GABRIELA ROCHA MARTINS
Arte in Vitro
I
toccata a quatro mãos...
...em fuga
existe o sol e o luar,
a sombra dos poetas e os seus reflexos, nos sonhos?
fora, os riscos da rotina. de viver.
é necessário acordar. levantar e começar um novo dia.
bocejo.
9h00.
- come o nosso poema, mas lava os dentes. como medida de precaução – dizes-me, à laia de despedida.
atiro um beijo, agarro o casaco, pego nas chaves do carro e desço as escadas a correr. faz frio. o carro não pega.
vou a pé, tropeçando em coisas e pessoas feias.
10h00
subo as escadas devagar. bom dia. Sento-me à secretária. ligo o computador.
sou um autómato. sou um robot. enter!
devoro palavras e risos durante o dia.
18h30.
saio.
lembro-me que não trouxe o carro e amaldiçoo as coisas e as pessoas feias.
sou um autómato. sou um robot. enter!
quem distingue de mim o outro lado de mim?
2h01
em cima da cama o livro dos nossos poemas. os de hoje e os do futuro.
adormeço. onde se projectam as sombras?
sonho a preto e branco
sem legendas
II
thriller em mãos...
...dúplices
sem legendas
recomeço o thriller que o cineasta deixou esquecido no canto esquerdo de um qualquer quarto.
tinha de ser aquele quarto. aquele canto.
era verão. foi inverno.
não sei filmar – reflicto – certa de que
os robots, mimeticamente, reproduzem os gestos para que são programados...
... e o meu servidor insiste no mesmo relatório de erros.
o conflito entre o tudo e o nada.
o nada de me saber aquém dos limites.
o tudo de te querer para além do nada.
temporária confusão
inserida no livro de poemas jamais escrito
no meu presente no teu futuro.
no thriller lê-se a palavra FIM.
( subsiste, obsessivamente,
a dúvida )
o nada e o tudo.
acordo
agarro as chaves do carro
desço as escadas a correr e
atiro com a porta ao sair
vivo a vida
e sorrio
ao
sol
meu
astro
maior