PALAVRA VIVA

 

 

 

 

 

Uma carta (reclamação) assinada por deficiente motora:

Para conhecimento de quem possa defender os deficientes motores do pessoal de Piscina Municipal do Restelo em Lisboa:

 

Lisboa, 5 de Março de 2008

 

À atenção

do   Ex.mo Senhor Presidente da Câmara de Lisboa,

do Senhor Vereador do Desporto

e do(a) Senhor(a) responsável pela Piscina Municipal do Restelo em Lisboa

 

«Devido ao encerramento para obras da Piscina Municipal do Casal Vistoso em Lisboa, fui pela 4ª vez à piscina municipal mais próxima de minha casa, a municipal do Restelo. A recepcionista Manuela Gonçalves mais uma vez me pediu o termo de responsabilidade (que entrou em vigor em 2007) e que já não costumo mostrar na piscina do Casal Vistoso em Lisboa, pois vou lá 3 vezes por semana com meu marido.

 Costumava frequentar a piscina do Areeiro, desde 1981, por indicação de médicos ortopedistas e fisiatras, devido ao agravamento de lesões da coluna cervical e lombar, e devido à necessidade de não perder mais a força muscular da perna e braço direitos, na sequência de poliomielite contraída aos 11 anos.

 Aprendi a nadar na piscina do Sport Algés e Dafundo, pois residia, então, em Algés. Aprendi todos os estilos de natação. Nunca, nas piscinas municipais de Lisboa nem do Algarve ou do Minho, me exigiram exames de natação, pois os monitores e outro pessoal via que eu podia andar fora de pé por saber nadar, até de acordo com a diversidade dos estilos que praticava.

  Há dois anos sofri uma pequena fractura, o que levou os médicos a prevenir-me de que era indispensável fazer todos os movimentos de que fosse capaz de fazer numa piscina, para melhor recuperação da força muscular. Em 26 anos de frequência das piscinas municipais de Lisboa, nunca me obrigaram a fazer qualquer exame de aptidão para ser autorizada a nadar ou a fazer os exercícios que quisesse nas piscinas municipais.

 Hoje, como disse, já pela 4ª vez, (a piscina do Casal Vistoso ainda está fechada para obras), fui à piscina municipal do Restelo, esperando aliviar, como costuma acontecer, as dores musculares, sobretudo da coluna vertebral. O que aconteceu foi o seguinte: a recepcionista Manuela Gonçalves, entendeu que o termo de responsabilidade não chegava e eu tinha de ser sujeita a um exame de avaliação de estar ou não apta para nadar. Isto passou-se por volta das 13 horas, pois a meu marido não é possível ir comigo se não for no intervalo do almoço. Eu, apesar de achar algo de muito estranho e até quase inconcebível (os colegas dela que, nos dias anteriores, me tinham atendido nem em tal coisa falaram), acabei por aceitar, dado que se não aceitasse a recepcionista não me deixava entrar na piscina, e eu sabia a falta que me fariam esses exercícios para os meus problemas musculares.

 Entrei na piscina e um dos monitores disse para eu ir para a 3ª ou 4ª pistas porque havia lições nas outras. Assim fiz. Durante uns 15 minutos não apareceu ninguém a dizer-me quando devia começar o exame para ver se estava apta. Julguei que, afinal, os monitores que por ali se encontravam, se tinham apercebido de que eu sabia nadar (fiz costas e bruços ou só pernas) e por isso o exame ficara sem efeito. Depois deste quarto de hora em que ninguém me disse nada, fui nadando até meio da piscina, por vezes fiquei a uns dois metros do fim da piscina, dava a volta e regressava ao outro extremo da piscina.

 Eis quando o monitor Gonçalo veio junto do fim da pista onde eu nadava, dizendo que eu tinha de sair da piscina (na pista em que eu me encontrava, não havia mais ninguém) pois me classificara como inapta. Fiquei quase em estado de choque, porque eu nem sequer sabia que estivera a ser observada, à socapa, e a ser-me feito o tal exame de apta ou não apta. Como podia ser isso? Então o exame fora feito sem eu ter sido informada de que ia começar a ser examinada? O mesmo processo de examinação foi feito com meu marido que ficou apto, porque, como de costume, ele fizera as pistas do início ao fim. Mas, tal como eu, também ele de nada tomara conhecimento.

 Como eu costumo fazer exercícios durante 30 minutos, o monitor Gonçalo conseguiu interromper, sem qualquer necessidade (as duas pistas do centro estavam vazias, como das outras 3 vezes que lá fora, o único tratamento com o qual fico bastante melhor dos músculos.

 Parecia que estava a ser motivo de uma brincadeira, 1º pela recepcionista Manuela, agora pelo monitor Gonçalo. Há, como se vê, um desrespeito pela pessoa com deficiência, a quem trataram com atitudes que só revelam desrespeito pelo deficiente.

 A piscina municipal do Restelo dá prioridade a nadadores de competição em detrimentos daqueles que praticam a natação e outros movimentos aquáticos, como terapêutica. A recepcionista Manuela Gonçalves não trata as pessoas com educação, o mesmo acontecendo com o monitor Gonçalo. Sem motivo, tratam as pessoas que querem frequentar a piscina com mau modo e desrespeito inadmissível. Acho que não é para afastar possíveis utentes, designadamente deficientes, que ali estão como funcionários.»

Teresa Bernardino

 

BAR HAWAII, EM LISBOA, EXPULSA DEFICIENTES

 

Um grupo de pessoas com deficiência da Póvoa de Santa Iria foi obrigado a sair do bar Hawaii, na doca de Santo Amaro, em Lisboa, por alegada discriminação. O incidente ocorreu na madrugada do dia 12 de Julho de 2007. Os responsáveis do bar alegaram problemas técnicos para fechar o estabelecimento, mas este viria a reabrir pouco depois de o grupo sair. O grupo de 23 pessoas com deficiência ligeira (física e mental), todas adultas, integrava a colónia de férias da Cooperativa de Solidariedade Social Cercipóvoa, da Póvoa de Santa Iria. Maria João Aires, uma das monitoras que esteve no local, conta como tudo se passou. O grupo chegou ao Hawaii por volta das 23h00 e durante cerca de uma hora divertiu-se, dançou e, segundo a monitora, “interagiu com os outros clientes”. Hora e meia depois um dos funcionários do estabelecimento informou Maria João Aires de que este iria fechar, devido a um problema técnico, convidando-os a pagar e a sair. A monitora confessa ter achado estranho, pois os outros clientes não estariam a ser avisados do mesmo problema. Decidiu permanecer. Minutos depois é dada indicação de que o bar iria mesmo encerrar. O grupo sai, juntamente com os outros clientes, só que estes permanecem junto à porta, de copo na mão.

 

A notícia publicada na Internet pelo blogue acessoscombarreiras, de que tirámos estas passagens, mostra a que ponto chegou a discriminação com os deficientes motores. A discriminação partiu da gerência ou dos clientes, ou de ambos? Será que essas pessoas se julgam imunes a sofrer também de deficiências?!

 

 

«Uma verdadeira mãe»*

 

«Perto dos rochedos áridos dos fiordes noruegueses, foi um navio assaltado por uma terrível tempestade. Durante muito tempo lutou com o temporal, mas, por fim, um ímpeto de vento mais forte que os outros lançou-o para um banco que se escondia sorrateiramente debaixo das vagas. Os habitantes da costa presenciaram claramente o terrível combate, mas, durante oito dias, não pode sequer pensar-se em repouso.

Passados, porém, oito dias, a tempestade acalmou-se, e os botes de salvamento dirigiram-se para a carcaça imóvel do navio naufragado. Mas, já não havia ninguém para salvar...Tinham morrido todos! Mas eis senão quando, descobrem sobre um rochedo escarpado uma mãe com um filho. A mãe estava morta, mas a criança ainda vivia. Estava deitado sobre o seio da mãe, chupando-lhe o sangue que corria duma ferida!

Após o naufrágio, uma vaga tinha-os atirado para cima do rochedo. Não se afogaram, mas um outro perigo os ameaçava: o da fome. Mesmo moribunda, a mãe pensava ainda no filho: o que seria dele quando ela morresse?

O amor materno é infinitamente engenhoso: com o auxílio de uma pedra pontiaguda, fez uma ferida profunda no peito, e, mesmo depois de morta, alimentou-o com o seu sangue, até que passou a tempestade e chegou o socorro.

Compara-se, muitas vezes, a vida ao mar tempestuoso. A tempestade enfurece-se. Escondem-se bancos de areia no nosso caminho, a fome ameaça-nos; eis, porém, que Jesus Cristo nos abre o seu coração e nos alimenta com o seu próprio sangue para nos fortalecer na luta. (...)»

 

*in Thiamér Toth,  Segredo de Heroísmos, 2ª edição (tradução da edição francesa), Coimbra Editora, 1956, pág. 209 (pequeno excerto).

(O autor era professor da Universidade de Budapeste, Hungria)

 

 

 

 

Uma carta (reclamação) assinada por deficiente motora:

Para conhecimento de quem possa defender os deficientes motores do pessoal de Piscina Municipal do Restelo em Lisboa:

 

Lisboa, 5 de Março de 2008

 

À atenção

Ex.mo Senhor Presidente da Câmara de Lisboa,

Senhor Vereador do Desporto

e Senhor(a) responsável pela Piscina Municipal do Restelo em Lisboa

 

«Devido ao encerramento para obras da Piscina Municipal do Casal Vistoso em Lisboa, fui pela 4ª vez à piscina municipal mais próxima de minha casa, a municipal do Restelo. A recepcionista Manuela Gonçalves mais uma vez me pediu o termo de responsabilidade (que entrou em vigor em 2007) e que já não costumo mostrar na piscina do Casal Vistoso em Lisboa, pois vou lá 3 vezes por semana com meu marido.

 Costumava frequentar a piscina do Areeiro, desde 1981, por indicação de médicos ortopedistas e fisiatras, devido ao agravamento de lesões da coluna cervical e lombar, e devido à necessidade de não perder mais a força muscular da perna e braço direitos, na sequência de poliomielite contraída aos 11 anos.

 Aprendi a nadar na piscina do Sport Algés e Dafundo, pois residia, então, em Algés. Aprendi todos os estilos de natação. Nunca, nas piscinas municipais de Lisboa nem do Algarve ou do Minho, me exigiram exames de natação, pois os monitores e outro pessoal via que eu podia andar fora de pé por saber nadar, até de acordo com a diversidade dos estilos que praticava.

  Há dois anos sofri uma pequena fractura, o que levou os médicos a prevenir-me de que era indispensável fazer todos os movimentos de que fosse capaz de fazer numa piscina, para melhor recuperação da força muscular. Em 26 anos de frequência das piscinas municipais de Lisboa, nunca me obrigaram a fazer qualquer exame de aptidão para ser autorizada a nadar ou a fazer os exercícios que quisesse nas piscinas municipais.

 Hoje, como disse, já pela 4ª vez, (a piscina do Casal Vistoso ainda está fechada para obras), fui à piscina municipal do Restelo, esperando aliviar, como costuma acontecer, as dores musculares, sobretudo da coluna vertebral. O que aconteceu foi o seguinte: a recepcionista Manuela Gonçalves, entendeu que o termo de responsabilidade não chegava e eu tinha de ser sujeita a um exame de avaliação de estar ou não apta para nadar. Isto passou-se por volta das 13 horas, pois a meu marido não é possível ir comigo se não for no intervalo do almoço. Eu, apesar de achar algo de muito estranho e até quase inconcebível (os colegas dela que, nos dias anteriores, me tinham atendido nem em tal coisa falaram), acabei por aceitar, dado que se não aceitasse a recepcionista não me deixava entrar na piscina, e eu sabia a falta que me fariam esses exercícios para os meus problemas musculares.

 Entrei na piscina e um dos monitores disse para eu ir para a 3ª ou 4ª pistas porque havia lições nas outras. Assim fiz. Durante uns 15 minutos não apareceu ninguém a dizer-me quando devia começar o exame para ver se estava apta. Julguei que, afinal, os monitores que por ali se encontravam, se tinham apercebido de que eu sabia nadar (fiz costas e bruços ou só pernas) e por isso o exame ficara sem efeito. Depois deste quarto de hora em que ninguém me disse nada, fui nadando até meio da piscina, por vezes fiquei a uns dois metros do fim da piscina, dava a volta e regressava ao outro extremo da piscina.

 Eis quando o monitor Gonçalo veio junto do fim da pista onde eu nadava, dizendo que eu tinha de sair da piscina (na pista em que eu me encontrava, não havia mais ninguém) pois me classificara como inapta. Fiquei quase em estado de choque, porque eu nem sequer sabia que estivera a ser observada, à socapa, e a ser-me feito o tal exame de apta ou não apta. Como podia ser isso? Então o exame fora feito sem eu ter sido informada de que ia começar a ser examinada? O mesmo processo de examinação foi feito com meu marido que ficou apto, porque, como de costume, ele fizera as pistas do início ao fim. Mas, tal como eu, também ele de nada tomara conhecimento.

 Como eu costumo fazer exercícios durante 30 minutos, o monitor Gonçalo conseguiu interromper, sem qualquer necessidade (as duas pistas do centro estavam vazias, como das outras 3 vezes que lá fora, o único tratamento com o qual fico bastante melhor dos músculos.

 Parecia que estava a ser motivo de uma brincadeira, 1º pela recepcionista Manuela, agora pelo monitor Gonçalo. Há, como se vê, um desrespeito pela pessoa com deficiência, a quem trataram com atitudes que só revelam desrespeito pelo deficiente.

 A piscina municipal do Restelo dá prioridade a nadadores de competição em detrimentos daqueles que praticam a natação e outros movimentos aquáticos, como terapêutica. A recepcionista Manuela Gonçalves não trata as pessoas com educação, o mesmo acontecendo com o monitor Gonçalo. Sem motivo, tratam as pessoas que querem frequentar a piscina com mau modo e desrespeito inadmissível. Acho que não é para afastar possíveis utentes, designadamente deficientes, que ali estão como funcionários.»

 

 

 

 

«A ORAÇÃO COMO ESCOLA DA ESPERANÇA»*

 

«De forma muito bela Agostinho ilustrou a relação íntima entre oração e esperança, numa homilia sobre a Primeira Carta de João. Ele define a oração como um exercício do desejo. O ser humano foi criado para uma realidade grande, ou seja, para o próprio Deus, para ser preenchido por Ele. Mas, o seu coração é demasiado estreito para a grande realidade que lhe está destinada. Tem de ser dilatado. "Assim procede Deus: diferindo a sua promessa, faz aumentar o desejo; e com o desejo, dilata a alma, tornando-a mais apta a receber os seus dons". Aqui Agostinho pensa em S. Paulo que, de si mesmo, afirma viver inclinado para as coisas que hão-de vir (Fl. 3, 13). Depois usa uma imagem muito bela para descrever este processo de dilatação e preparação do coração humano. "Supõe que Deus queira encher-te de mel (símbolo da ternura de Deus e da sua bondade). Se tu, porém, estás cheio de vinagre, onde vais pôr o mel?" O vaso, ou seja o coração, deve primeiro ser dilatado e depois limpo: livre do vinagre e do seu sabor. Isto requer trabalho, faz sofrer, mas só assim se realiza o ajustamento àquilo para que somos destinados. Apesar de Agostinho falar directamente só da receptividade para Deus, resulta claro, no entanto, que o ser humano neste esforço, com que se livra do vinagre e do seu sabor amargo, não se torna livre só para Deus, mas abre-se também para os outros. De facto, só tornando-nos filhos de Deus é que podemos estar com o nosso Pai comum. Orar não significa sair da história e retirar-se para o canto privado da própria felicidade. O modo correcto de rezar é um processo de purificação interior que nos torna aptos para Deus e, precisamente desta forma, aptos também para os homens. Na oração, o ser humano deve aprender o que verdadeiramente pode pedir a Deus, o que é digno de Deus. Deve aprender que não pode rezar contra  o outro. Deve aprender que não pode pedir as coisas superficiais e cómodas que de momento deseja – a pequena esperança equivocada que o leva para longe de Deus. Deve purificar os seus desejos e as suas esperanças. Deve livrar-se das mentiras secretas com que se engana a si próprio. Deus perscruta-as e o contacto com Deus obriga o ser humano a reconhecê-las também.»

 

* Carta Encíclica de Bento XVI – Salvos na Esperança, Paulinas, 2ª edição, 2007, pp. 44-45 (pequeno excerto).

 

 

 

 

Stephen Hawking, o Big Bang e Deus*

(See english version)

por H. Schaefer

 

 

(...) Hawking é provavelmente o mais famoso cientista vivo. O seu livro, Uma Breve História do Tempo, existe em capa mole e eu recomendo-o vivamente. Vendeu mais de 10 milhões de exemplares, e penso que vendeu cerca de cinco milhões antes da edição em capa mole. Que um livro tenha vendido tantos exemplares, é quase inédito na história da literatura científica.

(...) Hawking deve a sua reputação ao facto de ter investigado, com grande pormenor, um conjunto específico de problemas: a singularidade e os horizontes em torno de buracos negros e no início do tempo. Agora, toda a gente está convencida que se se acercasse de um buraco negro, seria a última coisa na vida de que se acercaria - e é verdade! Um buraco negro é um sistema maciço tão condensado em torno do centro que a força da gravidade impede qualquer coisa, incluindo a luz, de escapar dele.

(...) A matemática da sua teoria, contudo, é por certo bela e elegante. A ciência mal está a começar a comprovar a existência de buracos negros, quanto mais comprovar a "radiação de Hawking" ou alguma das suas propostas teóricas mais radicais.

(...) O acontecimento mais importante da sua vida ocorreu no dia 31 de Dezembro de 1962. Conheceu a sua futura mulher, Jane Wilde, numa festa de Ano Novo. Um mês mais tarde, foi-lhe diagnosticada uma doença terrível, a esclerose lateral amiotrófica. Deram-lhe então dois anos de vida. Isto foi há 32 anos. Tive três amigos que morreram desta doença. É uma doença horrível. Duraram dois, três e cinco anos, respectivamente. De qualquer ponto de vista, Stephen Hawking é um milagre médico.

Neste ponto da sua vida, 1962, Stephen era segundo todos os relatos um aluno de doutoramento mediano na Universidade de Cambridge. Deixem-me citar a este respeito os seus biógrafos, White e Gribbon: Há poucas dúvidas de que o aparecimento em cena de Jane Wilde foi um ponto de viragem na vida de Stephen Hawking. Cada um foi percebendo cada vez melhor o outro e desenvolveu-se uma forte relação entre eles. Foi o ter conhecido Jane que lhe permitiu sair da sua depressão e recuperar alguma crença na sua vida e no seu trabalho. Para Hawking, o seu compromisso com Jane foi provavelmente a coisa mais importante que alguma vez lhe aconteceu. Mudou a sua vida, deu-lhe uma razão para viver e deu-lhe a determinação de querer viver. Sem a ajuda que Jane lhe deu, é quase certo que não teria ido em frente, nem teria vontade de o fazer.

Casaram em Julho de 1965. O próprio Hawking disse que "o que realmente fez a diferença foi ter-me comprometido com uma mulher chamada Jane Wilde. Isso deu-me uma razão para viver."

Jane Hawking é uma pessoa interessante por si própria. Penso que ela decidiu cedo enveredar por uma disciplina académica tão afastada quanto possível da do seu marido. Tem um doutoramento em Literatura Portuguesa Medieval!

Jane Hawking é cristã. Afirmou em 1986: "Sem a minha fé em Deus, não teria sido capaz de viver esta situação".

 

* Excertos de uma conferência proferida na Universidade do Colorado, em 1994, publicada na internet (http://www.leaderu.com/real/ri9404/bigbang.html). Henry Schaefer é Professor de Química e director do Centro para a Química Quântica Computacional, na Universidade da Georgia.

 

 

 

 

 

 

DEFICIÊNCIA É IGUAL A EXCLUSÃO?!

 

 

Este caso do José Leones Lima é um, entre muitos outros casos, de deficientes motores excluídos de uma profissão, por razões absolutamente impensáveis. Muitas dessas deficiências resultam de um acidente ou de uma doença que lhes retirou capacidades de defesa e de superação de obstáculos materiais que, uma sociedade cada vez mais egocêntrica e hedonista, cultora do corpo «perfeito» tudo supera porque não tem limitações físicas.

É demasiado lamentável que uma sociedade que se define como tendo um sistema político democrático, não tenha um serviço governamental suficientemente sério e eficaz para que todo e qualquer caso semelhante não seja de imediato resolvido, como o da pessoa com limitações físicas.

O caso de José Leones Lima deveria ser considerado um dos mais merecedores de atenção, pois foi um acidente de trabalho que lhe retirou as condições para exercer o ofício que desempenhava.

Ainda que agora não pudesse executar certos trabalhos dentro do domínio da sua Licenciatura, outros mais ou menos afins podiam substitui-lo e dar-lhe o direito a exercer uma função na sociedade que tem visto quanto o trabalho executado por deficientes é bem melhor executado do que o executado por aqueles que não sofreram qualquer limitação de ordem física ou mental.

O excelente trabalho das pessoas com deficiência mostra como são exigentes consigo próprias e ambicionam mostrar como as suas sequelas motoras em vez de os empobrecerem ainda os enriqueceram mais, pois têm uma experiência de vida que só o sofrimento físico oferece em abundância.

Dirigir um serviço na área da electrónica industrial (Licenciado) seria o que melhor o recompensaria do sofrimento que o acidente lhe causou.

Esta prova de esforço físico, ao fazer à volta de 700 quilómetros, desde Viana do Castelo a Faro, é sobretudo uma prova de esforço espiritual, porque só uma grande capacidade de sacrifício, de abnegação e de coragem moral, tornam possível a grande viagem, em cadeira de rodas e sob o calor intenso deste Verão que estamos a atravessar...

Que a sua decisão de resistência àquilo que o acidente lhe provocou, mostre bem claramente aos cidadãos saudáveis que se deslocam nos seus confortáveis automóveis, a prova de que José Leones Lima é capaz de tudo fazer para alcançar ser aceite como o profissional que nada impede de continuar a ser um bom profissional.

Resistir à sociedade e insistir, com a força da vitória, na luta que está a defrontar, seja o primeiro passo para inspirar confiança, e não desconfiança, a quem precisa de um profissional com o seu perfil, mas teme a visão da cadeira de rodas em que se move e que é apenas um instrumento para que a sua vida não se perca em actividades que não se inserem nas suas habilitações profissionais.

Uma especial saudação para a sua corajosa iniciativa! E nunca esqueça, que só o facto de a  ter tomado já foi uma vitória tão grande que nenhuma outra pode ultrapassar, verdadeiramente!

 

30 de Agosto de 2007

 

Teresa Ferrer Passos*

* Ortónimo de Teresa Bernardino

 

 

 

 

 

 

 

OBRIGADO MEU DEUS

 

Obrigado Senhor, por me teres salvo,
Concede-me a serenidade necessária
para aceitar as coisas que não posso modificar,
coragem para modificar aquelas que posso
e sabedoria para distinguir umas das outras.

Obrigado Senhor, por me teres dado,
a esposa e o filho que tenho,
os bons amigos e todos aqueles que me ajudam.
Obrigado Senhor, por me teres dado
uma segunda oportunidade, OBRIGADO.



J. Leones Lima*

 

 * Operário especializado vítima de acidente quando reparava um elevador no Ministério das Finanças de Angola, em 1997. Daqui resultou ter ficado paraplégico (paralisia dos membros inferiores).

 

 

 

 

TESTEMUNHO DE QUEM APRENDEU A VIVER, DE NOVO. ESTE TESTEMUNHO FORAM RECOLHIDOS DO SITE BRASILEIRO “ELO EFICIENTE”,EM QUE SE PODEM ENCONTRAR MUITOS OUTROS NOMES QUE NÃO SE DEIXARAM DOMINAR PELAS DOENÇAS QUE OS ATINGIRAM (http://www.geocities.com/eloeficiente/ )

 

*

CÉLIA REGINA DINIZ

 

 Secretária Executiva do CONDEFI - Conselho Municipal para Assuntos das Pessoas Deficientes de Santos - vítima de poliomelite aos dois anos de idade, tinha um sonho que julgava impossível: dançar.

Participando, em 1993, de um Congresso Internacional de Acessibilidade ao Meio Físico, no Rio de Janeiro, conheceu a dança sobre rodas e descobriu que seu sonho não era impossível.

Como dividia o mesmo espaço de trabalho com a Fisioterapeuta e Bailarina Gláucia Magalhães, juntas, resolveram iniciar essa experiência de uma dança sobre rodas.

A princípio, ocupavam o Ginásio de Fisioterapia, afastando as barras paralelas, nos poucos horários disponíveis, na hora de almoço. E iniciaram o trabalho, frente ao espelho, de mãos dadas, música escolhida. Então surgiu a pergunta: "O que faremos?". De repente, quase que involuntariamente, os movimentos foram fluindo ao som de "All I ask of you" de Cliff Richard e Sarah Brightman. Várias tentativas foram realizadas na procura das mais diferentes possibilidades de equilíbrio, harmonia e suavidade...

Assim nasceu uma coreografia feita de sonhos e de ideais mais do que de técnicas específicas de dança. Deram a esse trabalho original o nome de "O Início", duo de dança livre, com a duração de pouco mais de quatro minutos. A sua primeira apresentação ao público foi em Agosto de 1996, dois meses depois de iniciada a experiência, e aconteceu em Peruíbe, na Primeira Semana de Prevenção às Deficiências. Foi efectivamente um marco para as duas bailarinas que, depois disso, começaram a receber convites de vários pontos do Estado.

Realizaram até agora mais de quarenta apresentações, tendo recebido vários Troféus e Prémios. (…). Elas que conseguiram competir, em pé de igualdade, com outros profissionais da dança, esperam de coração que, somando forças, quer em actividades individuais, quer em actividades de grupo, resgatem os deficientes seus sonhos e sentimentos e, sem preconceitos e sem auto-piedade, façam os outros, aparentemente perfeitos, pensar: "Será que é tão difícil a Arte de Viver?".

 

*

LINA MARIA VIEIRA BASTOS

 

      Em uma manhã de Outubro, nasceu uma criança; era uma menina. Tão pequena e chorava quando lhe trocavam as fraldas. Uma perna sua ficava quieta, não se mexia como a outra.

     Médicos foram chamados, radiografias realizadas e enviadas para os USA. Diagnóstico: Osteogênese Imperfeita - fragilidade óssea. A menina iria fracturar os ossos com muita facilidade , como se fosse uma boneca de vidro. Era a 4a. de um casal e as primeiras, não eram bonecas de vidro. Com os cuidados de sua mãe, ajudada por uma outra, que ela chamaria de segunda mãe, crescia gorducha, com belos vestidos e laços na cabeça; seus olhos grandes e brilhantes, seu cabelo liso e castanho - tudo documentado em fotos, tiradas e reveladas por seu pai, como as outras; as fotos estão ordenadas em um álbum.

     Aprendeu a ler com 4 anos com suas irmãs e primas, que brincavam de Escola. Fez da 1a. a 5a. série com professora particular, em casa - era perigoso outras crianças bricarem com ela e a machucarem. Estava sempre com as pernas no gesso. Ela lembra que foram 14 vezes que fracturou em 10 anos...é uma lembrança.

Além de ler muito, jogava "palitos", dama, etc, e brincava muito com bonecas; tinha seus filhos - Catarina, Claudia, Eduardo e Karina, nessa ordem. Aprendeu crochet, tricot (apostava com sua bisavó, quem fazia mais sapatinhos em um dia), vagonite, tapete, ponto de cruz, enfim, tudo que a deixasse ocupada e parada. Brincava com alguns primos mais quietos e com sua 5a. irmã, que também é uma boneca de vidro, mas muito mais inquieta. Pedalava um carro vermelho, com freio, buzina , luz - ao entardecer, o carro estava na calçada, as luzes tinham que ser acesas. Nas férias, praia, sol, mar - difícil era tirá-la do mar - que liberdade!

Chegou a época do Ginásio (1a. a 4a. série) e cientifico (1a. e 2a. série) - andava se apoiando em uma cadeira com rodízios. Chegou o «terceirãoz» - fez dirigido para Medicina - passou!! E estava andando sem apoio. Seis anos de curso - seria outro depoimento.

Colou grau e com 15 dias, estava no RJ, morando no IFF - Residência em Pediatria. Mas insistia em fazer Genética. No ano seguinte, partia para RP-SP - Residência (3 anos), Mestrado, Médica Assistente do S. de Genética do HCFMRP-USP e Pediatra do INAMPS. E maravilha!....morou em seu apartamento, seu canto tão sonhado.

Foram tantas pessoas especiais que conheceu, tantos momentos bonitos e difíceis - que vida o Universo permitiu que ela vivesse!!! Até ser mãe, e agora de verdade, de 2 filhos que não chegaram a nascer.

A menina, agora já mulher, continuava buscando realizar seu sonho - sendo Geneticista, ajudaria crianças e adultos com malformações a terem uma qualidade de vida mais digna. Continua perseguindo seu sonho; sempre a muito a fazer, embora as pedras na estrada a façam com frequência parar e buscar uma energia em si e no Universo que lhe deu a «chance» de VIVER.

Essa mulher, de 46 anos, é chamada de Lina Maria V Bastos, tem 1,10m de estatura e 30kgs de peso, adora a liberdade ( dirige um carro adaptado e anda com ajuda de duas muletas ).

 

 

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