HARMONIA DO MUNDO

 

 

TERESA FERRER PASSOS / TERESA BERNARDINO

 

 

O GRÃO DE AREIA

 

 

«Como sou minúsculo, perdido no areal que me abriga, sustenta, dá vida... entre tantos grãos de areia, semelhantes a mim, sinto-me diferente deles. Umas vezes, vejo-me mais dourado, outras um pouco arredondado ou com arestas finas e cortantes...» −  pensava o grão de areia, enroscado noutro mais grosso e esbranquiçado. Estava indolente; fora uma noite à beira das vagas esparsas, a espreguiçarem-se com violência no areal  frio, inclemente, inalterável.

Quase imperceptível, o mar cobria, com uma ternura de gigante, o grão de areia pensativo, cada vez mais envolto em pensamento. Depois de tanto tempo a jazer sem ruído, sob a espuma refrescante e doce, procurava um sentido para a sua vida. Uma vida de que ele não conhecia o princípio e desconhecia o fim. «Quem me trouxe para aqui? O vento, o mar, o pinhal sobranceiro à falésia? A verdade é que tenho um sentimento de perda. Há muito tempo... mas quanto?... quanto?» −  repetia, angustiado, na madrugada que todos os dias lhe parecia uma eterna novidade.

A angústia sempre o habitara quando a solidão era mais funda. Ao ressurgir do dia, sentia-se sempre mais solitário; como se desconhecesse a solidão ou a vivesse pela primeira vez... primeira vez −  expressão mágica para a sua alma, uma alma bem mais pequenina do que ele. Albergava-a com carinho, como se fosse um grão de areia ainda mais minúsculo do que ele e que temia perder, como ele se perdera de um outro?...

«Quem és tu que me habitas sem eu sequer conhecer?» −  interrogava o pequeno grão à espera de um dia, um dia maravilhoso, conseguir escutar a resposta. E, quando a obtivesse, como achava que se ia tornar grande... Um grão de areia enorme, talvez do tamanho do mar, esse companheiro dos instantes; esse colosso magnífico que invejava e ao mesmo tempo, tantas vezes, venerava, como se fosse um deus mais potente que todas as divindades dos areais infinitos, onde se erguia, apesar de tudo, a sua existência magoada e sem grandeza. O sol elevava-se no horizonte; lento, muito lento, como se lhe fosse difícil arrastar a massa enorme do seu corpo flamejante.

−  Oh sol, apesar da lentidão com que te moves, como és pontual a nascer e a adormecer no horizonte lívido! Se és muito velho, mesmo assim iluminas a minha opacidade com rapidez. Sem a tua luz magnífica nunca eu brilharia quase tanto como as estrelas do longínquo espaço. Vejo-te desde que existo e, chego à conclusão de que te desconheço. Quem és? De onde vens? Como abranges apenas com um dos teus simples raios, as águas transparentes, os soberbos areais, os rochedos rugosos que lhe quebram a monotonia e as aves sempre alegres e a esvoaçar na busca eterna do alimento?... −  interrogava o grão de areia.

Perscrutando o astro maravilhoso, esperava escutar a sua voz, desvendar algum sinal daquele que era o único sentido para os seres existentes. Esperava, sem obter resposta. Mostrava-se impenetrável como antes, na madrugada a findar. Após as interrogantes palavras, o seu fulgor parecia menor, a sua luz embaciada... sombria.

De súbito, uns olhos muito grandes, de um tamanho que não sabia medir, fixaram-no com uma brandura envolvente; sentiu-se contente e, em simultâneo, amedrontado.

−  Para que queres desvendar os meus segredos? −  questionou o sol, com uma expressão distante e revoltada.

−  Nem eu próprio sei... −  respondeu o pequeno grão, hesitante. −  Ou talvez o saiba: será para conhecer os meus próprios segredos? A verdade é que se não te conheço a ti, não conheço melhor as minhas entranhas.

Escorregando um pouco, podia agora observar bem esses grandes olhos de fogo e de beleza incomparável. Mesmo mais belos do que os das sereias que tinham espreitado a magnífica odisseia de Ulisses. Nervoso, acrescentou, em seguida: −  Tens beleza, demasiada beleza; mas a tua maior beleza não está no teu aspecto exterior; está na tua interioridade! Ela é toda dádiva, entrega incondicional.

Tremendo um pouco, aventurou dizer com humildade:

−  O segredo do teu poder não será precisamente essa tua beleza interior, tão funda e perfeita, e, a que eu não posso sequer aspirar?

O sol incendiou o seu olhar com imensidões faiscantes; depois, inesperadamente, retomou a forma que a madrugada lhe costumava desenhar. Então, o desânimo apoderou-se da minúscula criatura toda feita de areia: sentia-se debilitada pelo esforço de se fazer ouvir por aquele que tanto distava dela e que, inexplicavelmente, tão próximo se fizera. Por um instante breve duvidou do sol, do seu poder. A dor penetrou-a. A dor do desencanto. A dor da audácia derrotada. Entre a pequenez e a grandiosidade, a distância ressurgiu. Cruel e impiedosa.

Uma nova provação se perspectivava no coração do ínfimo grão de areia. Duraria quanto tempo?! Não iria ser maior do que a dos tempos anteriores? Naqueles breves momentos de diálogo com o astro dourado soubera não ser possível descobrir o seu segredo e, assim, também não ser possível alcançar o segredo da sua própria existência. Entoando um som agudo, o grão de areia, como a gemer, começava a dar os primeiros passos na senda da incredulidade. O sol não fora capaz de lhe desvendar a sua origem! Fechara-se, egocêntrico, na sua luz de plenitude, a obscurecer uma timidez congénita, sufocante da voz da lonjura.

Numa insistência quase arrogante, interrogava-se: «Porque não me hão-de responder o mar de ondulantes contornos, a fresca brisa do crepúsculo, a intrépida chuva ou a trovoada ruidosa? por que não me hão-de responder o búzio penetrante, a concha abandonada ou o peixinho moribundo entregue às areias minúsculas, minhas irmãs, a suplicar às águas uma gota de oxigénio? Na sensação da morte certa, não descobrirá ele o mistério da sua existência? E a alga marinha de longos braços acariciantes? E o rochedo a querer fugir ao sepulcro marítimo, quando se encontra a dois passos da catedral arenosa de que sou um dos suportes?------».

Envolvia-se em perguntas e mais perguntas, sem se cansar...

«Não tenho mesmo remissão de pecado!», cogitava, sorrindo com as suas ingenuidades. A cada momento, pressentia que a cada uma das suas perguntas correspondia uma resposta impossível. De novo, a angústia flagelava-o.

De súbito, o pequeno grão sentiu um peso que significava para ele uma grande escuridão. Sobre os seus ombros arredondados algo o sufocava de susto; e se não voltasse a poder contemplar o sol, a quem tivera a coragem de dirigir a palavra, apesar da sua pequenez? Tremia de medo. Lembrava-se, contudo, que podia ser uma dessas criaturas bizarras que povoavam a praia logo que o céu se cobria de azul, sacudindo a cinza das suas nuvens. «Na verdade deve ser uma dessas pessoas», reflectia, satisfeito.

Sabia que as águas não pisavam assim, o sol ardente não o abafava daquele modo e as conchas moribundas não amolgavam as suas arestas contra o areal que, como ele, era um mundo sem vibração, mas isento de crueldade. Devia ter chegado, finalmente, o tempo dos veraneantes! Era um tempo de sufocação. Um tempo para esquecer com o regresso do sol brando, no Outono, com a queda da chuva soluçante, no Inverno, e das ondas cavadas do mar, a imporem-se depois de um sono intenso de Verão.

Era este um tempo de liberdade. Sem as vozes esganiçadas a dizerem aos filhos para não se exporem ao sol, sem o creme protector e filtrante. Sem os gritos das crianças a pedirem sanduíches de fiambre e bolachas. Sem as conversas intermináveis e vazias de conteúdo. Por mais que escutasse aqueles intrusos com atenção, na esperança de captar uma palavra que lhe desse a chave secreta da sua existência, jamais o conseguira. Afinal, que importância podia dar àquela gente indiferente ao seu mistério existencial? Apesar de ostentarem um corpo tão volumoso, nada sabiam da vida. Contudo, essa diferença de configuração física, não impedia que notasse entre ele e os visitantes algumas afinidades: viviam na mesma realidade vital, passavam longas horas em lugar idêntico, gostavam de olhar o mar e absorver o ar perfumado pelos suores marinhos.

Entretinha-se o grão de areia nestas meditações, quando a sua respiração afundada se sentiu liberta: quem o mergulhara na escuridão, agora oferecia-lhe a luz. E com tanta leveza, que nem sequer se apercebera com exactidão do instante em que o fizera. A escuridão! Depois, quando voltava a ver a luz, sentia sempre uma maior necessidade de se mover, de se espreguiçar na espuma que o refrescava. Escolhia um declive abrigado das investidas das ondas que se agarravam aos limos quando a maré estava alta. Num impulso, suspirava prolongadamente. Parecia até o seu primeiro suspiro dado há tanto tempo e a senti-lo cada vez mais próximo.

Sem aquele peso que o esmagara, o grão de areia intuiu uma diferença interior e inexplicável: não sabia se estava emocionado, se tranquilo, se demasiado excitado... Percebia apenas que aquele peso fora o mais breve dos que suportara no Verão anterior; esse Verão que lhe parecera infindável ao avançar pelo solitário Inverno... Parecia-lhe até tornar-se cada vez mais difícil distingui-los.

Livre da pesada escuridão a que a desconhecida criatura o condenara por momentos, estava de novo senhor de si! Sem que percebesse a razão, começou a acreditar na possibilidade de vir a descobrir o segredo que a sua existência denunciava.

Pela primeira vez, sentia uma simpatia pelo responsável da sua imersão no mundo das trevas arenosas. Sentia-se surpreendido! É que tal nunca lhe acontecera nos dias em que gentes das mais diversas regiões e idades, o «visitavam» nos tempos de canícula.

Quem seria aquela sombra macia como veludo de seda e tão leve  como o canto flautado das gaivotas? De repente, uma toalha de turco muito espesso, deslizou sobre os contornos redondos do grão de areia. Adelgaçando-se para ver melhor, notou que estava em frente de uma mulher. Era costume vê-las todos os dias de Verão. Mas aquela tinha um aspecto estranho: as suas pernas eram esguias como as da garça e a sua pele tão alva como se o sol nunca nela tivesse pousado as suas setas bronzeantes; os seus braços, também muito longos e finos, terminavam numas mãos de veias muito brilhantes; os seus dedos ossudos demais mas quase indeléveis alisavam, sem parecer tocar-lhes, as montanhas de grãos de areia que a cercavam.

Um silêncio ecoante definia-se nos seus movimentos ritmados e, misteriosamente, de uma lentidão incomparável. O grão de areia contemplava-a, absorto, com tanta perspicácia que parecia nem se lembrar do segredo que procurava. Foi neste instante de contemplação que descobriu naquela mulher um sentimento de medo. O medo parecia a sua única fraqueza. Entre todas as mulheres que por ele tinham passado, nenhuma lhe transmitira essa ideia de medo.

Impressionado, olhava-a com persistência. Que mulher era aquela que tocava as areias, como se fosse uma suave brisa? O mais estranho é que ele não a sentira senão muito brandamente. Talvez fossem uns dedos muito finos, quase invisíveis. Agora reparava: na sua mão direita, o segundo dedo exibia algo a cintilar com tons vermelhos; aproximando-se mais, identificou-o como um anel de rubis minúsculos e octogonais.

«Se não fossem vermelhos, como se assemelhavam a mim próprio», pensou com um pouco de inveja por não ser um deles.

Ora, se a enigmática mulher −  leve como as plumas das gaivotas perdidas no areal−  agitara o seu coração, a verdade é que ela ficara também um pouco enfeitiçada ao tocar o insignificante grão de areia. Pressentindo a sua presença, ela não fora capaz de lhe tocar com as pontas dos dedos. As suas mãos tinham penetrado vezes sem conta na areia humedecida pela bruma matinal, mas nenhum dos seus pequenos grãos conseguira chamar-lhe a atenção com tanta persistência como aquele grão bastante mais pequeno do que os outros.

Com os cabelos cintados por uma fita entrançada de tons amarelos e azuis, ela pensava, sem cessar, naquele grão mais brilhante do que os demais.

«Os seus contornos um pouco aguçados parecem-me asas de falcão a sacudirem-se», meditava embevecida com aquela inesperada visão a invadir-lhe a alma.

 E questionava-se: «Por que razão este grão de areia, semelhante aos milhões que o rodeiam, é tão diferente deles?!».

Não obtinha resposta dentro de si própria. Enervada, afastou mais a toalha e recostou os seus cabelos alourados e lisos àquela partícula de realidade e, ao mesmo tempo, de tão reduzida aparência.

Com muito cuidado, não querendo magoá-lo, deixou descair a cabeça mesmo ao lado do pequeno grão que examinava com minúcia. O espanto estava nela.

«Estaria a sonhar um encontro com alguém?», pensava sem entender. Aquele momento, coincidia com a crise emocional que sempre a atingia quando o marido partia para o estrangeiro. As separações eram tão frequentes! E a solidão acompanhava-a ao longo desses meses que lhe pareciam milénios.

Começava a imaginar se não seria uma atracção corporal imaginária pelo pequeno grão de areia: «E se ele é uma transfiguração do homem que amo até ao limite? Se assim acontece, estou a descobrir em mim uma outra mulher; serei eu uma mulher obsessiva, ciumenta, de cuja existência nunca suspeitei? Não, não pode ser. Conheço-me demasiado bem e por isso tenho a certeza (a certeza?) de que tal não me vai suceder...».

O grão de areia era, com certeza, mesmo muito sedutor. Mas como explicar esta sedução se, nada o separava da realidade existencial dos restantes grãos de areia?

«Na verdade, o grão de areia não possui uma alma, uma consciência, um corpo!!!», repetia para si, como a afastar ideias tão cheias de inconsistência.

De súbito, pareceu-lhe escutar um ruído doce, melodioso, pleno de suavidade. Julgou ser alguma onda a deslizar na areia; no entanto, não vislumbrou ondulação próxima. Escutou de novo. Um sussurro breve... um suspiro lastimoso... era isso! Um suspiro lastimoso! Notava-se uma pequena movimentação no grão de areia. Ela tentou justificar de um modo racional esses movimentos, mas não conseguiu. Ao mesmo tempo, levantou a cabeça da areia; talvez assim se pudesse aperceber melhor da enigmática linguagem daquele minúsculo ser; até já suspeitava de que estava perante um fenómeno. E se fosse?

Instantaneamente, sentiu um arrepio: o grão de areia movera-se mesmo e elevava-se no ar. Duvidou se via ou se estava alucinada. A dúvida invadia-a cruelmente quando os contornos do grão de areia se transformara em asas: voava, voava, voava... como se uma força exterior o puxasse para o alto. Cada vez mais... e mais... e mais.

O assombro apoderou-se da mulher.  Não acreditava naquela visão. Era tão real e parecia-lhe inacreditável. Como podia a natureza ser sobrenatural? Sempre desconfiara do que não pertencia ao mundo da realidade visível. Era absurdo que um ser sujeito às leis da natureza as transgredisse! Não, o real não infringiria as normas racionais da sua essência. Não obstante o seu firme pensamento, o olhar nublava-se-lhe pelo maravilhoso e elevava-se à medida que o grão de areia se afastava da planura arenosa onde repousara, não sabia por quantas eternidades.

−  Porque me contemplas desse modo deslumbrado? −  ouviu a mulher, mais atónita do que no instante anterior.

−  Não percebes que foste tu a razão de ser capaz de me libertar do areal, de que estive prisioneiro durante um tempo indeterminado, o tempo da espera? −  insistiu o grão de areia, a voar num vaivém contínuo, como se não pudesse parar depois de ter jazido longamente no sereno lugar.

Ouviu como resposta apenas o silêncio. Por isso, insistiu nervoso:

 −  Porque não respondes? Não serei digno de uma palavra vinda de ti?

Maravilhada com o que escutava, a mulher habitada pela solidão do amor, emudecera. Naquele momento, via em ruínas tantos anos de pensamento hostil às crendices, aos sobrenaturais... Se ela o fizera voar, o insignificante grão de areia conseguira fazer desmoronar as suas ideias de racionalidade e de espírito inquieto. Ideias que, afinal, suponha inabaláveis como rochedos. E que ninguém antes, conseguira fazer sequer estremecer!

−  Então?! Que te custa responder-me?! Não pertences a uma raça com um grande corpo, todo feito de complexidade, imaginoso, inteligente? Não pertences a essas espantosas criaturas que venceram mares revoltos e atravessaram já espaços infinitos? Porque será tão difícil responderes a esta banal pergunta? −  questionou o grão de areia, irritado com o seu mutismo; os seus olhos tinham-se tornado tão prescrutadores que quase não cabiam nas flácidas órbitas arenosas, ao tentar desvendar o silêncio esgotante da mulher.

Recuperando o alento perdido, ela, sem controlar a emoção, balbuciou: −  Que hei-de eu responder depois de ver o real transformar-se em irreal... e não entendo como podes julgar que fui eu a autora da tua façanha, se nada fiz para que tal acontecesse... Quem sou eu, perante um grão de areia a voar, se só por breves instantes me consigo elevar do solo? Depressa caio pesadamente, como se não tivesse engenho para tal proeza. O espanto invade-me; se o meu corpo, esta tão engenhosa máquina da natureza, como tu dizes, não me permite voar, como hei-de entender a tua arte de quebrar as amarras terrenas?

−  Não estejas perturbada; nem calculas como foi simples rasgar os espaços e libertar-me do areal. Há quanto tempo o sonhava... As leis da natureza parecem inflexíveis, mas serão eternas? Julgo que o que me aconteceu prova que não... Na verdade, a solidão que eu vivia no meio de milhões de grãos semelhantes parecia-me eterna. Agora, o tempo das coisas eternas parece-me tão curto... Não será esse tempo um caminho para a origem? Para a origem dos seres? Somente por te ter visto numa solidão tão grande como a minha, terei eu descoberto este caminho?!

−  Parece-me que foste capaz de desvendar o que na aparência era indesvendável −  sibilou a jovem mulher, de cabelos a balouçar entre os entrançados da fita multicor.

Inesperadamente, o grão de areia insubmisso gritou:

− Pela primeira vez na minha vida senti-me invadido por algo que não sei definir. Só sei que desejei possuir-te, como se isso fosse possível... Julgo que foi essa força desmedida que senti de repente, essa sensação inebriante a crescer nas minhas entranhas que me fizeram voar... Procuro uma palavra para a definir, mesmo que seja pequena como uma gota de água mas que consegue tirar a sede mais cruel... Julgo que será uma palavra doce como o mel, simples como a lua, branda como a brisa do sol poente. Uma palavra breve como a espuma e, grandiosa como o mar...

 A-M-O-R. Sim, consegui pronunciar as sílabas que a formam. A palavra é... Amor. E Amor é a palavra secreta do universo: a palavra que faz girar a vida e é a essência de toda a existência. Até da existência de uma flor silvestre, de uma estrela do mar, de uma folha seca de Outono... e da tua própria existência...

A mulher, perturbada como nunca, escondeu rapidamente os olhos escancarados e ainda, ainda incrédulos. Sentia-se aterrorizada pela imagem do grão de areia. Não, não queria vê-lo mais, nem sequer voltar a escutá-lo.

Quase inconscientemente, enterrou a cabeça no areal de que o grão de areia, agora mais brilhante do que nunca, se afastara. Mas, nervosa, foi-lhe impossível deixar de olhar de novo as alturas. Na decepção da ausência −  o grão de areia deixara de ser visível − , cerrou os olhos com os finos dedos. Quando os retirou, não sabia calcular quanto tempo tinha passado.

Os seus olhos abriram-se mais e voltaram-se de novo para o alto, à espera ainda de voltar a ver o grão de areia a voar pela força do amor. Procurou-o obstinada mas em vão. Seria o ar que o encobria? Quem se teria apoderado dele?! Tudo vinha ao seu pensamento, olhando o espaço, sôfrega e impenitente. Torturada pelo real, sentiu-se aniquilada pelo irreal fugidio. Olhava com profundidade, muito fundo, como a pretender agarrar o etéreo lugar ou, afinal, apenas o grão de areia.

Não vislumbrou mais nada. Nem sequer um rápido sinal. A ausência persistia destroçando o seu espírito já cansado. Os olhos exaustos do esforço, enevoaram-se. Uma lágrima deslizou na sua face, como um rio a abrir o seu primeiro sulco. Esse primeiro sulco que iria em breve secar. Minutos depois, a sua face estava enxuta. Quem a olhasse não suspeitaria que, há tão pouco tempo, uma lágrima tivesse rolado lenta e pertinaz.

Com um sabor amargo na boca, pensava:

«Quem acreditaria num grão de areia que se libertou do seu mundo pelo sentimento do amor?».

Só ela podia acreditar porque só ela tinha visto...»*

 

 * Este conto foi publicado no livro com o mesmo título de Teresa Ferrer Passos (Universitária Editora, Lisboa, 1996, pp. 77-90).

 

 

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