HARMONIA DO MUNDO

 

 

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CONTO

 

LUÍSA ATAÍDE

 

Luísa Ataíde nasceu em 15 de Julho em 1957, no Rio de Janeiro. Em 1975, foi viver para Brasília, onde se casou e teve três filhos. Formou-se em Direito.   Actualmente é funcionária do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios. Iniciou o estudo da pintura em 2004. Recebeu em 2005 o prémio Justiça e Cidadania  atribuído pelo próprio Tribunal. Participou de várias exposições entre elas “Coisas da Arte”, no Teatro Nacional de Brasília. Na literatura, participou do projecto Contos para Viagem/2006. Participou do Festival de Teatro SESC/ 2002 e em inúmeras oficinas voltadas para a escrita teatral. Sempre escreveu movida por uma psicografia puramente sensorial."Não me denomino Pintora ou Escritora, não poderia, tropeço nas vírgulas, minha mão ainda pesa. Sou aprendiz, sempre.

A autora tem três filhos, o Mateus, o Lucas e o André.

Nota: Em todos os textos da autora será mantido o grafismo da língua portuguesa, na sua vertente brasileira.

 

VIGIAR E ORAR (Reflexão)

SER CRIATIVO

 

POESIA:

O PENSADOR

CHUVA DE PÉROLAS

O MENINO, O VENTO E O MAR

DE NOVO O NATAL

MEMÓRIAS BRANCAS

 

CRÓNICA:

O SOLITÁRIO SENHOR FÉDOR

O ENTREGADOR DE LIVROS

CONTO:

BETELGEUSE

O EXÉRCITO DE CHIAN

AS INCERTEZAS DA COR

O DESTINO DE ANN WARD

OS SINOS DA IGREJA

DEIXAR VIR A MIM

A CAIXA

NO CORAÇÃO DE BODHISATTVA GUAN-YIN

SOBRE MARGARIDAS, ESTRELAS, GIRASSÓIS E MELANCIAS

A ARCA DE NOÉ

QUARTOS CRESCENTES

O ROUXINOL E A COTOVIA

O COMETA AZUL

OS GIRASSÓIS AZUIS

CEMITÉRIO DE ESTRELAS

O POÇO DOS DESEJOS

JOÃO E ADELINA

RECEITA DE BOLO

PAISAGEM DE RIO

CARVÃO EM FUNDO BRANCO

EXTREMA FIDELIDADE

JURIS ET DE JURI

PONTE SOBRE ALMODÓVAR

 

 

 

Outrora, bandeiras de guerra e paz eram precedidas por missivas lacradas por brasões reais: a importância vital da escrita. (...) Escritores são homens comuns, enfeitiçados, porém, pelo efeito da palavra. Edificam e destroem cidades, sopram sons e luz sobre a escuridão do nada. São os Merlins riscando as linhas da vida.

Luisa Ataíde

 

(in carvoemfundobranco.blogspot.com)

 

 

 

 

 

«Na verdade, um escritor nunca está só. Na verdade, um escritor tem a divindade nos dedos ao criar pessoas, escrever estórias e decidir destinos.»

 

Luísa Ataíde

 

 

 

 

 

BETELGEUSE, A LUMINOSA DE ÓRION 

 

 

 

A constelação de Órion apresenta a forma de um quadrilátero com as Três Marias no centro. O vértice nordeste do quadrilátero é formado pela estrela avermelhada Betelgeuse, que marca o ombro direito de Órion. O vértice sudoeste do quadrilátero é formado pela estrela azulada Rigel. Betelgeuse e Rigel são as estrelas mais brilhantes da Constelação.

 

Houve um tempo em que a Astronomia confundia-se com a Astrologia. Os mapas findavam-se em contornos retos e as estrelas, ainda pagãs, espalhadas na vastidão noturna faziam do céu um espetáculo a quem quisesse ver. Os sacerdotes da Pérsia que não eram reis, santos ou magos, pressentiram que a grandiosidade da luz simbolizava o nascimento, em algum lugar do Oriente, do rei de todos os reinos. Conta-nos o Livro Sagrado que munidos de incenso, ouro e mirra seguiram a estrela, que parou sobre a casa onde dormia o menino-Deus. Para alguns céticos, Gaspar, Melchior e Baltazar, talvez nunca tenham empreendido a viagem até Belém e a estrela, para o Evangelista, simbolizasse a fé, assim como o ouro simbolizava a riqueza, o incenso a espiritualidade e a mirra a imortalidade. Contudo, astrônomos, posteriormente, confirmaram a presença do fenômeno luminoso, à época, embora os calendários se contradigam na precisão da data. O certo é que aquela poderia ser a estrela mais brilhante da constelação de Órion e cujo brilho para realmente ser visto, necessário faz-se que fechemos os olhos e sigamos o pulsar das batidas do coração. Uma vez misturados os sentidos, poderemos ver por todos os poros do corpo, ouvir pelo êxtase das pupilas e sentir o toque acre ou doce da pele entrar pelo centro da cabeça e escorrer como rio caudaloso por todos os órgãos do corpo.

 

ESTAÇÃO DE PASSAGEM

 

Mintaka é uma das três entradas da Estação de Passagem a sítios mais distantes. As manhãs são envoltas em neblinas e uma chuva fina cai incessantemente e incomoda quando toca os ombros. São lágrimas das mulheres, as mães, cujas silhuetas desenhadas pela parca luminosidade, formam um círculo extenso que contorna o cinturão de Órion. Eles, por sua vez, chegam em pequenos grupos. São muito jovens e falam pouco ou quase nada. O véu do esquecimento deixou-lhes um vasto buraco negro na memória, contudo um rasgo pequeno deixa-lhes a última cena gravada, num vai e vem contínuo. Se levantarmos a ponta do véu a hipnose individual cai ao chão como pequenos cristais e a cena, antes fragmentada, ganha movimento e vida.

A moça olha para trás subitamente como se ouvisse o ruído forte de frenagem de pneus. Os olhos rendem-se ao pavor da luz do farol que avança em grande velocidade. O baque forte do encontro dos carros quebra o silêncio que havia em volta. Ela sente o corpo arremessado pra frente e cai. Os outros caminham ao redor e presos ao ímã de sua própria fatalidade, seguem em frente. Ela chora em demasia e se contorce de dor.

 

 

DEZEMBRO

 

Quando as luzes intermitentes do planeta anunciam a comemoração do nascimento do Cristo, as ruas vestem-se de cor e sonhos e as lojas os vendem embalados em laços coloridos. Os anjos da misericórdia sopram sobre as casas uma mistura analgésica de fraternidade, esperança e fé. Contudo, em meio ao som dos cânticos natalinos, da urgência das lojas e festas há um som abafado de dor que prende a tarja do luto como uma guirlanda negra presa à entrada das casas. De toda saudade pelas vítimas da violência urbana, dos acidentes de trânsito, das intempéries climáticas, entre as vítimas das escolhas indevidas, está o soluço forte das mães dos jovens que habitam a Constelação de Órion. Que canto lhes alegraria a alma? O que poderia interromper subitamente o punhal arremessado ao peito?

Em Mintaka, Alnilan e Alnitaka, as Três Marias do cinturão de Órion, era noite de Natal. A Estação de passagem e apoio aos jovens, que deixam bruscamente suas casas e não mais retornam, foi invadida pelo som de harpas e flautas. As vozes dos cantos gregorianos, contrariando a ordem natural da rota de mensagens, acordaram os anjos e as almas. O som veio de algum lugar do planeta, cruzou as paredes de pedras, dançou sobre planícies e rios e subiu ao céu. Os jovens chegaram às janelas dos hospitais e olharam a noite, o tabuleiro estrelado que se abria sobre suas cabeças. Os anjos trabalhadores do Cinturão de Órion ouviram o som miraculoso dos cânticos. Não havia a sombra das silhuetas no portão de entrada e a chuva fina cessara subitamente. Além da Nebulosa, além do cintilar dos pingentes de brilhantes, as mulheres dormiam. Betelgeuse, uma das luminosas da Constelação emitia seu esplendor sobre a noite escura. A estrela erguia seus raios como uma torre impera sobre um reino de beleza e luz.

Chegaram: Gaspar, Melchior e Baltazar. Um deles era tão jovem quanto os meninos de Órion. O do meio era um homem feito e o último tinha barbas brancas e uma harmonia que irradiava, quando ele olhou tudo em volta. Logo depois, chegaram as mães. Elas vinham de chinelos e roupas de dormir. Algumas traziam um rosário entre os dedos, outras apenas um livro pequeno. O canto dos monges viajava entre os ouvidos e fluía por todos os poros do corpo. Os jovens, das janelas, olhavam lá embaixo: os camelos, os sacerdotes da Pérsia e o riso das mulheres. Ali, naquele momento, era possível morrer apenas a saudade.

Primeiro eles mandaram bilhetes e cartas. Os papéis voavam das janelas e as mães corriam em direção a elas. Elas acenavam aos rostos conhecidos e riam. Um riso cristalino e farto como um rio. Os meninos desceram as escadas em direção ao redemoinho de papéis. Os três reis reconheceram a estrela que os conduzira há muitos anos, sobre mares, montanhas e desertos. Betelgeuse atravessou as fronteiras da galáxia, e o Criador envolto num novo projeto de ampliação do Universo sorriu por breve instante. Havia a chuva de pingos cintilantes, sobre os visitantes de Órion.

 

Dedicado a maior de todas as dores humanas: a orfandade de filhos.

 

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O EXÉRCITO DE CHIAN

 

 

 

 

“Imagine que o universo é uma imensa máquina giratória. Você quer ficar perto do centro da máquina – bem no eixo da roda -, e não nas extremidades onde os giros são mais violentos, onde você pode se assustar e enlouquecer. O eixo da calma fica no seu coração. É aí que Deus reside dentro de você. Então, pare de procurar respostas no mundo. Simplesmente retorne sempre ao centro, e sempre vai encontrar a Paz.”

 

Do filme: Comer, Rezar e Amar 

 

 

Júlia Abreu queria escrever uma novela. Seria uma novela como um novelo desenrolando vidas, em que se delineia a personagem como um esboço de desenho: gradual e matemático. Menos matemático e mais aleatório, menos nitidez num rosto desconhecido. E ela tinha pressa.

 

Regina não tinha ainda sobrenome. Não, ela não era a personagem de Júlia. Na verdade trabalhavam na mesma empresa, em prédios diferentes. Não se conheciam. Regina não decidira sobre assumir ou não o nome do noivo. A moça tinha uma centena de detalhes a acertar a seis meses do casamento: o local, a data, a lista de nomes; Tinha o riso de Léo sempre no canto da memória. Era delicado como pular poças de chuva aos seis anos de idade. Era suave e bom. E ela tinha pressa.

 

Júlia desenhava o enredo da história alterando as cores, as frases, os nomes, datas e cidades, isto porque o marido revirava os textos e emails no computador, por pura impaciência diante das ausências dela. Júlia sentia a poeira incomodando a garganta e a falta de um copo de água sem gosto de cloro. Havia a menina para buscar na saída da escola, a organização das contas para pagar. Nas viagens ela sempre arrastava as malas pesadas até o carro. Ele nunca dividia as tarefas domésticas. Vamos conhecer Paris? Não, ele dizia ‒ era o ponto final. Em dias frios e doídos havia o chá a ser feito. Ele saía para a caminhada matinal, a empregada levava o chá. Qualquer problema ela chama um táxi e vai para o hospital sozinha ‒ pensava ele, num sacudir de ombros. Saía pausadamente em direção ao parque. Ele nunca tinha pressa.

 

O dia que a moça entrou na igreja, todas as luzes se apagaram. Houve um entreolhar no escuro entre os presentes. Como ninguém via ninguém, houve apenas o intervalo da espera. Um espaço entre um ato e outro. Sinal de sorte. As luzes se acenderam e a moça desceu a escadaria em direção à nave nupcial. Havia o perfume de lírios e uma cor dourada que fazia da sala ladeada de véus e flores uma das moradas da casa de Deus. Havia a moça que sorria e via lá no meio do altar o riso de Léo. Nada mais era necessário. Nada.

 

Kin, o marido de Júlia, tanto procurou que achou: o email endereçado a um estranho. Estranho a ele, pois havia uma intimidade de língua e dente. A quase carta falava de sentimentos e chuvas, de desencontros e dúvidas. A partir daí o apartamento virou um campo de batalha. Todas as munições contra o inimigo foram lançadas. Kin não se indagou onde estavam suas falhas. Júlia não se lembrava mais do encantamento dos primeiros dias, do som hipnótico, do trino aos ouvidos. Voltava a doze anos atrás e parecia ouvir os conselhos surdos da mãe quando falara pela primeira vez em unir seu destino ao de Kin.   A moça olhou o apartamento arrumado, os livros organizados na estante, as louças sobre a mesa da cozinha. Júlia estava cansada e já não se importava em salvar nada. Pegou as chaves do carro e foi buscar a menina na escola. Mais do que nunca  ela tinha pressa.

 

Regina arrumou as malas. Júlia arrumou as malas, os livros, algum mobiliário. Queria apenas sair pelas portas dos fundos, sem gritaria, sem insultos. Regina e Léo pisaram a areia da praia do Caribe e eram o princípio de uma raça Adâmica que estava por vir. Eles eram a criação e a construção do mundo. Havia os frutos do Éden, as flores do Éden, o riso do Éden e a água límpida do paraíso de Deus.

 

Quando silenciou-se a artilharia, Júlia foi embora. Arrumou os móveis no apartamento novo e inundou a casa com um Jazz rouco e macio como um abraço. Colocou os pés no sofá, espreguiçou-se em busca de um pensamento qualquer. Ninguém tentaria ler seu riso e seus olhos. Ficou um tempo entregue a única liberdade que existe: a de pensar. Júlia levou a menina à escola e no caminho de volta, lembrou-se que tinha um blog, uma novela por escrever, uma vida por reconstruir. Assistiu ao filme Comer, Rezar e Amar três vezes na mesma semana.

 

Kin rugiu por semanas o abandono. Maldisse todas as uniões do mundo, e os campos tempestuosos que atravessou sopraram camadas e camadas de cinzas que cobriram as colunas de seu templo interior. Chorou horas no colo da mãe que remobiliou o apartamento. Comunicou aos amigos que não queria mais a esposa e que ele decidira pelo fim de tudo: isto deveria ficar bem claro.

 

Às madrugadas, Kin atravessa a avenida e vai até a praça. Há fileiras de soldados em pé ‒ descalços e estáticos. Vestem uniforme de Campana e desce sobre eles uma fina chuva de pólen. Trazem uma pequena flor branca na mão direita e ao começar o movimento elas voam sobre eles, como um buquê de noiva rodopia sobre num salão iluminado. O movimento é lento como a chuva sobre as cabeças e as mãos abrem contornos de círculos. Kin olha o exército de soldados que erguem as cabeças ao topo com leveza. Está parado em volta da praça, e olha os movimentos do Tai Chi: o avançar e recuar, o ir e vir, olhar a direita e a esquerda.

È preciso vencer o movimento através da quietude, a rapidez pela lentidão. É preciso vencer a dureza através da suavidade.

 

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O SOLITÁRIO SENHOR FÉDOR

 

                                                      

Este texto deveria chamar-se Crônico de uma Dependência Crônica. Em respeito a um amigo querido que usou título semelhante, detenho-me sobre a solidão de cada um de nós.

 

A residência do Senhor Fédor fica dentro do terreno da nova casa, e nas poucas noites que sai para o lado de fora, olha cautelosamente para os lados. Ninguém nos avisou de tão ilustre hóspede, mas também acredito que ninguém o avisou que seríamos seus vizinhos nos próximos anos. A verdade é que o Senhor Fédor chegou primeiro a estas terras e defenderei pra sempre seu direito de posse. Todos concordamos que ele é dono de uma elegância peculiar. Vegetariano por natureza, nunca aprendeu português, contudo, acredito que compreenda nossas conversas no jardim, pois apura o ouvido à saída da casa antes de partir para o passeio noturno.  Sujeito estranho dirão muitos. Manias, talvez tenhamos nós aos olhos de tão singela criatura.

 

Depois que o caminhão da mudança deixou as caixas espalhadas na varanda, descobrimo-nos no limbo da comunicação com o mundo moderno. Nada de TV a cabo, nada de internet, nada de telefone. O afoito filho do meio pulou na piscina com o celular. O ruído do outro aparelho ficou preso numa bateria que não carregava por nada, e voltamos as esperanças para a pequena caixa, que não sei dizer o nome, mas que obedecendo aos rituais da modernidade, traça-nos mapa, dá a cotação do dólar, traduz, faz gráficos e tantas outras baboseiras ‒ contudo, propositadamente: não fala.  É o sinal, mãe, acho que aqui é complicado. Constatamos que embora a minutos do centro da cidade, sentíamos, na verdade, perdidos,  numa ilha do Oceano Pacífico.  Começamos, antecipadamente, Os Três Dias de Trevas que nos falou o profeta.  Foi graças ao fenômeno apocalíptico da falta provisória de comunicação que passamos a ter encontros vespertinos no jardim. Internamente torci para que as empresas de telefone e similares demorassem um pouco para solucionar nossa comunicação, pois isto nos fazia ter diálogos. Sobre a vida, sobre as árvores, o jardim que precisava de cuidado e, de repente o menino mais novo solta da cadeira em direção à casa do Senhor Fédor. Estava descoberto! Estávamos felizes por tê-lo conosco.  De uma simplicidade franciscana, o ilustre vizinho não guarda tesouros para a velhice, não se preocupa com etiquetas de marca, come o necessário e comunica-se com o mundo com os sentidos que lhe deu o Criador. Sabe se há perigo lá fora, se vai chover, se o inverno vai durar mais tempo que o habitual e o melhor: não nos teme.

 

Ficamos algum dia sem vê-lo.

 

- Sr. Fédor? Acabo de vê-lo atravessando a rua, acho que estava com pressa.

 

Temi por ele. O nosso hóspede pertence a uma minoria. Deveríamos marchar pelos seus direitos como fazemos por tantas coisas inusitadas que acreditamos.  Deveríamos marchar por três dias anuais de trevas que nos fizesse refém apenas dos diálogos familiares no jardim. Assim poderíamos ouvir os filhos e estes aprenderiam as histórias que ficaram na curva do tempo. Você sabia que sua avó era índia? Todos temos lá atrás uma avó índia, que um dia viu-se presa nas armadilhas do homem branco. Alguém da civilização, que fala vários idiomas, que inventou a luz, o telefone, a internet e tirou-nos o olhar nos olhos, o riso nos fins de tarde.

 

Fique sempre conosco, Senhor Fédor.

 

 

Nota:

 

 

O gambá ou mucura, como é também conhecido nas regiões mais ao norte do Brasil é um animal da família - Didelphidae. É um animal um pouco parecido com o rato. Pode medir entre 40 e 50 cm, sem a cauda. Possui a pelagem das costas negra ou cinza, com camada inferior de pelos finos denso, amarelo ou branco. Sua cabeça é amarelo sujo, com listras negras do focinho até as orelhas. As bochechas são amarelo, laranja pálido ou branco, o nariz é cor-de-rosa, e suas orelhas são pretas, grandes e peladas. Os pés são pretos; a cauda, preênsil (ou seja, tem a capacidade de enrolar-se a um suporte como um ramo de árvore), geralmente maior que a cabeça e o corpo, é pelada, negra e com listra branca. São animais noturnos, arbóreos ou terrestres e solitários. Alimentam-se de invertebrados, pequenos vertebrados e frutas. Podem construir ninhos nas árvores ou em tocas no chão. São conhecidos pelo cheiro forte e como animais mal cheirosos. Urinam e defecam quando manuseados e expelem cheiro muito desagradável quando ameaçados. Tornaram-se animais cosmopolitas convivendo com o homem, alojando-se no forro das casas. Ocorrem em todo território nacional. O que que quer dizer que é também um animal que ocorre na região do Cerrado (centro-oeste do Brasil).

Fonte: http://faunadocerrado.blogspot.com/2009/11/gamba.html

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VIGIAR E ORAR (Reflexão)

 

 

"A oração não é senão um ato de amor, e é insensato pensar que só  se pode orar quando se dispõe de tempo e de solidão."

Santa Teresa de Jesus

                         

 é

Há dias que caminhar é só um passo após o outro e o vento tem a docilidade de beijar-nos a face  e sabemos ser  verdadeiramente parte da criação. Há outros que não caminhamos, ficamos presos no vale de lágrimas, no abismo de angústias. Nestes dias, damos as mãos aos pensamentos turvos da culpa e do abandono. Lá fora, o sol nasce sempre, as estrelas cintilam seus diademas de brilhantes e o vento como menino solto corre  nas praças e jardins. Nós nada vemos, pois o pensamento conduz-nos cada vez mais ao isolamento cômodo da lamentação.

As energias revigoradoras do planeta são espalhadas diuturnamente, pois a espiritualidade maior não nos esquece nunca. São fontes de sustentação para os momentos difíceis em que caminhar é um ato surpreendente, pois nossas descobertas e aprendizados são quase sempre através da dor. Todos nós domamos todos os dias um dragão interior. Não nos enganemos, o dragão dos que cruzam conosco a avenida, parece adormecido, mas ruge alto e o assusta tanto quanto o nosso, só ele o conhece. A boa sintonia mental abre todas as janelas e nos mantém fortes aos tropeços naturais do ato de viver. O bom pensamento conduz-nos às altas esferas celestiais, lá onde a bondade reina, em que seres criados simples, como nós, partilham da grandeza do amor do Pai, face a face. A oração traduz-se na vigília do bom pensamento em todos os momentos do dia. Por sermos seres em aprendizado, nosso pensamento salta dos acordes mais altos aos arranhões sonoros das escalas inferiores. O exercício necessário de orquestrarmos nossa vida, faz-se então presente. O predomínio dos belos acordes, tendo ao fundo pequenos ruídos, será a melodia que nos levará em frente. Se o predomínio for inverso, isolamo-nos do mundo, e quedamos ao sentimento de abandono. Se não é possível a oração contínua que seja o bom pensamento o condutor presente em cada minuto. Se um homem vigia seus pensamentos, ele ora. Se uma comunidade vigia seus pensamentos,  também ora. Imagine uma cidade, um país, o planeta em busca da Harmonia do Mundo.

 

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AS INCERTEZAS DA COR

 

 

“Não procure entender, viver ultrapassa qualquer entendimento”

Clarice Lispector

 

 

 

TOC –TOC – Eis que, subitamente, alguém bate à porta.

 

As pessoas, ao tempo de nossos avós, passavam pelo mundo com o carimbo de “sistemáticas” quando tinham manias peculiares. Os comportamentos repetitivos como apoiar-se no pé direito antes de sentar, lavar infinitamente as mãos depois de tocar em certos objetos, provocavam um começo de riso, e se não causavam grandes transtornos eram apenas adjetivos que ornamentavam a personalidade de quem as possuía.

O problema é quando o copo transborda. Não há como lembrar em que dia o rio atingiu a ponte. No momento seguinte, estamos diante de um estranho que insiste em perseguir formigas imaginárias, e em bater constantemente a faca sobre a pia da cozinha. Dizem os tratados de psiquiatria, que os sinais silenciosos da compulsão convivem com a família durante muito tempo, até que todos os olhares voltam-se ao mesmo tempo para um único ponto: e os dias... os dias seguintes não serão jamais os mesmos.

 

 

AS VIAGENS DE GULLIVER

 

Maria Alma mora na casa de telhado vermelho no final da rua que termina sob as sombras das árvores. Enquanto o bairro arde sob um sol abrasador, as tardes amenas contornam o jardim e a pequena fonte desce sulcos sobre o estreito caminho de pedras. A mulher dobra as toalhas da cômoda e observa o menino, deitado sobre as folhas de papel, que risca montes, rios, cidades. Vai à cozinha e trás um copo de água e o coloca no chão, ao lado da mão esquerda, sempre fechada. Tem saudades do outro menino, que sumiu sem despedida, imergiu pra sempre no labirinto profundo do sono. Ela viu os braços dele crescerem como galhos de árvores e os ombros curvarem-se quando a cabeça ameaçou atingir o teto. A mobília foi pisoteada pelos pés grandes, ávidos pela saída da porta. Antes de partir, o estranho apoiou as mãos na entrada e olhou como quem olha a profundeza de um poço seco e turvo.

Maria Alma sentiu soprar rente ao rosto o bafo morno de um futuro implacável, injusto como o muro negro da morte. Foi lá fora, procurou em todas as direções. As esquinas desabitadas ecoaram apenas o ruído de seus próprios sapatos. Um dia, ele volta, eu sei que volta, pensou.

 

 

TETO DE LÍTIO

 

Às vezes, e quase sempre, olhamos o quintal da casa ao lado e ouvimos o som harmonioso e irritante de um coro de anjos. A fotografia de uma família vestida de branco, ganha movimento em direção a uma mesa florida, meticulosamente arrumada. Olhamos o lado de cá: o quarto revirado, a bandeja de café com os comprimidos ao lado da xícara de leite. Se todos os frascos vazios, tomados ao longo dos anos fossem colocados numa caixa, ora isso daria para...

– Pode levar, não vou tomar mais remédio.

– Você precisa. Você toma há mais de dez anos, não pode parar de repente.

– Não vou tomar mais, já disse.

– Você vai ficar nervoso, e ter de novo os sintomas de TOC.

– Sai daqui com isso!

– Você está gritando!

– Você é que está gritando!

 

Ouve o arremesso da porta que estremece as paredes. Depois de tanto tempo, trine, de volta o sibilar da serpente que baba veneno na pia da cozinha. Ouve o barulho do recolher das asas das corujas que voltam a dormir no teto. Com o passar dos anos aprendeu que o outro menino não vai mais voltar. Que o estranho que revirava as gavetas e batia com frenesi a cabeça na parede, engoliu o menino de uma única vez. Aprendeu que quando amanhece, ele volta à estatura normal, abre os braços e pede perdão ao mundo.

Aqui dentro, um rapaz aumenta o som ensurdecedor de uma música áspera que ela não decifra. Canta um rosnado rouco e longo, grita versos e rodopia pela casa. Arremessou os medicamentos pela janela e diz ouvir a voz dos anjos e visitar o demônio em dias ímpar. Lá fora, é possível, pela fresta, ver apenas a ponta do sapato masculino, as malas e muitas caixas, o que denuncia que este veio para ficar. Maria Alma suspira fundo. Agora, depois de tanto tempo, tudo que conseguiu entender ameaça perder forma e cor. O silêncio confunde-se com o som estridente das cigarras. Sente o assoalho deslizando devagar e não tenta se agarrar em nada. Não sabe dizer as horas e o dia da semana. Não sabe dizer de que cor Deus tingiu o céu.

 

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O DESTINO DE ANN WARD

 

 

  

 

O maior de todos os tesouros da infância é a fotografia que guardamos dela. Quando o crepúsculo silencioso dedilhar seus últimos acordes, talvez compreendamos porque ganhamos aquela casa, aquela família, aqueles dias. Relembrar as notas distantes de um canto esquecido de infância e o momento que recebemos a caixa, repleta de fundos secretos chamada: Destino.

 

 

 

Londres, Segunda-feira, 06 de julho de 1772.

 

Quando o Coche deslizou sobre o primeiro arco da ponte do Rio Tamisa naquela manhã de verão, a menina olhou as embarcações espalhadas e julgou que provavelmente estava vendo a paisagem pela última vez. Desde que recebera a notícia de sua mudança para as casa dos tios na cidade de Bath, seu coração sombreara-se como gotas de cinzas turvam um jarro de água cristalina.

 

Naquela manhã, Átila, a Águia Real, como sentinela entre as torres da Abadia de Westminster era uma presença imperceptível. A ave de rapina buscava no burburinho de idas e vindas: o alvo. Na altura do quarto arco, as rodas de ferro pararam bruscamente e George, o condutor, comunicou a menina, com poucas palavras, que seria necessário afastar-se por alguns instantes.

 

Não saia daí Ann, eu volto rápido.

 

Como deixar uma menina de sete anos sozinha sobre uma ponte? O que o meu pai vai pensar disso, Emily? Indagou à boneca recostada no banco.

 

Sinto muito... Foi o que pensou enquanto seus pés desciam em direção ao movimento lá fora. Deu alguns passos sobre a calçada e foi empurrada por um movimento brusco que por pouco não lhe arrancou o chapéu da cabeça. A menina fez um giro rápido para trás, a tempo de observar o pássaro grande coberto de penas verde metálico em contraste com os olhos amarelo claro. Por breve instante teve a impressão que a ave a olhou no fundo dos olhos. Segurou o grito de espanto e instintivamente levou as mãos à cabeça. A Águia seguiu em voo ascendente em direção às torres da Abadia, contudo concluiu a curva e continuou o movimento, agora, de volta à ponte. O Pássaro descia em grande velocidade e foi possível perceber o volume que trazia nas garras. A inglesinha encolheu-se à procura de abrigo, foi quando ouviu o baque sonoro da caixa arremessada sobre o teto do coche. A ave soltou o pacote e seguiu em voo para leste. Antes de seguir em linha reta, abriu as asas em compasso sobre as embarcações, e tomou finalmente a linha do horizonte. As pessoas em volta não pareciam se importar com a cena, a não ser a mulher parada na mureta da ponte.

 

É seu o presente, disse a mulher, empurrando a caixa com a bengala em direção ao chão. Ann estendeu os braços e amparou a caixa de madeira.

 

A senhora acha que a caixa foi deixada para mim?

 

Possivelmente. É seu aniversário?

 

Daqui a alguns dias eu e a Emily faremos aniversário.

 

A mulher parecia não ouvir a menina, absorta em localizar, em algum ponto da claridade do céu, um sinal do pássaro. Um alvoroço de imagens atropelava-se em algum lugar de suas lembranças. A cena pertencia a uma manhã perdida no começo do século sobre a antiga ponte de Londres: um pacote arremessado sobre seus pés. A velha senhora olhou as nuvens, as pessoas em seus muros secretos, a brisa empurrando a vida como as águas do rio.

 

Ann Oates Ward, a menina que em alguns dias completaria oito anos, abriu a trava da tampa e viu o que aparentava ser uma caixa vazia. Puxou com as pontas do dedo a cobertura e deparou-se com um envelope e algumas folhas de papel arrumadas ao lado de hastes finas de metal, terminadas em grafite. No envelope estava seu nome escrito, o que tirava todas as dúvidas do direito de propriedade sobre o objeto. De volta ao coche, Ann olhou a mulher sobre a ponte, os barcos em seu vai e vem infindo e segurou com força o presente contra o peito.

 

Ao fim do dia , quando a tarde estendia sobre a estrada seus últimos raios de luz, a condução atingiu as imediações do Rio Avon. A menina ouviu o ruído forte da água e apoiou o queixo entre os braços diante da janela, observando a espuma que escorregava entre as pedras de um rio que tinha pressa. À entrada da cidade havia uma ponte em construção e a carroça atreveu-se por caminhos estreitos e sinuosos. Filas de trabalhadores de volta aos lares seguiam ao lado das rodas de ferro e curvavam um aceno à passagem do carro. Enquanto a tarde recolhia a luminosidade, ainda foi possível ver um grande semicírculo de casas, em construção, que lhe lembrava a pintura do Coliseu romano. A cidade pareceu-lhe um formigueiro revirado.

 

Os portões da casa de Tomas Bentley abriram-se à passagem do coche com todas as lanternas do jardim acesas. A pequena hóspede, sua boneca e a caixa de madeira saltaram em direção aos degraus da entrada da casa. O ruído noturno se reduzia a pequenos pontos sonoros, minúsculos piados agudos que rodeavam as árvores e escorriam com a brisa úmida.

 

Não foi possível dormir na primeira noite e poderia dizer quantos riscos havia no telhado do quarto que descia em declive sobre a pequena cama que, agora, lhe pertencia. Escondeu a caixa atrás do armário de roupas e corria a ela nas tardes silenciosas. Um fato curioso descobrira: a caixa, às vezes, lhe parecia funda, ou, por outras, totalmente estreita.  Às vezes sua mão encontrava um compartimento desconhecido, como quando descobrira os pequenos pincéis na parte lateral. Correu os dedos em todo contorno e deparou-se com pequenos potes de pigmentos para pintura. É uma caixa de ilusionismo, concluiu. Passava os dias na biblioteca da casa procurando nos livros respostas sobre encantamentos e magias. Olhava o jardim da janela do quarto e a chuva que molhava as folhas largas dos canteiros bem cuidados. Olhava a lua abrindo seu lume sobre o telhado da casa e imaginava o riso dos meninos que moravam em alguma casa vizinha. Tinha sempre a impressão de ouvi-los e abria a janela às estrelas e aos morcegos noturnos. Ouvia o ruído dos arreios e frenagem de carruagem, e descia aos tropeços a escada em direção à porta. A visita paterna era como a caixa de tintas.

 

Era uma casa de paredes altas e moradores que dormiam cedo. Entre os corredores da casa, Ann Ward construía um mundo de pensamentos sombrios e personagens invisíveis. Quando tudo lhe parecia um imenso calabouço abandonado lembrava-se das cores da caixa, das folhas em branco e das hastes em grafite. O que a Águia quis lhe dar, naquela manhã sobre a Ponte de Westminster? Indagava-se a menina olhando as prateleiras da biblioteca que cresciam em direção ao teto. Extensas prateleiras repletas de livros antigos sobre as lendas celtas da Bretanha: uma terra destina a ter inúmeros filhos enfeitiçados pela alquimia da escrita.

 

Todas as respostas que teve que decifrar não estavam nos livros da casa, nas histórias que sua imaginação tecia olhando as estrelas da janela do quarto. A menina Ward, que, mais tarde, se transformaria na escritora Ann Radcliffe, construiu os primeiros enredos de suas histórias nos corredores sombrios da casa dos tios. Nos textos de suspense que anos depois seriam vendidos pelos livreiros além das terras bretãs havia as passagens secretas que só os olhos atentos podiam perceber. À menina, de imaginação prodigiosa, sobre a ponte de Westminster, ou no enredo de um sonho ao dormir, foi dada a capacidade de pintar com as palavras, de jogar um facho de luz sobre calabouços e sótãos. De falar de poesia e cores escondidas nas passagens secretas de uma caixa de tinta.

 

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OS SINOS DA IGREJA

 

 

 

 

"Eu tinha exaltado a minha imaginação de forma a realmente acreditar que em torno de toda a casa e do terreno flutuava uma atmosfera peculiar a ambos e à sua vizinhança imediata – uma atmosfera que não tinha afinidade com o ar do céu, mas que se havia evolado das árvores senis, das paredes cinzentas, do pântano silente – um vapor pestilento e místico, pesado, inerte, mal perceptível, cor de chumbo. .."

Edgard Allan Poe, A Queda da Casa de Usher

 

 

As janelas vizinhas fecham-se bruscamente às noites de quarta-feira . O baque das portas e janelas de madeira é o único som no caminho da noite. Apenas cães passam em frente aos degraus da pequena escada que levam à porta da casa de arquitetura antiga. As luzes apagam-se pontualmente às nove horas e os moradores dos prédios vizinhos dão às costas e ampliam os sons de fritura nas cozinhas. É como um canto alto quando as luzes se apagam. O sobrevivente do escuro canta para espantar o medo, o mais alto que sua voz alcança. Assim fazem os moradores: ligam o noticiário da noite e fritam carnes e ovos. Falam do trivial do dia, do atraso do ônibus, do preço das frutas. Todas as atenções mais profundas estão nas luzes que se apagam às nove horas, mas todos os ruídos tentam ignorá-las.

 

 

O Pêndulo e o Calabouço

 

No interior da sala, apenas o dedilhar distante de um piano inunda o ambiente azulado. Homens e mulheres ouvem a música imersos no turbilhão de caminhos que abrem-se ao redor da mesa: o rio, o barco, uma estrada de terra. Cada um escolhe uma direção. A mulher, por sua vez, para diante de uma porta entreaberta . Olha a parte de cima para onde se ergue o portal extremamente alto e largo. Ouve os sinos mesclando-se ao som do piano. As notas pulam uma a uma como se partissem para dar lugar ao badalar dos sinos. Empurra a porta apoiando toda a força no pulso da mão direita. Adentra ao salão da Igreja. É um espaço amplo, quase oval , com dezenas de bancos espalhados. O teto sobe arredondado afunilando-se ao que pode ser a entrada das torres. A catedral! É a imagem que seu coração aos saltos reconhece. Está em Diamantina, na catedral de Santo Antônio. Conhece cada canto da igreja de sua infância. Não há santos no altar mor e vazios estão os altares menores. As colunas que sustentam a igreja perdem-se na claridade que desce do centro da sala e inclina-se como uma espada de poeira e luz. Caminha em direção ao último banco e ao homem de terno escuro curvado sobre as pernas. Observa o traçado do terno, o laço que deveria ser a gravata, observa as botas.

– Senhor, posso ajudar?

O homem levanta o rosto e crava-lhe o olhar. Ela pensa por um instante conhecer a fisionomia: o formato das sobrancelhas, a testa acentuada, o cabelo. O Homem parece ouvir os sons finais dos pêndulos. Levanta os olhos ao teto e segura o queixo.

– A Senhora sabe há quanto tempo vivo nestes bancos e ouço o barulho das asas, o som ensurdecedor dos sinos? Quanto? Por acaso tem ideia?

– Provavelmente, muito, fala, observando a roupa do homem.

– A Senhora sabe que se eles me encontrarem terei que correr para os muros de outra igreja? Eles odeiam igrejas, geralmente não entram.

– Por que o Senhor não tenta conversar com eles?

– Inútil, eles não querem conversa. Reclamam de mim, a Paz! ! É possível compreender isso? Eles dizem que eu lhes tirei a paz. Alimentei o tormento de suas almas com o peso dos meus versos, de minhas palavras.

– O Senhor faz versos?

– Eu achava que sim. Hoje não resta muito, o grande escritor se foi. Com o tempo passei a compreender os poços profundos que construí com minhas narrativas. Suicídios, adorações nocivas, leitores que se identificavam com meus enredos tecidos no linhame da morte. Nunca leram uma palavra de alento, uma história que desse vida a um pensamento bom. Nada. Todas as madrugadas soprei o clarim, aliciando-os ao exército das trevas. Pisavam nos pés um dos outros, cortavam as próprias mãos , a pele dos rostos. Os cânticos eram gritos incessantes dilacerados pela febre. Marcharam voluntariamente para o desalento ao som funesto de meus versos. Em minhas aldeias escuras, edifiquei casas sobre o pântano do medo. A droga não é tragada, não é líquida ou gasosa, mas a perfeita invasão dos sentidos. Corre na pele e cava sulcos em direção às veias. Engana primeiro a visão, entorpece o olfato. A língua cresce dentro da boca e impede o grito. Os dentes sangram sempre, e um som ensurdecedor é criado de acordo com a agonia de cada um. Os olhos não encontram as saídas e resta-lhes o calabouço, as correntes, a prisão. Ouça! É o grasnar das aves sobre as torres da igreja. Vestem-se com as asas dos pássaros, mas são eles, eu sei que são...

– Há uma escada do seu lado direito, diz a mulher. Podemos chegar ao pátio da torre sem sermos vistos, o ar puro vai fazer bem.

O Homem aceita a mão estendida e caminha ao lado da mulher. Percorre o espaço que antecede a saída ao pequeno pátio. As aves estão enfileiradas do outro lado – petrificado exército de ébano. O homem olha a noite, os pêndulos do sino já não cantam, as paredes altas das torres são muros inertes. Olha o céu. A noite é clara e o tapete de pontos coloridos cobre-lhes as cabeças. A mulher segura-lhe a mão e ele ergue devagar os olhos à paisagem noturna. Por breve instante observa. Sente a brisa leve tecendo delicados riscos entre os fios dos cabelos. Sente o silêncio respeitoso das horas e a umidade que se estende sobre os telhados das casas beija-lhe timidamente os lábios. A cidade, seus sobrados e ladeiras dormem.

– Veja, não há mais ninguém, todos se foram.

Ele olha o canteiro de casas espalhadas, o contorno das portas que na pouca claridade seus olhos esforçam receber.

– Não há nenhum motivo para o Senhor se esconder nos porões, nas igrejas... ninguém mais te procura. Se foram há muito tempo.

– Para onde foram?

– Para  dentro de suas vidas.

– Se voltarem?

– Se voltarem, dê-lhes toda a poesia que não conhecem. Fale da alegria e das canções. Que depois das noites escuras e tormentosas há muita lama para limpar e muito trabalho a fazer. Que suas asas podem dar-lhes voos imprevisíveis, que é preciso viver e também sonhar. Que a boa sintonia mental é como música; é preciso ouvir e segui-la. Diga-lhes que o perdão é necessário em nossas vidas como flores são necessárias aos jardins. Casas sem jardins são tristes e precisamos cuidar deles todos os dias. Somos, todos, jardineiros do mundo. Dê-lhes boas palavras, bons livros, boas histórias.

– Só isso será suficiente?

– Vai ajudar muito.

– Quando poderei fazer ?

– Não sei exatamente quando, mas quando for possível esteja pronto e não fuja do que é necessário. O que já foi feito é irremediável, mas todos eles cruzarão sua vida de novo e a maneira mais fácil de influenciá-los será através do que o Senhor gosta: de sua imaginação. Ela estará presentes em livros, teatros, em músicas, e em outros caminhos que ainda não conheces e nem imaginas. No fundo serão histórias, suas histórias.

O Homem olha em volta e não há mais a mulher, o burburinho das aves. Apenas ele e a vastidão de pontos luminosos, que circulam o piso da torre da igreja. Cintilam ao seu redor como cristais iluminados. Estende as mãos e prende um dos pontos brilhantes, coloca-o no bolso da camisa. A pequena luz escorrega como bolinhas de mercúrio. Continua a brincadeira de persegui-las e não percebe que elas trançam por sua silhueta, inúmeras vezes, até se confundirem em um formato único.

Lá em baixo a cidade amanhece com suas ladeiras e sua gente.

 

 

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DEIXAR VIR A MIM

 

 

 

 

Aos que incessantemente procuram, aos aflitos e desafortunados, um aviso: A Esperança é uma borboleta colorida e rodopia entre os muros. 

 

 

Apenas ouvia-se o barulho forte e ritmado das patas dos cavalos atravessando o rio. O som abafado como tambor erguia-se em compasso sonoro e repetitivo. O ruído abria círculos de ondas que cresciam indefinidamente. Os cavaleiros traziam nas mãos lanças com pontas de metal, outras esculpidas em madeira. O que podia ser visto era a passagem ligeira das patas, do dorso, da crina... apenas o movimento horizontal sobre a água… Deixavam o cheiro da pressa flutuando no ar. Formavam-se bolhas endurecidas que caiam rapidamente no chão. A cor turva da água tremulou ainda por alguns minutos quando o último animal passou. A areia do fundo do rio repetia o subir e descer e o movimento ganhou forma à nossa frente: os homens buscavam. Uns tinham feridas imensas à mostra. Cortes nas costas, furos de balas no peito. Alguns tinham marcas de cordas no pescoço e havia os que incessantemente buscavam o ar, como se lhes tapassem nariz e boca. Todos sem exceção queriam o encontro. Eram as vítimas em busca de seus algozes. A rigidez dos lábios e a petrificação dos olhos não nos deixavam dúvidas.

Perfilaram-se após o cessar da corrida lado a lado e viam, lá embaixo, as árvores. Depois das árvores havia canteiro de cores; muitas cores. Estávamos atrás deles e víamos o brilho das flores sob a luz do sol. Do lado de cá os guerreiros no momento prévio da batalha. Do lado de lá apenas o desconhecido. Temíamos o encontro. Buscamos mentalmente a benevolência do perdão. Enlaçamos todas as pontas e desejamos que a rede do infinito amor do Cristo chegasse até eles. Nossa força era demasiadamente limitada, éramos apenas portageiros de uma fé em transformação.

 

A respiração do guerreiro freava em ritmo ofegante e quando o último movimento serenou, ele apenas observou. Nada mais havia depois das cores, apenas o balanço de varais ao vento. O primeiro da fila olhou para o companheiro ao lado. Bateu por duas vezes a ponta da lança afiada no chão. O companheiro repetiu o gesto. O chão sobre nossos pés estremeceu com a batida coletiva. O primeiro homem desceu do cavalo e caminhou em direção às árvores. Os outros seguiram entre os canteiros de flores. O que ia à frente levantou a ponta do lençol sobre o varal. A partir dali a tarde findava-se numa claridade dourada e esta luminosidade dançava entre as árvores como uma melodia. O homem teve muita dificuldade em manter os olhos abertos. No começo não via nem ouvia nada, apenas recebia a luz. As cores emergiam das asas das borboletas e da água clarinha que se espalhava no rio. Agora o homem ouvia o rio. Era uma canção mansa, desconhecida.  Lavou as mãos e deixou sob a água a arma de metal. O reflexo da água alargava e tremulava a lança. O guerreiro desceu novamente as mãos em concha e bebeu a água. Lavava calmamente as feridas na água fresca que misturava-se à poeira e ao barro da estrada. À medida que lavava o corpo o sangramento estancava. As feridas tornavam-se pontos pequenos e quase imperceptíveis. Do outro lado do rio, havia o burburinho indecifrável de vozes. O que abrira o caminho entre os lençóis prosseguiu em direção ao ruído, olhavam sem entender. Ali estava o que buscavam. Os que foram encontrados traziam um sinal individual que ligava cada um a algum deles. Apesar da aparência podiam ser reconhecidos. O homem que ia à frente, já sem marcas de sangue e sem sede estendeu a mão em direção a quem sempre buscara. Encontrou uma mãozinha pequena e roliça de criança.  Entre as árvores e a vegetação rasteira estavam eles: centenas de meninos e meninas. Deviam ter pouco mais de dois anos. Cachos de cabelos e rostos redondos olhavam.  O pequeno à frente do homem apontou-lhe o dedo, depois o recolheu subitamente em direção à boca. O guerreiro o tomou no colo. Os outros caminhavam entre o exército de soldados desarmados. Ouvia-se um burburinho de risos e prece. Lá do outro lado do rio a luminosidade brincava com as borboletas e com as nuvens do céu.

 

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O PENSADOR 

 

Deparei-me com Agostinho da Silva

Estático, fotográfico, pensativo

Sentado nas pedras que contornavam o rio.

Murmurei pelos fios dos cabelos:

Não se assuste

Às vezes,

Entro nas paredes e vago nas sombras

Sorvo dos poetas o perfume

Dos filósofos o pensamento

Dos anjos a candura

Não tenho culpa de tua alma trifásica.

Te vi lá da outra margem do rio e vim.

A tinta manchava o casco do barco e os remos
O vento derramava teus versos nas folhas das árvores.

 

Agostinho olhava a tarde.

Beijei-lhe o rosto , as mãos áspera de areia e folha.

O silêncio era eco na mudez das pedras

Quando li seus versos.

As palavras batiam nas paredes úmidas

E observei um delicado movimento dos ombros:
Ele ouvia.

Quando findei a leitura

Indicou-me a porta de saída.

Por breve instante, levantou os olhos e sorriu.

 

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A CAIXA

 

 

 

 

“A coisa mais incompreensível do Universo

é que ele é compreensível”

A. Einstein

 

 

Bartolomeu Darw era apenas uma fagulha transparente tremulando a alguns metros do chão. Às vezes, eram necessários dias de reabastecimento e a fagulha tornava-se apenas um ponto fixo com leve pulsar de luz, como qualquer estrela. O rapaz nunca estava satisfeito com isto e gostava de ter pernas, braços e rir alto. O que não constituía nenhuma norma absoluta e assim o jovem Bartolomeu era visualmente: apenas o jovem Bartolomeu.

 

Subiu a escadaria do prédio e em pé ao lado do círculo formado pelas colunas, olhou o salão que se estendia alguns metros abaixo. O piso era transparente e com alguns desenhos geométricos em riscos. Olhou demoradamente o piso de vidro e não pôde distinguir nenhuma forma. A partir dali, o rapaz sabia que seria necessário retornar ao seu formato de luz e calmamente tirou os sapatos. Desceu os degraus em direção ao salão e seus pés escoaram, como água, pelo risco do desenho. Em alguns minutos havia apenas o salão vazio. Em volta das colunas pequenos canteiros de flores . As flores não emitiam nenhum perfume, zuniam baixinho o que parecia uma melodia. As flores indagavam-se por que aquele ponto luminoso não gostava de ser um ponto luminoso e era aquela figura comprida e estranha. O único barulho do ambiente era a canção das flores.

 

No corredor, sob o piso de vidro, o rapaz recebeu a claridade do ambiente e misturou-se a ela. Outros pontos, como ele, deslocavam-se em todas as direções. Tentou observar formas e reconhecer rostos. Eram os velhos companheiros de sempre, de volta ao Hangar de pouso, entre um voo e outro. Alguns acenavam do outro lado, numa via de retorno. Bartolomeu via o ambiente como seu olho humano estava acostumado a ver. Observou que voltara a morfologia corporal e sentiu-se bem assim. Para alguns era um ponto de luz, para outros era o jovem magricela de cabelos desalinhados.

 

– Bartolomeu, temos notado o quanto tem sido difícil para você este trabalho em hospitais e clínicas.

 

– Bem, na verdade isto de ficar atravessando paredes de quartos e não poder falar com as pessoas me deixa um pouco inquieto, Senhor. Mas por favor, não se preocupe, eu como todos os outros quero um dia ser Querubim, e o que for necessário fazer, estarei às ordens.

 

– É necessário que você experimente todo o tipo de serviço, é uma maneira de descobrir sua verdadeira natureza. Ultimamente, percebemos que você tem usado a mesma aparência por muito tempo e então saiba que ela é sua definitivamente, e que não vai se livrar dela tão cedo. Se visto por alguém, será assim com este corpo e rosto.

 

– Nenhum problema Senhor, mas o que tenho mesmo que fazer?

 

– Preparar as caixas, Bartolomeu. Preparar as caixas e enviá-las a esta lista de endereços, antes do fim do ano.

 

– O Senhor está me dizendo que eu fui promovido? De arrebanhador de moribundos a programador de destino? Não por favor, não se aborreça com minhas palavras, eu sempre quis fazer este trabalho.

 

– Hum... é compreensível.

 

– Não..., bem desculpe, eu quero dizer que é melhor a esperança que a fatalidade.

 

– Nenhum problema Bartolomeu, aqui estão as instruções neste envelope. Você prefere ler, não é mesmo? Provavelmente, se vivesse com sua forma luminosa, as instruções seriam absorvidas mais rapidamente.

 

– Não quero ser rebelde, mas ainda não acostumei com isto de ouvir sem ter ouvidos, falar por todos os poros, de deslocar na velocidade da luz. Ah, eu ultimamente gosto de usar minhas habilidades primárias. Andar, passo a passo, ver e sentir as pedras e plantas. Ter um pensamento de cada vez.

 

– Você sabe o que isto significa não é Bartolomeu?

 

– Sei sim Senhor.

 

– E que isto pode acontecer de uma hora para outra?

 

– Eu sei, e quero apenas estar pronto, apenas isso.

 

 

O rapaz recebeu o envelope e o colocou no bolso da camisa. Abraçou o companheiro e saiu apressado. De volta, ao caminho estreito, observou os outros que chegavam, e acenou-lhes. Se pudesse, ia até eles e contava as novidades. Essa necessidade impetuosa precisava ser contida, sabia que esses desejos que voltavam a aflorar em seu interior era prenúncio de viagem próxima e tinha a impressão que a coragem caminhava ao seu lado como uma irmã mais velha. Podia sentir as mãos sobre os ombros.

 

 

Quando retornou ao seu quarto, abriu o envelope e leu as instruções com toda a atenção possível. Sobre a mesa, havia centenas de caixas e deveria organizá-las. Algumas tinham mais de trezentos compartimentos, outras um pouco menos. Enquanto preparava as caixas, lia as instruções como uma bula de remédio, e indagava-se em que parte do universo elas chegariam. Os compartimentos tinham paredes flexíveis e quem recebesse a caixa poderia fazer dela o que quisesse: alongar ou diminuir a quantidade das divisões. Havia tinta para colorir e porções curativas. Um saco com pequenas quantidades de substâncias, que conforme a mistura feita poderia promover danos irreparáveis, deveria ser colocado no centro da caixa. Redigiu um aviso de alerta em vermelho e colou sobre o pequeno pacote. Todas as caixas tinham um álbum de fotografia vazio e um rolo de corda e tesoura. Entendera que possivelmente era para construir ou desfazer laços conforme a vontade do receptor. Fechou a primeira caixa e abriu o envelope com o adesivo de numeração. Todos os números dentro do envelope eram iguais e não conseguia entender isso. Por que todos os números eram sempre o mesmo número? Dois mil e dez deve ser um número significativo para esta remessa, pensou. Colou o adesivo sobre a caixa e observou sua primeira tarefa cumprida. Olhou o papel colado na parede. O papel lhe informava que seu prazo escoaria em sete dias. Às vezes, sentia-se fatigado e cada vez menos conseguia um relaxamento profundo e transmutar-se em fagulha luminosa. Era necessário um desligamento por horas: era o sono, lembrava-se disso de repente, como se fosse acostumado a dormir todos os dias.

 

O jovem aspirante a Querubim trabalhou até o limite das forças. O cansaço o desconectava de sua natureza espiritual e o levava em direção a um caminho novo. Restava-lhe ainda a última caixa e, pelo papel colado à parede, mais vinte e quatro horas. Suspirou aliviado, pelo menos poderia trabalhar a última caixa com calma e até ler o nome do destinatário. Prendeu a bula entre os dedos e leu o nome. Era um nome de mulher: Analice era um nome que ouvira em algum lugar.

 

– Analice... murmurou andando pelo quarto.

 

Tentou se lembrar por um instante o que o nome significava para ele. Revirou os pensamentos inutilmente. O endereço também não era conhecido. Colocou devagar os pequenos pacotes nas divisões da caixa. Havia um par de sapatinhos de lã a ser colocado ao lado da substância perigosa. Nunca vira um sapato tão pequeno e macio. Depositou o pacotinho com cuidado. Uma ponta do laço do sapato prendeu-se no botão da camisa e não conseguia soltar. Sentiu que o sapatinho começava a desfazer-se e isto exigia um cuidado maior. Já era madrugada e olhou para a enorme janela de vidro do quarto ao lado da cama. Não poderia danificar nada que destinava-se a caixa. Não poderia cortar o pedacinho de lã preso à camisa. Pediu ajuda. Não sabia ao certo a quem dirigia o apelo. O céu curvava-se para dentro do quarto e espalhava as estrelas sobre sua cabeça. Havia a disposição da nebulosa. Distinguiu os pequenos globos que formavam um anel no céu escuro e o planetinha pulsando a sua frente É o destino da caixa, pensou. È para lá que a caixa vai. Tentou olhar o planeta mais de perto e olhou o endereço entre os dedos. Distinguiu um bairro tranquilo: a rua ladeada de árvores. No fim da rua, uma casa de edificação antiga. No jardim uma árvore enfeitada com pequenos globos coloridos. No quintal ao lado havia uma casa semelhante. Sobre os degraus uma mulher olhava as crianças que corriam ruidosas por todo lado. A mulher apenas observava. Bartolomeu buscou a figura feminina por alguns instantes. Não reconheceu o rosto. Não reconheceu nada em volta. A mulher trazia nas mãos um pequeno lenço azul. Tentou olhar mais de perto o lenço que ela segurava com força. O tecido tinha uns pontos de linhas soltos na superfície. Não é um tecido próprio para lenços, pensou. Tentou ver mais de perto, num exercício extremado de deslocar-se de onde estava. Era um lenço igual ao pequeno sapato que ele tinha preço ao botão da camisa. Recuou devagar e segurou o pano de lã e com cuidado o desvencilhou do botão.  Lembrou-se do pequeno par de sapatos: estava lá, em algum lugar de sua memória. Sonhara com ele, brincara com ele e subitamente a mulher o tirara. Lembrou-se de tudo como se observasse uma fotografia em movimento. As imagens corriam pelo quarto, como um rio descendo sobre caminho de pedras. A mulher negara-lhe o par de sapatos. Precisou voltar pra casa e não sabia o caminho de volta. Vagou alguns dias por lugares desconhecidos. Sentiu dor e cansaço. Via seu corpo deitado no chão. Olhava, agora, de longe; a mulher e o pequeno tecido azul. Não sentia amor ou ódio. Detinha-se apenas no olhar da mulher em direção às crianças da casa ao lado. Tentava segurar, de algum modo, as lágrimas que nasciam nos olhos dela. Queria gritar que a caixa com o sapatinho estaria de volta em alguns dias e que bastava querer abri-la novamente. Bastava querer. Fechou a caixa com delicadeza e colou o adesivo sobre ela: 2010 era o seu número de sorte. O sapatinho estava lá, protegido em algum compartimento e a mulher o encontraria. Deixou a caixa sobre a mesa e adormeceu. O cansaço tomou conta do corpo e antes de sumir na escuridão do sono, sentiu que ia diminuindo , diminuindo e voltava a ser um ponto luminoso a alguns metros do chão. Sentiu-se conduzido para fora e misturou-se ao tabuleiro de estrelas. Era a viagem de volta. Não queria respostas se a viagem seria curta ou longa. Ia ser parte da mulher e um dia voltariam juntos. Por muitos ou poucos anos seria visto como Bartolomeu o menino magricela de cabelos desalinhados. Sua natureza de Querubim fundia-se na natureza de menino. Poderia caminhar e observar as pedras e plantas. Cantar como as flores e a água do rio e... rir alto, o mais alto que seu riso quisesse.

 

 

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NO CORAÇÃO DE BODHISATTVA GUAN-YIN

 

 

"Se Buscas a saúde física e psíquica

de forma integral, aprendes a amar."

Irmã Sheilla

 

Possivelmente, a melhor fotografia de nossa fragilidade estampa-se nas imagens dos telhados sob luz noturna: folhas secas e pequenos corpos de aves mortas. Nos prédios altos, os outdoors e parabólicas assemelham-se a Samurais petrificados cujas lanças avançam em direção à escuridão do céu. Assustadoramente inertes não protegem as almas que deixam sob os lençóis os corpos adormecidos e voltam às terras outrora habitadas. Contudo, paira sobre o planeta a vigília dos espíritos abnegados que deixam cair sobre os aflitos as pétalas da misericórdia.

 

Lembro-me da aparente normalidade daquelas manhãs de Fevereiro antes do grande Dilúvio. Quando as primeiras ondas invadiram a sala, discutíamos, na mesa da cozinha, se as aulas começariam naquela quinta-feira pós Carnaval.

 

– Acho que não tem aula não, mãe, deve começar segunda-feira.

 

 

Cruzamos a porta em direção ao elevador e não sentimos os pés já cobertos pela água. Lá fora o trânsito apresentava-se calmo para um dia de semana. Não havia nenhum engarrafamento no trajeto ao colégio e agradeci mentalmente aos céus por não começar o dia com buzinas e freadas bruscas. Quando cruzamos o grande portão da entrada da escola e a moça nos estendeu o ticket do estacionamento, considerei que estávamos atrasados para a primeira aula. Talvez um equívoco do relógio nos últimos dias do horário de verão. A estranheza da moça ao adolescente uniformizado no banco ao meu lado foi completada pela comunicação que as aulas só começariam na segunda-feira. Fiz o retorno do carro e observei o olhar cristalizado de Yuzo.  Não houve a partir daí nenhum comentário ao meu monólogo sobre a nova escola e a responsabilidade que isto significava. O menino estava a anos-luz de distância das linhas que corriam o asfalto embora observasse, em silêncio, o traço alongando-se no chão.

 

A grande tempestade que subitamente arrastou o telhado e destruiu parte da casa só foi percebida algumas semanas depois. O menino já não se dedicava aos livros e as explicações vinham monossilábicas e ásperas. Yuzo não se via parte da realidade cotidiana de estudar, alimentar-se, rir sem motivo. Preso na grande sala escura nutria-se da teia da melancolia que tecia ao seu redor. Do lado de fora estavam a família, a escola, o vento no cabelo. Eu via nitidamente a água avançar em direção aos ombros. Em alguns momentos os olhos pediam socorro, o que demonstrava que buscava uma saída. De onde estávamos seguíamos os procedimentos básicos de salvamento: remédios, terapia e fé. As extensas horas de sono compunham a realidade vegetativa dos seus dezesseis anos. Havia vozes dentro dele, elas gritavam ordens de desilusão e morte. Não havia domínio sobre os pensamentos. A mente inquieta e febril ordenava-lhe que pulasse em direção ao abismo. As vozes ecoavam em sua cabeça e ele acreditava no que ouvia. É real, dizia.

 

– Não é real, são apenas pensamentos que você não consegue dominar. É sua voz interior que adoeceu. Só isso.

 

Os meses seguintes nos deram de presente uma ausência que parecia definitiva. Não conseguia imaginá-lo voltando ruidoso e alegre depositando o skate na entrada da porta. Não conseguia ver, da varanda, o cabelo escuro balançando ao vento e a queda seguida da risada sonora. Esses movimentos não pertenciam mais a Yuzo, mas aos outros meninos da vizinhança. Os veículos escolares paravam, pela manhã, na entrada do prédio. Somavam-se mais mochilas amontoadas no canto do carro. Eram os outros, sempre os outros.

 

 

O primeiro diagnóstico que recebemos era uma palavra feminina e grande; interminavelmente grande, eu não ousava repeti-la. Na aridez que o destino sinalizava, percebi um pequeno galho verde que nascia entre as pedras. Os questionamentos incessantes sobre a vida, a alma, a razão porque sofremos, que só deveriam apresentar-se ao menino nos próximos dez anos estavam todos com ele e exigiam resposta. Eu não sabia em que parte do deserto estava o copo de água necessário, então propus que faríamos a busca juntos. Lemos tudo que nos foi possível chegar às mãos. Yoga, Filosofia, Literatura. Ouvimos música, caminhamos pelo parque, fomos muito ao cinema. Líamos e meditávamos o Evangelho do Cristo. Um dia ele me comunicou que descobrira a razão de todos os martírios:

 

– Eu fiz mal a muita gente. Muitas pessoas sofreram por minha causa.

 

Eu lhe dei por resposta o silêncio. Não podia confundi-lo com minhas convicções sobre as multiplicidades das existências e que nossas almas trazem a marca indelével dos nossos atos. Ali, havia apenas um adolescente em lágrimas. Aquele era o seu momento de constatação e mudança.

 

Quase dois anos depois daquela manhã de Fevereiro que seus olhos cristalizaram-se nas linhas do asfalto e ele se desconectou de sua juventude – Yuzo sorri com serenidade. Não existe mais o adolescente de riso alto e pressa. Pais, irmãos e amigos sinceros uniram-se em respeito e colaboração, ele subiu do subterrâneo que afundara. Com suas próprias mãos voltou à luz do sol.

 

Hoje, Yuzo cultiva a harmonia do bem, o respeito ao corpo e a natureza. Adotou uma alimentação saudável, corre todas as tardes no parque e não precisa de antidepressivos. Voltou aos estudos e quer ser Veterinário. Considera-se adepto aos ensinamentos do Mestre Jesus sem nenhuma denominação religiosa. Na verdade, rejeita denominações religiosas. Ainda faz muitas indagações e não dispensou a Terapia. O caminho pleno, sabe, ainda não foi conquistado. Canta e ri como qualquer rapaz de sua idade. Não, canta todos os dias. Matriculou-se numa escola de canto.


 

NOTA: A figura da Virgem Maria é a que mais se aproxima de Bodhisattva Guan-Yin, não somente porque ambas simbolizam – cada qual na sua tradição – a pureza, a coragem, e a fé, mas principalmente porque representam o amor feminino (essencialmente materno), a compaixão e a misericórdia, ou seja, aquela que tudo perdoa. Bodhisattvas (em chinês, pu-ti-sa-to, , ou pu-sa são espíritos perfeitos, como explica Karl Ludvig Reichelt, em Truth and Tradition in Chinese Buddhism.

Kuan-Yin, um dos cinco bodhisattvas mais conhecidos, é o Avalokitesvara Indo-Tibetano, a divindade que atende ao grito da angústia, e se volta para o sofredor. Esta figura, pouco a pouco, vem se destacando mais que outros bodhisattvas para significar o espírito, o misericordioso e bondoso espírito que acende em todas as criaturas o desejo de uma renovação do coração, e que os protege contra toda dor e tristeza. Ela se tornou a Senhora compassiva do oriente.

Conta-se, na tradição popular, que ela foi uma princesa na antiga Índia, a mais bela e piedosa entre todas; não gostava de vestidos luxuosos, nem de pratos finos feitos com carnes de animais, embora tudo isso lhe fosse oferecido como direito. Alimentava-se de verduras, porque não suportava ver animais sendo mortos; vestia-se de panos grossos porque gostava de ser simples; e era a mais piedosa entre as filhas. Mas quando chegou o momento de casar, fugiu do palácio porque queria buscar o seu caminho e se dedicar ao ascetismo, seguir o exemplo de Buda. Ao ser obrigada pelos seus pais a contrair casamento, ajoelhou-se diante do palácio do rei, durante dias e noites, sem nada comer, passando frio e tomando vento e chuva, apenas recitando o “Sutra da Grande Compaixão”. E assim, sua fé venceu todas as barreiras. Quando alcançou o Nirvana, não teve desprendimento suficiente para deixar o mundo, porque a sua compaixão era tão forte e infinita que lhe deu forças para fazer o maior voto que alguém podia desejar realizar: “enquanto houver almas sofredoras sobre a face da Terra, não abandonarei esse mundo, e ajudarei todos a alcançar a libertação”. E assim, ela é oficialmente chamada a “Grande Misericordiosa e Grande Compassiva Bodhisattva Guan-Shi-Yin”. Em chinês, significa literalmente: “Aquela que vê e que ouve o Mundo”). Ela atende todos os apelos. Por mais desesperadas e “perdidas” que as pessoas possam estar, ela é incapaz de abandonar quem quer que seja, budista ou não, pois, na compreensão budista, todos os homens são de natureza búdica (luz que reflete a si mesmo), pouco importa a que religião pertençam; ou seja, seres humanos são budas em potencial. As graças que propiciam a salvação, quer pela Maria Mãe, quer pelo Bodhisattva, nos são oferecidas, de forma aberta e maternal, pacientemente, incondicionalmente e eternamente.

(Ho Ye Chia, Universidade De São Paulo.)

 

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SOBRE MARGARIDAS, ESTRELAS, GIRASSÓIS E MELANCIAS

 

 

Pouco sabemos sobre a vida secreta das plantas, o que sentem, o que pensam, como gastam seus melhores momentos. O certo é que naquele dia as margaridas estavam inquietas, movidas pelo mais feminino dos sentimentos: a curiosidade.

 

– Com certeza serão girassóis, disseram.

 

As primeiras estrelas olhavam lá de cima o burburinho das margaridas e discordaram:

 

– Sem dúvidas, serão melancias! Nós conhecemos as sementes.

 

– Melancias?, disseram as flores, Como vocês podem confundir? Sintam o perfume... e olha que disso nós entendemos.

 

Bem, como ninguém convenceu ninguém, preparam-se cada qual a seu modo para receber flores e frutos. Muitas cartas recebeu a chuva; que viesse dia sim e dia não, mas que chegasse com delicadeza, assim sem muito barulho. Outras tantas recebeu o sol, pedindo que quando fosse por lá, passasse antes na casa da brisa, filha mais nova do vento.

 

À noite as estrelas guardavam os canteiros, torcendo por cada caule fininho que se estendia na terra:

 

– Hum...visto assim de longe, nós estávamos certas, os caules se espalham cada vez mais pelo chão, por certo teremos frutos!

 

Não se cansaram da vigília as margaridas:

 

– Ora, visto assim de perto, tínhamos mesmo razão... Os caules se erguem do chão... por certo teremos flores.

 

Como o tempo tira todas as dúvidas, fez dos canteiros entrecortados, um pomar de girassóis num jardim de melancias. E porque margaridas e estrelas diminuindo distâncias acolheram flores e frutos, contam os antigos que ali nasciam flores de sabor adocicado, e no Outono o melhor mapa para encontrar o Jardim das Melancias era colocar o nariz ao vento.

A terra quando expele a semente traz à luz a vontade do semeador porque também assim são os homens; sementes diferentes com histórias diferentes. Se um ponto dessa história de vida seja nos encontrarmos aqui, neste planeta, os que aqui te encontram te acolhem.

 

Bem-vindos sejamos todos.

 

 

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SER CRIATIVO

 

A criatividade é um ato mental e antes de tudo um simples ato de prestar atenção. É olhar e ver radiograficamente o que nos cerca. É ouvir o que o subconsciente nos murmura ao ouvido, é captar a imagem da tela mental. A percepção visual, tátil e auditiva vão além do que nos mostram os sentidos. Todos nós nascemos munidos desta capacidade de ser criativos, apenas nos acumulamos de tarefas estafantes e concluímos não haver tempo para exercícios sensoriais como estes de “prestar atenção”. Presta atenção o pintor ao iniciar a tela, o escritor ao construir a narrativa, e assim também faz o compositor quando faz nascer do instrumento a melodia. Somos criativos quando encontramos soluções para pequenos problemas ou para grandes desafios. É criativo o aluno quando encontra fora da seqüência padronizada a solução para um problema de Matemática. Cada ser humano tem uma oficina de criatividade escondida em algum lugar do cérebro, basta achar a chave e colocá-la em funcionamento. Grandes artistas são homens comuns que encontraram a chave do ato mental de observar. Antes de tudo é necessário desarmar a alma para se alcançar o objeto a ser criado. È levar este objeto para passear, é dar-lhe movimento, torná-lo elástico em cor e tamanho. É buscar a sonoridade deste objeto. É o exercício de imaginar. Imagine então, que te seja determinado visualizar uma sala. Observe e sinta a sala. Retire mentalmente da sala uma cadeira. Traga-a para a parede externa, movimente-a, coloque-a no teto da casa. Duplique-a, estique-a. Pinte. Desenhe mentalmente a casa, a sala e as cadeiras sobre o telhado. Mostre a imagem por ângulos ousados. A dança do imaginário cria formas e caminhos infindos. A criatividade mantém o cérebro ativo.

Criativo, indagarão alguns, não são também as pessoas que criam estratégias de guerra, instrumentos bélicos de destruição e coisas semelhantes? A criatividade , como o tudo que existe, tem seu lado escuro, porque também é um ato de escolha. Que nós possamos usá-la, para conquistas em nossas vidas, para melhorar o mundo a nossa volta e acima de tudo para acelerar o crescimento espiritual do planeta.

 

15 de Agosto de 2009

 

 

Fonte: Internet, http://asincertezasdacor.blogspot.com/

 

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CHUVA DE PÉROLAS

 

Observa o que a chuva deixou sobre o telhado da tua casa.

O que saltitou entre a porta e se espalhou sobre os degraus e o jardim.

Recolha as pérolas espalhadas.

Há pérolas grandes, pequenas. Guarde algumas com cuidado.

A Pérola da Abundância distribua nos lares humildes

A Pérola da Paciência conserve-a bem junto ao peito.

A Pérola da Alegria junte todas e as espalhe entre moços e velhos

A Pérola da Humildade faça dela um farol diário.

A Pérola da Esperança distribua entre os que choram e nada esperam.

As pérolas menores chamam-se todas Amor, pequeninas por fora

mas capazes de grandes milagres. Elas possuem o dom da

multiplicação, presenteie-as e elas magicamente retornarão a ti.

A Pérola do Agradecimento, ensine a construí-la, ela é fruto da Bondade.

A Pérola do Bom Pensamento te trará muito trabalho e muitas alegrias.

 

(Sopro ao ouvido)

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O MENINO, O VENTO E O MAR

 

 

Uma vez era, entre tantos outros, um menino
Desses que quando olhava da areia o mar, não olhava, via e ouvia.
Desses que, ainda sob as estrelas, enquanto os outros meninos dormiam, espreitava.
Vinham os homens e arrastavam do jirau as redes,
deslizavam pelas areia seus barcos e suas tralhas.
A culpa era deles que partiam dali, bem em frente à fresta do seu quarto
Ou seria do vento, que cedo lhe soprara boca adentro o cheiro de maresia?
O menino era assim: pasta de areia e água
Lá fora as ondas tangenciavam os cascos
O menino estendia a camisa aberta sobre a cabeça e desancorado, corria.
O menino mareava em terra.
A tarde devolvia os homens, os barcos e os peixes. As pessoas vinham vindo, cercavam os barcos
O menino sentia-se pronto, para o mundo era um menino miúdo
Solitário apresentava-se ao mar, voluntário de um exército ainda futuro.
O vento balançava-lhe a bermuda...
Só ele , o vento e o mar.
Alguém gritou da janela:

_Menino! Entra, tá frio!

Obedeceu.
Lá fora, o vento velava um barco ao mar
Mar de leitos de rios, água doce em sal.

 

                                                                      

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A ARCA DE NOÉ

 

 

 

 

“Lá vai São Francisco pelo caminho

De pés descalços tão pobrezinho

Dormindo à noite junto ao moinho

Bebendo a água do ribeirinho...

Lá vai São Francisco de pé no chão

Levando nada no seu surrão

Dizendo ao vento

Bom dia amigo,

Dizendo ao fogo

“Saúde, irmão” - São Francisco, Vinícius de Morais.

 

 

Às cinco horas da tarde quando o vento tomba os lençóis no varal e varre as folhas da rua, qualquer pedido feito com uma caixa estendida nos faz olhar um pequeno grupo de meninos como um santo olha os fiéis do altar: com respeito e comiseração.

 

− Só hoje mãe, amanhã a gente arranja um lugar pra ele, vai chover e ele está morando lá embaixo da árvore.

 

− O que é isso? Um rato?

 

− Não mãe, é um gatinho.

 

Lá estava eu concordando com vinte quatro horas de hospedagem. È claro que o gato cresceu e fez parte da família, assim como o pinto de cor lilás comprado na feira.

 

− Achei tão bonito e o menino se encantou com ele. Tinha de todas as cores, você precisava ver!

 

Pelos dias dos pais e pelo encantamento do menino, o pinto que dias depois era um pequeno ser cor de rosa andando pela casa, por algum tempo, fez parte da família. Temi pela segurança dele. Seguia qualquer um, piando sem parar, como se perguntasse se sabíamos aonde era o planeta de seres de penugens coloridas como ele. Nunca obteve a resposta. Uma semana depois ao chegar do trabalho, vi o cortejo fúnebre em direção ao fim da rua. Uma caixa com flores e meia dúzia de meninos cabisbaixos dizia adeus a uma pequena ave esmagada pelos pés do filho do meio.

 

− Esse moleque é desastrado mãe, matou o pinto! O acusado me deu um olhar de socorro, não tive culpa.

 

Alguns dias depois caiu na área de serviço, o pássaro azul e branco. Cauda longa, asa quebrada.

 

− Mãe, a gente pode ficar com ele?

 

−Não, passarinho tem que viver livre.

 

−Ah... mãe só até ele sarar.

 

Está bem, mas tem que ficar solto. As paredes do fundo são altas, ele não dá conta de ir embora mesmo.

 

O lindo pássaro azul, que por mais que eles buscassem nos livros não descobriram a família viveu por três semanas na área de serviço. O canto matinal entrava pelos quartos e como se vivêssemos no campo recebíamos os dias. Lá fora está uma floresta imensa me esperando, era o que eu sentia enquanto calçava os chinelos para ir à cozinha.

Numa manhã estranhei o silêncio do hóspede alado. A área de serviço estava vazia, ele de novo era uma ave forte. Voara pro mundo, sem adeus, sem bilhete de despedida.

 

              Quando a vida corria em seu leito de normalidade, chegou Roger – o coelho branco. Aquela coisinha macia dormia no meu braço, como um anjinho que caiu do céu. Havia suspiros pela casa, tão encantados estávamos com o ser angelical. Passou o tempo e o coelho cresceu, assim como alguma coisa libidinosa dentro dele. Ele conhecia cheiro de mulher, com um olfato de lobo caçando lebre. Alvoroçava-se e dava pinotes. Se fosse um daqueles dias de ciclo feminino, o coelho enlouquecia. Eu só podia cuidar dele de calças compridas. Tudo bem, mas o que fazer com as visitas?Alguns minutos depois que uma amiga chegava, lá estava o coelho exibindo o sexo rosado. Engraçado para as mais chegadas, constrangedor para as visitas formais. Era ainda, péssimo exemplo para os meninos que viviam tentando explicar ao coelho que aquele era um comportamento impróprio diante das damas. Inútil: um dia doamos o coelho ao vizinho.

Como vai o Roger?

 

Ah... tá, tá... tá bem.

 

Senti um cheiro de coelho assado no ar. Desviei a atenção dos meninos e nunca atendi aos pedidos de ir ao sítio para rever o bicho. Seria cruel demais.

 

Antes do cachorro, para ajudar na cura de uma depressão extremada do menino mais novo que acabara de chegar aos doze anos, morou lá em casa um papagaio. Achei muito esquisito o pedido, mas o que não fazemos para ajudar os filhos? Uma doença emocional tira-nos do eixo, e fragiliza-nos a vontade.

 

Está bem, mas não gosto de passarinho preso.

 

E acredite, tivemos um papagaio voando pela cozinha. As janelas viviam fechadas e os rasantes sobre a panela de água quente eram frequentes. Um dia pensei: isto é surreal é melhor que ele tenha um cachorro.

 

O gato? Quando adulto fugia para o telhado para namorar e de lá para a boemia noturna. Voltava sempre machucado.Morreu na Uti de uma virose antifelina. Foi um chororô sem fim, jurei nunca mais ter bichos.

 

Finalmente entre nós um cão. Uma cocker que roeu doze pares de sapatos, quatro controles remoto, o sofá novo e mais uma lista interminável de objetos. Alguém mencionou ser saudável que ela tivesse filhotes e lá estavam cinco filhotes correndo pela casa arrastando as meias do cesto.

 

Aos poucos, as estórias dos bichos se tornam risos e com o tempo serão lendas de um tempo que nunca mais viveremos. Sim, todos os bichos merecem o céu. Tem algo mais angustiante que miado de gato no meio da noite? Ele tem fome - penso, e se perdeu da mãe. Chego à janela e tento ouvir o lamento. Um dia , quando eu me for, encontrarei São Francisco andando pela noite com um pires de leite atrás de um gato faminto.  Francisco irá sorrir e dizer que todas as aves, coelhos, cães e felinos são simples instrumentos de nossa paz.

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QUARTOS CRESCENTES

 

  

  

À lenda de Ann Radcliffe, aos poetas e escritores que trabalham a palavra enquanto os outros dormem.

 

 

Nunca entenderei as palavras murmuradas por eles. Cobrem  a boca com a mão quando falam.  Nunca entenderei porquê cessam a música e a gritaria quando espreito do quarto. Havia um tempo que choravam todas as noites e corriam pelos corredores. Conheço todos. Dei-lhes o destino que mereciam. Muitos não aceitam  e arrastam a ponta da corda que lhes amarra os pulsos, rasgam a mordaça dos dentes. Aos poucos, as atitudes tornam-se  ingênuas e repetitivas: alguns se escondem no armário das louças. Eles insistem em mutilar os corpos, escondem-se aos pedaços.  Nunca sentenciei  nenhum à  morte. Os atos seguidos um após o outro lhes deram a natureza cruel do destino. Às vezes, recomeçam o mesmo Ato, como se entrássemos num teatro e a cena se repetisse infinitamente.

 

_ Senhora Condessa, o chá está pronto!

 

 

Ouço os passos no andar de baixo e aguço o ouvido na porta. Os verbos se misturam numa Babel sonora e ruidosa. Não posso entender o que querem. Sei que olham insistentemente para o quarto na parte de cima da casa. Procuram sempre. Tropeçam quando tentam invadir os degraus. Abismos de serpentes e rios de lodos os arrastam de volta ao degrau de baixo. Se eu dormir eles poderão subir. Não posso dormir nunca. Como dar-lhes de presente os abismos e rios escuros?  É uma guerra constante.  Sempre troco a xícara de chá que o criado deixa sobre a escrivaninha. William bebe a xícara que seria minha e dorme facilmente. Certifico-me então que a receita do médico está no chá. Não fazem por mal, querem livrar-me de maneira errada, mas eu sou minha única defesa.

 

Estou cansada e o pensamento se estreita cada vez mais.  Há uma coroa de espinho sobre a fronte, sinto o risco do líquido que me desce no canto do rosto. Se os outros chegassem tudo seria diferente. . Mudaram-se para longe, além dos mares e nuvens, riem e cantam tão alto que nunca olham para baixo, nunca ouvem o que grito.  Dei-lhes a felicidade de presente, a vivência de um amor merecido. Há um terceiro andar sobre a casa. As paredes são de vidros e às vezes, sei que eles, os que cantam, estão lá no terceiro andar. Tão perto, mas fecharam hermeticamente as portas. O salão de cristal em que se encontram pesa sobre o forro do quarto. Há uma ferramenta comprida na despensa  quando o dia amanhecer a trarei para o quarto e tentarei chegar ao salão de vidro pelo telhado sobre a cama. À noite é impossível descer e chegar ao pequeno quarto, nunca sei aonde eles, os que choram se escondem.  Quando cochilo, ouço os passos que vencem os degraus se beirando da porta. Sento-me assustada sobre a cama. Penso e dou vida a um exército de dragões e o fogo os rola de volta ao salão da casa.

Por que o dia nunca amanhece? O relógio sobre a mesa insiste em dar voltas em torno das três horas. Preciso ir ao quarto da despensa. Há vozes sobre o forro do teto do quarto, o que me diz que os que amam e cantam estão reunidos lá. Só eles podem salvar-me de vez. Como descer até o subsolo da cozinha? O guarda-chuva de William está no canto do quarto, seria possível destruir o forro do teto com a ponta dele? Se eu enrolar o lençol na ponta do guarda-chuva o ruído será abafado.

 

Não me lembro claramente o  que aconteceu após a decisão de usar a ponta do guarda-chuva. Lembro-me apenas de um cansaço ofegante e que apoiei o peso do corpo sobre os pulsos e atingi o andar de cima. Lembro-me de ver o corpo de William dormindo de lado e o lençol cobrindo parte de seu corpo. Lembro-me, ainda  que pude ver lá do alto a porta do quarto sendo empurrada, e dezenas deles subindo sobre a cama. Olharam o corpo deitado indiferentemente. Pela segurança de quem dormia  imaginei um rio de água e limo dividindo o quarto.

 

Antes da água atingí-los, olham para o alto. A claridade que me rodeia  e a música suave chamam minha atenção. Uma moça de sorriso agradável estende-me a mão, o rapaz que atravessou oceanos e tormentas para encontrá-la está ao seu lado:

 

_ Senhora, seja bem-vinda! Aguardávamos a sua chegada!

 

 

Ann Radcliffe nasceu Ann Ward no ano de 1764 em Londres. Casada  com o jornalista William Radcliffe abriu escola na literatura gótica.  Sua literatura é feita de uma linguagem  simbólica e visual, próxima à poesia. Suas heroínas sofrem, apenas, para dar fio à trama. Se um escritor gótico iniciasse o capítulo de uma novela qualquer descrevia um velho castelo, uma tempestade de raios e trovões e um estranho vulto que passa entre as árvores. Ann falaria de uma noite de lua, do reflexo da coruja na grama úmida e o vulto de um jovem amante e sua capa escura. Por mais que o amor sofra, Ann dá a ele um final feliz.

Atribui-se à escritora o hábito de ingerir comidas pesadas à noite para ter pesadelos e inspirar-se para escrita. O lado sombrio da escritora vem justificado por duas razões: Era moda na Inglaterra este tipo de literatura e cada um exterioriza o que tem dentro de si. Após uma infância solitária entre adultos a moça afundava-se em personagens imaginários para suportar a imensidão da casa em que morava com os tios. Essa mistura de nostalgia e flor dá-nos a literatura admirável da Senhora Radcliffe.  A versão oficial de como deixou este mundo, fragmenta-se.  Dizem que enlouqueceu perseguida por seus personagens, caiu montanha abaixo numa de suas viagens pelo norte da Europa, ou morreu como a maioria das pessoas da época: de doença dos pulmões. Quem sabe, um pouco de tudo.

 

 

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O ROUXINOL E A COTOVIA

 

 

 

 “Toda esta noite o rouxinol chorou,

Gemeu, rezou, gritou perdidamente!

Alma de rouxinol, alma da gente,

Tu és, talvez, alguém que se finou! “

 

                     Alma perdida - Florbela Espanca

 

 

 

NOTURNO

 

Todas as noites, despido da farda do sono, nosso espírito sobe a escada que leva ao sótão em busca da caixa.  Todas as noite procuramos incessantemente na caixa o velho álbum de fotografias. Uma vez aberto o livro, procuramos a chave que abre as outras portas. Na roleta de centenas de fechaduras e pilhas de chaves entrelaçadas, tentamos mais uma vez abrir a porta certa para um campo verde, um céu ensolarado: uma casa grande, povoada de risadas e cortinas brancas.

 

 

 

Salinas, sul do Espírito Santo, 1928.

 

 

Chamam-me Magnólia. Meu pai deu-me esse nome de flor porque amava o perfume delas. Pegava-me no colo e lá do alto eu ouvia seus lábios movendo-se:

- Minha florzinha cheirosa!

 

Se pudesse, eu escreveria tudo que vivo num diário e depois de findo o dia, voltaria ao passado, estendida sobre uma cama com lençóis branquinhos. Interromper o escovar dos cabelos e deixar as palavras se acomodarem sobre os travesseiros. Uma a uma, escolheria as letras e elas iriam florescer como um jardim. Isto se eu pudesse. Não fui à escola e no quarto não há camas. Estendem-se pelo chão esteiras secas e gastas. Algumas têm as pontas desfiadas e fazem cócegas no nariz. Enquanto todos dormem espero o sono que ronda o quintal lá fora. È noite escura e a coruja pia. Os sapos fazem coro e acendo a lamparina. Milhares de patas cruzam minha cabeça como um turbilhão de cavalos correndo em direção ao rio. Posso sentir o riscar das patas na terra em todos os sentidos.  Curvo-me em direção à lamparina e  com a parte fina do pente risco  a cabeça dolorida. As feridas voltam a doer e dezenas de pontos negros descem em direção ao fogo. Estalam quando queimam e o cheiro inunda o quarto. Sonho com um cabelo limpo, cheio de ondas que descem até os ombros. As ondas brilham e cheiram à alfazema.  Sonho com um quarto e uma cama macia, e nele só eu durmo. Sonho com minha mãe de volta e broa de milho novamente no café da manhã. Lembro-me do dia que ela desceu os três degraus da entrada da casa, arrastando uma mala grande, sem olhar pra trás. Espalhou os filhos na vizinhança e bateu a porta. Nunca deciframos Adelina e seus segredos.

 

Todas as moças dormem. Coçam incessantemente a cabeça durante o sono, mas nada as acorda. O trabalho na roça é árduo: doem-me os braços e os dedos dos pés. Por que estou lembrando, agora, do homem fardado que parou o cavalo na porta da casa? Rapaz alto, pele queimada pelo sol, um dente dourado do lado esquerdo. Todos os homens deveriam ter dentes de ouro e relógio no braço... Ele procurava alguém, tenho certeza. Olhou pra dentro da casa e pro bordado que eu tinha sobre as pernas. Faltam poucos meses para o casamento e muitos sacos a serem bordados. À noite, as costas doem e o trabalho não rende; é melhor costurar antes do escurecer. Em Setembro, Abílio retorna ,estou certa, e direi adeus a todo o sofrimento.  Digo em pensamento adeus a casa e a essa família que não pertenço.  Oito moças negras dormem espalhadas pelo chão. Foram minhas irmãs quando a ausência materna me levava para trás da casa para chorar escondido. Dividimos a água da moringa e a tapioca esturricada sobre a mesa. O banco da carroça e as orações da missa. Aprendi a cantar e cerzir, a raspar mandioca e espremer a puba. Tudo o que aprendi, aprendi com elas. Cada uma traz um tesouro guardado. É o tesouro da virtude lhes diz a mãe. Os olhos das moças brilham como espelhados num poço fundo. À noite? Elas desencantam e como estátuas tombam, dormem pesado sobre as esteiras nuas.

 

 

 

Salinas foi tragada pelo mar, 2008.

 

 

Numa das noites em que a única moça branca da casa não conseguia dormir porque os pés doíam, houve repentinamente um ruído forte entre a cerca e a porta. A janela foi arremessada para o fundo da parede e o homem entrou. A moça reconheceu o homem fardado e faltou-lhe a voz para gritar. As irmãs dormiam e não se mexeram com o arremesso da janela. O homem com botas longas entra no quarto e sem pedir licença a arrasta para o escuro da noite. È o rapaz fardado, é ele. Tem os olhos graves e por breve instante seus olhares cruzam. Sente o corpo jogado para o alto e as mãos fortes do homem a segura pela cintura.

 

A luminosidade é pouca e a moça tenta se soltar do nó que os braços lhe fazem em volta do corpo. O cavalo corre pela trilha ladeada de galhos e ela lembra-se dos sacos por bordar dentro do caixote sob a mesa. Sente a proximidade do homem e o abraço não é macio como o do noivo. O estremecimento do peito é medo. Na curva da ponte vê a casa afastando-se como um fantasma fincado no escuro. Os dias, a casa e a vida sonhada correm rápidos sobre o rio ao lado do cavalo. O animal pula as pedras e curva pro lado oposto ao rio. Sente a respiração forte do homem sobre os ombros. Sente uma saudade antecipada de tudo que a mão já não alcança.

 

Quando o noivo volta a moça há meses não vive na casa, e os padrinhos lamentam a fuga e a falta de notícias. Sabem que foram para a serra e passaram por lá duas semanas.  Algum tempo depois houve o casamento na igrejinha antiga, aquela que fica depois da ponte e o rio. Deixou todos os sacos bordados no caixote do quarto e nunca veio buscá-los.

 

-  Então ela não conhecia o soldado?

 

-  Viu pela primeira vez naquela manhã.

 

-  Por que ele fez isso?

 

- Vingança. O tal Abílio dormiu com a mulher dele enquanto ele estava no exército.

 

-  Mas ele casou com a moça!

 

-  A intenção era levá-la pra longe e desmoralizar o noivo. Ele não se aproximou dela enquanto estavam na casa da serra.  A moça disse ao soldado que não poderia voltar à cidade, duas semanas depois, como se nada tivesse acontecido. Disse ainda que o noivo não ia aceitá-la de volta, só restava-lhe casar com ele ou morreria de vergonha.

-  O noivo sabia a razão de tudo?

 

-  Sabia. Tanto que nem a procurou. No mesmo dia partiu pra cidade e não mais voltou. Teve medo do soldado.

 

E como foi a vida dela?  Preciso escrever o final  da estória.

 

Escreva que viveram de cidade em cidade, como se ele procurasse alguém. Tiveram muitos filhos e dormiam em quartos separados. A moça tornou-se, de vez, uma mulher da terra. Uma mulher de braços e coração forte; dessas com as unhas dos pés encravadas e tamanco de madeira sob o calcanhar rachado. Não mais sonhava com quartos claros e cama macia. Nunca aprendeu a ler, mas tinha uma sabedoria que não se aprende nos livros, floresce na alma como um jardim.  A mãe voltou numa manhã de sol e ela abriu-lhe a porta e os braços.  O noivo transformou-se em uma mancha que foi se apagando antes do sono, como uma foto desbotada. Se a moça ao dormir subia ao sótão das lembranças e procurava a chave, nunca vamos saber. Se a moça corria pelos campos verdes e encontrava a casa iluminada e o seu amor lá dentro, também não saberemos. Morreu numa cama de hospital cercada de tubos e lençóis brancos. Finalmente os lençóis.

 

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DE NOVO O NATAL

 

 

“Se queremos um mundo de paz e de justiça, temos que pôr decididamente a inteligência a serviço do amor.”

                            Antoine de Saint-Exupéry

 

 

Para uns o Natal tem gosto de infância

Papel colorido embrulha sorrisos.

Para as mães é família

Barulho de gente, risadas borbulham em volta da mesa.

Para outros é sopro por entre os cabelos

Que leva os cachos dourados dos anjos

Prá dentro das almas de todos os homens.

A legião de sofridos, agora meninos

Espalham-se nas nuvens

Balançam felizes os sinos da igreja

Arrastam-se nos vidros dos arranha-céus.

As mães, da cozinha, se assustam e gritam:

  – Devolvam os meninos, porque é Natal!

Natalino, o Espírito, é pura bondade

Retira das almas dos homens os cachos dourados

Espalha em guirlandas* nas portas das casas.

Os meninos embrulham presentes em papéis coloridos

Abrem as portas para todos os outros entrarem.

As mãos misturam-se em volta da mesa

Agradecem, afagam, de novo é Natal.

 

Dez//2008

 

 

* Grinaldas ou coroas.

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O COMETA AZUL

  

Esta é a história do nascimento do menino-Deus. 

Contada por Amorosa Violeta Margarida dos Jardins - A Vaca. 

Bumba Alegria- O Boi, 

Chico Cansado - o Burro 

e Breennda, a Ovelha.

 

 

Dizem que tudo aconteceu em Belém. Outros juram que foi lá para as bandas de Nazaré. O certo é que um tal de Anjo Gabriel recebeu por missão encontrar uma casa para a chegada do menino-Deus. O anjo acordou bem cedinho e subiu de mala e cuia na "cauda de um cometa". O anjo viajou dias e noites sob tempestades e ventos, sob o calor do sol e o brilho das estrelas. A casa que ele procurava não poderia ser uma casa qualquer. A casa deveria ter quatro marcos: o Amor, a Alegria, o Trabalho e a Esperança. Depois de muito viajar, ali estava sob o maior de todos os clarões da lua; com poucas paredes de madeira, um rasgo grande no telhado - A casa. Na verdade, o anjo olhando assim do alto, nem achou que era realmente uma casa, mas Gabriel pousou ali suas asas.

Na casa moravam: Amorosa Violeta Margarida dos Jardins, a Vaca. Farta, tanto de leite como de amor no coração. Bumba – Alegria, o boi. Boi caprichoso, bonito e namorador. Vivia ainda Chico Cansado, o Burro. Burro sim, mas trabalhador como nenhum outro. Morava ali ainda: Breennda a Ovelha. Bem, na verdade, ela não era assim uma ovelha como costumam ser as ovelhas: enquanto tricotava, lia runas, consultava Tarot e fazia Mapa Astral.

Naquela noite, Alegria, o Boi chegava de mais um baile, cantando e rodopiando pelo estábulo, elegante e perfumado como sempre. Parou contudo perturbado com o brilho imenso, do que parecia ser uma estrela entrando pelo buraco do telhado. E foi assim, pescoço torto e rabo espetado que Amorosa Violeta Margarida dos Jardins, a Vaca o encontrou.

 

– Alegria, o que foi?

– Essa estrela, minha flor, olhe!. Não estava aí quando eu saí. Que brilho intenso, chego a ficar arrepiado.

 

A vaca olhou para o céu e ficou também admirada.

 

– Na última noite, disse o boi. Eu tive um sonho estranho. Sonhei que ali na entrada da porta havia uma cestinha e dentro dela uma criança. O menino era nosso, nós devíamos cuidar dele.

 

Foi quando naquele momento chegou o Burro.

– O que vocês admiram tanto aí no céu? É uma estrela? E sacou do bolso uma luneta.

 

– Que estrela admirável! continuou o Burro. Nunca vi uma estrela assim. Sabe eu também tive um sonho. Sonhei que eu estava lá no campo arando a terra. Era de tarde, eu estava já , cansado... cansado... quando puxei o arado , ali estava entre o feno espalhado: um menino.

 

– Hum não sei não, esses sonhos com criança, só pode significar que teremos mesmo um menino. Mas que cheiro esquisito é esse?, falou a Vaca.

 

– Eu sempre falei para vocês no alinhamento dos planetas que nos traria uma estrela anunciando a Era de Peixes. ... Disse Breennda a Ovelha enquanto espalhava incenso pelo estábulo.

 

– Todos esses sinais, continuou a ovelha, significam que um novo tempo está chegando. Um tempo que nos ensinará o amor entre os homens.

 

– Bem, disse o burro. Eu sempre achei essa ovelha esquisita mas devo dizer que alguma coisa está para acontecer. Essa luz intensa, todos nós sonhando com um menino... acho que teremos visita.

 

– Visita? disse a Vaca. Estejam certos que esta casa não está muito em condição de receber a visita de um menino. Então, VAMOS À FAXINA!!!

 

E a Vaca distribui vassoura, rodos, sabão e todos iniciaram a limpeza da casa. Trabalharam toda a noite e tão cansados ficaram que adormeceram e não notaram a chegada dos visitantes. Quando acordaram no dia seguinte, ali estava entre eles: O Menino.

 

O Menino passou naquela casa, que nem era realmente uma casa, apenas uma semana. Alimentado pelo leite da vaca, adormeceu no lombo do burro. Riu com as piruetas do boi, aqueceu-se com a lã da ovelha. Faz parte da estória dele as primeiras lições de Amor, Alegria, Trabalho e Esperança.

 

Que neste natal, você receba o menino, alimente-o, carregue-o entre os braços, brinque com ele, aqueça-o e o presenteie a alguém.

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Luísa Ataíde veio a Lisboa para oferecer

uma 1ª edição (1871) do romance Herança de Lágrimas

de Ana Plácido (Lopo de Sousa)

 à Biblioteca Nacional de Portugal.

O Dr. Jorge Couto, seu Director, recebendo esta valiosa oferta

 em 24 de Setembro de 2008:

 

  

Luísa Ataíde entregando o exemplar ao Dr. Jorge Couto,

Director da Biblioteca Nacional de Portugal

 

Luisa Ataíde assinando a escritura oficial da entrega da obra

 

Frontispício da obra

Herança de Lágrimas

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PRÉMIO Literário Rachel de Queiroz

Luísa Ataíde ganhou o Prémio Literário Rachel de Queiroz, nas três modalidades em que concorreu: conto e poesia (primeiro lugar), crónica (menção honrosa). O primeiro, Cemitério de Estrelas, baseado na vida e obra de Camilo Castelo Branco, é uma narrativa que se desenvolve à volta de um escritor que morre e deixa os seus personagens "a vaguearem como estrelas mortas".

 

Segundo a autora, Camilo é, no Brasil, pouco conhecido do grande público. A crónica O Entregador de Livros, inspira-se no caso de um escritor que doou seus livros por não os conseguir vender. Finalmente, o poema foi titulado "Memórias Brancas". Os Prémios foram atribuídos no dia 3 de Junho de 2008, num restaurante típico de Brasília.  A contista que, com regularidade, nos tem enviado, gentilmente, os seus contos tão marcadamente surrealistas, pôs agora à nossa disposição os três trabalhos premiados, que vamos colocar online, com a maior satisfação, na página do nosso site que oferecemos à colaboradora de Brasília.

 

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OS GIRASSÓIS AZUIS

 

 

 

 

 

 

É preciso ter o caos dentro de si para dar à luz uma estrela” 

Nietzsche

 

 

 

Da varanda do quarto vê-se uma pequena árvore sem galhos que nas madrugadas produz frutos.  A claridade noturna sobre o fruto umedecido, que lentamente tomba em direção à proteção de cimento, age sonoramente. É  inevitável acordar.  Os primeiros anos eu achava tratar-se de um pé de damasco, esturricado e sobrevivendo cada dia um pouco. Todas as casas da vila são brancas e possuem jardins. Uns plantam rosas, outros margaridas, alguns deixam a grama estender-se como uma cama verde. Recebi a casa com os girassóis aos fundos. Lembro-me da primeira vez que vi a luz do sol se alargando sobre as pétalas abertas ao vento. O perfume inundava toda a casa. Imaginei que ali cresceriam os doze filhos que eu pretendia ter. Paulo, Pedro, João, Marcos... todos os apóstolos que o criador quisesse me confiar correriam entre os canteiros dourados. O jardineiro estava parado junto ao portão e esperava a resposta se eu ia querer seus serviços. Respondi a sua indagação com uma pergunta.

 

Eles sempre brilham assim?

 

O homem olhou para o campo amarelo como se o visse pela primeira vez.

 

-  Os donos da casa foram embora por causa dos girassóis azuis.

 

-  Ahn...

 

Não quis alongar a conversa e disse não ter interesse nos serviços do jardineiro. Ter um estranho mexendo nos canteiros era-me totalmente desconfortante. Instruída com manuais de jardinagem, avental e ferramentas que eu nem sabia o nome resolvi cuidar do pequeno quintal. Só percebi a árvore seca na varanda muitos meses depois. Às tardes, sento-me no pequeno banco diante do jardim da casa e inevitavelmente lembro-me desta primeira manhã diante do oceano de pétalas amarelas. Havia um cavalo grande no fundo do quintal, que se espantou com a minha chegada e correu em direção à mata que contornava as casas da vila. Foi tempo suficiente para ver o rabo de crina farta e ouvir o trotar das patas sobre as pedras que completam a trilha à saída do terreno.

 

- Que belo cavalo, a quem pertence?

 

O homem olhou para todas as direções e informou não ver animal algum. Foi quando lhe perguntei sobre o brilho das folhas amarelas.  A partir daí chamei secretamente de Encantado o animal de crina e rabo farto.  Histórias sobre a casa número um da vila ouvi muitas, durante toda a vida. Que o antigo dono corria as madrugadas entre os canteiros tentando evitar que as pétalas mudassem de cor. Fadado a missão de não deixar que o cavalo comesse as folhas amarelas, pois uma vez sem pétalas as novas folhas, segundo ele, nasceriam azuladas. Corria de um lado ao outro. Sempre que as noites de lua visitavam as casas da vila, o pobre homem sentava no meio do campo florido e chorava copiosamente.  Restou, alguns anos depois, levado pela ambulância da cidade, amarrado e aos gritos. A família, em alguns meses, resolveu vender a casa.

 

No terceiro ano vivendo ali, recebi a notícia da chegada do menino.  A espera foi curta pois a notícia, da semana seguinte, foi que ele não mais chegaria. Passei alguns meses sem cuidar do jardim, e entreguei-me a desilusão da orfandade de filhos. Estavam suspensos todos os projetos de pegadas pequenas entre os canteiros amarelos. A parede da sala de jantar é de vidro e pode-se ver o vento balançando as pétalas grandes.  Eu segurava ainda a xícara de leite quente entre os dedos quando ouvi o barulho. Era o ruído abafado de um trotar forte vindo de fora, sim era um ruído. Atravessei a porta aos saltos e senti apenas o vento sereno sobre as flores. Tombavam lentamente: caule, folha e pétalas amarelas.  Nenhum sinal do bicho.

 

Sentei-me nos degraus da varanda e percebi que era o chamado de volta a vida.  Contudo algo mais me chamara. Não era apenas o ruído de algo que não vira. Sentei-me no segundo degrau da varanda e olhei o que era uma grande bandeira dourada dançando em direção à mata. Senti alguém puxar a ponta do vestido.  Era um menino pequeno, minúsculo como um menino polegar. Apontava as aves voando depois da mata. Sorria. Tinha o cabelo muito liso e a pele morena. Passei a conviver com o menino algumas horas do dia. Tiago, chamei-lhe assim, pertencia ao mundo do que poderia ser. Algo dentro de mim avisava todo o tempo que só eu o via. O menino não falava nunca, embora aparentasse quase quatro anos de idade. Comunicava-se por gestos. Um dia dei-lhe uma caixa de lápis coloridos para que desenhasse. Apontei-lhe o jardim.  Ele ignorou todas as cores: era um jardim, azul, branco e alguns tons de violeta.  Tomei-lhe das mãos o desenho e senti uma pequena pressão do lado direito do ouvido.

 

Anos depois os outros três meninos chegaram a casa. Continuei conversando com o pequeno Tiago diante do jardim quase todas as manhãs.  Oito apóstolos deixaram de bater a porta nos anos seguintes. Tive sempre a impressão de vê-los enfileirados me acenando em direção à mata. Essa visão franciscana me acompanha sempre antes do sono. Mas, foi dado mais do que o previsto. Contrariando todas as previsões médicas três crianças estavam do lado de dentro da casa. O polegarzinho, ainda, dormia em algum ponto do jardim. Quando os meninos partiam, pela manhã, com mochilas transbordando livros, em direção à escola, ele corria entre os corredores dos quartos.  Com o tempo passei a não comunicar aos membros da casa que o menino ainda habitava entre nós. Sossegaram medicamentos, terapias, sobrancelhas arqueadas e risos. Eu estava de volta a pia de louça suja como todas as mulheres da vila. Não há nada mais real e saudável do que uma casa por limpar. Ninguém nunca, contudo, tentou explicar o pé de damasco sem folhas, na varanda do quarto, que produz frutos todos os meses do ano: um único. Um após outro, carnudo e doce.

 

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MEMÓRIAS BRANCAS

 

“... é a minha alma que se desprende dos laços terrestres e anda pairando no espaço com sua irmã fugitiva...”

Lopo de Souza

 

 Sempre é o lugar de ontem.

Todos montados, sobre cavalos, estendem cabelos ao carrossel do Vento.

A lua filtra a claridade da rua

A casa e a rua sobrevivem ao tempo.

Aonde andam os meninos, os risos, as lágrimas, os gritos?

Os que aqui viviam habitam outros sonhos, outras vidas, outros dias.

Pintaram a casa, mudaram as janelas, apararam o jardim.

Trocaram o telhado, há pouca mobília.

Os personagens dos livros sentam-se à mesa, dobram lençóis, regalam-se nas sombras

Atravessam as paredes, desbotados, antigos

Não sabem o rumo de suas estórias.

O homem se foi; a mulher e seus filhos para terras distantes.

A cidade adormece, as luzes se acendem, é a mulher que volta.

Remexe o fogão, sobe as escadas e limpa a poeira.

Recolhe das cinzas pequenas memórias.

Esfrega  nos dedos

Memórias sem vidas, branquinhas... branquinhas...

Observa os homens que saem dos livros

Apaga as luzes e volta pro parque.

Todos montados, sobre  os cavalos,  estendem cabelos  ao carrossel do vento.

O Ontem agora é um lugar de sempre.

 

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O ENTREGADOR DE LIVROS

 

 

“Não sei se a vida é curta ou longa demais para nós, mas sei que nada do que vivemos tem sentido se não tocamos o coração das pessoas. Muitas vezes basta ser colo que acolhe, braço que envolve, palavra que conforta, silêncio que respeita, alegria que contagia, lágrima que corre, olhar que acaricia, desejo que sacia, amor que promove. E isso não é coisa de outro mundo, é o que dá sentido à vida.”

                                                                         Cora Coralina

 

                                                         

Diz o filme “Peixe Grande” que um homem conta suas histórias tantas vezes que ele se mistura a elas e elas sobrevivem a ele, e é deste jeito que ele se torna imortal.  Manuel de Jesus Lima é um Contador de Histórias. Discípulo de Cora Coralina redigiu o primeiro livro da escritora. As tardes da Casa da Ponte, feitas de café passado no coador e doces cristalizados, ficaram para sempre nas águas do Rio Vermelho; nas calçadas de pedras de Goiás Velho. No caminhão de mudança para Brasília, apenas boas lembranças da cumplicidade literária entre o rapaz Manoel e Dona Cora. A reportagem de capa do Correio Braziliense, de 14 de março, nos fala como um homem pode salvar o seu sonho. Autor do livro A Guerra de Juquinha e outras Guerras, cuja edição foi custeada com as economias ao longo dos anos, não conseguindo vendê-los tomou uma decisão extremada: colocou um anúncio nos classificados doando-os a quem os quisesse, bastando telefonar. Desde então seu telefone não parou mais de tocar. Regularmente, Seu Manoel pega sua camionete branca e faz as entregas dos livros. Bibliotecas, residências, escolas. Quem pede, lá vai ele dirigindo ao encontro de um provável leitor de sua obra desconhecida. Provavelmente seus dois mil exemplares ganharão definitivamente leitores donos, pois neste país diz o dito popular: de graça, até injeção na testa. Numa linguagem de Guimarães Rosa, onde os personagens se misturam como numa novela de Garcia Marques, estão as aventuras do menino herói do Sertão. O ato de generosidade do escritor é, antes de tudo, um protesto às editoras nacionais que se apropriam do maior percentual dos exemplares vendidos. Manoel, servidor aposentado do Tribunal de Justiça, nunca deixou o exercício da escrita e isso o diferencia dos outros senhores de cabeça branca que cruzam por ele nas trilhas da caminhada matinal. Cercado por uma legião de personagens imaginários troca com eles inesgotáveis diálogos. Para o mundo, caminha pelo parque um homem solitário, um homem de poucas palavras. Na verdade, um escritor nunca está só. Na verdade, um escritor tem a divindade nos dedos ao criar pessoas, escrever estórias e decidir destinos. Seu Manoel, o Jovem Senhor Contador de Histórias, já não é tão desconhecido assim. Por certo, salvou o sonho ao aproximar livros e leitores. Ele pede a todos que ganharem um exemplar que o leia, divulgue, empreste, doe para que outros leitores conheçam as aventuras inusitadas de um menino que nunca jogou vídeo-game.  O livro está em sua segunda edição. Eu telefonei e ganhei um, e digo que tem tudo para ser um best-seller. Contato com o escritor? 8404-9375. Só para quem gosta de ler.

 

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CEMITÉRIO DE ESTRELAS

 

                                

Eu inclinava o peito crivado de dores sobre uma banca para ganhar, escrevendo e tressudando sangue, o pão de uma família. A luz dos olhos bruxuleava já nas vascas da cegueira. E eu escrevia, escrevia sempre.”

Camilo Castelo Branco.

 

  PRÓLOGO - O ROMANCISTA

 

 Seduzir, o grande desafio dos que escrevem. Manter a atenção do leitor para que este visualize a estória entre as linhas do texto.  A alquimia das letras é feita por magos e loucos. Deliram esses homens e mulheres que nasceram sob a insígnia do ilusionismo. Fundam cidades em desertos, desenham batalhas em folhas brancas, preenchem de sons corredores vazios.  As terras secretas da imaginação desses viajantes vivem povoadas de seres sem formas definidas, ainda sem nomes ou destinos. O escritor desdobra o espírito a esses lugares distantes e traz no bico da pena o protagonista.  Às vezes, ele, o escritor, cessa repentinamente as viagens a essas terras e personagens sem estórias vagueiam como estrelas mortas empurrados pelo eco, ainda reluzente, do que poderiam ter sido.

 

Camilo nasceu em Lisboa em 1825. Exímio estudioso da Língua Portuguesa deixou como patrimônio literário mais de duzentos volumes entre romances, novelas e livros didáticos. Viveu exclusivamente da profissão de escritor e gravou para sempre seu nome na literatura do Século XIX. Sua vida foi recheada com os mesmos enredos de suas novelas, tento vivido os últimos vinte e cinco anos em Ceide, norte de Portugal. Irremediavelmente cego suicida-se com um tiro no ouvido em Junho de 1890.  A casa em  que viveu sofreu, anos mais tarde, um inexplicável incêndio. Os fatos a seguir narrados antecedem e retratam o dia em que a casa ardeu em chamas.

 

 

UM LIVRO

 

Contei hoje pela manhã setecentos e vinte e cinco vultos. Digo que são vultos porque a maioria deles dorme envolta em sacos de algodão e não sei dizer se são homens, mulheres ou meninos. Os cães disparam entre os canteiros, farejam e uivam como lobos. Os gatos, enrolados no próprio rabo, dormem a maior parte do tempo. Nós, que já não dormimos em sacos, e ainda habitamos este lado da fronteira sabemos, e isso é tudo, que além da bruma esparsa há uma terra ensolarada de onde se ouve vozes e risos. Ouvimos o ruído das patas dos cavalos e gritos de raparigas tolas. Sentimos cheiro de bolo assando, ouvimos o sino do mosteiro clamando os cristãos à missa. Às vezes, um de nós sobe na cerca e procura lá no céu o brilho da lua.  Todos os dias nos visitam o cavaleiro e sua espada. A espada é pena umedecida em tinta a escolher a ermo, um ou dúzias de nós para conhecer a luz dos dias.  Aquele que subira a cerca recebe cavalo e capa, galopa apressado à busca de seu destino.  Noivas fogem, em madrugadas orvalhadas, de casamentos indesejados. Estendem as mãos, ao sonho de amor, por sobre o muro da janela.

 

Há meses o escritor não aparece e ficamos assim, malas prontas, a espera da estória que nunca começa.   Estamos sentados sobre as malas enquanto os sacos dormem. Estamos aqui no limiar da espera e estendemos vaidosos as linhas desenhadas na palma da mão. Vimos a chama do candeeiro nos iluminar como holofote que varre a praia escura.  O cavalheiro não desceu ainda sobre nós sua espada umedecida em tinta para nos empurrar de vez ao outro lado da linha. É bem verdade que os que vão nunca voltam. Só podemos ouvi-los e ver suas vidas ao longe, assim como vemos os sonhos. A estória se abre como pintura em movimento entre as frestas da neblina. Um dia os homens farão máquinas que projetarão vidas, mas isto é segredo que pertence aos sacos de algodão que serão acordados daqui a muitos anos. Estamos em sobressalto: há meses o romancista paralisou sua pena. As novelas com duelos, raptos, frades e celas, congelaram-se entre o tinteiro e a folha. Hoje ele apenas murmura pensamentos em versos. Ouvimos da última vez o grito na pouca luminosidade da lua:

 

                                  Eu choro sem remédio a luz perdida

                                   Bem mais feliz és tu, que vês o sol!

                                 

Senti soprar no ombro esquerdo o arrepio.  Os que estavam sentados sobre as malas, olharam o mar como náufrago que vislumbra ao longe o barco.  Estávamos enfileirados e atentos quando o bico da pena passou sobre nossas cabeças e levou apenas dois de nós.  Ouvimos em seguida o estampido do tiro.

 

  

NOITES DE INSÔNIA

 

Já não sabemos quando é noite ou dia.  Não sei como foi possível, mas a carta chegou. Diz a carta que o escritor já não mora na casa e os livros estão todos empilhados em caixotes na sala de leitura. Depois do barulho do tiro, desceu sobre nós um mar de ébano e nunca mais o brilho da lua.  Sinto as mãos, não mais as vejo. Nós que já tínhamos sido delineados pelo clarão do candeeiro ficamos assim entre a fronteira e o limbo. Por estarmos vivos apontamos a palma da mão aos céus a espera da gota de tinta que nos libertará. Decidimos permanecer juntos.

 

 

O BEM E O MAL

 

Os sacos de algodão empilhamos todos no canto do muro. Para eles não há esperança, mas nós exigimos nossas próprias estórias. Do outro lado, os personagens que habitam os livros estão reunidos à frente da casa e nos planejam a  fuga.  São personagens biográficos, feitos de realidade e fantasia. Só eles conseguem a comunicação por carta, os outros vivem a ociosidade de suas estórias.  Na casa não há mais mobília, risos, cheiro de frituras. Há anos só o vento tece o ranger das portas, e não ritmiza o relógio na parede da sala. O assoalho solto confronta a luz da lua. Eles tecem no escuro a ponte de cordas que nos conduzirá à casa. O rapaz está parado do outro lado da ponte nos acena e grita:

                    

                    Todo amor, acreditem, é de salvação!

                                     

 

Reconheço a roupa, o cabelo, o riso. É Simão Botelho de Amor de Perdição. Sim é Simão, o degredado de Lisboa que nos aponta a casa.  A casa?  É clarão em tocha a iluminar caminho. O brilho fulvo do fogo cobre rápido o chão e toma as janelas.  Ouço o barulho trôpego dos pés que invadem a ponte e buscam ultrapassar a linha. Por breve instante penso na urgência necessária do fogo para clarear a trilha. As paredes se estreitam quando passamos e a fumaça nos sufoca. O barulho agora se mescla ao ruído do tombo da madeira e o desabar do teto.  Quantos passos ainda precisamos para alcançar a escada que conduz à rua?

 

Finalmente estamos amontoados nos treze degraus da entrada, sujos e ofegantes sob a claridade do dia. O sol se estende sobre nossas cabeças e a brisa beija cabelo e fuligem.  Os personagens das estórias voltaram aos livros, mas nós, oceano de estátuas sobre a escada não sabemos em que direção sopra o vento de nossas vidas. O redemoinha avança sobre o primeiro degrau e nos alcança. Sinto as ondas derrubando as dunas, o vento forte nos espalhando sobre o que restou da casa.  Somos ferro, pedra, poeira e pó.  Sopro divino a remover cinzas.

                               

 

 

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O POÇO DOS DESEJOS

 

 

 

Dedicado a Lucas A.

 

 

“Aquele que segue o caminho do guerreiro, não visa somente a vitória, e sim esclarecer a vida e suas peculiaridades.

Deve-se sempre cultivar e aperfeiçoar, traçando a meta, na evolução de si mesmo, descobrindo e definindo seu bushido, ou seja, seu caminho de volta."

Tenzen Ito (Séc. XVII)

 

 

 

O jovem Samurai Yuzo completava naquele dia dezesseis anos. Olhou pela janela do Castelo Daimyo e avistou a imensa paisagem verde e as montanhas de Kobe que contornavam a paisagem da manhã. O menino  guerreiro habitava a torre central e mais alta da residência aonde se instalavam os cavaleiros cujo ofício e meta de vida era a defesa do Clã. A luz em forma de espada atravessava o corredor do quarto, o que denunciava que há muitas horas o dia amanhecera. O Silêncio nos alojamentos que ladeavam o quarto era grito aos ouvidos: Um Samurai só se entrega ao sono da morte.

 

Enquanto todos os jovens soldados espalhavam-se entre os jardins, templos e ruelas, Yuzo detinha-se diante do reflexo de seu rosto no prato de água sobre a mesa de pedra. Afundou as mãos na água e as trouxe ao rosto. As gotas desciam dos dedos em movimento rápido e sentiu a umidade fria o despertando para o dia. Há semanas uma voz interior o incomodava. Há dias os rituais do templo se apresentavam sem as cores habituais do arco-íris. Não havia mais sabor no arroz cozido, não havia nenhum sentido na disciplina dos exercícios de guerra. Para ele todas as chamas da casa iluminavam unicamente a porta do calabouço aonde eram guardadas as provisões de inverno.

 

O rapaz desceu as escadas estreitas aonde a luz ia findando-se à medida que avançava. O menino Samurai não soube quanto tempo esteve sentado nos degraus gelados do subsolo do castelo. As pupilas se misturavam ao escuro e acostumadas à pouca luz lhe davam a nítida impressão que este era seu real habitat. Olhou sobre os ombros a pequena abertura na parede perto do teto e lá fora estava o caminho das nuvens. A estreita porção do céu oferecia uma nesga de luz ao quarto escuro. O jovem continuava sentado na base alta dos degraus e as pernas balançando frente à parede de pedra. Com o arrastar das horas já não via a luz da manhã. Ergueu os olhos sobre os ombros e descobriu na pequena abertura a pouca luminosidade da lua. A voz que lhe vinha do peito era um uivo de lobo em noite de lua. Sentia o sangue descendo em abundância sob a armadura, mas o Jovem Yuzo não sabia o tamanho da espada que o cortara. As lembranças estavam se tornando branquinhas como areia entre os dedos e distante como um canto de infância. Um novelo embaraçado de pensamentos e sentimentos lhe contornava a alma e o arrastavam para o fundo. O rapaz sentia-se preso entre os degraus de pedras e o brilho da lua.

 

Deitado sobre o braço direito, tendo o esquerdo  sobre a testa, viu na pequena luminosidade o inseto rodopiando a estreita janela. A pequena borboleta dava voltas em torno de si como um beija-flor em movimento. O menino olhou demoradamente o bailado da borboleta. Seria uma borboleta ou um grande inseto de luz perdido do grupo? O bichinho alado entrou no calabouço e percorreu os sacos de mantimentos. Passou sobre a cabeça do jovem, rodopiou-lhe os ombros. Yuzo levantou-se rápido tentando alcançar o que era realmente uma borboleta luminosa. O animal inquieto avançou sobre os degraus estreitos que conduziam à saída do Depósito de alimentos. O rapaz corria agora atrás da borboleta pelos corredores do palácio. O inseto corria entre as árvores do Jardim e o jovem guerreiro esqueceu-se da ferida e do sangue que lhe encharcara as roupas durante todo o dia. A branda luminosidade da lua mesclava com a neblina da madrugada. O menino caminhava devagar, pois que já não via a borboleta e nem mesmo as árvores. A luz do sol chegava entre a vegetação da planície, vinda lá das altas montanhas que contornavam o lugar. A luz em forma de espada terminava para Yuzo em um poço de pedra. O menino lembrou-se da estória do poço que seu avô sempre contava à Hora do Chá. Ali estava O Poço dos Desejos dos primeiros Samurais. Há muitos anos o Imperador mandara cobrir o poço sem água, pois que com o passar dos anos servira apenas de berço às aves mortas e meninos desatentos. O jovem aproximou-se do Poço e sentiu a serenidade úmida da água em sua imagem refletida. A palidez do rosto denunciava a falta de alimentação e a tristeza. Deteve-se por alguns instantes diante do reflexo que balançava lentamente entre o contorno das pedras. O avô contara que os primeiros Guerreiros Samurais quando dirigiam-se para uma grande batalha olhavam, antes nas águas do poço, sua imagem refletida. Se não conseguissem visualizar o reflexo seria o caminho inevitável da morte o que era tão honrado quanto a volta vitoriosa. O Soldado Samurai lançava então sobre as águas um desejo de que qualquer que fosse o seu destino haveria de ser coberto pelo manto da Honra. Buscava pela segunda vez a imagem. Na verdade, explicava o velho avô, o poço refletia o destino da alma de um guerreiro, pois que a Morte não é eterna, a Honra sim. O menino olhou mais uma vez seu rosto na água. O brilho da luz do sol em forma de espada estendia-se verticalmente sobre os ombros e a armadura ganhara uma cor dourada. Seu rosto roubara do arco-íris o tom róseo e seus cabelos desciam negros e brilhantes sobre a armadura de guerra. O menino avançou a ponta dos dedos em direção ao poço de pedra na tentativa de alcançar a imagem do valente guerreiro.

 

 

– É você Yuzo!

 

Voltou o corpo em busca da voz do velho avô.  Ouviu o silêncio entre as árvores e viu a neblina se desfazendo entre as primeiras luzes do dia. O menino Samurai olhou o castelo Daimyo e a imensa planície verde ao seu redor. A voz interna não era mais um lamento, e decidiu chegar à torre mais alta antes do despertar dos soldados no alojamento. Um jovem e honrado Samurai disparou entre as árvores do jardim do castelo de volta ao seu exército. Muitas batalhas ainda travaria o rapaz até caminhar com a espada deitada sobre os braços e entregá-la aquele que criara as planícies, rios e montanhas.

 

 

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JOÃO E ADELINA

 

 

“O tempo acaba o ano, o mês e a hora

 A força, a arte, a manha , a fortaleza:

 O tempo acaba a fama e a riqueza

 O tempo o mesmo tempo de si chora:

 
 O tempo busca e acaba onde mora
 Qualquer ingratidão, qualquer dureza
 Mas não pode acabar minha tristeza
 Enquanto não fizerdes vós, Senhora.
 
 O Tempo claro o dia torna escuro
 E o mais ledo prazer em choro triste; 
 O tempo, a tempestade em grão bonança ...”
Luís de Camões
 
 
 

Conheci Adelina beirando os oitenta anos e os olhos azuis eram duas pedrinhas embaçadas pela catarata. Os cabelos longos se perdiam numa extensa trança rala, que descia aonde terminava o lenço sobre a cabeça. Adelina, já curvada pelo peso dos anos, quase não sorria. Era só uma velhinha. Para nós, os outros, precisava apenas de uma cama encostada na parede onde prendesse as fotos em marrom e bege. Fotos com estórias cheias de risos e lágrimas. A estória de Adelina nascia de um grande mosaico colorido que fui formando ao longo dos anos. Isto não é conversa pra criança, era o que eu ouvia enquanto a porta ia avançando contra o meu nariz. Dele tenho apenas o nome. João Ataíde era apenas um nome perdido nas bocas das tias. A foto pregada na parede da cama mostrava um homem, de média estatura, segurando um livro grosso com papeis saindo pelas páginas. A fotografia retratava um professor de escola primária do norte de Portugal. Eu olhava do outro lado da cama o homem incomodado sob a luz do sol. Minha avó Constância dizia que o pai atravessara o oceano em busca de melhores dias em terras brasileiras. Encontrara nas dunas de areia do Espírito Santo a brasileira de olhos azuis. Os fatos que me chegaram depois vieram embaralhados. Sei que João e Adelina tiveram quatro filhos e que a moça da praia não foi o modelo de mãe e esposa que ele sonhara. Os portugueses que aqui aportaram, no fim do século XIX, eram dotados de tino comercial. Todos os Joaquins, Manuéis e Antônios de minha infância possuíam prósperas quitandas ou padarias. João Ataíde era um homem voltado para os livros; varava as madrugadas sob luz da lamparina. Lia e anotava incessantemente. A esposa não passara das carteiras do grupo escolar e não se seduzia por livros com estórias transbordando dentro. Assim foi formando-se, pela erosão dos dias, um imenso buraco entre os dois. De um lado Adelina e seu cesto de peixes, do outro João e os poemas dos livros. Hoje, entendo porque as mulheres da família apontavam Adelina como o avesso do pano. Todas do álbum de fotografia tiveram muitos filhos e enfrentaram altivas os problemas, que entram pela porta com a filharada e pouco dinheiro. Todas permaneceram de pé, até o último ato.

 

Um dia, a moça da praia olhou o professor do outro lado da sala. Viu apenas um terno puído com um homem franzino. O som lusitano da voz já não lhe era canção ao vento. Sonhara com um português comerciante e uma mesa farta. Cortinas que voassem em rendas pela janela e mais que peixe miúdo e guando no prato sobre a mesa. Distribuiu os filhos entre os vizinhos, prendeu os cabelos fartos numa trança bonita e bateu a porta. Neste ponto perdemos João Ataíde. Nunca perguntei às tias o que ele fez da vida. Voltou para o Porto? Chorou as tardes na praia? Continuou lendo Camões sob a luz da lamparina? Na verdade, perdemos João e Adelina. Esta só apareceu diante dos filhos muitos anos depois do fim da Segunda Guerra. Um dia Constância, a filha, abriu a porta da casa e lá estava um cesto vazio. Em pé, ao lado do cesto, uma senhora de olhos azuis.

 

Quando conheci Adelina, beirando os oitenta anos, já se chamava Dindinha, usava xale e arrastava um chinelo grande. Dizia meu nome com muitos “is” no meio e falava que eu devia ser professora. Ensinar a ler − dizia, era coisa de gente abençoada, gente de alma boa. Nós olhávamos juntas o jovem avô da fotografia. Acho que ela pensava que aquele imenso buraco na sala poderia nunca ter crescido. Começamos a aprender pela dor e pelo que perdemos. O amor de João e Adelina não morreu, mudou-se para algum lugar neste universo imenso. Acredito, procurando na vastidão do céu pontilhado de estrelas, que um dia ela vai encontrá-lo no pátio da escola e estender-lhe um velho poema português. O rapaz ficará comovido com o interesse da jovem por literatura lusa e trocarão idéias afins.

 

Aprendemos também pelo riso que vem junto com o que reconstruímos.

 

 

 

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RECEITA DE BOLO

 

 

O que nos resta agora, atravessadas todas as manhãs de nossa infância, com certeza é o orgulho de termos pertencido àquela família, Afinal, ele era o único médico a quilômetros dali e éramos seus. Nas manhãs de domingo enfileirávamos em direção à igreja, a pé, em jejum, obedientes e limpos. Sempre.

 

Nós o seguíamos a curta distância, minha mãe em solidariedade aos meus passos curtos dava-me a mão. À frente ia um homem que buscava o sentido da vida, não era de grande estatura, os olhos claros escondiam-se sob as lentes grossas. Anos mais tarde, na escola, descobri muitos meninos com o seu nome. Ele explicava, às refeições, que as mães admiravam a sonoridade do nome. O Dr. Bernardo Benson era um ideal de futuro. Acreditava na verdade acima de tudo e no respeito aos homens. Os habitantes do Vale do Rio Verde confiavam-lhe o corpo e às vezes a alma. Algumas consultas eram dadas nos degraus da escadaria da Igreja, sob chapéus e sombrinhas. Era comum sermos acordados de madrugadas, sob as estrelas ou chuva. O sobrado amarelo entre a Rua do Mercado e a Casa de Pães era de quase uso público. A casa do Dr. Benson passou com o tempo a ser chamada a Casa do Bem.

 

Foi quando naquela manhã ele nos trouxe o Jipe. Parou ali na entrada da casa e a desordem do dia estava formada. Dali em diante, disputávamos quem de nós acompanharia o médico nas visitas domiciliares. O vento no nariz, no subir e descer das ruas de ladeira, era nossa secreta alegria.

 

Até que choveu na linda claridade do Vale. Passou a ser rotina o Jipe, tal qual menina birrenta, cruzar os braços na subida da matriz.

 

Não vou! não vou! não vou! - engasgava. Bem ali? Nós que adorávamos ser apontados chegando juntos à missa. As birras continuaram: Na porta da escola, nas fazendas distantes, nas claras manhãs de sol e ainda: era inútil acordá-lo em madrugadas de chuva.

 

Voltamos a fazer a pé o trajeto à Igreja. Eu olhava para trás, na garagem, achava grande e injusto seu orgulho pagão, mas não conseguia odiar quem me dera tanto prazer. Até que meu pai nos comunicou solenemente que iria vendê-lo.

 

Vieram os interessados.

 

Eu cruzava a sala em direção à cozinha. Lá perto da janela estava o padeiro. Ele falava e sorria ao mesmo tempo, dizia não ter medo de nada. Foi quando ouvi:

 

Não se preocupe, esse Jipe é espetacular! Nunca apresentou problema de motor, nunca me deixou na mão, máquina como esta o senhor não encontra por aí.

 

Criou-se ali uma linha turva entre o padeiro, o médico e eu. Eu que ainda tinha fresco sob a língua o gosto das doses diárias de respeito, solidariedade e honestidade.

 

−  Pai, como você pode dizer isso?

 

Não sei se era ainda o meu grito ou de minha mãe:

 

Paula Benson, vá já prá cozinha!

 

Vieram os cascudos, muitos. Muito mais dolorido foi entender a razão deles. Meu nome nunca soara tão grave e feio, tão árido. É bem verdade que eu deveria me chamar Magna Suene, por sugestão de uma tia, mas graças ao atraso do correio o nome só pôde ser dado à boneca que acompanhara a carta. Acho que até ele soaria mais brando naquele momento.

 

Minha mãe era uma mulher simpática, destas que não se esforçam em ser, pois o sorriso se abre sincero sobre o rosto limpo. Fazia doces e ensinava o ofício de construí-los na varanda da casa. No arrastar das tardes eu assistia as aulas só para ouvir suas explicações pausadas e observar como prendia os dedos na ponta do avental sobre a saia cumprida. Dizia sempre:

 

Aqui estão todos os ingredientes. O segredo é misturá-los bem e na ordem certa.

 

Aos poucos fui assimilando a sabedoria materna. Os ingredientes enfileirados sobre a mesa, tal qual receita de bolo, misturar na ordem e na quantidade certa, sem ir além do sal e do mel. Às vezes rápido, por outras sem pressa.

 

Do livro Os Anjos de Prata (Antologia de contos e crónicas) - ALL PRINT Editora, 2007, São Paulo, Brasil, pp. 63-64.

 

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PAISAGEM DE RIO

 

 

 

 Quando aproximava-se a estação de chuvas, as mulheres mantinham por toda  noite o lampião aceso sobre a mesa e os ouvidos alerta  aos ruídos externos. Das casas que costeavam as margens a maioria não resistia além dos primeiros ventos.  Mulheres  e crianças barreiravam-se em pequenos grupos.

 

Constância abriu a porta  da  cozinha e os recebeu. Os meninos tinham os olhos atentos e lama nos pés. Os cabelos ralos cheiravam à fumaça e ainda que aquela fosse a única casa de tijolo por perto, vigiavam.

 

Abandonavam a casa ao primeiro sinal do dia, deixavam limpos os copos e farelos de pães sobre a mesa. O cheiro doce de chá sustentava os quatros marcos da casa. As mulheres murmuravam as orações matinais pela sobrevivência. Saíam sem pressa, recebendo na porta um dia longo e úmido. As noites seguiam-se iguais como os pingos que deslizavam a soleira da casa. As famílias abrigavam-se, também, durante o dia. As mulheres faziam pães e os arrumavam no forno lado a lado.

 

Os meninos passavam a maior parte do tempo espreitando pelas falhas da madeira da janela, olhavam o rio. O rio era ruidoso e escuro e não lhes pertencia mais.

 

Se até para Noé quietou-se um dia o dilúvio, por que não para as famílias que habitavam as margens do Rio Verde? Os meninos desceram as escadas sem pressa , espalhando-se em bandos.

 

Foram-se.

 

Constância lavou a casa e todas as roupas que nela existia. As aves retornavam às árvores em respeitoso  silêncio  à fala do rio. Esticou sobre a mesa a tela feita de resina e fibra. A moça olhou da janela: sobre as águas descia um chinelo de criança. Desceu os dedos no pouco trigo que restava na lata e o espalhou sobre a tela branca. Recolheu da gaveta os pincéis  e tocou com os dedos  a tinta  sobre o pires .Constância acreditou no que dizia o ruído de fora.  O rio aos poucos não dava mais medo. O tigre, agora mergulhado em  gato manso, se preparava para dormir em cinzas. O tigre mergulhou de vez em águas.

 

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CARVÃO EM FUNDO BRANCO

 

                                                                                 

Estou procurando a cor

             onde ela não vai.

                                                                     

 

Nós, cumpre esclarecer, éramos algumas dezenas de meninos e meninas, filhos de carvoeiros, aos quais letras e números não haviam sido apresentados. Dividíamos os meses entre os secos e os que exageradamente nos mantinham em casa.  O mundo entre o quintal e o outro lado do rio. Quando percebemos os movimentos de tijolos e madeiras, pressentimos que o que fosse ali erguido nos seria destinado. Mantivemo-nos em sentinela diária, num revezamento quase militar.

 

Quando por fim retiram os limites de proteção e vieram todas aquelas pessoas estranhas que escolhendo os verbos nos disseram que a casa amarela, como um grande fruto entre as árvores, nos pertencia; sentimos desconfiança. Entramos pela primeira vez na escola em fila, as mesas estavam alinhadas e limpas. Ana passou a palma da mão sobre a que estava a sua frente, muitas vezes. Puxei-lhe a ponta do vestido com força. Caminhávamos pela sala em grupos, o chinelo não reconhecia o assoalho de madeira. Nos dias que antecederam o início letivo, nos dirigíamos à escola todas as manhãs. Sentados nos degraus do portão, como gatos que arqueando a coluna e deslizando o pêlo roçam as pernas, pedíamos a intimidade da posse. As portas mantinham-se fechadas.

 

No primeiro dia de aula, acordados saímos aos tropeços. Até então o desconhecido estava na outra margem do rio, agora o tínhamos ali a alguns passos de casa.

 

Estávamos aquele emaranhado de curiosos no corredor, quando nos separaram. Do fundo da outra sala, onde foi colocada, podia buscá-la a todo o momento. Ela esticou os braços sobre a mesa e pousou o queixo entre eles. Acompanhava com os olhos as listras irregulares da madeira e o cheiro era-lhe pura correnteza. Não se abrira ao quadro negro, ao arranjo de flores sobre a mesa ou ao bordado do vestido. Seus olhos buscavam os riscos da madeira. Soou-me o alarme. Levantei-me rápido e caminhei à sala. Ana mantinha-se na mesma posição, toquei-lhe os ombros. Nada lhe disse e voltei ao meu lugar. Uma vez de volta tentei acompanhar o meu próprio desenho na madeira. Compreendi por que ela poderia ficar lá, dentro dele. A quantos de nós o risco chamara a atenção? Ana não tinha o caminho de volta.

 

Estamos separados do instante seguinte pelo desconhecido, e dele necessitamos. Nenhum de nós estava preparado para  a caixa de lápis de cor. Nós que tínhamos as unhas sombreadas de  carvão, uma folha em branco, e a pequena caixa era da criação o desafio. Dedicamo-nos ao que era até então impossível: flores, árvores, nuvens, e rios. Eles nasciam  fartos e nítidos como se Deus nos compartilhasse o dom.

 

Lembrei-me de Ana. Em pé no meio da sala, procurei-a. Ela juntara todos os lápis na mão e num movimento único riscava a folha. Riscava com força, indo e vindo.                  

- Alice, volta!

 

 

Não poderia. Lancei-me ao mar para ir buscá-la. Atravessei as duas portas e parei em pé diante dela. O conjunto de cores formava um ninho de serpentes coloridas e por breve instante quase me aliei a seu imenso abismo.

Segurei-lhe o pulso.

Para nós, meninos ribeirinhos, os dias que se seguiram foram de descoberta, para Ana foram dias de cego em terra estranha. Não aceitávamos deixar os lápis na escola, ela os devolvia como sobrevivente que perde o alimento.   De volta a casa punha a cartilha sobre o fogão e dirigia-se ao fundo do quintal. Parava frente à parede caiada como se encontrasse uma porta na parede branca. Com um pedaço de carvão riscava sem força um risco fino. As figuras flutuavam no branco em formas irregulares. Às vezes eu as identificava ou as via perderem-se em outras. Diariamente, após as aulas dirigia-se à parede no fundo da casa. Passamos a viver as tardes ali. Sentava-me à curta distância, sem interrompê-la. Penteava-lhe os cabelos, trocava-lhe o vestido com cuidado. Em suas pausas curtas dava-lhe alimento e água. Quando o sol incomodava abria sobre nossos ombros a sombrinha.

 

Guardo daqueles dias esta fotografia aérea: uma menina segurando um guarda-sol, um banco de madeira, outra menina sob o guarda-sol riscando a carvão uma parede cada vez mais escura. Nunca permiti que esta parte da casa fosse pintada, com o tempo, para nós, era um grande pano escuro. Para Ana as figuras estavam lado a lado, com começo e fim. Só ela ainda via sob o carvão o fundo branco. Nos fins de tarde, ensaboava-lhe as mãos com força até sumir-lhe dos dedos o sombreado.

 

 

Nasci incumbida de guiar a manada na grande travessia do rio. Éramos  nós duas na casa,  da mãe restara apenas a fotografia desbotada na cristaleira da sala. Aprendemos cedo a usar o fogão e o forno.  Meu pai não falava em casar-se de novo e nossa era aquela casa. Saía para o trabalho na carvoaria sob um céu cheio de estrelas, voltava, a passos tortos, com o barulho dos baldes rolando pelo chão de cimento. Caiava a casa após a estação de chuvas, mas a meu pedido, nunca a parede no fundo da cozinha.

 

 

Em Outubro Ana desinteressou-se dos livros, passei a trazer-lhe escondidos alguns lápis de cor. Já não se interessava por eles também, usava ainda os pedaços de carvão na parede escura. Passei a acordá-la no meio da noite, para que tivesse sono pela manhã e eu pudesse ir à escola.

 

Um dia deparei-me com todas as nossas coisas amontoadas no catre no canto da sala. Ana calçava sapatos e meias e tinha o cabelo penteado muito diferente do jeito que eu cuidava-lhe. Não temi por mim, mas como tirar-lhe a casa, o fogão, a parede escura? Pela primeira vez eu a vi muito maior que eu. Ela dava-me aquela obediência de presente para que eu não tivesse medo. Cruzei o portão, e fui perdendo a escola, o rio, a mata que corria atrás dele. Olhei para trás o tanto que me foi possível. Ela batia compassadamente o pé no assoalho do carro.

 

 

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EXTREMA FIDELIDADE

 

 

Tente acompanhar agora o ruído do relógio, não há como evitar que os ponteiros caminhem, mas vem o dia que, por se ter provado o fruto, a gente se descobre nu, mas há os antes e foram estes:”

Do conto da autora “Liberdade Condicional”

 

 

Era o seu sexto aniversário. O ruído da louça e o cheiro de bolo o trouxeram à cozinha, expiou por detrás da cortina. Puxaram-lhe. Vieram as ordens: Tomar banho, lavar as orelhas, cortar as unhas. Não suje a roupa. Senta aqui. Ah, tira a mão do bolo.

 

− Como você está bonito!

 

Chegaram os tios, vieram os primos. Veio aquele presente comprido, outros pacotes. Ah, aquele presente enorme... aquele presente. O tio abriu-o bem debaixo do seu nariz:

 

− Cuide dele, não deixe ninguém riscar.

 

Era um espelho. Sobre ele uma gravura chinesa. O menino passou a ser parte da gravura. Veio o parabéns, o sopro, os abraços. O menino na gravura, grudado nela. O espelho colocado no canto da sala reflectia seus olhos grandes. Duplicou a música, triplicou os balões, eternizou o “Viva!”

 

− Cuide bem dele.

 

O dia seguinte acordou-o cedo. Correu à sala. Rastros de bolos no espelho.

Não viu.

A gravura quase branca sobre o vidro era tão...

Viu-as.

Moscas passeavam tranquilamente por seu território. Reflectiam as patas sobre o desenho claro. O guardião do templo saiu à porta, olhou os campos. A respiração foi freando, freando, muitas vezes. Desceu-lhe o suor dos grandes guerreiros. Correu à porta da cozinha, puxou a vassoura. Ergueu sua espada por sobre a cabeça e disparou de volta. Antecipando toda a força do homem que um dia haveria de ser, arremessou-a em direcção ao inimigo.

 

O barulho dos cacos acordou a casa, o barulho da casa sacudiu-lhe os ombros.

 

 

 

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JURIS ET DE JURE

 

 

“O mar , asseguram os poetas, guarda o segredo dos rios,  estes em obediência cega entregam-se à sua imensidão”.

Do conto “Afluência”

                                                                                         

  As fotos envelhecidas em marrom e bege, espalhadas sobre os joelhos e o vestido, eram o que eu conhecida dele. As imagens não eram nítidas, mas podia vê-lo sentado na varanda da casa enquanto os olhos corriam além da curva dos dias. Os dedos magros torciam a palha do milho num movimento infinito das mãos. Em que país moravam suas lembranças ?

Os primeiros anos de infância já  denunciavam o fascínio pelas estórias que os mais velhos contavam. Elas abriam-se à minha frente, como se as visse da janela do quarto. As casas não possuíam luz elétrica, e as estradas de poeira e pedra levavam sempre à casa de Seu Bento. Era homem de pouca leitura, o suficiente para ler a Bíblia pela manhã enquanto os filhos dormiam. Lia em voz alta como se quisesse que as palavras lhes chegassem ao sono. A casa cheirava a café e salmo.

Assim como um quebra-cabeça sobre a mesa, eu reconstituía uma casa e uma família que não vivera. Aninhava-me nas cobertas, entre os meninos, como se fosse possível estar ao lado de pai e tias. Podia ouvir por que Deus fez céus e terra e deu aos homens um coração bom. Sentava à mesa e recebia também o pão de aveia, dando graças ao Senhor. Tudo me era possível à medida que retirava da caixa de sapato as fotografias.

As pessoas chegavam cedo ou vinham nos fins de tarde. Havia sempre cadeiras na entrada da casa como se também fosse dele o ofício da espera. Com a mesma sabedoria que Deus deu a Salomão, decidia quantas sacas de feijão seriam pagas e se as cabras deveriam ficar aquém ou depois das cercas. Se dizia que o casamento era devido, cevavam-se os porcos e bordavam-se as toalhas. Como as estradas ainda eram trilhas naquelas terras de Minas e não havia pontes para cortar caminhos, os vizinhos entregavam seus conflitos à Seu Bento. Ele os ouvia pelo tempo que elas  julgavam  necessário .  Alguns, por vez, alteravam a voz; outros , em tom resignado, diziam confiar em Deus. Após um breve suspiro, ele arqueava as sobrancelhas e definia novos caminhos às desavenças. As pessoas recebiam a decisão como se procurassem em terreno árido água fresca e encontrando sorviam o reflexo em água doce como recompensa Assim, compunham-se os conflitos e arrastavam-se os dias deste lado do rio.

Seu Bento tivera muitas filhas mas apenas um filho homem. O menino desde cedo se entendia mais com os cavalos e vacas do que com a natureza das mulheres. Gostava mais do curral  que da sala da casa. Acompanhava a prenhez das éguas e os partos mais difíceis até o apagar das estrelas.  Costurava asas e cortes profundos, acalmava e curava dores. Queria ser Veterinário.

À medida que os anos corriam,  as pessoas viam nele a continuação do pai, e assim esperavam que se tornasse o Juiz da cidade.Um dia a mãe entregou-lhe a melhor camisa, ainda morna da lisura do ferro, engraxou-lhe as botas e entre fardos de farinha, viu afastarem-se : a casa, o curral, as árvores pequenas que costeavam o rio e ainda as pedras que se alinhavam cada vez mais rápido à passagem do carro. Desde então, quando retornava nos feriados prolongados, corria primeiro ao curral e ali passava o melhor das horas. Assim foi na primeira vez e nas que se seguiram. Aos poucos passou a observar o curral das sombras do quintal, depois, da janela da cozinha. Os anos seguintes o encontraram olhando apenas da janela do quarto. Não mais.

A cidade transformou suas trilhas em estradas que se ladearam em casas e nas casas os homens, no acender dos lampiões, guardavam seus dias como pães dormidos em latas sobre o aparador. João Deodato formou-se em Direito.

Era homem de pouca conversa, se bem me lembro. Nem quando me entregara naquela manhã o pacote:

− Ana, é seu.  Disse monossilábico.

Esperava mais que o pacote estendido. Retirei da caixa a boneca muito loira. Tal qual a moça do filme dei-lhe o nome de Miss Molly. Usava um vestido armado e um decote com rendas. O cabelo preso ressaltava-lhe o azul dos olhos. Fôramos juntos ao cinema e ele entendera o meu encanto com a heroína das diligências do Velho Oeste. Lembrara-se disso ao comprar a boneca. Era seu jeito de abraçar a filha.

João Deodato deu a todos o destino que lhe reservaram. Aos trinta anos era Juiz na cidade vizinha. Nunca entendi porque não trabalhava no fórum perto de casa. Nem porque minha mãe dizia que aqui ele era suspeito.  Suspeito não era um desses homens que mal se vê o rosto e que se esconde atrás dos postes? Hoje, retirando da caixa todas as fotografias , vejo apenas um homem incomodado no terno escuro, como se os sapatos lhe apertassem os pés diuturnamente.

Todas as tardes eu sentava com Miss Molly no meio da escada e a cena que via era sempre a mesma. As mulheres aguardavam aflitas o telefone tocar. Ao primeiro sinal corriam do andar de cima ou da cozinha em pavorosa. Às vezes repetiam em eco uma das outras, aglomeradas ao redor do telefone:

O juiz saiu do Fórum!!!

O telefone desligava. Elas aguardavam ansiosas a nova chamada.

Recomeçava o coro:

O Juiz entrou no bar!!!

Sentavam-se espalhadas pelas poltronas da sala. Novo telefonema.

− O Juiz terminou uma garrafa!

Agora em aflição:

O juiz subiu na mesa!

Hora de pegar o carro da família e correr para a cidade vizinha. À tardinha entravam arrastando o homem. Um homem desabado no tapete da sala. Quando saíam, eu o cobria com a colcha da cama e colocava sob a cabeça a almofada. Na manhã seguinte encontrava-o novamente recomposto na cadeira da cozinha. Os gestos eram curtos, tomava apenas o café escuro.

Um dia, uma das tias encontrou-me folheando os livros na estante da sala e comentou:

Essa menina é muito inteligente, vai ser uma excelente professora!
Ele olhou-me do fundo dos olhos e disse:

Só se você quiser.

Lembro-me sempre desta determinação tardia que, por não lhe ser mais útil, ele me presenteava. Fiz um curso técnico de Botânica e abri uma floricultura no centro ao lado do cinema. Há no fundo uma sala de experimentos e estudos. Cultivam-se ali variadas espécies de Orquídeas.

 

 

Fonte: Contos para Viagem − Volume dois, Editora Arte Literária, São Paulo, 2006, pp..61-64.

(Prémio Contos para Viagem2006)

 

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PONTE SOBRE ALMODÓVAR

 

  

“Às vezes vejo as fotografias impressas na parede da casa. Foto em preto e branco sem foco, feito neblina de inverno.”

             Do Conto ainda em gestação “Entre a  luz  e a sombra.”.

 

Apertou com força o botão do elevador. Décimo quinto andar? Optou mais que depressa pela escada. Quinze minutos apenas a separavam do retorno ao carro. Localizar o CD, baixar Download, um chuveiro rápido, pegar as anotações, desligar o computador. Chegou ofegante ao último degrau. Passos rápidos à porta, rodou a maçaneta e esticou os dedos ao interruptor. Não fez-se luz. No centro da Rosa dos Ventos, em asana sobre a montanha, equilibrava-se em uma das pernas a ave Arqueopterix. As asas estendidas ensaiavam lentamente o movimento. Do bico escorria um líquido escuro e os olhos cor de guaraná tentavam trazê-la ao imã da partida. A mulher fechou vagarosamente a porta atrás de si. O coração reiniciou o cansaço da subida. Olhou as vidraças abertas, as folhas como casca de árvores se espalhando pela casa.

 

Sob a asa esquerda estava o menino. Cabelos cacheados quase ruivos, o sono dos justos. Sob a outra asa, outros dois brincavam no ninho de penas coloridas. Sobre o dorso dinossáurico uma mulher costurava. Imersa na tarefa, nada via. Tentou buscar os olhos da mulher num contato quase telepático. Um simples olhar poderia salvá-los. Por breve instante a mulher deitou ao lado a costura, e levantou do colo o livro. Absorveu-se mais ainda no texto e não olhou ao redor.

A ave sustentava o olhar enigmático. Limpou o bico no chão da sala duas vezes. Retomou a altivez da partida. Pensou em gritar à mulher que agora lia:

 

Você, por favor, pegue os meninos e desça!

 

A mulher sorriu calmamente:

 

O vento? Não se preocupe, é pouco.

 

Deu alguns passos às portas de vidro que conduziam à varanda, na tentativa de fechá-las. A imensa ave lançou o grasno rouco na direção do teto e balançou, agora com força, as asas. Curvou o corpo para esquerda e arremessou-se em direção à tarde que sangrava luz. O barulho dos vidros estilhaçando-se no chão da sala estremeceu-lhe os tímpanos. A mulher sobre o dorso do animal, dobrou a página do livro.

 

Sobre a Rosa dos Ventos apenas o vermelho óxido das folhas e vidros como diamantes finos. Das paredes nasciam lentamente as vibrações da música. As notas ásperas, o avesso da harmonia. Iniciou-se A Grande Fuga, Ludwig Van Bethoven. 

                                                              

 

 

 

 

 

 

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