os contornos redondos do grão de areia. Adelgaçando-se para ver melhor, notou que estava em frente de uma mulher. Era costume vê-las todos os dias de Verão. Mas aquela tinha um aspecto estranho: as suas pernas eram esguias como as da garça e a sua pele tão alva como se o sol nunca nela tivesse pousado as suas setas bronzeantes; os seus braços, também muito longos e finos, terminavam numas mãos de veias muito brilhantes; os seus dedos ossudos demais mas quase indeléveis alisavam, sem parecer tocar-lhes, as montanhas de grãos de areia que a cercavam.
Um silêncio ecoante definia-se nos seus movimentos ritmados e, misteriosamente, de uma lentidão incomparável. O grão de areia contemplava-a, absorto, com tanta perspicácia que parecia nem se lembrar do segredo que procurava. Foi neste instante de contemplação que descobriu naquela mulher um sentimento de medo. O medo parecia a sua única fraqueza. Entre todas as mulheres que por ele tinham passado, nenhuma lhe transmitira essa ideia de medo.
Impressionado, olhava-a com persistência. Que mulher era aquela que tocava as areias, como se fosse uma suave brisa? O mais estranho é que ele não a sentira senão muito brandamente. Talvez fossem uns dedos muito finos, quase invisíveis. Agora reparava: na sua mão direita, o segundo dedo exibia algo a cintilar com tons vermelhos; aproximando-se mais, identificou-o como um anel de rubis minúsculos e octogonais.
«Se não fossem vermelhos, como se assemelhavam a mim próprio», pensou com um pouco de inveja por não ser um deles.
Ora, se a enigmática mulher − leve como as plumas das gaivotas perdidas no areal− agitara o seu coração, a verdade é que ela ficara também um pouco enfeitiçada ao tocar o insignificante grão de areia. Pressentindo a sua presença, ela não fora capaz de lhe tocar com as pontas dos dedos. As suas mãos tinham penetrado vezes sem conta na areia humedecida pela bruma matinal, mas nenhum dos seus pequenos grãos conseguira chamar-lhe a atenção com tanta persistência como aquele grão bastante mais pequeno do que os outros.
Com os cabelos cintados por uma fita entrançada de tons amarelos e azuis, ela pensava, sem cessar, naquele grão mais brilhante do que os demais.
«Os seus contornos um pouco aguçados parecem-me asas de falcão a sacudirem-se», meditava embevecida com aquela inesperada visão a invadir-lhe a alma.
E questionava-se: «Por que razão este grão de areia, semelhante aos milhões que o rodeiam, é tão diferente deles?!».
Não obtinha resposta dentro de si própria. Enervada, afastou mais a toalha e recostou os seus cabelos alourados e lisos àquela partícula de realidade e, ao mesmo tempo, de tão reduzida aparência.
Com muito cuidado, não querendo magoá-lo, deixou descair a cabeça mesmo ao lado do pequeno grão que examinava com minúcia. O espanto estava nela.
«Estaria a sonhar um encontro com alguém?», pensava sem entender. Aquele momento, coincidia com a crise emocional que sempre a atingia quando o marido partia para o estrangeiro. As separações eram tão frequentes! E a solidão acompanhava-a ao longo desses meses que lhe pareciam milénios.
Começava a imaginar se não seria uma atracção corporal imaginária pelo pequeno grão de areia: «E se ele é uma transfiguração do homem que amo até ao limite? Se assim acontece, estou a descobrir em mim uma outra mulher; serei eu uma mulher obsessiva, ciumenta, de cuja existência nunca suspeitei? Não, não pode ser. Conheço-me demasiado bem e por isso tenho a certeza (a certeza?) de que tal não me vai suceder...».
O grão de areia era, com certeza, mesmo muito sedutor. Mas como explicar esta sedução se, nada o separava da realidade existencial dos restantes grãos de areia?
«Na verdade, o grão de areia não possui uma alma, uma consciência, um corpo!!!», repetia para si, como a afastar ideias tão cheias de inconsistência.
De súbito, pareceu-lhe escutar um ruído doce, melodioso, pleno de suavidade. Julgou ser alguma onda a deslizar na areia; no entanto, não vislumbrou ondulação próxima. Escutou de novo. Um sussurro breve... um suspiro lastimoso... era isso! Um suspiro lastimoso! Notava-se uma pequena movimentação no grão de areia. Ela tentou justificar de um modo racional esses movimentos, mas não conseguiu. Ao mesmo tempo, levantou a cabeça da areia; talvez assim se pudesse aperceber melhor da enigmática linguagem daquele minúsculo ser; até já suspeitava de que estava perante um fenómeno. E se fosse?
Instantaneamente, sentiu um arrepio: o grão de areia movera-se mesmo e elevava-se no ar. Duvidou se via ou se estava alucinada. A dúvida invadia-a cruelmente quando os contornos do grão de areia se transformara em asas: voava, voava, voava... como se uma força exterior o puxasse para o alto. Cada vez mais... e mais... e mais.
O assombro apoderou-se da mulher. Não acreditava naquela visão. Era tão real e parecia-lhe inacreditável. Como podia a natureza ser sobrenatural? Sempre desconfiara do que não pertencia ao mundo da realidade visível. Era absurdo que um ser sujeito às leis da natureza as transgredisse! Não, o real não infringiria as normas racionais da sua essência. Não obstante o seu firme pensamento, o olhar nublava-se-lhe pelo maravilhoso e elevava-se à medida que o grão de areia se afastava da planura arenosa onde repousara, não sabia por quantas eternidades.
− Porque me contemplas desse modo deslumbrado? − ouviu a mulher, mais atónita do que no instante anterior.
− Não percebes que foste tu a razão de ser capaz de me libertar do areal, de que estive prisioneiro durante um tempo indeterminado, o tempo da espera? − insistiu o grão de areia, a voar num vaivém contínuo, como se não pudesse parar depois de ter jazido longamente no sereno lugar.
Ouviu como resposta apenas o silêncio. Por isso, insistiu nervoso:
− Porque não respondes? Não serei digno de uma palavra vinda de ti?
Maravilhada com o que escutava, a mulher habitada pela solidão do amor, emudecera. Naquele momento, via em ruínas tantos anos de pensamento hostil às crendices, aos sobrenaturais... Se ela o fizera voar, o insignificante grão de areia conseguira fazer desmoronar as suas ideias de racionalidade e de espírito inquieto. Ideias que, afinal, suponha inabaláveis como rochedos. E que ninguém antes, conseguira fazer sequer estremecer!
− Então?! Que te custa responder-me?! Não pertences a uma raça com um grande corpo, todo feito de complexidade, imaginoso, inteligente? Não pertences a essas espantosas criaturas que venceram mares revoltos e atravessaram já espaços infinitos? Porque será tão difícil responderes a esta banal pergunta? − questionou o grão de areia, irritado com o seu mutismo; os seus olhos tinham-se tornado tão prescrutadores que quase não cabiam nas flácidas órbitas arenosas, ao tentar desvendar o silêncio esgotante da mulher.
Recuperando o alento perdido, ela, sem controlar a emoção, balbuciou: − Que hei-de eu responder depois de ver o real transformar-se em irreal... e não entendo como podes julgar que fui eu a autora da tua façanha, se nada fiz para que tal acontecesse... Quem sou eu, perante um grão de areia a voar, se só por breves instantes me consigo elevar do solo? Depressa caio pesadamente, como se não tivesse engenho para tal proeza. O espanto invade-me; se o meu corpo, esta tão engenhosa máquina da natureza, como tu dizes, não me permite voar, como hei-de entender a tua arte de quebrar as amarras terrenas?
− Não estejas perturbada; nem calculas como foi simples rasgar os espaços e libertar-me do areal. Há quanto tempo o sonhava... As leis da natureza parecem inflexíveis, mas serão eternas? Julgo que o que me aconteceu prova que não... Na verdade, a solidão que eu vivia no meio de milhões de grãos semelhantes parecia-me eterna. Agora, o tempo das coisas eternas parece-me tão curto... Não será esse tempo um caminho para a origem? Para a origem dos seres? Somente por te ter visto numa solidão tão grande como a minha, terei eu descoberto este caminho?!
− Parece-me que foste capaz de desvendar o que na aparência era indesvendável − sibilou a jovem mulher, de cabelos a balouçar entre os entrançados da fita multicor.
Inesperadamente, o grão de areia insubmisso gritou:
− Pela primeira vez na minha vida senti-me invadido por algo que não sei definir. Só sei que desejei possuir-te, como se isso fosse possível... Julgo que foi essa força desmedida que senti de repente, essa sensação inebriante a crescer nas minhas entranhas que me fizeram voar... Procuro uma palavra para a definir, mesmo que seja pequena como uma gota de água mas que consegue tirar a sede mais cruel... Julgo que será uma palavra doce como o mel, simples como a lua, branda como a brisa do sol poente. Uma palavra breve como a espuma e, grandiosa como o mar...
A-M-O-R. Sim, consegui pronunciar as sílabas que a formam. A palavra é... Amor. E Amor é a palavra secreta do universo: a palavra que faz girar a vida e é a essência de toda a existência. Até da existência de uma flor silvestre, de uma estrela do mar, de uma folha seca de Outono... e da tua própria existência...
A mulher, perturbada como nunca, escondeu rapidamente os olhos escancarados e ainda, ainda incrédulos. Sentia-se aterrorizada pela imagem do grão de areia. Não, não queria vê-lo mais, nem sequer voltar a escutá-lo.
Quase inconscientemente, enterrou a cabeça no areal de que o grão de areia, agora mais brilhante do que nunca, se afastara. Mas, nervosa, foi-lhe impossível deixar de olhar de novo as alturas. Na decepção da ausência − o grão de areia deixara de ser visível − , cerrou os olhos com os finos dedos. Quando os retirou, não sabia calcular quanto tempo tinha passado.
Os seus olhos abriram-se mais e voltaram-se de novo para o alto, à espera ainda de voltar a ver o grão de areia a voar pela força do amor. Procurou-o obstinada mas em vão. Seria o ar que o encobria? Quem se teria apoderado dele?! Tudo vinha ao seu pensamento, olhando o espaço, sôfrega e impenitente. Torturada pelo real, sentiu-se aniquilada pelo irreal fugidio. Olhava com profundidade, muito fundo, como a pretender agarrar o etéreo lugar ou, afinal, apenas o grão de areia.
Não vislumbrou mais nada. Nem sequer um rápido sinal. A ausência persistia destroçando o seu espírito já cansado. Os olhos exaustos do esforço, enevoaram-se. Uma lágrima deslizou na sua face, como um rio a abrir o seu primeiro sulco. Esse primeiro sulco que iria em breve secar. Minutos depois, a sua face estava enxuta. Quem a olhasse não suspeitaria que, há tão pouco tempo, uma lágrima tivesse rolado lenta e pertinaz.
Com um sabor amargo na boca, pensava:
«Quem acreditaria num grão de areia que se libertou do seu mundo pelo sentimento do amor?».
Só ela podia acreditar porque só ela tinha visto...»
Fonte: Teresa Ferrer Passos, O Grão de Areia, Universitária Editora, Lisboa, 1996, pp. 77-90.
Acordou cedo. O silêncio penetrava e parecia-lhe um ruído forte no sono leve. Era o despertar matinal naquele fim-de-semana, esperado sem ansiedade. Abriu os olhos. Procurou o candeeiro com sofreguidão. O escuro do quarto, provocado pelas janelas zelosamente fechadas, parecia reflectir o seu medo de ser incomodado pelo ruído da terra, das plantas ou dos insectos? Não saberia responder. Esses ruídos sufocavam-no. Como eram diferentes dos que chegavam através das janelas do laboratório, onde passava as horas do seu dia, que um relógio cruel suspendia sempre.
Respirou profundamente. Era como se sentisse necessidade de armazenar o oxigénio escasso ao longo da semana citadina. Talvez fosse uma fome inconsciente, porque dela não se apercebia concretamente. Quando abriu a janela, o sol entrou a rodos. Era um desses dias de verão, em que gostava de contemplar as tílias os abetos gigantescos e os pinheiros silvestres; as hortênsias, via-as como uma audácia do inanimado e os junquilhos, que o caseiro plantava todos os anos com esmero, mirava-os com a intensidade de quem deseja desvendar um mistério; a relva, tímida e vigorosa, era uma visão de candura insofismável.
E começou a pensar no que ia fazer ao longo daqueles dois dias... dois dias em que ia estagnar o fulgor da sua inteligência. Era um tempo que lhe parecia passar tão devagar e, ao mesmo tempo, parecia-lhe nem sequer existir. Cada segunda-feira, ao recomeçar, notava que aqueles dois dias nada lhe tinham trazido de benéfico; a verdade é que todas as suas experiências químicas, tinham sido, como que inexplicavelmente, interrompidas.
Aqueles dois dias de fim-de-semana em nada tinham contribuído para o progresso da humanidade. A humanidade era o seu deus, a ela era fiel, fiel até ao limite das suas forças. Só ela orientava os objectivos e os esquemas prévios e finais do seu trabalho científico. À humanidade, a essa senhora omnipresente não devia fugir nem desobedecer. A ela, só a ela, queria servir toda a vida. Mesmo assim, pensava que não lhe dedicava todo o tempo que devia. Tudo por causa das leis laborais...
Aqueles fins-de-semana eram uma angústia flagelante; eram a mágoa da inutilidade desse tempo que se tornava, para ele, irrecuperável. Apenas tinha que se conformar. Conformar-se com o intervalo que os fins-de-semana punham na observação das suas experiências.
«Esta vinda semanal para a casa de campo é um sobressalto – regresso a uma outra vida, essa outra vida que não visualizo senão sujeita a toda a nomenclatura da botânica ou da física. Ao fazê-lo, dispo a natureza da sua linguagem rude, dessa linguagem que é incapaz de transmitir a verdade. Só a inteligência humana dá sentido a esta realidade desordenada, labiríntica», pensou desassossegado.
– Quando deixas de olhar através da janela? – interrogou a mulher, já cansada do seu mutismo frente à vidraça.
O cientista estremeceu, como se não soubesse que estava acompanhado. Não calculava há quanto tempo ali estava e temeu não saber responder à mulher, se esta lhe perguntasse. Mas não. Ela apenas retorquiu:
– Parece que a companhia dos tubos de ensaio é mais agradável do que eu. Quando estás em casa, comportas-te como um ser que perdeu o sentido da vida, como um ser perdido de si próprio – um ser artificial ou que não entende a razão da sua existência; tudo o que fazes, limita-se ao automatismo da tua engrenagem mecânica.
– Basta de retórica! Nada pior do que as palavras para não nos entendermos. Se ao menos fosses capaz de admirar a linguagem perfeita dos cálculos para alcançar uma interacção...
A mulher fechou os olhos, enterrando a cabeça nas almofadas, como se fossem os braços da ternura. Ele fingiu não ver e carregou no botão da telefonia: «... as tropas de Israel fizeram mais uma investida no Líbano... No Sudão continua a morrer-se de fome apesar de toneladas de cereais aguardarem o seu transporte até à zona flagelada... Na cidade do México, a poluição do ar contaminado pelos gases expelidos por milhões de veículos e centenas de fábricas, provocou já a morte de numerosas aves: são pequenos corpos com asas incapazes de voar e com penas sem brilho, a ondular sob a brisa leve do amanhecer...».
Apagou a telefonia. O súbito silêncio despertou a mulher, que elevou a cabeça da almofada: «Porque desligaste? Já não se podem ouvir as notícias?!», exclamou irritada. Não obteve resposta. O marido, com a cabeça inclinada, como se tivesse de suportar um pesado fardo, saiu do quarto com o passo apressado.
Dirigindo-se à mesa da sala de pequeno-almoço, esperou que a empregada lho servisse. «Bom-dia», disse a empregada. O homem de ciência escutou apenas um som indefinido. A jovem encolheu os ombros, ao mesmo tempo que pensava: «Deve ter acordado mal disposto. O costume... Ou discutiu com a mulher, logo ao levantar. O costume!»
Bebeu o leite, o sumo de laranja, sem lhes distinguir o sabor; comeu o pão e o doce de cereja em gestos repetidos, sem prazer. Com as mãos abandonadas sobre a mesa, donde a empregada já levara a louça, reflectia: «As aves tombam sobre a cidade que não as reconhece; a cidade está envolta em gases tóxicos que não poupam a vida dos seres mais frágeis; amanhã, não pouparão seres mais fortes... Não há equilíbrio ecológico... Que fizemos? Que estamos a fazer? As aves morrem... as primeiras vítimas da tecnologia industrial sem fronteiras». Numa tensão brusca, procurou justificar-se a si próprio: «A tecnologia industrial é um deus ilimitado a que não podemos fugir! Dá-nos a glória de criar, criar sempre novos processos e cada vez mais rapidamente... Novas substâncias, outros reagentes, e uma nova complexidade ergue-se cada vez a maior velocidade... mesmo que tudo isto conduza à perdição da raça humana. E não poderão surgir outras soluções capazes de suportar todas as carências que a atmosfera de hoje comporta? Morrem algumas aves, mesmo que morressem todas, a inteligência poderia sempre fazer outras formas voadoras... Que interessa a secura da terra, se a inteligência se renova como um oceano imenso e é capaz de voltar a dar frescura à terra? Que inconveniente poderá encontrar-se no ar contaminado de anidridos, se a inteligência prevê o aparecimento de seres imunes aos seus perigos?».
Levantando-se, encaminhou-se para o jardim. Os canteiros de goivos perfumados e o pequeno rouxinol escondido entre as folhas, a trinar um suave canto, não lhe desviou a atenção. «A inteligência humana é uma gruta de encruzilhados labirintos, conduzindo a saídas múltiplas e vitoriosas... embora diferentes das que podíamos pensar. Como os meus raciocínios recorrem sempre a subterfúgios insuspeitados para responder a todas as interrogações... O turbilhão das minhas dúvidas esbarra, às vezes, na fronteira do inexplicável, mas o mistério tem o sentido do que não é absurdo. A Razão é o único real a consentir! Na verdade, a Razão não esconde a verdade ao ser humano que a utiliza com a confiança de um crente.»
Naquela manhã, em que o sol brincava com as nuvens densas como se fossem navios-fantasmas de um espaço em que o mar se evolou, a notícia da morte dos pássaros ecoava no seu espírito, como uma acusação, que nem a inteligência mais segura conseguia apagar. A cada instante, a visão imaginada ressurgia, como uma crueldade incontrolável. E, de novo, formulava argumentações sedutoras...
Encostado a um largo tronco de pinheiro, pensava, continuava a pensar, quando viu os dois filhos de toalha debaixo do braço e calções. Iam para a piscina, risonhos e despreocupados, como sempre que chegavam à casa dos fins-de-semana. Olhando com um ar distraído, convidaram:
– Pai, não quer vir dar um mergulho?
– Não, não tenho disposição. Tenham cuidado; o sol nem sempre nos atinge só com os seus raios benéficos – respondeu, com um sorriso forçado. Os jovens não insistiram e, saltitando pelo relvado ainda húmido do orvalho, logo esqueceram o pai.
O homem de ciência sentou-se no último degrau da escada que conduzia a uma pequena cascata. Encarou-a, como se nela buscasse um diálogo reconfortante; a pequena distância, um faustoso pinheiro picava o ar com as suas agulhas, sem o ferir; as pinhas, divididas em crateras esvaziadas de função, persistiam em não abandonar a árvore, que as escolhera para casa protectora dos seus frutos. Olhou-a longamente, procurando entender as ambições, os infortúnios ou os prazeres nela contidos; decifrar os ruídos retidos pela sinfonia das folhas, cruzadas com o vento, foi o seu intuito, mas completamente vão.
«À inteligência humana devia ser fácil compreender a linguagem de um ser inferior, como esta simples árvore?!», interrogou-se perplexo. Começou a angustiar-se; sentiu-se irritado, mesmo exasperado. De novo, ouvia os gorjeios do rouxinol, que pareceu atento à sua presença. Sem dar por isso, lembrou-se da frase «as aves caem nas ruas da cidade». O rouxinol silenciara-se. Talvez a avezinha tivesse escutado o seu recôndito pensamento. Para ele, aquele silêncio súbito foi como o estrondo de uma fraga, a precipitar-se do cume de uma montanha.
O silêncio parecia-lhe já uma coisa imóvel, quando distinguiu um som que não era canto, nem música, mas a voz de algo, algo bem seu conhecido... Seria gente? Que importava... Apurando a atenção, cada vez mais ia percebendo que a voz vinha não do exterior de um espaço mais ou menos próximo, mas da sua interioridade?! Queria saber donde vinha; mas o que ele queria mesmo era saber quem era e o que lhe queria. A pouco e pouco, o homem de ciência aproximou-se da voz com o esforço todo do seu corpo. Quase gritou:
– És o Óxido de Carbono?! Porque deixaste o laboratório? Como pudeste vir até aqui? Como?...
– Não continues com as tuas impertinentes perguntas! A nenhuma vou responder. – disse o Óxido de Carbono, muito irritado. – Os teus inqualificáveis pensamentos massacraram-me de tal maneira, que não me pude conter. Julgas a tua inteligência a mais poderosa das forças do universo... e que, com ela, tudo podes dominar e controlar.
– Não sei porque te revoltas, se procurei fazer de ti um agente poderoso de transformação da própria vida humana. Achas que não te dei a importância que mereces?
– Não desvies a conversa para o que já estás a imaginar: a minha própria ambição. E não penses que não tenho quem esteja solidário comigo. Aqui estão também o Ácido Sulfúrico, o Chumbo e o Sulfato de Alumínio.
– Apoiamos, sem condições, o Óxido de Carbono! Os nossos poderes estão a ser usados abusivamente contra a humanidade – acrescentaram os três, em uníssono. – A verdade é que estamos insatisfeitos com a utilização exagerada das nossas potencialidades.
– A revolta de produtos a quem a inteligência não contempla... – murmurou o cientista, quase em secreta confissão. – Pensava que a revolta só pertencia aos seres humanos?! A revolta só a inteligência a tem ditado, desde os tempos primordiais... A revolta é privilégio dos seres dotados de raciocínio!
O Chumbo, indignado com o desaforo, interrompeu-o:
– Exaltas-te como um ser falhado. És incapaz de entender as grandezas e as possibilidades de coisas que desconheces; por isso dizes, com petulância, que não existem. O teu conhecimento é limitado; daí que negues o mundo desconhecido – e que mundo vasto é esse! O Óxido de Carbono fez bem em alertar-nos para o modo totalitário como defendes puras opções racionalistas, que podem cair em desuso, num futuro que não sabes se estará próximo.
– Queres fazer de nós o motor da tua vaidade sem medida! – disse o Sulfato de Alumínio, com a confiança de quem tem a consciência tranquila.
– Não nego que a tua inteligência seja poderosa; mas tens usado as nossas potencialidades para além do aceitável; e isto, em nome de um progresso que poderá fazer regredir os humanos até à Idade das Cavernas, na melhor das hipóteses; porque na pior, nenhum escapará vivo – sublinhou, prudente, o Sulfato de Alumínio.
– Servir um Estado prestigiado no concerto das nações, é a minha missão! O presente impõe que se usem todos os processos para ganhar a batalha da tecnologia – ajuizou o homem de ciência, com a voz um pouco trémula, mas possante.
– O presente, o prestígio, o poder! Eis o retrato da gloriosa civilização tecnológica! E os seres humanos, todos os outros seres vivos e... nós próprios? Porque desrespeitas a nossa natureza equilibrada, os nossos limites benéficos, a nossa existência sem excessos assassinos?! – insistia o Óxido de Carbono, já impaciente.
– Sabes que se nos unirmos, podemos destruir-te? – insistiu o Chumbo, enfurecido perante a resistência do cientista.
– A ti e a todos os outros que pensam e executam planos nefastos! – reforçou o Sulfato de Alumínio, com uma voz tonitruante.
– Acusar, condenar, ameaçar... como se nós, os homens da ciência, fossemos os únicos responsáveis – conseguiu articular, o cientista, titubeante.
– Não fujas da responsabilidade com o argumento de que os outros também a têm. É uma atitude cobarde; de quem só está seguro enquanto é aplaudido e, se é condenado, logo capitula. Afinal, nem a tua omnipotente inteligência te liberta do medo e não te exime do fracasso... – vociferou o Ácido Sulfúrico.
– És um fraco... depois de teres apregoado tão alto o poder da racionalidade! – exclamou rindo, o Sulfato de Alumínio.
– Um fraco! Um fraco! Um fraco! – gritaram em coro, os quatro amigos do laboratório. E sem que o cientista se apercebesse de imediato, as vozes acusadoras tinham-se silenciado. Procurou descobri-las em alguma distante audição, sem conseguir. As palavras acusatórias é que ribombavam, como uma trovoada seca entre penhascos solitários. Depois, pareceu-lhe escutar um som musical. Não, não eram notas de música. Talvez fosse um bramido semelhante à faísca reluzente, a fender as águas do mar. Enganava-se. Não era isso também... Lentamente, pressentiu o brando arrulhar de um pombo. Estaria a queixar-se da frescura matinal? Ao mesmo tempo, aquela queixa parecia mais assemelhar-se a uma voz diferente... Acabou por confirmar a segunda hipótese:
– Não me conheces? – pronunciou a voz – chamo-me Consciência.
– Ah, sim... mas, na verdade não te conheço senão de nome – respondeu assustado, com o coração a palpitar acelerado.
– Estou todos os dias, todas as noites dentro de ti. Nem dás pela minha presença?
– De facto, mal me apercebo de que existes. Não me perguntes porquê; não saberia responder ou responderia mentindo à mais fiel companheira da minha vida.
– Se és capaz de mentir, olha que eu nunca minto! Digo tudo o que penso, tudo o que sinto. Não estou arrependida de sempre ter agido assim, apesar das ingratidões... Sei que não me ouves... o ruído do que te é exterior é tão forte que eu fico esmagada por ele.
– Bem! Hoje estou disponível para escutar, o que te deve agradar.
– Mais do que pensas! Por não me dares atenção, recebeste, há pouco, a visita daqueles a quem nunca regateias um instante, sem te sentires logo muito infeliz. Não julgaste que te pudessem ofender, por os tratares como uns filhos que nunca crescessem e, por isso, não pudessem acusar-te de seres um mau pai.
– Parece que comungas das suas estúpidas acusações, das suas críticas injustas...
– Sem dúvida! Sempre notei a tua petulância mesquinha, a tua ambição desmedida, a tua submissão ao império do racional. Tens vivido como um ser dominado por essa loucura. Só acreditas nas tuas convicções obsessivas e desprezas os teus semelhantes para alcançares a fama, mesmo que à custa da morte alheia. A tua visão é prejudicada por ignorares o olhar dos que estão ao teu lado. Louco! Para ti, a verdade só depende da configuração que dás às coisas; só a tua inteligência é fonte de certeza e de sentido!
– Estás a exorbitar. Deixei-te falar e, afinal, só acusações, acusações, como os outros atrevidos, eles próprios já corrompidos pela fama que eu lhes proporcionei...
– Os outros nenhum atrevimento cometeram. Eles apenas são fiéis à natureza que lhes deu a existência. Porque não é tu também fiel a ela? Foi também ela que te ofereceu a vida... e ela te conserva, até para a poderes destruir!
– E as acusações continuam, como um destino a que fui condenado... estou farto! Não te escutarei por mais tempo. Agora sinto mais a falta dos ruídos da cidade... a turbulência dos escapes de todos aqueles automóveis que lá circulam... e, sinto ainda mais a falta das palavras de todos os que aplaudem os meus trabalhos no laboratório e que só o meu raciocínio constrói. A ciência, minha eterna divindade; o poder, meu elmo salvador; a inteligência, minha musa inspiradora. Eis a tríade, a que nunca renunciarei!
– És feliz expulsando a tua fiel Consciência?
– Não me interessa a felicidade! É palavra que não passa pela tríade, magnífica construtora de um mundo novo, embora não isento do medo, do desespero, da dor. Mas isso são coisas secundárias. Os resultados bons ou maus fazem parte da condição humana.
– O desafio é a tua condição? A tua única condição?... Ou a atracção da morte?... Sou a tua Consciência, sempre te fui fiel, mas eu própria tenho os meus limites. Tu condenaste-me, mas não serei eu a julgar-te... Porque não abres os olhos?
O homem de ciência abriu levemente os olhos. Contemplou o sol, agora fulgurante; as nuvens tinham-se desvanecido na esfera celeste. Não tinha a certeza se sonhara ou se não deixara de estar bem acordado. A dúvida fê-lo sorrir. Como se, agora, tivesse de fazer a maior descoberta da sua vida...
Fonte: Teresa Ferrer Passos, O Grão de Areia, Universitária Editora, Lisboa, 1996, pp. 59-71.