MEMÓRIAS BRANCAS (poema)

O ENTREGADOR DE LIVROS (crónica)

CONTOS:

CEMITÉRIO DE ESTRELAS

O POÇO DOS DESEJOS

JOÃO E ADELINA

RECEITA DE BOLO

PAISAGEM DE RIO

CARVÃO EM FUNDO BRANCO

EXTREMA FIDELIDADE

JURIS ET DE JURI

PONTE SOBRE ALMODÓVAR

LUÍSA ATAÍDE

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PRÉMIO

Luísa Ataíde ganhou o Prémio Literário Rachel de Queiroz, nas três modalidades em que concorreu: conto e poesia (primeiro lugar), crónica (menção honrosa). O primeiro, Cemitério de Estrelas, baseado na vida e obra de Camilo Castelo Branco, é uma narrativa que se desenvolve à volta de um escritor que morre e deixa os seus personagens "a vaguearem como estrelas mortas".

 

Luísa Ataíde a receber o prémio

 

Segundo a autora, Camilo é, no Brasil, pouco conhecido do grande público. A crónica O Entregador de Livros, inspira-se no caso de um escritor que doou seus livros por não os conseguir vender. Finalmente, o poema foi titulado "Memórias Brancas". Os Prémios foram atribuídos no dia 3 de Junho de 2008, num restaurante típico de Brasília.  A contista que, com regularidade, nos tem enviado, gentilmente, os seus contos tão marcadamente surrealistas, pôs agora à nossa disposição os três trabalhos premiados, que vamos colocar online, com a maior satisfação, na página do nosso site que oferecemos à colaboradora de Brasília.

 

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MEMÓRIAS BRANCAS

 

 

“... é a minha alma que se desprende dos laços terrestres e anda pairando no espaço com sua irmã fugitiva...”

Lopo de Souza

 

Sempre é o lugar de ontem.

Todos montados, sobre cavalos, estendem cabelos ao carrossel do Vento.

A lua filtra a claridade da rua

A casa e a rua sobrevivem ao tempo.

Aonde andam os meninos, os risos, as lágrimas, os gritos?

Os que aqui viviam habitam outros sonhos, outras vidas, outros dias.

Pintaram a casa, mudaram as janelas, apararam o jardim.

Trocaram o telhado, há pouca mobília.

Os personagens dos livros sentam-se à mesa, dobram lençóis, regalam-se nas sombras

Atravessam as paredes, desbotados, antigos

Não sabem o rumo de suas estórias.

O homem se foi; a mulher e seus filhos para terras distantes.

A cidade adormece, as luzes se acendem, é a mulher que volta.

Remexe o fogão, sobe as escadas e limpa a poeira.

Recolhe das cinzas pequenas memórias.

Esfrega  nos dedos

Memórias sem vidas, branquinhas... branquinhas...

Observa os homens que saem dos livros

Apaga as luzes e volta pro parque.

Todos montados, sobre  os cavalos,  estendem cabelos  ao carrossel do vento.

O Ontem agora é um lugar de sempre.

 

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O ENTREGADOR DE LIVROS

 

 

         

 

 

“Não sei se a vida é curta ou longa demais para nós, mas sei que nada do que vivemos tem sentido se não tocamos o coração das pessoas. Muitas vezes basta ser colo que acolhe, braço que envolve, palavra que conforta, silêncio que respeita, alegria que contagia, lágrima que corre, olhar que acaricia, desejo que sacia, amor que promove. E isso não é coisa de outro mundo, é o que dá sentido à vida.”

 

Cora Coralina

 

                                                         

 

Diz o filme “Peixe Grande” que um homem conta suas histórias tantas vezes que ele se mistura a elas e elas sobrevivem a ele, e é deste jeito que ele se torna imortal.  Manuel de Jesus Lima é um Contador de Histórias. Discípulo de Cora Coralina redigiu o primeiro livro da escritora. As tardes da Casa da Ponte, feitas de café passado no coador e doces cristalizados, ficaram para sempre nas águas do Rio Vermelho; nas calçadas de pedras de Goiás Velho. No caminhão de mudança para Brasília, apenas boas lembranças da cumplicidade literária entre o rapaz Manoel e Dona Cora. A reportagem de capa do Correio Braziliense, de 14 de março, nos fala como um homem pode salvar o seu sonho. Autor do livro A Guerra de Juquinha e outras Guerras, cuja edição foi custeada com as economias ao longo dos anos, não conseguindo vendê-los tomou uma decisão extremada: colocou um anúncio nos classificados doando-os a quem os quisesse, bastando telefonar. Desde então seu telefone não parou mais de tocar. Regularmente, Seu Manoel pega sua camionete branca e faz as entregas dos livros. Bibliotecas, residências, escolas. Quem pede, lá vai ele dirigindo ao encontro de um provável leitor de sua obra desconhecida. Provavelmente seus dois mil exemplares ganharão definitivamente leitores donos, pois neste país diz o dito popular: de graça, até injeção na testa. Numa linguagem de Guimarães Rosa, onde os personagens se misturam como numa novela de Garcia Marques, estão as aventuras do menino herói do Sertão. O ato de generosidade do escritor é, antes de tudo, um protesto às editoras nacionais que se apropriam do maior percentual dos exemplares vendidos. Manoel, servidor aposentado do Tribunal de Justiça, nunca deixou o exercício da escrita e isso o diferencia dos outros senhores de cabeça branca que cruzam por ele nas trilhas da caminhada matinal. Cercado por uma legião de personagens imaginários troca com eles inesgotáveis diálogos. Para o mundo, caminha pelo parque um homem solitário, um homem de poucas palavras. Na verdade, um escritor nunca está só. Na verdade, um escritor tem a divindade nos dedos ao criar pessoas, escrever estórias e decidir destinos. Seu Manoel, o Jovem Senhor Contador de Histórias, já não é tão desconhecido assim. Por certo, salvou o sonho ao aproximar livros e leitores. Ele pede a todos que ganharem um exemplar que o leia, divulgue, empreste, doe para que outros leitores conheçam as aventuras inusitadas de um menino que nunca jogou vídeo-game.  O livro está em sua segunda edição. Eu telefonei e ganhei um, e digo que tem tudo para ser um best-seller. Contato com o escritor? 8404-9375. Só para quem gosta de ler.

 

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CEMITÉRIO DE ESTRELAS

 

 

 

                                   

Eu inclinava o peito crivado de dores sobre uma banca para ganhar, escrevendo e tressudando sangue, o pão de uma família. A luz dos olhos bruxuleava já nas vascas da cegueira. E eu escrevia, escrevia sempre.”

Camilo Castelo Branco.

 

 

 

 

 

PRÓLOGO - O ROMANCISTA

 

 Seduzir, o grande desafio dos que escrevem. Manter a atenção do leitor para que este visualize a estória entre as linhas do texto.  A alquimia das letras é feita por magos e loucos. Deliram esses homens e mulheres que nasceram sob a insígnia do ilusionismo. Fundam cidades em desertos, desenham batalhas em folhas brancas, preenchem de sons corredores vazios.  As terras secretas da imaginação desses viajantes vivem povoadas de seres sem formas definidas, ainda sem nomes ou destinos. O escritor desdobra o espírito a esses lugares distantes e traz no bico da pena o protagonista.  Às vezes, ele, o escritor, cessa repentinamente as viagens a essas terras e personagens sem estórias vagueiam como estrelas mortas empurrados pelo eco, ainda reluzente, do que poderiam ter sido.

Camilo nasceu em Lisboa em 1825. Exímio estudioso da Língua Portuguesa deixou como patrimônio literário mais de duzentos volumes entre romances, novelas e livros didáticos. Viveu exclusivamente da profissão de escritor e gravou para sempre seu nome na literatura do Século XIX. Sua vida foi recheada com os mesmos enredos de suas novelas, tento vivido os últimos vinte e cinco anos em Ceide, norte de Portugal. Irremediavelmente cego suicida-se com um tiro no ouvido em Junho de 1890.  A casa em  que viveu sofreu, anos mais tarde, um inexplicável incêndio. Os fatos a seguir narrados antecedem e retratam o dia em que a casa ardeu em chamas.

 

 

UM LIVRO

 

Contei hoje pela manhã setecentos e vinte e cinco vultos. Digo que são vultos porque a maioria deles dorme envolta em sacos de algodão e não sei dizer se são homens, mulheres ou meninos. Os cães disparam entre os canteiros, farejam e uivam como lobos. Os gatos, enrolados no próprio rabo, dormem a maior parte do tempo. Nós, que já não dormimos em sacos, e ainda habitamos este lado da fronteira sabemos, e isso é tudo, que além da bruma esparsa há uma terra ensolarada de onde se ouve vozes e risos. Ouvimos o ruído das patas dos cavalos e gritos de raparigas tolas. Sentimos cheiro de bolo assando, ouvimos o sino do mosteiro clamando os cristãos à missa. Às vezes, um de nós sobe na cerca e procura lá no céu o brilho da lua.  Todos os dias nos visitam o cavaleiro e sua espada. A espada é pena umedecida em tinta a escolher a ermo, um ou dúzias de nós para conhecer a luz dos dias.  Aquele que subira a cerca recebe cavalo e capa, galopa apressado à busca de seu destino.  Noivas fogem, em madrugadas orvalhadas, de casamentos indesejados. Estendem as mãos, ao sonho de amor, por sobre o muro da janela.

Há meses o escritor não aparece e ficamos assim, malas prontas, a espera da estória que nunca começa.   Estamos sentados sobre as malas enquanto os sacos dormem. Estamos aqui no limiar da espera e estendemos vaidosos as linhas desenhadas na palma da mão. Vimos a chama do candeeiro nos iluminar como holofote que varre a praia escura.  O cavalheiro não desceu ainda sobre nós sua espada umedecida em tinta para nos empurrar de vez ao outro lado da linha. É bem verdade que os que vão nunca voltam. Só podemos ouvi-los e ver suas vidas ao longe, assim como vemos os sonhos. A estória se abre como pintura em movimento entre as frestas da neblina. Um dia os homens farão máquinas que projetarão vidas, mas isto é segredo que pertence aos sacos de algodão que serão acordados daqui a muitos anos. Estamos em sobressalto: há meses o romancista paralisou sua pena. As novelas com duelos, raptos, frades e celas, congelaram-se entre o tinteiro e a folha. Hoje ele apenas murmura pensamentos em versos. Ouvimos da última vez o grito na pouca luminosidade da lua:

                                 - Eu choro sem remédio a luz perdida

                                   Bem mais feliz és tu, que vês o sol!

                                 

Senti soprar no ombro esquerdo o arrepio.  Os que estavam sentados sobre as malas, olharam o mar como náufrago que vislumbra ao longe o barco.  Estávamos enfileirados e atentos quando o bico da pena passou sobre nossas cabeças e levou apenas dois de nós.  Ouvimos em seguida o estampido do tiro.

 

  

NOITES DE INSÔNIA

 

Já não sabemos quando é noite ou dia.  Não sei como foi possível, mas a carta chegou. Diz a carta que o escritor já não mora na casa e os livros estão todos empilhados em caixotes na sala de leitura. Depois do barulho do tiro, desceu sobre nós um mar de ébano e nunca mais o brilho da lua.  Sinto as mãos, não mais as vejo. Nós que já tínhamos sido delineados pelo clarão do candeeiro ficamos assim entre a fronteira e o limbo. Por estarmos vivos apontamos a palma da mão aos céus a espera da gota de tinta que nos libertará. Decidimos permanecer juntos.

 

 

O BEM E O MAL

 

Os sacos de algodão empilhamos todos no canto do muro. Para eles não há esperança, mas nós exigimos nossas próprias estórias. Do outro lado, os personagens que habitam os livros estão reunidos à frente da casa e nos planejam a  fuga.  São personagens biográficos, feitos de realidade e fantasia. Só eles conseguem a comunicação por carta, os outros vivem a ociosidade de suas estórias.  Na casa não há mais mobília, risos, cheiro de frituras. Há anos só o vento tece o ranger das portas, e não ritmiza o relógio na parede da sala. O assoalho solto confronta a luz da lua. Eles tecem no escuro a ponte de cordas que nos conduzirá à casa. O rapaz está parado do outro lado da ponte nos acena e grita:

                                        - Todo amor, acreditem, é de salvação!

                                     

Reconheço a roupa, o cabelo, o riso. É Simão Botelho de Amor de Perdição. Sim é Simão, o degredado de Lisboa que nos aponta a casa.  A casa?  É clarão em tocha a iluminar caminho. O brilho fulvo do fogo cobre rápido o chão e toma as janelas.  Ouço o barulho trôpego dos pés que invadem a ponte e buscam ultrapassar a linha. Por breve instante penso na urgência necessária do fogo para clarear a trilha. As paredes se estreitam quando passamos e a fumaça nos sufoca. O barulho agora se mescla ao ruído do tombo da madeira e o desabar do teto.  Quantos passos ainda precisamos para alcançar a escada que conduz à rua?

Finalmente estamos amontoados nos treze degraus da entrada, sujos e ofegantes sob a claridade do dia. O sol se estende sobre nossas cabeças e a brisa beija cabelo e fuligem.  Os personagens das estórias voltaram aos livros, mas nós, oceano de estátuas sobre a escada não sabemos em que direção sopra o vento de nossas vidas. O redemoinha avança sobre o primeiro degrau e nos alcança. Sinto as ondas derrubando as dunas, o vento forte nos espalhando sobre o que restou da casa.  Somos ferro, pedra, poeira e pó.  Sopro divino a remover cinzas.

                               

 

 

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O POÇO DOS DESEJOS

 

 

Dedicado a Lucas A.

 

 

 

 

 

“Aquele que segue o caminho do guerreiro, não visa somente a vitória, e sim esclarecer a vida e suas peculiaridades.

Deve-se sempre cultivar e aperfeiçoar, traçando a meta, na evolução de si mesmo, descobrindo e definindo seu bushido, ou seja, seu caminho de volta."

Tenzen Ito (Séc. XVII)

 

 

 

 

O jovem Samurai Yuzo completava naquele dia dezesseis anos. Olhou pela janela do Castelo Daimyo e avistou a imensa paisagem verde e as montanhas de Kobe que contornavam a paisagem da manhã. O menino  guerreiro habitava a torre central e mais alta da residência aonde se instalavam os cavaleiros cujo ofício e meta de vida era a defesa do Clã. A luz em forma de espada atravessava o corredor do quarto, o que denunciava que há muitas horas o dia amanhecera. O Silêncio nos alojamentos que ladeavam o quarto era grito aos ouvidos: Um Samurai só se entrega ao sono da morte.

 

Enquanto todos os jovens soldados espalhavam-se entre os jardins, templos e ruelas, Yuzo detinha-se diante do reflexo de seu rosto no prato de água sobre a mesa de pedra. Afundou as mãos na água e as trouxe ao rosto. As gotas desciam dos dedos em movimento rápido e sentiu a umidade fria o despertando para o dia. Há semanas uma voz interior o incomodava. Há dias os rituais do templo se apresentavam sem as cores habituais do arco-íris. Não havia mais sabor no arroz cozido, não havia nenhum sentido na disciplina dos exercícios de guerra. Para ele todas as chamas da casa iluminavam unicamente a porta do calabouço aonde eram guardadas as provisões de inverno.

 

O rapaz desceu as escadas estreitas aonde a luz ia findando-se à medida que avançava. O menino Samurai não soube quanto tempo esteve sentado nos degraus gelados do subsolo do castelo. As pupilas se misturavam ao escuro e acostumadas à pouca luz lhe davam a nítida impressão que este era seu real habitat. Olhou sobre os ombros a pequena abertura na parede perto do teto e lá fora estava o caminho das nuvens. A estreita porção do céu oferecia uma nesga de luz ao quarto escuro. O jovem continuava sentado na base alta dos degraus e as pernas balançando frente à parede de pedra. Com o arrastar das horas já não via a luz da manhã. Ergueu os olhos sobre os ombros e descobriu na pequena abertura a pouca luminosidade da lua. A voz que lhe vinha do peito era um uivo de lobo em noite de lua. Sentia o sangue descendo em abundância sob a armadura, mas o Jovem Yuzo não sabia o tamanho da espada que o cortara. As lembranças estavam se tornando branquinhas como areia entre os dedos e distante como um canto de infância. Um novelo embaraçado de pensamentos e sentimentos lhe contornava a alma e o arrastavam para o fundo. O rapaz sentia-se preso entre os degraus de pedras e o brilho da lua.

 

Deitado sobre o braço direito, tendo o esquerdo  sobre a testa, viu na pequena luminosidade o inseto rodopiando a estreita janela. A pequena borboleta dava voltas em torno de si como um beija-flor em movimento. O menino olhou demoradamente o bailado da borboleta. Seria uma borboleta ou um grande inseto de luz perdido do grupo? O bichinho alado entrou no calabouço e percorreu os sacos de mantimentos. Passou sobre a cabeça do jovem, rodopiou-lhe os ombros. Yuzo levantou-se rápido tentando alcançar o que era realmente uma borboleta luminosa. O animal inquieto avançou sobre os degraus estreitos que conduziam à saída do Depósito de alimentos. O rapaz corria agora atrás da borboleta pelos corredores do palácio. O inseto corria entre as árvores do Jardim e o jovem guerreiro esqueceu-se da ferida e do sangue que lhe encharcara as roupas durante todo o dia. A branda luminosidade da lua mesclava com a neblina da madrugada. O menino caminhava devagar, pois que já não via a borboleta e nem mesmo as árvores. A luz do sol chegava entre a vegetação da planície, vinda lá das altas montanhas que contornavam o lugar. A luz em forma de espada terminava para Yuzo em um poço de pedra. O menino lembrou-se da estória do poço que seu avô sempre contava à Hora do Chá. Ali estava O Poço dos Desejos dos primeiros Samurais. Há muitos anos o Imperador mandara cobrir o poço sem água, pois que com o passar dos anos servira apenas de berço às aves mortas e meninos desatentos. O jovem aproximou-se do Poço e sentiu a serenidade úmida da água em sua imagem refletida. A palidez do rosto denunciava a falta de alimentação e a tristeza. Deteve-se por alguns instantes diante do reflexo que balançava lentamente entre o contorno das pedras. O avô contara que os primeiros Guerreiros Samurais quando dirigiam-se para uma grande batalha olhavam, antes nas águas do poço, sua imagem refletida. Se não conseguissem visualizar o reflexo seria o caminho inevitável da morte o que era tão honrado quanto a volta vitoriosa. O Soldado Samurai lançava então sobre as águas um desejo de que qualquer que fosse o seu destino haveria de ser coberto pelo manto da Honra. Buscava pela segunda vez a imagem. Na verdade, explicava o velho avô, o poço refletia o destino da alma de um guerreiro, pois que a Morte não é eterna, a Honra sim. O menino olhou mais uma vez seu rosto na água. O brilho da luz do sol em forma de espada estendia-se verticalmente sobre os ombros e a armadura ganhara uma cor dourada. Seu rosto roubara do arco-íris o tom róseo e seus cabelos desciam negros e brilhantes sobre a armadura de guerra. O menino avançou a ponta dos dedos em direção ao poço de pedra na tentativa de alcançar a imagem do valente guerreiro.

 

 

– É você Yuzo!

 

Voltou o corpo em busca da voz do velho avô.  Ouviu o silêncio entre as árvores e viu a neblina se desfazendo entre as primeiras luzes do dia. O menino Samurai olhou o castelo Daimyo e a imensa planície verde ao seu redor. A voz interna não era mais um lamento, e decidiu chegar à torre mais alta antes do despertar dos soldados no alojamento. Um jovem e honrado Samurai disparou entre as árvores do jardim do castelo de volta ao seu exército. Muitas batalhas ainda travaria o rapaz até caminhar com a espada deitada sobre os braços e entregá-la aquele que criara as planícies, rios e montanhas.

 

 

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JOÃO E ADELINA

 

 

 

 

“O tempo acaba o ano, o mês e a hora

 A força, a arte, a manha , a fortaleza:

 O tempo acaba a fama e a riqueza

 O tempo o mesmo tempo de si chora:

 
 O tempo busca e acaba onde mora
 Qualquer ingratidão, qualquer dureza
 Mas não pode acabar minha tristeza
 Enquanto não fizerdes vós, Senhora.
 
 O Tempo claro o dia torna escuro
 E o mais ledo prazer em choro triste; 
 O tempo, a tempestade em grão bonança ...”
 Luís de Camões
 
 
 

 

Conheci Adelina beirando os oitenta anos e os olhos azuis eram duas pedrinhas embaçadas pela catarata. Os cabelos longos se perdiam numa extensa trança rala, que descia aonde terminava o lenço sobre a cabeça. Adelina, já curvada pelo peso dos anos, quase não sorria. Era só uma velhinha. Para nós, os outros, precisava apenas de uma cama encostada na parede onde prendesse as fotos em marrom e bege. Fotos com estórias cheias de risos e lágrimas. A estória de Adelina nascia de um grande mosaico colorido que fui formando ao longo dos anos. Isto não é conversa pra criança, era o que eu ouvia enquanto a porta ia avançando contra o meu nariz. Dele tenho apenas o nome. João Ataíde era apenas um nome perdido nas bocas das tias. A foto pregada na parede da cama mostrava um homem, de média estatura, segurando um livro grosso com papeis saindo pelas páginas. A fotografia retratava um professor de escola primária do norte de Portugal. Eu olhava do outro lado da cama o homem incomodado sob a luz do sol. Minha avó Constância dizia que o pai atravessara o oceano em busca de melhores dias em terras brasileiras. Encontrara nas dunas de areia do Espírito Santo a brasileira de olhos azuis. Os fatos que me chegaram depois vieram embaralhados. Sei que João e Adelina tiveram quatro filhos e que a moça da praia não foi o modelo de mãe e esposa que ele sonhara. Os portugueses que aqui aportaram, no fim do século XIX, eram dotados de tino comercial. Todos os Joaquins, Manuéis e Antônios de minha infância possuíam prósperas quitandas ou padarias. João Ataíde era um homem voltado para os livros; varava as madrugadas sob luz da lamparina. Lia e anotava incessantemente. A esposa não passara das carteiras do grupo escolar e não se seduzia por livros com estórias transbordando dentro. Assim foi formando-se, pela erosão dos dias, um imenso buraco entre os dois. De um lado Adelina e seu cesto de peixes, do outro João e os poemas dos livros. Hoje, entendo porque as mulheres da família apontavam Adelina como o avesso do pano. Todas do álbum de fotografia tiveram muitos filhos e enfrentaram altivas os problemas, que entram pela porta com a filharada e pouco dinheiro. Todas permaneceram de pé, até o último ato.

Um dia, a moça da praia olhou o professor do outro lado da sala. Viu apenas um terno puído com um homem franzino. O som lusitano da voz já não lhe era canção ao vento. Sonhara com um português comerciante e uma mesa farta. Cortinas que voassem em rendas pela janela e mais que peixe miúdo e guando no prato sobre a mesa. Distribuiu os filhos entre os vizinhos, prendeu os cabelos fartos numa trança bonita e bateu a porta. Neste ponto perdemos João Ataíde. Nunca perguntei às tias o que ele fez da vida. Voltou para o Porto? Chorou as tardes na praia? Continuou lendo Camões sob a luz da lamparina? Na verdade, perdemos João e Adelina. Esta só apareceu diante dos filhos muitos anos depois do fim da Segunda Guerra. Um dia Constância, a filha, abriu a porta da casa e lá estava um cesto vazio. Em pé, ao lado do cesto, uma senhora de olhos azuis.

Quando conheci Adelina, beirando os oitenta anos, já se chamava Dindinha, usava xale e arrastava um chinelo grande. Dizia meu nome com muitos “is” no meio e falava que eu devia ser professora. Ensinar a ler − dizia, era coisa de gente abençoada, gente de alma boa. Nós olhávamos juntas o jovem avô da fotografia. Acho que ela pensava que aquele imenso buraco na sala poderia nunca ter crescido. Começamos a aprender pela dor e pelo que perdemos. O amor de João e Adelina não morreu, mudou-se para algum lugar neste universo imenso. Acredito, procurando na vastidão do céu pontilhado de estrelas, que um dia ela vai encontrá-lo no pátio da escola e estender-lhe um velho poema português. O rapaz ficará comovido com o interesse da jovem por literatura lusa e trocarão idéias afins.

Aprendemos também pelo riso que vem junto com o que reconstruímos.

 

 

 

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                                         RECEITA DE BOLO 

 

 

 

O que nos resta agora, atravessadas todas as manhãs de nossa infância, com certeza é o orgulho de termos pertencido àquela família, Afinal, ele era o único médico a quilômetros dali e éramos seus. Nas manhãs de domingo enfileirávamos em direção à igreja, a pé, em jejum, obedientes e limpos. Sempre.

 

Nós o seguíamos a curta distância, minha mãe em solidariedade aos meus passos curtos dava-me a mão. À frente ia um homem que buscava o sentido da vida, não era de grande estatura, os olhos claros escondiam-se sob as lentes grossas. Anos mais tarde, na escola, descobri muitos meninos com o seu nome. Ele explicava, às refeições, que as mães admiravam a sonoridade do nome. O Dr. Bernardo Benson era um ideal de futuro. Acreditava na verdade acima de tudo e no respeito aos homens. Os habitantes do Vale do Rio Verde confiavam-lhe o corpo e às vezes a alma. Algumas consultas eram dadas nos degraus da escadaria da Igreja, sob chapéus e sombrinhas. Era comum sermos acordados de madrugadas, sob as estrelas ou chuva. O sobrado amarelo entre a Rua do Mercado e a Casa de Pães era de quase uso público. A casa do Dr. Benson passou com o tempo a ser chamada a Casa do Bem.

 

Foi quando naquela manhã ele nos trouxe o Jipe. Parou ali na entrada da casa e a desordem do dia estava formada. Dali em diante, disputávamos quem de nós acompanharia o médico nas visitas domiciliares. O vento no nariz, no subir e descer das ruas de ladeira, era nossa secreta alegria.

 

Até que choveu na linda claridade do Vale. Passou a ser rotina o Jipe, tal qual menina birrenta, cruzar os braços na subida da matriz.

 

Não vou! não vou! não vou! - engasgava. Bem ali? Nós que adorávamos ser apontados chegando juntos à missa. As birras continuaram: Na porta da escola, nas fazendas distantes, nas claras manhãs de sol e ainda: era inútil acordá-lo em madrugadas de chuva.

 

Voltamos a fazer a pé o trajeto à Igreja. Eu olhava para trás, na garagem, achava grande e injusto seu orgulho pagão, mas não conseguia odiar quem me dera tanto prazer. Até que meu pai nos comunicou solenemente que iria vendê-lo.

 

Vieram os interessados.

 

Eu cruzava a sala em direção à cozinha. Lá perto da janela estava o padeiro. Ele falava e sorria ao mesmo tempo, dizia não ter medo de nada. Foi quando ouvi:

 

Não se preocupe, esse Jipe é espetacular! Nunca apresentou problema de motor, nunca me deixou na mão, máquina como esta o senhor não encontra por aí.

 

Criou-se ali uma linha turva entre o padeiro, o médico e eu. Eu que ainda tinha fresco sob a língua o gosto das doses diárias de respeito, solidariedade e honestidade.

 

−  Pai, como você pode dizer isso?

 

Não sei se era ainda o meu grito ou de minha mãe:

 

Paula Benson, vá já prá cozinha!

 

Vieram os cascudos, muitos. Muito mais dolorido foi entender a razão deles. Meu nome nunca soara tão grave e feio, tão árido. É bem verdade que eu deveria me chamar Magna Suene, por sugestão de uma tia, mas graças ao atraso do correio o nome só pôde ser dado à boneca que acompanhara a carta. Acho que até ele soaria mais brando naquele momento.

 

Minha mãe era uma mulher simpática, destas que não se esforçam em ser, pois o sorriso se abre sincero sobre o rosto limpo. Fazia doces e ensinava o ofício de construí-los na varanda da casa. No arrastar das tardes eu assistia as aulas só para ouvir suas explicações pausadas e observar como prendia os dedos na ponta do avental sobre a saia cumprida. Dizia sempre:

 

Aqui estão todos os ingredientes. O segredo é misturá-los bem e na ordem certa.

 

Aos poucos fui assimilando a sabedoria materna. Os ingredientes enfileirados sobre a mesa, tal qual receita de bolo, misturar na ordem e na quantidade certa, sem ir além do sal e do mel. Às vezes rápido, por outras sem pressa.

 

Do livro Os Anjos de Prata (Antologia de contos e crónicas) - ALL PRINT Editora, 2007, São Paulo, Brasil, pp. 63-64.

 

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PAISAGEM DE RIO

 

 

 

 

 Quando aproximava-se a estação de chuvas, as mulheres mantinham por toda  noite o lampião aceso sobre a mesa e os ouvidos alerta  aos ruídos externos. Das casas que costeavam as margens a maioria não resistia além dos primeiros ventos.  Mulheres  e crianças barreiravam-se em pequenos grupos.

Constância abriu a porta  da  cozinha e os recebeu. Os meninos tinham os olhos atentos e lama nos pés. Os cabelos ralos cheiravam à fumaça e ainda que aquela fosse a única casa de tijolo por perto, vigiavam.

Abandonavam a casa ao primeiro sinal do dia, deixavam limpos os copos e farelos de pães sobre a mesa. O cheiro doce de chá sustentava os quatros marcos da casa. As mulheres murmuravam as orações matinais pela sobrevivência. Saíam sem pressa, recebendo na porta um dia longo e úmido. As noites seguiam-se iguais como os pingos que deslizavam a soleira da casa. As famílias abrigavam-se, também, durante o dia. As mulheres faziam pães e os arrumavam no forno lado a lado.

Os meninos passavam a maior parte do tempo espreitando pelas falhas da madeira da janela, olhavam o rio. O rio era ruidoso e escuro e não lhes pertencia mais.

Se até para Noé quietou-se um dia o dilúvio, por que não para as famílias que habitavam as margens do Rio Verde? Os meninos desceram as escadas sem pressa , espalhando-se em bandos.

Foram-se.

Constância lavou a casa e todas as roupas que nela existia. As aves retornavam às árvores em respeitoso  silêncio  à fala do rio. Esticou sobre a mesa a tela feita de resina e fibra. A moça olhou da janela: sobre as águas descia um chinelo de criança. Desceu os dedos no pouco trigo que restava na lata e o espalhou sobre a tela branca. Recolheu da gaveta os pincéis  e tocou com os dedos  a tinta  sobre o pires .Constância acreditou no que dizia o ruído de fora.  O rio aos poucos não dava mais medo. O tigre, agora mergulhado em  gato manso, se preparava para dormir em cinzas. O tigre mergulhou de vez em águas.

 

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CARVÃO EM FUNDO BRANCO

 

 

                                                                                 

Estou procurando a cor

             onde ela não vai.

                                                                        

 

 

Nós, cumpre esclarecer, éramos algumas dezenas de meninos e meninas, filhos de carvoeiros, aos quais letras e números não haviam sido apresentados. Dividíamos os meses entre os secos e os que exageradamente nos mantinham em casa.  O mundo entre o quintal e o outro lado do rio. Quando percebemos os movimentos de tijolos e madeiras, pressentimos que o que fosse ali erguido nos seria destinado. Mantivemo-nos em sentinela diária, num revezamento quase militar.

Quando por fim retiram os limites de proteção e vieram todas aquelas pessoas estranhas que escolhendo os verbos nos disseram que a casa amarela, como um grande fruto entre as árvores, nos pertencia; sentimos desconfiança. Entramos pela primeira vez na escola em fila, as mesas estavam alinhadas e limpas. Ana passou a palma da mão sobre a que estava a sua frente, muitas vezes. Puxei-lhe a ponta do vestido com força. Caminhávamos pela sala em grupos, o chinelo não reconhecia o assoalho de madeira. Nos dias que antecederam o início letivo, nos dirigíamos à escola todas as manhãs. Sentados nos degraus do portão, como gatos que arqueando a coluna e deslizando o pêlo roçam as pernas, pedíamos a intimidade da posse. As portas mantinham-se fechadas.

No primeiro dia de aula, acordados saímos aos tropeços. Até então o desconhecido estava na outra margem do rio, agora o tínhamos ali a alguns passos de casa.

Estávamos aquele emaranhado de curiosos no corredor, quando nos separaram. Do fundo da outra sala, onde foi colocada, podia buscá-la a todo o momento. Ela esticou os braços sobre a mesa e pousou o queixo entre eles. Acompanhava com os olhos as listras irregulares da madeira e o cheiro era-lhe pura correnteza. Não se abrira ao quadro negro, ao arranjo de flores sobre a mesa ou ao bordado do vestido. Seus olhos buscavam os riscos da madeira. Soou-me o alarme. Levantei-me rápido e caminhei à sala. Ana mantinha-se na mesma posição, toquei-lhe os ombros. Nada lhe disse e voltei ao meu lugar. Uma vez de volta tentei acompanhar o meu próprio desenho na madeira. Compreendi por que ela poderia ficar lá, dentro dele. A quantos de nós o risco chamara a atenção? Ana não tinha o caminho de volta.

 

Estamos separados do instante seguinte pelo desconhecido, e dele necessitamos. Nenhum de nós estava preparado para  a caixa de lápis de cor. Nós que tínhamos as unhas sombreadas de  carvão, uma folha em branco, e a pequena caixa era da criação o desafio. Dedicamo-nos ao que era até então impossível: flores, árvores, nuvens, e rios. Eles nasciam  fartos e nítidos como se Deus nos compartilhasse o dom.

 

Lembrei-me de Ana. Em pé no meio da sala, procurei-a. Ela juntara todos os lápis na mão e num movimento único riscava a folha. Riscava com força, indo e vindo.                  

_ Alice, volta!

 

 

Não poderia. Lancei-me ao mar para ir buscá-la. Atravessei as duas portas e parei em pé diante dela. O conjunto de cores formava um ninho de serpentes coloridas e por breve instante quase me aliei a seu imenso abismo.

Segurei-lhe o pulso.

Para nós, meninos ribeirinhos, os dias que se seguiram foram de descoberta, para Ana foram dias de cego em terra estranha. Não aceitávamos deixar os lápis na escola, ela os devolvia como sobrevivente que perde o alimento.   De volta a casa punha a cartilha sobre o fogão e dirigia-se ao fundo do quintal. Parava frente à parede caiada como se encontrasse uma porta na parede branca. Com um pedaço de carvão riscava sem força um risco fino. As figuras flutuavam no branco em formas irregulares. Às vezes eu as identificava ou as via perderem-se em outras. Diariamente, após as aulas dirigia-se à parede no fundo da casa. Passamos a viver as tardes ali. Sentava-me à curta distância, sem interrompê-la. Penteava-lhe os cabelos, trocava-lhe o vestido com cuidado. Em suas pausas curtas dava-lhe alimento e água. Quando o sol incomodava abria sobre nossos ombros a sombrinha.

 

Guardo daqueles dias esta fotografia aérea: uma menina segurando um guarda-sol, um banco de madeira, outra menina sob o guarda-sol riscando a carvão uma parede cada vez mais escura. Nunca permiti que esta parte da casa fosse pintada, com o tempo, para nós, era um grande pano escuro. Para Ana as figuras estavam lado a lado, com começo e fim. Só ela ainda via sob o carvão o fundo branco. Nos fins de tarde, ensaboava-lhe as mãos com força até sumir-lhe dos dedos o sombreado.

 

 

Nasci incumbida de guiar a manada na grande travessia do rio. Éramos  nós duas na casa,  da mãe restara apenas a fotografia desbotada na cristaleira da sala. Aprendemos cedo a usar o fogão e o forno.  Meu pai não falava em casar-se de novo e nossa era aquela casa. Saía para o trabalho na carvoaria sob um céu cheio de estrelas, voltava, a passos tortos, com o barulho dos baldes rolando pelo chão de cimento. Caiava a casa após a estação de chuvas, mas a meu pedido, nunca a parede no fundo da cozinha.

 

 

Em Outubro Ana desinteressou-se dos livros, passei a trazer-lhe escondidos alguns lápis de cor. Já não se interessava por eles também, usava ainda os pedaços de carvão na parede escura. Passei a acordá-la no meio da noite, para que tivesse sono pela manhã e eu pudesse ir à escola.

 

Um dia deparei-me com todas as nossas coisas amontoadas no catre no canto da sala. Ana calçava sapatos e meias e tinha o cabelo penteado muito diferente do jeito que eu cuidava-lhe. Não temi por mim, mas como tirar-lhe a casa, o fogão, a parede escura? Pela primeira vez eu a vi muito maior que eu. Ela dava-me aquela obediência de presente para que eu não tivesse medo. Cruzei o portão, e fui perdendo a escola, o rio, a mata que corria atrás dele. Olhei para trás o tanto que me foi possível. Ela batia compassadamente o pé no assoalho do carro.

 

 

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EXTREMA FIDELIDADE

 

 

 

Tente acompanhar agora o ruído do relógio, não há como evitar que os ponteiros caminhem, mas vem o dia que, por se ter provado o fruto, a gente se descobre nu, mas há os antes e foram estes:”

Do conto da autora “Liberdade Condicional

 

 

Era o seu sexto aniversário. O ruído da louça e o cheiro de bolo o trouxeram à cozinha, expiou por detrás da cortina. Puxaram-lhe. Vieram as ordens: Tomar banho, lavar as orelhas, cortar as unhas. Não suje a roupa. Senta aqui. Ah, tira a mão do bolo.

 

− Como você está bonito!

 

Chegaram os tios, vieram os primos. Veio aquele presente comprido, outros pacotes. Ah, aquele presente enorme... aquele presente. O tio abriu-o bem debaixo do seu nariz:

 

Cuide dele, não deixe ninguém riscar.

 

Era um espelho. Sobre ele uma gravura chinesa. O menino passou a ser parte da gravura. Veio o parabéns, o sopro, os abraços. O menino na gravura, grudado nela. O espelho colocado no canto da sala reflectia seus olhos grandes. Duplicou a música, triplicou os balões, eternizou o “Viva!”

 

Cuide bem dele.

 

O dia seguinte acordou-o cedo. Correu à sala. Rastros de bolos no espelho.

Não viu.

A gravura quase branca sobre o vidro era tão...

Viu-as.

Moscas passeavam tranquilamente por seu território. Reflectiam as patas sobre o desenho claro. O guardião do templo saiu à porta, olhou os campos. A respiração foi freando, freando, muitas vezes. Desceu-lhe o suor dos grandes guerreiros. Correu à porta da cozinha, puxou a vassoura. Ergueu sua espada por sobre a cabeça e disparou de volta. Antecipando toda a força do homem que um dia haveria de ser, arremessou-a em direcção ao inimigo.

 

O barulho dos cacos acordou a casa, o barulho da casa sacudiu-lhe os ombros.

 

 

 

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JURIS ET DE JURE

 

 

“O mar , asseguram os poetas, guarda o segredo dos rios,  estes em obediência cega entregam-se à sua imensidão”.

Do conto “Afluência” - Editora Fundo de gaveta

                                                                                         

  

As fotos envelhecidas em marrom e bege, espalhadas sobre os joelhos e o vestido, eram o que eu conhecida dele. As imagens não eram nítidas, mas podia vê-lo sentado na varanda da casa enquanto os olhos corriam além da curva dos dias. Os dedos magros torciam a palha do milho num movimento infinito das mãos. Em que país moravam suas lembranças ?

Os primeiros anos de infância já  denunciavam o fascínio pelas estórias que os mais velhos contavam. Elas abriam-se à minha frente, como se as visse da janela do quarto. As casas não possuíam luz elétrica, e as estradas de poeira e pedra levavam sempre à casa de Seu Bento. Era homem de pouca leitura, o suficiente para ler a Bíblia pela manhã enquanto os filhos dormiam. Lia em voz alta como se quisesse que as palavras lhes chegassem ao sono. A casa cheirava a café e salmo.

Assim como um quebra-cabeça sobre a mesa, eu reconstituía uma casa e uma família que não vivera. Aninhava-me nas cobertas, entre os meninos, como se fosse possível estar ao lado de pai e tias. Podia ouvir por que Deus fez céus e terra e deu aos homens um coração bom. Sentava à mesa e recebia também o pão de aveia, dando graças ao Senhor. Tudo me era possível à medida que retirava da caixa de sapato as fotografias.

As pessoas chegavam cedo ou vinham nos fins de tarde. Havia sempre cadeiras na entrada da casa como se também fosse dele o ofício da espera. Com a mesma sabedoria que Deus deu a Salomão, decidia quantas sacas de feijão seriam pagas e se as cabras deveriam ficar aquém ou depois das cercas. Se dizia que o casamento era devido, cevavam-se os porcos e bordavam-se as toalhas. Como as estradas ainda eram trilhas naquelas terras de Minas e não havia pontes para cortar caminhos, os vizinhos entregavam seus conflitos à Seu Bento. Ele os ouvia pelo tempo que elas  julgavam  necessário .  Alguns, por vez, alteravam a voz; outros , em tom resignado, diziam confiar em Deus. Após um breve suspiro, ele arqueava as sobrancelhas e definia novos caminhos às desavenças. As pessoas recebiam a decisão como se procurassem em terreno árido água fresca e encontrando sorviam o reflexo em água doce como recompensa Assim, compunham-se os conflitos e arrastavam-se os dias deste lado do rio.

Seu Bento tivera muitas filhas mas apenas um filho homem. O menino desde cedo se entendia mais com os cavalos e vacas do que com a natureza das mulheres. Gostava mais do curral  que da sala da casa. Acompanhava a prenhez das éguas e os partos mais difíceis até o apagar das estrelas.  Costurava asas e cortes profundos, acalmava e curava dores. Queria ser Veterinário.

À medida que os anos corriam,  as pessoas viam nele a continuação do pai, e assim esperavam que se tornasse o Juiz da cidade.Um dia a mãe entregou-lhe a melhor camisa, ainda morna da lisura do ferro, engraxou-lhe as botas e entre fardos de farinha, viu afastarem-se : a casa, o curral, as árvores pequenas que costeavam o rio e ainda as pedras que se alinhavam cada vez mais rápido à passagem do carro. Desde então, quando retornava nos feriados prolongados, corria primeiro ao curral e ali passava o melhor das horas. Assim foi na primeira vez e nas que se seguiram. Aos poucos passou a observar o curral das sombras do quintal, depois, da janela da cozinha. Os anos seguintes o encontraram olhando apenas da janela do quarto. Não mais.

A cidade transformou suas trilhas em estradas que se ladearam em casas e nas casas os homens, no acender dos lampiões, guardavam seus dias como pães dormidos em latas sobre o aparador. João Deodato formou-se em Direito.

Era homem de pouca conversa, se bem me lembro. Nem quando me entregara naquela manhã o pacote:

− Ana, é seu.  Disse monossilábico.

Esperava mais que o pacote estendido. Retirei da caixa a boneca muito loira. Tal qual a moça do filme dei-lhe o nome de Miss Molly. Usava um vestido armado e um decote com rendas. O cabelo preso ressaltava-lhe o azul dos olhos. Fôramos juntos ao cinema e ele entendera o meu encanto com a heroína das diligências do Velho Oeste. Lembrara-se disso ao comprar a boneca. Era seu jeito de abraçar a filha.

João Deodato deu a todos o destino que lhe reservaram. Aos trinta anos era Juiz na cidade vizinha. Nunca entendi porque não trabalhava no fórum perto de casa. Nem porque minha mãe dizia que aqui ele era suspeito.  Suspeito não era um desses homens que mal se vê o rosto e que se esconde atrás dos postes? Hoje, retirando da caixa todas as fotografias , vejo apenas um homem incomodado no terno escuro, como se os sapatos lhe apertassem os pés diuturnamente.

Todas as tardes eu sentava com Miss Molly no meio da escada e a cena que via era sempre a mesma. As mulheres aguardavam aflitas o telefone tocar. Ao primeiro sinal corriam do andar de cima ou da cozinha em pavorosa. Às vezes repetiam em eco uma das outras, aglomeradas ao redor do telefone:

O juiz saiu do Fórum!!!

O telefone desligava. Elas aguardavam ansiosas a nova chamada.

Recomeçava o coro:

O Juiz entrou no bar!!!

Sentavam-se espalhadas pelas poltronas da sala. Novo telefonema.

− O Juiz terminou uma garrafa!

Agora em aflição:

O juiz subiu na mesa!

Hora de pegar o carro da família e correr para a cidade vizinha. À tardinha entravam arrastando o homem. Um homem desabado no tapete da sala. Quando saíam, eu o cobria com a colcha da cama e colocava sob a cabeça a almofada. Na manhã seguinte encontrava-o novamente recomposto na cadeira da cozinha. Os gestos eram curtos, tomava apenas o café escuro.

Um dia, uma das tias encontrou-me folheando os livros na estante da sala e comentou:

Essa menina é muito inteligente, vai ser uma excelente professora!
Ele olhou-me do fundo dos olhos e disse:

Só se você quiser.

Lembro-me sempre desta determinação tardia que, por não lhe ser mais útil, ele me presenteava. Fiz um curso técnico de Botânica e abri uma floricultura no centro ao lado do cinema. Há no fundo uma sala de experimentos e estudos. Cultivam-se ali variadas espécies de Orquídeas.

 

In Contos para Viagem − Volume dois, Editora Arte Literária, São Paulo, 2006, pp..61-64.

(Prémio Contos para Viagem2006)

 

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PONTE SOBRE ALMODÓVAR

 

 

 

 

 

“Às vezes vejo as fotografias impressas na parede da casa. Foto em preto e branco sem foco, feito neblina de inverno.”

Do Conto ainda em gestação “Entre a luz e a sombra.”.

 

Apertou com força o botão do elevador. Décimo quinto andar? Optou mais que depressa pela escada. Quinze minutos apenas a separavam do retorno ao carro. Localizar o CD, baixar Download, um chuveiro rápido, pegar as anotações, desligar o computador. Chegou ofegante ao último degrau. Passos rápidos à porta, rodou a maçaneta e esticou os dedos ao interruptor. Não fez-se luz. No centro da Rosa dos Ventos, em asana sobre a montanha, equilibrava-se em uma das pernas a ave Arqueopterix. As asas estendidas ensaiavam lentamente o movimento. Do bico escorria um líquido escuro e os olhos cor de guaraná tentavam trazê-la ao imã da partida. A mulher fechou vagarosamente a porta atrás de si. O coração reiniciou o cansaço da subida. Olhou as vidraças abertas, as folhas como casca de árvores se espalhando pela casa.

 

Sob a asa esquerda estava o menino. Cabelos cacheados quase ruivos, o sono dos justos. Sob a outra asa, outros dois brincavam no ninho de penas coloridas. Sobre o dorso dinossáurico uma mulher costurava. Imersa na tarefa, nada via. Tentou buscar os olhos da mulher num contato quase telepático. Um simples olhar poderia salvá-los. Por breve instante a mulher deitou ao lado a costura, e levantou do colo o livro. Absorveu-se mais ainda no texto e não olhou ao redor.

A ave sustentava o olhar enigmático. Limpou o bico no chão da sala duas vezes. Retomou a altivez da partida. Pensou em gritar à mulher que agora lia:

 

Você, por favor, pegue os meninos e desça!

 

A mulher sorriu calmamente:

 

O vento? Não se preocupe, é pouco.

 

Deu alguns passos às portas de vidro que conduziam à varanda, na tentativa de fechá-las. A imensa ave lançou o grasno rouco na direção do teto e balançou, agora com força, as asas. Curvou o corpo para esquerda e arremessou-se em direção à tarde que sangrava luz. O barulho dos vidros estilhaçando-se no chão da sala estremeceu-lhe os tímpanos. A mulher sobre o dorso do animal, dobrou a página do livro.

 

Sobre a Rosa dos Ventos apenas o vermelho óxido das folhas e vidros como diamantes finos. Das paredes nasciam lentamente as vibrações da música. As notas ásperas, o avesso da harmonia. Iniciou-se A Grande Fuga, Ludwig Van Bethoven. 

                                                              

 

 

 

 

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      Luísa Ataíde nasceu no Rio de Janeiro em 1957.Em 1975, foi viver para Brasília, onde se casou e teve três filhos. Formou-se em Direito.   Actualmente é funcionária do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios. Iniciou o estudo da pintura em 2004. Recebeu em 2005 o prémio Justiça e Cidadania  atribuído pelo próprio Tribunal. Participou de várias exposições entre elas “Coisas da Arte”, no Teatro Nacional de Brasília. Na literatura, participou do projecto Contos para Viagem/2006. Participou do Festival de Teatro SESC/ 2002 e em inúmeras oficinas voltadas para a escrita teatral. Sempre escreveu movida por uma psicografia puramente sensorial."Não me denomino Pintora ou Escritora, não poderia, tropeço nas vírgulas, minha mão ainda pesa. Sou aprendiz, sempre.”

A autora tem três filhos, o Mateus, o Lucas e o André.

Nota: Em todos os textos da autora será mantido o grafismo da língua portuguesa, na sua vertente brasileira.

 

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