BLOGUE EM 4X4
(algumas poesias satíricas, outras nem tanto)
por Fernando Henrique de Passos
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O FOGUETÃO DA NASA CONTRA A LUA |
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Pelas ruas de Belém,
Cansado, de mão estendida,
Um pobre esmola um vintém
Enquanto diz mal da vida.
Quem ali passa tem dó
Ao ver aquela figura:
Buracos no paletó,
Voz hesitante, insegura.
Certo dia uns reformados,
Mais uns quantos sem-abrigo
E uns tantos desempregados
Foram dizer ao mendigo:
“Temo-lo estado a ouvir:
Você leva isto a peito!
Ensine-nos a pedir,
Que não temos o seu jeito!”
21/1/2012
O mundo acaba pró ano
Segundo dizem os maias.
Lá vai tudo pelo cano,
Cidades, campos e praias.
Que profecia funesta,
Que previsão aziaga,
Que Natal tão pouco festa,
Que passagem de ano amarga.
Se o fim fosse selectivo
Podia ser um bom fim.
Bastava que houvesse um crivo
Separando o que é ruim.
Seria o fim dos impostos,
Dos cortes nos vencimentos.
E nós, por fim recompostos,
Dávamos fim aos lamentos!
22/11/2011
Após uma luta heróica
Contra ventos e marés,
O Zé deixa entrar a troika.
Chovem logo pontapés.
“Demorou tempo demais!”
“Isto está mesmo no fim!”
“Que governo de anormais!”
“Nunca se viu nada assim!”
O Coelho, à caçador,
Assesta um tiro certeiro.
Levanta fumo e fragor
E quase estende o Primeiro,
Que reage, exorta o bando…
Mas enquanto a luta dura
O País vai-se arrastando
Pelas ruas da amargura.
21/4/2011
O Reino do Mal avança.
Um veneno que é letal
Alastra a partir de França
E da sua capital.
É proibido rezar,
Proibida a cruz ao peito.
Mas podemos abortar,
Fazer tudo o que der jeito.
O que é que se passa ali?
Quem dita tais decisões
Ao pequeno Sarkosy
E aos seus altos tacões?
Só pode ser Lucifer.
Ou é alguém mais vistoso?
Talvez Carlá, a mulher,
Pagando em glamour e gozo.
10/4/2011
Um bebé contribuinte,
Para o bem de Portugal:
Ideia de nota vinte,
Mais do que isso, genial!
Quem nasce a ir às Finanças,
Em adulto aceita tudo.
Aceita quaisquer cobranças
Mais calado do que um mudo.
Nascer com número fiscal
Torna o cidadão ordeiro.
Faz-lhe parecer natural
Viver com pouco dinheiro.
Podemos ser uns pedintes
Mas nossa glória não tarda:
Ter bebés contribuintes
Põe Portugal na vanguarda!
6/2/2011
Chegou o perigo amarelo.
Sem espingardas, nem canhões,
Nem nuclear cogumelo.
Chegou a espalhar milhões.
Estende a mão o Ocidente,
Nem se fazendo rogado,
E arrecada o presente
Com um olhar esfomeado.
Em paga, pedem-lhe pouco:
Ter modos obedientes;
Fazer orelhas de mouco
Às queixas dos dissidentes.
Vão julgar por desordeiro
Quem ao negócio se oponha:
Ninguém nos tira o dinheiro;
Ninguém nos tira a vergonha.
13/11/2010
O José queria um comparsa
Pra poder dançar o tango.
“Pode até ser um reaça,
Pode ser, que eu não me zango.”
Pra fazer passar o PEC
(E já não foi pêra doce),
Lá arranjou um moleque
E assim a coisa arranjou-se.
Agora, no Orçamento,
É que a função azedou
E se tornou num tormento
Porque o moleque amuou.
O país assiste em choque
A este baile sem par
E por mais que a banda toque
Só lhe apetece chorar.
12/10/2010
O caso da Casa Pia
Decorre nos tribunais,
Mas também na telefonia,
Também nos telejornais.
Toda a comunicação
Possibilita aos arguidos
Exigirem à nação
Ver seus juízes punidos.
O mais famoso dos sete
Criou, num gesto inspirado,
Um site na internet
Onde é por si ilibado.
Assim, o quarto poder
Sobre os mais leva vantagem,
E já só nos falta ver
Julgamentos por sondagem.
7/9/2010
– Peço desculpa se o esqueço,
Mas é que é já muito caso:
És arguido em que processo?
Podes dizer, por acaso?
– És pessoa pouco culta
Ou estás a brincar comigo:
Respondo no Face Oculta
E no processo do Figo.
– É que é grande o reboliço…
E já agora, o Free Port,
Não estavas metido nisso?
(Não é que isso a mim me importe…)
– Nesse e no da Casa Pia,
Em todos eu sou arguido,
E aposto qualquer maquia
Que vou ser sempre absolvido!
23/4/2010
O PROCESSO FACE OCULTA
Quem diria que a sucata,
Essa escória a apodrecer,
Fosse dar rios de ouro e prata
A quem mal sabe escrever?
Basta ter algum dinheiro
E depois pô-lo a render
(Descobriu o sucateiro)
Dando-o a quem tem poder.
Não foi grande descoberta
Pois já era conhecida
Como a maneira mais certa
De subir muito na vida.
Mas é p’ra mim sempre incrível
Constatar que a nossa nata
Se rebaixa até ao nível
Dos tristes reis da sucata.
13/11/2009
Gerou-se um grande chinfrim,
Um alarido danado,
Por causa de um tal Caim,
Livro agora publicado.
O autor, o Saramago,
Odeia a religião.
Quem fala assim não é gago?
Pior que gago, é vilão!
Ataca, fere e insulta
Quem é nosso Criador.
Não há aí uma multa
P’ra tanta raiva e rancor?
Mas Deus, nosso Grande Amigo,
Vai perdoar ao malvado,
Que só terá um “castigo”:
A eternidade a Seu lado.
27/10/2009
O FOGUETÃO DA NASA CONTRA A LUA
Vamos ver quem mais arrasa.
Porventura as tropas ianques?
Ou antes a agência NASA?
As primeiras têm tanques,
Têm mísseis terra-ar,
Bombas de fragmentação,
Generais p’ra planear,
E bem mais que um avião.
Podem ocupar países
Com o maior à-vontade,
Como quem caça perdizes
Na calma da sua herdade.
Mas isto são uns trocados,
São uns trocados de treta,
Porque a NASA, sem soldados,
Sozinha ataca um planeta!
9/10/2009
Quebrando um silêncio fundo
Como o do fundo das grutas,
Cavaco falou ao mundo,
Falou enfim sobre escutas.
Há muito que se aguardava
Por esta declaração.
Pois bem, só faltou a lava
Pra ser um voraz vulcão.
Veio o Cavaco dizer
Que escutas e outros temas
São só pra fazer esquecer
Os nossos reais problemas.
Mas desde que ele falou
Só fala disso o país.
Nunca o PS sonhou
Com um final tão feliz…
1/10/2009
O país vai indo ao fundo,
A crise não nos dá tréguas.
É um país moribundo,
Onde a alegria anda a léguas.
Mas, há dias, um Ministro,
Ministro da Economia,
Fendeu este tom sinistro
E fez rir quem já não ria.
Devia ser premiado!
Devia ter recebido
Um aumento de ordenado!
Foi afinal demitido…
Nação ingrata! Expulsar
Quem é seu maior talento!
(Só lhe resta ir trabalhar
Com os Gato Fedorento…)
4/7/2009
Entro na farmácia e vejo
Raparigas elegantes
(Por que razão não almejo)
A comprar adelgaçantes.
Por normas hoje antiquadas,
Elas eram esculturais.
Agora são desgraçadas
Pois pensam ter peso a mais.
Só terão paz interior
Vendo no espelho um esqueleto
Como esses do televisor.
(Ai, tempos do branco e preto!)
As voltas que a vida tem…
Dêem-me já um telefone
Para que eu peça a alguém:
“Proíba os corpos danone!”
21/4/2009
Não tenho razões, só pena,
Vendo uma coisa tão bela
Arrastada pela arena,
Vendida como cautela.
Mas sou um conservador
(E estás quase só, Fernando…).
Hoje é já outro o Senhor
Que a turba vai adorando.
Face às razões da cegueira,
Os velhos olhos da Fé
Não têm qualquer maneira
De fazer ver quem não vê.
Por isso, quando inquirido
“Sim ou não, sexo em cena?”
Respondo, triste e sumido:
̶ Não tenho razões, só pena…
24/2/2009
AS CRÓNICAS DO MALAQUIAS NA ANTENA 2
Um tal Pedro Malaquias,
Paladino dos ateus,
Chateia-me todos os dias!
Mas que mal fiz eu a Deus?
Tem ele uma fixação
(Será um trauma de infância?):
Não larga a religião.
Mais que fixação, é ânsia!
Tudo nele são pretextos
Para bater na Igreja.
E lá lê os pobres textos
Onde a maldade sobeja.
Mas eu, como tributário,
Não vejo qualquer razão
P’ra ajudar ao seu salário…
Arranje outro ganha-pão!
20/2/2009
O mundo acaba amanhã
E eu estou tão atrasado!
Qual foi a mente malsã,
Qual o sábio desvairado,
O da infeliz ideia
Desse tal LHC?
Na cabeça tem areia,
Ou é ceguinho e não vê?
Devia aqui insultá-lo,
Chamar-lhe os nomes mais feios,
Dizer que ele é um cavalo
E mandar puxar-lhe os freios!
Mas também amo a ciência,
Ardo de curiosidade…
Se for o fim, paciência –
Foi em busca da Verdade!
9/9/2008
OS JOGOS OLÍMPICOS DOS PEQUENINOS
Queriam êxitos na China,
Queriam ter muitas medalhas?
Parece que a nossa sina
É só apanhar migalhas…
Valeu no triplo salto
Um Évora excepcional
P’ra fazer subir mais alto
A bandeira nacional.
Valeu também a Vanessa:
Nadou, pedalou, correu
E foi sempre tão depressa
Que por pouco não venceu.
Mas foi pouco, mesmo assim,
Para o tanto que se queria,
E voltámos de Pequim
Mais tristes que esta poesia…
29/8/2008
O país ficou parado:
“Vai falar o Presidente!”
Que se teria passado?
Que seria tão urgente?
Para interromper as férias,
A questão era de monta.
“Isto não são duas lérias!”
“Já sinto a cabeça tonta!”
Os nossos comentadores
Passaram o santo dia
A pintar de várias cores
A cena ainda vazia.
Mas afinal, ao jantar,
Eis o Cavaco a aparecer,
Só para choramingar:
“Querem tirar-me poder…”
2/8/2008
Disse o nosso Presidente
Que hoje é o Dia da Raça.
Disse-o com ar sorridente
E toda a gente achou graça.
Só em S. Brás de Alportel
É que não houve alegria.
Levantou-se um aranzel:
“Isto foi xenofobia!”
Foi um magote de gente
Para o Governo Civil:
Um Director descontente,
Mulheres vestidas de Abril.
Mas o bom Governador
Fê-los voltar a penates:
“É que achou o Professor
Ser Dia dos Disparates!”
10/6/2008
Professores avaliados:
Mais uma ideia brilhante
De ministros alheados
Do seu mundo circundante.
O grande mal das escolas,
A total indisciplina,
Não se cura com bitolas
P´ra avaliar quem ensina.
Dêem mais autoridade
A quem lida com alunos
Que, em abono da verdade,
São actuais hordas de hunos!
Ou vão ao ponto acabado
De tanta série de asneiras,
Com os alunos no estrado
E os professores nas carteiras!
19/3/2008
Vi que um voto de pesar
Por um crime tão nojento
É capaz de incomodar
Quem vive do Parlamento.
Vi bem que por ali ronda
Quem não esconde que até gosta
De gente tão hedionda
Como o Buíça e o Costa.
Vi que, passados cem anos,
Ainda há muitos deputados
A serem tão desumanos
Como esses dois celerados.
Vi e não pude votar,
Pois não pertenço aos votantes,
Mas deixo aqui o pesar
Por ter tais representantes.
11/2/2008
Você está mal mas ignora,
Vá já fazer um rastreio!
(Julga ir da vida a meio
E já está na sua hora…)
O vento vai soprar forte,
Olhe o alerta amarelo!
(Não julgue que faz farelo
Com a ameaça de morte…)
Cuidado com a comida,
Olhe o alerta laranja!
(Nitrofuranos na canja
São baixa esp’rança de vida…)
O senhor está muito mal,
Olhe os alertas vermelhos!
(Mas siga os nossos conselhos
E ficará imortal…)
14/1/2008
O país anda absorto
Com uma história idiota:
Este novo aeroporto
Deve ser feito na Ota?
Debates na televisão,
Muitas folhas nos jornais.
Estuda-se a fundo a questão
E até se estuda demais.
Para não ficar atrás
Eu também dou um palpite,
E quero, desde S. Brás,
Deixar aqui o convite:
Na planície ou na serra,
Seja feito com primores,
P’ra mandar p’ra outra terra
Tão chatos comentadores.
9/12/2007
Dá aulas um moribundo,
Trabalha-se em agonia.
Se não é o fim do mundo,
É como o fim principia.
Que regime de pasmar
Nos veio a calhar em sorte,
Que nos manda trabalhar
Até às portas da morte!
Não se comovem com pranto,
Não se comovem com nada,
Estaline parece um santo
Face a gente tão malvada.
Em estando na minha mão,
Sabia como os tratar:
Uma só constipação
E mandava-os descansar!
9/11/2007
Eu queria dar de barato
Que este governo é honesto.
Mas a rusga ao sindicato…
(Para não falar no resto…)
Já fora o caso Charrua,
Também Vieira do Minho…
Ninguém há que não conclua:
Não vamos por bom caminho!
Parece o “antigamente”:
Quem for contra “a situação”
Dê-se por muito contente
Se não se vir na prisão!
Temos de tomar medidas
Antes que isto vá a mais
E estas pequenas feridas
Passem a cancros mortais…
20/10/2007
Que sorte avessa e madrasta,
Tudo acontece à nação…
Outro mal que agora alastra
É o da prostituição.
Em cada esquina ou viela,
Lá está uma meretriz.
Passo sem olhar p’ra ela,
Choro por este país.
Até S. Brás de Alportel,
Antes vila sossegada,
Parece mais um bordel,
Tal é a fauna avistada.
Existe uma solução
(Não agrada a toda a gente…):
É meterem na prisão,
Não “elas”, mas o cliente.
16/9/2007
Eram doze os concorrentes,
Apóstolos actuais.
Dizem-se todos diferentes,
Eu acho-os muito iguais.
Eram doze os candidatos…
Escrevo Apóstolos a custo,
Pois dizer doze Pilatos
É com certeza mais justo.
Nenhum tem culpa de agora
Estar a Câmara num caos.
Cada um diz (e não cora!)
Que os outros é que são maus.
…Eram doze os candidatos,
Como que Apóstolos de hoje.
Mas da história dos seus Actos
Até o Diabo foge.
15/7/2007
Quase se recusa a mão
A pôr isto no papel:
Gente é morta no Sudão
Por causa da cor da pele.
Tanto discurso inflamado
Sobre direitos humanos
E um povo a ser dizimado
Ao longo de anos e anos!
Mas ali há diamantes?
Interesses ocidentais?
Alianças importantes?
Negócios fundamentais?
Não estando o Sudão metido
Nesta contabilidade,
‘Inda não foi invadido
Em nome da liberdade…
12/6/2007
Firmeza é má se for escassa
Mas também se for em excesso,
E agora basta uma graça
P’ra se apanhar um processo.
Deixámos este governo
Tomar o freio nos dentes,
E vamos ter um inferno
Se ficarmos indiferentes.
Obedeçam ao José,
Desistam de dar combate,
Deixem-se dormir em pé,
Aceitem todo o dislate,
E, mais ano, menos ano,
Bastará um espirro só
P’ra este novo tirano
Nos meter no chilindró.
25/5/2007
Temos Ano Novo à porta,
Saibamos aproveitá-lo.
Se o outro foi mau, que importa?
Do mal hoje aqui não falo.
Se o outro foi mau, façamos
Que o novo seja melhor.
Até dos mais secos ramos
Pode brotar uma flor.
Tudo está nas nossas mãos,
No que escolhermos fazer.
Escolhendo ser como irmãos,
Nada nos pode vencer.
Tudo está nas nossas mãos
E nas mãos do Salvador.
Vamos-Lhe pedir, irmãos,
Que faça abrir a tal flor…
16/12/2006
Tiram das escolas Cristos,
Os servos do deus do Mal.
Blasfemam p’ra ser bem vistos,
Mas celebram o Natal.
Matam bebés por nascer,
Os servos do deus do Mal.
Só vivem para o prazer,
Mas celebram o Natal.
Destroem a Criação,
Os servos do deus do Mal.
Só adoram o cifrão,
Mas celebram o Natal.
Jesus, vem-nos ajudar,
E lembrar a quem esqueceu
Que o que vamos celebrar
É o nascimento Teu.
29/11/2006
Referendar o aborto
É como que perguntar:
“Achais que é certo matar?”
“Um bebé pode ser morto?”
Mas, por estranho que pareça,
As coisas vão ser assim.
E se o povo disser “SIM”,
Não há “NÃO” que prevaleça.
Perante tal situação,
Só resta o Espírito Santo.
A Quem é capaz de tanto
Façamos uma oração.
Se às mentes dos governantes
Não as pôde iluminar,
Vamos-Lhe agora rogar
Que ilumine as dos votantes.
8/10/2006
O Governo, resoluto,
Num assomo progressista,
Criou as salas de chuto.
Dizem que é uma conquista.
Mas eu, cá por mim, confesso
Que não gostei da medida.
Não acho isto progresso,
Acho que é escavar na ferida.
Se a droga provoca a morte,
Terá então cabimento
Que o Governo não se importe,
Que até ajude ao tormento?
E se nos vêm dizer
Que é assim em muito lado,
Só podemos responder:
Não deixa de ser errado.
26/8/2006
Procriação assistida,
Eis um tema muito sério.
Não se brinca com a vida,
Não se profana um mistério.
Mas no mundo enlouquecido
Em que parecemos viver,
Nada já é proibido,
Tudo se pode fazer.
Será que acabaram já
Os velhos valores, de todo?
Não existe alguém que vá
Contra a torrente de lodo?
Só resta tal conclusão
Para o fim desta poesia,
Se um Presidente cristão
Não veta a lei que devia.
21/7/2006