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Teresa Ferrer Passos/Teresa Bernardino: UMA ESTRANHA HISTÓRIA DE ALMA TRÁGICO-MARÍTIMA? EM BUSCA DE UMA NOVA CIVILIZAÇÃO ATLÂNTICA?
ALGUMAS PASSAGENS DE OBRAS DE DALILA PEREIRA DA COSTA (90º aniversário do seu nascimento em 4/3/2008)
MOUSSA AG ASSARID: O TEMPO, O DESERTO DO SAARA E A EUROPA SEM TEMPO...
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Recortes de outros autores
Luís de Sousa Rebelo: MEMÓRIA: DIA CAMÕES, DE PORTUGAL E DAS COMUNIDADES Agostinho da Silva: CONSIDERAÇÕES SOBRE A IDENTIDADE PORTUGUESA Paulo Brito e Abreu: Edgar Morin: Roger Penrose: Heidegger: F. da Gama Caeiro: O TEMA DA PAZ NA OBRA DE SANTO ANTÓNIO Manuel Antunes: José Augusto Mourão: |
O TEMPO, O DESERTO DO SAARA E A EUROPA SEM TEMPO…
Moussa Ag Assarid, um grande escritor oriundo dos nómadas tuaregues (deserto do Saara, ao norte do Mali), a viver em França. Com 30 anos, fez sucesso o seu livro Y a pas de embouteillage dans le désert (Não há engarrafamentos no deserto). Pastor berbere, entrou na escola aos 14 anos…
Em 1 de Fevereiro de 2007, deu uma invulgar entrevista ao jornal La Vanguardia. Aqui publicamos a versão brasileira de Luisa Ataíde, oportunamente transcrita no blog “As incertezas da cor”):
Não sei minha idade. Nasci no deserto do Saara sem documentos. Nasci num acampamento nômade tuareg entre Tumbuctú e Gao, ao norte do Mali. Fui pastor dos camelos, cabras, cordeiros e vacas que pertenciam a meu pai. Hoje, estudo Administração na Universidade de Montpellier, no sul da França. Estou solteiro. Defendo os pastores tuaregs. Sou muçulmano, mas sem fanatismo.
Que turbante bonito! É apenas um tecido fino de algodão: permite cobrir o rosto no deserto quando a areia se levanta e, ao mesmo tempo, você pode continuar vendo e respirando através dele.
Sua cor azul é belíssima… Ela é a razão pela qual chamam a nós, tuaregs, de homens-azuis: o tecido aos poucos desbota e tinge nossa pele com tons azulados.
Como vocês produzem esse intenso azul anil?
Com uma planta chamada índigo, misturada a outros pigmentos naturais. O azul, para os tuaregs, é a cor do mundo.
Por que? É a cor dominante: a do céu, a do teto da nossa casa.
O tuareg Moussa Ag Assarid, acaba de publicar, na França: "Não existe engarrafamento no deserto!"
Quem são os tuaregs?
Tuareg significa “abandonado”, porque somos um velho povo nômade do deserto, um povo orgulhoso: “Senhores do Deserto”, nos chamam. Nossa etnia é a amazigh (berbere), e nosso alfabeto, o tifinagh.
Quantos vocês são?
Cerca de três milhões, a maioria ainda nômades. Mas a população diminui… “É preciso que um povo desapareça para que percebamos que ele existia!” denunciou certa vez um sábio: eu luto para preservar o meu povo.
A que ele se dedica?
Ao pastoreio de rebanhos de camelos, cabras, cordeiros, vacas e asnos, num reino feito de infinito e de silêncio.
O deserto é mesmo tão silencioso?
Quando se está sozinho naquele silêncio, ouve-se as batidas do próprio coração. Não existe melhor lugar para quem deseja encontrar a si mesmo.
Que recordações da sua infância no deserto você conserva com maior nitidez?
Acordo com o sol. Perto de mim estão as cabras de meu pai. Elas nos dão leite e carne, nós as conduzimos onde existe água e grama… Assim fez meu bisavô, meu avô e meu pai… E eu. No mundo não havia nada além disso, e eu era muito feliz assim!
Bem, isso não parece muito estimulante… Mas é, e muito. Aos sete anos de idade, já permitem que você se afaste do acampamento e descubra o mundo sozinho, e para isso lhe ensinam coisas importantes: a cheirar o ar, a escutar e ouvir, a aguçar a visão, a se orientar pelo sol e as estrelas… E a se deixar conduzir pelo camelo; se você se perde, ele lhe conduzirá onde existe água.
Esse é um conhecimento muito valioso, não há dúvida… Lá tudo é simples e profundo. Existem poucas coisas no deserto, e cada uma delas possui grande valor.
Assim sendo, este mundo e aquele são bem diferentes, não é mesmo?
Lá, cada pequena coisa proporciona felicidade. Cada roçar é valioso. Sentimos uma enorme alegria pelo simples fato de nos tocarmos, de estarmos juntos! Lá ninguém sonha com chegar a ser, porque cada um já é.
O que mais o chocou ao chegar pela primeira vez na Europa?
Ver a gente correr nos aeroportos. No deserto, só corremos quando uma tempestade de areia se aproxima. Fiquei assustado, é claro…
Corriam para buscar suas bagagens…
Sim, devia ser isso. Também vi cartazes mostrando moças nuas: por que essa falta de respeito para com a mulher?, Perguntei-me… Depois, no Hotel Íbis, vi uma torneira pela primeira vez em minha vida: vi a água correr… e tive vontade de chorar.
Que abundancia, que desperdício, não é mesmo?
Até então, todos os dias da minha vida tinham sido dedicados à procura d’água. Até hoje, quando vejo as fontes e chafarizes decorativos que existem aqui, sinto uma dor imensa dentro de mim.E por que?
No começo dos anos 90 houve uma grande seca, os animais morreram, nós adoecemos… Eu tinha uns doze anos, e minha mãe morreu… Ela era tudo para mim. Contava-me histórias e ensinou-me a contá-las bem. Ensinou-me a ser eu mesmo.
Que aconteceu com sua família?
Convenci meu pai a deixar-me frequentar a escola. Todos os dias eu caminhava quinze quilômetros para chegar até ela. Até que um professor arrumou uma cama para eu dormir, e uma senhora me dava comida quando eu passava em frente à sua casa. Entendi: era minha mãe que me ajudava…
De onde veio essa paixão pelos estudos?
Dois anos antes, o rally Paris-Dakar passou pelo nosso acampamento, e caiu um livro da mochila de uma jornalista. Eu o apanhei e devolvi a ela. Mas ela me deu o livro de presente e disse que ele se chamava “O Pequeno Príncipe”. Naquele instante prometi a mim mesmo que um dia seria capaz de lê-lo…
E você conseguiu…
Sim. Foi assim que consegui uma bolsa para estudar na França…
Um tuareg na universidade! Do que mais tenho saudade é do leite de camela. E do fogo de madeira. E de caminhar descalço sobre a areia tépida. E das estrelas: lá, nós as admiramos todas as noites, e cada estrela é diversa da outra, como cada cabra é diversa da outra. Aqui, à noite, vocês ficam vendo televisão.
Sim. Na sua opinião, qual é a pior coisa que existe aqui?
A insatisfação. Vocês têm tudo, mas nada lhes é suficiente. Vivem se queixando. Na França, passam a vida queixando-se. Vocês se acorrentam por toda a vida a um banco por causa de um empréstimo, e existe essa ânsia de possuir, essa correria, essa pressa. No deserto não existem engarrafamentos, sabe por que? Porque lá ninguém quer passar à frente de ninguém!
Relate um momento de felicidade intensa que você viveu no seu distante deserto. Esse momento ali se repete a cada dia, duas horas antes do pôr-do-sol: o calor diminui, o frio da noite ainda não chegou, homens e animais retornam lentamente ao acampamento e seus perfis aparecem como recortes contra o céu que se tinge de rosa, azul, vermelho, amarelo, verde…
É fascinante. E então… Esse é um momento mágico… Entramos todos na tenda e fervemos a água para o chá. Sentados, em silêncio, escutamos o barulho da água que ferve… A calma toma conta de nós… As batidas do coração entram no mesmo compasso dos gluglus da fervura…
- Que paz… Aqui vocês têm o relógio; lá, temos o tempo.»
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MEMÓRIA / 10 de Junho de 2009
DIA DE CAMÕES, DE PORTUGAL E DAS COMUNIDADES
«CAMÕES E O SENTIDO DE COMUNIDADE»
«A leitura atenta de Os Lusíadas não deixa dúvidas quanto à presença de um pensamento que o poeta elaborou, aprofundou e tornou verdadeiramente seu. O seu amor da pátria e da comunidade onde nasceu ̶̶̶ ou "ninho meu paterno" (Os Lusíadas, I, 10) ̶̶̶ ; os deveres de solidariedade humana e solidariedade cívica e pública para com todos aqueles, vivos ou mortos, que a constituem, tem a sua raiz no ideário de Ficino, que recomendava: "É mister que os homens tenham amor e estima por Deus, pela pátria, pelos seus antepassados e pelo próximo, tanto pelos vivos como pelos mortos."»
(...)
«O poeta dirige o seu apelo à consciência dos homens para que a pátria seja desoprimida das injustiças que lhe tolhem a liberdade. Pede a abolição de leis rigorosas e iníquas para a maioria das gentes:
Favorecei-os logo, e alegrai-os Com a presença e leda humanidade; De rigorosas leis dasalivai-os, Que assi se abre o caminho à santidade. Os mais experimentados levantai-os, Se, com a experiência, têm bondade Para vosso conselho, pois que sabem O como, o quando, e onde as cousas cabem.
(Canto X, 149)»
Fonte: Luís de Sousa Rebelo, «Camões e o Sentido de Comunidade», in Camões e o Pensamento Filosófico do seu Tempo, pp. 61 e 91.
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UMA ESTRANHA HISTÓRIA DE ALMA TRÁGICO-MARÍTIMA ?
Autora de uma bibliografia que privilegiou a análise do pensamento místico, esotérico e religioso dos poetas e pensadores portugueses, sobretudo dos séculos XVI e XX, Dalila Pereira da Costa acaba de completar noventa anos. Com uma vida dedicada ao estudo da "alma portuguesa" podemos considerá-la uma pensadora do «enigma português», como diria Francisco da Cunha Leão.
Os aspectos do mito, as maravilhas do símbolo, o oculto do inconsciente colectivo portugueses, foram motivo da maior parte das suas obras. Poetas da envergadura de um Teixeira de Pascoaes ou de um Fernando Pessoa, dramaturgos como Gil Vicente, transfiguram em poemas e em diálogos de sacral virtuosismo, os grandes cultos matriciais da Pátria portuguesa.
O espírito de Mircea Eliade ou de Erich Neumann renasce nas páginas emocionadas pelas imagens da "saudade", da "viagem", da "alma". Elas regressam ao nosso convívio nas páginas da autora de A Força do Mundo (1972) ou de Da Serpente à Imaculada (1984) ou ainda de Mensagens do Anjo da Aurora (2000), páginas escritas por esta escritora a viver na cidade onde nasceu em 1918, a cidade do Porto, mas em que, um dia, atravessou o Atlântico, rumo à cidade de S. Paulo, no Brasil.
Sem o cansaço próprio da sua idade, Dalila Pereira da Costa publicou há apenas dois anos um livro notável que titulou As Margens Sacralizadas do Douro através dos Vários Cultos (Lello Editores, Porto, 2006), uma obra em que aborda a importância do grande rio, que entre os penhascos montanhosos chega ao mar com a ousadia e a força cósmica de um gigante.
Nesse rio percorrido pelos navegantes de Quatrocentos que, nas suas margens encontravam as matérias-primas para construir as naus e as caravelas e que, na sua robustez, descobriam a coragem para afrontarem os mares e chegarem a novos e tão diferentes povos. Nesse rio magnífico que, nas suas margens viu crescer uma cultura gentílico-tribal, em que o "arquétipo da Grande Mãe" criou as raízes para a formação de uma Mátria do tamanho do Mundo.
O Universalismo e o tribalismo estão impressas nas margens do Douro. Estão também nas centenas de gravuras do rio Côa. Santuários de uma Origem inesquecível, aí estão. Uma Origem primordial inscreve-se nas gerações que no seu mais fundo subconsciente transmitem os genes do tempos e dos ancestrais costumes dos povos.
Nas margens do Douro e do Côa, Dalila Pereira da Costa bordeja as matrizes espirituais deste povo português, a construir uma Saudade única na hora da partida e nos instantes do regresso. E tudo isto, a viver nas profundezas psíquicas de uma religiosidade que misturou as práticas dos xamãs com a fé dos cristãos.
A sacra missão foi-se tecendo nos sons da Língua Portuguesa. E edificou-se desde os ermitérios às aventurosas viagens, viagens de procura e de encontro, de rituais e de fé a envolverem o ser daqueles que partiam. Todo este mundo arquétipo, ideal e límpido, é criticamente narrado e interpretado por Dalila Pereira da Costa.
O culto de uma religião de asceses ergue-se, soberbo e soberano, nas mágoas daqueles que ficavam, velando uns, orando outros, pelo ideal distante, mas nunca esquecidos das edénicas moradas da cidade a perder-se de vista e do mar dos navegantes, a ganhar-se, palmo a palmo. E todos saíam da barra do rio sem olhar para trás, com medo de ficar.
Lisboa, 7 de Maio de 2008
Teresa Ferrer Passos
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«E nós vamos para a paz em voo no céu» (p.44). Eis o verso do livro publicado por Dalila Pereira da Costa, intitulado Hora de Prima, nos fins de 1993. Conhecendo um tanto fragmentariamente a obra ensaística e poética da autora de Gil Vicente e a sua Época (Guimarães Editores, 1989) parece-nos que Hora de Prima pode sintetizar metaforicamente todo o espírito que tem imbuído os seus excelentes escritos.
Sendo uma escritora de formação histórica e filosófica, os seus trabalhos têm-se revelado bem consentâneos com as linhas de pensamento proclamadas por um Leonardo Coimbra, um Álvaro Ribeiro ou um António Quadros.
Sem excluir o seu sebastianista e Quinto Imperial sentido da pátria portuguesa, Dalila Pereira da Costa introduz de modo paradigmático, um eminentemente cariz religioso às suas deambulações teoréticas sobre a existência e a essência do humano. Estas inclinações prospectivas da História Revelada e a Revelar não deixam igualmente de se colocar na linha saudosista de Teixeira de Pascoaes ou, mais acentuadamente na linha futurista de Fernando Pessoa.
Sintetizando, julgamos que é no seu livro Encontro na Noite, que Dalila Pereira da Costa explana, com mais veemência e concretismo, todo o mistério presente e escatológico da Memória-Revelação-Redenção da Criatividade humana, na sua expressão poética. É nesta obra publicada em 1973, que a poesia é escalpelizada nas suas vertentes múltiplas. Integrando-a sempre numa pluridimensão em que real, razão e sobrenatural se complementarizam numa alteridade definidora e comungam de um sentido único-totalizante.
Se para Dalila Pereira da Costa a poesia é a «perenização do mistério» e a «essência da liberdade», o poeta é «o espelho onde o invisível se reflecte, se reproduz no Verbo» (Encontro na Noite, Lello e Irmão, p. 179). Daí que e, de certo modo, na senda de Platão, a ensaísta aborde o acto criativo como uma transmissão em que imagens e palavras confluem para atingir com plenitude o invisível. Por isso, Dalila Pereira da Costa descobre no acto poético, como no místico ou no profético, «um acto de Graça» (Encontro na Noite, p.186).
Fé, mistério, Verbo, interpenetram-se «num trabalho de e para Deus» (Encontro na Noite, p.186). Mas, nota a autora, a finalidade da obra realizada não se confina ao presente-instante, mas antes ao futuro sem limite. Esta prospecção implica todos os momentos que a memória retém na brevidade do tempo.
A tarefa dos poetas é, pois, realizar a unicidade entre palavra dita e palavra escrita, oferecendo à imagem e ao símbolo, previamente configurados no seu espírito, toda a abrangência que o espírito humano confere ao que pertence ao puro domínio do Espírito Divino. Neste contexto, parece-nos que Hora de Prima constitui a plena aplicação prática dos pontos de vista que Dalila Pereira da Costa já delineou com rigor, em 1973, em Encontro na Noite. Exemplifiquemos com estes sibilinos versos de Hora de Prima:
«Toca, sente dentro
o mistério do mundo,
a porta radiosa
de cinco faces
o mundo falante
a rosa de fogo
o lírio de neve
o Verbo gerado
no seio cerrado
a noite negra
a face dourada
do anjo enviado
Pelo ar chegado
à câmara secreta» (p.12)
Longa citação. Contudo, inevitável porque sintomática dessa entoação interior do Verbo que é Espírito e é Incarnação. Do Verbo que possibilita a criação ao ser criado como expressão de uma generosa dádiva. Na prossecução da sua obra, o Verbo procura o louvor da existência e, em simultâneo, a imolação do mal, esse sinónimo dos desvios que o próprio acto criador e potente não conseguiu expurgar com a união. Para Dalila Pereira da Costa, essa União será plena ao fazer-se na «transmissão através das palavras», não como um fim em si mesmo, mas como uma grande «união com Deus: simples e pura, sem imagens, sinais nem prodígios» (p.169).
Em Hora de Prima, a autora oferece um notável apelo aos poetas, esses vates condutores dos Povos (na expressão de Holderlïn), esses supremos intérpretes da vontade das gentes, ignoradas e ignaras, mas em quem reside ainda, providencialmente, o húmus fecundante da vida e do espírito, sem fim.
Teresa Bernardino*
* Ortónimo de Teresa Ferrer Passos
Fonte: Letras e Letras, Porto, Março de 1994, p.31; Dalila Pereira da Costa e as Raízes Matriciais da Pátria, Lisboa, Fundação Lusíada, 1998, pp. 177-178.
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EM BUSCA DE UMA NOVA CIVILIZAÇÃO ATLÂNTICA ?
Nos últimos anos do epílogo do segundo milénio, a civilização Ocidental confronta-se com um tempo de nebulosos contornos mentais, sociais e económicos. Contudo, os povos das Culturas que a delineiam, continuam a viver questões de ordem rácica, problemas religiosos e carências de natureza material que, acumulando-se, os agridem diariamente por catadupas de notícias veiculadas pela televisão, pela rádio e pelos jornais que o cidadão escuta ou lê, sempre na ânsia de descobrir um sentido novo, uma desocultação da verdade, uma qualquer salvação do lamaçal em que se sente, sem apoios. Espera-se sempre uma assunção de algo (ou de alguém?) vindo de um lugar inesperado e indicando um rumo neste mundo ávido de futuro.
Esta constante e contínua busca de informação-alerta ou informação-espera se aproxima, também aliena, se cria uma tensão, também pacifica. Porque ela é um sintoma flagrante de solidão, sem anular outro não menos determinante, o sentimento de inquietação, de intranquilidade, senão mesmo de desespero, perante uma realidade incontrolável que tolhe, que abafa a vontade e limita a liberdade das consciências.
Esta ansiedade da psique é o mais anunciador e evidente sinal da decadência de uma civilização que morre devagar, porque a ideia de imortalidade se foi apagando lentamente dos seus horizontes. Mas num desafio incontido, desde os tempos da Idade do Ferro, a esperança de ter, nunca lhe anulou a esperança de ser na dimensão mais funda da vida.
A civilização Ocidental está perante as ambiguidades de uma economia que trouxe a abundância, mas não evitou o desperdício e, ao liberalizar ou socializar, não criou um mundo de solidariedade e diferença, de compromissos mútuos e de liberdade. As incertezas das teorias filosóficas e científicas provocaram, e continuam a provocar, a fragmentação das suas estruturas ideológicas seculares. Assim, numa labiríntica teia de direcções mal definidas, duvidosas e incertas, o pensamento Ocidental dispersa-se e perde-se das suas raízes profundas.
Sem construções mentais com a matriz da eternidade, com o sentido do absoluto, com a força da unidade entre o material e o espiritual, o declínio desta civilização enfrenta tempos de saudade de um passado impossível e de um futuro que demora tanto como se nunca pudesse chegar. E as culturas confrontam-se com um ambiente de estagnação ideológica. Neste vazio anulante, tende-se a recorrer obstinadamente a comportamentos ou atitudes que, sendo caducos ou com o estigma da corrupção, possibilitam a sua frágil e insegura respiração.
A vida está assegurada pela sobrevivência. E mesmo esta, vislumbra ao longe os competidores do futuro: os computadores que já resolvem problemas, problemas só próprios de seres pensantes, que irão sentir, que depois criarão. Nesta hora em que as perversões não podem ser excluídas, sob pena de condenação generalizada em praça pública, em que a liberdade se tornou sinónimo de pura permissividade ou em que a ética é ciosamente guardada como se de um secreto jardim de bafientas personagens se tratasse, em que a parcialidade e o egoísmo dominam todos os esquemas sociais, em que o sagrado, invisível, é recusado, como se fosse uma assunção demoníaca ou de perdição, nesta “hora zero” da vida é preciso semear a Esperança: num “Encoberto”, num “Navio-Fantasma”, num “Santo Graal” da generosidade, ou numa “Saudade” qualquer.
É Hora de Prima, como escreveu Dalila Pereira da Costa «porque alguma coisa se poderá ver nesta opacidade do Ocidente?»[1]. Uma névoa espessa envolve, de facto, a civilização Atlântica ou do Ocidente. A «Nova Atlântida», na expressão da autora de livro homónimo. Numa visão, quase sempre com cariz profético, Dalila Pereira da Costa anuncia um Portugal com a saudade da origem e, em simultâneo, com a saudade do futuro.
Na esteira de Fernando Pessoa e de Spengler, desoculta o conceito de nação com um corpo físico e uma mente, equiparáveis às dos indivíduos. Estes nascem, desenvolvem-se, envelhecem e morrem. As nações têm uma vida idêntica, porque passam por essas mesmas fases, ao longo da sua existência. Cada nação é, antes de tudo, um indivíduo colectivo que possui uma vida psíquica, em que tempos de ocultação, meditação e silêncio, alternam com outros de abertura, palavra e acto. Tudo se processa numa sucessão cíclica uniforme. Sem saltos bruscos ou rupturas súbitas, tudo evolui numa fluidez constante.
Em 1918, ao publicar a obra A Decadência do Ocidente, Spengler considerou as culturas como «seres vivos de ordem superior» e com uma alma própria que só pode morrer quando «realizou a soma das suas possibilidades». Neste modo de perspectivação histórica das civilizações, a alma é uma realidade cultural que, quando morre, está a criar as condições para fazer emergir uma nova civilização. Em consequência, novas culturas estão na forja, com a força do seu destino inexorável e com o carisma de um absoluto totalizante.
A alma da cultura ocidental é a sua maior riqueza. É ela que na sua dimensão fáustica, ou seja, na sua essência espiritual, se contrapõe à cultura mediterrânica da Antiguidade Oriental e Greco-Latina. Os edifícios artístico-religiosos, criações da cultura ocidental, apresentam-nas, como forma maior de expressão (desde a cultura megalítica). O seu material específico era a pedra. A pedra que, no Ocidente, tem sido o símbolo do intemporal, da eternidade e, assim, se transformará no grande mito da civilização europeia.
Alicerçada na crença distante e próxima da invisibilidade, e a entrever-se nas malhas de um sonho saudoso de invisível, a civilização Atlântica é a redentora dos grandes símbolos, é a formuladora da saudade ideal dos tempos primordiais, e dos tempos do fim. Acentuando o carácter inovador das culturas ocidentais, é, precisamente, Spengler que defende serem os povos «unidades espirituais», mais do que unidades linguísticas ou políticas.
Ao publicar, em 1935, o livro Mensagem, Fernando Pessoa não pôde deixar de partir deste pressuposto fundamental. Mas, projectando-o à dimensão universalista, adapta-o à mística sebastianista do Portugal Atlântico. Foi com «alma atlântica», que Pessoa gizou o «Mar Português», «A Última Nau», «O Encoberto», apesar de envoltos em desesperante «Nevoeiro».
E no perfil dos litorais do Ocidente da Ibéria, desenha Portugal a olhar um Atlântico Oculto, tenebroso ou a irradiar a luz do encontro aberto ou enigmático, saudoso e quimérico: «Nem rei nem lei, nem paz nem guerra, / Define com perfil e ser / Este fulgor baço da terra / Que é Portugal (...)»...
Portugal, essa terra a perder de vista frente ao Atlântico e a mirar ainda as ilhas dispersas e distantes. O seu «corpo», mutilado pela perda dessa terra imersa a entrar pelo oceano, a quem ofereceu o nome ou a quem ele baptizou, soberano e audaz, como se o mar fosse todo ele, fosse a eternidade, a abrir-se nas ondas de um sal redentor e a desfazer-se nas lágrimas da saudade, que é «Portugal a entristecer», por ainda não poder cumprir-se («falta cumprir-se Portugal», escreve Pessoa), e cumprindo a sua vocação missionária e aventurosa, conforme o espírito recebido dos distantes, mas nunca esquecidos, povos da cultura dolménica.
Esses povos das margens atlânticas, desde as ilhas do Ocidente Norte da Europa, onde os Celtas estabeleceram os seus santuários, até à Ibéria ou às terras da Atlântida. Essa grande ilha que, no século V a.C., Platão situaria para o Ocidente das Colunas de Hércules ou Estreito de Gibraltar.
Essa grande ilha ou continente atlântico, em que os reis bebiam o vinho em taças de ouro, símbolo solar da imortalidade, e onde a principal cidade era identificada por círculos concêntricos (cromeleques circulares). Nessa grande ilha, em que os povos desenvolviam uma actividade mercantil-marítima, até aos confins dos mares do Norte da Europa e do Sul, a bordejar os contornos Mediterrânicos.
Em Portugal, Razão e Mistério, António Quadros identificará esses navegadores ou missionários da crença na imortalidade da civilização dolménica (que abrangia todo o Ocidente europeu até aos mares do Norte) com os Atlantes, esses habitantes da magnífica Ilha ou Grande Continente, a Atlântida, que teria parcialmente sucumbido por acção de terramotos, da violência das águas ou de cataclismos vulcânicos[2].
O mar sem fim, o Atlântico, constitui, no seu elemento marítimo, a água, a Alma da civilização megalítica, em que a primeira religião solar, fundada na ideia da imortalidade, se constitui e difunde da Bretanha à Irlanda, até aos Mares do Atlântico Norte. Descendentes do povo dolménico ou do sudoeste ibérico, os Atlantes, não são mais do que os enigmáticos lusitanos que, ao receberem a influência dos Celtas, povo detentor da mais avançada metalurgia do ferro consolidaram, no contacto com estes, a sua crença ancestral na vida, para além da morte física. Como nota António Quadros, também os Celtas, oriundos da Europa Central, partilhavam desta crença. E divulgaram-na até às zonas litorais e às ilhas do Norte.
A espiritualidade expressa nos megalitos, nos seus desenhos espirais e circulares, na serpente eterna e nas águas, aliaram-se ao aventureirismo, à missão e ao ocultismo do Ocidente Atlântico. Sobretudo presentes nos povos da orla marítima galaico-portuguesa, foram comuns aos romanos, aos infiéis muçulmanos e aos Cristãos da Reconquista.
A verdade é que, confrontando a religiosidade megalítico-céltica do Atlântico com a religiosidade judaico-cristã, há uma semelhança e uma complementaridade, se não mesmo um reforço profundo. Em tal constatação, não se inscreverá o Culto do Espírito Santo, instaurado em Portugal, pelo rei D. Dinis, e que obteve uma larga adesão popular? A linha Joaquimita da Ordem Franciscana e o estabelecimento da Ordem dos Templários, em Portugal, não terão proporcionado uma viva propagação desses princípios comuns? E não terão sido eles os propugnadores, em Quatrocentos, da Expansão Marítima além-Atlântico para o Sul e para o Ocidente?
Esta dispersão dos Portugueses pelas terras remotas e perigosas do planeta desconhecido, não lembrará toda a diáspora levada a cabo pelos povos dolménicos do Megalitismo? Nos Descobrimentos dos portugueses e dos espanhóis dos séculos XV e XVI, não se desenhava a esperança num futuro promissor e, ao mesmo tempo, saudoso, da Atlântida perdida? Não se poderá vislumbrar mesmo, uma busca dessa Atlântida mítica e esfumando-se nas vagas alterosas do oceano, sem fim?
Não haverá nessa Gesta das Navegações, ao longo do imperial Atlântico, as sombras diáfanas dessa abundância perdida nas águas revoltas e tormentosas, perdida ou lançada para além... para além do Bojador...?
Como escreveu Francisco Cunha Leão, com os Descobrimentos «o interesse nacional universalizou-se e confundiu-se com o da Civilização»[3]. Depois de tanta espera, o desconhecido a descobrir-se e a abrirem-se por intermédio desse povo luso, a encontrar a novidade, a desocultar o tempo inesperado...da Profecia ou do Desejo.
E, é nestes «tempos novos esperando», que vemos a sibilina Dalila Pereira da Costa: uma Nova Civilização, uma Nova Atlântida, «só a paz celeste espalhando: / a que vem, que no horizonte desponta»[4]. Palavras extraídas do poema titulado «A Nova História». Nova História que é também a Nova Descoberta ou a Nova Saudade, de um tempo difuso e indefinido, que cresce frente às águas oceânicas, frente aos navios que as afrontam e não logram desvendar o que está para além das ondas e dos ecos.
Desvendar com as profecias místicas, desvendar com a gnose da experiência sapiencial do antes, a indicar rumos ainda que encobertos pela névoa marítima do futuro, sempre a ser uma «Força do Mundo». É esta «Força do Mundo» que Dalila Pereira da Costa vivencia e, ao mesmo tempo, procura, entre os sentidos ocultos em todos os sentidos, quer sejam individuais, quer sejam colectivos, como o das nações.
A nau e o graal, como a cruz e a pomba ou a serpente e o sol, são alguns dos símbolos de um trânsito circular de navegações envoltas em sonho e saudade, em difusa esperança num «salvador». Um salvador encoberto talvez, mas vivo como o Espírito Santo, a atravessar o último estádio da humanidade expectante, dolorosa, mas a vigiar como Cristo ensinou.
Em A Nova Atlântida, Dalila Pereira da Costa escolhe Fernando Pessoa como o representante supremo desse espírito que conduz à redenção da pátria, a qual terá de edificar o Quinto Império do Espírito Santo, conforme o prenunciaram o Bandarra de Trancoso e o Padre António Vieira, no século XVII, na “hora” em que a Pátria do futuro estremecia, perante a prolongada dominação estrangeira. A Restauração da independência nacional, em 1640, era sobretudo, a chegada do “Desejado” para realizar Portugal. Porque, como diz Dalila Pereira da Costa «é o sagrado que justifica o profano»[5]
A terra portuguesa, terra dos povos dolménicos, de celtas e lusitanos, onde se praticaram os grandes cultos solares da imortalidade, é, para Dalila, uma terra-mãe, qual deusa da fertilidade ou da Vida. A terra portuguesa é, igualmente, a pátria dos Atlantes que terão, nos tempos vindouros, de fazer ressurgir das águas, a sua Atlântida magnífica e perdida nas trevas do oceano ou nas catacumbas do pecado, e à espera do regresso à vida. É, neste contexto, que Portugal alcançará o seu sentido pleno: o sentido universalista que o messianismo já anunciava.
A Mensagem de Pessoa, publicada em 1935, proclama esse sentido de Portugal, enunciado já com a revista Orpheu (1917), a que estava ligada a esperança numa Renascença Nova. A Orpheu, publicada simultaneamente em Portugal e no Brasil, tinha em vista criar essa Comunidade de Língua Portuguesa que o Atlântico (ou o espírito da grande Atlântida?) tendia a unir, não a separar.
Unir, para ser possível a Portugal transcender as suas fronteiras terrestres, cortadas abruptamente pelo mar, e estabelecer os fundamentos da futura civilização Atlântica. Já não assente na Europa trans-pirenaica, mas em Portugal, ou seja, no Mundo de Língua Portuguesa. No poema «Ultimatum», Pessoa explana a sua crença absoluta naquele “Super-Homem” (o “Super-Camões” que descobre?) proclamado por Nietzsche, mas que falaria a Língua Portuguesa.
E esse “super-homem” era não só «o mais forte», mas «o mais completo», não era só «o mais duro», mas «o mais complexo», não era só «o mais livre», mas «o mais harmónico»[6]. Então, proclama, com entusiasmo, o “heterónimo” Álvaro de Campos: «(...) na barra do Tejo, de costas para a Europa, (...) fitando o Atlântico e saudando abstractamente o infinito»[7]. É a “hora” da «vinda de uma Humanidade matemática e perfeita!»[8].
E, em versos da Ode Marítima, canta a nova civilização a «largar por aí fora, pelas ondas, pelo perigo, pelo mar / Ir para Longe, ir para Fora, para a Distância abstracta». Ir mais além com a aventura dos navegantes-missionários celtas de que descendemos, para construir o Novo Mundo, já não do Corpo, mas do Espírito, que é a Língua (para realizar a promessa feita à Humanidade).
«Ah, seja como for, partir», entoa o poeta mirando o Atlântico da esperança que é Portugal, a prolongar-se para além das praias e dos arvoredos. Ultimatum, a palavra última, a última palavra a romper o silêncio e o apagamento, a palavra-final de algo que é preciso quebrar, para se lhe dar nova forma, novo rumo, novo destino.
A palavra última de Pessoa está hoje, viva e actuante ou acto, em pensadores, como Dalila Pereira da Costa: O Esoterismo de Fernando Pessoa, obra publicada em 1978 e a conferência Orpheu, Portugal e o Homem do Futuro, que foi dada à estampa, no mesmo ano, são alguns exemplos de sua adesão ao pensamento expresso nos escritos de Fernando Pessoa como, por exemplo, o poema Ode Marítima, que a autora de Hora de Prima entende ser um dos mais significativos. Fernando Pessoa «sustentará em si com o peso desta nova missão colectiva da pátria»[9], acentua Dalila. Depois, com «alma atlântica», «tudo se fará, a partir das margens marítimas de Portugal, virando as costas à Europa»[10].
«Virar as costas à Europa» e criar uma Nova civilização Atlântica! O grande projecto está aí, e o grande enigma também. Um grande mito eleva-se no espaço, e fortifica-se na terra dos “patres”, mortos e a vivificando-se na memória de um hoje, a viajar para o futuro, “at aeternitatem”? Ensina-nos Dalila Pereira da Costa: «a Mensagem surge como mito e rito que conta a criação duma pátria, tal como outra cosmogonia»[11]. E ainda ajuíza, sibilinamente: «A vinda do Encoberto marcará o fim da História»[12].
Na sua obra A Nova Atlântida publicada, em 1977, Dalila sublinhava já a importância de Fernando Pessoa na sua teorética, no início do capítulo «A alma atlântica». Aqui, a autora detém-se a averiguar o sentido primitivo da comunidade atlântica. Com a argúcia dos profetas, Dalila Pereira da Costa, entende que foi a união dos povos do Atlântico Norte com os ibéricos, designadamente com os celtas de Entre Douro e Minho, que viabilizou a partilha da passagem do Antárctico, no tempo de D. Afonso V de Portugal e de Cristiano I da Dinamarca, ou ainda que as cruzadas, com origem na cidade do Porto, chegassem às quiméricas Ilhas das Sete Cidades dispersas algures no Atlântico.
A filósofa do simbolismo português infere, igualmente, que o tratado de Tordesilhas celebrado, em 1492, entre Portugal e Castela, ao dividir o mundo pelos dois países ibéricos, é revelador, na sua expressão místico-espiritual, de algo que se relaciona, ou que fundamenta, a verdadeira missão de Portugal. Lembrando «o sentido sagrado da terra»[13], Dalila Pereira da Costa considera que a Península Ibérica, esse bastião do sagrado, conterá, depois do Tratado de Tordesilhas, o pré-anúncio da «futura civilização dos povos do Atlântico Sul»[14].
E a autora de Místicos Portugueses do século XVI (Lello & Irmão, Porto, 1986) vê o Encoberto como símbolo da dimensão futura do Mundo, que o Português criou. A chegada do D. Sebastião do “Espírito”, coincidirá com «o nascimento de uma pátria, como nova criação, para o homem e para o mundo»[15]. Seria, como preconizava Teixeira de Pascoaes, um «Regresso ao Paraíso» no futuro.
O Atlântico Norte, o da espiritualidade tradicional céltica (irlandesa e britânica), une-se ao Atlântico Sul, na zona de cruzamento das suas águas, que é, aproximadamente, correspondente à orla marítima das terras da Serpente e (ou) de Santa Maria: do círculo e do oceano.
Símbolos de eternidade e da imagem «mátria», esse mito «pátrio» por excelência, como escreve Dalila em A Nau e o Graal. Estes, os dois símbolos maiores do espírito lusíada, a ser «ilha longínqua e velada», em que «tudo será procura da Vida, na sua existência verdadeira, fora do tempo»[16] e a ser «a terra procurada» ou «essa ilha prometida e procurada nas águas do oceano»[17].
Se como escreveu Gordon Childe, «as superstições populares de Portugal, da Bretanha e da Irlanda são reminiscências da tradição megalítica»[18], não duvidamos que a «nova civilização atlântica» tenha de ser edificada na «Ocidental Praia Lusitana» cuja «aculturação celtibérica» trouxe «o culto do fogo» na cultura do Ferro (e da forja), que possuiam e propagaram na terra de «Sephes» ou Frons Ophiusae (Frente das Serpentes), como titulou o romano Avieno o seu poema marítimo.
Com a gesta dos Descobrimentos Atlânticos, a missão dos Atlantes prolongar-se-á no mundo que o português criou, ou seja, no universalismo planetário da Expansão marítima Quatrocentista. Uma Nova Idade era alcançada pela pequena nação-nau, aquela que Sampaio Bruno traçou nas últimas páginas de O Encoberto (1904), como a Pátria da Liberdade, da Justiça e da Paz e que Teixeira de Pascoaes definiu em A Arte de Ser Português (1915). Que Fernando Pessoa tentou eternizar na sua teoria política (exposta numa série de escritos fragmentários) sobre o Império Espiritual da Nova Civilização de Língua Portuguesa. E ergueu a esperança na revista Orpheu (1917), em que Portugal e o Brasil constituem um único projecto de Futuro. Agora, a civilização do Atlântico já não é europeia, é universal.
O Império rasgará os mares, de novo, e como na gesta descobridora o Atlântico unirá, mas diferentemente dela, não mais irá separar. O mundo da Novidade crescerá sob as luzes da Ciência (com destaque para a Matemática, gnose suprema), escreveria Fernando Pessoa nas últimas linhas do poema «Ultimatum». E qual Pessoa, Dalila Pereira da Costa escreve, em cada livro que publica, um manifesto em defesa do Atlantismo, Saudade e Alma da Lusitania.
A propósito, na obra Antropologia Luso-Atlântica, Almeida Langhans diz-nos que a mais universal de todas as civilizações, é a civilização atlântica. E vaticina: «A grande civilização oceânica que se avizinha é uma civilização universalista e espacial feita à medida do cosmos»[19]. Logo a seguir, acrescenta: «O grupo altamente miscigenado do luso-atlântico difundido é já um grupo de raça cósmica que espera a sua vez espacial»[20].
O luso-atlântico ou a raça cósmica está no espaço peninsular ibérico à espera de criar as condições para a sua plena realização. Já não dentro das fronteiras da estreita faixa ocidental batida pelo Atlântico, mas pelo Atlântico dentro, unindo o Norte e o Sul, o Ocidente e o Oriente. É precisamente nesta raça cósmica que fala Dalila Pereira da Costa quando escreve, a propósito do Poeta maior da Orpheu: «como ficou memorado no Ultimatum veremos que esse acto é um acto de suprema iniciação»[21]. Este acto implicará, no futuro, a edificação da Comunidade Atlântica, em que a «Tradição-Língua» Portuguesa terá o Império.
Se assim não for, a civilização Ocidental decaída, não se poderá erguer com uma cultura verdadeiramente viva. É que a Europa trans-pirenaica, ao privilegiar o “Reino da Matéria” sobre o “Reino do Espírito”, não desenvolveu, em si, na actualidade, a dimensão da imortalidade.
Essa imortalidade que, desde os tempo do megalitismo dolménico, foi a fé maior dos lusitanos, herdeiros do espírito dos Atlantes da Ibéria. A civilização do futuro terá de se localizar, no seu âmago, ou melhor dizendo, no cruzamento das margens atlânticas dessas vastas regiões que compõem, e dão corpo físico, aos países que comungam da Língua Portuguesa.
A Língua Portuguesa será a Pátria Universal de um Futuro (o Futuro Prometido pelo Império do Espírito Santo), a desenhar-se já nas caravelas, nas cruzes de Cristo, no Santo Graal. Sob o espesso manto do nevoeiro, Dalila Pereira da Costa exalta o mar, esse pater a envolver-se no húmus mátrio, e a anunciar a «realidade cosmogónica da alma portuguesa»[22].
Como nos tem ensinado a sibila-Dalila, que o verso tornaria rima, os portugueses «esperam junto à porta do Douro, envolvidos nas velhas sagas marítimas e no doce canto dos pássaros proféticos»[23].
Se assim puder vir a ser, exultemos na espera do Império do Espírito, porque os deuses nos honraram ao fazê-lo sob a égide da Língua Portuguesa.
Teresa Ferrer Passos
[1] Ob.Cit., Lisboa, Fundação Lusíada, 1993, p.72.
[2] Platão, Timeu in Ob. Cit., p.119.
[3] O Enigma Português, Lisboa, Guimarães Editores, p.208.
[4] Hora de Prima, Lisboa, Fundação Lusíada, 1993, p.71.
[5] A Nova Atlântida, Porto, Lello e Irmão, 1977, p. 238.
[6] «Ultimatum», in Obras Escolhidas, Ed.Verbo, 1985, vol. 4, p.193.
[7] Ibidem.
[8] Ibidem.
[9] Orpheu, Portugal e o Homem do Futuro, Porto,1978, p.9.
[10] Ibidem, p. 15.
[11] O Esoterismo de Fernando Pessoa, Porto, Lello e Irmão, 1978, p.162.
[12] Ibidem, p.191.
[13] Ibidem, p.16.
[14] Ibidem, p.16.
[15] Ibidem, p.77.
[16] A Nau e o Graal, Porto, Lello e Irmão, Porto, 1978, pp.63-64.
[17] Ibidem, p.62.
[18] A Pré-história da Sociedade Europeia, Lisboa, Publicações Europa-América, 1960, p.150.
[19] Antropologia Luso-Atlântica, Lisboa, 1970, p.253.
[20] Ibidem, p.257.
[21] Orpheu, Portugal e o Homem do Futuro, Porto, 1978, p.15.
[22] A Nova Atlântida, Porto, Lello e Irmão, 1977, p.234.
[23] Hora de Prima, Lisboa, Fundação Lusíada, 1993, p.60.
Fonte: Conferência integrada no Colóquio subordinado ao tema «Dalila Pereira da Costa e as Raízes Matriciais da Pátria», proferida no Ateneu Comercial do Porto, em 17 de Maio de 1996; in Dalila Pereira da Costa e as Raízes Matriciais da Pátria - Colóquio, Fundação Lusíada, 1998, pp.129-137.
* * *
Algumas passagens de OBRAS de DALILA PEREIRA DA COSTA
(no 90º aniversário do seu nascimento em 4/3/2008)
O grande Semeador, tal gigante,
pés na terra, cabeça o céu tocando,
postado estava no imenso campo
sem limites visíveis.
Sua mão fechada ao alto erguia,
apertando o pequeno ser falante;
entre os dedos sua disforme face surgia,
lábios moventes em contínuo discurso
prepotente que de súbito se terminou;
simultâneo suas feições humanas
se dissolvendo: ao fim reduzidas a grão redondo,
agora só gemente entre seus dedos,
depois logo silente.
Então o Semeador à terra do fundo, –
grão de ouro, o lançou.
Fonte: O Novo Argonauta (E A Terra Firme), Fundação Lusíada, Lisboa, 1996, pág.57.
«O Esoterismo»
«(...) Tal como viu R. Otto, o sentimento do mistério é o sentimento religioso fundamental; e em Pessoa ele aparece com os caracteres assinalados nesta obra, como o que a um tempo se deseja e se receia, o fascinante e repulsivo. E em face desta realidade última, a um tempo velada e prestes a desvendar-se, o poeta sente-se demasiado fraco, demasiado humano para a suportar. "Não, isso não. Tudo menos saber o que é o mistério."(...)»
«A procura do Absoluto»
«(...) "Quando no mundo-exterior como que se abre uma porta",pode sempre dar-se uma hierofania: como capacidade do sagrado se manifestar em qualquer objecto profano então elegido privilegiadamente. A revelação esotérica é sempre esta possível revelação do Ser supremo. E aqui na poesia de pessoa, a Demanda será também e sempre, a procura de Deus.»
Fonte: O Esoterismo de Fernando Pessoa, Lello Editores, Porto, 1996, pp. 49 e 69.
«Os portugueses, a Profecia e a Saudade»
A seus pés alveja a filha secreta da lapa que seu saber lhes dita.
Entretanto eles esperam junto às portas do Douro, envolvidos nas velhas sagas marítimas e no doce canto dos pássaros proféticos.
– Ah, dizem, morrer de sede da água secreta do divino amor, encontrar um equilíbrio entre essa água rodeante de satisfação e da acção na terra-mãe amada. E ficar ainda com o excedente para em excesso distribuir.
– Agora entrai e desafiai o rosário de portas e janelas da casa do Senhor. Começai no Aquário verde e azul com peixes olhando de olhos parados e segui todo o seguimento de corredores até à câmara secreta do último dia. Aí vede e contemplai, quais os escolhidos, eleitos, as nações que perduram na terra sob a força da saudade.
E as ilhas do cabo do mundo?
E os padrões dos limites da terra sem fim por vós cercada»
Fonte: Hora de Prima, Fundação Lusíada, Lisboa, 1993, pág.60.
«O Crucifixo Cintilante»
«O que senti naquela linha separadora, da ascensão e descida?
O que nasceu ou o que morreu em mim?
Se o soubesse, saberia o que faz a Queda.
Mas há uma causa? Foi sentida como uma perda, uma força que me abandonou: vinda de dentro e de fora.
Tudo está naquele ponto divisório, naquela falha, imponderável e inapreensível. Que divide o mundo de Deus do mundo sem Deus?
Mas como marcada? Foi um orgulho? Isso, angelicamente mascarado de plenitude?
Ah, alegria. Anjo alado, anjo caído.
Então, a terra surgiu abaixo de mim, bola redonda e verde aproximando-se rapidamente na queda vertiginosa – como trevas e frio – depois da luz, quente e vermelha cintilante, do alto céu.
Nessa terra, caída no chão ao canto sombrio da floresta, ergo os olhos para o alto e a pequena flor azul, encosta o rosto contra o meu, e murmura-me – "não me esqueças"».
Fonte: Encontro na Noite, Lello e Irmão Editores, Porto, 1963, p.67.
«Realismo e Simbolismo»
«(...) Em Gil Vicente, o simbolismo é usado ainda em diferentes registos, tanto como crítica à degradação moral sofrida neste fim de mundo em que viveu, e que no seu Sermão atingirá dupla forma simbólico-realista, como na sua manifestação superior religiosa: e então, surgindo inserido num vero sistema, altamente estruturado, teológico e dogmático, apontando para a história sagrada do cristianismo, apresentada e criada em nova e própria cosmovisão, soteriologia e escatologia, na evolução da humanidade, toda ela centrando-se á volta dum núcleo central histórico e messiânico-profético: como a salvação trazida ao mundo por Cristo Salvador»
Fonte: Gil Vicente e a sua Época, Guimarães Editores, Lisboa, 1989, pág.154.
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CONSIDERAÇÕES SOBRE A IDENTIDADE PORTUGUESA
Recortes do livro Reflexão de Agostinho da Silva
«Retiram-se para quintas distantes, onde chegue um mínimo de notícias do mundo» Agostinho da Silva
«Portugal, nessa altura [século XVI], (...) passa a ser um país ocupado por tropas estrangeiras; tropas culturais, entende-se, o que não quer dizer que não sejam das mais ofensivas e das mais opressoras.
(...) viu Camões o problema quando falou na austera, apagada e vil tristeza; austera, porque se preferia quebrar a alma a pô-la ao serviço do que a não valia; apagada, porque a única atitude era essa, a de sumir para um bem profundo esconderijo (...) e vil de quem impunha estilos de vida que de nenhum jeito eram nacionais; de quem, por estrangeiros moldes, estava recortando Portugal; além de tudo, impondo-lhe, pelo terror, um regime de silêncio.
(...) Portugal, para os verdadeiros portugueses, se tornava um país inabitável (...) os verdadeiros estrangeirados eram realmente aqueles que, ficando em Portugal, serviam o poder; os outros, os que emigravam o mais que podiam, esses eram os reais portugueses, os portugueses tradicionalistas, os portugueses que preferiam todos os incómodos de um exílio à dor de viver numa pátria que, de sua, só tinha o tal elemento material de céu, terra e mar.
(...) O Brasil passa a ser a Terra de Promissão, desde que Portugal se transformara num Egipto de faraós (...) e quando (...) o Brasil proclamava a sua independência, o que se proclama é (...) a independência de um verdadeiro Portugal diante de um Portugal abastardado.
(...) Dizer-se Portugal é para [o Padre António] Vieira dizer-se não os graus de longitude, a latitude que ficam entre tal ou tal ponto da carta, mas o Reino de irmandade, de compreensão, de cooperação que se devia estender pelo universo como preparação necessária para um futuro Reino de Deus. Portugal estaria e seria em qualquer parte do mundo em que estivesse um português pensando à maneira portuguesa.
(...) Possivelmente, a permanência de D. João VI no Brasil [1807-1820] teria decidido de vez a possibilidade de um mundo português feito de nações independentes e livres com o seu centro de gravidade não mais em Portugal, mas no Brasil.» Agostinho da Silva
Fonte: Agostinho da Silva, REFLEXÃO à Margem da Literatura Portuguesa, Guimarães Editores, Lisboa, 1990, págs. 96, 97, 98, 100 e 102.
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«VOANDO SOBRE UM NINHO DE CUCOS» POR KEN KESEY: CRISE, PENSAMENTO E CRITICISMO
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EXPOSIÇÃO, TESE E CONCLUSÃO
(...) «E seguindo uma sugestão de Fernando Guilherme Azevedo, diríamos, alfim: somos todos, os cidadãos da grande urbe, produtos normalizados e consumíveis como frutas no mercado; somos todos, afinal, governados pela TV... E tem razão, como vemos, o insigne Poeta. O homem da massa é produto feito em série, e quem pensa, altivo, pela sua cabeça, quem discorre e quem julga sem pedir licença a tutores, tutelas e patrões, só merece, para o Sistema, o nome de esquizofrénico; e eis aqui, amigo leitor, a escola falsa e o escopo da «mediocracia», ou reino em que impera o falaz e medíocre. E falando, à guisa de Marcuse, do «homem unidimensional», diremos, na lição: se o hospício de que tratamos é microcosmos que reflecte, ou repete, o macrocosmos social, então o ser humano do mundo industrial é, acima de tudo, uma fera amestrada ou coelho assustado, ele é motor e autómato que veste uniforme.» (...)
Paulo Brito e Abreu
Fonte: Paulo Brito e Abreu, Ignota Fauna, Lavra... editorial, 2005, p.15.
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O CONHECIMENTO
«(...) O desenvolvimento da humanidade teve sempre de contar com dois tipos de erro, o erro ambíguo em relação a uma mensagem generativa, que leva eventualmente a evolução para uma maior complexidade, e o logro que acarreta falhanço e desastre. Actualmente, na crise gigantesca que talvez torne possível um quarto nascimento da humanidade, o problema da ambiguidade e da incerteza entre o erro e a verdade foi levado ao paroxismo. (...) A ciência não está nos seus últimos desenvolvimentos, mas sim no recomeço. Ela não traz a verdade em relação aos dogmas, metafísicos ou políticos: ainda não resolveu os seus problemas elementares de verdade, de ética, de ligação com as finalidades sociais. (...) Nós estamos no começo do conhecimento. Estamos igualmente no começo da consciência. (...)»
Edgar Morin*, O Paradigma Perdido - A Natureza Humana, Publicações Europa-América, pág.s211,212 (1ª edição francesa, Éditions du Seuil, 1973)
* Filósofo francês que se considera um marginal do pensamento contemporâneo, é defensor do diálogo de civilizações oriente-ocidente. É ainda autor de numerosas obras de que destacamos O Método e O Homem e a Morte.
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OS TRÊS MISTÉRIOS DA MATÉRIA
1º mistério: «Por que razão leis tão precisas e profundamente matemáticas têm um papel tão importante no comportamento do mundo físico? Não se sabe muito bem como o mundo da realidade física parece emergir quase misteriosamente do mundo platónico das matemáticas.» 2º mistério: «Como é que os seres dotados de percepção podem nascer do mundo físico?» 3º mistério: «Como é que a actividade mental pode aparentemente "criar" conceitos matemáticos a partir de um modelo mental?» «(...) A matéria em si mesma é misteriosa (...) desconhecemos ainda a natureza da matéria e as leis que a regulam para poder compreender a organização que, no mundo físico, dá origem à consciência. Quanto mais procuramos aprofundar a natureza da matéria, mais esta última nos parece não perceptível, misteriosa e matemática (...)»
Fonte: Roger Penrose*, Les Ombres de l'Esprit, (1ª edição inglesa, The shadows of the Mind, 1994), pp. 401-402, 407.
* Roger Penrose é Professor de Matemática na Universidade de Oxford. Como cientista, tem-se debruçado sobre temas de física, astrofísica e cosmologia. Já abordou alguns dos problemas mais candentes da física contemporânea, entre os quais a física quântica.
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APRENDER É QUERER-SABER
«(...) O senso comum, é certo, julga que aquele que possui saber já não precisa de aprender, porque já aprendeu tudo. Não: sabedor é aquele que compreende que tem sempre que aprender e que, devido a essa compreensão, se conduziu, antes de tudo, ao ponto de ser sempre capaz de aprender. Isso é muito mais difícil do que possuir conhecimentos. Ser capaz de aprender pressupõe o ser capaz de questionar. Questionar é o querer-saber (...) »
Fonte: Heidegger, Introdução à Metafísica, Instituto Piaget, Lisboa, 1997, pág. 30
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«DA EXISTÊNCIA E DA MATÉRIA» Fragmentos Inéditos
A vida não precisa de ter um sentido para não ser absurda.
A vida é o próprio sentido do existencial.
O tempo é uma sucessão de espaços visíveis que logo se tornam vazios − nada.
O tempo é a acção. São as acções que definem o tempo. Sem acção tudo é intemporal.
Não há tempo. Há mudança. Imprevisibilidade. O tempo que ainda não chegou existe tanto como o tempo que já passou, ou seja, não existe, porque já não ocupa nenhum espaço e porque ainda não ocupa nenhum espaço.
Porque chamamos ao mental, algo complexo e à matéria, uma natureza simples? Não será já a matéria complexa, se englobar o físico e o mental?
Procurar o Princípio dos princípios não resultará de uma deformação criada ao longo de milénios, segundo a qual o tempo existe?
Existirá o tempo? O existir em si da flor, não será mais importante do que o tempo da sua duração?
A evolução mostra que desde o big bang há um sentido, uma "consciência", um "cérebro", que está na origem da formação da primeira partícula elementar.
Todo o Universo nos leva a pensar que o incriado não existe. O incriado é um absurdo. Haver em nós a intuição do absurdo talvez conduza à verdade.
Teresa Ferrer Passos
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«O TEMA DA PAZ NA OBRA DE SANTO ANTÓNIO»*
«(...) Santo António foi o primeiro pensador e teólogo da Ordem Franciscana [cujo] tema da Paz ocupou, desde os primórdios desta, e nas próprias palavras e atitudes do Patriarca de Assis [S. Francisco], um lugar de centralidade.
Um primeiro traço decisivo a avançar nesta caracterização da paz é o da pluralidade de sentidos que a noção antoniana comporta.
(...)
É possível surpreender na obra do Franciscano uma concepção global da paz, a desenvolver-se em, pelo menos, três planos distintos, mas entre si relacionados: primeiramente, o respeitante à consciência do homem, ao foro íntimo da sua alma; em seguida, a partir deste mesmo âmbito, a vertente que é constituída, como se fora em sentido vertical, pela relação estabelecida entre o homem e Deus; finalmente, um vínculo que se exerce horizontalmente, em uma dimensão social, entre este homem e os outros, seja uma comunidade, sejam todos os povos.
(...)
Santo António expôs, logo no princípio dos seus Sermões, que o entendimento da Escritura sobreleva a toda a ciência e que naquela, constituída pelo Antigo e pelo Novo Testamento, estava toda a ciência, a única que importava saber e fazia sábios.
(...)
Santo António considera a ciência um dom do Espírito Santo com o qual este esclarece o que é obscuro distinguindo-o do dom da sapientia, com o qual impele para a acção a mente em que se introduz. (...) Mas a diferença aparece ainda mais clara e expressamente traduzida em outro passo no qual, falando de Jesus como tesouro de amor, diz ser sabedoria de sabor inestimável e ciência do conhecimento. A paz, neste plano de entendimento, sempre proviria, como fruto, da sabedoria e da ciência.
(...)
A doutrina antoniana da paz constitui ensejo de salutar confronto e de fecunda reflexão para o mundo contemporâneo. Não basta, com efeito, para o homem do nosso tempo, definir solenemente uma intenção de paz, como ausência da guerra, glosada à saciedade nos areópagos políticos internacionais. Tão pouco lhe será suficiente o conhecimento teorético aprofundado da noção de paz. O Santo português daria como solução, para o caso vertente, o que mais importa: o empenhamento concreto da vontade e da razão, traduzido na experiência decisiva, tanto pessoal como da comunidade dos povos, de uma construção inalienável e duradoura da paz.»
* F. da Gama Caeiro, Dispersos, Volume I, IN-CM, Lisboa, 1998, págs. 100, 111 e 113.
«Desaparecido há três séculos − precisamente a 19 de Agosto de 1662 − Pascal continua vivo. Um grande vivo que atingiu a intemporalidade jovem daqueles que, vencendo os limites da época que os viu nascer, pertencem a todas as épocas, daqueles que, ultrapassando as fronteiras do seu próprio povo, entraram no património de todos.
(...) A observação do mundo humano. Pascal não foi só um genial experimentador que inventou instrumentos, descobriu leis, avançou teorias, foi também um profundo, um subtilíssimo analista desse outro universo que as sociedades humanas constituem. Analista tão profundo e tão subtil que ele pode ser considerado como precursor de Hegel e de Marx, por um lado, de Joseph de Maistre e de Balzac, por outro, e, que, hoje mesmo, pode ser dado como um dos pilares do edifício das "ciências humanas", em construção.
Como se operou a passagem de um mundo a outro mundo? No seu caso, através da experiência do salto num plano superior da actividade, de uma das vária "conversões" que tão fecunda tornaram a sua vida. Ele que passara a juventude e, pode mesmo dizer-se, a adolescência, mergulhado nas ciências da natureza, ele a quem o pai educara subtraindo-o às "humanidades" − a forma tradicional da educação−, descobre, a partir de certa altura, um novo continente: "o mundo". "O mundo" com a sua sedução, a sua curiosidade, os seus jogos, a sua comédia, o seu ideal do honnête homme, os seus enigmas. Graças a Méré e, sobretudo, graças ao seu génio, impaciente e empolgante, Pascal dá-se logo conta de que esse continente tem de ser explorado por meios diferentes dos que utilizava na pesquisa do mundo físico. Se aqui era necessário pensar objecto, ali era necessário pensar relação. Ora a relação só o esprit de finesse a podia apreender, que não o esprit de géométrie.
O esprit de finesse, ou seja: a intuição, a visão simultânea e em totalidade, a capacidade de simpatia que logra surpreender o pormenor na estrutura e a estrutura no pormenor, a percepcção do descontínuo, do diferencial e do qualitativo, o sentimento de que, para bem julgar, urge utilizar princípios múltiplos e diversos, métodos e não um método. Aplicando esse "espírito" à rica e variada realidade que o "mundo" lhe oferecia, Pascal recolheu observações e apontou rumos que, em nossos dias, haviam de ser confirmadas aquelas, e seguidos, estes, pela psicologia do comportamento, pelo "Gestaltismo" e pela fenomenologia.
(...) Inventor do "triângulo aritmético", o autor do Essai por les coniques, pare de factos ou problemas concretos para a sua matematização geral e a sua racionalização abstracta. Foi graças a esta peculiaridade do seu génio que Pascal decobriu, ao mesmo tempo que Fermat, o cálculo das probabilidades, foi graças a ela que temos os admiráveis trabalhos sobre a Roleta (Ciclóide) − talvez o primeiro esboço do cálculo integral. (...)»
* Manuel Antunes, Grandes Contemporâneos, Editorial Verbo, Lisboa, 1973, Capítulo IV, págs. 39, 42, 43, 48.
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ALGUNS SINAIS...
«O discursozinho das "culturas" continua a desviar-se do essencial. Acha que estas matanças (caso do Quénia, após os resultados eleitorais terem sido consideradas fraudulentas) fazem parte da "cultura" africana? Mas alguém ainda não ouviu falar da guerra civil de Espanha? Nem da 2ª Guerra Mundial? Nem da 1ª Guerra Mundial? Nem da Guerra da Jugoslávia? Nem das guerras balcânicas? As que consideramos "grandes épocas" da cultura europeia estão cheias de mortos e foram precisas a ocupação estado-unidense e a União Europeia para que nos acalmássemos.»
A. Villa, 2-01-2008 (Comentário publicado pelo jornal espanhol La Vanguardia online)
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CARTA AO PAPA BENTO XVI
«Uma carta foi recentemente enviada ao Papa Bento XVI, uma carta assinada por cento e trinta e oito intelectuais do mundo muçulmano, que apelavam em nome da paz e da compreensão entre o Islão e o Cristianismo à abertura de um diálogo "fundado no respeito e no conhecimento mútuo". O Vaticano, em resposta a esta solicitação representado quarenta e três países, prepara, com um grupo de representantes muçulmanos, um encontro que deverá ter lugar na Primavera de 2008.»
Fonte: Agência Ecclesia
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«O CAOS CULTURAL DA MUNDIALIZAÇÃO»*
«A Nova Atitude»
(…) "Originalmente, uma única Igreja concentrou em si mesma a totalidade e a particularidade: a Igreja mãe de Jerusalém, ou Igreja do Pentecostes. Dela nasceram as Igrejas particulares e nela se funda o carácter apostólico de todas. Para a Lumen Gentium as Igrejas particulares e locais, no plural, apresentam as mesmas características teológicas da Igreja universal que é communio ecclesiarum. Cada Igreja particular é chamada a ser católica, ou seja, sacramento de unidade de todos os seres humanos. A vocação católica de cada Igreja particular é um convite permanente a transcender o particularismo e a transcender-se a si mesma".
As expansões europeias inauguram a era da globalização. 1492 é a data-chave da queda do princípio genealógico. Não há melhor imagem do "globalismo" do que esta: S. Francisco (Salvador da Baía) olha para o Cristo, o pé em cima do globo. Como se sabe, o globo remonta à Idade Média árabe e mesmo à Antiguidade. Era o media através do qual aqueles que exerciam o poder se representavam a forma do cosmos e da terra. Aquele que tem poder deve saber a que se parece aquilo sobre que quer reinar. O primeiro mundialista foi sempre o papa. Hoje ainda, na Páscoa, o papa utiliza, para saudar a multidão, o duplo dativo urbi et orbi. Para ele o mundo é aquilo que se vê a partir de Roma - segundo uma óptica orbital.
A hegemonia monolítica do Ocidente começa a desintegrar-se. A Igreja sente-se hoje chamada a ser mundial, plural e culturalmente diversificada. Afastando-se de um estilo missionário do tipo "expansionista" e muitas vezes colonial ou colonizador, vai renunciando à "cultura do adversário" para dar lugar à "cultura do outro". Pelo seu carácter católico, sente-se capaz de convocar, estabelecer ligações entre o pluralismo dos povos. A Comissão Teológica USG tem uma percepção muito aguda dos desafios de uma época em mudança. Escreve essa Comissão: "Vivemos a nossa identidade cristã: a) na "diáspora" de uma sociedade em movimento e inovação; b) no "exílio" de uma sociedade em rede e profundamente interligada, na qual nos integramos como peregrinos a caminho de uma nova cidade; c) na tensão produzida quando nos sentimos sociedade civil, que se opõe às hegemonias económicas, políticas, ideológicas ou criminais".
O sentimento de perda do mundo é também o sentimento de uma perda de si. Donde a entropia romana: o mundo contraiu-se por influência do panoptismo católico. A ultrapassagem do mundo à grega produziu primeiro um regresso ao deserto; à romana, produziu a volta ao mundo. Roberto Blatt deduz do desastre do Segundo Templo dois sistemas de comunicação que caracterizam o cristianismo e o judaísmo. Diz ele: “enquanto que a versão cristã da tradição bíblica sobreviveu adoptando uma ideia nova, a de uma comunidade universal, ou humanidade; a judia, por sua vez procurou assegurar a persistência de uma única comunidade particular no interior do mundo global, extra-territorial. O resto. Quer dizer, o cristianismo e o judaísmo, ambos herdeiros da tradição bíblica, estabeleceram um modelo de controlo/descontrolo da comunicação no Ocidente, convivendo como centro e periferia. Para os judeus o livro torna-se o centro do mundo extra-territorial, evocando a realidade pedida. Para os cristãos, a ecclesia erige-se em instituição única, depositária exclusiva da mensagem bíblica e da doutrina definida. Congela-se o livro, reduz-se o plural da interpretação de que o livro é feito.
Herdámos restos, figuras de pobres, perdemos uma batalha. Ficou-nos o vazio, a virtualidade, o real a nomear. Ao racionalismo crítico reage desesperadamente o fundamentalismo, que coexiste com formas desarticuladas de questões e de respostas religiosas, não indemnes das recomposições das crenças que encontramos no hibridismo das seitas. Inquietude sobre a identidade, procura febril de certezas, crispação sobre um grupo "eleito" que se define por hostilidade com o meio, em torno dum guru.
Adoptaremos antes o ponto de vista de Maurice Blanchot: o homem é o indestrutível que pode ser infinitamente destruido? Daniel Sibony detecta um mal profundo no nosso mundo, distinto mas isomorfo daquele que fazem os que matam. Esse mal tem um nome: niilismo. Os criminosos aniquilam aqueles que os incomodam; e os responsáveis, que deixam fazer, não mexem uma palha para assuntos que não podem "tratar". "No fundo, o niilista é aquele que nega quem não é ele, o que escapa ao seu quadro de funcionamento e aquilo que ameaça esta negação" (Sibony). O mal estar actual está em que os laços que serviam de referência simbólica desaparecem e são substituídos por laços totalitários, cuja forma mais frequente é o laço narcísico - estar ligado apenas a si, tribal - ou o seu substituto, o saber técnico. Ou o seu "mundo", a sua tribo e a sua religião.
José Augusto Mourão
Fonte: Internet, www.triplov.com/semas/jose_augusto/warjam.htm
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