SABEDORIA
«O Cântico está antes do religioso e do moral. Até se pode dizer que desmistifica o sexual, remetendo-o de maneira velada mas eficaz para a vivência da existência humana em profundidade, sem mais. Aquele que é o mais elevado elogio ao amor no Antigo Testamento é certamente erótico em sentido forte, mas não no sentido corrente da palavra: não é manipulação de sentimentos frívolos, nem procura de prazer superficial. (...) Para o poeta do Cântico dos Cânticos o verdadeiro amor é imbatível: "o amor é mais forte do que a morte" (Ct 8, 6). Talvez porque "tudo desculpa, tudo acredita, tudo espera, tudo suporta, o amor não acaba nunca" (1 Cor 13, 7-8). É vitória sobre o tempo e sobre a mediocridade.
Por tudo isto, o amor é no Cântico dos Cânticos uma realidade viva, desinteressada e gratuita: não procura justificação fora de si próprio. Vale por aquilo que é. Só ama, sem se preocupar para que ama. Nem precisa, porque o amar sustenta-se e justifica-se a si próprio, sem mais. É como a rosa. "A rosa não tem porquê; floresce porque floresce, não presta atenção a si própria e não pede que a a admirem" – dizia do amor gratuito o místico alemão Angelus Silesius. S. Bernardo é mais directo:
Este [amor humano] é auto-suficiente, agradável em si próprio e por causa de si próprio. Ele é o seu próprio mérito e prémio. (...)»
* Armindo dos Santos Vaz, «O Canto ao Amor Absoluto – Do Cântico dos Cânticos ao Cântico espiritual», in Revista de Espiritualidade, nº 61, Janeiro/Março 2008, pp. 13-14.
«ESTE INSTANTE É O ÚNICO TEMPO QUE EXISTE»*
«Pensei muitas vezes que temos muito a aprender com as crianças. Estas ainda não se adaptaram ao conceito de tempo linear com um passado, um presente e um futuro. Relacionam-se apenas com o presente imediato, agora mesmo. Tenho um pressentimento de que não vêem o mundo como fragmentado. Sentem-se unidas a todas as coisas do mundo como parte de um todo. Para mim, representam a verdadeira inocência, Amor, sabedoria e perdão.
À medida que envelhecemos, temos tendência para aceitar os valores adultos que enfatizam a projecção das aprendizagens do passado sobre o presente e o futuro antecipado. É difícil que a maioria de nós levante a mínima questão quanto à validade dos conceitos de passado-presente-futuro. Acreditamos que o passado continuará a repetir-se no presente e no futuro sem possibilidade de mudança. Consequentemente, acreditamos que vivemos num mundo assustador, onde, mais cedo ou mais tarde, surgirão o sofrimento, as frustrações, o conflito, a depressão e a doença.
Quando nos agarramos, investimos e alimentamos as nossas experiências de culpa e razões de queixa do passado, somos tentados a prever um futuro semelhante. O futuro e o passado tornam-se então um só. Sentimo-nos vulneráveis quando acreditamos que o passado de medo é real e nos esquecemos que a nosso única realidade é o Amor, e que o Amor existe neste instante. Ao sentirmo-nos vulneráveis, esperamos que o passado se repita. Vemos aquilo que esperamos, e aquilo que esperamos é o que convidamos e procuramos. A culpa e o medo do passado são assim continuamente reciclados.
Uma forma de nos libertarmos do nosso "lixo arqueológico" é reconhecer que mantermo-nos agarrados a ele não nos traz aquilo que queremos. Quando não atribuímos valor à sua reciclagem, removemos os bloqueios à nossa liberdade para perdoar e amar completamente agora. Só assim podemos ser verdadeiramente felizes.
"Este instante é o único tempo que existe" pode tornar-se uma eternidade. O futuro torna-se uma extensão de um presente de paz que jamais termina.
As minhas preocupações com o passado e a sua projecção sobre o futuro derrotam o meu objectivo de paz no presente. O passado acabou e o futuro ainda não é. A paz não pode ser encontrada no passado nem no futuro, mas apenas neste instante.
Estou determinado a viver hoje sem fantasias do passado ou do futuro. Recordarei a mim mesmo: este instante é o único tempo que existe.»
* Do livro AMAR É LIBERTAR-SE DO MEDO de Gerald G. Jampolsky, Sinais de Fogo, 1ª edição, Lisboa, 2005, pp. 125-126. (Edição original em língua inglesa, Berkeley, 1979).
«(...) vivemos numa sociedade estranha à poesia, à arte, ao sonho, uma sociedade radicalmente incapaz se compreender o simbolismo»
«(...) a realidade religiosa é toda simbólica»
«(...) proponho que os textos (Bíblia) sejam lidos como se escutássemos o nosso melhor amigo. Em vez de nos interessarmos pelos factos, interessemo-nos pelos sentimentos»
«(...) este mundo está cheio de milagres. Precisamente por isso é preciso estar preparado para os aceitar simbolicamente»
«(...) o que torna a pessoa livre é um diálogo vivido na confiança»*
* Do livro La Parole qui Guérit da autoria do teólogo, filósofo e psicoterapêuta alemão Eugen Drewermann, Les Éditions Cerf, Paris, 1993 (1ª edição alemã publicada em 1989) pág.s 66, 67, 237.
«A obra de Abu Iúçuf obedece inteiramente ao mandamento do sagrado Alcorão, transmitido pelo Profeta, na sura 29, chamada "da Aranha":
"44. Deus criou realmente os Céus e a Terra. Há nisto uma revelação para os crentes.
45. Recita o que se revela em ti da Escritura, cumpre a oração, porque a oração preserva da torpeza e do erro. A invocação de Deus é o maior dos deveres."»
(Do Prefácio do livro Poesia Alcorânica, (com citações do Corão traduzidas por Abu Iúçuf, 2002, Editora Rei dos Livros.)
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«Ao Nome de Deus Bom, para todos Bondoso,
A Deus, Senhor do Mundo, louvarmos é preciso.
Àquele que é Clemente e Misericordioso
Mas é também o Rei do Dia do Juízo:
− "Só a Ti adoramos rogando em clamor
Auxílio para ver, no direito sentido,
O caminho de quem merece o Teu favor,
Porque não Te ofendeu e não anda perdido!"»
Súrata 'lfátiha
(Capítulo do Intróito I, 1-7)
In Poesia Alcorânica, p. 13
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«Não se imponha a Fé nunca por violência
Cada um já bem distingue na consciência
Os caminhos do erro e a salvação
De Deus na muito santa Religião.
Os ídolos do erro vão abjure,
E como um coluna que o segure
Inabalável, logo sentirá,
Pois Deus os está a ver, e o escutará!
Súrata 'lbáqara
(Capítulo da Vaca: II, 256)
In Poesia Alcorânica, p. 41
«A sabedoria não pode afastar o medo, mas o medo pode afastar a sabedoria»
Do livro Mahâbhârata
«Toda a criança que nasce traz ao mundo a mensagem de que Deus ainda não perdeu a fé na humanidade»
Provérbio indiano
«O mundo não é real nem irreal; é a sombra da realidade»
ViveKânanda (1862-1902)
«Amor puro e incondicional, que se sobrepõe às falhas do amado(a), é provavelmente a maior dádiva dos céus»
Radhakrishna(1888-1975)
«O alvo distancia-se cada vez mais de nós. Quanto maior o progresso, tanto mais reconhecemos nossa própria insignificância. A satisfação reside no esforço, e não em atingir o objectivo»
Gandhi (1869-1948)
Estes pensamentos de autores indianos estão publicados no livro A Sabedoria da Índia, Editora Tecnoprint, Rio de Janeiro, 1984 (pp. 30,93, 94,100,102).
«Ainda ninguém estava na praia. (...) Um barquinho está no mar.. Parece parado, aguardando. (...)
Um grupo de amigos acomoda-se para participar do início milagroso do novo dia. Estavam preparados para entoar uma canção ao Sol.
Todos já a sabiam − quase todos: Inês não a conseguira memorizar. Conhecia o significado da melodia, repetia-o mentalmente e sentia-o no seu coração, mas as palavras, essas, quando as dizia, saíam atropeladas, desordenadas.
Memorizar exigia de si um esforço imenso. Se para cantar esta melodia se usasse apenas o sentir, Inês estava em primeiro lugar! Entoava-a dentro de si, emocionada. (...)
Ela, com a sua insistência e reconhecimento da dificuldade, não a ocultando nem se deixando vencer por ela, derrubou em cada elemento do grupo o orgulho que impede de expor as fragilidades.
Revelando as suas, assumiu a sua verdade, e gerindo-as, pôde ultrapassá-las e transformá-las em força renovada. (...) ser grande é querer aprender. (...)
(...) se substituirmos "a minha vontade" por "o meu lugar no plano de Deus"; se a nossa afirmação pessoal se orientar para "eu aprendo" em substituição de "eu sei, eu determino", estamos a aprender a experiência de Deus em nós (...)
(...) sentimos a presença de Deus em cada ser. Deus está aqui! Dentro de mim! Fora de mim! Deus está!»
* Excertos do artigo com este título da autoria de Teresa Carvalho publicado na revista Fátima Missionária, Outubro de 2007, pág.27.
A CURA DO PARALÍTICO DE BETSAIDA*
«Jesus subiu a Jerusalém.
Ora existe em Jerusalém, junto à porta das Ovelhas, uma piscina chamada em hebraico Bezatha, que tem cinco pórticos.
Nestes, jazia uma multidão de enfermos, cegos, coxos, paralíticos, que esperavam o movimento da água (...).
O primeiro que nela entrasse depois da agitação da água**, ficava curado de qualquer doença que tivesse.
Estava lá um homem enfermo havia trinta e oito anos.
Jesus, vendo-o deitado, e sabendo que já estava assim há muito tempo, disse-lhe:
"Queres ficar curado"?
"Senhor, respondeu-Lhe o enfermo, não tenho ninguém que me lance na piscina, quando a água começa a agitar-se; e, enquanto eu vou, desce outro antes de mim".
Jesus disse-lhe:
"Levanta-te, toma o teu catre e anda".
No mesmo instante, o homem ficou curado, tomou o seu catre e começou a andar».
* Evangelho de S. João (Jo 5, 1-9)
** Deve tratar-se duma tradição segundo a qual as águas novas que entravam na piscina tinham especial virtude curativa.
«(...) Quem tem a felicidade de ser pequeno caminha com os pés realmente assentes na terra e, olhando sempre para o alto, pode descobrir com lúcida clareza, simultaneamente, o lado cómico e o lado sério da vida.
Os inconscientes, os presunçosos e os bem pensantes apenas vêem um dos lados, acabando por cair nas ratoeiras da superficialidade.
Colocada perante Deus, a filosofia de um rato pode fazer sorrir; mas, pensando bem, quem sabe ocupar humildemente o seu lugar, sem medo de reconhecer os seus limites, amadurecendo migalhas de sabedoria, ajuda-nos também a nós a descobrir, com agradável surpresa, que no mundo todos temos alguma importância.
(...)
SENHOR!
De vez em quando sinto-me triste:
Tens tempo para brincar
um pouco comigo?
Se vieres, não batas à porta:
ela está sempre aberta.
Corremos juntos
sem nos ralarmos com o gato...
Senhor,
fica comigo.
(...)
SENHOR!
Quantas folhas secas,
arrancadas pelo vento,
se magoam
ao caírem das árvores.
Vou procurar confortá-las.
Senhor,
protege-as
antes que chegue o frio...
(...)
SENHOR!
As estrelas são tão pequeninas!
Gostaria de as ver melhor,
mas tu colocaste-as tão longe
nas alturas do céu...
Senhor,
ajuda-me
a subir.
(...)
SENHOR!
Por que é que as crianças fogem
cheias de medo quando me vêem?
Gostava de fazer amizade com elas,
mas ninguém espera por mim.
Senhor,
nunca me deixes
fugir
do que não compreendo...
(...)
SENHOR!
Hoje perdi-me
num campo de trigo.
Chorei de medo
no meio dos restolhos gigantescos.
Eles, porém, compreenderam
aquela pequena fraqueza.
"Chora pois − disseram-me −
é melhor chorar
do que ficar com um nó na garganta".
Senhor,
ajuda aqueles
que não são capazes
de se encontrar a si próprios.
(...)
SENHOR!
Hoje toda a gente parece alegre.
Até a terra exulta de alegria.
Quero experimentar sorrir ao gato.
Quem sabe se ao menos uma vez
ele também acabará por sorrir...
Senhor,
faz com que a hostilidade
se converta em amizade. (...)»*
* Um Rato Fala Com Deus de Angela Toigo (texto) e Jules Stauber (ilustrações), Gráfica de Coimbra, Coimbra, 1988, pp. 5, 16, 20, 26, 30, 34, 38.
Angela Toigo é Irmã Beneditina e editou este livro em San Diego, Califórnia, USA.
(Tradução de Maria Graça Ferrão).
«Não é rico aquele que tem muito, mas aquele que dá muito (…).
O que dá um ser ao outro? Dá-se a si próprio, dá o que tem de mais precioso, dá a sua vida(…) dá o que nele está vivo, dá a sua alegria, a sua atenção, a sua compreensão, o seu saber, o seu humor, a sua tristeza, (…) tudo o que vive nele. (…)
Eu amo o outro, sinto-me uno com ele, mas com ele tal como ele é, não tal como eu gostava que fosse(…)
No amor recíproco, o homem e a mulher renascem (…)
A própria essência do amor materno é vigiar o crescimento da criança, o que significa querer que a criança se separe. Aqui reside a diferença fundamental em relação ao amor erótico. Neste último, duas pessoas até então separadas tornam-se uma só. Pelo contrário, no amor materno, duas pessoas só são uma única até chegarem à separação. E é importante que a mãe, não só tolere, mas deseje e mesmo favoreça esta separação. É precisamente nessa fase que o amor materno se torna muito difícil porque exige generosidade, capacidade de dar tudo e nada querer receber em troca a não ser a felicidade do ser amado. É também nessa fase que muitas mães falham nas exigências do amor materno. Enquanto a criança é pequena, a mulher narcísica, dominadora, possessiva, pode conseguir ser uma mãe “amorosa”. Mas só a mulher que ama verdadeiramente, mais feliz por dar do que por receber, firmemente enraizada na sua própria existência, se confessa capaz de ser uma mãe que ama logo que a criança envereda por um caminho escolhido de separação.(…)
O amor deverá ser essencialmente um acto de vontade, a decisão de confiar integralmente a minha vida à de uma outra pessoa. E, assim, é esta ideia que fundamenta a indissolubilidade do casamento.»*
* Erich Fromm (1900-1980) (traduzido da obra L’Art d’Aimer, (1ª edição, 1956), ed. Desclée de Brouwer, 1995, pág.s 41, 46, 51, 71, 75)
«”Criança” é a pessoa que aprendeu a renunciar a este mundo de aparências que inventam para si próprios os adultos cheios de angústia, essas “pessoas crescidas” cujas conversas e gesticulações não fazem mais do que propagar o medo; “criança” é a pessoa que, de certa maneira, sabe começar de novo a vida, possuída por uma indestrutível coragem da verdade − aquela na qual vem repousar a bênção divina, mal a queiramos acolher (Mt. 5, 3); “criança” é aquela pessoa que está sempre voltada para um mundo mais afectuoso, mais misericordioso, mais pacífico e, globalmente, mais justo (Mt. 5, 5-9). Uma “criança” deste género não se deixa cegar nem pelo poder, nem pela reputação, nem pela “carreira”, nem pelo dinheiro dos “grandes”, porque sabe que só os “pequenos” podem perceber e acolher o que é humanamente verdadeiro e o que serve a paz (Mt. 11, 25).
Este sentimento de confiança torna possível uma abertura sem limites. As distinções morais entre o bem e o mal, tão importantes no universo adulto, são de pouco valor aos olhos daquele que conhece o domínio aparente do medo e da solidão, e que sente no mais fundo de si próprio que só pode ser bom aquele que tem o dom e a felicidade do amor. É assim que, no Novo Testamento, se ouve Jesus proclamar que Deus faz brilhar o sol e faz chover tanto sobre os bons como sobre os maus (Mt. 6, 45). Ele, o infinito, dá-se de forma igualmente profunda a todos os humanos, quer aos grandes quer aos pequenos, e não há ninguém que não viva pela sua graça. (…)
Uma “criança” tal como era Jesus não se preocupa absolutamente nada em saber se os seus discípulos lavaram as mãos antes ou depois do comer; o que a seus olhos permite conhecer a personalidade de alguém, é o que se passa no seu coração, os pensamentos e os sentimentos que estão nele (Mc. 7, 1-13) (…)
O Principezinho [de Antoine de Saint-Exupéry] descreve-nos um encontro sem entrega, uma lembrança sem uma conclusão (sem um sentido), uma visão sem perspectiva.
A história começa por uma descrição do modo como os adultos podem tudo destruir na criança, antes mesmo de ela ter realmente começado a viver; e esta narrativa que, a acreditarmos no autor, é dedicada a um adulto, dirige-se no entanto à criança que esse adulto foi um dia. Sem dúvida, ele conjura todas as crianças deste mundo a recusarem-se a dar crédito à vaidade das pessoas crescidas e a conservarem a simplicidade do coração. Mas não nos diz que a “pessoa crescida” tem ainda a oportunidade de se transformar completamente e de se reencontrar a si própria ao reencontrar a sua infância original; e menos ainda nos mostra a forma pela qual o Principezinho poderia dar início ao seu reino secreto nesta terra. Pelo contrário, no fim, por fidelidade à sua Rosa, o Principezinho regressa ao seu minúsculo planeta, enquanto que o Aviador caído do céu se vê obrigado a retomar a sua existência de “pessoa crescida”, mais roído pelo desejo e mais triste do que nunca mas tão incapaz como antes de transpor a personagem do Principezinho para a sua vida pessoal»*
* Eugen Drewermann, L’ Essentiel Est Invisible − Une lecture Psychanalytique du Petit Prince, Les Éditions du Cerf, Paris, 2001(4ª ed.), 17, 18, 20 (tradução do título original publicado pelo autor em 1984 pela editora alemã Verlag Herder, Freiburg im Breisgau). Tradução para português de Fernando Henrique de Passos.
«DO MENINO PALESTINIANO A UM MENINO ISRAELENSE» (sic)
Eu, nove meses de idade, geneticamente criminoso,
delito agravado, após o nascimento, em cada instante já vivido.
Matéria do crime: ser palestiniano.
Que me deram como lugar para nascer, uma pátria?
Não, um campo de refugiados.
Que me deram como lugar para habitar, uma casa?
Não, uma tenda de campanha.
Que me deram para embalar meu sono, uma canção?
Não, berros de ódio, gritos de dor e tiros de canhão.
Que me deram para brincar, uma bola de borracha?
Sim, de borracha, mas não uma bola, uma bala,
Não para brincar, sim para cegar, matar.
Menino judeu, ainda poderei chamar-te irmão?!
Não será meu crime igual ao teu,
Aquele que expiaste em Aushwitz e outros campos de concentração?
Menino judeu, não queiras crescer,
Que vão ensinar-te: «Amar a Deus (...)
E ao próximo como a ti mesmo» − desde que não seja palestiniano!...
Menino judeu, dá-me a tua mão, sê os meus olhos,
Que jamais poderei ver o sol, as flores, os pássaros a voar,
Outras crianças e tu (não eu)a saltar!
Menino judeu, dá-me a tua mão,
Foge à determinação, ou tradição, ou maldição (pelo menos má acção)
E comigo vem lutar
Para que não haja mais crianças a cegar Com a bala,
Em vez de terem a bola para brincar.
Menino, meu crime é não ser, como tu, judeu,
Numa terra em que se proíbe ser palestiniano,
Tal como o teu crime foi exactamente ser judeu
Numa terra em que deverias ser ariano.
Menino, demos as mãos, somos inocentes,
Tu com os teus olhos, eu sem os meus,
Tu judeu, eu palestiniano,
Aquele negro, aquele branco, aquele índio, aquele cigano, aquele...ser humano.
Todos seres humanos, todos somos irmãos,
Todos, mesmo os que,
Por nos considerarem criminosos,
Não são Homens!
Ester Luísa Dias*
* Nasceu em Lisboa, na freguesia dos Anjos, em 19 de Outubro de 1925. É autora de vários estudos sobre educação, de que salientamos a sua tese de doutoramento, apresentada à Universidade Complutense de Madrid, em 1983. Professora catedrática jubilada, colaborou com poemas infantis e contos no jornal infantil do Corpo Nacional de Escutas que, neste ano de 2007, comemora o seu 1º Centenário.
Este poema, que temos a satisfação de publicar no nosso "site" internético "Harmonia do Mundo", foi editado na antologia Viola Delta, volume XXII (Coordenação e selecção de autores por Fernando Grade), Edições Mic, Lisboa, 1996, pp.13-14.
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